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História

Investindo em qualidade

História de: Jose Roberto Tambasco
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Reestruturação do Grupo Pão de Açúcar. Carreira longa. Empresário. Ramo operacional. Controle de qualidade. Grandes desafios.

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História completa

P/1 - Em primeiro lugar, bom dia.

 

R - Bom dia.

 

P/1 - Queria começar a entrevista pedindo pra você falar seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - José Roberto Coimbra Tambasco, nascido em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em novembro de 1956.

 

P/1 - E, Tambasco, você podia falar o nome completo de seus pais e a atividade que eles desenvolviam?

 

R - Meu pai é Antônio Tambasco, minha mãe é Helena Tambasco. Meu pai foi a vida toda dele um comerciante. Eu, com dez anos de idade, vivi um pouco de supermercado no interior, meu pai tinha um supermercado. Então, eu fiz de tudo um pouco ali como repositor, como balconista, já vivi isso desde a minha infância. Depois, ele lidou muito com cereais, enfim, virou atacadista de cereais, sempre trabalhou nessa área de comércio. De certa forma, eu vivi nesse ramo desde a infância.

 

P/1 - Como se chamava o supermercado da família?

 

R - Não era da família, era um supermercado que meu pai tinha em sociedade com terceiro. Se chamava Supermercado São Paulo, foi o primeiro supermercado, não só em São João da Boa Vista, mas ali da região de São João da Boa Vista. Primeira loja de serviços da região.

 

P/1 - E a sua formação?

 

R - Eu com dezessete anos, saí ali de São João pra estudar, pra fazer uma faculdade, e acabei vindo pra São Paulo, isso já era em 1976, 1975. Fiz [Fundação] Getúlio Vargas, me formei em 1980 em Administração Pública, mas me voltei no final do curso para finanças e marketing.

 

P/1 - E como acontece o Pão de Açúcar na sua vida?

 

R - O Pão de Açúcar foi no final da década de 1970, em 1977, 1978, eu ainda fazia o curso de Administração Pública, tinha trabalhado em empresa pública como estagiário, gerenciei no final da minha graduação dois bares e um restaurante na própria Getúlio Vargas durante um ano e meio. Foi quando eu tomei conta da decisão de que meu negócio não era na área pública e estava me voltando mais pra empresa. Nesse momento, o Pão de Açúcar apareceu lá com um programa de recrutamento de trainee na Getúlio Vargas, onde praticamente toda minha classe se inscreveu, porque o Pão de Açúcar naquela época começava a crescer fortemente, tinha recém adquirido a Eletroradiobraz e o Pegue e Pague, era uma empresa que despontava. E a empresa, nesse momento, tinha uma série de diretores que eram formados na Getúlio Vargas. Eu tenho até hoje uma revista da época, chamava-se Revista Senhor, pouca gente conhece, na capa da revista está toda a diretoria do Grupo Pão de Açúcar na frente da Getúlio Vargas, e eram todos diretores que tinham feito Getúlio Vargas, Abilio, Luis Carlos, tinha vários diretores que não estão mais aqui. Enfim, naquela época o Pão de Açúcar representava, para o pessoal que estava se formando na Getúlio Vargas, uma empresa bastante interessante porque tinha muito da Getúlio Vargas ali dentro. Nesse recrutamento de trainee eu acabei sendo selecionado junto com outros três colegas e a gente iniciou esse treinamento, acho que foi um dos primeiros programas de trainee do Pão de Açúcar voltado para a área de operações. Todos esses diretores oriundos da Getúlio Vargas, ocupavam cargos de direção da companhia, mas mais voltados às áreas de apoio, área financeira e área comercial, nenhum na área operacional. A área operacional era, até então, formada por gente que tinha crescido dentro de loja. E a empresa tinha interesse em trazer um outro perfil de profissional para essas áreas de operação. Então, o programa foi desenvolvido em cima disso.

 

P/1 - Qual foi a sua primeira atividade?

