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História

“Isso aqui é caulim!”

História de: Guilherme Almeida Gazolla
Autor:
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Guilherme conta da infância em Três Corações, Minas Gerais, o relacionamento com os pais e os irmãos. Fala sobre a mudança para Ouro Preto para estudar Engenharia de Minas. A escolha de ir trabalhar na Companhia Vale do Rio do Doce após se formar e seu desenvolvimento na empresa de estagiário até se tornar Presidente das subsidiárias Docegeo e Valesul. O relacionamento profissional que tinha com colegas de trabalho e a participação ativa de todos na Vale, acreditando nos ideais da empresa. Conta também sobre alguns percalços no caminho, o trabalho que realizou nas minas e o envolvimento no Projeto Carajás até sua inauguração. A descoberta que realizou, sem querer, de caulim em Porto Seguro durante uma viagem de lazer. A vida em Itabira e toda a comunidade que a Vale criou com a construção de casas para os funcionários. 

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História completa

P/1 - José Carlos Viladarga

P/2 - Maria D’Andrea

R - Guilherme Almeida Gazolla

 

P/2 – Bom, pra começar nossa entrevista, por favor, diga seu nome completo, lugar e data de nascimento.

R – Guilherme Almeida Gazolla. Nasci em Três Corações, Minas Gerais, no dia 27 de março de 1945.

P/2 – E seus Avós? O nome deles, por favor.

R – Inácio de Melo Almeida e Ana de Melo Almeida pelo lado materno, e Ângelo Gazolla e Carlota Gazolla pelo lado paterno.

P/2 – E qual era a atividade deles?

R – Os dois eram fazendeiros.

P/2 – Os dois lados? Paterno e materno?

R – Os dois lados. É.

P/2 – Agora o nome dos seus pais, por favor, e a atividade deles?

R – Meu pai é Astolfo Gazolla, advogado e minha mãe Irene Almeida Gazolla, do lar.

P/2 – O senhor passou a sua infância em que cidade? 

R – Passei a infância até os 16 anos em Três Corações, Minas Gerais.

P/2 – O senhor lembra como é que era a vida lá? Sua infância, suas brincadeiras, seus amigos?

R – Era uma vida típica de cidade do interior de Minas. Cidade pequena, né? Muito bom, eu gostava. Tive uma infância feliz, posso dizer. A gente morava numa casa com quintal muito grande, cheio de árvores frutíferas. Até hoje, ainda tem lá sete pés de jabuticaba. Todo novembro, dezembro, eu vou lá ainda chupar umas jabuticabas, né? Foi uma infância boa, tranquila. Estudei nas escolas públicas. Naquele tempo, se estudava nas escolas públicas, que havia lá, né? Papai e mamãe eram um casal muito ajustado e criavam os filhos, assim, com muita atenção pros filhos, né? Não tinha aquela coisa, assim, do pai estar lá no alto e o filho não poder nem abrir a boca perto. A gente conversava muito. Qualquer visita que chegasse em casa, os filhos tinham que participar da conversa. Foi uma infância boa, tranquila, sem trauma nenhum.

P/2 – Que bom isso.

P/1 – E a origem da família do senhor. Conhece um pouco a origem, de onde vieram os descendentes?

R – O pessoal do lado da minha mãe é de descendência portuguesa, né, nunca conseguimos traçar assim uma história maior não. E do lado do papai, tanto meu avô quanto minha avó vieram da Itália [quando] meninos. Foram trabalhar nas lavouras de café, ali no sul de Minas, na cidade de Varginha, que é uma cidade limítrofe, ali, da nossa, né? E ali se conheceram, casaram. Papai nasceu em Varginha ainda. E depois, como o imigrante já tem um pouco mais de formação, né, ascende com maior facilidade. Aí compraram fazendas e tal, e viraram fazendeiros.

P/1 – Seus pais herdaram...

R – Já o meu pai, os filhos, os irmãos mais velhos do papai, todos ficaram mexendo com fazenda também, né? Porque tinham que, inclusive, ajudar a família no início. Só os três menores foram estudar, né? Então um [se formou] médico, outro dentista e outro advogado. Os irmãos mais velhos tinham que trabalhar pra poder sustentar eles nos estudos. Então é a ascensão da família europeia que emigra pro Brasil, né?

P/2 – Eles vieram na imigração ou por conta própria?

R – Imigração.

P/2 – Imigração.

R – É. O passaporte lá, falava: “Navio Fulano de Tal, terceira classe. Gratuita.” (risos) Vieram no porão.

P/1 – Você ouviu histórias dessa vinda deles?

R – Contavam essas coisas assim: que eram muito pobres na Itália, que na época lá, 1890, 1880, a situação estava muito difícil na Europa, e aí resolveram emigrar pro Brasil. Vieram pra serem trabalhadores braçais mesmo. Trabalhador rural, de enxada, né?

P/2 – Lá eles também tinham, trabalhavam na lavoura? Na Itália.

R – Na Itália, eles trabalhavam em lavoura, mas naquelas micro propriedades, coisa assim, né? Diziam que a vida estava muito difícil, então havia uma crise e aí gostaram tanto do Brasil, que nunca mais voltaram à Itália. Nem ensinaram italiano pros filhos. O que eu acho que foi uma perda, né? O meu pai, por exemplo, já não falava italiano.

P/1 - Não falava.

R – É. Porque os pais conversavam em italiano entre si, mas quando conversavam com as crianças, conversavam em português, né? Falavam: “Não, aqui que é nossa terra. Aqui que nós nos demos bem, vamos ser brasileiros.” (risos)

P/2 – É. O senhor estava falando que ainda existe esta casa, então, em Três Corações?

R – Existe. A casa onde eu nasci ainda existe. Meu pai já faleceu, né, mas a minha mãe continuou morando lá. A gente, de vez em quando, consegue trazer ela pra passar um mês com a gente, assim, mas ela gosta mesmo é de ficar na casa dela lá.

P - E, no tempo de escola, o senhor se lembra [de] como é que era? Como é que funcionava ali, os seus amigos, as lições, as brincadeiras? O senhor já falou da brincadeira no quintal, né?

R – É. Tinha muito disso no quintal, e na rua também até, né? Porque passava um carro uma vez ou outra. Então se brincava na rua também. Apesar de a gente morar na rua principal da cidade, bem no centro mesmo, mas mesmo assim, dava pra brincar na rua.

P/1 – Você jogou bola com o Pelé, né, não?

R – O Pelé nasceu lá realmente, mas saiu de lá muito pequeno. Ele saiu com dois anos de idade ou coisa assim. O pai dele... Por exemplo, um dos irmãos da minha mãe, que era médico e cuidava da família dele, fez o parto dele. (risos)

P/1 – Olha.

P/2 – Ah, legal.

R – É, ele se orgulhava disso. (risos) O pai do Pelé era jogador de futebol lá, né, em Três Corações. Jogava no Atlético de Três Corações. Depois foi pra São Paulo jogar e aí o Pelé foi junto, era menininho de dois anos. Então não cheguei a jogar com ele não. Também se jogasse, ele ia me driblar à vontade, porque eu sou péssimo nisso. (risos) Mas a vida de estudo lá, uma coisa que papai e mamãe exigiram muito dos filhos, era estudo, né? Isso era muito enfatizado e muito valorizado lá em casa. Tanto que dos cinco filhos, todos fizeram o curso superior, todos se deram bem, porque era, realmente, a única coisa que a gente se sentia pressionado mesmo era pra estudar. Mesmo assim, não precisava haver castigo e coisa desse tipo porque a gente já era estudioso por natureza, né?

P/2 – Que sorte.

R – É.

P/2 – Eles não pressionaram nem pra escolha da profissão?

R – Não. Deixavam completamente à vontade. Cada filho estudou uma coisa diferente. A profissão do meu pai era advogado, né, e ninguém, nenhum dos filhos, estudou direito. Isso teria sido uma coisa natural, até pra continuar no escritório dele ou coisa assim. Mas nem isso ele... Não, cada um escolhia o que queria.

P/2 – E algum foi pra sua área?

R – Eu tenho outro irmão que trabalha na Vale também, e ele é engenheiro assim como eu.

P/1 – Seu pai tinha o escritório de advocacia em Três Corações?

R – Tinha.

P/1 – E que tipo de causa, que área que ele trabalhava?

R – No interior, o sujeito é o advogado generalista, né? Cuida de tudo. Do civil ao criminal, do empresarial ao trabalhista. Fazia de tudo.

P/1 – Briga de marido e mulher.

R – (risos) É. E ele era assim, um advogado dos mais antigos da cidade, muito respeitado. Então até pra isso, briga de marido e mulher, separação e tal, ele era muito chamado e, geralmente, ele resolvia a coisa extrajudicialmente [fora do tribunal]. (risos) Antes de levar pra justiça mesmo, ele acertava algum acordo, alguma forma assim. Usava a força moral pra resolver. Engraçado.

P/2 – Ele ainda vive?

R – Não, papai faleceu uns cinco anos atrás. Viveu até os 83 anos. Então conheceu todos os netos.

P/2 – São quantos netos?

R – Netos... Quatro, três, sete. Nove. Nove netinhos.

P/2 – Na sua casa, quem mandava mais: a mãe ou o pai?

R – Em geral, o pai está trabalhando, então a mãe é que está no contato mais próximo com as crianças, né? Então a mamãe mandava na gente lá, mas o papai tinha uma maneira muito própria de mandar. Ele só fazia assim um: “Hrum, hrum.” [pigarro] Só fazia um pigarro desses, assim. Quem estivesse falando parava e ia procurar saber por que é que ele não estava gostando. (risos) Não precisava nem falar. Ele mandava só, assim, com a presença, né? A gente tinha um respeito muito grande.

P/1 – Cinco irmãos?

R – Cinco.

P/1 – E como é que era essa convivência aí dos cinco irmãos, naquela época?

R – Muito bom, viu?! Tanto que somos muito amigos até hoje. Nunca houve nenhuma desavença entre nós. Era um ambiente realmente tranquilo lá em casa. Não tinha...

P/2 – Cinco meninos?

R - ...Disputas não. Três homens e duas meninas.

P/2 – E duas meninas.

R – É. Era um ambiente muito bom, não tinha briga. Eu lembro de uma vez, que briguei com esse, foi a única vez que eu apanhei do meu pai na minha vida, (risos) porque eu briguei com meu irmão. Aí ele pegou os dois e, deu uma palmada na gente. (risos) O resto das molecagens todas, não chegava a apanhar não. (risos) Eles achavam tudo mais ou menos normal, né, ganhava um “castiguinho”, uma coisa assim, mas... (risos)

P/2 – É.

R – É.

P/2 – Agora, em que momento o senhor resolve sair pra estudar fora? Como é que foi essa passagem?

R – É, lá na cidade não havia curso superior, e eu quando me decidi por estudar engenharia, já tinha alguns primos que já tinham ido estudar engenharia em Ouro Preto e era, na época da escola, a mais famosa da região. Aí, eu com 16 anos, saí de casa e fui para Ouro Preto. Fiz lá o, terceiro científico que chamava, porque tinha que fazer uma adaptação pra fazer um cursinho, né? Fazer o terceiro científico e, simultaneamente, fazer um cursinho, que era um reforço nas cadeiras mais necessárias pra engenharia, né, pra fazer um vestibular. Aí fui pra Ouro Preto, fui morar em república.

P/2 – Ah, conta isso. Deve  ter sido divertido.

R – É, isso foi bom. Morei seis anos numa república chamada Pif-Paf. (risos) Tem até hoje lá. Eles fazem as festas. Lá em Ouro Preto tem uma festa tradicional, que é o 12 de outubro, aniversário da escola, né? E fazem até hoje as festas, chamam a gente, mandam conta pra gente ir e tal. A gente vai e se hospeda na república, né?

P/2 – Ai, que legal.

R – É. Tinha lá, no tempo que eu morei, moravam 17 rapazes. Era uma, foi uma época interessante da vida, de se fazer boas amizades também, né? Uma turma boa. Naquele tempo, a coisa era tudo muito mais tranquila, né? Não tinham essas questões todas que atrapalham o jovem aí, no nosso tempo não tinha. A gente estudava, jogava bola, ia pro cinema, namorava. Bebia umas pinga, de vez em quando, que nem pra cerveja o dinheiro não dava, né? (risos) Até tinha um bar lá em Ouro Preto com o nome mais fantástico que eu já vi para um boteco, precisa até dar uma ideia pra alguém fazer um boteco aqui no Rio com esse nome. Chamava: “Chove lá fora.” Então, do lado de fora, tinha uma placa escrita: “Chove lá fora.” E do lado de dentro tava escrito: “E Pinga aqui dentro.” (risos)

P/2 – (risos) Boa.

P/1 – (risos) Já tinha um ar boêmio assim em Ouro preto? Como é que era isso, ou não?

R – Tinha. Isso tinha, mas era assim, a boêmia era só pro lado de bebida, então não tinha nada, além disso.

P/2 – Serenata?

R – Sim, serenata. Isso tinha.

P/2 – Conta da serenata.

R – É, essa era uma outra coisa divertida. Tinha muita gente que tocava violão lá. E era um dos, aliás, a única frustração que eu tenho na vida é que eu não sei tocar nenhum instrumento musical e também não sei cantar, né? Então, eu ia junto às serenatas só pra assistir, porque, se eu fosse cantar, atrapalhava o negócio. (risos)

P/2 – A quem eram feitas as serenatas?

R – Às moças da terra, né? E, também, estavam nessas épocas de festas. Então tinha um movimento grande de moças de outras cidades, de outras escolas, coisa assim. Iam visitar Ouro Preto e se hospedavam também nas repúblicas, né? E aí, sempre que tinham moças de fora, essas aí, principalmente, é que ganhavam mais serenatas, né? Era o motivo de briga com as moças da terra. Quando as de fora iam embora, a gente, então, tinha que namorar as da terra mesmo. (risos)

P/1 – Aí vinha a vingança.

P/2 – Se vingavam.

R – Reclamavam: “Ah! Na época tal, ninguém aparece aqui. Ninguém faz serenata, ninguém...” (risos)

P/2 – E como eram feitas essas serenatas?

R – Sempre com violão.

P/2 – Violão?

R – É.

P/2 – Com uma ou mais vozes?

R – É, cantavam. Lá em Ouro Preto tinha, inclusive, um coral bem arrumado. E o regente do coral, atualmente, mora aqui no Rio e continua fazendo música. Ele já “musicou” umas... Esses dias ele me contou, [que são] mais de 100 peças de teatro que ele “musicou”. Ele se chama Ubirajara Cabral. Então lá tinha uma tradição de canto, de coral, de coisa assim. Tinha disco gravado, tinha... Era interessante. Eu cheguei a fazer um teste lá, para ver se eu me classificava em alguma daquelas vozes, mas não deu nada não. (risos) Não dou uma nota depois da outra. (risos)

P/2 – Mas e nas repúblicas, frequentavam estudantes variados de vários anos da escola?

R – Não entendi?

P/2 – Havia divisão, por exemplo, nas repúblicas para primeiro “anistas”, essa divisão?

R – Não. Era sempre na mesma casa pra onde a pessoa entrou. Ela ficava lá em geral o período todo, né? Mudava se não se entendesse bem com a turma que morava lá, mas era raro.

P/2 – Mais ou menos, [qual era a] quantidade de repúblicas [que] havia?

R – Ah! Tinham muitas. Tinham mais de umas 50, talvez.

P/2 – Todos alunos desse...

R – É que quase a maioria, 95% do pessoal que estudava, era gente de outras cidades, né? Porque Ouro Preto é uma cidade pequena, né?

P/2 – Mas eram ali tudo do entorno ali da, vinham de estados distantes?

R – Tinha. Tinha muita gente, até do Ceará. Tinha bastante cearense, da Amazônia, do Pará. Gente do Brasil inteiro. Era uma escola que, realmente, chamava muita gente, porque nessa área de mineral, né, de mineração, metalurgia, geologia, era a melhor escola do país. Então ela atraía muita gente. Tinha gente de todo quanto é lugar, [até] daqui do Rio. O César Maia, esse prefeito aí, ele estudou lá também.

P/2 – Mas ele fez o que lá?

R – Ele começou a fazer engenharia, fez dois anos, depois houve a Revolução [Golpe de 1964], né? Nessa época, ele saiu, foi pro Chile. Depois ele estudou economia, né? Mas ele estudou lá, quer dizer, então até cariocas saíam daqui do Rio pra ir estudar lá.

P/2 – Antes de Engenharia de Minas, né, tinha o quê? Geologia também?

R – Engenharia de Minas, Geologia, Engenharia Civil e Metalurgia.

P/1 – As suas escolhas, por que o senhor quis fazer Engenharia de Minas? Por que, assim?

R – Engenharia porque eu tinha jeito pra matemática, né, eu tinha um raciocínio lógico. Então me dirigia pra esse tipo de profissão. Ouro Preto eu realmente escolhi, porque três dos meus primos já tinham estudado lá, né? Então eu ouvia muito falar de Ouro Preto, como é que era a vida lá e tal. Era também uma cidade pequena, então já facilitava pra quem saísse de uma cidade pequena ir pra outra pequena também. E ele contou da vida divertida que havia lá também, né? “Ué, uai, vou pra lá, né?” (risos) Aí estudar, escolhi Engenharia de Minas. Eu só escolhi a partir do terceiro ano da escola. Aí das quatro opções que havia lá, eu achei a que me interessava mais, né, pelas matérias que se estudava. Assim, eu estudei Engenharia de Minas.

P/2 – E o senhor tinha ideia de [que] uma vez formado, como se encaminharia o trabalho?

R – Não. Naquela época, não havia dificuldades, então, até pelo contrário, você podia sair escolhendo o emprego que quisesse, porque tinha uma demanda mais forte do que a oferta de alunos, né? E eu também me dei muito bem na escola. Então, quando eu me formei, tive cinco ofertas de emprego. Eu escolhi entre cinco, né? E todos empregos bons. Eu acabei escolhendo a Vale mesmo, porque já ficava ali por perto mesmo, em Minas Gerais. Eu já tinha uma namorada em Belo Horizonte, então já simplificava, né?

P/2 – Então a escolha foi feita em cima de localização?

R – É. Era uma boa Companhia, era a maior mineração do Brasil.

P/2 – O senhor já tinha referências?

R – Tinha. Enquanto a gente [era] estudante, fazia estágios, né, visitava as empresas e conhecia de... Se estudava também as histórias das empresas do ramo no Brasil, né? Então, os dois empregos nos quais, realmente, eu fiquei na dúvida sobre qual eu escolheria foi Petrobrás e Vale do Rio Doce, né? Eram duas empresas realmente grandes e boas, mas acabei escolhendo a Vale porque, eu raciocinei certo, né? Falei: “Petrobrás, só tem a Petrobrás no ramo dela, né?” Então. Só agora é que está começando a abrir, né? “E aí se eu não gostar do negócio lá, eu vou ter uma experiência que não vai ter utilização.” E eu já na Vale: “É uma empresa de mineração que tem várias outras no país. Então vou pegar essa daqui, né?” Escolhi, assim, na lógica também.

P/1 – O senhor, na faculdade, chegou a conhecer instalações da Vale?

R – Conhecíamos. A gente fazia visitas, estágios.

P/1 – E qual foi a impressão que o senhor teve?

