Busca avançada



Criar

História

Investigador da memória

História de: Hilário Labat Uchoa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2019

Sinopse

Infância em São Paulo. Sobre pai e mãe. Primeiro emprego. Ajudante de marceneiro do pai. Período no CPOR. Casamento e primeiro filho. Consultoria de segurança e recrutamento de vigilantes. NitroQuímica e Grupo Votorantim. Reestruturação do Clube e auxílio da comunidade de São Miguel. Fotos e objetos da NitroQuímica que guardou. Farpas entre Votorantim e Indústrias Matarazzo. Momentos mais importantes e as gerações do Grupo.

Tags

História completa

P1 - Judith Zuquim

P2 - Soraya Moura

R - Hilário Labat Uchôa



P1 – Uchôa, pra gente começar: seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Hilário Labat Uchôa, eu nasci em São Paulo, em 19 de agosto de 58.

 

P1 – E em que bairro você morava?

 

R – Eu morava... Nasci e morei, durante muitos anos, na Vila Maria. 

 

P1 – E você lembra da Vila Maria na época da sua infância? Como era?

 

R – Lembro, como não? Lembro sim.

 

P1 – E como era?

 

P1 – Rua de terra, a gente andava descalço, jogava bolinha de gude na rua. Eu também não fui uma pessoa, assim, que brincou muito na rua, não. Mais estudava, né? Os pais não deixavam muito brincar na rua, não.

 

R – E seus pais faziam o quê?

 

P1 – Meu pai é marceneiro. Minha mãe, doméstica. A minha mãe é italiana, veio pro Brasil com 4 anos de idade, e sempre foi do lar. Meu pai, ele era marceneiro, mas sempre foi, assim, um homem dos 7 instrumentos, dentro de casa sempre fazia de tudo. E ensinou isso pra nós, os filhos dele. Alguns pegaram, outros não. 

 

P1 – E ele chegou a trabalhar em alguma empresa?

 

R – Ele trabalhava no antigo DAE, Departamento de Água e Esgoto de São Paulo - hoje Sabesp, né? Ele se aposentou lá, inclusive. Na verdade, ele era mineiro, veio pra São Paulo pra ser jogador do São Paulo, mas aí o meu avô [materno] falou assim que pra casar com a filha dele, não podia ser jogador. Aí ele foi ser motorneiro de bonde, na época. Aí ficou um tempo como motorneiro de bonde, depois surgiu essa vaga – pelo que eu sei, né, também; não sei de todos os detalhes -, aí entrou na Sabesp e foi galgando os postos até chegar como encarregado do setor de carpintaria da Sabesp, do DAE, né? Onde que entravam toras de madeira e do outro lado já saíam os móveis prontos pra atender as necessidades da própria empresa. 

 

P1 – E como é que ele foi pra carreira de jogador de futebol?

 

R – Ah, não sei, porque, na família, todos são pernas de pau. Não tem um que é... Só se ele realmente jogava muito, né? Mas os outros irmãos que eu tenho, nenhum joga bem.

 

P1 – E você chegou a ver ele jogando?

 

R – Não, nunca tive oportunidade, assim, a não ser uma vez ou outra na praia, alguma coisa assim. Mas mesmo assim, quando a gente ia pra praia, a gente ia pra costa do Rio, alguma coisa, casinha nossa, lá...

 

P1 – E a sua mãe, como que ela chegou no Brasil?

 

R – Então, na época, ela veio pra cá com 4 anos de idade; ela nasceu em 20, então em 24, mais ou menos, ela veio pra cá. E diz ela que o navio furou no meio do caminho, teve uma série de problemas, tal, veio pra cá... O nome dela, inclusive, é Domenica (Chianto?) - hoje é Dominga Santo, foi naturalizada. Veio e foi morar lá em Minas. Minha mãe, ela sempre foi uma pessoa muito forte; sempre trabalhou na roça, assim como meu pai também, e dizem até que ela tinha a força de 2 homens, que ela carregava 2 sacos de batata nas costas, coisa assim. Meio mulher grandona. Hoje tá aí, cheia de problemas de saúde, mas naquela época era bem forte.

 

P1 – E você sabe de que região da Itália ela era e por que ela veio? Se ela veio sozinha...

 

R – Então, segundo o que ela me passou, ela vinha, ela tinha vindo da província de Catanzaro, Itália, e agora minha filha, que tá querendo ir pra lá, foi levantar todos os dados dela, tanto que pediu até uma certidão de nascimento da minha mãe, e ela nasceu na, numa cidade... Não me recordo o nome agora, mas é próxima de lá da província de Catanzaro, perto da, [na] Calábria.

 

P1 – E ela veio sozinha?

 

R – Não, veio com a família, com os pais dela; os pais e ela.

 

P1 – E o pai dela fazia o quê?

 

R – O meu avô era eletricista. _________ Chico. Eletricista. Eu conheci ele pouco, morreu quando eu tinha 8 anos de idade.

 

P1 – E você tem alguma informação sobre a chegada deles, como que eles se instalaram, onde...?

 

R – Eles vieram pra região da Vila Maria, naquela época. Já tinha esse conhecimento de eletricista e, praticamente, toda a parte de elétrica da Vila Maria, naquela época, foi meu avô que fez. Um velho que gostava muito de vinho. Aprendi a tomar vinho com ele, (risos) com 6 anos de idade.

 

P1 – E a sua infância na Vila Maria? Você estudou lá?

 

R – Eu sempre estudei na Vila Maria, sempre me dediquei lá, nas escolas na região, estaduais. 

 

P1 – E você lembra da época da escola, como era?

 

R – Uhum, lembro. Várias passagens.

 

P1 – Fala um pouquinho.

 

R - Não tenho muito o que falar, eu sou uma pessoa, assim, muito quieta, muito introvertida, até, e acho que também era naquela época, apesar de ser muito marrudinho. Lembro de algumas brigas que tive na escola, não gostava de provocação, nunca gostei de provocação. Vários fatos. “Me encontra na saída que eu vou te pegar de pau”, aquela coisa toda, que com toda criança acontece, né? Mas não teve grandes... Tipo assim: eu, com 6 anos de idade, fiz minha primeira caixa de engraxate, já queria ter minha autonomia [e] com 8 anos, eu fiz um carreto pra fazer entrega de feira, aí eu fui pra feira; depois, fiz bijuteria pra vender em feira. Quer dizer, sempre, desde pequeno, eu sempre busquei alguma coisa, né?

 

P1 – E você lembra como era a sua casa?

 

R – Ah, lembro. Lembro sim. 

 

P1 – Como era?

 

R – Ah, uma casa simples; quem construiu minha casa foram meus pais, tijolo por tijolo. Então qualquer reforma, qualquer coisa que tinha, nós que entrávamos na, todos os filhos entravam na briga, também, de reformar, de carregar, de construir, de levantar. Foi uma casa humilde, mas bem feita - de tijolo bem feito. A gente procurava, quer dizer, ajudar o velho, né?

 

P1 – E você lembra como era o cotidiano, assim? A sua mãe em casa, o seu pai trabalhando... Como era?

 

R – Sim, o meu pai sempre acordava cedo e ia trabalhar, muitas vezes, até, não tendo dinheiro até pra pegar o ônibus, na época. Era uma época triste. Não tinha mistura pra levar, pra marmita; ele preferia deixar a mistura pros filhos, né? Uma época [que foi] barra.

 

P1 – E aí você passou a sua juventude também na Vila Maria?

 

R – Sim, sempre procurando fazer alguma coisinha. Por isso que a gente quase não se divertia, também. Mais estudava, mesmo.

 

P1 – Mas não tinha nenhuma diversão, nenhum lazer? Um cinema de vez em quando?

 

R – Não. Cinema só fui ter, ver muitos anos... Acho que 16, 17 anos, uma coisa assim. Minha primeira namorada foi com 13, 14 anos. Quase apanhei do meu pai. (risos)

 

P1 – Por quê?

 

R – Porque ele falava que ele colocou sapato no pé com 18 anos e, para ele, era muito cedo pra namorar, pra divertir, pra essas coisas. A gente brincava sozinho. Tinha um terreno do lado, a gente brincava sozinho, fazia carrinho de lata, fazia túnel nos morros, e brincava sozinho. Porque eu fui temporão, também, né? Vieram 3 irmãos homens, depois veio uma mulher [e] depois de 9 anos, eu fui aparecer; então fui meio prejudicado por isso, também. Meus irmãos já estavam grandes, não queriam saber do pequeno, e o pequeno também não se envolvia na rua, então eu ficava brincando sozinho, muitas vezes brincando sozinho. Ajudava a mãe na arrumação da casa, lustrava os pisos, aquela coisa toda.