 

R - Eu acabei tendo que encurtar o meu estágio, ainda não tinha me formado, estava pra me formar, mas acabou com a abertura da rede de lojas Sandes, que era umas lojas de departamento do grupo. O gerente de vendas de um antiga divisão, que era da Rádio Eletrobras, acabou indo pra Sandes, e eu, como assistente dele, assumi a gerência de vendas na Rádio Eletrobrás. Isso já estava acontecendo logo depois de quatro meses de estágio. Eu fiquei terminando a escola e já de certa forma ocupando a posição de gerência de vendas. Passei nessa função por um ano, alguma coisa assim. Assumi outra posição na área de controle na própria divisão da Eletroradiobraz e dois, três anos depois eu fui pra um departamento de vendas, que englobava o que é hoje nossa área de marketing e toda área de administração de preços. Fiquei nessa posição primeiro como gerente de vendas da região, fora do Estado de São Paulo. Tive a oportunidade de conhecer todo o Pão de Açúcar fora do Estado de São Paulo. Depois assumi a gerência geral de vendas aqui em São Paulo e fiquei uns dois anos nessa função. Aí, nós estávamos no começo de 1990, quando a empresa começou a se reestruturar, que aí é uma outra história, a mudança que a empresa passou a sofrer a partir da década de 1990.

 

P/1 - E como foram as inovações? Você presenciou, participou da... 

 