R – A Vale dava uma impressão muito boa, era uma empresa grande, bem organizada. Um pessoal de muito bom nível, né? Então, era um lugar que atraía. Ainda mais quem fosse do ramo em si, que era mineração, especificamente.

P/2 – E teve que disputar vaga ou empregou todo mundo que quis ir? A Vale empregou os estudantes todos? 

R – Se fazia um concurso, tanto pra Vale quanto pra Petrobrás, né, mas, quer dizer, não eram todos que quisessem ir pra Vale que poderiam ir. Tinha que passar no concurso.

P/2 – Sim.

R – Mas eu passei em todos os concursos que eu fiz, então...

P/2 – E era muito difícil esse concurso?

R – Não achei. (risos)

P/2 – Não, claro. Mas...

R – Alguns acharam, mas eu não achei. (risos)

P/2 – Eu sei, mas vamos dizer, era tido como um exame difícil? Um exame, uma barreira realmente ou não?

R – Eles faziam, assim, um teste de conhecimento, um teste psicológico e uma conversa com os professores da escola pra conhecer um pouco do tipo de cada aluno, ou coisa assim, né? Com base nisso que eles selecionavam.

P/2 – A partir da referência dos professores?

R – Referência de professores, teste psicológico e “provinha” de conhecimento mesmo. Não eram provas muito difíceis, não.

P/2 – Foram muitos que saíram para a Vale, de seus colegas?

R – Não, só eu e mais um.

P/1 – Ele continuou? Continuou a profissão na Vale?

R – Não, esse outro rapaz saiu logo. Ele era Geólogo, saiu logo e não permaneceu lá, não.

P/1 – O senhor foi pra trabalhar onde, quando entrou na Vale?

R – Eu fui trabalhar em Itabira.

P/1 – Em Itabira?

R – É. Itabira é uma cidade ali, você já foi lá? 100 quilômetros de Belo Horizonte, né? E era a cidade que tinha a maior mina do Brasil, que era a mina do Cauê, né? Isso até me lembro, que um pouco de tempo depois, eu já estava lá, né, passei a trabalhar no planejamento. E nos planos que eu fazia... Então, você vai fazendo plano, vou levar a mina até seu estágio final, né? Isso dava [até] 2002. Eu, pra mim, 2002 era uma coisa lá no, longe, né? Não fazia nem ideia de que eu trabalharia tanto tempo assim na Vale, né? Então, agora está realmente quase terminando essa mina. Eu preciso até visitar antes que ela feche. (risos)

P/1 – Eu acho que é isso mesmo, vai acabar em 2002?

R – Vai acabar. Eu estava certo no meu plano. (risos)

P/2 – Quer dizer, esses cálculos davam “certinho”?

R – É, ele é feito de uma maneira, né, que você vai fazendo a produção ano a ano e tal, e consegue-se fazer bem o planejamento.

P/1 – Que ano que era? Você entrou [em] que ano exatamente?

R – Eu entrei na Vale em 1968.

P/1 – E aí, já existia essa percepção, essa preocupação com a mina do Cauê?

R – Lá tem a mina do Cauê e várias outras na própria cidade, né? Então você tinha que fazer as simulações de produção, pra ir vendo que outras minas você ia ter que ir abrindo, os investimentos e coisa, pra fazer um cálculo do negócio realmente.

P/2 – Eles exploravam a mina do Cauê, depois outra e outras?

R – Isso é. Até, simultaneamente, já começaram outras também, né? Enquanto começava a aumentar a produção, você fazia qual era a maneira mais econômica de se produzir minério.

P/2 – Uma vez que essa termine, ainda tem uma projeção pra mais quantos anos de...?

R – Agora, faz tempo que eu não vejo essa projeção lá, mas até pretendo ir lá mesmo dentro de pouco tempo e ver como é que ficou o buraco lá, né?

P/1 – O famoso buraco.

R – É. E aí, vou saber como é que as outras minas da região vão, quanto tempo vão durar, né?

P/2 – Como é que fica o buraco, quando termina a exploração?

R – Antigamente, se largava o buraco lá, né? (risos) Agora, com as pressões de meio ambiente, de coisa assim, né, se faz uma melhoria no lugar, você vai se plantando árvores, fazem-se largos, coisas assim, né? Mas, realmente, uma mina terminada, não tem muito como arrumar aquilo de novo. Você não vai pegar terras que você retirou e colocar dentro de novo. Não faz sentido, seria um custo absurdo, né? É como uma pedreira dessas que tem aí dentro da cidade, que fica aquela coisa, aquele anfiteatro lá, assim. Isso vai ficar. Se procura embelezar um pouco, evitar que o vento levante muita poeira e, coisa assim, com plantação. 

P/2 – Isso tudo não tem um custo muito elevado?

R – Sim, mas é uma necessidade de equilibrar todas as coisas aí, né?

P/1 – Quando o senhor entrou na mina de Cauê, quer dizer, qual que era o estágio tecnológico ali? Já estava toda mecanizada? 

R – Já estava mecanizado, sim. O que não havia era o computador. Os computadores que a gente tinha lá ainda eram muito rudimentares. Então esse planejamento de lavra, que já era feito em computador... A gente, pra fazer uma simulação completa, ainda levava, às vezes, três dias  trabalhando, né? E, hoje, isso aí, existem softwares e computadores pequenos de mesa que você faz isso em uma hora, né? Então, nessa parte, de equipamento de informática é que [a] evolução foi muito grande. Agora, os equipamentos de mineração em si, eles foram crescendo de tamanho, mas não houve nenhum “breakthrough” [avanço] aí, de alguma coisa completamente nova, não, né? Os caminhões que eram mecânicos, eles passaram a ser diesel-elétricos, coisa desse tipo, e cresceram de tamanho. As máquinas também já eram elétricas, as escavadeiras também cresceram, mas nada de muito diferente, não.

P/1 – Alguma evolução que tenha alterado, essencialmente, o trabalho?

R – Não, essencialmente não. Só diminuía o custo de produção, porque você fazia com máquinas maiores e mais produtivas, né?

P/1 – Explica um pouquinho pra mim, Guilherme, como era esse planejamento de lavra? Com o que isso era feito? 

R – Você tem uma mina, né, então você tem os furos de sonda. De tantos em tantos metros você faz um furo de sonda, tira aquele que a gente chama de testemunho, né? Tira aquele “toletezinho” de rocha, né, e vai analisando. Então, você tem, considera um espaço, conhece as análises em várias posições. Aí, tem métodos estatísticos pra estimar a qualidade trecho a trecho. Você vai estimar essa junto com essa com mais aquela, né? Você estima trecho a trecho. Com isso, você monta um modelo da mina. Faz tudo em computador. Nós começamos lá fazendo de madeira serrada em cubinhos, cada cubinho identificado, e a gente, então, dizia que aquele cubinho tinha uma anotação a parte, tinha tantas toneladas de matita, tantas de tabirito, tantas de rejeito, e o teor de cada coisa dessas são “esse, esse e aquele”. Você pode fazer isso na mão, né, aí levaria um mês fazendo esse negócio, ou você colocaria tudo numa memória de computador, e ia, então, simulando a retirada e fazendo o cálculo, o computador fazia o cálculo. O que evoluiu é que você não precisa mais dos bloquinhos de madeira, né? Fica tudo no computador e você simula, diretamente, lá. 

P/1 – E daí...

R – E aí, você vai, faz as qualidades diferentes, estima a quantidade de rejeitos que tem que retirar, calcula a distância de transporte que vai ter que tirar o rejeito. Você otimiza as relações pra tirar mais minério no início e deixando o rejeito mais pro fim pra você fazer mais dinheiro no início. Então são simulações não só da lavra, da qualidade, mas da economia do negócio também.

P/1 – Já se pensa junto, inclusive, o processo de extração, comercial, do processo todo?

R – É. Fazer os diversos tipos de qualidades de minérios diferentes que você precisa, né? Tudo tem que ser planejado. Você olha de fora, parece que tem uma pedreira, mas tem uma alta tecnologia por trás. (risos)

P/1 - No meio dali. (risos)

R – É.

P/1 – E a relação com os geólogos? Como é que era, foi sempre tranquilo?

R – Sim, os geólogos faziam uma parte do trabalho, né, que era fazer essas amostragens e estimar a qualidade do minério. Então eles já entregavam um produto pra gente, né, que era a mina pesquisada. E o Engenheiro de Minas ia, então, ver como que ia se lavrar aquilo da maneira mais econômica. São dois trabalhos que se entrelaçam, né?

P/1 – Nunca entraram em confusão, conflito?

R – Não. Tinha sempre aquela gozação, né? Um com outro, sempre tem. Qualquer profissão que tem um que depende do outro, que precisa dos dados sempre, tem muita rivalidade, brincadeira e coisa. Mas era tudo no bom sentido, né? (risos)

P/2 – Às vezes não havia acordo, é isso?

R – Não, o negócio é que o geólogo por formação, ele é mais um cientista, né? Então, o Engenheiro já tem que ter o senso prático, pra transformar o que ali se fazia de uma maneira científica. Ele [engenheiro] tem que transformar aquilo em lucro. Então tinha um pouco de coisa. O geólogo era sempre um pouco mais poeta, né? 

P/2 – Sonhador.

R – Mais sonhador, e a gente era mais pragmático, né, então dava um pouco de brincadeira aí. Depois, mais na frente na minha vida, eu fui ser Presidente da Docegeo, que era a empresa de Geologia. Então, eu brincava com eles lá: “De vez em quando, tem que por um engenheiro aqui de Presidente pra ele dar uma chacoalhada nisso aí e fazer a turma produzir direito, parar de sonhar um pouco e fazer  coisas pé no chão.” (risos) Mas tudo brincadeira. E o pessoal, sempre, na Vale, trabalhou muito bem, muito bem intencionado; não havia essas coisas de disputas de grupos e panelinhas, não tinha esse tipo de coisa lá. Como não tem, né? Então era um ambiente de trabalho muito saudável, todo mundo remava na mesma direção.

P/2 – E a proporção de funcionários, geólogos e engenheiros, como é que era? Quer dizer, quantos geólogos pra quantos engenheiros?

R – Em geral, mais engenheiros do que geólogos, né, porque além do engenheiro de minas, você precisa também de outros ramos da engenharia: os engenheiros mecânicos, os civis, os eletricistas, né, pra fazer a manutenção do equipamento. Os engenheiros, que aí poderiam ser de minas ou metalúrgicos, pra fazer o beneficiamento do minério. Então, os engenheiros predominam nas operações. Não na Docegeo, porque aí é ao contrário, ela é uma empresa de fazer pesquisa geológica. Aí tinha lá uns três ou quatro engenheiros de minas e 80 geólogos, na época que eu fui presidente lá. Lá em Itabira, tinha, talvez, a proporção inversa aí. Uma meia dúzia de geólogos e 50 engenheiros.

P/2 – Como é que é a reação da comunidade ali, em Itabira, diante dessa mineração?

R – No início, da nossa vida lá, não havia essa preocupação nossa com o meio ambiente, né? Então a empresa era vista lá como uma grande empregadora da cidade, onde todo mundo dependia do dinheiro que era gerado ali naquelas atividades. Não havia, assim, uma contestação maior da comunidade contra a empresa não. Isso...

P/2 – Havia, assim, uma aprovação.

R – Havia uma aprovação. E mais à frente é que começaram a surgir as questões ecológicas. E aí, o pessoal [começou a] notar que além de circular o dinheiro por conta da Companhia, também tinha um nível de poeira mais alto na cidade, porque quando chovia, escorria detritos da mina que iam assorear riachos em volta da cidade, coisas desse tipo. Aí começou uma pressão, né? Isso foi global. Esse despertar pra necessidade de preservação ambiental, foi global isso. A Vale até que se antecipou um pouco. Tivemos lá um presidente, o doutor Eliezer Batista da Silva, né, que ele morou bastante tempo na Europa e viu isso surgir lá. Então,  ele foi presidente da Companhia duas vezes. Na segunda vez que ele veio da Europa pra ser presidente novamente, então ele já veio com: “Olha, isso aí nós temos que cuidar, porque daqui a pouco, no mundo, o comprador lá vai exigir que você cuide do meio ambiente pra poder comprar o seu minério.” Aí a empresa até começou a trabalhar bastante em preservação ambiental.

P/2 – O senhor se lembra [de] o que foi feito nessa primeira ação de, nessa preocupação?

R – Foram feitas barragens para contenção de rejeitos, começaram a usar caminhões com “spray” de água pra molhar as pistas, pra não deixar levantar poeira. As pilhas de minério, também se passavam “spray” em cima para o vento não levantar poeira. E foram diversas coisas: canalização de água pra desviá-los dos fluxos em direção da cidade e revegetação das áreas que já não ia mais mexer. Então se cuidou de revegetar, de não só plantar árvores, mas também de, nos taludes, plantar grama, né? São cuidados sem grande tecnologia, custosos, né, porque uma construção de uma barragem pra reter rejeitos é uma obra grande, mas não tem grande tecnologia em si.

P/1 – O senhor morava aonde, lá? O senhor foi morar em Itabira?

R – Hum, hum.

P/1 – Que bairro, alguma casa da Vale?

R – Em Itabira, quando eu fui morar solteiro, morava numa espécie de uma república também. Só que era da própria empresa, né? Ela tinha uma, era um antigo hospital de isolamento que foi desativado, mas como tinham vários “apartamentozinhos”, então o pessoal de nível universitário, solteiro, morava lá. Então, era uma vila tipo república de Ouro Preto mesmo, no início. Depois, todo mundo passava lá alguns anos até que se casasse; e aí, ou alugava casa na cidade ou tinha uma fila de preferência pras casas que a empresa tinha também. Então tinham dois bairros de casa lá, e que os mais antigos iam morando nessas casas. Tinha uma ordem de preferência lá, né? Então eu morei nessas vilas também. Eram casas boas, confortáveis, com terreno, com “clubezinho”.

P/2 – Pagava algum aluguel, ou não?

R – Pagava uma coisa simbólica. Isso foi até um certo tempo atrás, depois, todas essas coisas vão mudando, né? Aí, se começou a achar que a empresa podia economizar mais, se ela não mexesse com isso. Então ela colocou as casas todas à venda. Vendeu as casas todas e tal, que é o mais natural, né? Você paga o seu salário e faz o que quiser com ele. Então a empresa vendeu todas as casas que tinha lá.

P/2 – E aumentou o salário?

R – Isso eu não sei. (risos) Essa parte eu não sei se foi feita não. Os aumentos eram aumentos normais aí, que o mercado ia mostrando, né?

P/2 – Mas, a propósito de economia, né? Já que as casas foram vendidas pra economia da Vale, eu penso, em perguntar, se essa coisa do meio ambiente, não onerou muito a Vale, encareceu um pouco o produto ou lucrou menos. Como é que ficou? Porque uma despesa...

R – Isso é uma despesa razoável. Carajás, por exemplo, que aí era uma região, assim, muito mais visada, né, inclusive em termos internacionais por estar no meio da floresta amazônica. Houve um investimento bastante forte lá pra preservação ambiental. Isso encarece o produto, sem dúvida.

P/2 – Encarece o produto?

R - Ah, sem dúvida. 

P/2 – E o mercado aceita esses produtos sobre...

R – Diminui o lucro de quem está investindo, porque o preço é o preço de mercado.

P/2 – Isso que eu perguntei. O preço de mercado não se altera, diminui o lucro da Vale.

R – Não se altera, diminui o lucro da Vale. Realmente, ela passou a ter que investir mais e contar com o custo de preservação do meio ambiente.

P/2 – Por que o preço não pode subir?

R – É, o preço é uma questão de mercado, né? Você tem outros produtores também que também estão ofertando. Isso, realmente...

P/2 – Não tinha saída, né?

R – Não tinha saída. Isso era uma necessidade, né? A gente no começo achava ruim, porque achava que estavam desperdiçando dinheiro, que estavam investindo numa coisa que não vai dar retorno. Mas não é bem assim.

P/2 – Aí é muito técnico. Chamava o geólogo pra pensar nisso. (risos)

R – (risos) O geólogo é mais preservacionista, né, ele é mais ligado a natureza do que um engenheiro em geral.

P/2 – Essa pergunta que eu ia fazer está ligada, assim, ao comportamento. Então aquele monte, aquela moçada, solteira, morando todo mundo na tal da república. Como é que ficavam as moças “casadoiras” [querem casar]?

R – O pessoal, né, tinha que namorar, é lógico. (riso)

P/2 – Tinha muito assédio das “casadoiras”?

R – Em geral, a pessoa quando já ia pra lá, já tinha namorada na sua cidade de origem ou na região onde estudou, né? Alguns poucos colegas se casaram realmente com moças da cidade lá, mas não era maioria não. Geralmente, quem ia pra lá, já tinha suas namoradas. Já chegava lá com 23, 24 anos, então já... O sujeito passava um estágio nessa casa aí, um, dois anos, três no máximo e tal, em geral já casava, né?

P/1 – E essa relação, de modo geral, entre as pessoas que trabalhavam na Vale, os engenheiros e etc. com Itabira? Com as pessoas de Itabira. Isso no dia a dia.

R – A relação maior era com os próprios colegas e com a comunidade da Vale realmente. Não havia uma relação muito grande com a cidade não. Ainda mais porque tinham essas vilas, né? Ela tinha diversas vilas para funcionários, não só para o pessoal universitário, né? Então essas vilas eram isoladas na cidade. Não era um entrosamento muito grande com a cidade, não.

P/1 – Frequentavam as festas da cidade?

R – Sim, claro. Iam pros clubes da cidade, mas tinha também o Clube da Companhia, né? Então, geralmente, o pessoal era mais amigo entre os colegas realmente, mas para bailes e coisa assim, aí tinha o clube principal da cidade que o pessoal ia lá. Mas não eram, não havia também uma rivalidade, uma animosidade também, não. Havia, era que, por você estar mais próximo de seus colegas e tinha mais amizade com a turma que você estava o dia inteiro geralmente, né?

P/1 – Era mais natural.

R – Era.

P/1 – Então, já que a gente está falando de relações e a relação do pessoal da mina, ferrovia. Como é que era esse trabalho de integração aí das equipes?

R – Era também, tinha que ter uma integração realmente, né? Você tinha etapa de produção na mina, depois tinha etapa de transporte e etapa de exportação no Porto. E tudo isso tinha que ser encadeado, porque você já produzia, cada consumidor tinha, dentro de algumas variações, o tipo certo que ele queria, né? Então você já fazia quase que sob encomenda. Tinham alguns tipos que eram “standard”, né, que eram vendidos pra todos, mas, geralmente, tinha alguma coisa que cada um queria diferente do outro. Então era forçada essa integração de produzir, quer dizer, você partia do saber quando é que o navio ia chegar, e isso também tem uma certa faixa de variação, porque o navio não anda com o cronograma igual o trem, trem europeu, né? Mas, então, ele dava uma ideia de quando ele chegaria com uma faixa de variação e você, a partir daquilo, ia vendo quanto ia levar pra montar essa pilha no porto, quanto tempo você levava pra transportar, pra produzir. Então você planejava essa coisa toda, né, e isso era feito de maneira integrada, tinha um esquema de planejamento dessa produção toda. Mas, principalmente, nas épocas de muito aperto, né, de produção muito alta, aí dava uns atritos entre essas partes todas, porque se alguém falhasse ou atrasasse alguma coisa, aquilo ia se propagando. Então ficava uma pressão muito forte de parte a parte. Se a ferrovia disponibilizasse um trem e eu, na hora, não tivesse minério pra por em cima dele, ele perdia transporte também. Dava um atrito entre as partes aí, mas que era bem resolvido.

