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História

Ir além do esperado

História de: Rose Mirian Hofmann
Autor:
Publicado em: 13/09/2021

Sinopse

Filha caçula de três filhos. Descendência alemã. Mudança da área urbana para a área rural. Mudança brusca de cultura, hábitos e perspectivas de vida. Diferença de ensino. Retorno para cidade. Busca pelo diploma. Diversos trabalhos. Concursos públicos. Mudança para Brasília. Trabalho no IBGE, na Copel, no Ibama, ANTAQ, Câmara dos Deputados, Ministério da Economia. Trabalho na área de Regulação, Transporte, Ambiental e Infraestrutura. Desafios e aprendizados da trajetória profissional. Divertimento no trabalho. Realizações profissionais. Pandemia. Sonhos profissionais e pessoais.

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História completa

P/1 – Vamos lá! Para começar, Rose, gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e o local de nascimento.

 

R – Meu nome é Rose Mirian Hoffmann, eu nasci em 23 de novembro de 1983, em São José dos Pinhais, Paraná. 

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais? 

 

R - Minha mãe é Ingrid Classen e o meu pai é Manfredo Ernst Hofmann. 

 

P/1 - E o que eles fazem ou faziam, profissionalmente?

 

R - O meu pai já faleceu, em 2014, ele era pedreiro, na maior parte do tempo. A minha mãe era costureira, hoje agricultora, já aposentada, ainda mora em São José dos Pinhais. 

P/1 - E como você os descreveria?

 

R – Principalmente a minha mãe, eu chamaria de uma verdadeira guerreira. O meu pai eu não tive tanto contato, meus pais se separaram quando eu ainda era muito pequena, eu tinha cinco anos quando eles se separaram. Mas a minha mãe, até por conta disso, eu diria uma verdadeira guerreira, criou os três filhos sozinha, com suporte da família, principalmente, por parte do meu pai. Eu tenho duas tias que são como se fossem duas mães para mim, também. Mas minha mãe é sinônimo de força, é uma guerreira mesmo.

 

P/1 – E você sabe como eles se conheceram?

 

R - A minha mãe conta a história de quando eles se conheceram. O meu pai estava trabalhando para o meu avô, o pai da minha mãe e foi nesse contexto, então ele como pedreiro e a minha mãe ainda muito jovem, com desejo muito grande de liberdade, no contexto do casamento, um sinal de liberdade. Casou muito jovem, quando a gente pensa hoje, no contexto atual, ela casou bastante jovem, nesse contexto.

 

P/1 - E você tem dois irmãos?

 

R - Tenho dois irmãos, eu sou a caçula, favorita (risos). E a gente sempre fala lá em casa que é uma escadinha. O meu irmão mais velho nasceu em 1981, a minha irmã em 1982 e eu em 1983. E uma curiosidade é que a minha mãe, teoricamente, não podia ter filhos. Então, quando eu falo “guerreira”, uma guerreira abençoada ainda. Porque, em teoria, ela tinha dificuldade pra ter filhos, mas deu tudo certo. Quando meu irmão nasceu, teve até um susto no parto e, quando eu nasci, a piada da família, porque entre o meu irmão e o meu nascimento, no parto da minha irmã, diz que o médico perguntou: “E aí, vamos fechar a fábrica?” e a minha mãe falou: “Não, deixa vir mais um. Vai que acontece alguma coisa com os outros dois”. Então, eu sou o chamado “estepe” da família, eu vim para garantir (risos). Se desse alguma coisa errada com os meus irmãos, eu sou o “estepe”.

 

P/1 - E como é sua relação com os seus irmãos?

 

R - Muito boa, principalmente hoje que eu moro longe. Eu falo: “Eu sou a caçula favorita”, mas eu dou trabalho, muito trabalho. E hoje os dois moram no Paraná, o meu irmão mora com a minha mãe e eu moro em Brasília, mas vou para lá todo mês. Bagunçou um pouquinho por conta da pandemia, mas eu vou todo mês. E essa relação passou a ser muito mais saudável e muito mais carinhosa, por essa distância. Porque eu reconheço: quando eu estou perto o tempo inteiro, eu sei ser a irmã caçula bem pentelha até hoje, nada mudou. A gente envelhece, mas nada mudou.

 

P/1 – E, Rose, você conhece um pouquinho da história dos seus avós, você chegou a conhecê-los?

 

R - Tanto por parte de pai, quanto por parte de mãe, a maior parte da família se interessa por estudar o histórico, principalmente por parte de pai, a gente tinha, antes da pandemia, encontros quase anuais para fazer, trabalhar a árvore genealógica. Eu confesso que eu não me aprofundo muito, mas existe um orgulho muito grande na família pela ramificação, pela descendência alemã, que inclusive eu uso como álibi muitas vezes, tanto para contar vantagem, como para esconder alguns defeitos, falo: “Gente, desculpa, eu sou meio bruta às vezes, eu sou alemã”. Então, tem um orgulho muito grande da descendência, mas eu nunca parei para estudar muito de que parte da Alemanha ou exatamente a história da família, eu não me debruço muito nisso, mas eu percebo um apego muito forte e um orgulho muito forte da família, seja por parte de mãe ou de pai, pela história sofrida e como conquistaram tanta coisa nesse percurso. 

 

P/1 - Mas me conta uma coisa: seus avós são alemães?

 

R – Tanto por parte de pai, quanto por parte de mãe. E o sobrenome não nega, né? Tanto o Classen, quanto o Hofmann. E até você me perguntou no começo como pronunciar meu nome, eu sempre falei ‘Hófmann’, continuo falando ‘Hófmann’, mas estudando alemão, quando é um S só, é o som fechado, é ‘Hôfmann’. Eu continuo falando ‘Hófmann’ (risos). Eu sempre diferencio, é um F e dois Ns”. Não sei dizer se foi uma falha no meio do caminho ou se realmente é uma ramificação diferente, mas o significado é diferente. O Hofmann eles falam: “o senhor do quintal”, eu falo: “o senhor das terras” (risos). Vamos colocar um pouquinho de glamour (risos). Mas a família toda tem um lado muito forte de estudar, preservar a história. E até talvez pelo fato de eu ter me afastado um pouco, mudado de estado, não conviver tanto com a família, não é algo que eu tenho, assim, no meu dia a dia. 

 

P/1 - E você conheceu seus avós?

 

R - Por parte de mãe os dois, os dois já são falecidos. E por parte de pai, só a minha avó, Amanda, que fez o papel completo. Assim como eu tenho minha mãe como uma figura feminina muito forte, ela foi uma pessoa forte. 

 

P/1 – E você lembra alguma história com eles que queira compartilhar, um momento?

 

R - Então, dos meus avós por parte de mãe, a gente sempre tem a imagem, a figura onde tinham momentos clássicos em dias comemorativos e sempre relacionados muito à religião, todos muitos religiosos, não católicos, eu fui batizada católica com treze anos. A minha família por parte de mãe era mais da linha Menonitas, uma igreja evangélica que existe até hoje, no bairro Boqueirão, em Curitiba, no Paraná. E nos momentos, então, festas comemorativas religiosas, Páscoa, Natal toda a família se reunia. Eu tenho muitos primos, a família é grande, a minha mãe tem onze irmãos, alguns já falecidos. Mas a família é grande, então era aquele momento de reunir todo mundo. E com o falecimento do meu avô isso meio que se desfez. Então, a gente percebe que ele era o pilar da família. Já dá uma tremida na base.

 

P/1 – Deu uma travadinha para mim, mas já voltou. 

 

R - Eu estava quase chorando e aí o vídeo travou (risos).

 

P/1 - E você falou de datas comemorativas, tem algum outro costume que vocês tinham o hábito de fazer, alguma comida, você lembra de algum cheiro específico na infância?

 

R - Tem muitas comidas alemãs que a minha a minha família conserva até hoje, mas eu acho que o que mais se repete na casa da minha mãe, pelo menos, é uma sopa de beterraba, que é a Borscht, que é uma delícia, eu não sou muito de sopa, mas... e a tradição vem passando de pais para filhos e hoje quem faz a sopa é o meu irmão mais velho, não sou eu. Não tenho essa história do “mulheres na cozinha e homens no quintal”, é tudo misturado, a gente se ajuda muito. E o meu irmão, hoje, é o especialista. Tem outros também, _____ (09:20) de uva, principalmente, e outros doces, mas isso a gente não faz tanto em casa, mas essa sopa sempre tem.

 

P/1 - E você lembra da casa onde você passou sua infância?

 

R - De algumas delas. Eu nasci em São José dos Pinhais, mas a minha mãe morava em Curitiba, nesse bairro que eu falei, Boqueirão. Então, eu lembro até hoje da Rua 514, casa dezoito. Eu lembro do aspecto dela, do parque que a gente tinha na frente, era um parquinho só com um escorregador, bem ‘simplezinho’. E em 1994 a gente mudou para São José dos Pinhais, para área rural, que aí eu chamo carinhosamente de ‘roça’, até hoje. Então, quando eu vou todo mês para lá, eu sempre falo: “No final de semana que vem eu vou para a roça”. E onde a minha mãe está até hoje. A minha mãe morou também em Sinop, no Mato Grosso, os meus irmãos nasceram lá. Então, dos três, só eu que sou do Paraná, os dois nasceram em Sinop, Mato Grosso, que eu conheci no mês passado, até então não conhecia. E por questão relacionada ao trabalho eu conheci Sinop no mês passado, foi bem legal. E eu mandar minhas fotos para a minha mãe, ela muito ligada à História, então ela gosta de... ela sempre fala que ela não é uma boa aluna, mas ela é uma ótima aluna. Eu já vi as notas dela de Geografia e História e ela mandava muito bem, então ela gosta. Eu falei assim: “Ó, eu estou em Sinop”, eu mando o localizador e ela vai pegar o mapa: “Ah, você está perto de onde acontecia isso”. A memória dela é fantástica. Então, foi bem legal conhecer onde os meus irmãos nasceram. Eles voltaram bem pequenos de lá, tanto que aí eu já nasci, em 1983, no Paraná, mas é legal conhecer.

 

P/1 - Aproveitando do seu nascimento, você sabe como foi escolhido o seu nome?

R - Inspirado na minha tia por parte de pai, Rosemari, não sei dizer o porquê da diferença. Mas, quando eu falei que eu tenho duas segundas mães, a tia Rose e a tia Gisela, e foi inspirado nela. Ela é fofíssima, assim como eu (risos).

 

P/1 - E, Rose, em que casa e cidade você passou a maior parte da sua infância? 

 

R - Eu me identifico mais, ainda que eu tenha passado de 1983 até 1994 em Curitiba, foi a partir da mudança para a roça em São José dos Pinhais, que é ali que eu considero minha casa. Então, eu tenho minha base em Brasília, eu trabalho aqui. Eu não eu não cogito voltar para o Paraná, eu gosto bastante de Brasília. Mas, se eu falar assim: “Onde é o meu lar?” É na casa da minha mãe, na roça, em São José dos Pinhais. E é lindo lá, é lindo. Aquele cenário que a gente fala, daqueles sonhos, duas montanhas e o sol no meio? É no pé da serra, é lá (risos). É lindo.

 

P/1 - E como foi essa mudança para você, você se lembra desse momento? 