 

P1 – E aí você virou um jovem, e que é que você pensou, [o] que queria fazer da sua vida?

 

R – Bom, acho que todo jovem, nessa época do ano, nessa época aí... Primeiro, eu pensei em ser astronauta - acho que todo jovem já pensou isso - piloto de avião, tanto que eu me inscrevi na Força Aérea uma vez... Fui crescendo. Acho que eu posso dizer que, eu posso dizer pra você... Sempre estudei, nunca longe de casa, sempre naquela região. Comecei a trabalhar com 15 anos, na carteira, registrado, como "[office] boy".

 

P1 – Onde?

 

R – Trabalhei aqui na 24 de Maio, eu era contínuo de uma empresa de engenharia.

 

P1 – E você trabalhava e estudava?

 

R – Trabalhava e estudava.

 

P1 – E como que era isso?

 

R – Era, assim, sério, claro. Eu me lembro até de um fato: que eu entrei como contínuo, 15 anos, meu primeiro emprego registrado - no mesmo dia entrou um francês, que era o meu chefe. Aí depois eu passei a copista ideográfico, copista da empresa, e sempre agregando valores _________. Numa boa, assumi tranquilo. Aí, num determinado dia, esse francês - que mal falava português - pediu umas cópias de xerox, umas cópias, né? Eu disse: “Olha, a máquina não tá boa pra tirar...” - umas cópias transparentes, que ele queria. Ele disse: “Ah, mas eu quero assim mesmo.” Eu disse: “Olha, tá ruim. Eu já chamei o técnico, ele vem daqui a 2 dias.”, “Tira assim mesmo.” Tirei, mandei entregar pra ele, aí depois ele veio soltando os cachorros pra cima de mim: “Esta merda de cópia...”, aquela coisa toda. Aí eu falei: “Tá bom.”, “Quando o técnico chegar você me chama, que eu quero falar com ele.” Foi o que ele falou. Dois dias depois, o técnico chegou, ele estava na sala em frente da minha, aí eu fui lá, falei: “Seu (Cristophan?), o técnico da máquina tá aí.” E ele disse assim: “E eu com o técnico?” Ah, não teve jeito. Mandei-o pra tudo quanto é lugar, peguei minha carteira, fui lá debaixo [RH] na hora [e] saí na hora da empresa - não fiquei nem um minuto a mais. Então eu tinha sempre esse temperamento meio explosivo - melhorei muito, acredito nisso -, mas são fases da gente que marcam, enfim, marcam até a gente hoje.

 

P1 – E depois desse emprego?

 

R – Eu fiz várias coisas; trabalhei muito com o meu pai, como marceneiro. Meu pai sempre fazia alguns bicos, e eu estava sempre ajudando ele. Acho que, dos filhos, o que mais ajudou meu pai fui eu, tanto que sou marceneiro, carpinteiro, azulejista, encanador, um pouco de tudo em casa. Em casa, eu não chamo ninguém pra fazer nada; sempre faço, procuro fazer eu mesmo. Sempre nos momentos de folga, claro, e férias. Mas depois eu fui trabalhar numa outra empresa, trabalhei no Banco Sul-Brasileiro como auxiliar administrativo. Depois prestei exame para a Aeronáutica, na época. Me casei muito cedo, tive o meu primeiro filho praticamente com 19 anos - hoje ele tá com 26 anos. Depois entrei pro exército, e no exército fiquei.

 

P1 – E sua primeira opção foi a aeronáutica?

 

R – É, mas na Aeronáutica eu estava entrando pra escola, pra escola de cadete. Mas a concorrência era muito grande na época, e os estudos estaduais não davam o suficiente pra eu participar daquele concurso. Mas foi uma experiência boa. Eu me lembro que meu número era 38.624.

 

P1 – Você estudou muito? O exame era muito difícil?

 

R – Era muito difícil. Eu fiquei entre os 2.000 candidatos, mas pra acho que [tinham] 30 ou 40 vagas - coisa muito pouca.

 

P1 – E aí você foi pro exército?

 

R – Então, aí eu fui me alistar, me alistei normalmente, como qualquer outra pessoa, como, na época, já estava com o colegial completo, aí eu fui pro CPOR, me mandaram pro CPOR, que é o Centro Preparatório de Oficiais da Reserva, né? E daí eu entrei como aluno no curso de intendência, que é a área de administração do exército. Fiz o curso, um ano, saí, me formei aspirante a oficial; aí o exército me mandou de volta, embora de novo. Aí você fica, praticamente, de dezembro - quando você sai do exército - até junho fora do exército, mas com vínculo no exército, porque você tinha que voltar, na época, pra fazer um estágio, então ninguém te dava emprego nenhum - eram 6 meses difíceis, mesmo.

 

P2 – E você já era casado nessa época?

 

R – Não, eu casei logo depois, um ano depois, praticamente. Aí, nesses 6 meses, fiz bastante trabalho com o meu pai, fiz móveis, cozinha, aquelas coisas, e depois, aí voltei pro exército, daí fui fazer meu estágio na região de Osasco e fiquei lá 45 dias, que era meu estágio, pra sair segundo tenente da reserva. Aí eles te mandam embora de novo. Aí: “Tchau. Agora, tchau.” Aí entrei no Banco Sul-Brasileiro nessa época; enfim, estava trabalhando, aí veio um convite pra eu voltar pro exército novamente. Na época, era assim: eu ganhava no Banco Sul-Brasileiro por volta de, hoje seriam R$1000, por exemplo, e pra voltar pro exército eu ia passar a ganhar R$11.000; então era bastante convidativo. Aí voltei, trabalhei, comecei dia 6 de novembro de 1978 - oficialmente, eu entrei no exército dia 1 de dezembro de 78, meu filho nasceu dia 30 de novembro, na Casa de Mãe Solteira [Amparo Maternal, em São Paulo] ___________ Garcia, porque a gente não tinha recursos na época. Meu primeiro salário só veio em fevereiro.

 

P1 – E aí foi a festa. (risos)

 

R – É, aí foi a festa. Aí foi a festa, pagar as dívidas (risos). Não foi fácil, não. E fui crescendo. Aí eu fiquei no exército, fazia a função de (aprovisionador?), eu era responsável pelo rancho, fazia 2000 alimentações por dia, alimentava mais 2 quartéis fora o meu. Mas é começo de vida: imagine você, com 19 anos, dando ordem pra outras pessoas com 18, 19 anos de idade também. Então era meio um conflito, né, comigo mesmo. Mas eu tinha toda uma preparação, até do próprio... meu pai, de disciplina. Porque meu pai era um homem que estava cerrando uma viga no telhado, o prego na boca, ele terminava de cerrar, ele faz assim com o serrote - acho que ele contava até 3. Se não pegava o serrote, ele soltava o serrote e reclamava com o prego na boca. E já fazia assim que ele queria o martelo, você já tinha que adivinhar o martelo. Então isso aí foi, passou a ajudar muito na minha vida. Aí comecei no exército, os primeiros anos foram bastante difíceis, porque a emoção trazia muito, principalmente, na despedida de soldado. Você passava um ano com eles, ensinando, eles ensinando você, trabalhando junto. Aí no final do ano, você se despede, entra uma nova turma. E era uma choradeira no primeiro ano que não... De todos os lados, né? Da família, deles, e da gente também, que éramos os profissionais. E assim fui renovando meus contratos, depois me tornei um pouco mais frio, porque a gente fica - no exército, não tem jeito de, a gente fica um pouco frio: a gente vê muita coisa errada, descobre muitas coisas que não eram verdades, e você acaba ficando frio, não acreditando em todas as coisas; então você sempre coloca um pé atrás. E isso também me serviu pra hoje, também, no trabalho que eu faço. Na área... Fiquei na área de rancho, depois eu fiquei, também, eu era tesoureiro. A parte de compras do quartel, do batalhão, e também a parte de tesouraria. Eu fui encarregado, também, de departamento pessoal, onde que desenvolvia a folha de pagamento, depósito em 3, 4 agências bancárias - eu que fazia todo o processo. Tanto que, depois de alguns anos, eu prestava contas pra quinta inspetoria de finanças do exército, que gostou do meu trabalho, me nomeou até, me deu um título, assim, de melhor tesoureiro da segunda região militar - imagina, 28 unidades, entre outros tesoureiros como major, capitão, de formação de carreira. Foi bom. Eu tinha... Quando eu cheguei no quartel, meu comandante falou assim: “Você tá tomando conta da tesouraria, do almoxarifado e do rancho. Você tem 75% da minha responsabilidade de comando, porque 25% é instrução [e] 25 % é a tropa. Eu não saio general se nesses 75% você furar.” Então já viu como é que foi a responsabilidade em cima de mim. E eu tinha que manter isso, tinha que dar esse retorno pra ele; não só para ele, como todos os outros coronéis que passaram. Hoje, alguns generais, inclusive, que me tratam até como filho, porque eu sempre fui bastante, sempre procurei desenvolver todo o trabalho da melhor forma que eu podia fazer, em detrimento até da minha própria família - chegava 2, 3, 4 horas da manhã, ou às vezes não ia pra casa, só pra poder ter meu trabalho direito. 