P/2 – O senhor disse que havia diferenças de encomendas, vamos dizer, assim, [ao] grosso modo, que diferenças eram essas? Um queria um produto o outro queria outro produto. Não é isso?

R – É.

P/2 – Eu entendi bem?

R – Diferenças nos tamanhos do minério.

P/2 – Ah, sim.

R – Diferenças nos teores também, né? Diferenças nos teores ou de ferro ou das impurezas, cada comprador tinha a sua “receitazinha” ali. Você tinha...

P/1 – E essa meta vinha aí? Ela vinha, chegava pra operação da mina, aí se vira? Mais ou menos.

R – É. Você tinha os planejamentos anuais, né, planejamentos quinquenais [5 em 5 anos]. Planejamentos anuais, bimensais, mensais, semanais e diários, né? O estudo era integrado. É um sistema complexo até, você manter tudo certo e conseguir na hora certa ter o material correto e disponível pro embarque, né?

P/2 – Como é que eram as comunicações, nessa época, pra poder...

R – Quando eu cheguei pra lá, era o telex, aquele que você datilografava assim, saía aquelas “fitinhas”. (risos) Isso foi evoluindo, né, agora é tudo interligado por computador direto.

P/2 – Uma rede.

R – É. Rede.

P/1 – O senhor ficou ali na mina como engenheiro. O senhor entrou como engenheiro de minas? Seu cargo era esse?

R – É, a gente chamava de engenheiro peão.

P/2 – Por quê?

R – Porque era, o peão de obra é o braçal da obra.

P/2 – Sei.

R – Então era o engenheiro peão, que era o engenheiro iniciante ali, né, que ia cuidar das tarefas mais simples. E aí, você ia subindo dentro da hierarquia, ia fazendo cursos...

P/2 – Quando que começa esse “ser peão” pra um engenheiro?

R – Alguns, isso eu nunca cheguei a fazer, mas alguns chegavam até a trocar turnos, trabalhar de noite ou de dia, né? Isso na minha área nunca foi necessário, nunca tive que entrar nessa não. Mas era fazer as tarefas mais rotineiras, mais operacionais de supervisão de uma operação simples, né, porque se cuidava muito da formação das pessoas. Você começava num serviço mais simples e aí os que fossem se destacando, ou pela responsabilidade ou pelo conhecimento, iam recebendo tarefas mais difíceis. Então iam recebendo cursos, a empresa cuidava até muito disso. Ou, então, ascendendo na hierarquia. Quem tinha melhor qualidade pra liderança ia se tornando chefe setorial.

P/2 – E na hora de ser peão, o engenheiro peão, qual seria a categoria do peão que estava ao seu lado?

R – Esse negócio do engenheiro peão é só brincadeira.

P/2 – Não, eu sei, eu sei.

R – O engenheiro era sempre um chefe de uma certa obra de um certo setor, né?

P/2 – O que eu estou tentando entender é que nessa hora do, vamos dizer, um estagiário que se, o engenheiro ele vai ao lado de algum operário graduado. É isso?

R – É, em geral tinham os supervisores, técnicos de nível médio e os operários mesmo. Os motoristas, operadores de carregadeira de escavadeira, tratoristas. O operário qualificado, né? Tinha muito pouco operário braçal, a empresa era sempre mais mecanizada, então tinha sempre um ou outro ajudante, um cara pra arrumar a estrada, mas a maior parte do pessoal era operário qualificado, né?

P/2 – Hum, hum.

R – Tinham cursos lá de treinamento, também pra operário, né? A gente não tinha, não existia e nem existe no Brasil um mercado de pessoal de mineração, então todos eles tinham que aprender na empresa. Então você, pra dirigir aqueles caminhões de minério, selecionava motoristas de carreta de estrada, né? Fazia um teste de seleção com eles, entrevistas, e aí levava pra empresa e fazia o sujeito passa por um treinamento naquele caminhão, né? Ia ensinando pro pessoal todo e, também, nós aprendíamos a operar os equipamentos todos.

P/2 – E qual era a frequência desses cursos de treinamento?

R – Isso dependia das necessidades. Não era uma coisa assim tão formal. Quando ia haver alguma expansão e você precisava admitir mais gente, se organizava os cursos, né? Já tinha lá tudo empacotado, os cursos. Quando, por exemplo, nós fomos organizar, uma das tarefas que eu fiz na Vale foi organizar a operação do Projeto Carajás, né? Então nós levamos pra lá, se eu não me engano, 600 cursos diferentes e aplicamos pro pessoal todo lá.

P/2 – Quem dava esses cursos?

R – Eram uns convênios com o Senai e o próprio setor de Recursos Humanos da empresa também, quando tinha seus monitores e seus setores de treinamentos, né?

P/2 – Como era o seu dia a dia na empresa desde que você entrou?

R – No começo, entrei pra cuidar de uma mina muito pequena chamada Piçarrão. Então era essa mina. Estava ainda em abertura, né, então eu ia lá administrar o serviço de abrir as picadas, de fazer os levantamentos geológicos. Era eu e um geólogo, que trabalhávamos juntos. Teve até um negócio engraçado: esse geólogo, nós dois fizemos o mapeamento, né, e depois eu coloquei no mapa as linhas do mapeamento e ele, então, traçou os corpos geológicos. E aí, nós tínhamos que apresentar esse serviço pro nosso chefe lá, né? E tinha umas cores convencionais pra destacar cada tipo de material. Pra ser mais simples, você estava cuidando de mapas de diversas áreas diferentes, né? Então a hematita tinha uma cor, o itabirito tinha outra cor, o rejeito tal era marrom, né? E aí eu deixei por conta dele, colorir o mapa, trabalho de criança de colorir assim, né? 

P/2 – Pintar.

R – Lápis de cor, pintar o mapa. Quando eu voltei estava um negócio horrível, ele pintou uns negócios assim de roxo, verde-escuro, umas cores berrantes, assim, fora do convencional. E eu falei: “Pô, mas que coisa rapaz, como é que você pintou esse troço?” E ele ficou aborrecidíssimo, ofendido, e falou: “Mas isso não interessa, o que interessa é o corpo aqui, a cor está aqui do lado o cara lê aqui.” “Pô, mas você pintou diferente.” “Ah, isso é bobagem, não vem ao caso.” Eu falei: “Realmente, ele tem razão. Não vem ao caso mesmo não. Só ficou feio, fora do habitual e feio, né? Chocante.” Algum tempo depois, eu estava lá nesse hospital de isolamento, chamava “Isolado”, né? Ele era solteiro, morava lá também, e eu com uma camisa branca, uma coisa azul aqui e outra vermelha aqui. Ele chega pra mim: “Ué, você está de uniforme do Milan?” Eu falei: “Mas e essa listra vermelha?” Ele falou: “Eu, listra vermelha?” O cara era um daltônico absoluto. Vermelho ele nem enxergava, pra ele era tudo azul aquilo ali, aquela faixa era...

P/2 – Ah! Daltônico.

R - Então aquelas cores que ele usou na pintura lá, eram as cores que ele distinguia uma da outra.

P/1 – Olha só.

R – Aí eu desculpei ele, (risos) daquele mapa horrível que ele coloriu daquela vez. (risos)

P/2 – Mas o chefe entendeu o mapa dele?

R – Todo mundo ficou chocado a hora que viu o mapa. Mas ele chegava e falava: “Olha, eu pintei de umas cores aqui porque eu não tinha tinta na hora, não sei o quê.” Então ele dava uma “enroladazinha” assim.

P/1 – Ele não falava.

R – Ele não assumia.

P/1 – Não assumia que era daltônico.

R – Eu não sei nem se ele sabia.

P/2 – Ele não devia saber.

R – Ele não tinha consciência, né, ele sabia que aquelas cores aqui ele enxergava melhor, as outras ele não distinguia bem, né?

P/1 - Ai, ai. (risos)

R – Engraçado no negócio. Descobrimos assim.

P/2 – Mas o senhor se lembra de outros casos assim interessantes?

R - Ah, tinha um monte de casos engraçados lá, mas a maioria deles impublicável. (risos)

P/2 – É mesmo?

R – Tinha muita coisa engraçada. Numa empresa grande assim, tem muita gozação, muita. Se o sujeito bobeasse, a turma montava em cima mesmo e gozava, né? Então tem uns casos lá muito engraçados. Um dia ainda vou escrever isso aí, sob pseudônimo e trocando os nomes das pessoas. (risos)

P/2 – Ah, precisa ser assim na moita?

R – Ah! Tem quer ser! (risos) A Vale, de vez em quando, fazia um concurso de conto ou um concurso de poesia, coisa assim, né, aí alguns ensaiavam esses casos que eram engraçados e menos, com menos palavrões no meio e coisa assim, eles escreviam ali de uma forma ou de outra. Mas os mais engraçados mesmo não dava pra escrever. (risos)

P/1 – É muita baixaria? Pode falar. (risos)

P/2 – E como é que era o lazer, de vocês engenheiros e dos profissionais? Cinema, teatro?

R – Lá em Itabira, era uma cidade, assim, de pouca atividade cultural, né? Então, tinha cinema, mas com os filmes normais, assim, né? A atividade de lazer lá era futebol, piscina, esporte, coisas desse tipo. Quando se queria alguma atividade mais cultural, ia pra Belo Horizonte - estava a 100 quilômetros de distância. Dava pra você ir à noite e até voltar, se quisesse. Mas, geralmente, todo mundo tinha parentes e coisa, ficavam em Belo Horizonte também. Ou alguns começavam até assim, mesmo trabalhando lá, [a] já comprar apartamento em Belo Horizonte, né, pra já ter um local pra ir assim, passar fim de semana, coisa assim.

P/2 – E existia um espírito corporativo forte, assim, no sentido de convivência diária?

R – Sim. O pessoal era muito amigo entre si, né? Em geral isso, estava todo mundo de fora numa cidade onde não tinha muita ligação com as pessoas dali, né, então as pessoas se tornava muito amigas entre si. E pelo fato de morar nas vilas também, né, era até muito bom. Sempre tive bons amigos em todos os locais da empresa onde eu trabalhei.

P/1 – O senhor estava em Piçarrão, a primeira mina...

R – É, a primeira mina foi Piçarrão. Depois fui pra uma outra mina menor que era Conceição, mas já maior um pouco do que Piçarrão. E, depois, fui pro Cauê, isso ainda como engenheiro, né? Aí no Cauê, já era uma mina grande, aí você já se especializava lá, né? Eu fui trabalhar um tempo na operação, depois um tempo no planejamento da mina. Aí comecei a subir na hierarquia dos cargos lá, né? Eu fui gerente da divisão de, chamava Divisão de Controle Operacional. Cuidava, então, da qualidade, da geologia, do planejamento. Depois dessa, eu fui Gerente Geral de Mineração. Essa fazia todo o trabalho de mina, a parte de mineração, propriamente dita, essa parte de Controle de Qualidade. Tinham três divisões: Divisão de Geologia, Divisão de Controle e Divisão de Produção. Então eu fui chefe dessa área. Tinha lá uns 1.000 empregados, sendo uns 35 engenheiros ou geólogos. E [foi] nessa que eu trabalhei até o tempo que eu fiquei em Itabira. Em 78, eu saí de lá e aí vim pro Rio. Eu, de vez em quando, vinha pro Rio, né, a serviço da empresa e trabalhava na assessoria do Diretor de Produção que, na época, se chamava vice-presidente. Aí uma época saiu um dos assessores de lá, me chamou pra vir pro Rio e aí resolvi vir.

P/1 – Quem era?

R – João Carlos Linhares. Doutor João Carlos Linhares, uma das figuras [mais] interessantes aí na Vale. Eu trabalhei um tempo com ele aqui, mas aí ele saiu da Companhia e veio o Schettino, que era o Superintendente em Itabira, veio ser o Diretor no lugar dele, né? Aí eu continuei trabalhando nessa assessoria com o Schettino, só que esse trabalho de assessoria não era bem o que eu gostava, eu gostava de estar mais na execução mesmo. Chegou uma época, ele me perguntou se eu estava feliz nesse trabalho e eu falei: “Bom, eu faço, mas prefiro fazer alguma coisa de operação mesmo.” Aí, que estava começando o Projeto Carajás. Ele, então, até me entregou de preparar a conceituação de uma futura operação de Carajás. E aí, falou: “Olha, você faz esse trabalho todo e nós vamos apresentar isso à Diretoria e vamos criar uma Superintendência...” Que era o nome do cargo logo abaixo de direção na empresa, era o Superintendente, né?  “...Vamos criar uma Superintendência nova e você vai ficar nesse lugar aí.” Então Carajás, a parte de operação que eu cuidei desde o iniciozinho até entregar o minério no porto, né? E isso foi de 1981 a 87. Então cuidamos durante, de se estabelecer toda a operação de Carajás, né? De minas, ferrovia, porto. Pus em funcionamento, acompanhei durante um ano, mais. Aí quando estava tudo engrenado, né, aí foi dividido em três áreas diferentes, cada uma virou uma Superintendência. A Superintendência da mina de Carajás, a Superintendência da Ferrovia, a Superintendência do Porto e aí eu fui pra Docegeo. Fui ser Presidente da Docegeo. Essa época de Carajás foi uma época muito interessante, um trabalho de grande envergadura, né? Deu tudo absolutamente certo. Uma coisa, assim, que foi programada com três anos de antecedência. [A] data da inauguração, que era primeiro de janeiro de 86, em 01/01/1986 encostou o navio embaixo e jorrou minério dentro. Então foi tudo assim certinho, né, sem um revés. A empresa já tinha uma boa experiência, tinha um pessoal muito capacitado. Então foi questão de coordenar esse pessoal todo e criar tudo a partir do zero, porque na região não tinha ninguém com experiência nem de indústria de mineração, nem de indústria [no geral], né? Então você tinha que pegar as pessoas, lê e treinar a partir do zero. Cursos até de alfabetização, de reforço de, não é bem alfabetização, mas um reforço de português e matemática pro sujeito até entender os cursos seguintes, né? Então tivemos que criar a equipe inteira, trazendo um pouco de gente do sul, das outras operações da Vale, uns 5% assim, como pra mesclar com o pessoal de lá; e aqueles seriam os líderes, Criando, né? Foi uma coisa toda feita dentro de casa, sem nenhum uso de empresas de treinamento, de coisas desse tipo. Um troço assim feito com os recursos da casa mesmo, né? Então foi muito interessante. O pessoal todo animadíssimo que era uma operação gigantesca, essa de Carajás, né? Nós começamos fazendo assim. Isso foi planejado também, né? É, na mina, a parte de obra era contratada com empresas de obra mesmo, porque aí não era, o “metiê” [ofício, função ou trabalho] da Vale executar obra, né? Ela fazia isso contratando empresas, empreiteiras. Mas a parte de operação era o que ela sabia fazer, né? Então alguma coisa que podia ser feito até por empreiteira, tipo decapeamento inicial da mina, né? Retirar aquela camada de estéril, que em geral recobre a mina. Podia ter feito com uma empreiteira contratada, mas aí nós pegamos o nosso pessoal, desmontamos uma máquina lá em Itabira e montamos lá em Carajás. Levamos os caminhõezinhos, três caminhõezinhos desmontados, montamos lá também e levamos um motorista pra cada um, e um operador de escavadeira. Começamos a executar aquela operação e treinar gente em volta daquilo, né? Então a operação foi crescendo, crescendo, crescendo. Começamos com um turno, depois treinamos gente, passamos pra dois turnos. Depois treinamos mais gente e passamos pra três turnos. Aí levamos mais equipamento e fomos criando um núcleo que foi se expandindo, e aí ensinando todos os processos da empresa também, né, que não é só ensinar o cara a fazer, é ensinar como que se faz, o respeito à hierarquia e a sistemática de trabalho que a empresa já tinha, né? Isso na parte da mina. Na parte da ferrovia, nós fomos construindo a ferrovia igual aquelas do Velho Oeste americano o próprio trem...

[Troca de fita]

R - ...Vai carregando a brita, os trilhos, os dormentes, andando de ré, né? E vai, anda em cima da parte que já está pronta e vai jogando o material pra fazer a outra frente. Então fomos desde o porto, onde o material era descarregado, e fomos construindo até Carajás, né? Então quando chegou lá na frente, quer dizer, e ao mesmo tempo, quando o transporte ia aumentando de distância, você ia tendo que treinar mais maquinistas pra conseguir fazer os trajetos, né? Então foi crescendo a operação. Quando chegou lá na frente, era só virar o trem e descer porque estava tudo pronto.

P/1 – Tudo pronto.

R – E o pessoal todo treinando, né? E isso tudo, sistemas de sinalização eletrônicos e tudo, né?

P/2 – Quanto tempo demorou essa operação?

R – Isso aí demorou uns quatro anos. Que nem... É uma equipe inteira, né?

P/1 – Quer dizer, a primeira equipe, ou digamos, uma espécie de equipe multiplicadora, ela vinha do sul. Depois, aí é que começava a treinar as pessoas da própria região. É isso?

R – Exatamente. É.

P/2 – E onde era essa sede que abrigava o pessoal, núcleo principal pioneiro do sul?

R – No Sul?

P/2 – Não, aqui na...

R – Aqui no Norte, tinha um núcleo em São Luís, que é a região do porto, né, e outro em Carajás. Esse em Carajás era abastecido por avião, porque não tinha nem rodovia pra lá, né? Então começou em Carajás pra com essas atividades de mina e o trem vindo de São Luís, criando a ferrovia até chegar lá em Carajás. Lá teve uma história engraçada, na época da montagem. Essa dá pra eu contar. Na época da montagem da escavadeira, né? Era assim um negócio tudo muito precário lá, então as próprias acomodações eram precárias, né? Então nós levamos gente de Itabira, que estava acostumada a morar numa cidade arrumadinha, tudo estruturada. A empresa sempre cuidou muito do seu empregado, né? Então nós avisamos antes: “Olha, lá em Carajás não tem. É do jeito que der pra ser, e tal.” E o pessoal foi pra lá e ficou em [um] mês ou dois, montando essa escavadeira, né, com muito pouco recurso realmente. Então, quando acabou o negócio, aí eu virei pro outro engenheiro lá, que era o meu assistente, hoje um Diretor da Vale, o Mozart, e falei: “Mozart, vamos fazer uma festa pra esses caras aí?” “Ah! Boa ideia. Vamos fazer um churrasco aqui.” Aí o Mozart já tinha uma casa lá, morava lá em Carajás, né, então fizemos um churrasco, eu e ele assando as carnes. Churrasco pro pessoal, pros operários, que tinham ajudado a montar as escavadeiras e tal. Mecânicos, eletricistas, operadores. Uma turma aí, umas 20 pessoas, né? Então nós mesmos fizemos um churrasco pra eles lá. E o pessoal [era] meio tímido, porque a gente era chefe, né? Eu já era Superintendente, o Mozart era Gerente Local, então, apesar da gente lidar com o pessoal, assim, muito, sem nenhuma empáfia [arrogância], sem coisa assim, mas o pessoal um pouco... E aí, o pessoal não bebia. A gente tinha que pegar cerveja e botar na mão do cara, falava pra ele: “Olha, pô, isso aqui está dentro dessa caixa aqui, a hora que você quiser você vai lá e busca!” Mas os caras [eram] tudo meio tímidos até que a própria cerveja vai relaxando. Aí, um lá puxa um violão e começa a tocar, né, começou a tocar música dos Beatles, que eu gosto, sempre gostei muito; só que ele cantava as versões brasileiras, aquela “Feche os Olhos”, “Close your eyes”, ele falava “feche os olhos, não sei que e tal”. E cantou várias versões em português. Aí eu falei pra ele: “Escuta, você toca aí agora pra mim ‘Here, there and everywhere’?” O cara olhou pra mim: “Como é que é?” Eu repeti. Eu pensei que ele sabia os nomes das músicas que ele estava tocando, né? E aí ele virou assim e falou: “Ó gente! Arruma um dicionário pra esse doutor aí!” (risos) Ele nem sabia que aquilo era Beatles, ele tocava as músicas, mas não sabia.