 

R - Lembro, porque eu diria que foi uma mudança muito brusca de cultura, hábitos e de perspectiva de vida. E até um pouco contraditório eu diria, porque quando a gente foi morar na roça, a busca era por qualidade de vida, principalmente para a minha mãe, que tinha muitos problemas de saúde e muito estresse. Não é fácil cuidar de três crianças sozinha, então tendo problemas de saúde ainda é mais difícil. E aí, nesse momento ela já tinha se separado do meu pai, estava com o meu padrasto e ele também tinha esse perfil mais de apego ao meio ambiente, queria morar na roça, então, nisso, a gente saiu. E aí gente saiu de numa escola particular, que era o Colégio Erasto Gaertner, onde a gente tinha bolsa de estudo, porque não tinha condição de pagar, mas tinha uma bolsa quase integral e foi morar na roça, então condições mais difíceis de vida - é o que você espera, né? - e escola pública que, para gente era: “Meu Deus, vou para uma escola pública”. No Erasto Gaertner a gente estudava alemão, a gente foi morar na roça, a gente foi estudar polonês. A gente foi morar no meio de uma colônia de poloneses (risos). Então, eu lembro até hoje da minha primeira aula de polonês, que a professora escreveu uma oração no quadro e eu copiei sem aqueles símbolos, não tinha cedilhas. Para mim não existia cedilha no E, no A, acento agudo no C, eu tirei tudo aquilo, para mim era sujeira no quadro, ou ela estava enfeitando alguma coisa. Então, foi uma ruptura, mas os valores que eu carrego até hoje vêm dali. Então, na área urbana, os laços que você desenvolve são bastante diferentes. Então, eu tinha amigos, a gente tinha a vantagem de ser uma rua sem saída, então era como se fosse um condomínio fechado, é um cercadinho seguro para crianças. Eu brincava na rua até altas horas da noite. Mas na roça você tem aquela questão: as crianças trabalham desde cedo. É realmente difícil a locomoção, até hoje lá tem dois ou três ônibus por dia. Então, se você perder o ônibus das cinco e vinte, na rodoviária, você não vai voltar para casa. E, para chegar no ponto de ônibus, são quase quatro quilômetros de caminhada. Chove que é uma desgraça. Então, a gente conheceu situações que não tinha isso, esse problema na cidade, mas que vale muito a pena, vale muito a pena. Pela paz que você tem, pelos valores, a relação com os vizinhos, a relação de confiança que você tem com os vizinhos. Eu falo que a minha mãe até hoje trabalha com escambo. Ela pede para vizinha comprar uva no Ceasa, ele traz uma caixa, ela faz doce, leva doce. Ou, quando ela quer agradecer, ela dá um pano de prato bordado que ela faz, lindíssimo. Então, são aquelas relações bem, que o pessoal coloca como se fossem antigas, mas que prevalecem em alguns locais e que é muito, muito gostoso.

 

P/1 – Ah, você chegou a comentar um pouquinho, mas queria saber mais detalhes sobre a escola, essas duas escolas diferentes, centro urbano e rural. Que momentos marcantes, professores marcantes dessa época? 

 

R - Tem vários. No Erasto Gaertner eu acho que a questão da religião também era muito forte, só que era voltada para a religião evangélica, são os Menonitas. Então, é bem próximo, tem até hoje, no mesmo lugar a escola, logo ali do lado tem a igreja e o que eu lembro também muito é o lar dos velhinhos, que a gente fazia visita para eles, para valorizar, para ouvir a história. E, quando a gente foi para a roça, aí eu estudei na Colônia Murici, até a oitava série, porque não tinha escola acima, não tinha ensino médio lá, ainda. Foi o momento em que eu fui estudar em outro bairro, ainda mais difícil. Mas aí também a religião era muito forte, foi por isso que eu fui batizada católica. Tanto que, na primeira sexta-feira do mês, a gente tinha que ir para a missa. Então, imagina alguém que estava acostumado com a dinâmica de uma igreja evangélica que vai para uma igreja católica, com todos os ritos completamente diferentes. Eu lembro do momento intenso do, sabe: ajoelha, levanta, senta, eu esperava todo mundo (risos). Seguia o ritmo (risos). Mas nas duas, [há] uma relação muito forte com a religião. E hoje eu falo: “Eu sou católica, batizada católica, mas não praticante”, só que eu carrego até hoje essa sinalização do que é certo e errado, amor ao próximo, ajuda muito, ajuda muito. Então, tinha ensino religioso nas duas escolas, mas não sei, pelo meu perfil até de ser muito ativa, os favoritos eram sempre Educação Física, não tem como (risos). Eu jogava futebol na escola. Na verdade, quando era no Erasto, era mais vôlei, coisa assim, mas quando eu fui para a roça, futebol, meu favorito, com certeza. A gente chegou a ir para campeonato entre as escolas e tal. E era muito legal, muito legal.

 

P/1 - E as brincadeiras favoritas?

 

R – Então, na escola sempre algum esporte com bola, ou vôlei ou futebol, mas o que eu mais gostava, quando pequena mesmo, era ‘esconde-esconde’. Nessa rua sem saída a gente tinha vários vizinhos na mesma idade, eu costumo dizer que eu roubava os amigos dos meus irmãos. Dos três, do trio lá em casa, eu sou a menos estudiosa, os meus irmãos nasceram inteligentes. Eu preciso me esforçar, mas eles nasceram inteligentes. Então, quando vinha algum amigo do meu irmão chamar: “João, quer brincar de alguma coisa?”, ele: “Não, tenho que fazer o dever de casa”. Aí eu falava: “Ele não quer, mas eu quero!” (risos) E eu ia (risos). Então, eles estudavam muito e eu era sempre aquela que fazia a lição de casa no último minuto, eu chegava na escola antes, um pouquinho antes, para fazer a lição de casa. Então, eu roubava os amigos dos meus irmãos para brincar, na escola, do mesmo jeito. Então, era nesse ritmo.

 

P/1 - Nesta época você pensava o que queria ser quando crescesse, qual profissão gostaria de seguir? Você fantasiava sobre isso? 

 

R - Eu tinha sonhos bem menos ambiciosos de onde eu cheguei. Eu achava chique ser secretária, secretária no sentido secretária administrativa. Mas é isso que eu digo que é contraditório: quando a gente saiu da cidade para a roça, na cidade, até 1994 então, quando o Brasil ganhou a Copa, eu não cogitava ter carro, eu não cogitava fazer faculdade. Eu achava que, depois do ensino médio, era trabalhar, então a perspectiva era começar como empacotadora no supermercado, eu já tinha o supermercado em vista, que eu queria trabalhar. Então, era sempre uma coisa assim: auxiliar administrativo, secretária. Achava chique pegar no telefone, gente, era muito chique! Quando virou, então, celular, meu Deus, meu sonho! E quando eu fui vendo, a gente foi, a minha mãe sempre incentivando: “Vocês precisam estudar, vocês precisam estudar”. Ela sempre se colocava num patamar até inferior: “Vejam o que aconteceu comigo, para que vocês não tenham uma vida tão sofrida, vocês precisam estudar”. E ela se tornou o exemplo e o incentivo. E aí, estudando, estudando, tá, vamos tentar vestibular, então. Confesso que, no vestibular, o que eu mais colocava na mira era o diploma. Eu queria um diploma, para o meu salário aumentar. O meu foco sempre foi muito mais voltado para a profissão, do que para o estudo que leva, eu via sempre como um caminho para chegar lá, um meio para chegar em algum lugar. E aí estudava com essa meta e eu escolhi qual? Eu escolhi Engenharia? Imagina, a menor possibilidade de ter um curso em tempo integral. Então escolhi um curso de Tecnologia, que acabaria logo, me daria o diploma, me daria capacidade laboral para fazer alguma coisa mais qualificada e que seria rápido. Então, eu sempre planejei trabalhar e estudar ao mesmo tempo, foi o que eu fiz. Em um certo tempo enlouquecedor, inclusive, porque era estágio, trabalho e estudar. Por isso que eu escolhi Tecnologia em Química Ambiental. Eu lembro do caderno do vestibular, eu pensando: “Nossa, tem Engenharia, é, não dá”. Aí outro que era Tecnologia em Moda, aí eu: “Não, carpinteiro não”. Ó o preconceito, né? Eu falei: “Não, carpinteiro não”. Tecnologia da Informação, falei: “Nossa, parece ter muito cálculo”. Tecnologia em Química Ambiental... Química Ambiental... assim, Química, eu praticamente não tive no ensino médio, porque escola pública sempre com orçamento baixo, faltava professor e eu quase não tive Química. Eu falei: “Mas não, o Ambiental deve dar uma aliviada”. Então fui para Química Ambiental. E eu sinto até hoje algumas alfinetadas em relação ao fato de ser tecnóloga e eu mesma faço piada: “Que gente, nem engenheira eu sou, mas serve”. Eu sempre valorizo muito o conhecimento não formal, não o diploma, é o que você aprende no meio do caminho. Então, hoje eu falo, eu dou risada assim: “Gente, nem engenheiro eu sou, mas o caminho é esse, esse e esse”. Eu aprendo muito mais fora de sala de aula formal, do que estudo formal mesmo, mas foi esse o caminho da escolha. Eu precisava de um diploma logo, para aumentar o salário, para ter mais condições e assim foi. E eu mudei de emprego muitas vezes no meio do caminho, muitas vezes, subindo de pouquinho a pouquinho. Então, emprego remunerado eu diria que eu comecei como babá, empregada, diarista e foi subindo aos pouquinhos. Tanto que, se for contar, acho que eu já passei por mais de quinze empregos. Se for contar os estágios, é um pouquinho mais (risos), para chegar onde eu estou hoje. Então, teve um caminho longo aí. Tem várias pessoas que falam eu tenho oitenta anos aí, para caber o tanto de emprego. Eu já trabalhei em creche, já trabalhei no Correio, no IBGE, foi um longo caminho.

 

P/1 – Rose, mas então me conta: como foi essa época de entrar na faculdade, no técnico, e como você passou essa juventude? Era em outra cidade, você comentou, outro bairro, não era?

 

R – É, eu morava, nesse momento a minha mãe acaba morando na roça ainda, em São José dos Pinhais e eu fui migrando, por um tempo eu fiquei hospedada na casa das minhas tias, a tia Gisela e a tia Rose, que são como se fosse a minha segunda base. E depois eu fui morar sozinha, no Centro de Curitiba, para evitar esse trânsito sempre, porque da casa da minha mãe até a faculdade, eu estudei no Cefet, no Paraná, que virou Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Era perigoso, eu estava sempre cansada, eu estava sempre com sono. Eu era a típica estudante de universidade, sempre com sono. Só que acho que a diferença é que os estudantes da faculdade, em regra, têm muito sono, porque estão estudando e estão na gandaia (risos). Eu também gostava muito de curtir com os meus amigos, mas eu tinha essa questão da jornada. Então, eu trabalhava, fazia estágio e faculdade. Teve um momento que eu trabalhava da meia-noite às seis, fazia estágio voluntário para cumprir a carga horária das sete ao meio-dia, ou das sete à uma e à tarde eu dormia. Então, assim, eu era um zumbi (risos). Basicamente era um zumbi. Mesmo durante a faculdade eu troquei de emprego algumas vezes. Então, eu lembro na faculdade, no Cefet, a gente teve Psicologia Aplicada, questão de Educação Ambiental e tal. Eu me senti um estudo de caso, porque a professora queria entender o que me movia. Porque tinha outros adolescentes, naquele momento, dormindo de sono, enquanto estavam fazendo duas faculdades, uma delas paga e tal. E eu naquela: eu tinha que aprender, tinha que correr e tinha o estágio, tinha aquilo, sempre muito elétrica. Então, o que me movia? E deu certo, no fim das contas deu certo, mas eu lembro de um período de zumbi mesmo, quando eu ia todo final de semana para a casa da minha mãe, então era esse ‘bate e volta’, eu ficava ou na casa da minha tia, ou quando eu fui morar sozinha, eu ficava concentrada nesse ‘batidão’. E final de semana voltava para dormir na casa da minha mãe. Isso acontece até hoje, quando eu vou, eu falo que uma vez por mês eu vou para a casa da minha mãe. Eu posso ficar no sofá do lado dela dormindo o dia inteiro, mas eu tenho que estar ali, ela fala que é tipo uma ‘choca’. Então, estou ali, ainda que esteja dormindo o dia inteiro, para recarregar as energias. E nesse período eu lembro, eu dormia doze, vinte horas direto no final de semana, para tentar. Depois de uma certa idade isso não funciona mais, você ficar nessa de virar à noite e tentar recuperar não funciona mais com a mesma praticidade, mas na época eu fazia muito isso.  

 

P/1 – Seu primeiro trabalho foi como babá?

