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História

Ismael era um homem do século XIX

História de: Maria de Lourdes Caldas Gouveia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/01/2020

Sinopse

Em sua entrevista, Maria se dedica a contar a história de sua família, composta por senhores de Pernambuco - especialmente seu avô Israel, dono de engenho. Descreve sua casa, as roseiras de sua mãe e seu avô, e comenta sua rebeldia em querer estudar filosofia desde cedo. Em seguida, descreve sua formação acadêmica e sua participação no PABAEE, projeto de JK para a educação nacional - plano abortado pelos militares em 1964. Fala sobre o crescimento de seus filhos, a mudança para Belo Horizonte e conta a história de diversos locais da cidade, como a Praça da Liberdade, o Parque Municipal, o Cemitério do Bonfim, a Pedreira Prado Lopes e o bairro da Lagoinha.

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História completa

Meu avô Ismael foi o homem mais elegante que eu conheci. Ele era senhor do engenho. E o que ligava a Zona da Mata a minha cidade, que é Garanhuns, era o trem. Então ele chegava, ele avisando antes e minha mãe fazia uma faxina na casa. Estava tudo brilhando quando ele chegava. Era mais ou menos, 13h, 14h, mas tinha uma mesa posta para o almoço dele. E quando o carro parava, minha mãe falava “Seu Ismael chegou”. Ela estava pronta, com uma roupa bonita e a esperá-lo. Eles se admiravam muito, minha mãe novinha, mocinha, ele já um homem de certa idade, pai do meu pai, meu avô paterno, então ele chegava e chamava minha mãe “Minha filha”, eu via um carinho, uma atenção: “Minha filha”. Eu era menininha e ficava só olhando. A casa era toda dele, estava toda arrumada e em dois lugares, tinham duas grandes jarras com rosas, ele cultivava rosas no engenho. E conhecia e sabia fazer enxertismo, mudas. Então minha mãe colocava um grande jarro em cima do piano com rosas vermelhas, e na mesa, onde estava posto o almoço, tinha outro jarro com rosas amarelas. Porque ele ensinou minha mãe a cultivar as roseiras. E a cada ano do aniversário dela, ele dava para ela uma muda e ensinava e ajudava a plantar. Quando a minha mãe morreu, o nosso jardim tinha 67 roseiras plantadas por ele e por ela, todas muito bem cultivadas e florindo. Era um homem extremamente elegante, era um homem do século XIX. Quando Gilberto Freyre descreve aqueles senhores, aquelas pessoas, é o meu avô que ele descreve. Ele usava sempre roupa bege de linho, não usava sapatos, usava botina, uma gravata com listras e um prendedor de gravata, que era um rubi, com chapeuzinho, era um palhacinho que prendia a gravata dele. A vida inteira eu vi meu avô com essa roupa, esse palhacinho, a cabeça inclinada dizendo para minha mãe “Minha filha”, e contando histórias, pois ele era um ótimo contador de histórias. Depois do jantar, nessas visitas dele que eram verdadeiras ilhas na nossa infância, ele trazia presentes, a casa ficava animada. Porque ele era uma pessoa... Uma presença muito atuante, muito significativa. Depois do jantar, a moça da cozinha levava tudo, trocava a toalha, a jarra com rosas ficava lá e ele contava histórias. Minha mãe adorava. Meu pai não gostava, meu pai dava um jeito de escapar, ficava no escritório, mas minha mãe ficava... E nos todos, né? Nós ficávamos embebecidos com as histórias que ele contava. E ele contava as histórias dos engenhos, as histórias dos escravos. Para ele era perfeitamente natural que o engenho tivesse escravos. Hoje a minha filha me questiona “Como? O seu avô tinha escravos?”, eu tento dizer a ela "Luísa, isso era uma coisa normal naquele tempo e eu não posso criticá-lo por um fato que era um fato social”. Ela acha um horror que eu cultive as memórias do Engenho, sendo que no Engenho havia servidão. Eu tento dizer para ela “Luísa eu não posso mudar o passado, nem vou colocar nenhum ‘Se não’ na figura desse meu encantador avô”, meu avô Ismael, que era elegante, era fino, tinha uma boa conversa, que passava dois ou três dias em casa, e depois ele desaparecia por mais uns 20, 30 e só aí voltava. Ele era um homem solene, tudo nele era ritualizado. Então, depois do jantar ele estendia a mão para a gente voltar e beijar a mão e dizer “A benção vovô”, aí ele dizia “Deus te abençoe, tenha bons sonhos”. Ele repetia essa mesma coisa. E ele era uma pessoa formal, ao mesmo tempo formal e informal. Na conversa ele era informal, na motricidade, no gestual, ele era muito formal. Muito bonito. Um rosto muito bonito, muito bem vestido e perfumado. Eu nunca tinha visto um homem perfumado, ele era. Meu avô Ismael.

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