P/2 – Não sabia de nada. A casa onde o pessoal onde vocês ficavam, como é que foi a história? Como é que foi o espaço físico dessa acomodação?

R – Tinha lá, tinha, assim, um campo de aviação, né, porque era um campo de aviação. Não era nem um aeroporto ainda, não. Tinha do lado de lá várias casas de madeira e do outro lado da pista tinha uma casa que chamava “casa de pedra”, que era a única casa de alvenaria que tinha lá, feita com pedra da própria região, né? E nessa casa, tinha vários quartos, ficava o pessoal universitário e nos alojamentos. Nas casas de madeira, tal, ficava o pessoal de obra lá. E tinha outra história engraçada também: logo quando eu comecei lá, tinham 600 homens trabalhando lá e nenhuma mulher. Era só pessoal de obra de, isso no início, antes de começar esse treinamento de pessoal. Era o pessoal que fazia ainda pesquisa geológica lá, né?

P/2 – Isso em que ano, mais ou menos?

R – Isso deve ter sido em 80, por aí?

P/1 - Plano piloto ainda?

R – É, aí descia avião lá, né, [e] o pessoal ficava todo, assim, “acocoradinho” na beirada da pista, porque, no início, só tinha avião da empresa. Um avião, um DC-3, que transportava material pra lá, mas depois, começou [a] dar muito movimento. Nós arranjamos uma empresa aérea que se interessou em explorar a linha e tal. A gente garantia um certo número de assentos pra ela e começou a explorar a linha, né?

P/2 – Que empresa era?

R – Uma empresa regional, né? Não me lembro se era Taba [Transportes Aéreos da Bacia Amazônica], uma empresa regional da Amazônia. Obviamente, nem existe mais. E aí eu chegava lá, né, e via aquele [pessoal] na hora que o avião descia, todo “acocoradinho”, assim, perto da pista. Eu falei: “Mas que coisa, o pessoal vê avião aqui subindo e descendo o tempo inteiro? Por que é que vêm ver avião aqui?” Eu falei assim: “Pô, mas vem cá? Você não vê avião todo dia descendo aqui? Por que vocês vêm aqui pra assistir a chegada do avião?” “Não doutor, a gente vem aqui [para ver] é as pernas da aeromoça!” (risos)

P/2 – (risos) Porque não tinha mulher, né?

R – Não tinha mulher. (risos)

P/1 – Como é que era administrar isso, né? 600...

R – Isso. Depois, quando começou a crescer, né, chegou a ter o pico da obra com 15.000 trabalhadores. E aí nós tentamos organizar, e tivemos um sucesso relativo, porque tinha, lá é uma serra, né, você está lá no alto da serra, é uma região ampla. É um planalto assim. Você tem uma estrada de uns 35 quilômetros que chega até o pé da serra. E aí tem um rio, porque lá são dois rios que cercam essa serra, né? Então é uma região até que a Vale assumiu a preservação da floresta ali e acabou conseguindo com o governo [de] ter o controle dessa área, né, com o efeito de preservar a floresta mesmo. Dentro já do espírito de mínimo distúrbio ao meio ambiente, ela achou que um projeto industrial de grande porte. Assim ia atrair muita gente pra voltar e o pessoal ia desmatar tudo [pra] começar a fazer fazendinhas e coisas. Então ela se preocupou em vedar essa área e conseguiu lá um direito real de uso não sei das quantas com o senado. Então nós construímos lá embaixo, no município de Marabá. Nós fizemos um acordo com a prefeitura e fizemos um loteamento. Fizemos os arruamentos, redes de esgoto, de água, uma cadeia, uma prefeitura, uma escola e um hospital. E aí entregamos isso sob convênio pra Prefeitura explorar. “E agora vocês distribuem lotes aí.” Só que o negócio foi explosivo, muito mais do que a gente pensava, né, e ficou um lugar razoavelmente organizado, porque tem outras regiões em outros projetos de mineração. Aí tem invasões, que ficam terríveis, [com] áreas até insalubres e tal. Então nós procuramos dar uma arrumada no negócio antes de chegar a invasão, né? Só que nós preparamos para 5.000 habitantes e daí, a pouco, tinham 30.000 lá, né? E aí o pessoal continuou, ficou razoavelmente organizado. Hoje é uma cidade, é uma sede de um município.

P/1 - Parauapebas?

R – Parauapebas. Então, nessa época aí, tinham 170 boates na região, nessa cidade.

P/2 – Só tinha boate.

P/1 – Só lá, 170 boates?

R – 170 boates nessa cidadezinha. Por isso é que veio tanta coisa mais do que a gente pensava lá. (risos) De toda essa infraestrutura em volta, ali, de comércio, de tudo, né?

P/1 – O pessoal descia a serra? (risos)

R – Descia a serra. (risos)

P/2 – E é uma descida longa, assim, tipo...

R – 30, 35 quilômetros. Por aí.

P/2 – Bem íngreme.

R – É, aí tinha ônibus que ficava fazendo a ponte.

P/2 – Asfaltaram a estrada?

R – A estrada foi asfaltada, quer dizer, essa parte do aeroporto, do transporte aéreo, para lá foi só no início, né? Depois foi mais barato construir essa estrada até Marabá, aí todo suprimento vinha por rodovia e depois por ferrovia também.

P/2 – Esse aeroporto lá em cima da serra ficou desativado?

R -  Esse antigo foi desativado e foi construído um novo pra avião de grande porte.

P/2 – Lá mesmo, em cima da serra?

R – Lá em cima. Um aeroporto de primeira linha, pode descer jatos grandes lá.

P/2 – E depois tem o outro em Marabá?

R – Marabá tem outro também.

P/1 – E o, como é que era, quer dizer, a Vale, envolvida nesse projeto de construir Carajás, no meio da Amazônia, o crédito disso, as pessoas acreditavam nisso. Como é que era?

R – Isso aí foi um trabalho muito grande de convencimento do governo, que era o acionista majoritário, né, pra que permitisse essa construção. Havia também um interesse próprio do governo como desenvolvimento regional. Se lançou, na época, o Programa Grande Carajás, que tinha não apenas isso, mas uma série de outras atividades lá na região Amazônica, né? Mas a coisa que prosperou mais foi essa mesmo e, também, o polo de alumínio, que também estava se fazendo lá simultaneamente. Isso aí enfrentou uma restrição quanto ao resto da indústria de mineração do mundo, que acionaram seus “lobbies” todos aí pra tentar impedir que Carajás saísse. Inclusive, já dizendo que ia acabar com a Floresta Amazônica. Então usava essas coisas todas de meio ambiente pra agredir o Projeto também, só que estava tudo muito bem montado e muito bem pensado, né? Pra tudo a gente tinha defesa. O pessoal que reclamava de meio ambiente, a gente buscava jornalistas nos Estados Unidos, na Europa, levava lá, mostrava o cuidado com que estava sendo feito tudo, todos os cuidados ambientais, e fomos convencendo que o negócio era de bom nível e bem feito. Os organismos financiadores internacionais, né, o Banco Mundial, a Comunidade Econômica Europeia, Bancos da Alemanha, é o Banco de Fomento de Exportação da Alemanha, então tudo, bancos japoneses, também estatais, né? E aí conseguimos esse financiamento todo, mas isso com esse convencimento amplo não é do... E aí, foi feito o Projeto. Foi um investimento que estava calculado em 3,2 bilhões de dólares. Nós fizemos dentro do cronograma certinho e ainda economizamos 400 milhões de dólares aí. Fizemos por 2,8 [milhões de dólares]. Então foi um projeto altamente bem sucedido, não só na concentração, em toda sua montagem, em toda sua estratégia geral, mas como na sua execução também, né?

P/1 – As empresas fizeram “lobbies” de...

R – “Lobby”!

P/1 – Que tipo de questão foi levantada?

R – A questão de que vão acabar com a floresta, que vão poluir tudo, que vão matar os animais, porque não sei o quê, que o ar que nós respiramos vem de lá. Então é aquela coisa toda mesmo. 

P/1 – E aí a Vale teve que se armar toda pra defender isso?

R – É.

P/2 – E a concorrência dela argumentava com o quê?

R – Não entendi?

P/2 – A concorrência? Qual é...

R – É são outras empresas de mineração de outros países, né, que também queriam ficar, quer dizer, quando você entrava com o minério de Carajás, era um minério muito melhor do que os outros.

P/2 – Então aí também tem a gritaria da concorrência?

R – Pois é, a concorrência que fomentava...

P/2 – Que fomentava o ambiente.

R – Esse “lobby” contra a execução do Projeto.

P/2 - Ia reclamar... Esse “lobby” do politicamente correto.

R – Então falavam pra governos, aquelas ONGs faziam... Uma das primeiras coisas que foram feitas lá em Carajás, [foi] uma casa de hóspede muito boa, de muito bom nível, muito bem arrumada, pra levar gente do mundo inteiro pra ir conhecer o Projeto, pra ir tendo uma... Foi um serviço de contrapropaganda mesmo.

P/2 – E quanto tempo demorou isso tudo?

R – Ah! O Projeto total levou de uns seis anos pra ser feito, seis a sete anos.

P/2 – Mas a parte de convencimento da opinião pública mundial?

R – A Companhia começou aos poucos, né, mas ela já começou com essa visão de que isso aí ia ser uma coisa necessária, né? Então desde o começo, ela já começou a plantar isso, mas isso... Foi gente lá, chefes de estado, levou gente de nível alto de tudo quanto é área, de tudo ato é... Japoneses, europeus, americanos. E, também, a gente mostrava para os concorrentes - ainda fizemos isso [mostrar] também com os concorrentes. Nós não somos irresponsáveis, não. Nós não vamos inundar o mercado de minério, não vamos fazer baixa de preço. Porque eles também diziam isso: “Vocês estão doidos, estão abrindo um troço grande demais. O preço vai desabar!” “Não, nós vamos, ao mesmo tempo, que for aumentando Carajás, vamos reduzindo no sistema Sul.” Porque já, até pra aumentar a duração das mesmas ali do Sistema Sul, né? E, também, os tipos de minérios foram variando ao longo do tempo, pra uma necessidade maior do tipo de minério de Carajás, né? Então nós fomos convencendo, até a concorrência, de que não íamos prejudicar ninguém não. Nós estávamos defendendo o nosso mercado, a nossa panela no mercado, e ia ter um crescimento mesmo, mas, porque nós tínhamos como crescer e eles, talvez, não tivessem, né? Mas não íamos fazer nenhuma coisa de arrebentar com ninguém e jogar o preço pra baixo. Nós não íamos fazer guerra de preço. Então, no fim, até a concorrência também parou de tentar resistir, né, e aceitou como fato consumado. E...

P/2 – O senhor disse que a qualidade é melhor do que da, como é que é?

R – É a qualidade do minério de Carajás. A qualidade intrínseca do minério de Carajás é a melhor qualidade do mundo. Então isso causava um medo grande na concorrência.

P/2 - E como é que vai a expectativa da expedição até terminar a mina?

R – Ah! Lá tem minério pra 400 anos.

P/2 – Aí para lá, nós vamos estar em dois mil e...

R – 2400.

P/2 – Nós não. Nossos tetranetos aí, sei lá das quantas. (risos)

P/1 – E o financiamento pra bancar Carajás? O senhor participou disso, desse tipo de captação de recurso?

R – Participei também, né? Não da captação em si, porque o pessoal das áreas financeiras da empresa é que capitaneavam isso, mas eu fui várias vezes à Washington, pra explicar a parte técnica, né, pro FMI, pro Banco Mundial e, também, não cheguei ir na Europa, por sinal, mas nós recebíamos o pessoal do Banco Alemão, o pessoal do Japão e nós fazíamos a parte da técnica, de explicar a parte técnica do Projeto, que eles têm equipes de análise que vêm ver tudo, né? Eles querem ver o “business plan” [plano de negócio], onde se vê que a coisa é autossustentável. Ele vai botar um dinheiro ali, mas que a coisa consegue produzir depois, “repagar” o dinheiro pra ele, né? Então vinham equipes técnicas também estudar. Participei nessa fazendo a explanação técnica dos Projetos.

P/1 – E como é que era negociar com esse pessoal?

R – Não, a Vale tem uma credibilidade muito grande, né, então as pessoas acreditavam que era uma coisa séria, e vinham conhecer. Então eu simplesmente explicava o que é que era, como é que estava bem feito, os números todos e tal, era sólido, né? E aceitavam. Foi um negócio muito bem montado.

P/1 – Quando o senhor entrou, a decisão de se fazer por ferrovia já era decidida? Como é que era isso?

R – Isso já era. Já nos estudos prévios, isso deu uma polêmica muito grande na época, né, então o pessoal achava que dava pra descer o rio e tal. E a Vale atuou sempre nisso de uma maneira técnica, né, porque tinham interesses políticos grandes aos, também, interesses regionais. Se saísse pelos rios, o porto seria no Pará e não no Maranhão. Então tinha essas disputas de lá, mas, realmente, todos nós, técnicos da Vale, estávamos absolutamente convencidos de que não tinha condição de fazer pelo rio. O volume de transporte era muito mais difícil de fazer numa questão fluvial e o principal ponto que obstacularizava isso, era a construção de um Porto de água profundo na região do Pará, porque ali teria que fazer um porto que se chama “offshore”, né? Um porto bem longe da costa. Você constrói uma ilha artificial e faz uma ponte ligando. Essa aí dava uma ponte de sete quilômetros. Você imagina uma ponte de sete quilômetros, mar adentro, uma ilhazinha lá pro navio atracar, né, e em uma região onde estão as marés. As correntes eram muito fortes, então é difícil atracar um navio. Ficaria um porto não confiável. E uma coisa, absolutamente, necessária pra um projeto grande de mineração de ferro desses é ser confiável. O consumidor, do mesmo jeito que a gente sabe que o navio vai chegar no dia tal, entre o dia tal e programamos tudo pra trás, ele também lá, está contando com o navio no dia tal, porque tem que misturar com outro. Ele tem que produzir um aço, assim, assado, que precisa daquilo ali. Então, se ele não tiver confiança na sua capacidade de entrega, né, você já corre com uma desvantagem muito grande. Isso aí eliminava essa ideia de fazer esse porto, esse transporte fluvial e esse porto na área Amazônica, né? E o estudo de toda costa mostrava que o único lugar que dava pra fazer um porto de grande porte era em São Luís do Maranhão, então, isso aí, estava tecnicamente resolvido. As etapas prévias do projeto, isso antes de 1980, já se sabia que tinha que ser essa a solução, né?

P/1 – E a impressão que se causava quando o senhor levava os, tanto os credores ou quando chamava a imprensa internacional, pra olhar esse... Carajás.

R – Lá, a operação é de um porte muito grande e por si impressiona, né, mas o que mais impressionava o pessoal estrangeiro era a Amazônia em si. Aquilo é realmente uma coisa impressionante, né? Pra quem sai de uma Europa, de um lugar que já tem essas “florestinhas” só, “organizadinhas”, plantadas, né? (risos) Então chega lá e vê aquela exuberância, aquela coisa, o pessoal ficava encantado com isso. E como a gente fazia tudo com um mínimo de abertura possível, com um mínimo de distúrbio na floresta, né? Isso é o que impressionava mais, de você fazer uma coisa daquele porte no meio [da] “jungle” [selva], né?

P/2 – E no planalto.

 R – É.

P/2 – Mas a vegetação do planalto longe dos rios, só por uma curiosidade, deve ser diferente daquela mais...

R – É um pouco diferente, mas tem também bastante vegetação, né, não tem... Na beirada dos rios, dá árvores um pouco maiores, é mais densa, mas mesmo lá em cima, a não ser na parte que é onde que há cobertura de minério de ferro, né, ali é uma vegetação tipo cerrado. “Arvorezinhas”, arbustos pequenos e tal, porque o minério não deixa criar árvores grandes. Mas fora das manchas, assim, que são os afloramentos do minério de ferro, tem floresta mesmo. Mesmo lá no alto. Não é um planalto tão alto também, é uma diferença de 300 metros de altitude da região.

P/2 - Eu ia perguntar da altitude.

R – É. Lá tem, assim, entre 600, 700 metros de altitude e nessa região, já a 30 quilômetros, que é já a parte mais de planície, tem 400 metros. Então não é uma variação tão grande de ecossistema também não.

P/2 – Agora, falando de selva, teve algum caso interessante envolvendo bichos, cobras, pássaros, “macaquinhos”?

R – Tem, a empresa fez também...

P/1 – Onça? (risos)

R – Onça? Você já sabe da história da onça lá? (risos)

P/1 – É uma recente, agora? Da onça?

R – Não, teve uma no passado. Teve uma história triste lá. Mas outra coisa que a empresa fez também, um mini zoológico lá em volta dessa casa de hóspedes, para onde se levava, principalmente, os estrangeiros, né? E tem os bichos lá, mas em semicativeiro, eles meio soltos. Então não estão enjaulados, estão dentro do ambiente assim. Só com bichos regionais também. Isso aí foi uma coisa que o pessoal estrangeiro achava interessantíssimo também.

P/2 – Que bichos têm, por exemplo?

R – Têm onças, aqueles porcos do mato [queixada], veados, onça pintada, onça preta, tem uns tipos, como é que chama lá? Ariranha [lontra gigante], jacaré, tartarugas. Então tinha os bichos todos aí do...

P/2 – Jacaré também?

R – É. As lagoas mesmo, lá no alto da serra, têm jacaré dentro.

P/2 – Ah! Isso que eu ia perguntar. Ariranha...

R – Ariranha é um bicho de água também. São lá da região também.

P/2 – Mas algum saiu, assim, em cima de algum hóspede?

R – Não, isso não.

P/2 – Não do zoológico, eu estou dizendo.

R – Não no zoológico fica protegido, né? Mas houve um acidente lá uma vez, uma onça matou uma criança. Uma coisa estranhíssima. Já, depois de ter a vila montada, lá. Então, a história é que os bichos se afastam da região onde o homem está, mas apareceu uma onça um dia lá e havia três crianças, crianças de 10, 12 anos, brincando dentro da cidade, a onça parou e aí, dois dos meninos ficaram parados e um saiu correndo, aí a onça correu atrás do que correu...

P/2 – E pegou.

R - E pegou o menino. Aí foi um trauma tremendo lá, né? Tivemos que construir uma cerca em volta da cidade, uma cerca enorme de quatro metros de altura, só tem, então, aberta a entrada onde passam os carros e, mesmo assim, fica um guarda com uma espingarda, cartucheira, lá pra vigiar pra onça não entrar.