 

R – Foi, já na roça, cuidando de uma menina de dois anos, eu fiquei com ela até ela completar três, três e pouco. Letícia. Hoje ela já está grande, assustadoramente grande. Eu tenho pouquíssimo contato, mas por redes sociais, um dia, a gente entrou em contato, eu falei: “Gente, ela era uma menina!”, menina mesmo. E aí, depois, eu saí de lá e comecei a trabalhar com apoio administrativo, na escola onde eu estudava, no ensino médio. Aí, já como auxiliar administrativa, que, para mim, era superdivertido. Para mim podia ter parado ali. O meu patamar de sucesso era trabalhar com computador ou... inclusive uma máquina de datilografia, eu fiz curso de Datilografia, que eu sou dessas. Eu era competitiva, então tinha toques por minuto, fiz o curso de Datilografia. Então, para mim, podia ter parado ali, eu tinha amigos fantásticos no trabalho, a relação era superdivertida. Secretaria de escola sempre tem uma novidade, alguma encrenca para resolver. E foi a minha mãe e o meu irmão que me deram uma bronca um dia e falaram que eu tinha que ir além. Foi uma bronca pesada, eu lembro até hoje, mas que eu tinha que ir além. E a minha meta era assim: “Não, eu posso ir além, eu posso fazer o concurso, eu posso virar servidora pública estável, na secretaria da escola”. Eles: “Não, você vai fazer concurso para outras coisas”. E aí de fato eu comecei a olhar outros empregos e também outros concursos. E aí a vida de concurso é cativante. Como eu falo, eu uso muito rótulos. Às vezes até de forma equivocada, mas eu falo: “Alemão não gosta de pedir nada para ninguém”. Então, você não gosta de pedir emprego, pedir emprego é difícil, é praticamente pedir um favor, no começo. Quando as pessoas não conhecem o teu talento, você precisa de um voto de confiança. Eu mandava aqueles envelopes amarelos, eu olhava na lista telefônica, meu Deus do céu! “Onde eu gostaria de trabalhar? Eu gostaria de trabalhar no Boticário. Então, vamos mandar currículo para o Boticário”. E mandava vários, vários e vários. Só que isso não funciona, não funciona muito. Funcionou uma vez, fui trabalhar numa indústria. Mas a vida de concurso, é você com o seu desafio, é você e a prova. E aí eu fiz, se não me engano, o primeiro foi do Correio. Nunca nem chamaram, mas eu fiz dois concursos do Correio, que abriram essa visão: “Gente, sou eu e a prova, não preciso pedir nada para ninguém, preciso dar conta de pagar a inscrição. Mas só eu com a prova”. E eu me dei muito bem nos dois primeiros. Nunca chamaram, mas um era para operacional mesmo, trabalhar nos Correios, outro já era questão administrativa. E o primeiro que eu passei e eu fui, foi para o IBGE, aí fui ser pesquisadora do IBGE, aquele concurso temporário, que renova todos os meses e aí eu peguei gosto, aí eu comecei a acompanhar editais. E hoje eu diria que eu parei, mas eu percorri um longo caminho, nessa vida de ‘concurseiro’, que também não é fácil (risos). Eu admiro todo mundo que aguenta, porque acho que psicologicamente é muito complicado, justamente porque é você, com você mesma. Pode ter mil concorrentes, dois mil, vinte mil, é você com você mesma, mas é muito mais fácil de lidar. Então, a hora que eu peguei embalo, eu comecei realmente como babá, diarista, na hora que eu vi esse caminho de luz, concurso, com toda certeza.

P/1 - Imagino que a gente não vai conseguir falar de todos os seus trabalhos, mas eu queria saber: nesse começo de carreira, quais foram os trabalhos que mais te marcaram, de alguma forma. Você tem alguma história que queira compartilhar?

 

R - Eu acho que, depois da faculdade, começa a marcar muito quando eu entrei no Ibama, porque junta com o momento em que eu saí do Paraná e vim para Brasília. Mas rapidinho, assim, antes, eu estava realmente como babá e empregada, numa casa lá mesmo, na vizinhança. Depois trabalhei como auxiliar administrativa na escola, acumulei com o trabalho no Correio, tinha uma casinha dos Correios na frente da escola. Então, eu passei a ser “a menina dos Correios”. Dali eu fui para uma indústria, chama Plastipar, na cidade industrial de Curitiba, auxiliar administrativo, foi bem rápido. E aí começou a vida dos concursos. Então, depois do IBGE eu fui trabalhar numa creche, em Curitiba. Esse foi bem marcante, durou pouco e extremamente desafiador. Eu entrei querendo ter, nossa, meta na vida: cinco filhos. Hoje eu penso muito se eu quiser ter um, muito! Porque não é brincadeira. Então, foi na creche, depois eu virei secretária administrativa, numa escola de hotelaria lá na roça, então voltei para o foco próximo de casa. Depois trabalhei na Copel, em três cargos diferentes, eu comecei no 0800. Quando eu falei que eu trabalhei de madrugada, da meia-noite às seis, era no 0800 da Copel, atendendo falta de energia. Depois eu passei em outro concurso, na Copel mesmo. Então, na Copel já foi um concurso. Comecei no 0800, passei para analista administrativo e de analista administrativo eu fui para a área do Meio Ambiente, que foi quando eu vi que eu realmente gostava. Que era difícil, mas eu realmente gostava. E aí eu já estava na faculdade. Quando eu passei no concurso da Copel, o concurso que eu passei para analista administrativo para a Copel, eu ainda não tinha terminado a faculdade, eu precisava do meu diploma. Quando eu falo que a meta era diploma, eu realmente precisava daquele papel. E eu cheguei para o orientador do curso e eu falei para ele: “Eu preciso do meu diploma para a semana que vem, que eu passei num concurso”. Aí ele: “Você me apresenta um TCC para a semana que vem e você passa”. Era o trabalho de conclusão de curso. Eu falei: “Não tem problema, vai sair”. Eu estava em exame final em algumas matérias, eu não era mais a ‘CDF’. Quanto mais próxima eu estou dos meus irmãos, mais estudiosa eu sou. Quanto mais eu me afasto... a minha irmã estava em outra faculdade e o meu irmão se matando de trabalhar, então eu não tirava dez em tudo. Eu estava em exame final e queria o meu diploma para a semana seguinte. Então, eu estava fazendo prova de exame final e eu fiz o meu TCC em três dias e três noites. Se tem alguma coisa que foi marcante, foi isso. Foi a primeira vez que eu comprei energético na farmácia, não recomendo nunca mais ninguém fazer isso, no terceiro dia sem dormir, porque eu lembro que o meu corpo inteiro tremia. Mas deu certo e aí eu comecei a minha carreira, que eu diria, com o diploma. Eu tenho o ‘pós-diploma’. Teve tudo isso antes, mas teve o ‘pós-diploma’. Que aí foi de fato Copel, esse concurso que foi muito, muito, muito aprendizado. E depois Ibama, ANTAQ, Câmara dos Deputados, aí eu voltei para o Ibama, voltei para a Câmara e agora estou no Ministério da Economia, como Secretária de Apoio aos Licenciamentos. Mas tudo decolou depois do diploma. Mas eu diria assim: eu aprendi muito na faculdade, foi massacrante, até pelo contexto. Não teria conseguido sem os amigos em volta. Pela base que eu tive de Química no ensino médio, se eu não estivesse com os amigos que realmente me ensinassem na faculdade, não teria dado certo. Mas acho que na faculdade é uma reunião de gente desesperada. Então, você é só mais um. Então, está todo mundo ali desesperado, tinha esse ritmo do exame final e tal e deu certo. Consegui o diploma, consegui entrar nesse concurso. E, quando eu saí da Copel e fui para o Ibama, foi quando eu mudei de estado. Quando eu fiz a prova para o Ibama, eu vim de ônibus, do Paraná para Brasília, 24 horas de ônibus, foi assim, mega aventura, bem legal. Menor condição de pagar um avião, naquela época. E quando eu fiz a prova, eu falei: “Nossa, eu jamais moraria aqui, jamais moraria aqui. Nossa, que cidade seca”. Tinha acontecido alguma festa, a cidade estava suja. Falei: “Nossa, que horror, que horror”, cheia de rótulos. Quando aconteceu a chamada, o contexto era outro, eu estava doida para um desafio novo: “Eu vou, eu vou”. E vim, larguei tudo, vim de carro para Brasília, coloquei todas as minhas trouxinhas num carro. Confesso publicamente que eu não respeitei os limites de velocidade, eu não tinha juízo naquele momento. Era um carro 1.0, mas rendeu muito na viagem. E vim com tudo, para cá. E aí, no Ibama, além de ser uma carreira nova, um desafio novo, longe da família, tinha a questão dos desafios culturais. Só que eu tive muita sorte, porque junto comigo chegaram outros quase quarenta analistas ambientais, então eram quarenta pessoas perdidas. Assim como na faculdade eu tinha muito apoio dos meus amigos, no Ibama formou como se fosse uma família. E hoje as minhas relações de amizade têm muito a ver com a profissão e as ramificações da profissão. Então, foi com os meus amigos do Ibama, que eu acabei conhecendo outras pessoas. Depois eu fui para a ANTAQ, que é a Agência Nacional de Transportes Aquaviários, também continuo com os meus amigos lá e muitos sempre ligados à profissão. Mas eu diria que marcante na carreira foi essa virada de mudança para o Ibama, que foi bem marcante, mesmo.

 

P/1 – E, Rose, como você conciliava vida pessoal, os estudos, trabalho, concursos, como era isso?

 

R – Então, fica mais fácil quando você se diverte com as coisas, eu realmente me divirto no trabalho. Quando eu não estou me divertindo muito, eu começo a pensar em sair, eu não me prendo muito. Eu vejo assim: geralmente a gente fala: “A gente não cresce, os brinquedos é que vão ficando mais caros”. Eu vejo muito meu trabalho como um jogo de estratégia. Qual é a minha missão hoje? É conseguir prover infraestrutura sustentável para o país, no menor tempo possível e com mais qualidade. É um jogo de estratégia, você tem vários, vários, vários empecilhos no meio do caminho, vários desafios e você tem várias chances de conseguir alcançar o teu objetivo. Então, é mapear os riscos, estabelecer uma estratégia, se der errado você traça outro plano e segue em frente. Então, nos momentos mais difíceis, porque a sobrecarga era muito grande, era quando eu não gostava do trabalho, quando eu não via algo efetivo no meu trabalho. Então, se eu não me sentisse útil, era o efeito contrário. Então, assim, cansaço fisicamente é tranquilo. Quando você está cansada mentalmente, isso te consome. Então, você, todo dia, aí nem vale mais a pena falar oito horas por dia, porque eu trabalho quase 24 (risos). Mas você trabalhar rotineiramente, sem ver o produto do teu trabalho, você não sente gosto. Óbvio que todo mundo gosta de receber salário, mas não é gratificante, não tem aquele ânimo de trabalhar. Hoje eu trabalho para caramba, é assim, massacrante, mas vale a pena. Essa sensação do “vale a pena” é que te move. Então, hoje, como Secretária de Apoio ao Licenciamento, que hoje eu trabalho no Ministério da Economia, eu estou tendo a oportunidade de pegar projetos que, quando eu fui analista ambiental, de 2007 a 2010, não se concretizaram. Então, eu falo: “É carma!” Mas está sendo assim: o mundo dá voltas, mas dá volta muito rápido! Então, tem vários projetos que chegam e aí eu começo a rir no meio da reunião, porque as pessoas vêm me trazer um problema e eu começo a rir, falo: “Ai, gente, é um recado de Deus”. Eu vejo assim: “Dessa vez você resolve?” (risos) Então, é muito bom e eu acho que isso ameniza um pouquinho o excesso, a carga de trabalho. E eu não vejo também, eu já fui criticada por isso, porque eu naturalmente posso estar no almoço, no boteco com amigos, falando de trabalho, sem que isso seja levar o trabalho para vida pessoal, porque realmente é divertido. Se eu não gostasse, eu ia ficar trabalhando para separar as questões: “Não, o profissional é aqui e a casa é aqui”, como se um fosse algo pesaroso e outro fosse o lado divertido. Quando você consegue se divertir, você vai misturando as coisas mesmo. Tem que ter um limite? Tem que ter um limite. Mas eu misturo mesmo as coisas, eu misturo, eu me divirto. Eu estou de férias e eu vejo alguma coisa relacionada ao trabalho, eu não bloqueio isso, não. Mas eu estou de férias. Não, qual o problema? Eu já me vi numa oficina da Rumo, no meio das minhas férias, porque eu estava viajando com a minha amiga e ela queria ver como é que estava a oficina da Rumo em Curitiba. Eu falei: “Vamos”. No meio das minhas férias. Então, no meio das minhas férias eu estava com botina, um capacete, óculos, na oficina da Rumo. Eu gosto de ferrovia, eu gosto de rodovia, eu gosto de obra, então por que não? Permita-se gostar do que te dá o salário. Então, é mais tranquilo, não é pesado, não.