 

P1 – E você ficou quanto tempo no exército, ao todo?

 

R – Meu tempo regimentar, do que chamam, é 9 anos, 6 meses e 29 dias. Agora, tempo regimentar é o tempo, praticamente, que eles contam, de tempo de trabalho, no dia-a-dia, que deveria ser. Assim, tipo, você é uma pessoa normal, entrando às 8 da manhã, saindo às 5 da tarde, aquela situação toda. Eu nunca saí do quartel antes de 10, 11 horas da noite, passava em acampamentos fora direto, quer dizer, se fosse contar, dava mais de uns 12 anos, talvez. 

 

P1 – O que é que você aprendeu no exército?

 

R – Olha, o exército, ele não... Ele te ensina muita coisa, te mostra muita coisa; ele mostra as coisas boas, as coisas ruins, as coisas certas, as coisas erradas. É um convívio, é uma escola, que não existe outra em lugar algum, onde que você convive com pessoas de credos diferentes, de religiões diferentes, de situação social diferente, e de tudo quanto é tipo de vícios, também; você encontra o traficante, o bandido, o ladrão. Então é uma escola, onde que dizem até: “Não, vou colocar meu filho no exército pra ele endireitar.” O exército não endireita ninguém. Eu acho que a formação dos seus pais, a formação que você tem, a educação, é que fazem a pessoa. O exército, ele dá uma lapidada, ele te mostra os caminhos onde você tem, ele te mostra o que é certo e o que é errado; se você for pro lado errado, só tem um jeito pra você: é rua, é ser expulso. A gente lá, da minha época, tinha que ser muito correta. E eu, nesse período, fiquei na polícia do exército, que é uma unidade, assim, muito disciplinadora; somos nós que prendemos os soldados na rua, então nós que mantemos a disciplina na rua, dos outros soldados, somos nós que fazemos investigação de qualquer acidente ao nível do exército e em tempos de guerra, somos nós que tomamos conta das cidades que são ________ pelo exército, entendeu? Então nós temos que... São pessoas de experiência, nós formamos o soldado com a experiência de ser policial, mas é um policial militar, bem diferente do policial de rua. Ele, ali, ele te ensina muitas técnicas, os nossos acampamentos são muito mais agressivos, porque a gente tem que conhecer bem o inimigo, então a gente... E conhecendo um pouco o inimigo, a gente tem que saber o que é que o inimigo vai fazer com a gente caso ele te capture; então a gente passa alguns momentos como se fosse realmente uma captura de um inimigo. Então esses são treinamentos que a gente faz. Então a gente aprende muita coisa, boas e ruins; aprende a ser mais homem, a ter mais coração e aprende também a ser mais insensível. Você passa a ver a vida um pouco mais fria, um pouco mais material. Triste, um pouco, né?

 

P2 – É, um pouco. Mas é interessante.

 

R – Mas é legal. Eu acho que se eu pudesse voltar hoje pro exército, eu voltaria. 

 

P1 – Eu ia perguntar isso, mas em “off”. (risos)

 

R – Eu voltaria, sim. Acho que é uma escola em que eu pude ensinar muitos soldados, tenho muitos soldados que vieram me agradecer pelo tempo que passaram lá comigo. Ao todo, em 10 anos, entre os quartéis que eu ajudei, entre os soldados que eu mandei pra Brasília, na época, passaram por mim mais ou menos uns 6, 8 mil soldados. Alguns devem ter mágoa [quanto] a mim, outros não - peço desculpas para aqueles que eu magoei, e sei que também ajudei muitos.

 

P1 – E qual que foi o pior momento que você passou no exército?

 

R – No exército? No exército não tinha pior momento, não. A gente era uma equipe tão boa... A gente, nós, oficiais, os sargentos, os cabos, os soldados, os profissionais, a gente formava uma equipe; a gente quase que pensava como que o outro estava pensando, entendeu? Então a gente não tinha... Teve alguns momentos ruins, assim, de muito trabalho, teve. Mas momento difícil, não. Todos os momentos foram bons. Podem ter sido difíceis, mas foram bons mesmo assim.

 

P1 – E por que você saiu do exército?

 

R – Porque eu era um oficial formado pra reserva do exército, então eu tinha um tempo limitado pra ficar. Na época, não existia o quadro complementar do exército, que hoje tem e que vai até tenente-coronel. O máximo a que eu poderia chegar, na época, era capitão; eu saí capitão, fiquei como capitão um ano e pouco, mas era o meu teto, eu não podia ficar. Naquela época mesmo, em que eu estava pra sair, já tinha nascido o curso em Salvador, queriam que eu fosse fazer esse curso, a primeira turma, praticamente, que ia fazer esse curso, pra eu continuar como coronel - até tenente-coronel. Muitos coronéis queriam que eu fizesse. Tinha um almirante que dizia, da marinha, que queria me levar pra marinha de qualquer jeito, ele fazia... “Uchôa, você tem que trabalhar comigo.” Eu disse: “Vou sair do exército pra ir pra marinha? Não dá, sabe? Não dá mesmo. O salário é o mesmo, a situação tá difícil... Eu tenho que buscar alguma coisa lá fora que me dê um ganho melhor, tenho que pensar um pouco na minha filha, nos meus filhos, no meu filho e na minha filha. Eu tenho que pensar um pouco no meu futuro.” Mas o resto é bom, é ótimo, adoro; amo de paixão mesmo a minha pátria, mas ele não me dá o sustento necessário. O salário, inicialmente, que foi muito bom, depois ele foi caindo muito, caindo muito.

 

P1 – E em que ano que é isso? Que você saiu.

 

R – Eu saí em novembro de 87 e já estava empregado na Petrobras; aí fiquei, em Curitiba, mais uns, quase 3 anos.

 

P1 – E como que você chegou na Petrobras?

 

R – Pelo exército. Aí, na época, tinha umas situações de conflito sindical, tinha muito fórum nacional na região de Curitiba e não tinha um oficial de informações bom naquela região. E aí eu fui trabalhar na Petrobras e ser o oficial de informações do exército, também. Levei 3 atentados de morte nas costas. (risos) Enfrentei umas barras perigosas por aí, na época.

 

P1 – Mas a sua situação, digamos assim, de inserção na Petrobras, qual que era?

 

R – Não, eu fui tomar conta de uma área de segurança lá. E, na época, a Petrobrás era, tinha interesses nacionais; aliás, até hoje tem, mas ela era um... A segurança dela, de uma certa maneira, o exército tinha que tomar conta, em casos graves. Pra cada unidade tinha uma unidade militar que atenderia de pronto e imediato uma situação de uma estatal, na época.

 

P1 – E como que era o seu trabalho?

 

R – Olha, aí já é uma coisa muito difícil de falar. É um trabalho de polícia, de investigação - muito difícil -, você vai muito contra interesses pessoais, particulares, políticos; é um trabalho difícil, e muito... Essa área de segurança, ela é muito sozinha, é uma área muito... Você depende muito só de você.

 

P1 – E você ficou quanto tempo lá, nesse trabalho?

 

R – Eu fiquei 2 anos, quase 3 anos. Aí minha família não se adaptou em Curitiba e eu tive que voltar.

 

P1 – E?