P/2 – Uma cidade cercada de grades?

R – Grades de quatro metros de altura.

P/2 – Isso ainda existe lá?

R – Existe. Isso aí foi uma coisa que... E eram assim, as onças da região tinha sempre também. A Vale dava bolsas de estudos pra pessoas fazerem pesquisas e estudos lá. E um dos trabalhos era estudar os hábitos dos felinos, né, então eles pegavam as onças, colocavam um “transmissorzinho” pendurado no pescoço, uma coisa assim, e monitoravam por voos de avião ou de helicóptero, né? Monitoravam por onde que elas andavam, o tanto que elas andavam a cada dia, como é que eram os pontos de caça, de beber água. Fazia um estudo disso. E, isso aí, nunca mostrou que elas voltavam pra perto da cidade não, né? Então quando houve essa coisa aí, foi necessário, né, o pessoal todo ficou com muito medo. Você tinha muitas famílias morando lá, né, tinham umas 5 ou 6 mil pessoas morando lá nessa vila. Os operários e as suas famílias, quer dizer, com criança e tudo, né?

P/2 – E extravasou para a imprensa?

R – Ah! Sim. Na época, deu um... E foi uma coisa terrível, realmente, né? Um choque tremendo. Então a solução seria essa.

P/1 – Até então era cerca viva?

R – Não tinha uma cerca realmente, não se achava necessário ter uma cerca. A cidade era iluminada à noite inteira e tal, tinha barulho de trânsito de caminhão, de carro, de coisa assim. Os bichos, normalmente, se afastam, né? Chegaram, o pessoal de estudo chegou a uma conclusão que esse aí era um animal já muito velho, já meio doente, então ele não conseguia ir pra longe e caçar os bichos silvestres. Então, ele vivia de comer coisa de lixo, coisas desse tipo, por volta ali da cidade. E esse não tinha sido detectado, né? E aí atacou essa criança.

[Pausa]

P/2 – Isso faz muitos anos?

P/1 – Vamos fazer uma “pausinha” só, Marina?

R – Beber uma aguinha aqui.

P/2 - __________. Faz muito tempo que aconteceu isso?

R – Isso deve ter, talvez, uns dez anos. Vocês já foram lá a Carajás?

P/1 – Não, a...

[Pausa]

R – O Breno deve ter sido muito engraçado, porque o Breno tem milhares de histórias, né?

P/1 – Maravilhoso.

P/1 – Então, seu Gazolla. Queria perguntar pro senhor como é que foi essa montagem desse, do “staff” [equipe] de Carajás, como é que se montou essa equipe pra dar o “startup” [começo de algo] e começar esse processo todo?

R - Hum, hum. Nós nos baseamos, um pouco, nas equipes que já existiam no Sistema Sul, levamos alguns gerentes pra lá e, desde o começo, nós nos preocupamos de montar lá uma estrutura bem mais enxuta, né? E já tentando obter alguma coisa que desse um nível de produtividade mais alto que o nível normal da Vale, que já era um bom nível no Sistema Sul, né? Isso porque Carajás tinha uma distância de transporte muito mais alta entre a mina e o porto, o que encarece bastante o custo de produção do mineiro até embarcar no navio. Então, nós tínhamos que tentar fazer uma coisa mais produtiva que o Sistema Sul. Já montamos equipes muito enxutas, baseada em gente muito boa, em gente muito capacitada, realmente, do Sistema Sul e fizemos também isso pros cargos “Seniors” e médios, assim, né? Pros cargos de nível universitário Júnior, nós fizemos uma seleção ampla nas universidades na região Norte, né? A Vale já tinha experiência também de fazer esse tipo de coisa no programa de “trainees”, né, onde se pegava pessoal de excelente nível. Um dos exames lá, não esse pra Carajás, que eu não me lembro dos números, uma das seleções pra “trainee” na Vale chegaram [a ter], assim, 16.000 candidatos e nós admitimos 100 pessoas. E essas 100 pessoas faziam um curso de aperfeiçoamento e também de conhecimento dos sistemas da empresa, um estágio geral na empresa. Depois eram alocados pra trabalhar nos diversos setores. Então, pra Carajás também, nós fizemos um curso, chamava ”Programa de Capacitação de Executivos Pra Carajás”, então o pessoal “Júnior” foi pego dessa forma, né, o pessoal das universidades, das melhores universidades da região do Projeto. E deu muito certo, porque pegamos gente de bom nível, trouxemos pro Sul, fizemos estagiar nas nossas operações existentes, né? Treinamos o pessoal e voltamos com eles pra lá, então eles assumiram as gerências de menor nível, né? Muitos deles ascenderam e chegaram a níveis altos dentro da empresa em pouco tempo até, era realmente uma turma boa. Fizemos dessa forma, a turma gerencial de “staff” lá, né?

P/1 – O senhor ficou nesse Projeto Carajás até que ano?

R – Até 86. Já estava ajeitado, funcionando.

P/1 – Tudo prontinho, né?

R – É.

P/1 – O senhor foi na inauguração e tudo?

R – Claro. Todas as cerimônias que tinham lá. Tivemos várias porque, primeiro, inaugurou o trem de minério, começou a rodar antes da mina. Eles tinham uma planta piloto lá também, né, que tínhamos feito uma série de testes lá, aproveitando essa planta piloto pra produzir as amostras em grande escala. Tinha que encher navios pequenos e levar para as siderúrgicas antes do Projeto começar a operar e vender comercialmente para as siderúrgicas fazerem os testes com o minério. Então, assim que a ferrovia ficou pronta, que ela ficou um ano e pouco antes da mina, né, nós já tínhamos minério, feito nessa usina piloto pra descer. Então foi feito uma inauguração da ferrovia Carajás, inauguração do Porto, inauguração da Mina. Teve várias solenidades lá. A inauguração da mina também foi um programa de logística daqueles: botamos 800 convidados lá dentro, tinha uns dez jatos. Gente estrangeira que veio pro Brasil, veio pelo Rio e daqui foi pra lá. Gente do Brasil inteiro, convidados, né? Fizemos uma festa lá, dessa com tudo cronometrado, presença do Presidente da República, vários ministros e também usamos isso como um “marketing” pra mostrar que está no meio da Amazônia, mas funciona. (risos) Então, tudo certinho, festa com horário pra começar, horário pra terminar, almoço pra todo mundo. Cerimônia bonita lá do minério caindo dentro do vagão, o vagão saindo, o foguetório. Um negócio bonito. Depois, outra cerimônia pra encher o primeiro navio de minério. Tivemos várias inaugurações lá.

P/1 – Festinhas é o que não faltou. (risos)

R – É. E eram merecidas, né, porque, realmente, o Projeto era um negócio fantástico.

P/1 – Doutor Gazoll. E Serra Pelada, como é que foi?

R – Serra pelada rodou, mais ou menos, simultaneamente, com a obra de Carajás, né? Tivemos até um incidente uma vez lá por conta disso, porque [a] Serra Pelada era uma descoberta de minério, de ouro, feita pela Vale e foi invadida. O governo, na época, optou por não coibir aquilo, então o governo acabou desapropriando a jazida da Vale, porque a jazida pertence à União. O minério pertence à União, mas se você já tem o direito de lavra, você tem o direito econômico ali, né? Então o governo desapropriou esse direito, indenizou a Vale no que ela ia perder ali, né, e considerou que era uma questão social. Chegou a ter 60.000 pessoas lá na Serra pelada, né, e deixou aquilo funcionar daquele jeito lá. Quando começou a se esgotar o ouro, fácil de ser retirado, começou a desmoronar, e quando chovia, enchia de água; começou a acabar a condição de fazer lavra pro sistema de garimpo. Então o governo interditou o lugar e começou a esvaziar, né, e o pessoal se rebelou. Um dia, pra pressionar o governo pra reabrir a área de garimpo lá, o pessoal invadiu o Carajás. Então, chegaram lá, foi estimado 1.200 homens, queimaram a cadeia, a prefeitura daquela tal cidade que nós fizemos lá embaixo, em Parauapebas, né?

P/1 – Queimaram?

R – Queimaram tudo. Começaram a quebrar tudo lá e iam subir pra invadir a serra, né? Nós cercamos a estrada, botamos um trator no meio de uma ponte lá, chegamos a botar dinamite na ponte pra dinamitar a ponte se fosse necessário, né, pra impedir que o pessoal chegasse, porque tinha gente com família lá em cima, né?

P/1 – Foi uma operação de guerra?

R – Operação de guerra. Chegamos a fretar dois “Boeings”, pedimos [a] polícia militar do Pará, entramos com mandado judicial, esses negócios todos, né? E eu mesmo estava no Rio, fui pra lá de jatinho e de lá, acertamos esse esquema de levar a polícia. Nós chegamos a transportar 400 soldados de polícia pra lá. E aí, tínhamos helicópteros lá em cima. Eu subi num helicóptero com um comandante da polícia, né, um Major que tinha uma cicatriz, assim, que passava em cima do olho e vinha até aqui assim. Um “scarface” daqueles, né? Então subi com ele de helicóptero, mostrei lá, e falei: “Olha, o pessoal está ali. O acesso é por aqui, tal. O senhor agora está na sua mão. O senhor defende o pessoal [de] não vir aqui, porque nós não temos como evacuar o nosso pessoal todo.” Que era muita gente. O sujeito teve um comportamento, assim, de enfrentar o pessoal, que eu fiquei impressionado de ver, porque tinha televisão filmando também por ali, por trás onde estava o rio, né? Então tinha uma fila de policiais ali, esse major foi lá pra frente e no grito lá com os invasores, tudo de foice na mão, aquele pessoal já meio embriagado e coisa assim. Xingamento de mães a mães de ambos os lados. E um cara: “Sai da frente que nós vamos invadir!” E o cara falou: “Quem der um passo pra frente, eu fuzilo!” E ficou aquela coisa, os policiais com as espingardas ali, a gente vendo na televisão, e falei: “Nossa Senhora! Tomara que não saia uma carnificina aí, né?” Mas sei que acabou... Ah! E tinha um, quando esse major chegou, os invasores tinham sequestrado o comandante que estava antes, que era um Capitão que estava com a primeira guarnição que chegou, né? Ele foi parlamentar com eles lá e eles sequestraram o sujeito. Então, um bocado do papo lá era pra devolver o comandante. Enquanto não devolvesse o comandante, ele não conversava e foi, endureceu mesmo, conseguiu se impor e não precisou dar nenhum tiro, né, mas foi um negócio de uma tensão enquanto demorou um bocado pra conseguir botar a polícia lá, né, porque teve que mobilizar o pessoal, pegar arma, munição, esse troço todo, entrar nos aviões pra vila. E o nosso pessoal estava lá com as famílias deles. Então falamos: “Vamos arranjar um jeito de nos defender aqui, se não der tempo da polícia chegar.” Então chegamos a pegar caminhão e deixar só um buraquinho, transformando o caminhão num tanque de guerra. Aquele caminhão é um monstro, ele tem um pneu de três metros de altura, né, ele pega uma estrada inteira. Tem sete metros de largura o caminhão, né, então nós, essa estrada que era asfalto, que subia de um lugar que era um corte na estrada num morro, então mal passava o caminhão. Nós postamos o caminhão tanque, feito ali desta forma um pouco antes, né, com um motorista voluntário. Se o pessoal entrasse mesmo, ele ia tocar o caminhão em cima.

P/1 – Ia jogar o caminhão em cima.

R – 1.200 homens? Eles já tinham feito uma quebradeira terrível lá embaixo, uma arruaça terrível. “Pô, esse pessoal vai subir aqui em cima, cheio de família, de criança aqui. Vai ser uma confusão dois.”

P/2 - __________________________________

R – É, não aconteceu nada. Não houve nenhum, ninguém se machucou nem nada. Eles chegaram, o pessoal se afastou, eles quebraram tudo e foram avançando, né? Outra coisa que o pessoal tinha se preparado também, porque numa mina você usa dinamite também pra produção da mina, então não tinha arma nenhuma lá em cima não. Na própria vigilância, só tinha arma de espingarda de caça, assim, pra vigiar contra bicho. Então o pessoal também, várias pessoas se ofereceram como voluntários, então foram preparando aquelas bombas de dinamite que você amarra várias bananinhas, põe e estopim, né? O pessoal ia ficar na beirada das estradas, nos pontos altos, pra [caso] se o pessoal invadisse [pra] bombardear, né? Chegamos a preparar pro pior, por sorte o “scarface” lá [Major] conseguiu convencer o pessoal que ia ser fria se eles tentassem. (risos)

P/2 – E eles foram embora?

R – Foram, se dispersaram e foram embora e tal. O governo não cedeu, não reabriu a área de garimpo.

P/2 – Mas espera um pouco, eles foram invadir Carajás...

R – Como uma maneira de pressionar o governo, para o governo liberar de novo a lavra garimpeira em Serra Pelada. Que não tinha condição, né, inclusive, chegou a morrer muita gente lá por causa dos desabamentos, quer dizer, acabou a condição de fazer uma lavra manual, né? Depois já estava um buraco tão fundo com as paredes tão altas, que começava a desmoronar, né? Então não tinha jeito mesmo.

P/2 – E ainda tem ouro?

R – Lá tem. Depois que saiu esse pessoal, a Companhia continua pesquisando lá, né, mas ainda não conseguiu acertar uma nova mina no local. Está em pesquisa ainda.

P/2 – Se descobrir outra, de repente, esse pessoal volta e invade de novo, é isso?

R – É sempre um risco.

P/2 – Tem que ser sigilosa a...

R – É, quando se procura ouro é sempre um risco isso aí, né? Mas aí agora a situação já é outra, na época, era uma época de exceção no país também, então não tinha...

P/1 – Que tipo de relação o SNI ou a Segurança Nacional interferiu no Projeto Carajás? Houve algum tipo de interferência desses órgãos de segurança?

R – Não havia, assim, um apoio, né, porque isso aí era uma forma de ocupação na Amazônia também, né? Então esses setores se preocupam com esse tipo de coisa também, né, então tinha um apoio sim.

P/1 – Mas não uma interferência quanto a rumos, nada disso?

R – Ah! Não. Aquilo foi feito de uma maneira técnica, empresarial, econômica, né?

P/2 – Eles apoiavam?

R – Apoiavam. Achavam ótimo que tivesse. Tinha, naquela época, o Projeto Calha Norte, que é mais ou menos da mesma época também. Então qualquer coisa que fosse ocupação na Amazônia, era bem vista pelo governo na época.

P/1 – Aí o senhor saiu de Carajás?

R – Aí fui ser presidente da Docegeo. A Docegeo fazia pesquisas aí no Brasil inteiro, né? E foi uma época interessante da minha vida essa também. Carajás foi, talvez, assim, ao longo de toda a carreira que eu tive na Vale, foi a coisa mais pujante [poderosa] e diferente que houve. Fora o tempo de direção da empresa, onde teve a privatização da Vale, que também foi outra coisa muito grande, né? Na Docegeo foi um trabalho que eu achei muito interessante. Como eu estava falando, o geólogo é um cientista. É um pouco diferente você gerir um trabalho meio científico, então eu achei que foi uma experiência muito interessante. Um pessoal de altíssimo nível de inteligência e muito dedicado, trabalhando em situações mais precárias, pelo meio do mato e coisa assim. Um pessoal ligado direto à natureza, então é uma figura humana diferente o geólogo, né? O geólogo que realmente trabalha nisso, pratica isso aí, né? E enquanto engenheiro, a gente está mais ligado diretamente ao resultado das coisas e isso aí pro geólogo, o próprio encontrar uma jazida, assim, já é o objetivo ali dele. Pra nós [engenheiros], a jazida tem que ser economicamente lavrável, senão não chega a ter o mesmo interesse pra nós. Então tinha um pouco, assim... No início, foi um pouco difícil, houve um certo choque, porque eu estava com a missão de produzir ali uma coisa mais, que desse resultado mais a curto prazo. Fosse mais objetivo, assim, em termos de retorno econômico, e eu gastei um certo tempo pra entender como é que era uma cabeça de geólogo. Achei uma coisa bastante diferente. Foi um trabalho então muito fora do meu habitual, né, eu gostei muito de fazer e acho que fomos bem sucedidos. O próprio pessoal, no início, tinha medo de mim, né, (risos) mas depois eles viram que a intenção era boa e que a coisa ia dar certo ali. E a Docegeo também, ela ficava um pouco isolada da própria Vale, então colocar lá uma pessoa da Vale mesmo, de carreira toda ligada à Vale, facilitou também [o] entrosamento com a própria empresa e conseguir convencer [a ganhar] maiores orçamentos. Porque ela viva de um orçamento que era dado pela Vale, que definia quanto que ela queria gastar de pesquisa naquele ano, né?

P/2 – Mas essa Docegeo só trabalhava pra Vale?

R – Só. Era a empresa de pesquisa da Vale.

P/2 – E nesse tempo que o senhor esteve lá,  ___________ engenheiro, que resultados encontraram?

R – Nós conseguimos viabilizar logo [a] mina de ouro e de caulim, quer dizer, a Vale veio com uma certa diferença de orientação, né, de pesquisar coisas que dariam pra ser implementadas, e caulim era uma delas. A gente sabia da possibilidade de caulim na região Amazônica, mas não tinha ainda uma coisa específica. Aí centramos os trabalhos nisso aí também e descobrimos mina de caulim. Teve até um fato engraçado: na minha lua de mel eu fui pra Porto Seguro e aí já estávamos com essa incumbência de achar caulim. Fui naquele lugar que chama Lagoa Azul, se não me engano.

P/1 – Do barro.

R – É. Da lama [na Lagoa Azul tem banho de lama]. A hora que eu estou olhando aquele troço, eu falei: “Mas gente, isso aqui é caulim!” Falei: “Pô, mas será possível? E ninguém sabe? Esse troço aberto, tal, tanta gente já veio por aqui e ninguém sacou que isso aqui era caulim?” Aí nós fomos de “buggy” até uma certa distância, depois fomos a pé pela praia. Então eu tinha levado só uma garrafa de água, pra ir bebendo pela praia. Aí falei com a minha noiva lá: “Vamos beber esse resto de água que eu preciso dessa garrafa aí.” (risos)  Bebemos a água toda, né, peguei umas amostras lá, enchi a garrafa de amostras do negócio e voltei, quer dizer, continuamos a lua de mel. Quando retornei, né, aí chamei o pessoal que mexia com caulim, falei: “E lá na Bahia, vocês já pesquisaram alguma coisa?” “Ah! Tem algumas ideias, algumas noções, não sei onde.” “Mas, é, assim, em tal lugar assim? “ “Não, não sabemos de nada.” “Mas não é possível. Olha nas referências bibliográficas, não sei [o] que é. Pesquisa aí e tal.” Daí uns três dias, voltaram pra mim: “Não, não temos assim nada mais certo, não.” “Então toma essa garrafa aqui e manda examinar.” Era caulim do bom! (risos)

P/1 – Era caulim do bom. (risos)

P/2 – Meu Deus! (risos)

R – Aí a Vale requereu até uma área imensa de pesquisa em volta, fez uma pesquisa lá e...

P/2 – O que é que era a aparência desse material?

R – É uma argila branca.

P/2 – Hum.