 

P/1 - E você lembra quais foram suas primeiras impressões, ao chegar em Brasília?

 

R – Então, é o que a gente fala: “A beleza está nos olhos de quem vê”. Quando eu fiz a prova, eu achei... o que eu vi de Brasília no dia da prova do concurso, não me agradou nem um pouquinho. A cidade parecia feia, estava suja e o local onde eu fiz a prova, que de fato não é o lugar mais brilhante de Brasília, tinha o aspecto residencial com grades nas janelas. Então, me parecia um bairro aprisionado, aquele que não parece seguro, não parece agradável, não parece aconchegante. Quando eu vim morar aqui, foi o extremo oposto, eu fui muito bem recebida. Desde então, quando eu morava em Curitiba e falavam que curitibano era fechado, eu defendia: “É porque vocês que não sabem lidar, curitibano é aberto, sim”. Quando eu vim para Brasília, eu falei: “Não, ok, curitibano é fechado”. Porque com as minhas amigas, com os meus amigos em Curitiba, para marcar para ir para o boteco, para marcar um jantar, era marcar para daqui a dois, três dias e, se fizer frio no dia, você vai repensar. Então, é tudo muito programado, tudo muito assim, tem seus limites. Eu não tinha tanta abertura para, do nada, chegar na casa dos meus amigos, era sempre planejado. E aqui em Brasília é um tal: “Bora lá fazer alguma coisa?” e você vai. Então, assim, final do trabalho: “Bora pro boteco?”, é assim: “Bora pro boteco?”, daqui a dez minutos. Não é: “Vamos combinar um boteco numa sexta-feira, talvez às dezessete e trinta? Ou o que você acha, dezoito horas?” Não! “Vamos pro boteco!”. É muito mais fluido, o tempo inteiro. É: “Você está em casa? Tô passando aí”. Em Curitiba eu ficaria assim: “Como assim, está passando aqui?!” Então, eu fui muito bem acolhida. E quando eu falo isso aqui, as pessoas acham estranho, porque Brasília também tem um rótulo de ser fechada, que se você não tiver como se fosse um clubinho de amigos, que você já venha com isso formado, as pessoas têm muita dificuldade para entrar, para chegar e fazer laços em Brasília. Mas talvez eu tenha essa percepção mais positiva, porque eu cheguei com quarenta pessoas perdidas. Eu cheguei com quarenta pessoas na mesma situação e aí a primeira abertura se fez, todo mundo se ajudou e aí fluiu. Então, eu considero Brasília com pessoas muito, de fato, receptivas, muito dispostas a ajudar quem vem perdido, porque muita gente passou pelo mesmo. Chega a uma cidade que, por ser quase puro concreto, é uma cidade que passa, às vezes, a impressão de ser fria. A Brasília que eu vejo é extremamente arborizada. Um dos orgulhos que eu tenho de Brasília, que eu falo que eu adotei como minha, é como plantam árvores aqui! A gente já está quase superando Curitiba, porque onde eu passo sempre tem novas árvores sendo plantadas, então o jardineiro daqui é O cara. Então, minhas primeiras impressões foram do “jamais moraria aqui” e hoje é “não quero sair daqui”. Então, eu tenho o meu lar do coração, que é a casa da minha mãe, sempre vai ser, mas esse, assim, meu ponto fixo é aqui, Brasília mesmo, adoro!

 

P/1 – E, Rose, quando você se encantou e entendeu que era com o meio ambiente mesmo que você queria trabalhar?

 

R – Então, acho que meio ambiente é muito romanceado. Lidar com meio ambiente é difícil. E eu gosto de desafios, talvez eu tivesse o mesmo deslumbramento com qualquer outra profissão, desde que me dessem essa questão do desafio a ser superado. E eu acho que me ajudou muito eu sair do mundo teórico, ilusório, do mundo verdinho é legal, por ter tido esse contato com a roça, mesmo. Então, eu tinha aquele discurso do: “Não é para usar...” - na roça fala ‘veneno’ - “... veneno na roça”. Hoje: “Não é para usar defensivos agrícolas e tal”. Eu falava: “Beleza, vai carpir um lote. Pega uma enxada, vai debaixo do sol e tenta tirar”, chegava no final do dia: você vai ficar tirando erva daninha da roça, dias e dias e dias e elas vão voltar e elas vão voltar. Então, eu passei a ter uma visão mais concreta, eu acho que até exerço muito mais empatia com quem quer que seja. Hoje eu consigo circular entre vários meios, mas tentando ouvir genuinamente o que as pessoas estão falando. Lidar com meio ambiente, lidar com infraestrutura, é um espaço de conflito o tempo inteiro. São pessoas pensando diferente, com objetivos diferentes, então o conflito, em regra, é pré-estabelecido em qualquer cenário. Então, eu passei a ter uma visão muito mais pragmática do meio ambiente. Tenho aquele gosto: “Eu gosto do ambiente arborizado”, tanto que às vezes eu apelo para isso, quando a racionalidade não garante o bom debate: “Gente, não quer plantar árvore, porque ela tem uma função ecológica relevante, plante porque é bonito”. Assim, aí pega uma foto de uma rua arborizada e de uma rua só de concreto. Tá, se nenhum argumento colou: “Planta porque é bonito, planta porque dá fruto, planta porque é para passarinho”. Eu, hoje, balanceio esses dois campos. A utilidade, eu vejo muito a questão do serviço ambiental mesmo que a natureza presta, mas eu gosto, então junto os dois e acaba favorecendo o debate. E eu acho que falta, às vezes, para as pessoas esse contato mais realista com o tema. Sair um pouquinho do discurso e pisar no chão. Quanto mais as pessoas fizerem isso, mais sincero e mais real vai ser o debate.

 

P/1 - E os momentos mais marcantes, trabalhando no Ibama?

 

R - Eu adorava as vistorias. Quando eu falo de rótulos, eu adoro usar os signos, inclusive, como álibi. Eu sou de sagitário. Eu gosto de escritório, era um sonho ser secretária? Era. Mas, a partir do momento que você vai para uma vistoria, coloca uma bota, calça jeans e vai para o campo, é muito bom. É isso que eu falo de ver a concretude do seu trabalho, ver o resultado e como pequenas ações fazem grandes mudanças. Então, no Ibama, as vistorias, com certeza em ferrovia, rodovia. Eu cuidei um pouquinho de instalações portuárias também, em outros projetos, mas era principalmente em rodovia e ferrovia. Gente, é um mundo! E, assim, isso me abriu portas para conhecer lugares que eu jamais conheceria. Então, acho que todo mundo que entra no licenciamento do Ibama tem isso. Porque você vai cuidar. Um dia você está no estado do Pará, cuidando de uma instalação portuária; no outro dia você está passando frio, congelando no Paraná, para ver uma ferrovia. E esses ‘perrengues’ em conjunto são muito legais, de vistoria, de ficar atolada. Eu lembro de ficar atolada no mangue lá no Pará, para conseguir fazer uma vistoria e instalação portuária. Mosquitos e mais mosquitos no Amazonas. A última que eu fui não foi nem no Ibama, foi agora, ainda no ano passado, que eu fui para o Amazonas e eu falo que eu conheci três marcas diferentes de mosquito (risos). Três espécies diferentes, cada uma com uma picada mais qualificada que a outra: uma dói, a outra incha e a outra coça. Mas essas experiências eu jamais teria em outras profissões que eu cogitei. Ficar como secretária eu ia me divertir com tecnologia, com o capricho do dia a dia, mas eu não ia rodar o Brasil, não ia. Isso foi muito positivo e quem me abriu essas portas foi o Ibama.

 

P/1 - E como foi se aproximar dessa área de transporte, mesmo? Você falou que você já gostava de ferrovia, mas como foi se aproximar?

 

R - Isso foi engraçado. Parar em transporte foi esquisito, eu diria. Porque o caminho foi: eu estava saindo da Copel, Companhia Paranaense de Energia e indo para o Ibama. E aí eu cheguei, acredite se quiser, eu tinha recém me formado, eu fiquei acho que dois ou três anos na Copel só, mas eu cheguei com um rótulo, no Ibama, de “pessoa com experiência”, eu falei: “Nossa”. Mal eu tinha saído das fraldas, gente. É aquele negócio assim: você é jogado aos leões, por ter um diploma, como se aquilo te deixasse pronto para os desafios, e não é. Você aprende muito, mas é a vida que te ensina, é a vida profissional que vai te ensinar. Eu cheguei com esse rótulo: “Nossa, está chegando uma aí com experiência”. Porque é tão raro ter concurso no Ibama e a gente tem a perspectiva agora de ter um, que as pessoas pegam nome por nome e vão fazer a pesquisa no Google, para saber quem é. Para saber quem é a pessoa, por onde ela já andou e qual é a experiência e como é que pode ser melhor aproveitado. E aí, quando eu cheguei lá e eu soube que eu estava sendo disputada para ir para a área de transportes, vejam os rótulos, eu falei: “Gente, o que uma química ambiental vai fazer com transporte, eu vou analisar asfalto?” Olha a cabeça pequena que a pessoa tinha! Eu conhecia pouco de licenciamento, conhecia pouco de transportes, ou nada de transportes, então realmente a minha pergunta foi: “Por que vocês querem química ambiental na ferrovia, rodovia, instalações portuárias talvez, tem contaminação da água...” Na Copel eu trabalhei muito com a qualidade da água, então tinha uma relação, química ambiental, análises e tal. E o meu mundo se abriu, eu vi que não era só... e isso foi bem aos poucos, mesmo. No comecinho eu achava: “Ah, não, então tá, então eu vou ver os planos de ação emergencial de rodovias e ferrovias”. Não era só isso. E eu acho que o que me abriu mesmo foi perceber que cada um só olhava a sua caixinha, é algo que eu prego até hoje, é uma espécie de doutrinação, para que as pessoas parem de olhar só a sua caixinha. Quando a gente faz análise em meio ambiente, a gente precisa ver o todo. A gente não pode nem viabilizar, nem inviabilizar um empreendimento, por numa caixinha. Então, querendo ou não, vocês sempre vão ver o Ibama falando em meio físico, biótico e socioeconômico. Nosso desafio hoje é fazer com que essas três caixinhas se conversem. E como eu falei no começo, que eu sou a irmã caçula e eu sei ser chata, como colega de trabalho eu sei ser chata também, com muito gosto. Então, eu sempre me meto no trabalho dos outros, sempre. Eu lembro de uma amiga que entrou nesse mesmo concurso que eu, bióloga, sentava do meu lado e a gente trabalhava com muitos empreendimentos ao mesmo tempo. E aí eu perguntava: “E aí, já avançou nas análises? O que você encontrou?” Ela falava: “Ah, tem a espécie XXX em extinção, tem a espécie tal ameaçada a nível tal” e eu: “E daí?” Tipo assim: “Tá, tem uma espécie ameaçada aí, mas qual a relação da infraestrutura com ela? O que a infraestrutura vai fazer com ela e o que a gente tem que fazer com isso?” Gente, isso perturba a cabeça de um novato com muito gosto. Então, assim, eu tenho esse hábito até hoje: tem que ter uma finalidade em tudo aquilo que você pensa. Por que eu não sou muito da Academia? E até recentemente eu acabei meu mestrado, eu fui para o mestrado profissional, para ver uma aplicação direta, por falta de paciência até. Eu acho que, para quem faz, fez pesquisa acadêmica, tem que ter um nível de paciência muito grande, para esperar ver os resultados da sua pesquisa. Por ter esse pragmatismo, eu sempre já quero ver aplicado, já quero ver aplicado. Então, mestrado profissional, no dia a dia sempre rola um: “E daí?” “Ah, mas tem esse, esse e esse dado” “E daí? O que ele diz e o que eu faço com isso?” Então, os desafios de infraestrutura do meio ambiente fazem com que a gente consiga conectar o meio físico, biótico e o meio socioeconômico. Conectar análise econômica com análise ambiental, é sempre conectar as pontas e dar uma finalidade. E como eu falei, isso nada mais é do que um jogo de estratégia. Quando você conhece todas as peças do tabuleiro, você começa a jogar melhor. Como eu tive uma breve passagem pela regulação, na Agência Nacional de Transportes Aquaviários, me dá esse apetite de juntar a regulação e o meio ambiente. Então, tudo teve uma utilidade na vida. Foi passinho por passinho, teve IBGE. Hoje eu uso o meu aprendizado do IBGE lá atrás, para as pesquisas que eu faço hoje, porque aparecem estudos ambientais com quase o censo do IBGE inteiro. E a pergunta continua sendo: “E daí? O que eu faço com isso?” Tá, o perfil da população é esse, na área que pode ser afetada. Isso quer dizer que a gente tem que ter qual cuidado com essa população? Por saber como as pesquisas são feitas, isso ajuda no que eu faço hoje. Então alguém lá em cima fez eu trilhar um caminho, que agregou um valor em cada uma das etapas. Então, tudo que eu faço hoje é mais fácil, pelo caminho que eu trilhei antes. Seja como secretária administrativa, auxiliar administrativo, até a Copel, como analista ambiental, como o próprio Ibama, o trabalho que eu faço hoje.