 

R – E eu era formado, na época, no exército, me formei em administração - bastante ralo, vamos falar assim. Saí do Paraná, vim a convite de um coronel que estava trabalhando numa empresa de filmes radiológicos, ele era diretor lá e me chamou pra ser o “controller” financeiro do grupo. Eram 16 empresas. Aí eu comecei a trabalhar. Eu e um outro amigo meu, um outro tenente, fizemos, na época, fizemos o curso de mercado e capitais na São Judas - não terminei o curso por 4 meses, porque faltou tempo e não consegui voltar até hoje, inclusive. Mas desenvolvi esse trabalho de, na área financeira, nessa empresa. E também não estava bom, não estava bem, porque os acionistas não investiam, só tiravam e não estava dando certo. Fiz meus relatórios, mostrei cada empresa do grupo como é que estava andando, e dei prazo de não investimento, o que ia acontecer com cada empresa. Aí, nessa época, eu, meu pai estava trabalhando com a marcenaria, e estava sozinho, não tinha dinheiro ________ pra ajudar, tal, e começou a aparecer muito trabalho pra ele. Aí eu vi que essa empresa estava muito ruim, eles não queriam investir [em] mais nada, e eu estava vendo que ia afundar, que iam falir muitas empresas - avisei o coronel, avisei todo mundo, mostrei relatórios, mostrei dados, estatísticas, mostrei tudo, e ninguém tomava atitude. Aí o que eu falei praticamente aconteceu: faliram algumas empresas. Nessa época, eu já estava com meu pai, aí montei, oficialmente, montei uma empresa de marcenaria, Marcenaria Uchôa, e fiquei trabalhando 1 anos na marcenaria; das 6 à meia noite, de segunda a domingo, 365 dias no ano. Todos os dias. Era uma marcenaria pequena, a gente não conseguia fazer tudo o que nos procuravam pra fazer, porque a gente não podia, não tinha como crescer; então a gente fazia aquilo praticamente pra comer, pra viver. Aí um irmão ficou desempregado, meu pai ficou com dó dele, conversou comigo: “Onde comem 2, comem 3. Vamos lá.” Mas 3 estava muito difícil, aí ficou difícil mesmo, muito complicado os 3 sobreviverem. E aí eu recebi um outro convite, na época, um ano depois, pra voltar pra área de segurança, daí já numa empresa de segurança. Entrei nessa empresa como chefe do setor de projetos de segurança, depois chefe operacional, gerente operacional, diretor operacional, diretor comercial [e] superintendente da empresa. Aí saí fora, porque o dono queria 40% de lucro e não tinha condições de dar 40% de lucro numa empresa de segurança, era impossível. Ele queria sonegar imposto, eu falei: “Não, sonega sozinho. Eu tô fora dessa situação.” E aí comecei a... Aí fui pra outra empresa, a empresa queria que eu trabalhasse - até é uma das empresas grandes aqui do Brasil -, queria que eu fosse trabalhar lá, assim: “Eu vou com uma condição, eu quero fazer o curso de vigilante.”, “Ah, mas você não precisa.”, “Eu sei que eu não preciso. Pela lei diz que oficial militar acima de 2 anos de carreira não precisa fazer o curso de vigilante, mas eu quero pra conhecer como são formados os seus homens. Eu não quero que ninguém saiba quem eu sou, o que é que eu tô fazendo. Eu quero me identificar como qualquer outro.” Aí fui fazer o curso, fiquei 20 dias na academia, e a coisa da gente... Daqui a pouco já me pegaram, me colocaram como líder da turma, eu era o melhor do tiro, o melhor nisso, comecei a me destacar muito, aí eu falei... Aí eu voltei um pouco atrás, escondi um pouco as coisas que a gente tem, continuei, comecei a trabalhar na empresa, tomava conta de equipes de escoltas de segurança, mais de 200 escoltas, eu controlava todas elas, fora outros trabalhos que a gente desenvolvia. Aí recebi um outro convite, de um outro coronel, nessa área de segurança, também, pra levantar uma empresa de segurança que tinha 18 funcionários: desdentado, paraplégico, velho - tinha de tudo lá, desses 18 funcionários. E eu achei um desafio maior do que o que estava desenvolvendo; a empresa em que eu estava era grande, então eu preferi sempre um desafio menor, mas que tivesse uma condição futura maior. E fui, quase que pelo mesmo salário - não mudou muito. Desenvolvi o trabalho, de 18 funcionários deixei a empresa com 400, 500 funcionários. Aí ele tinha uma outra empresa em Salvador, eu fui, fiz o ajuste necessário, onde que ele jogava fora mais de 50.000 dólares por mês no lixo. Queria que eu ficasse lá, acabei ficando 6 meses e não deu certo também. Aí eu saí de lá, voltei pra São Paulo, comecei na área de consultoria, comecei a prestar consultoria pra algumas empresas como a agência de propaganda DM9 - Brahma, Skol, Itaú Cultural...

 

P1 – Que tipo de consultoria?

 

R – De vários tipos, vários. Na DM9 era roubo de informação, muito grande; roubavam uma ideia deles, o prejuízo é enorme. Então teve algum trabalho de informação, de investigação, que foi feita em cima - confidencialmente, né? - em cima de algumas situações, teve situação de roubo de carga; a gente também fazia um trabalho em cima desses bandidos que faziam esse tipo de trabalho, mas... Na Skol, Brahma, teve um trabalho diferente, que eu fui levar ao porto de Santos, com segurança, 700 pessoas pra embarcar num navio pra ir pra Argentina inaugurar uma fábrica, e fazer a segurança desse pessoal lá, trazer esse pessoal pra cá com segurança. Um trabalho legal, também. Bastante difícil.

 

P2 – E de risco, né?

 

R – Bastante.

 

P1 – E você tinha uma equipe, como é que fazia?

 

R – É, no decorrer da vida, a gente monta a equipe da gente, né? A gente tem sempre os sargentos com que a gente trabalhou, alguns oficiais com que trabalhou, tem algumas pessoas que nos ajudam em algum momento em que a gente precisar, bastante corretas. Hoje em dia, tem, assim, alguma coisa pequena, tem algumas pessoas que me ajudam; outras, eu mesmo que faço.

 

P1 – E esse curso de vigilante, ele é oficial?

 

R – É, ele é de acordo com a Lei 7.102 do Ministério da Justiça, onde diz que todo segurança de empresa, todo segurança armado tem que ter esse curso.

 

P1 – E esse curso, enfim, passa o que para as pessoas? Como é que ele é montado, quem são as pessoas?

 

R – Tem toda uma matéria regulada em curso, regulada na Lei; na própria Lei já tem quais são as matérias. É, tem várias: tiro, primeiros socorros, incêndio, postura, disciplina, várias matérias.

 

P1 – E é um curso de quantas horas?

 

R – É um curso de 20 dias... 15 dias, na verdade; 15 ou 20 dias.

 

P1 – E você acha que se forma um bom segurança?

 

R – Não.

 

P1 – Que é que teria que ter pra um bom segurança?

 

R – Esse curso é bom? É. Algumas escolas até ajudam, fazem alguma coisa além do que o curso pede, que eu denoto uma qualidade melhor nessas empresas, mas precisava ser mais reciclado. A empresa, hoje, ela tem que se preocupar não só com aquele curso que ele fez, mas o que é que ela também pode estar fazendo pra melhorar essa posição de segurança dele, pra que ele lhe dê a segurança necessária que é preciso. E tem muita empresa que não tá preocupada com isso: colocar um porteiro na porta da sua empresa é mais barato, mas não é economicamente é mais viável; mas o quanto custa num furto, num roubo, um porteiro despreparado? Não vou dizer que o vigilante...

 

P1 – Espera só um pouquinho, que com esse som... Agora, esse tipo de consultoria, tem um nome pra isso, quer dizer, consultoria de informação, investigação? Como é que chama isso?

 

R – Tem várias. Olha, tem análise de risco, tem consultoria de análise de risco - você olhar a sua empresa de um modo diferente, todos os pontos ruins, frágeis, que a empresa tem -, tem a parte de informações, tem a parte de inteligência; eu acho que, de tudo isso, acho que a parte de inteligência é uma das maiores preocupações, hoje, de grandes empresas, porque você pensa em fechar alguma coisa grandiosa, se isso vaza, essa informação, você não vai comprar. Se você tá pensando em comprar por 2 milhões, vazou a informação, ela não vai custar menos do que 6 milhões. Então o investimento que às vezes se faz pra um profissional desse, com treinamentos, na sua gerência, na sua diretoria, de inteligência comportamental, contrainteligência... Às vezes, você tem quer dizer alguma coisa que vai acontecer que, na verdade, não vai acontecer, pra desviar a atenção de um lado e você atacar o outro lado. Então essas estratégias, digamos assim, de negócios, tem muita empresa que não tá preocupada com isso. E isso, hoje em dia... Você pensa que é espião por trás do seu trabalho? Pensa que espião já [é] coisa do passado? Não é não. Nós temos aí os hackers da vida, nós temos aí, na parte de informática, muitos espiões. Tem gente que colhe o seu lixo pra ver o que você tem, e não adianta você passar num triturador, porque ele tem a paciência de ficar colando tirinha por tirinha pra ver o que está sendo negociado. E tem gente que compra lixo, não só pra reciclagem. Então tem, não só isso, mas tem todo um aspecto por trás dessa análise de segurança, de consultoria, de consultorias especializadas em alguns assuntos, que é, assim, bem vista hoje pra grandes empresas.