R - Você sabe que essa fase do Pão de Açúcar no início dos anos 1990, da década de 1990, foi muito marcante, acho que pra toda a companhia até hoje. A gente se recorda desse momento, desse período, porque a empresa vinha depois de uma década de um grande crescimento, onde nós chegamos a ter cinquenta mil funcionários, mais de seiscentas lojas. A empresa teve dificuldades, em razão dos planos econômicos que ocorreram, e por problemas até internos ela teve que se reestruturar. Ela iniciou os anos 1990 já bem menor, num processo de enxugamento da operação da companhia, já no início da reestruturação. A empresa já tinha crescido demais e de forma muito desordenada, o foco nesse momento estava baseado muito no que até hoje o Abílio ainda fala, o “corta, concentra e simplifica”. A empresa diminuiu todas as atividades que não eram voltadas ao varejo e eliminou uma série de lojas que não eram rentáveis ou estavam distantes demais do centro aqui de São Paulo, o que dificultava a gestão dessas lojas. A empresa deu uma enxugada, encolheu. Após todo esse período, eu tinha ficado um tempo na área comercial, foi o período de renegociação de fornecedores em comum. Nesse momento de crise no Pão de Açúcar, eu tive a oportunidade de participar desse momento como um dos principais negociadores com os fornecedores. Foi quando eu tive uma aproximação maior com o Abílio, que tinha então retomado com mais presença aqui no dia a dia da companhia, e participou, inclusive pessoalmente, de uma série de negociações com os grandes fornecedores. Eu tive a oportunidade de contracenar, Abílio e eu, com uma série de fornecedores. A partir daí, a empresa já estava retomando o seu crescimento e eu fui convidado a ir pra bandeira Pão de Açúcar. Isso em 1994. A bandeira Pão de Açúcar tinha perdido muito espaço no mercado, os Extras estavam começando a ganhar força, as lojas do Pão de Açúcar eram lojas ultrapassadas, lojas velhas, desatualizadas, com uma imagem de supermercado caro, que tinha se acentuado no período de inflação, com uma variedade de produtos muito ruim... Enfim, a marca Pão de Açúcar, nesse momento, era o supermercado de menor prestígio, o pior supermercado de São Paulo, seguramente. As lojas que despontavam aí eram Eldorado, Sé, o próprio Barateiro, que eram lojas que estavam muito mais atualizadas e a gente tinha uma dificuldade muito grande de competir com esses concorrentes. Nesse momento, eu fui convidado pra ir pra essa bandeira e uma das coisas que mais me orgulham nessa companhia é ter participado do reposicionamento da bandeira Pão de Açúcar, em 1995. Com esse trabalho, a gente desenhou o que era e o que deveria ser o posicionamento do Pão de Açúcar. De certa forma, até hoje, quase dez anos depois disso, o posicionamento que a gente encontra no Pão de Açúcar é exatamente o que a gente desenhou em 1995. O início desse trabalho foi bastante interessante porque a gente tinha uma fotografia desse mercado de concorrentes e como vinha se comportando o consumidor, como estava evoluindo o comportamento em termos de consumo especialmente aqui na cidade de São Paulo, um dos grandes centros de tendência de consumo. Com esse quadro é que começamos a desenhar o posicionamento do Pão de Açúcar e a gente criou uma série de frentes para estar atendendo essa nova demanda desse mercado e desse posicionamento do Pão de Açúcar, que era basicamente a questão de variedade. a gente iria ser visto como um supermercado de melhor variedade. A gente, com uma série de pesquisas, começou a introduzir vários itens nas lojas. Existe uma coisa que até pouca gente sabe e é até difícil de acreditar, isso foi em 1995 e durou até 1996, quando a companhia já voltava a crescer, a gente tinha aumentado tão significativamente a quantidade de produtos que a gente não tinha onde pôr. Eram lojas muito velhas e