 

P/1 – E, Rose, quais foram os maiores desafios e aprendizados com essa aproximação com a área de Transporte e Regulação? Pensando até no Ibama e na Agência Nacional de Transportes Aquaviários. 

 

R - O desafio maior eu acho que, tanto na Regulação, quanto na área Ambiental e de Infraestrutura é se conectar com as pessoas. Enquanto você não enxerga que você não é o único ator que precisa dar conta de um desafio, você não consegue concretizar. Licenciamento Ambiental, como eu falei, é um espaço de conflitos a serem gerenciados, tudo fica mais fácil quando você conversa. A gente sai, então, de um cenário e isso é bom ter acompanhado, como é que acontecia lá atrás, Licenciamento Ambiental, como era uma audiência pública e como é hoje? Audiência pública hoje, se for ela, por si só, ela não dá conta da participação no processo de Licenciamento. Quanto mais aberto ao diálogo, seja na Regulação, seja no Licenciamento, você consegue entender quais são as perspectivas diferentes, as expectativas diferentes e dar resposta para isso. Não é um jogo de estratégia? É como se você conhecesse os seus aliados, os seus oponentes e, mesmo em relação aos oponentes, porque tanto na Regulação, quanto no Licenciamento, tem muitas pessoas que são contrárias ao projeto, por ‘N’ razões. E elas são rotuladas como se fossem um grupo unificado dos opositores e não necessariamente. Às vezes a pessoa é contrária ao projeto, porque ela tem medo; às vezes ela é contrária ao projeto, porque ela não o conhece. Ou às vezes ela é contrária ao projeto pelo ‘efeito manada’, todo mundo falou que é ruim, ela também acha que é ruim. Então, se você conhecer cada um... e aí como, é que você conhece? Conversando. Desafio para a vida: lidar com pessoas, lidar com pessoas próximas, no trabalho, ou distantes, é lidar com as pessoas, com expectativas e tal. Se tem uma coisa que eu não fui, mas eu deveria ter sido, é psicóloga, porque ajudaria bastante na carreira (risos).

 

P/1 - E como seguiu sua carreira?

 

R – Então, depois do Ibama, que foi bastante marcante, eu fui para a Agência Nacional de Transportes Aquaviários e foi um momento em que eu voltei para perto da família, eu fiz concurso mais uma vez e fui morar, fui trabalhar em Paranaguá, no Paraná. Fiquei próxima da família, aí eu comecei a enfrentar isso: “Mas esse trabalho da ponta não é o que eu gosto”. E aí eu percebi o quanto eu sentia falta de Brasília e da articulação que se tem aqui. Brasília é o centro das articulações e não por outra razão virou o centro político da nação, porque aqui tudo acontece, é tudo mais próximo. Então, eu trabalhando lá em Paranaguá, eu me sentia como aquilo que eu falo assim: não estava vendo resultado no meu trabalho. Cuidava do Porto de Paranaguá, eles avançaram muito na Gestão Ambiental, mas eu queria mais, eu queria algo mais amplo, mais desafios e aí eu voltei. Então, eu falo que eu estou em Brasília desde 2007, mas eu tive uma recaída, voltei para o Paraná em 2011. Tem o aspecto positivo de estar próximo da família, mas o trabalho e o que eu gosto está em Brasília. E, mesmo na ANTAQ, mesmo dentro da mesma caixinha, eu transitei. Então, eu cheguei em Paranaguá, cuidando basicamente ali de Paranaguá e Antonina, fiscalização diretamente. Quando eu voltei para Brasília, eu fui para Navegação Interior, conheci algo que sequer constava no meu vocabulário. Eu não sabia, não tinha a menor noção do que acontecia na Amazônia, até vivenciar a Navegação Interior. A região, a Amazônia em si, o transporte se dá pelos rios, né? Uma viagem nem tão antiga assim, que eu fui programar, o primeiro impulso que você tem é procurar a rota rodoviária. Lá é tudo pelos rios. Então, eu tive um grande aprendizado, na Navegação Interior, em relação à navegação e também a perspectiva das pessoas, outra cultura, outro modo de vida completamente diferente. Ainda na ANTAQ eu fui para a Superintendência de Fiscalização, mesmo e, por último, para a Regulação. Na Regulação tem esse tecnólogo em Química Ambiental, entrei como especialista em Regulação na ANTAQ, eu fui ver Reequilíbrio Econômico-Financeiro de Contratos. E eu adorei! Óbvio que, se eu tivesse que pegar uma planilha de custos, avaliar e fazer um reequilíbrio em si, provavelmente eu não daria conta. Mas algumas coisas eram tão mais estratégicas, no sentido: “O que as pessoas buscam, quando elas querem um reequilíbrio de contrato?” Em regra, elas estão querendo ganhar mais, o que a gente fala: “a segunda pernada”. Você tem um contrato de 25 anos, você quer mais 25 e, para isso, você antecipa investimentos. Primeira coisa que eu ia fazer, ‘cara-crachá: “Espera aí, mas esses investimentos são novos ou já são uma promessa passada, que não foi cumprida?” Então, acho que tanto na ANTAQ, como depois, em outros ambientes, eu fiquei sendo muito conhecida como linha dura. Eu vou nos menores detalhes, para ver realmente se merece ou não merece, se está certo, se não está certo. Por vezes eu tentei concurso até para o TCU, para esse eu não passei, mas era algo que me atraía, porque é você garantir o bom gasto do recurso público e que isso resulte em bons frutos para a sociedade. Gente, deve ser extremamente gratificante! Por isso que eu digo, quando você me perguntou como eu fui atraída pro meio ambiente: talvez eu fosse atraída para outras coisas tão gratificantes quanto, desde que tivesse esse fluxo: “Me dá um problema para resolver, que traga resultados”. Eu gosto dessa dinâmica: não é sempre a mesma coisa, é uma pancada por dia e quando eu falo “uma pancada por dia”, todo mundo em volta me olha: “Só uma?” Não, são várias pancadas por dia, mas a gente vê resultado. Então, depois da ANTAQ, com todo esse aprendizado, eu senti aquela saudade de trabalhar com o Meio Ambiente, mais numa linha de ascendência, vou aprimorar, vou subir na carreira, para onde é que eu vou? E calhou de abrir o concurso da Câmara dos Deputados, para Consultoria Legislativa e tinha vaga na área de Meio Ambiente. Eu falei: “Pronto! Eu vou ajudar a fazer legislação com mais qualidade, ou evitar que uma legislação fraca cause problemas”, então tem muito essa de pegar um problema em resolver, ajudar a resolver. Foi um dos concursos mais difíceis. Eu equipararia a dificuldade disso com aquele TCC de três dias e três noites, foi extenuante. Mas, gente, na Consultoria Legislativa você tem contato com o que há de mais qualificado no serviço público e não sei se pelo perfil, pessoas com esse mesmo espírito público de ajudar e resolver. Então, mesmo hoje, eu estando emprestada para o Executivo, se acontecer de eu perder o cargo no Ministério da Economia, eu volto para a Consultoria Legislativa. Então, assim, eu falo: “Gente, se eu cair, eu caio para cima”, porque o céu está me esperando. Meus colegas são extremamente qualificados, têm esse espírito público e essa doação todos os dias. Então, eu vejo: a Reforma da Previdência, teve gente virando noite com muito gosto, é um tema complexo. Nessas reformas todas que estão acontecendo, nos bastidores, tem uma turma que trabalha quieta, em silêncio, dando apoio para os parlamentares, tentando elevar o nível do debate, tentando dar instrumentos para que os parlamentares que, de fato, têm o poder do voto, eles que foram eleitos, têm esse protagonismo, os consultores legislativos que funcionam como ghost writers. São aqueles que, no silêncio, nos bastidores mesmo, dão os elementos para que os parlamentares façam e escolham o melhor caminho, em nome da população. Então, também é um trabalho que eu amo e que reúne essa questão estratégica e tal e Meio Ambiente. Então, hoje eu estou como Secretária do Apoio aos Licenciamentos, cuidando de grandes obras no País, mas a hora que esse trabalho for interrompido, eu caio para cima e volto para Consultoria Legislativa, para cuidar de outros problemas também tão gratificantes quanto.

 

P/1 - Eu vou voltar só um pouquinho, que eu achei curioso desse seu trabalho na Amazônia, na Navegação Interior. Como foi, para você, essa experiência de ter que entender o contexto de um lugar e trabalhar em cima disso e não trazendo coisas externas, né? Porque é isso, o ideal é pensar... o ideal não, mas o comum é pensar numa rodovia, mas naquele contexto não faz sentido. Então, como foi essa experiência, para você?

 