 

P1 – E você tem ideia da dimensão disso hoje no Brasil? Quer dizer, quantas pessoas envolve, qual é a formação dessas pessoas?

 

R – De segurança?

 

P1 – É.

 

R – No Brasil, não tem muita gente, não. Não tem muita gente especialista em segurança, não. Nós temos aí... Eu sei porque eu acabei até de fazer o MBA de segurança, e são poucas pessoas, assim, que você... Com o Brasil, desse tamanho, se você tiver aí 100 profissionais bons no mercado, é muito - 100 ainda com algumas ressalvas, não sei se eu estaria falando a verdade mesmo. Mas vamos considerar que devem existir 100 pessoas boas no mercado, o que não é muito.

 

P1 – Bom, onde nós paramos? Nós paramos [em] você saindo, prestando consultoria, indo pra marcenaria, entrando o seu irmão... Retoma a sua história. E aí? (risos)

 

R – Poxa. (risos) Então, aí eu fui para, voltei pra área de segurança e comecei a fazer a parte de consultoria. Tem a marcenaria, aí fui pra uma empresa grande, [daí] fui pra uma pequena. Levantei a pequena, saí dessa, deixei ela uma empresa média no mercado - hoje é média-grande. Voltei pra área de consultoria, passei a fazer consultoria pra algumas empresas grandes, como eu disse, e aí fui chamado na NitroQuímica pra fazer uma consultoria de segurança.

 

P1 – Que ano?

 

R – Em 94. Em junho, mais ou menos, de 94, eu fui pra lá fazer um trabalho...

 

P1 – Como que te chamaram? Como é que foi?

 

R – Eu, na verdade, fui indicado pra ver se tinha escuta telefônica, essas coisas. Na época, estavam desconfiados de que poderia ter, aí eu fui fazer esse trabalho de levantamento de ___________ na linha telefônica deles, ver se não tinha nada de grampo. E aí me pediram pra eu dar uma olhada em toda malha de cabo telefônico, que era um ninho de rato ali; realmente, era bastante complicado. E aí fui desenvolvendo o trabalho, aí outro trabalho, aí outro. Veio a segurança __________, a parte patrimonial, “vê a nossa deficiência”, e aí fiquei 6 meses; fui fazer uma coisinha e acabei ficando 6 meses. Isso... É, 6 meses.

 

P1 – Mas não como funcionário?

 

R – Não, como consultor. Eu ia... Na verdade, ficava 3 dias efetivo na empresa, e os outros dias algum trabalho de investigação, algum trabalho de análise que tem que fazer, eu estava fora.

 

P1 – E você trabalhava especificamente com qual setor?

 

R – É difícil, assim, qual setor. Quando você faz uma análise de segurança, olha a empresa como um todo.

 

P1 – Não, sim, mas você estava, digamos assim, vinculado a... Quem que te chamou?

 

R – Então, na época, eu fui indicado por uma pessoa, amigo meu, por um dos acionistas, que me colocou lá. E depois desse trabalho, inclusive, aconteceram outras coisas na própria empresa, que aí... Quer dizer, antes de terminar... Terminei esse trabalho de consultoria, estava praticamente, tinha aceitado fazer um trabalho de comprar um terreno, analisar o local, comprar o terreno, construir um prédio, treinar os funcionários - esse prédio ia ser um banco multinacional em Angola. Praticamente, estava tudo certo pra eu ir pra lá. Isso em janeiro de 2005; janeiro, fevereiro. Estava em (tratativas?). Aí a NitroQuímica me fez um convite, e essa vida de consultor é uma vida meio de cigano, né? Hoje você tá aqui, amanhã tá em Minas, depois tá no Rio, no Paraná, depois você tá... Então é uma vida de cigano, quase não via mais a família. E na área de investigação, por exemplo, você fica dias ali em cima de uma determinada situação. Então (eu achei?): “Vou pegar um emprego fixo, agora.” Eu pensei: “Já tá na hora, né? Ficar sempre rodando...” Já tinha ido pra Salvador, Paraná, vixe, vários lugares. “Os filhos estão crescendo. Eu já passei o tempo todo de exército praticamente sem ter contato com eles, então acho que tá na hora de eu dar um, firmar o pé numa empresa só.” E acabei ficando. Acabei aceitando o convite, não fui pra Angola, e acabei ficando na NitroQuímica. 

 

P1 – E qual que foi a sua primeira impressão, assim, do ponto de vista da segurança mesmo, quando você entrou na NitroQuímica?

 

R – Estava muito ruim. Eu não vou dizer que hoje tá 100% não, mas estava muito ruim. Não só a segurança interna, como a externa também. A NitroQuímica, ali, na região, nós temos basicamente 16 favelas; então a situação social na região é muito grave. Só começou a melhorar quando eu fui presidente do clube - fiquei lá quase 5 anos, como presidente do clube - e aí eu consegui fazer um trabalho social muito grande na comunidade. Aí melhorou bastante. 

 

P1 – Mas que tipo de problema que tinha?

 

R – Invasão. Eu tinha uma média de 40 a 60 invasões por semana na fábrica.

 

P1 – Mas como que funcionavam essas invasões?

 

R – Pulava o muro pra ver o que tinha pra roubar. Tipo assim: o vigilante tá aqui, o muro estaria assim, o vigilante tá escondido, o cara sobe em cima do muro, o vigilante aparece, o cara olha e fala assim: “Ah, estragou meu barato.” E “pum”, “pum” em cima do vigilante. Já tive vários tiros pra cima de mim, já quase quebrei essa mão, o pé, de correr atrás, de agredir, ser agredido, de invasões que tiveram na região, em terrenos.

 

P1 – Mas essa situação de segurança, antes de você entrar, ela se dava em que estrutura? Quer dizer, era terceirizada?

 

R – Sempre foi terceirizada, desde que eu lá cheguei. Mas era, na época, era segurança mista: tinha seguranças da NitroQuímica e terceirizados. E que era assim: um querendo comer o outro, brigar com o outro, era triste a situação. Como já não tinha mais animosidade entre eles, eu resolvi mudar algumas situações ali; mudei algumas pessoas da terceirizada e tiramos algumas pessoas orgânicas - que não é o papel da NitroQuímica, que o produto dela é química, não tem que se preocupar com isso; tem empresa especializada pra isso. E a gente tem que administrar, gerenciando as empresas no trabalho que a gente quer. É claro que tem o trabalho patrimonial, que ela faz, e tem todo o aspecto comunidade, com que a gente tem que se preocupar também; como é empresa química, empresa perigosa na região, uma empresa de muitos anos, querida e não-querida, também.

 

P1 – E quando você então optou por ficar na Votorantim, ficou com um cargo?

 

R – É, eu fiquei como chefe da segurança patrimonial.

 

P1 – Não existia esse cargo?

 

R – Não, não existia esse cargo.

 

P1 – E aí você montou uma equipe, já existia?

 

R – Não, já existia. Não tinha verba, também. Tinha mais ou menos que trabalhar com o que tinha, né? Não tinha dinheiro nem pra construir uma cerca de arame farpado em cima do muro. Era difícil. Aí, final de semana, a gente pegava lá, eu e os seguranças que tinha: “Nós mesmos vamos fazer essa cerca. É a segurança que a gente vai dar pra gente mesmo.” E foi com muita briga, muita coisa. Depois, até que a gente mostrou que realmente tinha que investir alguma coisa se queria uma proteção maior. Porque tinha situação de encontrar um meliante, uma pessoa desconhecida, quase dentro da área de proteção. Como é que o operador se sentia seguro sendo que tinha invasões e a pessoa andava na área...? Em 10 anos que eu estou lá, nunca fomos roubados a mão armada, mas na Níquel, Tocantins, que é ali do lado, já foram várias vezes.

 

P1 – E o que exatamente você mudou? Quer dizer, quais foram as coisas que foi mudando, que é que você foi implantando...

 

R – Acho que a questão de mudar vai um pouco da personalidade da pessoa. Eu acho que eu coloquei um pouco da minha personalidade na segurança, ali. E mostrei pra toda a vizinhança quem eu sou. Foi isso aí que aconteceu.

 

P1 – Mas e como que era esse cotidiano, no início? Quer dizer, quando você entrou. Que é que você teve que fazer, assim, primeiras medidas?

 

R – Foram muitas medidas, que fica até difícil de falar. Mas fizemos bastante coisa: tinha mendigo que pulava o muro pra dormir dentro de um tanque vazio, colocar arame farpado, cerca, fazer mais rondas, brigar com bandido em cima de muro, trocar tiro - teve muitas coisas. Tinha cara que pulava pra ver o que tinha pra roubar, porque o bandido, ele manda às vezes a criança na frente pra poder ver o que tem pra roubar, furtar. Isso eu encontrei muito.