a gente ainda não tinha aparelhado as lojas. Após a década de 1990, onde perecíveis ganhavam espaço, essa coisa toda, e a ao mesmo tempo gente tava trabalhando a variedade. Só que o desenho de modelo de loja ainda não estava pronto e muito menos tinha sido implementado, exigia reformas em praticamente em todas as lojas. Nessa ocasião, nem roupas a gente tinha pra colocar toda essa variedade. Quem estava aqui nessa época vai se recordar disso. A gente começou a trazer do Ceasa caixas para transportar laranja, onde a gente empilhava com a boca pra lateral e fazia dessas caixas gôndola de produtos. Isso era em lojas da Gabriel, lojas... A gente deve ter fotos disso daí, eu acho interessante porque todas as lojas tinham caixas. Chegou um momento em que a gente teve que começar a proibir porque estava virando uma coisa maluca. Mas aquilo funcionou pra companhia como a única chance que a gente tinha de fazer com que essa variedade fosse percebida em todas as lojas sem que a gente tivesse que fazer um investimento, que era muito dinheiro. Acho que foi o primeiro movimento do Pão de Açúcar de retomar a sua posição no mercado, tentando mostrar alguma coisa de diferencial.  A partir daí, entre as várias frentes, a gente começou a entender que o Pão de Açúcar precisava buscar diferenciais que pudessem segurar o cliente que estava ao redor da loja com uma loja diferente. Os supermercados cresciam violentamente, com uma força muito grande em preço. E a gente via como uma grande oportunidade da gente ainda ganhar esse mercado criando uma situação de compra diferente da de um hipermercado ou de algum supermercado. A ideia era que você tentasse interferir ou acelerar uma tendência de consumo que a gente já enxergava em outros países, que era você poder oferecer, em lojas de vizinhança, um máximo de praticidade, de facilidades na compra. Então, a gente desenvolveu nesse momento uma série de novos produtos para o supermercado, quer dizer a variedade não era só voltada para marcas de produto, mas voltada para um outro tipo de produto que tivesse um valor agregado para o consumidor maior. Nesse momento a gente entendeu que, para eu criar isso, eu deveria trazer para dentro da companhia não só o produto, mas um pouco de glamour, um pouco de apelo para esse tipo de produto que fosse mais do que o próprio produto. Foi quando a gente começou a ter contato com alguns restaurantes no mercado, pessoas que tinham restaurantes de nome, como João Carlo Bola, Sergio Arno, para que a gente pudesse ter produtos assinados por esses profissionais e que pudessem dar para o Pão de Açúcar um diferencial mais significativo do que era esse produto. Era um produto novo para você consumir, que te dava toda a facilidade de encontrar isso em qualquer lugar e não necessariamente precisar ir a um restaurante. Num primeiro momento, esses profissionais, até porque tinham um nome muito forte no mercado, rejeitaram esse convite, por entender que o produto dele dentro de uma loja do Pão de Açúcar perderia prestígio. Até que a gente começou com novas lojas. A primeira dessas lojas foi a loja do Market Place, que era um conceito totalmente inovador de loja de vizinhança, que trazia uma série de inovações do que a gente já via em outros mercados, como o mercado americano, o mercado canadense e europeu, e trouxemos para o Brasil uma evolução de supermercado. Até então, nos últimos anos, depois do autosserviço propriamente dito, a grande evolução do varejo tinha sido dado aos hipermercados através do Carrefour. O Pão de Açúcar, a partir de 1995, conseguiu trazer um novo conceito de lojas de vizinhança para fazer frente aos hipermercados e criar um hipermercado mais voltado para o que a gente chama hoje de “consumidor cosmopolita”, que era essa coisa da facilidade, da praticidade e tudo mais. O desenho dessas lojas