R - Naquele contexto, não só rodovia, hidrovia, mas muita coisa não fazia sentido para mim. E como, por vezes, eu tinha o pensamento muito cartesiano, ‘cara-crachá’, a norma é essa, aplica, resultado. Você pega um problema, resolve, resultado. É uma linha de produção. Você chega lá, o tempo é outro, o ritmo é outro. Você vai fazer uma viagem de barco, demora. Então, assim, se você não estiver numa paz de espírito para entrar no ritmo, a ansiedade toma conta. Então, foi muito aprendizado. E entender que, na Regulação, você não muda do oito para o oitenta em um dia. Não é porque você assina um parecer e manda fazer que a realidade explode, nossa, fica tudo cor-de-rosa, não fica. Então, você tem que ter paciência e ir aprimorando a qualidade dos serviços no decorrer do tempo. Quando eu entrei na ANTAQ, eu vi a situação de algumas linhas, são interestaduais, por isso de longo percurso, até em que as pessoas ficam vários dias no barco e nem todas as embarcações tinham água potável. Então, você começa realmente com trabalho de formiguinha, de garantir água potável na embarcação. Você percebe que a regra posta para a gratuidade das passagens não estava consagrada. Você vê isso, é claro na linha de ônibus, num ambiente urbano, mas lá não. Até porque a maioria nem recebia um recibo, na hora de comprar passagem. E a Regulação, a ANTAQ é uma agência muito jovem, ela foi chegando e, com esse trabalho de formiguinha, hoje o trabalho interestadual de passageiros na Amazônia é outro. Além de você implementar essas melhorias no passo a passo, hoje eles têm a quem recorrer. Então, hoje a ANTAQ tem um nome. Assim como o Ibama é uma marca muito forte, chegou a ser a marca mais lembrada pelos brasileiros, a ANTAQ foi conquistando seu espaço, no dia a dia. Então, obriga a colocar uma placa na embarcação, essa era uma das que me incomodava, por exemplo: “Ai, aham, a gente vai mudar o mundo botando plaquinha da embarcação”. Muda. Porque o telefone da ANTAQ , um canal de comunicação com a marca da agência reguladora, passa a dar àqueles cidadãos, um canal para quem reclamar, para quem reclamar sobre seus direitos. E a ANTAQ foi muito além, fez cartilha para falar para os passageiros quais eram os seus direitos. Então, eles passam a ter uma perspectiva: “Esse deveria ser o serviço, esse é o serviço que eu tô tendo alguém para recorrer”. Então, para mim, foi um grande aprendizado sobre a cultura local, o ambiente, a dinâmica, os valores, o que se passa por lá, mas também ter a paciência de não achar que você resolve tudo numa canetada. Na ânsia da juventude, quando eu falo ânsia, eu entrei muito crua no Ibama, muito crua no Ibama. Eu sei que tem empreendedores que têm traumas até hoje, com os pareceres que eu escrevi. Porque era no sentido: “Faça porque esse é o padrão, isso foi o que eu encontrei, logo, faça isso”. Às vezes funciona, é uma ordem mesmo, faça, falta só aquele impulso. Por vezes é um trabalho muito mais de longo prazo. Então, é o primeiro educativo: “Olha a besteira que você está fazendo. A norma é essa”. Primeiro você explica. Se já tem uma predisposição do empreendedor em corrigir, o assunto pode ser muito mais colaborativo. Se você percebe uma resistência, aí sim você vai para o caráter punitivo da questão. Esse aprendizado eu tive também na ANTAQ . Eu ajudei a revisar a norma de fiscalização e a gente criou um mecanismo, naquele momento, que permitia justamente isso. Se não era uma infração grave, primeira coisa: avisa para o empreendedor, dá uma notificação e o prazo para ele corrigir. Porque qual é o objetivo da fiscalização? É um serviço melhor, não é aplicar uma maior quantidade de multas. Então, quando o Ibama é criticado, como se houvesse uma indústria de multas, quando o Ibama emite um auto de infração, tem um efeito educativo muito forte. Haveria outras possibilidades de fazer o mesmo efeito educativo? Talvez sim, mas não com o quadro de servidores que eles têm hoje. Mas hoje eu tenho clareza de sempre tentar um caminho mais colaborativo, do educativo. Então, é muito instrutivo no sentido: “Olha, a regra é essa”. Regras ambientais são muito complexas, muito complexas. Eu me vi semana passada, numa reunião, falando para o pessoal: “Gente, ao invés de criar mais uma norma, vamos alterar a atual? Pensem nos concurseiros”. O exercício da empatia é muito mais fácil quando você passou por alguma dificuldade. Então, tem a empatia que você desenvolve por genuinamente se colocar no lugar do outro, pensar como teria sido e aí exercer a empatia. Como também essa: “Eu sei como foi difícil, foi ruim mesmo, então vamos fazer com a ajuda do próximo?” Então, já fizeram levantamentos que são setenta mil normas ambientais no país. Óbvio que juntando todas as esferas, então União, estados e municípios, mas são temas muito complexos. Volta e meia você se depara com uma norma que você não sabia que existia. Você pode, enquanto Poder Público, presumir a má fé e descer a caneta no sujeito, ou você pode primeiro dialogar e depois tomar uma decisão, do “esfria a cabeça”. Passar por tudo isso, então, gera um aprendizado muito grande. E assim como empatia você consegue aprender e exercer, também no curso da profissão, esse exercício colaborativo é um processo. Na ânsia de resolver várias coisas, você acaba, às vezes, atropelando ou sendo muito mais rígido do que você seria, se você tivesse uma outra opção, um caminho mais estratégico, que desse um resultado melhor, em menor prazo. Então, todo esse caminho foi muito produtivo para apaziguar as coisas, aprender a conversar, aprender qual é a melhor solução para cada momento. Hoje eu me vejo repetindo muito, muito: “Respira”. Então, assim: “Não, porque está errado, porque não sei o quê!” Eu recebo... hoje eu estou tentando criar talentos. Dizem que uma boa liderança gera bons talentos. Eu estou tentando desenvolver isso. E, quando eu recebo pessoas novas na equipe, elas chegam com esse anseio: "Por que isso? Por que isso?" "Calma, respira. Então, primeiro: se coloca no lugar do outro. Tá, qual é essa norma? Mas nem tem essa outra norma aqui? Não existe uma contradição?” Nem sempre é ‘cara-crachá’. Então, eu acho que todo esse caminho que eu trilhei ajuda com essa visão mais estratégica, mais de resolver o problema e não só descer a caneta. E tem sido muito produtivo, porque a gente recebe o reconhecimento. Quando você está com esse propósito, de resolver problemas para fazer bem para a sociedade, você atrai pessoas com o mesmo perfil. Hoje, minha meta na vida: “Ai, onde eu quero chegar?” Eu não sei onde eu quero chegar, mas eu quero que as pessoas cheguem aonde eu cheguei. Então, hoje eu estou na função de abrir portas para pessoas e também com a missão muito forte que as pessoas colocam hoje, pelo fato de ser mulher, numa posição estratégica. Então, aquela: “Quantas mulheres você ajudou hoje?”. E, por muito tempo, eu confesso: eu não tinha essa postura colaborativa. Assim como você pode desenvolver a empatia para ajudar o próximo, porque você passou por uma dificuldade, ou pode reconhecer genuinamente que a pessoa tem outro posicionamento, você pode adotar uma postura muito mais danosa que é: “Se eu dei conta, a pessoa tem que dar conta também. Se eu consegui, numa família com mãe solteira, que ganhava pouco, que não tinha pai presente, eu consegui chegar onde eu cheguei, qualquer um consegue”. Não necessariamente. Então é muito de reconhecer a ajuda que teve e ajudar as pessoas. E aí a questão da figura feminina para mim nunca foi um peso, mas eu vi, em amigas próximas, como elas tinham dificuldade, pela questão do machismo, por não ter espaço. E aí hoje eu coloquei essa missão de ajudar, mas por muito tempo isso não era uma preocupação para mim. É como se fosse assim: “Não foi difícil para mim, porque a outra não consegue?” E hoje não, hoje eu enxergo bem diferente, bem diferente mesmo. E eu diria que esse olhar se abriu para mim na ANTAQ. Cada lugar que eu passei teve um aprendizado diferente. A ANTAQ é um ambiente muito masculino, muito masculino. Mas as figuras mulheres que têm lá dentro podiam dominar o mundo. E recentemente emplacaram a primeira diretora mulher na ANTAQ. Gente, isso foi uma grande conquista! Porque, primeiro: passa o recado para outro do “você também pode”, é o “Veja que você também pode perseguir isso”, seja pelo exemplo, pela abertura de espaço, pela abertura de diálogo. Como também por esse trabalho que hoje eu venho tentando fazer, do “ajudar as próximas, até ocuparem o meu lugar”. Meu sonho nunca foi estar num cargo de chefia. Eu gosto dessa questão de resolver problemas, mas tem muito mais a ver com assessoramento do que, propriamente, gerenciar pessoas. Então, minha meta hoje é criar pessoas que possam ocupar o meu lugar e criar outras lideranças, para que haja lideranças qualificadas na área ambiental e de infraestrutura.

 

P/1 – E, Rose, de modo geral, qual a importância para você, individualmente, mas também pensando socialmente, de ter trabalhado com essa área de transportes?

 

R - Eu acho que hoje me dá muito mais substância para o debate. Querendo ou não, a gente tem uma sociedade pautada em rótulos, em várias questões você é apta ou não é para falar sobre um assunto. Acabei de falar do bloqueio do ser mulher. Muitas mulheres não conseguem ser ouvidas, simplesmente pelo fato de serem mulheres. Por muitas vezes eu não fui ouvida pelo fato de não ser engenheira. Quando você tenta debater com advogados, se você não tem diploma, também você pode passar por certos bloqueios. Eu me divirto com isso hoje. Então, assim, por ter ido pra campo, eu sempre faço a minha lição de casa, eu assumo que eu não sei e vou correr atrás, eu corro atrás do engenheiro: “O que é isso?” Outro dia o Ministro da Infraestrutura, eu mandei uma foto de uma ponte, eu falei: “Olha, a obra da ponte está avançando”, aí ele: “Sim, o próximo passo é o lançamento das aduelas”. Eu falei: “Amiga, eu não faço ideia do que sejam aduelas” (risos). Mas eu fui para o Google e mandei dois minutos seguintes: “Agora eu sei o que são aduelas”. Então, assim, quanto mais você trabalha com pessoas inteligentes, mais você aprende. E inteligentes no sentido não de número de diplomas, mas de conhecimento para lidar com situações difíceis e para repassar esses conhecimentos. Então, lidar com infraestrutura na prática e conviver com as pessoas, me levou a, hoje, conseguir debater de forma bem ampla. E aí, quando as pessoas percebem a minha formação e, por alguma razão, desdenham do fato de ser tecnóloga, eu faço piada: “É. Para você ver, né? Se eu consigo debater em condição de igualdade com diploma de tecnóloga, foi porque o diploma de tecnóloga me trouxe até aqui”. A gente tem que desfazer esses rótulos. Existem tecnólogos no Brasil que fazem trabalhos primorosos em ambientes que não precisaria ser engenheiro para fazer aquele trabalho, não precisaria ser um advogado para resolver aquele trabalho. A pessoa tem que ter a qualidade necessária para desenvolver o trabalho dentro das suas atribuições e resolver o problema. Então, eu diria que é muito produtivo ter esse trabalho de campo, esse trabalho de contato é o maior aprendizado que eu tenho. É uma sala de aula, a vida é uma sala de aula.

 

P/1 – E pensando, de maneira geral, em toda a sua trajetória profissional, como é trabalhar em cargos do governo, em cargos públicos, que muitas vezes sofrem muita pressão, né? Quais os maiores desafios e aprendizados ao ter enfrentado e ainda enfrentar essa experiência, ainda mais sendo mulher? 

 