R – Bem branca mesmo. Tem um pouquinho de areia no meio, mas a areia tem que ser até retirada no processo. Então eu nem na lua de mel parei de trabalhar, né? (risos) Foi a única vez que um presidente da empresa achou uma jazida, né, (risos) diretamente.

P/1 – E não era geólogo. Deve ter causado uma ciumeira brava.

R – Lógico! Eu aproveitei pra burro. Falei: “Está vendo, ó? Precisa arranjar engenheiro de minas aqui pra achar jazida sem gastar dinheiro. Por minha conta, vocês podiam, pelo menos, pagar minha lua de mel agora. (risos) Me dar uma ajuda de custo, aí. (risos) Descobriram ali. “Quero que punha o nome da minha mulher na jazida aí, se der alguma mina.” (risos)

P/2 – Mas deu a mina?

R – Ela foi pesquisada longamente depois e aí se chegou à conclusão que a qualidade do caulim gastaria um dinheiro grande pra transformá-la em qualidade comercial, então eu não sei até, no momento, agora, se ainda temos alguma área. Ficou ainda com requisição de lavra lá.

P/2 – Onde é esse lugar?

R – Em Porto Seguro.

P/2 – Porto Seguro.

R – É, logo pra baixo, ali, entre...

P/1 – Entre Arraial e Trancoso.

R – Porto Seguro e Trancoso, ali.

P/2 – Está certo.

R – É uma área... O lugar é conhecido porque é a Lagoa Azul. Ela é azul, porque o fundo é todo branco por causa do caulim, né, e reflete o céu, então por isso que fica azul. Era um lugar turístico.

P/1 – Mas acho que hoje está meio devastado pelo turismo, né?

R – Possivelmente. Eu fui lá 15 anos atrás. 

P/2 – Mas aí o senhor estava contando que a pesquisa resultasse em uma jazida de ouro também?

R – É. Achamos uma jazida de ouro de boa qualidade, está em lavra lá perto de Carajás mesmo.

P/2 – Ah! Sim.

R – É. E aí, o que eu agi mais foi de organizar um pouco mais gerencialmente a Docegeo. Cuidei também da informatização da empresa, que ela estava muito defasada nessa questão, né? Atualmente, ela tem esquemas mais atuais de informática. Então esse tipo de coisas... Eu, por ser da Vale, tinha mais facilidade de convencer o pessoal de direção, da época, da empresa na necessidade de se investir nisso. Então o pessoal que, no início, [se] assustou um pouco comigo lá, depois acabou gostando.

P/1 – Que tipo de mudança gerencial que teve que você tenha implantado?

R – Porque o geólogo mesmo, ele não é um administrador nato. Um engenheiro, ele pode ser um engenheiro só de projeto, lógico, daquele que fica na prancheta que também não é. Mas não era o caso da gente na Vale, a gente ia logo ser gerente das coisas, administrador. Então a parte, assim, de produtividade das máquinas, de furar sondas, as aberturas a trincheiras e tal, foi coisas onde eu bati bastante pra dar uma visão mais gerencial nisso aí, e aumentar a produtividade e cumprir os cronogramas, os orçamentos, né? Então, isso, a pesquisa geológica, é um troço que você não pode estimar quando é que vai sair o resultado. Você está procurando uma agulha em um palheiro, só que você não sabe se tem agulha. Então, é um negócio difícil. Você está procurando, você pesquisa um ambiente geológico onde é possível que haja o mineral, né? Então, e se tiver, ainda tem que ser econômica, não é, economicamente lavrável. Você não tem como fazer a coisa dar mais resultado. Consegue atuar nos meios. Se pra achar alguma coisa, eu tenho que fazer vários furos de sonda, quanto mais furos de sonda eu conseguir fazer, se a região for propícia, maior a chance de eu encontrar, né? Eu atuei nessa linha daí. E, também, uma outra linha que eu implantei lá, foi a da, eu não usava essa palavra, porque ela era chocante pro pessoal: era uma auditoria geológica.

P/1 – Dava arrepio. (risos)

R – É. Então, é muito comum. O sujeito desenvolve um modelo, então ele pensa que mineiro pode estar assim. Então ele vai furar pra ver se localiza e a pessoa pode tender, isso é humano, que aconteça, [de] não estar dando resultado e o cara continuar insistindo na mesma linha porque ele não quer abrir mão do pensamento que ele teve, né? Então eu inventei uma maneira cruzada de pegar outros geólogos experientes e eles avaliarem cada projeto, pra ver se valeria a pena continuar investindo naquela ideia, naquela alternativa, naquele modelo, ou se era melhor procurar um novo modelo ou abandonar a área, né? Porque o sujeito que está com a área, ele quer achar alguma coisa, ele acredita que tem, né? Então, às vezes, passava do ponto de investimento, já estava gastando dinheiro demais naquilo e não estava resultando. Para aquilo, deixa a tecnologia evoluir pra você poder analisar aqueles dados sob outra forma, então aí vai mexer com outras áreas, né, coisas desse tipo, que eu fiz lá, né, mais gerenciais, porque, como não sou geólogo realmente, eu não podia ensinar o padre nosso pro vigário lá, mas eu podia cuidar de aspectos gerenciais. Foi o que eu fiz. E eles acharam interessante, porque era uma forma que nunca tinha sido usada na gestão da Docegeo, né?

P/1 – E lá, o senhor trabalhava sediado aqui no Rio? Como é que era esse...

R – Aqui no Rio, porque a diretoria era aqui no Rio. Ela tinha pesquisa no Brasil inteiro, então não tinha sentido você ficar em nenhum lugar, porque era gente espalhada no Brasil afora. Tinha três centros regionais, que eram Minas Gerais, Bahia e Carajás, e esses centros comandavam as sub-regiões. Então a gente ficava aqui no Rio mesmo.

P/1 – E foi nessas, foram essas regiões que aconteceu esses dois acidentes com o senhor?

R – O outro incidente, foi as duas vezes que eu corri risco de vida. Essa do helicóptero que o Breno já relatou aí, né? Fizemos pouso forçado na mata lá. Naquele dia, eu devo ter tomado mais de 500 mordidas de carrapatos e pernilongos. Saí de lá todo empolado. Passamos a noite no meio do mato mesmo. Mas essa, quer dizer, a noite não foi o problema, o problema foi conseguir descer com o helicóptero, né, fazer o pouso forçado no meio de uma tempestade. Aí passou o risco, então foi só o desconforto de passar uma noite no meio do mato. Doze pessoas dentro de um helicóptero, a gente revezando e chovendo ainda por cima. Então uns desciam e ficavam embaixo do helicóptero pros outros dormirem um pouco, né? Sem comida também. E no outro dia conseguimos sair. Então passou...

P/2 – A hélice pegou nas árvores?

R – Não. Nós achamos uma clareira, e depois, no dia seguinte, quando decolamos, nós vimos que tínhamos achado a única clareira que tinha na região também.

P/2 – Que sorte.

R – É. Senão... O piloto chegou a falar isso: “Eu vou descer uma copa de árvore, e aí a gente vê como é que fica, né?” (risos) Pra não cair. Estava acabando o combustível também, né, ele não podia mais ficar voando.

P/2 – Conseguiram pousar no chão?

R – Conseguimos pousar no chão. Meio torto, mas ficou ali, né?

P/1 – O que é que era, vocês estavam levando visitantes?

R – Nós estávamos levando uma diretoria da Petrofértil pra tentar convencê-los a comprar uma jazida de fosfato que a gente tinha, que até hoje não se conseguiu viabilizar economicamente essa jazida não. É na região de Monte Alegre, estado do Pará. Então foi no retorno. Eles já tinham ido, olhado e tal. No retorno, que deu o problema, fomos pegos por uma tempestade e ficamos com o combustível a quase zero lá.

P/2 – Aí, depois, conseguiram levantar vôo?

R – Aí nós levantamos, ultrapassamos a serra. A gente não conseguiu passar, porque tinha uma serra e o teto baixou demais, né, e o piloto falou: “Se eu passar por cima, depois eu não posso descer, porque eu não sei onde é que está a serra.” O helicóptero não tinha radar, essas coisas, né? Era preparado para voo visual só, né? Então ele falou: “Não posso ficar rodando por aqui até esperar a chuva parar, porque o combustível vai acabar.” Então, de repente, deu um problema lá que ele ficou... A nuvem fechou, né? Ele falou: “Agora, eu tenho que descer agora.” Um olhou: “Olha, uma clareira!” Aí, “tchum”, foi pra lá, né? Mas ele fez um movimento, que depois é que ele nos explicou, chamado pêndulo. Ele fez, levantou o helicóptero assim e ele entrou em (estolo?), né? Aí começou a cair, ele perde a sustentação. Começou a cair pra trás, pra baixo. E nessa caída, ele virou 180° e virou de ponta pra baixo. Aí ele pode voltar pelo mesmo caminho que ele tinha entrado, porque ele não podia fazer aquela manobra de...

P/1 – Não tinha nem espaço.

R – Ele não sabia, a nuvem fechou. Nós estávamos no meio de uma serra, né? Então ele fez assim, deixou cair [o helicóptero], virou, aí ele voltou pelo mesmo lugar, mas quase arrancou a cabeça da gente fora. Você imagina uma virada assim de 180° sem você estar esperando, né?

P/1 – Porque ele nem avisou que ia fazer isso.

R – Não deu tempo! Não deu tempo. Era um piloto super experiente realmente, ele fez o que tinha que ser feito, né? (risos) Mas isso aí, o Breno já contou. Outro aperto terrível que nós passamos foi saindo de uma mina de ouro lá na Bahia. Estávamos numa caminhonete, daquelas [de] cabine dupla, com seis pessoas. Motorista, eu e mais quatro colegas. E, de repente, uma chuvinha. Eu notei ele reduzir a velocidade e ficar meio agitado, né? Aí perguntei: “O que é que está havendo?” Ele falou: “Estou achando estranho, tem um carro de polícia atrás piscando o farol.” Eu falei: “Então encosta e para, vamos ver o que é que é.” Né? Aí parou, baixou o vidro. Chovendo. Ele pôs a cabeça pra fora e começou a gritar: “Não atira! Não atira! Não Atira!” E botou as duas mãos para fora. “Meu Deus do céu! O que será isso, né?” Aí em seguida, chegou um oficial da polícia com mais um policial, com uma metralhadora na mão. Apontou pra nós e falou: “Desce todo mundo aí calado e de mão pra cima!”  Falei: “Caramba, o que será isso?” Descemos, mão pra cima. Quando nós descemos, vimos que o carro da polícia era daqueles “caminhãozinhos” que tem aquele banco longitudinal, né? Já senta um guarda de cada lado, assim, formando um semicírculo. Atrás de nós tinha uns 15 a 20 policiais. Quando nós descemos, eles fizeram aquele barulho de engatilhar as metralhadoras: “cleque”, “cleque”, “cleque”! Falei: “Nossa Senhora! Se alguém piscar ou mexer em movimento brusco aqui, esses caras atiram.” Aí falou: “Calma, calma. Isso é algum engano! Nós somos pessoas da Vale do Rio Doce, acabamos de sair da mina aqui da empresa. 10 quilômetros pra trás, aí. Isso é algum engano. O que é que o senhor está querendo?” Aí, e o pessoal lá: “Cala a boca!” Aquela coisa de tensão mesmo. “Se identifique, e tal.” Com muito jeito, ele pegava a carteira, levinho, assim. “Aqui, minha identidade de funcionário da Vale.” Então o motorista estava uniformizado, né? O carro tinha na porta escrito, né? Falou: “Olha, senhor. É algum engano aí. O senhor não está nos procurando. Aqui não. O que é que houve? E tal.” Aí o sujeito olhou e viu que realmente não tinha nada a ver, né? E simplesmente virou pra tropa dele, falou: “Pode baixar as armas aí.” O pessoal baixou e ele falou: “Olha, vocês [me] desculpem. Podem ir embora que não é com vocês não.” Eu falei: “Ah! Peraí, pô. Conta pra nós esta história, porque é que aconteceu isso?” Já existia, na região, um grupo de bandidos assaltando diversas fazendas, chamavam-se “Os Novos Lampiões”. Estava a mais de ano já operando ali no interior da Bahia. Então ele disse que tinham recebido uma chamada que um grupo desse tinha assaltado uma fazenda ali na região e tinha roubado uma caminhonete igualzinha a nossa, branca com cabine dupla. E quando ele estava indo fazer a investigação, cruzou conosco na estrada. Ele achou que tinha localizado os bandidos, né? Deu meia-volta e veio atrás. Nós saímos dali, entramos no carro e fomos embora. Uns 15 minutos sem ninguém falar uma palavra no carro. (risos)

P/1 – Aquele silêncio no carro, né? (risos)

R – Foi um susto daqueles, mesmo. (risos)

P/1 – O senhor estava contando. Nesse período, então, o senhor casou quando estava na Docegeo, também, não foi?

R – Sim, foi.

P/1 – Como é que o senhor conheceu sua esposa...

R – Aí não teve nada a ver com a Vale, não. Eu a conheci em Belo Horizonte. Não houve nenhuma ligação com a empresa aí, nisso não.

P/2 – E depois, na continuidade, né, depois dessa empresa, Docegeo. Qual foi a sua ________

R – Depois eu vim ser presidente da Valesul Alumínio, aqui em Santa Cruz. Aqui na cidade do município do Rio de Janeiro. Lá trabalhei uns dois anos também.

P/1 – Que ano?

R – Em 88, 89. Acho que início de 90. Da Valesul fui ser presidente de uma outra empresa de alumínio que a Vale tinha, essa, sediada lá perto de Belém do Pará: a Albras [Alumínio Brasileiro S.A.] É uma empresa quatro vezes maior do que a Valesul. Na Albras, o que nós tivemos lá de mais... Bom, lá quando eu cheguei, a empresa estava sendo duplicada, então eu terminei a obra de duplicação da empresa, né? Fizemos a partida da nova fase. Em seguida, ocorreu um acidente que é o acidente mais grave que pode ocorrer em uma indústria de alumínio: uma falha de energia elétrica de longa duração. A indústria de alumínio, ela tem diversos fornos, pequenos fornos. E se ele ficar mais de seis horas sem energia elétrica, ele congela. Aí você não tem jeito de partir o forno de novo. Você tem que desmontar, retirar todo o material, refazer o forno e aí por energia de novo. Começar aos pouquinhos e ir depois enchendo. Ele fecha completamente, você não tem mais passagem de energia. Aí foi uma daquelas operações de guerra também, de tentar minimizar os prejuízos e repartir a indústria. Levamos aí uns quatro meses com toda essa parte. Parou quase tudo. Dos 850 fornos que tinha lá, uns 400 foram afetados. Metade da fábrica parou. Então, isso aí, foi uma operação daquelas até de unir o pessoal todo em torno daquilo, né? Você vê aqueles casos de heroísmo, aquelas coisas de extrema dedicação do empregado à empresa. Todo mundo se uniu e conseguiu repartir num tempo recorde até e com prejuízo limitado, né?

P/1 – Houve essa união mesmo, né?

R – É Impressionante a união do pessoal em torno de empresa, né? Realmente, nessas horas.

P/2 - Sem foi assim? O pessoal veste a camisa?

R – É. Isso é muito bom na Vale, né?

P/2 – É uma cultura da empresa, mais ou menos.

R – É. A empresa trata bem o pessoal e eles retribuem realmente. O tempo todo que eu trabalhei na Vale, a gente sentia isso como muito forte. Não é o corporativismo, não. É o “Esprit de corps” [consciência de grupo] né? O pessoal realmente gostou da empresa e [de] trabalhar com afinco, mais do que precisaria em uma situação normal, né? Dedicado mesmo à empresa. Então, numa hora dessas assim, de grande dificuldade, é que você sente isso com mais presença, né?

P/2 – Pode contar com todo mundo?

R – Pode contar. Tem sujeito que ficava, assim, três dias direto. 72 horas sem dormir e sem sair da fábrica, mexendo nas coisas, arrumando e tal. Assim, de você até ter que ter, que dizer, [dizer] pro sujeito: “Não, agora não. Agora você vai embora, vai dormir e tal. Depois você volta e tal.” O sujeito queria ficar ali, queria consertar tudo. É interessante isso. Isso é bom de se ver também, né?

P/2 – Sem nenhuma pretensão a ganhos?

R – A empresa depois retribui. Então, se calculou um prêmio pra cada um, dependendo [do] empenho que cada um teve, do números de horas que deu. E se fez um prêmio. Mas não era esse o objetivo do cara.

P/2 – Claro, claro.

R – Isso aí foi só um reconhecimento que foi feito ao trabalho extra deles.

P/2 – E aí, quer dizer, vai se construindo esse relacionamento, é uma mão dupla, né?

R – É.

P/2 – O empregado se dedica, a empresa...

R – Retribui.

P/2 – Retribui, né, ele...

[Pausa]

P/1 – Até quando o senhor ficou na Albras?

R – Eu fiquei até 93. Aí em 93, o Schettino assumiu a presidência da empresa, né, e eu tinha trabalhado longos anos com ele lá em Itabira, mesmo aqui no Rio, quando ele veio pro lugar do João Carlos Linhares, né? E aí, ele me convidou pra fazer parte de diretoria com ele também e eu estava na Albras. Fui ser o diretor de metalurgia, que era o diretor que cuidava exatamente dos negócios de alumínio. Eu já tinha passado pela Valesul e pela Albras, né? E também dos negócios de aço e ferro ligas, que aí a empresa também já tinha participado também do programa de privatização e comprado participações. Já tinha a Usiminas, e... É, já tinha a Usiminas e depois que eu entrei, a Vale ainda fez, participou na privatização da CST [Companhia Siderúrgica de Tubarão], da CSN [Companhia Siderúrgica Nacional] e da Açominas. Essa área também, eu que olhava pra Vale, né? Então, tinha ali um chapéu duplo: porque eu era, ao mesmo tempo, diretor da “holding” [empresa que detém a posse majoritária de ações de outras empresas], né, da Vale “holding”. E era também o diretor de área de negócios da Vale, que era o alumínio, e as participações em aço e ferro ligas. Então também foi uma fase muito interessante, porque na parte de alumínio, eu já tinha uma boa exposição, já tinha sido presidente de duas das empresas. E, na parte de aço, eram participações onde a Vale... Então tinham diversos tipos, né? Tinha a siderúrgica lá nos Estados Unidos, onde a Vale tinha 50% junto com a Kawasaki, [empresa] japonesa. Então nós geríamos diretamente a empresa junto com os japoneses na Usiminas. Nós tínhamos uma participação expressiva, mas não éramos do acordo de controle. Tinha outras empresas que tinham o controle, por acordo de acionistas, e nós estávamos no Conselho de Administração também, mas sem fazer parte do grupo controlador. Na CSN, a gente tinha uma participação expressiva. Na CST, idem. E fazíamos parte do grupo de controle, né? [Assim] na CSN, como dentro de um grupo e, na CST, mais diretamente, tinha um comitê gestor, que eu era um dos membros, era o membro indicado pela Vale. Então eu operava muito diretamente na usina, né? Na Açominas, tinha uma participação pequena. Então tinham várias nuances diferentes em cada uma delas. E várias empresas, cada uma com seu mercado, com seus produtos, né? Então foi um período muito interessante pra eu desenvolver a capacidade de relacionamento com outros sócios. Eu era sempre membro do Conselho de Administração dessas empresas e, ali, defendendo os interesses da Vale dentro daquela empresa. E pra isso, tendo que harmonizar interesses com outros sócios, com outros conselheiros ou com a própria diretoria executiva. Aí já entrei em um esquema mais de, aí todas já passaram a ser empresas privadas, né? Então é uma coisa já um pouco diferente, uma gestão de uma empresa privada. Acho que foi uma experiência muito rica que eu tive, também nessa época, né?