até hoje a gente vê no Pão de Açúcar, que são os perecíveis muito mais fortes, em detrimento da mercearia, que até então era o enfoque maior desses supermercados. A gente mudou esse foco e acho que o Pão de Açúcar nesse momento conseguiu trazer pro varejo, como um todo, um modelo novo de loja. Quer dizer, a primeira geração de supermercados Pão de Açúcar, nos anos 1990, e que hoje a gente vê outros concorrentes aí também nessa mesma linha, ela foi trazida pelo Pão de Açúcar. E eu participei bastante desse período aí. A gente começou a perceber o sucesso da gente ter trazido essas grifes para dentro das lojas, era uma demanda reprimida e o consumidor dava muito valor pra esses diferenciais que começavam a trazer, ao ato de comprar, uma coisa mais de prazer, uma coisa mais agradável. Foi aí que a gente começou a entender que a gente precisa evoluir um pouco mais em termos de inovações que pudessem agregar valor ainda maior para esse consumidor mais cosmopolita. Foi aí que a gente começou a entrar com o delivery. A gente criou o delivery, porque a gente via que esse consumidor tinha uma necessidade desse tipo de serviço e, mais uma vez, isso emprestou uma grande credibilidade pra marca em termos de empresa que se atualizava, que se modernizava. Isso foi criando em todos nós uma necessidade cada vez maior de “o caminho é esse mesmo e eu preciso trazer mais inovações”, e aí surgiram os projetos do Pão Music, do PAKids, da loja voltada para criança, do PAClube, que já era uma coisa muito presente no Pão de Açúcar, essa coisa do esporte. A gente queria associar a marca Pão de Açúcar de uma maneira mais forte, e aí surgiu o Pão de Açúcar Clube com essa cara que ele tem hoje. Esse mesmo momento de reestruturação, isso foi em 1993, a empresa tinha entendido que a única forma dela conseguir sobreviver nesse mercado era entendendo um pouco mais do consumidor. Aí a empresa, então, passou a investir fortemente nessa questão, foi quando a gente trouxe pro grupo a Vera Giangrande e criou-se um grupo de representação do consumidor, quer dizer um ombudsman. E foi um período muito difícil pra gente, quem trabalhou com a Vera sabe como ela era chata em questões de defender o consumidor e ela exercia sobre a companhia uma pressão muito grande. Quer dizer, a Vera, no início, foi um grande calo pra mim. Ela brigava muito comigo porque eu, de certa forma, era o responsável pela operação do Pão de Açúcar. Nessa época, o Extra não era tão representativo dentro do mercado, então só se falava em Pão de Açúcar. As críticas sobre toda essa desatualização das lojas, essa ineficiência que a gente tinha apresentado no período anterior a isso, trazia pro cliente uma visão muito ruim e críticas muito grandes na medida que a gente abria esse canal para estar ouvindo o consumidor. A gente levou um tempo num trabalho com a Vera pra começar a mudar esse jogo. Sem dúvida nenhuma, são várias as situações que contribuíram pra isso. A gente percebeu que essa coisa do Pão de Açúcar voltar-se um pouco mais para essas questões de “como é que que eu atendo todas essas demandas que o consumidor me traz”, essa preocupação por si só é que acabou acelerando ainda o processo de inovação da companhia e fez com que o Pão de Açúcar se atualizasse numa velocidade muito rápida. Praticamente, acho que no final de 1990, uns três, quatro anos depois da primeira loja que a gente transformou nessa fase, você já começava a sentir o Pão de Açúcar determinando um pouco das tendências do autosserviço não só em São Paulo, mas no Brasil como um todo. A gente passou, a partir daí, a ser um pouco modelo para outras redes e a ser reconhecido fortemente pelo mercado, pelo formador de opinião. E o Pão de Açúcar, a partir daí, começou a ganhar prêmios, você já não tinha só reclamação, você começava a ter elogios por aí afora.