R - Então, essa pergunta sempre me aparece em relação à pressão sofrida, mas eu sempre respondo que a pressão interna é muito maior do que a pressão externa, nesse caso. Eu não me sinto cobrada pelos meus superiores, pelo trabalho. A minha chefe não me cobra, assim como nos meus trabalhos anteriores eu não vejo, eu não enxergo a figura de alguém superior me cobrando do trabalho naquele ritmo, porque outra pessoa está cobrando. Eu não sinto isso. Agora, o desespero que eu tenho de estabelecer uma meta e perceber que eu não estou alcançando, basta. Então, essa pressão eu tenho. Quando eu saí do Ibama, eu fiquei como diretora de Licenciamento do Ibama por um período muito curto, não chegou a completar um ano. E quem olhou de fora, todo mundo interpretou que era pela pressão externa: “Nossa, é muita pressão por licença, né?” Não era essa a questão. A questão é: eu estudei por muito tempo licenciamento, eu tinha uma visão do como melhorar as coisas, como aprimorar o processo e, naquele momento específico, naquela janela temporal, eu não identifiquei espaço nem com a camada técnica, nem com os superiores, para emplacar uma melhoria, eu estaria lá fazendo mais do mesmo. Gente, não é isso que eu quero. Se for para fazer mais do mesmo, eu teria ficado lá atrás. Eu realmente gosto de promover a mudança para melhor, ver resultados e, por vezes, o “ver resultados” é fazer o que já era feito, mas naquele caso eu entendi que precisava de uma mudança. Não tinha espaço para mudar? Eu falei: “Não, eu consigo ser mais útil em outro ambiente”. Então, o que me causa pressão é pressão interna, as expectativas que eu coloco do transformar, do fazer e achar que realmente é possível. Se eu não acho que é possível, eu não fico na posição que eu estou. Porque a gente alcança muita credibilidade, principalmente hoje no PPI onde eu trabalho, Programa de Parcerias de Investimentos, por ser uma pessoa muito transparente, se o negócio não vai dar certo, eu vou falar em dez minutos. Esse papel do político rotulado, do falar o que as pessoas querem ouvir, definitivamente não é o meu papel. Meu papel é mapear os riscos, reconhecer que eles existem e aí, sim, dar um tratamento. Se você não reconhece que eles existem, você não dá tratamento. Então, a pressão que eu coloco é: se eu não mapeei um risco que eu deveria ter percebido, isso para mim pressiona. Então, se chegou uma liminar num processo, mandando paralisar um licenciamento por algo que eu não tenha antecipado àquela questão, isso me pressiona. Agora, chefe cobrando prazo, não. Até porque acho que, quando seus superiores percebem que você se cobra tanto (risos), não precisa. A minha atual chefe, que é uma mulher, a Martha Seillier, eu fui negociar férias com ela esses dias, ela falou: “Rose, eu nem me preocupo, pode tirar”. Porque ela sabe que, se alguma coisa acontecer durante as minhas férias, eu não vou conseguir: “Estou de férias”, eu vou resolver, porque para mim não é um problema misturar as coisas. Então, se nas minhas férias eu puder resolver algo que esteja ao meu alcance, eu vou fazer. Então ela não vai controlar as minhas férias, não vai controlar os meus horários, não vai controlar se eu estou trabalhando em casa ou se eu estou trabalhando presencialmente. Quanto maior o comprometimento com o resultado, menor a necessidade de controle, menor a necessidade de pressão. Então, não recebo cobranças sobre prazos, nem sobre qualidade. Eu vou receber críticas construtivas e que, em regra, eu recebo muito bem, justamente para colocar na engrenagem de uma melhoria contínua. Então, em relação à pressão eu não tenho problema, não. E, no governo, você mencionou, “posições no governo”, por vezes a gente tem que responder por algo muito além do que a gente faz. Eu trabalho com um tema muito específico: obras de infraestrutura, licenciamento ambiental, sustentabilidade em grandes obras, mas as pessoas vêm me perguntar: “Você nesse governo?” Então, você passa a ser parte de uma estrutura muito maior e falar em nome dele, aí tem que ter uma clareza e uma responsabilidade muito grande, de não falar enquanto CPF. Quando você fala como representante do governo federal, você tem que passar o recado alinhado com as diretrizes que você recebe. E aí, o que para uns é pressão, para mim é muito confortável, eu não fico numa posição em que eu não tenho liberdade para fazer aquilo em que eu acredito. Se eu entendo que está desalinhado, é o que eu falo para todo mundo e algumas pessoas até ficam magoadas, eu falo: “Não está bom? Sai, vai ser feliz em outro lugar. Procure um lugar em que os seus valores sejam compatíveis com aquilo que você faz e que você veja resultado no seu trabalho. Busque a sua felicidade no trabalho. Não fique tantas horas do seu dia se massacrando com algo que você não gosta, ou que é incompatível com o que você acredita”. E cargo comissionado nada mais é do que isso, você tem que ter um alinhamento. E hoje eu tenho muita liberdade para emplacar coisas de sustentabilidade, que eu não tive em outros momentos. E aí, enquanto partícipe do governo federal, é isso que eu falo: no começo do governo muitas pessoas tinham receio que iam acabar com o Ministério do Meio Ambiente e juntar com o Ministério da Agricultura. Eu falo: “Gente, não só acabou, como vocês me ganharam de brinde”. Ganhou uma estrutura. Então, quando eu falo também, retomando o que eu falei de conflitos: conectar o que se fala com o que, de fato, acontece. É um trabalho muito grande. Mas em relação à pressão, por fazer parte do governo, essa pressão eu não sinto, não. Eu sinto pressão interna, de querer que as coisas aconteçam e tudo tem seu tempo certo.

 

P/1 - Você falou que é importante receber reconhecimento. Qual é a sensação de você mesma se reconhecer no trabalho, ficar satisfeita com o trabalho e receber reconhecimento externo também, de outras pessoas? 

 

R – Então, isso eu me sinto meio esquisita, às vezes, porque eu vejo muitas pessoas dizendo que são motivadas pelo elogio, pelo reconhecimento. Gosto, claro, não vou dizer que não gosto de ser elogiada, gosto do reconhecimento, mas o que me faz dançar nos corredores do trabalho é quando o trabalho é concluído, é a meta concluída e concretizada. Então, assim, o elogio numa reunião, obrigada, eu vou responder com gentileza, é óbvio que isso motiva. Mas ver um trabalho bem feito, quando você vê uma obra concluída, a gente fala... o Ministro da Infraestrutura usa essa expressão, ‘uma obra limpa’, ele fala: “Eu quero uma foto limpa”. Então, fez a rodovia, o taloso tem que estar revegetado, o barranco tem que estar verdinho, as drenagens têm que estar limpinhas. Quando você vê isso, eu danço no trabalho, eu literalmente danço no trabalho. A gente recebeu colegas novos esses tempos, que não conheciam esse meu perfil, eu estava dançando no trabalho e as pessoas: “Nossa, a Secretária de Apoio ao Licenciamento Ambiental está dançando no corredor!” Eu falei: “Vocês não viram o que eu recebi”. Da mesma forma eu fiquei muito, muito, muito feliz no dia que eu recebi uma carta de indígenas e que eles colocaram na carta que, pela primeira vez na História, obedeceram a um protocolo de consulta deles. Foi o diálogo. Quando eu falo o diálogo franco, genuíno, sincero, em busca do consenso. Eu dançava, literalmente, dançava! “Ai, Rose, o cerimonial”. Esquece, nesse momento, esquece. E é o que eu tento passar para as pessoas que trabalham comigo. Como eu sou muito focada e trabalho muito, por vezes eu trabalho, trabalho e trabalho e o elogio passa batido, mas eles vão perceber na minha empolgação, quando eu receber o trabalho e o sorriso estampado no rosto. Então, não vai virar uma placa, uma menção honrosa, mas eles vão perceber essa satisfação, esse reconhecimento. Mas eu sempre falo para eles: “Busquem o reconhecimento dentro de vocês e não só no outro”. Porque eu vejo, no serviço público, muita gente infeliz com essa queixa: “O meu chefe não me reconhece”. Aí eu falo: “Mas porque você busca nele o reconhecimento? Reconheça dentro de você o bem que você faz”. E, mais uma vez: é óbvio que é bom receber um elogio, mas encontre a motivação dentro de você, para o próximo passo, goste do que você fez. O teu trabalho não deixa de ter valor, porque o outro não reconheceu. E no serviço público tem muita gente deprimida, com atestado médico, porque não tem reconhecimento. Então, a minha pregação é essa e o meu exemplo é esse: quando me ver dançando no corredor, é porque algum trabalho deu muito certo. É o meu jeito de reconhecer as minhas conquistas.

 

P/1 – E como essa pandemia impactou você, pensando nos aspectos profissionais e também pessoais? 

 

R - Profissionais, assim, no começo da pandemia acabou que muita gente ficou dando palestra, eu fui chamada para várias palestras e eu sempre falava, porque a pergunta básica era: “A estruturação dos projetos vai parar, por conta da pandemia?” e eu falava: “Mesmo que a gente pare com a estruturação dos projetos, tem um trabalho de bastidores muito forte, pra ser feito: melhoria regulatória, melhoria da gestão, aprendizado, desenvolver indicadores. Sempre tem o que fazer”. Eu não entendo pessoas que falam: “Eu tô na geladeira, ninguém me passa trabalho”. As demandas pulam na minha cabeça. Então, sempre tem o que fazer. Se a economia esfriar e a gente não tiver estruturação de projetos num ritmo frenético como sempre é, a gente vai trabalhar nos bastidores. O que aconteceu, na prática? A estruturação continuou frenética e a gente se encheu de responsabilidades para esse trabalho de bastidores, então ficou muito mais intenso. Para mim não mudou tanto a questão da disponibilidade, que muita gente falou: “Antes eu tinha que trabalhar oito horas por dia e agora eu trabalho 24, porque você está conectado o tempo inteiro”. Eu sempre fui conectada o tempo inteiro, então a minha dinâmica não mudou muito. Eu continuei no trabalho presencial, então a minha vida também não mudou muito. Meu círculo de amizades, em regra, é muito vinculado às pessoas do trabalho, então também não mudou muito a dinâmica. O que dificultou? Conversar com os povos indígenas, por exemplo. Eles eram o nosso maior foco de atenção, porque a imunidade deles é mais baixa, eles são mais suscetíveis a pegar doenças. Então, algumas coisas que a gente postergou foi por conta do cuidado, então isso diminuiu um pouquinho o ritmo. Mas o que mais impactou foi, com certeza, o aspecto pessoal de não poder ir para a roça todo mês. Quando você tem um local de recarregar as energias e te tiram esse local de recarregar as energias todo mês, isso impacta. Então, eu acho que a última vez que eu tinha ido, foi no Carnaval. A pandemia começou próxima do Carnaval, não foi? Março, abril. Então, eu tinha ido passar uma semana com a minha mãe e com a minha família, no Carnaval e depois eu só fui, se eu não me engano, em novembro. Esse período foi difícil. A minha mãe é avessa à tecnologia. Era. Eu odiava videoconferência. Eu lembro de uma professora de inglês, que sempre que eu queria desmarcar uma aula: “Vamos fazer vídeo, eu sei que você está viajando a trabalho, mas vamos fazer vídeo”. Eu falei: “Vídeo não, vídeo não” (risos). Então, a gente teve que quebrar essas barreiras de tecnologia, de não se sentir à vontade na frente de uma câmera. Olha aí, eu já estou falando há quase uma hora, numa câmera. A minha mãe também quebrou esse bloqueio: “Não quero, vou fazer alguma coisa errada” e amenizou, mas faz muita falta, faz muita falta. Esse foi o principal ponto, acho que foi esse o ponto para todo mundo, né? Quem eu vejo que mais ficou abalada pela pandemia foi o distanciamento das pessoas queridas. E, como no trabalho tinham algumas pessoas com os mesmos hábitos que eu, acabou que presencialmente a gente via um grupo pequeno de pessoas. Então, eu não fiquei isolada, isolada, e eu não consigo imaginar, superar um período tão longo, se eu estivesse sozinha em casa. Eu teria, com certeza, ficado mais abalada. E agora, com a minha mãe vacinada, todo mundo vacinado, eu já consigo voltar ao meu ritmo. Até para desestressar um pouco, é lá que eu planto as minhas mudinhas, é um trabalho no dia a dia, de salvar o planeta, é lá. Então, eu tenho o buscar a gratificação no trabalho? Tenho, mas plantar as mudinhas de vez em quando também é muito bom.

 

P/1 – E, Rose, quais foram os maiores aprendizados que você tira, pensando na sua trajetória profissional?

 

R - Eu acho que a gente tem que entender que o trabalho em grupo é necessário e ele é o que gera mais aprendizado na vida. A gente sempre foge de trabalho em grupo na faculdade, né? Porque, em regra, um faz, os outros assinam. Na escola não é diferente, em regra, um tem o protagonismo e os outros vão na onda. Na vida profissional, este modelo pode acabar se replicando, de um fazer e os outros irem na onda, mas o que eu busco sempre é montar quebra-cabeça. Quando eu falo de jogo de estratégia, nessa posição que eu estou hoje, eu tive autonomia para montar a minha equipe, então eu pude escolher, na Esplanada e como o PPI começou, o governo, na Presidência da República, é isso que a gente chama de “poder de requisição”, então eu podia solicitar servidor de qualquer órgão e ele não podia ser negado. Então, aquilo que a gente fala de gestão por competência, você pegar quais são os objetivos da instituição, alocar um perfil adequado e começar a trabalhar aquele perfil, para que ele, a cada dia, dê mais respostas, eu tive toda a liberdade para isso. Então eu montei um quebra-cabeça, eu montei uma equipe com perfis complementares e que gerasse uma certa estabilidade. Então, perfis psicológicos parecidos ou complementares, que gerassem esse trabalho colaborativo. Eu não vejo disputa na minha equipe hoje, pelo contrário: quando um percebe que o outro está sobrecarregado, os outros partem em apoio. E é uma equipe pequena, a gente não passa de dez pessoas. Então, é possível ver esses movimentos, mesmo na pandemia, porque na pandemia tudo se concentra no Whatsapp. Então, poder montar uma equipe com talentos complementares, mostra o quanto isso é necessário. Quanta energia a gente gasta ou para arrastar pessoas ou por disputar espaço com pessoas, sendo que aquilo não agrega valor ao processo? Quando a gente percebe que a missão não é conseguir a posição mais alta, mas alcançar resultados positivos, você passa a fazer parcerias, você deixa de disputar, você vai fazer parcerias, agregar valor, ninguém mais vai restringir informação, pelo contrário. Você tem informação como um ativo, informação hoje eu diria que é o ativo mais precioso que tem, de fato é, mas guardar só para você, não te leva a lugar nenhum, não te leva a nada, não agrega valor ao processo. Quando você disponibiliza informação pra uma equipe com perfis complementares, cada um da equipe vai dar uma utilidade diferente para aquela mesma informação. Então, a gente diminui risco no processo, diminui a falhas no processo, por um olhar atencioso de cada um e muita agregação de valor. Então, acho que, se tem um aprendizado, é: trabalhar em equipe pode ser difícil, mas vale a pena, agrega valor e diminui riscos no processo. Quando a gente fala também em satisfação profissional, que não é onde é que você quer chegar, mas é o caminho a ser trilhado, várias frases que a gente escuta o tempo inteiro, mas que num momento específico da vida vai dar aquele clique e você vai entender, perceber que é isso. Então, a relação profissional, quando as relações são bem harmoniosas, você consegue chegar no resultado final sem traumas, então deixa de ser um peso, passa a ser mais leve e muito colaborativo. E eu acho que isso que reconhecem no trabalho da minha equipe, hoje. Não tem disputa por espaço, não tem ninguém ali disputando espaço com ninguém. Eu acho que, quando a gente fala até de pandemia, a posição do servidor público foi muito privilegiada, no sentido da sensação de estabilidade, né? Então, a gente tinha o conforto de saber que o salário ia estar na conta no final do mês e uma responsabilidade extra de saber que, enquanto outras pessoas não tinham esse mesmo conforto, a gente tinha que garantir o emprego delas no dia seguinte, ou inclusive durante a pandemia. É perceber os privilégios que a gente tem, que nos dão condição de garantir uma vida mais estável para os outros. Tudo tem um propósito no final da linha, não é a obra pela obra, não é a licença pela licença, tem alguém lá no final da linha. Então, no resumo, tudo são pessoas, tudo são pessoas, são pessoas com quem você se relaciona no trabalho, são pessoas para quem você quer oferecer uma estrutura de qualidade. São pessoas.