P/1 – Obedecia que tipo de estratégia essa participação acionária da Vale nessas siderúrgicas e tal, que tipo...

R – Era sempre o interesse de promover os negócios da Vale, né? Algumas dessas empresas estão ao longo do sistema de transporte da Vale, algumas compram minério da Vale. A CSN era um pouco diferente, ela tem uma outra mina e a gente tinha interesse que essa mina passasse a fazer parte do esquema da Vale. Então sempre tinha uma ligação com o nosso mercado, né? De vez em quando, a gente lê nos jornais aí algum analista dizendo que não tinha lógica essa participação e porque é que uma estatal estava comprando e tal. Mas nós estávamos colhendo o objetivo da Vale como empresa, então como empresa era importante que ela desse esse passo. Então não interessa se parte da propriedade dela era estatal, ela também tinha 49% de acionistas privados. Você tinha que geri-la como uma empresa e o interesse empresarial dela era entrar nesses negócios pra obter maiores ganhos. A lógica via e era muito bem pensada. E té hoje ainda está aí, não foi ainda revista essa coisa. E pode ser naturalmente, né? Ela pode vender participações, pode trocar. Mas está, continuou funcionando da mesma forma até hoje. Já tem três anos da privatização, praticamente. Abril de 97, né? Depois dessa fase de participação, de ampliação da Vale, e foi uma fase muito rica da Vale também, né? A gestão com o Schetino, como presidente, conseguiu talvez os mais altos níveis de produtividade que a Vale teve no seu período como estatal, né? Maiores lucros, maiores investimentos, maiores gerações de caixa, maior aumento de produtividade. Então foi uma época muito interessante também. Era uma diretora muito coesa. Todos conhecidos de mais de 20 anos, então havia uma confiança mútua muito grande entre os diretores. Uma confiança do Schetino irrestrita em todos nós também. Então isso aí facilitava muito o serviço. Não tinha aquelas disputas, ou a necessidade... Você como parte de uma diretoria colegiada, a responsabilidade é de todos. Então, muitas vezes, você está em um lugar desse, você tem que ficar prestando atenção no que os outros vão fazer também porque você também é responsável em última instância por aquilo, né? Lá, a gente não precisava gastar esse tempo porque tínhamos inteira confiança nos colegas. Então era remar pra frente, só. Eu acho que a coisa andou muito bem e foi uma gestão muito boa que a Vale teve, essa com o Schettino. Depois disso, entrou a fase de privatização da empresa. Então o Schetino nomeou até uma comissão pra cuidar mais diretamente do assunto, que era o Anastácio, o vice-presidente, o meu irmão e eu. Naturalmente, toda a diretoria pensava nos assuntos todos, mas essa era, digamos assim, uma comissão executiva. Nós trabalhamos muito em conjunto com o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], na própria formulação da modelagem da privatização, no estudo do valor da empresa também. E se não conseguimos tudo o que a gente gostaria, né, conseguimos uma boa parte. Conseguimos evitar coisas que seriam ruins pra empresa, tipo, se concorrentes ou consumidores passassem a ter o controle da empresa, né? Poderia ser ruim pra empresa em si. Poderia até talvez pagar um pouco mais caro, mas em linhas finais, nós conseguimos convencer o governo disso. Se o governo era o acionista que estava vendendo as ações, nós, diretoria, não nos cabia opinar se devia ou não vender as ações. Isso era problema do dono. Então, o que nós fizemos foi mostrar pro governo formas que não poderiam ser feitas, de maneira nenhuma, porque ainda que, no momento, pudesse causar um aumento no preço, a longo prazo, em termos de geração de impostos de geração de negócios dentro do país, podia ser pior. E a longo prazo o governo perderia com isso, né? Por exemplo, se um concorrente tivesse comprado a Vale, ele poderia, principalmente, um concorrente externo, de outro país, né, a médio prazo começar a privilegiar a operação dele e reduzir aqui. Ou não crescer aqui e crescer só do outro lado. Se fosse um consumidor importante do exterior, né, também, ele poderia começar a usar a Vale [mais] como um centro de custos do que como um centro de lucro, né? Então ele se interessaria mais por manter baixo o preço do minério. Todas essas coisas, nós levamos isso ao governo e tivemos uma posição do governo [de] entender e aceitar essas opiniões, né? Conseguimos também uma participação expressiva dos empregados. Era o tipo do empregado que merecia isso. Não era por espírito de corporativismo, não, mas era um pessoal que sempre gostou de trabalhar na empresa e era importante mostrarmos isso também, que era importante que esse pessoal também tivesse a sua participação no negócio. Então foi uma época... Ah! E fizemos também: andamos pelo mundo afora fazendo uma propaganda da empresa, também mostrando a empresa para os concorrentes todos, procurando criar uma demanda pra que fosse efetivada a venda da melhor forma possível para o governo. Então trabalhamos muito em conjunto com o BNDES, e a coisa saiu, né? 

P/2 – O senhor era a favor ou contra a decisão de dono, do governo?

R – É, a decisão era do dono, né? A gente tinha isso sempre muito, quando alguém contestava alguma coisa, eu falava: “Olha, isso não adianta. Se o dono quer vender e já vendeu siderúrgica.”, que é uma coisa já muito mais evoluída, muito menos básica que a mineração, né? Então não adianta você falar que é contra, porque se o acionista quer vender... É lógico que [talvez] haja uma saída do governo desses meios de produção e a gente achava também, eu achava, pessoalmente, que uma empresa, ela tem uma agilidade maior na tomada de decisões se ela pretender a acionistas...

P/2 - __________ privatizar.

R - ...do que pertencer a um governo. Não faz muito sentido isso. A gente tinha, por exemplo, outras opções também de retalhar a Companhia inteira e vender por partes. Isso talvez desse um rendimento maior, mas também não se sabe se daria ou não. Mas havia opiniões de que daria. E isso, a gente era contra, achávamos que a empresa tinha o porte que tinha, a capacidade de entrar em negócios grandes, porque era um bloco, um conglomerado. Então conseguimos convencer o governo disso também, de não retalhar a empresa. Chegou a haver a ideia de separar Carajás e o Sistema Sul, então, a gente mostrava que isso aí não seria bom pro país. Por exemplo, se o acionista fosse privado, talvez ele fizesse isso porque ele conseguiria mais dinheiro a curto prazo, mas como o acionista era o governo, interessava também pra ele o que é que ia acontecer depois, né? Então mostramos: “Isso aí vai causar uma competição. O pessoal do exterior vai aplaudir pra burro.” Então convencemos o governo disso também, de manter a empresa junta. Tinha ideias de tirar as ferrovias, privatizar separadamente as ferrovias. Nós mostramos que a Vale dependia do sistema integrado, então não tinha sentido ela ficar com uma mina só, comprando frete de uma ferrovia. Ela perderia força competitiva, porque as outras empresas de mineração tinham seus sistemas integrados. Então teve muita discussão filosófica mesmo de como fazer, né?

P/2 – Quanto tempo demoravam essas discussões?

R – Ah! Isso aí demorou acho que uns dois anos.

P/2 – E o senhor acha que ela, foi bem realizado esse negócio?

R – Foi, quer dizer, deu um ágio [lucro] de 20%. Então, em termos comerciais, foi bem feito.

P/2 – Foi __________ avaliada, em sua opinião?

R  - Isso aí é um negócio muito difícil de se dizer. Essa avaliação é feita por um processo técnico, que foi feito de maneira adequada. Alguma coisa, onde nós achamos que não estava bem, nós tivemos a chance de mostrar que aqui pode ser mais, isso aqui é onde a gente conseguiu demonstrar que dava pra ser mais [e] foi aumentado. E quando se faz um leilão, a melhor prova é ver a procura que houve e o ágio que aparece, né? Então se, de repente, um grupo parou de pagar e o outro pagou um pouquinho a mais, é aquilo que vale. Se não, o outro teria pago também, porque todo mundo sabe analisar as coisas, né?

P/1 – Em relação, quanto [aos] auditores: a Merrill Lynch, como é que foi isso aí? Você abriu pra eles?

R – Então, nós abrimos tudo. Mostrou tudo. Eles estavam contratados pelo governo pra fazer a avaliação. Agora a gente discutia as coisas com eles, porque também, como eu falei, né, o pessoal da Vale era bem preparado. Então sabia, também, fazer avaliação e tal. Discutia com eles de mostrar as coisas, né, porque não é tão simples. Você tem que, o sistema de avaliação, você tem que pensar o futuro da empresa. Então, o futuro, você pode: ou vai subir assim ou vai subir assim. Não é uma coisa absoluta, mas nós acreditamos que foi feito de maneira que deu valor.

P/1 – A primeira vez que se começou a falar em privatizar a Vale do Rio Doce, que momento foi esse? O senhor lembra?

R – Assim, no momento, eu não tenho certeza disso, mas foi depois que já havia feito a privatização da Usiminas, por exemplo, né?

P/1 – Já se falava nisso.

R – É.

P/2 – O senhor acha que depois, que agora, antes da privatização e agora, o senhor teria um parâmetro se vai melhor, se vai pior se desatrelando do governo, [se] ficou mais ágil. Como seria isso?

R – Olha, quando, assim também, na preparação para a privatização, outra coisa que nós fizemos foi fazer um plano que a gente chamava de “Plano do Day After”, o que vai acontecer no dia seguinte, né?

P/2 – Sei.

R – Então a gente vinha fazendo antes um, porque era até uma exigência do próprio mercado. Nós vínhamos fazendo antes um programa de aumento de produtividade da empresa, e isso significava usar mais automação, equipamentos de maior porte e uma redução no quadro. Porque quando você usa um equipamento maior, precisa de menos gente pra operar e mais automação, mais informatização, né? Então a gente vinha reduzindo o quadro da empresa, de empregados, pros processos, digamos, mais tranquilos. Você deixava de admitir. Quem se aposentava, você não repunha. De vez em quando, se fazia um plano de demissão incentivada e fomos cortando. A empresa chegou a ter 25.000 empregados e, apesar dele ter aumentado produções, aberto novos negócios, aberto novas minas, feito ampliações, nós fomos reduzindo. Então quando entrou pra privatização, já tinha 15.000. Então reduziu 10.000 empregados ao longo de uns oito anos, mais ou menos. Sete a oito anos. Mas um pouco antes nós paramos de reduzir, porque isso era sempre um atrito com áreas sindicais e coisa assim. Então um pouco antes da privatização nós paramos com isso, quer dizer, continuamos com o movimento de aumentar produtividade, mas repusemos a saída de pessoal pra não causar uma conturbação no movimento de privatização. E aí fizemos o Plano do “Day After”, né? O que é que se teria que fazer imediatamente após [a] privatização. Então a empresa estatal, ela tem alguns controles que ela é obrigada a fazer e que consomem gente, custos e tudo, né? Imediatamente após a privatização, não precisa mais disso. Então onde é que podia reduzir, nós determinados essas coisas. Fizemos o quanto que podia reduzir do represamento que a gente vinha feito, se continuasse baixando, e fizemos os planos de negócios futuros. Na área de alumínio que era a área que eu geria, né, e, portanto, conheço bem melhor. Até hoje, passados três anos, não foi feito nenhuma decisão fora das que a gente deixou planejadas, quer dizer, então, a coisa está tendo a sequência que a gente julgava que era empresarialmente mais adequada. Então, quer dizer, a privatização não alterou isso. Se ela tivesse continuado conosco, nós íamos fazer essas coisas. Então estava planejado. Mas coisas até, assim: Alunorte [Alumina do Norte do Brasil S.A.] tem tantos por cento de ações que deve se vender para um outro sócio e aí buscar o interesse desse sócio em ampliar produção, mas vale mais ou menos tanto. Isso, dois anos e pouco depois foi feito já. Atraíram a (Northidro?), a Hidroalumínio, entendeu, exatamente o percentual que a gente achava que tinha que vender. Estava tudo planejado certinho, então até hoje, na área de alumínio, não foi feito nada de diferente do que estava programado antes. Nas áreas de outras reduções de custo, teve algumas que nós implantamos imediatamente. Foi privatizada em abril, maio, eu ainda fiquei na empresa até novembro. Então, nesse período, ainda implantamos alguns cortes de custo. Por exemplo, na área de licitações e contratações, uma empresa estatal tem um sistema muito rígido, que gasta muita gente pra controlar e, na nossa visão, você acaba contratando por um preço mais alto que poderia contratar, se fosse livre. Desde que não haja corrupção, é claro. Mas isso é uma coisa que não existia dentro da Vale, né? Então pode jogar mais livremente um contra o outro e tal. Na licitação pública, [se] chegou no menor preço, você é obrigado a contratar com aquele. Na outra [privatização], você pode negociar mais livremente e consegue até baixar um pouco mais. Então, logo que privatizou, isso foi feito e se reduziu bastante os custos de contratação na empresa. Na redução de pessoa: a gente calculou que poderia ter retirado 2.500 pessoas a mais. E isso já aconteceu em dezembro - eu já tinha saído. Aí fizeram um novo plano de demissão incentivada e saíram 3800 pessoas ele se readmitiram 1.000. Quero dizer, admitiram 1.000 novos. Então 2.800 foi o líquido, né, pra 2.500, que a gente tinha previsto. Praticamente bateu, né? Então eu acredito que a privatização da Vale não prejudicou a empresa. Ela continuou fazendo as coisas que, na nossa visão, deviam ser feitas, né? Ela tem dado bons lucros e...

P/2 – Duas perguntas aí: mas prejudicou o país?

R – Eu acho que não, porque continua exportando, continua tocando seus negócios do mesmo jeito, continua crescendo. Não vejo nenhum...

P/2 – E o senhor como alguns outros, também, profissionais que trouxeram a empresa até agora. Vocês estão saindo porque? Porque chegou o tempo de aposentadoria ou porque não puderam sobrevier em uma privatizada?

R – Eu, por exemplo, já tinha uma exposição boa na área privada, porque já tinha trabalhado como membro do Conselho de Administração de várias empresas privadas aí. Eu podia me aposentar, naquela época. Os novos acionistas, assim que entraram, fizeram uma reunião conosco e disseram: “Olha, vocês da primeira linha, eu pretendo botar gente nova no lugar de vocês, até pra dar uma cara de empresa privada. Como vocês são todos funcionários de longo tempo da empresa e tal, a gente poderá discutir outras posições pra vocês em outras empresas do grupo.” E eu achei que não era um bom negócio pra mim fazer isso, porque eu já tinha sido Presidente de várias empresas do grupo. Depois que você começou a mexer na coisa mais macro e voltar pra mexer com uma outra coisa, vai sentir um desconforto. Você já atuou, fui diretor da Vale durante cinco anos. Você atuou em um nível de “holding” da direção total da empresa, em uma situação em que o acionista, que era o governo, e tinha também o Conselho de Administração, né? Mas não tinha uma, o acionista não tinha uma influência tão grande nos negócios da empresa. A diretoria era quem fazia as proposições todas realmente. Era muito difícil o governo vir com uma ideia, ou diretamente através do Conselho de Administração, de vir com alguma ideia diferente da que a diretoria estava levando como sendo a solução adequada, então a gente tinha uma liberdade de ação no bom sentido, quer dizer, a empresa propunha as coisas boas e o governo aceitava, né? Então, também pensei: “Agora vem [os] acionistas privados que vão ter as visões deles.” Você já está acostumado a tocar a coisa meio sozinho, né? Não é sozinho. Você tinha que levar a eles, mas o que levava era aprovado. Então aí já fica uma situação um pouco diferente, porque o dono novo também quer concatenar o negócio com os outros dele. Outras empresas que cada acionista tenha também. E aí você não vai ter mais, digamos, essa liberdade de ação. Você vai ter que ver outros interesses também, voltar a trabalhar em níveis menores de decisão. É um negócio que eu acho que não funciona. Então eu já podia me aposentar, eu tinha tempo pra me aposentar, né? Resolvi pegar um plano desses de saída aí. Sair e vou me virar, né?

P/2 – Existia um “staff” de tamanha importância como vocês sempre foram e que trouxeram a empresa até aqui? Quer dizer...

R – Não tinham assim, porque foi um grupo de empresas que comprou, né, e eles não tinham se preparado pra administrar a empresa depois. Eles não tinham equipes próprias, então iam se basear nas equipes internas. Mas a gente achava que abaixo de nós tinha as pessoas que nós fomos há algum tempo atrás, né, os colegas que entraram na mesma escola, que entraram com o mesmo “Esprit de corps”, foram treinados na mesma forma de trabalhar. Eram também pessoas que tinham garra pela empresa. Eu falei: “Saio eu. Tem gente atrás que pode substituir.” E eles: “Olha, eu acho que não tem quase ninguém de fora da empresa na nova. Na equipe que gere, atualmente, muita pouca gente.”

P/2 – São os mesmos da linha que vinha logo...

R – É. Tem, em nível de diretoria, tem o quê? Tem um que já era da empresa, o presidente, e dois diretores executivos que são de fora. Mas dão pra baixo, já não tem ninguém de fora. É o pessoal da casa mesmo. Então a gente achava que a Vale tinha um corpo técnico de gestão, que não necessitava, por exemplo, que viesse uma força tarefa administrar a Vale, né? Ninguém melhor do que o pessoal que estava ali dentro mesmo faria isso, então acho que não houve, assim, prejuízo pra empresa nenhum não.

P/1 – Como é que foi a apresentação dessa nova diretoria? Como é que ela se apresentou na Vale do Rio Doce?

R – Não foi, foi aos poucos, né? Os novos acionistas, nós tínhamos preparado até isso, assim, como apresentar pra eles a empresa. Então, assim que eles vieram, tiveram uma reunião conosco e falavam que pretenderiam substituir a primeira linha, mas que não tinham ninguém já pensado de antemão, que não tinham se preparado pra isso. Então precisaria que a gente continuasse por um certo tempo. Solicitavam isso da gente, que a gente continuasse. Pra nós, você já olhava: “É pelo bem da empresa, não tem problema nenhum continuar aqui.  E aí fomos mostrando pra eles, apresentando esses planos que já haviam do “Day After”. A situação geral da empresa como é que estava, porque antes, apesar de ter sido mostrado pros concorrentes, tem algumas coisas que você não podia falar por ser eram sigilo de concorrência, de coisa assim, que você não podia falar pra todo mundo que se apresentasse no mercado: “Ah! Eu estou pensando em comprar a Vale, então quero saber dos detalhes.” Aí não tinha sentido, né? Então você mostrava alguma coisa que podia ser mostrada, né, que dava a ele condição de ter uma avaliação da empresa, mas não ensinava os pulos do gato, né? (risos)

P/2 – Certo.

R – Aí, quando eles entraram já como acionistas, eu falei: “Bom, agora vamos explicar a jogada toda, os pulos do gato todo. O que é que são os planos da empresa, onde é que ela pensa em crescer e como é que ela poderia agir contra a concorrência e tal.” Aí, mostramos os planos todos e o pessoal ficou boquiaberto. Falou: “Nós nunca imaginamos que vocês tivessem as coisas tão sob controle e tão bem feitas, né?” Então até sentiram um alívio, porque eles entraram meio: “Bom, vamos ver o que é que vai dar aí, né?” Aí chegaram e viram que a coisa estava completamente estruturada, sólida, bem pensada, bem planejada. Eles foram, aos poucos, arranjando outras pessoas e tal, né? Trouxeram.