 

P/1 - E foi num período muito curto, né?

 

R - Num período muito curto, acho que pelo que representava a marca até então. E olha, eu vou te confidenciar uma coisa: no início dos anos 1990, quem tava aqui provavelmente teve o mesmo sentimento que eu tive na época. Quer dizer, falar do Pão de Açúcar pra mim era uma coisa desagradável. Nas festas, com família, amigos, qualquer evento social, me irritava profundamente quando o assunto era supermercado, porque sempre caía em cima do Pão de Açúcar e as críticas eram muito grandes. Então, eu evitava falar que eu trabalhava no Pão de Açúcar. Também, a gente não se dignava, acho que esse era o termo, de sequer vestir uma camisa que tivesse a marca Pão de Açúcar, tal era a depreciação que a marca tinha passado. E três, quatro anos depois, falar que trabalhava no Pão de Açúcar ou as pessoas reconhecerem você como sendo um profissional do Pão de Açúcar era algo de muito importante, as pessoas queriam saber, queriam conversar com você, mas aí era muito do lado positivo de tudo que a empresa vinha fazendo, a ponto da gente, a partir daí, começar a ter orgulho da marca. Então, eu acho que isso contaminou as pessoas que trabalhavam aqui de uma situação onde as pessoas tinham vergonha mesmo de vestir uma camiseta que tivesse o nome Pão de Açúcar, a passar a ter prazer e começar a ter alguma coisa que identificasse eles até como ligados ao Pão de Açúcar. Foi num período muito curto isso daí. 

 

P/1 - Realmente, está sendo uma aula sobre inovação com você dentro da trajetória, espero que em breve a gente possa fazer uma conversa mais longa de uma série de pontos que não puderam pela exiguidade do tempo. Queria terminar pedindo pra você dizer como você se sente sendo entrevistado pelo Projeto Memória do Pão de Açúcar.

 

R - Eu acho que esse tipo de iniciativa é extremamente positiva, não é tanto pelo orgulho que eu tenho de poder fazer um pouco parte da história desse grupo, mas acho que hoje a gente carece, a gente sente muito por não ter tido a oportunidade de deixar tudo que a gente viveu de história nessa companhia registrado. Embora eu tenha vivido essas mais de duas décadas de companhia, ainda hoje sinto como se eu estivesse numa empresa nova. Não me sinto com tanto tempo de companhia porque ela evolui muito rapidamente, ela recicla-se de uma forma muito rápida. Então, a gente sempre tem a impressão de que está numa companhia nova. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que essa companhia não foi criada agora. Então, é uma história de mais de meio século e acho que tem muita gente que passou por essa companhia, ajudou a construir esse grupo, e hoje a gente tem muito pouco registro dessa história, dessas pessoas. Até hoje eu tenho amigos que há quinze anos já saíram do Pão de Açúcar e todo momento que eu encontro com eles - são pessoas hoje  com mais de sessenta anos de idade -, eles falam do Pão de Açúcar com muito carinho e contam muito da história do Pão de Açúcar. E é uma pena que a gente não tenha tudo isso registrado. Mas sempre é tempo, a gente tem muita gente aqui que tem história pra nos contar. Eu acho que isso não é uma coisa só de saudosismo, mas de até entender a evolução dessa companhia e de que isso possa ser não só ter um pouco do folclore do que cada um viveu, mas da história do grupo e o que pode dessa história ser usado para que essa companhia continue a crescer, a evoluir, a dar oportunidades. Eu acho uma iniciativa extremamente positiva, legal e muito agradável. 