 

P2 – E esse trabalho social que você fez com a comunidade? Fala um pouquinho dele. Como é que era?

 

R – Então, aí, de chefe da segurança, agregaram valores em mim, ou seja, me deram mais algumas funções pra eu desenvolver. Então me deram a área de limpeza, a de restaurante, e mais algumas áreas. Hoje eu tenho, ao todo, dá mais ou menos umas 20 atividades que eu tenho na empresa. “Layout”, frota, correio, malote; várias coisinhas pequenas e outras maiores. E aí surgiu essa situação do clube. O clube, ele foi criado em 1939 pra atender os funcionários. Na época, tinham muitos funcionários. O clube tem uma área de 70.000 metros quadrados, 4 piscinas, 2 campos de futebol, e muitos funcionários que saíram de lá continuavam sendo sócios. Na época que eu peguei, foi muito difícil, porque o clube estava com uma dívida grande; a NitroQuímica não queria dar mais nenhum tostão pro clube, o clube tinha que se manter sozinho - e também tirou o desconto dos funcionários do clube da folha de pagamento. Então o clube tinha que sobreviver pedindo pra que os funcionários pagassem a mensalidade lá, e ninguém, quase, pagava. Como é que vai sobreviver numa situação dessas? Com custo fixo de aproximadamente 20 a 25.000 reais por mês que um clube daquele tinha, com um tamanho daquele? 4 piscinas... Então, eu cheguei lá, o clube estava muito ruim, assim, com muitas dívidas, abandonado, depredado; estava feio. Poucos sócios, tinha uma escolinha de futebol que tinha meia dúzia de crianças. Aí começamos a desenvolver um trabalho, a NitroQuímica investiu um pouco, o mínimo, quer dizer: “Vamos investir alguma coisa no clube pra levantar ele.” Então com o pouco dinheiro que a gente conseguiu, conseguimos fazer muita coisa. E aí conseguimos abrir o clube pra parte externa. Então consegui arrecadar um pouco mais, aí a NitroQuímica passava a me pagar 4.000 reais pros seus 400 funcionários e famílias, então dava mais ou menos 10 reais por família de funcionário pra usar o clube; já tinha um terço, praticamente, do que eu precisava, né? Aí fui na Níquel, [que] me dava mais 1.100 reais, legal - pra funcionários e famílias deles, também. Aí comecei a trazer escolas, associações de advogados, sindicatos de empresas de ônibus, comecei a trazer mais gente pra poder ter gente e ter dinheiro pra movimentar o clube. E aí veio a parte social. Com mais gente eu conseguia não mais vender o almoço pra comer na janta, às vezes, vender o almoço pra comer na outra janta, __________ mais nada, e começamos a trazer as escolas... Eu precisava ter o clube cheio. Como é que eu vou ter o clube cheio? Então eu ofereci o clube para as escolas da região pra fazer as suas festividades no clube, sem custo nenhum; eles não gastavam nada, só gastavam o espaço. Mas eu tinha uma visão de que eu ia... E o clube estava cheio. Então eu trabalhava de um lado, e do outro lado socialmente, também. E, com isso, eu comecei a trabalhar com essas escolas, oferecendo esse espaço - chegou a ter mais de 30 escolas na região. Trabalhos muito bons, festas de final de ano das escolas, campeonatos de ginástica, teve, assim, campeonatos de escolas especiais da região. Um trabalho muito bonito. Você não sabe o que é pegar uma criança sem as pernas, colocar ela nos seus ombros e sair correndo com ela pra ela participar do campeonato de corrida. Assim, é a coisa... É bem emocionante, sim. Então tem um trabalho, assim, muito bonito. Trazia entidades da região, crianças, guarda mirim - uma vez eu consegui, coloquei... Segunda-feira o clube era fechado pra manutenção, aí eu abria ele para as entidades. Eu cheguei a colocar nas piscinas 500 crianças. Imagina 500 crianças dentro da piscina? Só tinha cabecinha, assim, a coisa mais linda. E todas fizeram exame médico, todos passaram, tudo direitinho - médico eu conseguia de graça, também, sem ônus nenhum. Aí eu comecei um trabalho também na escolinha de futebol, eram 7 crianças - metemos 750 crianças na escolinha de futebol, muitas custeadas por nós mesmos até. E hoje tem criança aí espalhada por alguns clubes grandes, que começaram lá com a gente. E essas crianças também, a gente... Uma vez por ano eu [as crianças] fazia exame médico, de fezes, urina, sangue; tudo que eu conseguia de graça, pedidos que eu fazia, 60% apresentava problemas de nutrição e outros problemas que a gente encontrava. Aí eu ia atrás de remédio, conseguia remédio pra essas crianças. Isso tudo eu fazia depois do meu expediente dentro da empresa e final de semana. Então foram praticamente 5 anos que eu fiquei, fora o meu trabalho na empresa, eu ia pra lá pro clube e tentava desenvolver, tentava buscar alguma coisa, buscar recurso - umas vezes errava, outras acertava... É complicado sobreviver, em termos de grana, é muito difícil. Estrutura grande e não tendo recursos, aí o clube fechou. A NitroQuímica falou assim: “Não vou pôr mais um tostão lá”, o clube fechou. 

 

P1 – Que ano que fechou?

 

R – Fechou no dia 19 de agosto de 2002, no dia do meu aniversário.

 

P1 – E fora a sua atuação no clube, você falou que teve... participou de outros projetos, também, com a comunidade de São Miguel.

 

R – Eu participo até hoje, de vários trabalhos. Eu sempre participo de, por exemplo, Plano Diretor de São Miguel, eu participei de quase todas as reuniões, até com interesse da própria companhia, pra que não coloque um zoneamento diferente do que a gente tem trabalhado hoje. Pra ver que tipo de ruas vão alargar, que tipo de avenidas vão fazer, porque a gente tem nossos interesses, também. Trabalho com entidades, várias, de surdo, mudo. Tem a favela atrás, que a gente ajuda sempre - toda hora a gente dá brinquedos, alguma ajuda, cesta básica -, a gente tá sempre lá participando com alguns trabalhos. Faço um trabalho, também, com orfanatos. Várias coisas.

 

P1 – E a atuação da própria NitroQuímica na comunidade de São Miguel, como é que você vê isso?

 

R – Hoje é pouco; menos do que se fazia antigamente, muito pouco. Eu acho que com o Instituto Votorantim, eu acho que ele acabou abocanhando o que a gente, tirando um pouco da autonomia do que a gente fazia. Hoje a gente faz umas pequenas doações que, no passado, a gente fazia muito mais. A gente fica com um certo receio, assim: “Eu não vou fazer nenhum projeto, porque eu vou estar interferindo no projeto do instituto.” Então não faço. As empresas, as entidades vêm procurar a gente: “Vai pro instituto.” Vêm: “Vai pro instituto.” Vêm... E a gente não sabe, não tem um retorno se o instituto atende ou não atende. Fica meio difícil, mas a gente tem feito umas coisinhas.

 

P1 – E fala um pouco da sua relação com a história da Votorantim.

 

R – Minha situação com a história da Votorantim foi assim: eu, dentro dessas atividades que eu tenho, faço a parte de “layouts”, arrumo uma sala, modifico uma outra sala, divido, coloco novos móveis, pego um prédio velho e reformo, e uma dessas atividades... Faço todo o layout de mudança da portaria da empresa, que era muito feia. E isso tudo, quando você tira alguém de um lugar velho pra você arrumar, normalmente, as pessoas tiram as suas coisas e deixam coisas velhas no lugar, pra jogar fora. Aí eu comecei a pegar esse lixo, esse material que as pessoas praticamente jogavam fora, e comecei a separar. E fui separando muita coisa, até que eu criei um museu na minha sala. (risos) Não sei se vocês viram, acho que até por foto tem isso daí; tem um museu na minha sala, então eu fiz... Vários equipamentozinhos que eles iam jogar fora, como, assim... Tem vários equipamentos lá, posso citar depois quais são. Fui juntando algumas maquininhas, uns aparelhinhos bonitinhos, e fui guardando - tinha alguns com nome. As fotos, a mesma coisa; achei essas fotos que eram [de] alguém que tomava conta e, praticamente, foram jogadas fora, e eu passei a guardar as fotos. Fui guardando. Uma das vezes, inclusive, eu fiz uma exposição em São Miguel de 8.000 fotos da NitroQuímica. Fiz murais, coloquei as fotos no aniversário de São Miguel, que é setembro, o mesmo aniversário da NitroQuímica, da antiga sede social do clube. Montei vários painéis com fotos, álbuns, e as pessoas foram lá ver essas fotos antigas da comunidade. Mais de 8.000 fotos. Isso tudo de coisas que foram jogando fora. E livros, também. Eu tenho uma biblioteca lá de 5.000 volumes, mais ou menos, que estavam no lixo. Muitos catalogados, até. Uma biblioteca da Nitro que devia ter existido no passado. É claro, assim, não posso dizer assim: tá organizado. Não tá organizado porque a gente não tem mais tempo de cuidar, não tem mais tempo. A gente nunca teve tempo, fazia sempre isso daí fora de qualquer tempo possível. Mas tá guardado; não tá, assim, bem guardado, mas tá melhor do que se tivesse no lixo ou não existisse mais. Tanto que eu mandei pra vocês _______ as minhas fotos, muitas fotos pra vocês brincarem.