P/2 – E o senhor acha que o preço da negociação foi justo?

R – Eu acho que um preço de leilão é um preço que se pode obter. É. Um leilão é uma forma mais aberta de você negociar alguma coisa, né? Põe um preço mínimo, que eu acho que era adequado. Ele cobria em linhas gerais o estudo que a gente fez, que a gente acompanhou da desvalorização da Vale. Ele [plano] estava mais ou menos na, ele dava uma faixa também, né? Nós achávamos que estava razoável, porque se põe no leilão e começa um paga tanto, sobe, sobe, sobe; é a forma mais clara e aberta de você ver quanto é que vale mesmo, quer dizer, é quanto que alguém quer pagar. Tem essa história: às vezes você tem um apartamento que é ótimo, não sei que lá, então você tem uma visão do, ele é ótimo pra você que gosta exatamente daquilo ali. Às vezes, uma pessoa de fora não tem aquela mesma visão. “Eu quero mudar tal parte, quero demolir isso aqui. Vou gastar mais tanto pra botar do jeito que eu quero.” Pra ele não vale tanto o quanto vale pra você. Agora, se você põe em um leilão, concorre [entre] diversos compradores e, livremente, abertamente, cada um dá o seu preço, vê o preço que o outro deu. Vai ver, paga um pouco mais ou não. Então é o que vale, né?

P/1 – E o funcionário? Como é que ele se preparou pra privatização? Como é que a empresa, essa equipe que estava preparando o terreno, preparou também esse funcionário pra essa privatização?

R – Nós sempre dissemos pra eles que o empregado da Vale era um empregado muito bom. Era um empregado que toda empresa gostaria de ter. Então que não havia risco maior pra eles, quer dizer, já havia uma certa redução de quadros, que vinha de longo tempo, feita calmamente, e de maneira bastante humana e tal. Mas vinha se fazendo, porque o mercado exigia. Se aquilo não fosse feito, o minério não teria preço pra competir no mercado internacional, né? Então, estava havendo uma redução de quadros. Todo mundo sabia e era amostrada no quadro. Você não cai de 25.000 pra 15.000 sem ninguém perceber, né, então todo mundo já sabia. Não tem emprego aqui pra vida inteira, posso ser eu o próximo. Mas quem melhor trabalha, geralmente, não vai ser aquele, né, que também, essas coisas eram feitas de forma a você preservar a capacidade produtiva da empresa. Então o que a gente dizia para eles, era isso: “Olha, isso é um movimento inexorável. O governo vai privatizar tudo.” Vários governos já haviam se passado e dá um privatizando um pouco mais, né, e tal. “Isso é um movimento mundial inexorável de privatização e está aí pra acontecer. O que a gente pode fazer é tentar ver,  fazer com que isso aí se dê de uma forma que a gente ache interessante. Também não temos essa força toda. Nós não somos o dono.” Então foi mostrado pra eles também o que é que aconteceu na usiminas, na CST, na CSN. Houve alguma redução de quadros? Houve, mas já estava vindo antes. Houve um pouco mais, mas o pessoal está lá trabalhando. Eles não vão tirar todo mundo daqui e botar uma turma nova, não tem ninguém que faça melhor o seu serviço do que você mesmo que já está aí treinado e tal. Então fui mostrando esse tipo de coisas, dando exemplos mesmo, levando o pessoal pra visitar a Usiminas, perguntar pro pessoal lá como é que foi. Fizemos um trabalho de convencimento assim em todas as partes, né?

P/1 – E aí, essa sensação dos funcionários da Vale de trabalhar pro Brasil, o senhor não acha que perdeu um pouco disso?

R – Eu não sei se era trabalhar pro Brasil, sabe? Eu acho que era trabalhar para a Vale.

P/1 – Para a vale.

R – Não havia assim essa conotação, assim de, “porque acionista é o governo, eu estou trabalhando para o Brasil.” O pessoal trabalhava é pra Vale mesmo. Então isso aí não se altera, né?

P/1 – Não havia esse tipo de ___________?

R – Não. Não era por isso que a turma gostava da Vale não. Porque você pode ver [que] até no funcionalismo público não há esse tipo de “Esprit de corps”, né? O funcionário público do governo, então, é uma coisa diferente. A empresa trabalhava de uma maneira que o empregado gostava da empresa mesmo. Se orgulhava de estar ali.

P/1 – Pela empresa.

R – É. Então eu acho que isso não se altera, né?

P/1 – Essa equipe montada ali, o senhor, o seu irmão, o Anastácio, e tal. De verdade, não era obrigação da Vale acompanhar isso, ou mostrar isso, quer dizer, foi uma intenção da diretoria?

R – Não era uma obrigação, mas era uma coisa, assim, da nossa responsabilidade também, né? Se a gente está ali, por conta do, não só do acionista, o governo, que foi quem nos elegeu realmente, quer dizer, o controlador era o governo. Foi ele [governo] que nos elegeu, mas você também está defendendo a parcela privada da empresa que de muito tempo já existia, né? Tinha 49% das ações na mão do público. 49% do capital total na mão do público. Então havia uma necessidade de você procurar preservar essa questão. Um acionista majoritário não pode vender do jeito que ele quiser sem pensar no que vai acontecer com o minoritário. Então essa defesa do minoritário também é uma atribuição do diretor. Ele está ali pra olhar o bem da empresa, e isso pega o interesse de todos os acionistas, né? Então nós achamos que era da nossa atribuição fazer isso também. 

P/2 – Agora não sei se cabe, mas uma perguntinha: aquele acionista pequeno, que ele foi lá, comprou umas ações da Vale e tal: quando vendeu, como é que fica?

R – Permanece com as ações dele.

P/2 – É.

R – É. Permanece com as ações dele e não houve uma queda no valor das ações da empresa, tem até subido nesses últimos anos. Quando foi vendida, a ação ordinária estava em 32, hoje ela está em 45, por aí. Então, não houve nenhum prejuízo para o acionista.

P/2 – Ele ficou com as ações e pronto?

R – Permanece com as ações.

P/1 – Agora, o senhor sai nesse momento e o senhor vai fazer que tipo de atividade?

R – Tem que continuar fazendo o que a gente sabe fazer, né? Estava já na gestão de empresa, então eu fiz dois tipos de coisas, né? E também, eu já tinha muito trabalho em Conselhos de Administração. Então, procurei um trabalho nesse tipo de área. Eu sou vice-presidente do Conselho de uma empresa em São Paulo e sou membro do Conselho de Administração de uma outra empresa aqui no Rio. E criei também, até com meu irmão, uma empresinha nossa de consultoria de gestão também, e temos feito alguns trabalhos nessa área também.

P/1 – Nessas duas empresas?

R – Porque o Conselho de Administração não é um trabalho de tempo integral. Eu fico, por exemplo, três dias por semana nessa empresa onde eu sou vice-presidente do Conselho, um dia nessa, outra que eu sou conselheiro, três ou dois. Agora já passei pra dois, nessa daí. Então tem mais um tempo livre que eu aproveito pra fazer consultoria.

P/1 – As duas empresas do senhor quase são elas?

R – Uma é a Dedini, em São Paulo. É uma fábrica de bens de capital. Fábricas, usinas de açúcar e álcool, cervejarias e equipamentos pra mineração, pra metalurgia, pra siderurgia, que é uma área que eu conheço bem, esse mercado aí. E também pra cimento, celulose, petroquímica. Faz equipamentos de grande porte, né, a empresa. A outra é uma empresa de informática. Essa é uma área completamente nova pra mim, é inclusive uma cooperativa de profissionais de informática. Uma cooperativa grande que tem 4.000 associados e trabalha em 18 cidades do Brasil. Então, essa aí é uma área que eu estou achando muito interessante também, como uma coisa completamente diferente trabalhar pra uma cooperativa. Eu ajudo ele lá, porque eles foram crescendo muito rapidamente e sem se estruturar pra gestão, quer dizer, não é sem se estruturar, mas correndo um pouco na frente com o crescimento. E aí você precisa mostrar por pessoal como é que leva o “backoffice” [suporte da função principal] aí, né? Como é que estrutura o negócio pra continuar crescendo com segurança, né? Então é um trabalho que eu tenho achado interessante também.

P/1 – E seu cotidiano hoje, como é que é? Três dias em um, dois dias no outro?

R – Dois a três dias em um, outro dia no outro. Fica uma vida um pouco diferente, mais agitada um pouco. Mas dá pra ir.

P/2 – Esse de São Paulo, [você] vai pra São Paulo de ponte aérea?

R – Vou. Vou lá, durmo duas noites lá, volto. Ou então, uma noite só.

P/1 – E a família?

R – Os pequenininhos reclamam um bocado, né? A minha mulher já pensa até em ir pra lá. Eu falei: “Não. Calma, porque dois dias lá é o máximo. Eu passo mais tempo aqui.” E temos levado assim, né? Tem um pouco de sacrifício. Isso de você ir e voltar é meio sacrificante, realmente. Mas aqui no Rio, a situação econômica não anda tão boa. Vamos ver se dá certo mesmo essa questão de petróleo, de melhorar a cidade aí de novo pra ter cinco dias por semana aqui mesmo, que eu preferiria. (risos)

P/1 – O Rio, o senhor adotou o Rio mesmo como a sua cidade ou não?

R – Como?

P/1 – O Rio de Janeiro, o senhor adotou o Rio como sua cidade?

R – Ah! Eu já moro aqui há 22 anos, né? Gosto muito daqui, realmente. Não penso em sair daqui, não. Eu até, assim, logo que eu saí da Vale, passei algum tempo procurando uma outra ação assim, né? E durante algum tempo eu concentrei a procura só aqui no Rio de janeiro. Eu não queria... Me programei assim: “Vou procurar durante um certo tempo aqui. Só se eu não encontrar, que eu vou então procurar pra outros lados também.” Aí quando eu falei “Bom, só aqui... Uma coisa pra encher todos os meus dias, não estou encontrando.” Aí virei pra São Paulo, dez dias depois arranjei. Lá ainda está com um movimento bem maior que aqui.

P/1 – E o lazer, como é que fica?

R – Esse ainda, como é mais no fim de semana, né, não foi afetado não.

P/1 – Mas que tipo de prática o senhor tem de lazer?

R – A coisa que eu faço mais é degustar vinho, né?

P/1 – Degustar vinho.

R – Esse que eu é meu “hobby”

P/1 – Como é que surgiu esse “hobby” do vinho?

R – Interesse por vinho, eu sempre tive. Comecei a estudar, fui desenvolvendo. Quando me casei, a minha mulher é descendente de alemães, então ela gostava mais de cerveja, mas também tomava algum vinho. Então nós trocamos figurinha aí, né? Ela me ensinou a beber cerveja também e eu a ensinei a beber vinho. Entramos os dois no ramo de vinho. Fizemos cursos, viagens pro exterior pra conhecer regiões produtoras. É um “hobby”. É um lugar, assim, até interessante, porque nem eu [e] nem ela somos daqui. Então o nível de conhecimento que a gente tinha de pessoal, que a gente tinha de relacionamento, era mais o pessoal da empresa ou do mesmo ramo de trabalho, né? Tinha pessoas concorrentes ou de outros, mas desse mercado aí, né? E nessa história do vinho aí, ampliou muito a nossa gama de conhecimentos de pessoas. Então tenho, até hoje, excelentes amigos, pessoas que eu conheci nessa coisa do vinho aí, que eu, provavelmente, não os conheceria se eu não tivesse nesse assunto. Então é interessante. Isso dá uma boa opção de lazer aí.

P/2 – O senhor tem uma posição aí, nesse grupo de vinhos, né?

R – Agora ela que tem mais do que eu. Ela é vice-presidente da Associação.

P/1 – Vice-presidente da Associação?

R – Associação grande. Tem 1.000 sócios.

P/1 – Só aqui no Rio, não?

R – Só aqui no Rio. Eu já fui diretor lá, mas agora só sou sócio.

P/1 – Só degustando.

R – Só degustando, né? (risos) E no mais também, cuidar de crianças, que eu tenho um menino de oito anos, uma de cinco anos. Que eu já tenho idade pra ser avô deles, né? Mas estou com eles diretamente lá, né? Então, e aí você está em um período da sua vida, assim, mais tranquilo. Você já não está precisando batalhar tanto pela sobrevivência, então já pode dar uma atenção muito maior pras crianças. E eu acho isso aí extremamente interessante. Acompanhar o crescimento, o desenvolvimento das crianças. Isso é uma coisa que faço com muito gosto também. Era uma das coisas que eu não queria sair do Rio, porque complicaria mais esse esquema aí. Então as crianças é que reclamam mais quando eu viajo. Todo dia eu telefono e, além de falar com a minha mulher, os dois querem falar comigo também. E a pequenininha sempre pergunta: “Você está voltando hoje?” “Não, só depois de amanhã.” E amanhã eu telefono de novo: “E aí, você está voltando hoje?” “Não, amanhã ainda.”(risos) Fica numa marcação cerrada.

P/1 – Fica em cima.

R – É. Tem uma história engraçadíssima, porque eu tenho esse menino de oito anos e tenho um grande de 28. Então já é advogado, trabalha aqui no Rio também. Ele já não mora mais comigo, e ele foi um dia desses nos visitar lá. Chegou lá em casa: “Cadê o Marcelinho?” O pequeno. “Então vamos lá pra gente ver ele.” Aí desci eu e o menino de 28 anos e estava o meu garoto brincando com a menininha nova do condomínio, que não conhece bem, assim. Aí ela falou pra ele, mostrou, e ele já começou a rir e veio em nossa direção, né? Aí chegou perto do irmão dele: “Ô Sérgio, olha só o que a...” Marina também, sua xará, né? “...Marina falou aí. Está achando que você é meu avô.” Eu falei: “Como?” Meu menino [de] 28 anos, né? Ela chegou pra mim, falou assim: “Olha ali, lá vem seu pai e seu avô.”(risos) Como ele tem certeza que eu sou o pai, ele achou que o avô era o irmão. (risos) Então isso é muito divertido, esse negócio de criança. Uma parte do meu lazer é esse aí também. (risos)

P/2 – Agora, o seu dia a dia é o lazer, o vinho, as crianças. Praia, não? Piscina?

R – Piscina sim, mas praia está um pouco difícil aqui no Rio, porque está tudo poluído. Então pra gente pegar o carro e ir lá pra Prainha, Grumari, então já é uma viagem e a volta sempre complicada, o trânsito engarrafado e tal, né? Então tenho ido muito pouco à praia aqui. A gente vai mais à praia, assim, quando sai da cidade e vai pra algum lugar aí. A gente gosta muito de ir a Búzios, aí leva as crianças...

P/2 – O senhor já realizou todos os seus sonhos?

R – O dia que eu tiver realizado todos, aí eu bato as botas de uma vez, né?

P/2 – E quais são eles, quase, os não realizados?

R – Não tem assim nada de tão especial que eu queira fazer não. Eu vou levando a vida nesse esquema de sempre. É ver meus filhos se encaminharem na vida, né? E, atualmente, isso é uma coisa que preocupa a gente também. Mesmo os maiores, ainda tem que dar algum suporte, porque não é igual ao tempo que eu estava contando logo no início, que me apareceram cinco empregos pra eu escolher.

P/2 – Hoje não dá nem meio.

R – Pois é. Teve até um certo tempo atrás, eu fui convidado para ser paraninfo de uma turma de formandos em Ouro Preto. Primeiro, eu levei um susto, porque o cara me telefonou me convidando, né? Falei: “Pô, mas paraninfo, isso é coisa pra velho!” O cara falou: “Mas você está pensando que você é o quê?” (risos) “Está aí com quase 30 anos de formado. Tá pensando que você não é velho? Você é velho. Pode botar sua carapuça.” Aí fui pra lá, fui ser paraninfo. Achei até interessante que eles pediam que antes tivesse um contato maior com a turma, fosse lá, batesse um papo com eles, passasse um dia com eles, organizasse um coquetel pra eles [para] conhecer o pessoal, bater papo. E eu estou pensando assim: “Pô, porque é que esse pessoal me escolheu? Sou diretor da Vale, devem estar querendo que eu arranje emprego pra eles aí.” E eu já meio preocupado, esse negócio está extremamente difícil, né? Se eles estão esperando isso de mim, eu não vou poder corresponder,  né? Estou lá no coquetel com eles e ninguém me falou nada. Nada. Conversei com todos eles. Eram uns 150 formandos, bati papo com cada um. Chegou uma certa altura que ninguém falava nada, eu falei: “Escuta aqui? Como é que é? Vocês não vão me pedir aí pra arrumar algum emprego?” Porque eu tinha até me preparado. Eu ia pegar os dois mais destacados, era um geólogo e um engenheiro de minas, e oferecer emprego na Vale para os dois mais destacados. Sim, pra fazer alguma coisa pelos menos. Aí o rapaz que fez o contato comigo e com quem eu trava mais ali, falou assim: “Ah! Isso aí todo mundo já sabe aí, que não tem emprego nenhum mesmo. Então ninguém vai te apertar com isso aí não.” Eu falei: “Mas como é que é?” “Dos 150 aí, tem uns dez que já têm emprego arranjado. Os outros já sabem que não tem e que não vão arranjar a curto prazo” Eu caí de costa, né? Um negócio difícil e triste. Então vários deles iam pegar um curso de pós-graduação, outros ajudar o pai em algum negócio pra esperar a coisa melhorar. Tudo engenheiro de minas, geólogo e tal. Quando eu me formei, tinha cinco empregos pra cada um.

P/2 – Nessa área, imagina em humanas então?

R – É. Realmente, essa já sempre foi mais difícil, né?

P/1 – Senhor Gazolla, eu queria fazer uma última pergunta.

R – Falei demais já. Pode perguntar tanto que você quiser.

P/1 – O que o senhor achou de participar desse Projeto Memória da Vale do Rio Doce?

R – Eu estou achando muito interessante. É sempre bom a gente poder falar um pouco da história da gente junto com a da Vale, né? Foi uma empresa onde eu gostei muito de trabalhar, trabalhei 30 anos. Estava dizendo pra Marina antes, [que] era um lugar que sempre foi uma ilha dentro desse país. Uma ilha de eficiência, um lugar onde não existia e não existe corrupção. Claro que tudo quanto que é agrupamento humano sempre tem um pouco desse tipo de coisa, mas lá havia um sentido de se pegar isso quando estava começando a aparecer e se cortar na raiz. Então era uma empresa onde você trabalhava completamente tranquilo. As coisas eram feitas da melhor maneira possível, da maneira melhor pra empresa, mais tecnicamente recomendada, né? Não havia nenhum problema desse tipo. Então foi um lugar muito agradável de se trabalhar. Uma amizade muito grande com colegas, com chefes, com subordinados. Um lugar que só me deu alegria, realmente. Deu muito trabalho, tive que me esforçar bastante, mas valeu a pena, sem dúvida. 

P/2 – Então, muito obrigada pela entrevista. Foi  maravilhosa.

R – Muito bem.

P/1 – Obrigado. Foi ótima, realmente.

[Fim da entrevista]

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