 

P/1 – Rose, o que representa, o que significa para você trabalhar com áreas e temas tão importantes, pensando no presente, mas também pensando no futuro, como sustentabilidade, meio ambiente? E ainda com um toque - que eu entendi que é muito característico seu - com muita diversão. Como é para você isso, o que representa?

 

R – Então, tem uma carga de responsabilidade muito forte. Porque, quando a gente fala no futuro, a gente está tentando garantir, de fato, o direito de pessoas que a gente nem conhece e é colocar uma carga de responsabilidade sobre as nossas ações. As escolhas que a gente faz hoje vão se refletir nas condições de vida que as pessoas terão no futuro. E isso é uma responsabilidade muito grande. Se não for divertido, ninguém aguenta, porque você começa a perceber o quão pequeno você é. Se você coloca nas costas a responsabilidade de garantir a qualidade de vida das pessoas que virem lá na frente e você percebe no dia a dia que não têm resultados imediatos: “Natureza tem seu tempo, as pessoas têm seu tempo”. Essa frase eu aprendi com diferentes etnias de indígenas, quando a gente quer fazer o processo de consulta. Eles sempre falam: “Não é chegar aqui, fazer uma reunião e ir embora, nós temos o nosso tempo”. E, de fato, é outro tempo, é outro. E foi um aprendizado com os indígenas, foi um aprendizado com a pandemia. A gente tinha que liberar a obra tal até tal data, veio a pandemia e te deu o recado: “Não, vai sair em tal data”. O que você faz com esse não que a vida te deu? Então, ao mesmo tempo, a gente tem que contrabalançar essa carga de responsabilidade, com a gratificação de conseguir uma conquista por dia. Então: “Ah, a gente deveria reflorestar todas as áreas que foram degradadas na Amazônia”. Deveria. A gente consegue fazer isso amanhã? Não. Como a gente faz isso, aos poucos? Desenvolve mecanismos estruturantes, que levem as pessoas a fazerem isso. Ou desenvolve pensamentos que levem as pessoas a entenderem a necessidade de fazer isso, engajar pessoas. Mais uma vez, a gente volta para o quê? Para as pessoas. Para fazer divertido, acho que você tem que se sentir... eu entendo os seres humanos como seres sociais, seres sociáveis, que precisam um do outro. Embora a gente tenha exceções, pessoas que gostam de viver de fato isoladas, em regra, pessoas sozinhas e aí sozinhas no sentido de não ter com quem contar, são mais infelizes. Se sentir parte de um grupo com um propósito, é muito divertido mesmo, é realmente você se sentir parte de alguma coisa maior. E, para diluir eventuais frustrações, isso também ajuda, porque é quando um fraqueja, que o outro fala: “Levanta” ou ajuda. Eu acho que esse é o caminho e é divertido, de fato, é um jogo, é um jogo. E quando a gente está sentindo que a gente está perdendo, o que a gente faz? Vem um técnico ou vem a torcida e fala: “Vai, segue em frente”. Então, fica realmente divertido e dá certo, no fim das contas. 

 

P/1 - Queria saber o que o contato com a natureza, o que essa questão do meio ambiente representa na sua história? Pensando desde a sua infância, que você teve um contato próximo na roça e hoje a natureza pode ocupar um outro lugar, né? Por você não morar lá ainda, mas ainda ter esse contato de toda vez por mês, mas está no seu dia a dia, mas agora ocupando o lugar do seu trabalho. O que isso representa, na sua história?

 

R - Eu acho que, de fato, é muito concreto, a palavra-chave é equilíbrio. Então, o que eu busco hoje? Eu gosto do meio ambiente? Eu gosto. Eu não me vejo morando no meio da floresta. Eu venho da roça, defendo a agricultura com todas as forças, mas a agricultura também tem um jeito certo de ser feito. Por vezes é rotulado como se fosse a causa da degradação, longe disso. Então, eu tento muito puxar para o aspecto positivo, até para servir de exemplo. A gente pode liderar por falas, por regras ou pelo exemplo. A Embrapa faz trabalhos maravilhosos de desenvolvimento tecnológico, por exemplo, do sistema agroflorestal, que hoje, os estrangeiros nos pedem: “Venham apresentar essas técnicas desenvolvidas pelo Brasil”, em determinados eventos. Esse equilíbrio precisa ser demonstrado. A liberdade de escolha: se alguém quiser viver na floresta, tudo bem. Se alguém quiser viver numa cidade de puro concreto, tudo bem. Mas, pensando como sociedade, a gente precisa promover o equilíbrio. Então, respeitando as escolhas individuais de cada um, pensando como sociedade, a gente precisa de atividades sustentáveis. Então a infraestrutura tem um papel extremamente relevante, porque quando a gente fala de infraestrutura de transportes ou de energia, é o caminho que nos leva a determinada coisa. Então, o caminho que vai escoar a produção do agro brasileiro, que é mundialmente famoso pelos seus resultados, a infraestrutura tem que estar no mesmo nível de qualidade, então é equilíbrio. E aí o meu aprendizado passado traz um pouco da realidade, de sair um pouco de fantasiar essa questão ambiental e romantizá-la, de certa forma, para algo mais pragmático. Então, é lindo sim, a gente precisa preservar o meio ambiente, mas a gente também precisa de infraestrutura. Como compatibilizar? Eu realmente acredito numa compatibilização, então é equilíbrio, sempre.

 

P/1 - E quais são os seus maiores sonhos, hoje em dia?

 

R – Então, profissionalmente, eu diria que é produzir lideranças... não é nem produzir, é dar espaço para que novas lideranças se sobressaiam na questão ambiental e na questão de infraestrutura, acho que o momento é muito propício para isso. E as pessoas precisam acreditar que elas podem chegar lá. Então, por isso que eu gostei muito desse trabalho, de mostrar o exemplo de que é possível sim, não é fácil, a gente apanha todos os dias, mas em conjunto a gente consegue. Meu maior desafio hoje é a questão de dar espaço para mais lideranças se desenvolverem. E, no futuro, eu diria que a minha meta profissional é voltar para o trabalho de assessoramento. Eu gosto muito do trabalho, mas todo esse perfil que eu tracei, de pegar e resolver problemas, dar os elementos, é o genuíno trabalho do assessoramento. É você não ter o protagonismo em si, mas ter a missão de montar o quebra-cabeça e entregar. Eu gosto muito disso. Eu tenho um pouco disso no meu trabalho hoje, que também tem o trabalho de liderança junto e eu quero dar espaço para outras pessoas e, quando essas pessoas despontarem, eu vou focar de novo no assessoramento. Com o mesmo tema, infraestrutura e meio ambiente, mas no trabalho de assessoramento.

 

(01:43:50) P/1 – E sonhos pessoais, quer falar algum?

 

R – Ontem mesmo eu fui perguntada se eu queria ter filhos. Como eu falei já, quando eu trabalhei na creche, eu saí do cenário “quero ter cinco filhos” para “não quero ter”. Eu sonho em formar família, hoje não com essa imagem do “muitos filhos”. Eu adoro ser tia das amigas, os meus irmãos ainda não me deram sobrinhos, eu espero sinceramente que eles trabalhem para isso, mas tem muitas amigas próximas com filhos, eu adoro crianças, mas eu não me vejo mãe e não me cobro hoje, por isso. Em outros momentos já, até para manter o nome da família, até isso já pensei: “Mas eu não estou tendo filhos, meus irmãos até agora nada. E o nome da família?” Eu não me cobro, mas eu sonho em formar uma família lá na frente, na hora que o caminho estiver aberto para isso, mas hoje eu diria que eu não me cobro. São sonhos que eu coloco, mas não estou focada como se fosse uma meta de um sonho pessoal, em atingir. Eu tenho muitas relações de família e amizade, que me dão um caminho muito feliz hoje, mas se aparecer alguém bacaninha, a gente faz uma família tranquilamente. Então, eu diria que é esse sonho pessoal: curtir a família, seja em qual formato for.  

 

(01:45:29) P/1 - Você gostaria de acrescentar algo mais, alguma história, alguma coisa que eu não tenha instigado, ou deixar alguma mensagem?

 

R – Acho que deixar a mensagem realmente do tudo é possível, mas que a gente não coloque isso como cobrança: “Eu deveria conseguir, porque o outro conseguiu”. A gente não sabe a história completa, cada um tem as suas dificuldades, mas é possível. E, assim, quem eu puder ajudar no meio do caminho, esse é o meu papel. 

 

(01:46:01) P/1 – Para finalizar, queria saber o que você achou dessa proposta de ser convidada a contar a sua história no Projeto de Mercado Rodo-Porto- Ferroviário, especificamente para mulheres e como foi para você dividir um pouquinho da sua história com a gente?

 

R – Foi bem bacana, gostei muito da ideia, justamente por essa missão que eu falei, que hoje eu me coloco, do abrir espaço para as próximas. Cada uma sabe o que passou no caminho para chegar onde chegou e a gente pode ter a postura do “se eu consegui, qualquer um consegue”, ou um pouquinho de bom senso e abrir o caminho para as demais. Então, a iniciativa vem em boa hora, eu acho que ela é muito necessária, para que as pessoas percebam que é possível e vejam um suporte. Seja a liderança pelo exemplo, de ver: “Olha da onde ela saiu, olha onde ela chegou”, que existem caminhos a serem trilhados, que existem pessoas que podem ajudar nesse caminho. Mas acho que principalmente a minha reação foi: “Mas eu?! (risos) Tem tantas”. Acho que todo mundo pensa isso, né? Você se sente uma pessoa escolhida e é muito gratificante, é o que eu falo, é um reconhecimento. E eu acho que, nessa liderança pelo exemplo, o que eu puder contribuir, o que eu puder ajudar, contem sempre comigo, eu gostei bastante. E é legal revisitar algumas partes da história. A gente não para, no dia a dia, para pensar o que te marcou na vida, qual foi o trabalho que mais te marcou. E revisitar mostra o quanto cada passo, que cada perrengue na vida contribuiu para o que você é hoje. Quando a gente é pequeno, a gente pergunta: “Ah, mas o que eu vou usar dessa aula de Matemática?” Um dia você vai usar, ainda que seja para não falar besteira nas redes sociais, você vai usar (risos). Então, acho que essa conversa foi muito boa para relembrar isso, o que eu aprendi em cada lugar, as pessoas que me ajudaram a chegar aonde eu cheguei e como eu posso ajudar os outros a chegarem em algum lugar. Eu agradeço profundamente.

 

P/1 - Que legal! A gente agradece demais, foi muito gostosa essa manhã.

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