 

P2 – Maravilhosas, as fotos. E é só você que tem essa preocupação com esse material, não tem ninguém que te...

 

R – Eu não vejo ninguém, não.

 

P2 - ...que te ajude, que faça...?

 

R – Eu tenho meu auxiliar que, no caso, até desse trabalho que eu venho desenvolvendo - que ele tá comigo desde os seus 15 anos, casou agora esse ano. Por essa preocupação minha, talvez ele tenha pego um pouco de mim, e até escreveu uma matéria sobre a história da NitroQuímica. Mas não vejo nenhuma outra pessoa se preocupando com isso. Acho que em todas as empresas por eu passei, do grupo, acho que eu nunca vi ninguém se preocupar com isso. Muitas até falavam assim: “Você é um lixeiro, fica pegando...”, “Sou, e ainda tenho guardado um monte de lixo lá que eu ainda não olhei, ainda”. Não é questão de ser lixeiro, é questão de, não sei, é questão minha mesmo. Talvez a questão até de ser investigativo, de ser uma pessoa investigativa, não querendo jogar nada fora, assim, que pode ser um documento, que pode ser uma coisa importante, eu passe a guardar isso daí; então talvez seja até por isso que eu venha guardando essas coisas. E tem livros bonitos, históricos, talvez até importantes demais; coleção de Machado de Assis, várias coleções muito bonitas, Shakespeare - tem vários livros.

 

P1 – E o que é que você aprendeu da história da NitroQuímica, com esse material todo [e] essa sua ação de investigar?

 

R – Ah, eu aprendi acho que um pouco da história da... Desde a época do sonho da NitroQuímica, que o Klabin teve, de sonhar que a NitroQuímica vinha pra esse lado, do primeiro contato que foi feito com a fábrica, que devia ter falido em 29, [e] pertenceu a um monte de outras empresas. Você vê a foto, assim, da Tubize [Chatillon Corporation], que é a antiga fábrica - porque a NitroQuímica veio como Tubize __________, que é a fábrica de fios de viscose. Essa fábrica era em Virgínia, distrito dos Estados Unidos, e você olha na foto, assim, centenas de chaminés; e uma delas lá era a nossa, que veio pra cá - foi comprada. É uma empresa altamente poluidora. Naquela época, ela... E que na bolsa de valores de Nova Iorque, se não me falha a memória, em 29, veio a falir. E que o Klabin, lendo matérias sobre isso, se interessou e ligou pra esses americanos pra saber dessa fábrica. Aí esses americanos vieram pro Brasil pra poder negociar com ele, e ele falou: “Não, mas eu não entendo nada de tecelagem. A única pessoa que entende de tecelagem muito bem, que foi meu rival como deputado, é o José Ermírio de Morais. Vou conversar com ele, depois dou a resposta pra vocês.” E aí conversa vai, conversa vem, acertaram de fazer essa sociedade com os americanos, de montar essa fábrica aqui. Você quer toda a história? É comprida. (risos)

 

P1 – Tá bom.

 

R – Pelo que eu sei, né? São histórias que a gente ouve um pedacinho aqui, lê um pedacinho ali, uma emenda, ali... Montaram essa fábrica - compraram essa fábrica -, fizeram a sociedade e trouxeram essa fábrica. Aí dizem até que Klabin teve um sonho, que essa fábrica ia ser na região da Zona Leste, ser montada, umas histórias, assim, que passa. Logo depois, a Votorantim praticamente comprou a parte da Klabin, alguns anos depois, e praticamente ficou única dona, acionista, da NitroQuímica. Nessa época, enquanto que a NitroQuímica estava.... Ela começou a fabricação em 37, ela nasceu em 35, e um pouco mais pra frente, a Matarazzo, que era uma empresa concorrente da Votorantim, e fabricava também esse filme - que começou a fabricar esse fio em 28, ou 23, sei lá, alguma coisa assim... Porque existiam duas fábricas no Brasil que fabricavam esse fio: a Matarazzo e a Rhodia. Aí a Matarazzo falou: “Não, quem trouxe essa tecnologia sou eu. Sou a detentora dos “royalties”, você tem que pagar pra mim.” Aí a Rhodia fala assim: “Não.” Depois de muito brigar, a Rhodia começou a pagar pra Matarazzo os “royalties” referentes a essa tecnologia do fio de viscose. Aí a Votorantim falou assim: “Eu não pago. Essa tecnologia nasceu em 1830 - alguma coisa assim - por um francês, e ela é... Tipo assim, a patente não é sua, não existe essa situação.” Aí foram pra justiça, a Votorantim ganhou, e a Matarazzo colocou o fio, que custava na época 40 contos de réis o quilo, a 8, 9 contos de réis o quilo. Baixou o preço lá embaixo pra que a Votorantim falisse. Isso perdurou acho que uns 3 ou 4 anos. Se não fosse o Banco Geral do Comércio, na época, ________ ter ajudado, com investimento, a NitroQuímica sobreviver esse período... Nunca se deixou atrasar um pagamento, nenhum compromisso, mas a Votorantim passou maus bocados naquela época, maus bocados. Tanto que a Votorantim e a Matarazzo nunca se bicaram, até hoje, por causa dessa época aí. Tanto que hoje, você vê a Votorantim, o que ela é hoje [e] vê a Matarazzo, o que ela é hoje. O que a ambição às vezes faz com as pessoas, também. É bom ter ambição? É bom ter ambição, mas não jogar pesado, desonesto, como foi feito na época. Tanto que, na época, em 40, o governo soltou uma lei dizendo que os preços praticados, se não fossem os de mercado, normais, eles iam ser invalidados; então que se ajustassem os preços novos, porque quem não se ajustasse, os preços iam ser congelados. Aí ela voltou pra 28, 30 contos de réis, aí melhorou toda a condição da Votorantim. Mas foi barra pesada - imagina o que eles devem ter passado na época. Depois, a NitroQuímica, acredita ter sido, não sei se a maior, a melhor, mas foi muito importante pro grupo, pro desenvolvimento do grupo, onde que, com a situação do fio, e de outros produtos dela - porque chegou a ter mais de 40 tipos de produtos -, deu, assim, uma condição pro grupo crescer bem. Hoje é mais, assim, é mais sentimental, eu acredito, que a NitroQuímica existe para o grupo. É importante ter a parte química? É claro. Mas ela representa 2% do grupo, então já não é tão importante assim, né?

 

P1 – E qual que você acha que foi mais importante?

 

R – Ah, acho que deve ter tido, deve, na história, ela teve vários momentos marcantes. Na própria construção da CBA, ela foi uma parte marcante, porque nós construímos, na nossa unidade, a parte de fluoreto de alumínio, pra atender, justamente, a fábrica da CBA. Então foi, nessa época, importante. E na época de 50, nós compramos a fazenda Monte Verde - a NitroQuímica comprou a fazenda Monte Verde -, que hoje é a nossa fazenda de laranja da Citrovita. Então tem vários momentos bons. Teve momentos ruins, também, como quando nós ganhamos ou compramos uma saleira, uma salina, que era pra fazer fabricação de soda cáustica, e parece que nunca teve. Teve seus erros, seus acertos, pontos importantes, sacrifícios, muitos. Por isso que hoje eles acordam antes do sol nascer e não têm hora pra dormir, não têm feriado. Na história, a gente aprende muita coisa. 

 

P1 – E qual que você acha que é o papel da Votorantim no desenvolvimento do país, do Brasil? E, especificamente, da NitroQuímica.