 

P/1 - Então tá, muito obrigado pela sua presença.

 

(pausa)

 

R - Tudo bem, rapidinho, eu começo a falar eu não paro mais. Eu acho que talvez valha a pena acrescentar ainda alguma coisa. Eu acho que esse início do reposicionamento do Pão de Açúcar, a partir do momento que a gente começou a ter um grupo de lojas mais significativos, dentro do posicionamento do Pão de Açúcar, nós começamos a ter um outro problema, que era como administrar um posicionamento que era muito voltado pra esse consumidor mais cosmopolita, onde as famílias eram menores, a mulher também tinha participação no orçamento mais ativo da família e, portanto, menos tempo pra cuidar da casa. Tudo isso estava dentro do que o Pão de Açúcar procurava explorar. Mas, ao mesmo tempo, você tinha lojas que estavam na periferia de São Paulo, em bairros onde você tinha ainda essa dona de casa mais tradicional, e onde esses referenciais do Pão de Açúcar não eram tão percebidos. E o Pão de Açúcar vinha lutando com isso, até que surgiu a oportunidade da gente estar adquirindo a bandeira da Rede Barateiro, o que foi uma aquisição estratégica ao grupo, porque em razão dos problemas que a gente sofria no Pão de Açúcar, de estar administrando diferentes mercados com um único posicionamento, a gente viu no Barateiro a oportunidade de a ter dois posicionamentos de lojas de vizinhança de supermercado: um voltado para um cliente mais cosmopolita e outro voltado para um cliente mais tradicional, ou de comportamento de consumo mais tradicional, que você encontrava em bairros de periferia, de classe média, ou de classe média-baixa. A partir daí a gente começou a desenvolver um novo modelo de lojas mais populares com a bandeira Barateiro. Algumas lojas do Pão de Açúcar, que a gente via que se encaixavam mais nesse posicionamento, a gente passou a levar para o Barateiro, e isso trouxe para a companhia uma grande oportunidade com três bandeiras: a bandeira do hipermercado Extra, e duas bandeiras para o Pão de Açúcar, uma mais classe média alta e a outra mais classe média-baixa. Com duas bandeiras a gente poder estar em qualquer mercado desse país. Acho que a experiência do Pão de Açúcar na retomada desse crescimento da bandeira Pão de Açúcar ajuda a gente a questionar como fazer essa transição de bandeira pro Barateiro, usando muito da experiência que a gente teve no Pão de Açúcar. Essa questão das caixas como gôndola, a gente a todo momento está falando isso ao Barateiro. E o varejo é muito interessante. Embora a gente seja muito impactado em visitas que a gente faz ao exterior ou em outros supermercados. Todas as informações que a gente recebe hoje, em relação a equipamento, modelo de loja, o que impacta muito a gente é o equipamento. No entanto, a gente vê claramente que o sucesso de uma loja, o sucesso de um varejo, não está na condição de você ter ou não um equipamento do mais adequado, ou o mais bonito, mais moderno. O sucesso da loja está claramente na criatividade que você tem pra usar qualquer equipamento da melhor forma possível. Eu não preciso ter uma gôndola mais bonita pra eu poder apresentar uma loja melhor. Eu não preciso ter um balcão, um frigorífico mais refrigerado, que seja mais bonito ou mais sofisticado pra poder ter um impacto e uma apresentação boa do produto. O que precisa é ele funcionar bem, né? Ele ser um equipamento que realmente resfrie a mercadoria, ou congele a mercadoria. Mas a grande diferença está no produto. A forma como você trabalha o produto dentro da loja é que vai fazer a diferença. Quer dizer, layout ajuda, o equipamento ajuda, mas toda a experiência que a gente teve no Pão de Açúcar começou com o seguinte: o que vale é o produto, é a forma como você lida com o produto. E acho que a gente não pode deixar de falar que toda essa criatividade na forma de você expor o produto, ela também não acontece de forma muita técnica, no sentido de que você tem um padrão de exposição, onde você coloca isso numa cartilha e essas coisas acontecem pura e simplesmente. Um modelo de loja de supermercado acaba trazendo, ele acaba gerando uma falta de padrão entre lojas de áreas de vendas muito grandes, áreas muito pequenas, áreas de centro mais verticais, onde você tem pequenos espaços pra colocar o mesmo tipo de loja. Quer dizer, tudo isso traz uma dificuldade muito grande de você equacionar esse problema de como você expor esses produtos. E aí vem outro ponto em que o Pão de Açúcar teve e tem uma força muito grande, que são as pessoas que acabam criando todas essas soluções e que acabam por gerar uma situação até muito favorável. Acho que essa questão dessas pessoas terem, a partir de um determinado momento, comprado muito claramente o que era esse posicionamento, acho que vem hoje até para o próprio Barateiro com bastante força, de entender o seguinte: a diferença de uma loja se dá pela capacidade das pessoas em fazerem com que esses diferenciais sejam percebidos independentemente de você ter lojas padronizadas, mas você conseguir padronizar um pouco dessa característica da operação, em que você tá fortemente impactado pela performance da sua equipe. Quer dizer, é a equipe que vai definir este padrão, não tanto o equipamento ou a estrutura da loja. E se a gente for olhar a história mais recente do Pão de Açúcar, voltar-se ao cliente, ter gente que consiga entender o que é essa demanda do cliente e conseguir responder isso com ações em loja passou a ser um diferencial muito significativo. No primeiro momento, para o Pão de Açúcar e, hoje, até mesmo pro Barateiro, que é hoje a bandeira que a gente tem colocado muito forte, é a questão de você especializar as pessoas do Barateiro na relação com o cliente mais tradicional, mais conservador, mais classe média, média-baixa. Acho que a gente tem conseguido evoluir muito, a ponto do Barateiro, se a gente olhar nesse aspecto, ser, senão o responsável, uma das grandes bandeiras em que a agência de propaganda popular se inspira para criar a sua própria agência. É uma agência com profissionais que vieram de outro mercado, mas que tem um nome de agência popular e que, desde o início dela, quando ela foi criada, usava o Barateiro como o foco que ela tinha pra trabalhar. E ela acabou vindo trabalhar com a gente. E acho que a Barateiro tem sido, com a ajuda deles, um grande fornecedor desse consumidor, que já é um consumidor diferente do que é o consumidor do Pão de Açúcar, né? Essa questão das pessoas que trabalham aqui, seja na bandeira Pão de Açúcar ou no Extra, o foco da companhia é estar se voltando pro consumidor, e isso tem trazido a essas pessoas uma necessidade, uma vontade de entender esse consumidor e tentar responder essas demandas. Enfim, acho que a história não é só pra gente ler e matar a saudade, a história é pra gente buscar um pouco do que a gente já fez, ou outras pessoas fizeram e que possa estar ajudando a gente a agregar alguma coisa a mais pra companhia. Eu acho que a gente tá conseguindo fazer isso hoje na história mais recente e no Barateiro também.

 

P/1 - Tá ótimo.

 

R - Tudo bem?

 

P/1 - Muito obrigado.

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