 

R – Olha, nós, na Votorantim, estamos fazendo um trabalho, agora, em vários segmentos, e eu pertenço a um grupo do (West?) GV, onde que a gente vai estar, na área de serviço, fazendo alguns ajustes, algumas economias. Esses ajustes são necessários pro tamanho que é o grupo hoje e pelo poder que ele tem em negociação com empresas de serviços, vamos colocar assim. Então, na área de alimentação, nós conseguimos aí fazer, estamos fazendo uma economia próxima de 6 milhões de reais por ano. Na área de segurança, tô terminando um trabalho, que jogaram um pouco nas minhas costas - tô fazendo esse trabalho, deve também dar uma economia boa. Na área de viagem, também uma economia boa. Essas economias, elas deixam o grupo mais enxuto, com a condição de desviar o foco dele da administração do dia a dia para a administração, assim, evolutiva; então ele pode evoluir sabendo que a sua cadeia, hoje, tá tudo arrumadinho, tá confiável, tá econômica, tem condições de competição. Porque é duro hoje você crescer, colocar, fazer uma nova empresa, e manter custos atrativos. E como é que você tem custos atrativos? Você tem que ter produtos bons, uma mão de obra excelente e um custo fixo, seu, muito baixo, pra você ter uma competição lá fora, principalmente. E o grupo tá correspondendo a isso; ele tá crescendo, acredito que vá crescer muito mais. Eu acho que ele tá se preparando pra isso. Ele tá atrás, talvez, de alguns talentos, já buscou alguns talentos de outras empresas, e tem que buscar talvez outros talentos se ele quiser, realmente, dobrar o seu tamanho, como é a previsão. Mas tá indo muito bem.

 

P1 – E como que você vê a entrada da quarta geração?

 

R – A garotada é muito boa, viu? Eu, de uma ou outra maneira, tenho contato com alguns, e estão preparados. Estão se preparando. Eu acho que não importa a geração que vier agora pra ajudar na administração do grupo, porque o grupo, hoje, ele tá... Ele é familiar, mas é muito profissional. A gente respeita todos os acionistas, mostra todos os dados; é muito difícil você mostrar o que você tem na mão e eles não aceitarem uma situação dessa, entendeu? Então eles são muito responsáveis, e acreditam, também, na responsabilidade que nós temos nas costas, nas mãos. Eles estão respeitando isso. E com isso, fica fácil de eles administrarem. É claro que a visão deles é absurda em termos de evoluir do grupo, mas eu acredito que, individualmente, eles têm essa visão, desses talentos que tem hoje no grupo, de apostar neles. Então hoje tá profissional, não importa qual a geração que venha. Apesar de que as gerações já estão sendo preparadas pra administração da empresa, do grupo; então eu não vejo preocupação nenhuma. Acho que, com certeza, a gente é sólido - a gente, apesar de não ser acionista, mas do tipo assim, eu sou, é como se fosse um pedacinho meu isso, tudo aqui. E não vai se perder, não, assim como outras empresas familiares se perderam. Ela tá bem estruturada pra isso, pro seu crescimento.

 

P1 – E que tipo de contato você tem? Você falou que tem algum tipo de contato com eles.

 

R – É, na segurança, né? A gente anda pra cá e pra lá, outras empresas do grupo que a gente vai visitar, ajuda. Porque essa área de segurança, é como eu disse, ela é muito pequena no Brasil, e muita coisa acaba caindo em mim. Então um amigo meu que tá fazendo uma investigação de ferro que foi roubado acha um determinado lote que é da Metais. Aí liga pra quem? Liga pra mim. Aí eu entro em contato com a Metais, aí passo a intermediar, a ajudar eles. Aí, na VCP, roubo de papel. Aí um amigo meu, que faz o seguro da carga, por exemplo, que tá vendo a parte de seguro, procura a mim. Aí eu entro em contato com eles. E assim por diante.

 

P1 – E você acha que os valores da família, eles estão presentes no cotidiano do grupo? Como que se dá isso?

 

R – Não entendi.

 

P1 – Os valores da família, quer dizer, como a família vem conduzindo o grupo há quase 90 anos, essa forma de ver o país, de...

 

R – É um grupo brasileiro, e isso você pode ver nas entrevistas que o Dr. Antônio dá, que os filhos dele dão. Isso aqui é nosso, né? 100% nosso. Com raríssimas exceções, algumas empresas do grupo que não são totalmente nossas, talvez até provisoriamente - futuramente poderão ser. Mas eu acho que ter a empresa, os valores da família, junto ao Brasil... Sempre foi uma empresa brasileira, uma empresa com esse intuito de ser verde e ter paixão pelo Brasil. Porque senão eles estariam lá fora, com todo o dinheiro que têm, com todo o investimento que podem ter - tem talvez países muito mais atrativos de investimento lá fora do que aqui. Não quer dizer que a gente não esteja fazendo isso também; hoje nós estamos nos preocupando... No Peru, compramos mais uma fábrica de zinco, Estado Unidos... Quem sabe a gente não vai ser a maior concreteira dos Estados Unidos? Por que não? É uma empresa brasileira, e é isso que a gente tem que mostrar pro mundo, que o Brasil não é só samba, carnaval, futebol; o Brasil tem muitas gente que trabalha. E você fez uma pergunta pra mim, um cara que passou 10 anos no exército, que não é nem um pouquinho brasileiro. (risos).

 

P1 – E como é que você vê essa ideia do Projeto Memória?

 

R – Olha, eu acho que esse resgate é muito importante. Eu ficava triste cada vez que eu via uma foto daquelas, o estado em que se encontrava. Que eu encontrava, às vezes, fotos até de outras unidades - eu tenho curiosidade de conhecer outras unidades. Eu tive o prazer, esse ano, de passar, de conhecer outras unidades. Assim, é muito gratificante. Você pega uma empresa de cimento, uma fábrica, uma mina, enorme, monstruosa, assim, você vê a grandeza daquilo tudo, e não tem história. Cadê a história? Como é que começou isso? Por que é que aquela igrejinha tá ali? Quem que casou naquela igrejinha? E que é que você fez sabe, com isso tudo? Não tem... Eu gosto muito da história em si. Mas você vê as empresas, algumas com preocupações - você vai na Santa Helena, tem lá as suas locomotivas, seus vagões, tem uma preocupação - e com a vinda de vocês, vai fazer o quê? Ajudar a gente a administrar um pouco isso, não se perder. Porque o nosso futuro só se constrói com as raízes do nosso passado; se a gente não tiver um passado bem enraizado... E mostrar, né? Porque a gente, às vezes, esquece do passado, mas tá presente hoje - pro nosso futuro você não tem referência. Eu tenho referência do meu pai. E acredito que eles tenham referência dos pais deles. Isso é importante, acho que pra mim isso é muito importante.

 

P1 – Tá bom. Você tem mais alguma coisa que você gostaria de falar, que não falou?

 

R – Não, acho que eu falei tudo. Casei de novo, tô pretendendo ter mais um filho, se Deus quiser. Amo minha mulher [e] meu trabalho.

 

P1 – E que é que você achou de dar o seu depoimento?

 

R – Eu gostei, porque você me escolheram, né? Eu tenho uma área, assim, meio fechada, é meio difícil de falar, que é a área de segurança, não dá pra expor todo o trabalho. Dá vontade até de falar, mas tem um coiso meu que não posso falar, tem muita coisa que é melhor não falar. Mas acho [que] eu pude, talvez, contribuir com um pouco, porque eu sou um cara entusiasmado com essa história, com o clube, com a situação das fotos, a situação de livros, a comunidade, o trabalho junto à comunidade. Quando eu cheguei na empresa era assim: toda semana estava a Cetesb lá. Tem uma fumacinha de vapor, ligavam pra Cetesb, a Cetesb ia lá. Aí multava. Não é assim. Aí comecei a fazer trabalho junto à comunidade, e isso foi legal, porque eu descobri muita coisa boa lá fora, e aí eles encontraram também ali dentro coisas boas, porque a NitroQuímica estava praticamente fechada com os seus muros. Abri a empresa, fizemos um trabalho de “open house”, casa aberta à população, passeamos de trenzinho dentro da empresa com a população - mostrei, mostramos pra ela. Hoje a gente não tem mais isso, nós nos preocupamos com a segurança da empresa; qualquer vazamento, qualquer situação de vaporzinho, a gente tá avisando a comunidade, tá avisando todo mundo. Então hoje nós temos um relacionamento com a comunidade muito próximo, e isso significa alguns milhões de economia, porque você mostrando, e não ligando, não recebendo multa toda hora - não para a fábrica, pra ver se realmente era isso -, isso tudo é prejuízo. Isso a gente acabou. Então esse relacionamento tem que existir.

 

P1 – Muito bom. Então é isso. A gente te agradece.

 

R – Que é isso. Obrigado você.

 

[Fim do depoimento]

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+