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História de: Adriana Teixeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/06/2014

Sinopse

Adriana Teixeira e Silva Costa. Nascida em São Paulo dia 29 de agosto de 1968. Seu pai sai da cidade de Barcelos em Portugal aos 18 anos para o Brasil. Sua mãe vem do Rio de Janeiro, onde se pais se conhecem e se apaixonam e logo se mudam para São Paulo. Vão morar no bairro da Santa Cecília por um breve tempo e logo se mudam para a Vila Madalena, um bairro totalmente diferente do que é conhecido hoje. Uma Vila Madalena ainda rural. Após sua mãe conseguir uma bolsa de estudos, cursa o ensino médio no Colégio Rio Branco em Higienópolis, o que irá lhe ofertar uma diversa experiência. Transitando entre mudos distintos, conhecendo e agregando novos valores.  Adriana possui uma forte lembrança da Vila Madalena, desde os laços comunitários e culturais até impressionante reformulação urbanística que este sofre nos dias atuais. Segundo Adriana, uma verdadeira gentrificação que deriva da especulação imobiliária. Após experimentar diversas áreas, entre elas, Instrumentação Cirúrgica até a Computação Gráfica, opta por cursar Psicologia na PUC-SP. O engajamento do curso e de sua turma em especial a levou a atuar em diversos movimentos sociais de base. Ajudou a construir o Estatuto da Criança e o Adolescente. Atuou no Movimento de Luta pelos Cortiços, que eram movimentos organizados, sociais. Foi representante da PUC-SP no Conselho Municipal, na gestão da Prefeita Erundina. Dentro deste universo de debates pra criação de políticas públicas para a infância e o adolescente, cria o Ônibus Ludicidade, um ônibus brinquedoteca, inspirado nos ônibus bibliotecas. Junto com o Francisco Garcia, ex-Gerente da área institucional da Nestlé, que era responsável pela Fundação e pelo voluntariado na época começa a desdobrar sobre o que seria o Nutrir. Surgem então as capacitações com as merendeiras, alicerce da proposta, assim como as formações com os voluntários. Fazendo curadoria referentes à alimentação saudável, vídeos, programas e com isso gerando um material base. Ajudou a criar o Prêmio Nutrir, uma forma de reconhecer o trabalho dos parceiros do Programa. Ajudou ainda a levar o Nutrir a comunidade do Morro do Fubá no Rio de Janeiro, uma experiência bem marcante. Desliga-se do programa em 2005. Mora por alguns anos nos Estados Unidos, onde seu marido passa a trabalhar. Lá irá desenvolver trabalhos na linha da Arte-Educação principalmente em Museus. Atualmente Diretora da Residência Criativa.

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História completa

P/1 – Adriana obrigada pela sua presença aqui, em nome do Museu da Pessoa e do Programa Nutrir. Para deixarmos registrado, por favor, o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Adriana Teixeira e Silva Costa. São Paulo, dia 29 de agosto de 1968.

 

 

P/1 – Conta um pouquinho desses sobrenomes.

 

R – É uma raiz bem portuguesa. Na realidade tanto os meus avós quanto meu pai veio de Portugal, Barcelos, uma cidade de Portugal. Da linha matriarcal quanto patriarcal tem esse sabor português que está na culinária com um monte de receitas que a gente acaba pegando. Depois, uma coisa bem paulistana, meu pai veio com 18 anos. E a minha mãe, a minha avó veio do Rio pra cá. Na verdade ela foi raptada pelo meu avô foi uma paixão fulminante, ele foi pro Rio acabaram se enamorando e fugiram pra casar pra cá. Eles foram pra região de Santa Cecília, bem centro e depois logo que eu nasci eles já vieram pra cá, pra esse bairro. Eu tenho uma relação com a Vila Madalena antes de ela ser ‘a Vila Madalena dos bares’, que era uma região mais rural era uma periferia da cidade. Inclusive, na adolescência eu participei de um movimento ali na Praça das Corujas do Felipe Boiadeiro que era ainda uma pessoa que veio da tradição de trazer os bois do interior pra cá, aqui era a Estrada da Boiada. Ele ficou ocupando e morava na praça as crianças adoravam. Ele, inclusive ia pro Silvio Santos. Ele tinha um chicote que você punha um papel e ele com o chicote cortava, era muito engraçado e todas as crianças adoravam ir lá e fazer isso. Tinha uma charretinha, burrinhos e tal. E aí teve uma questão do zoneamento e ele não podia mais morar na praça, daí fizemos um grande movimento pra não tirar o seu Felipe Boiadeiro de lá da casa. Porque a gente sabia que ali era a vida dele, que isso ia ter um impacto na saúde ele estava velhinho já. E aí ocupamos a praça. Foi um movimento, aí pintamos, dormia todo mundo na praça acampamento, não deixava vir caminhão. Nós atrasamos o processo, na verdade, mas ele acabou sendo retirado. Mas, são coisas que hoje soam muito modernas ocupar uma praça, mas são bem antigas, coisas de adolescente aqui do bairro. E um bairro que sempre teve samba, música, cultura, mas era um bairro muito de comunidade mesmo, a comunidade mais tradicional de portas abertas. Eu tive uma infância aqui de carrinho de rolimã, uma infância de rua. Rua, mesmo, o tempo inteiro. De ter turma uma coisa que mostra que aqui ainda era uma região com pouco carro, jogávamos na rua queimada essas coisas. A urbanização aqui foi lenta. Estamos vivendo esse processo agora pode dizer de até uma ‘gentrificação’, na verdade uma expulsão de certa população, entrada de outra, comercialização profunda. Eu adoro: “Você praça, eu acho graça. Você prédio, eu acho um tédio”, que está aí espalhado. Porque é uma discussão sobre isso. Eu acho que discutir com bom humor é sempre excelente. Eu acho que é um bairro que está sofrendo algumas modificações, mas como eu estou aqui, praticamente meio em há momento histórico, eu estou vendo esses processos todos. E está sendo interessante, a Praça das Corujas continua sendo um espaço de conversa sobre isso, então com a horta, organização, a gente está discutindo será que as crianças ainda têm turma de bairro? E é muito interessante que ainda tem, estou fazendo essa pesquisa, ainda existe turma de bairro aqui mesmo com toda urbanização.

 

P/1 – Como seus pais se chamam?

 

R – Minha mãe é Doroti e meu pai Luiz.

 

P/1 – Eles fazem o quê, o que eles faziam?

 

R – Na verdade os dois na linha do comércio. Com minha mãe acabei tendo uma relação muito forte porque ela tinha uma mercearia aqui no bairro, então eu era conhecida, quer dizer até não era tão bom porque quando eu fazia arte alguém ligava pra ela para falar que eu estava em cima do telhado, não é legal. Mas, exatamente porque ela tinha essa questão mesmo de um atendimento muito forte lá na mercearia, não só comercial, que é isso que eu falo de uma cultura de bairro a minha mãe é benzedeira. A minha mãe fazia várias questões ao mesmo tempo em que tinha atendimento na parte de fora da mercearia, comercial, uma mercearia vende tudo, atrás ela tinha uma pequena cozinha que ela produzia bolos e salgados. E as saídas das fornadas do bolo eram momentos que as pessoas vinham para fazer algo como consultas sentimentais. Então assim, não tinha uma fornada de bolo que não tinha um choro, porque está com problema com o marido, com o filho, não sei o quê. Era um momento de consulta e também era um momento que ela acabava benzendo dando alguma coisa. Então, saía o bolo e também a pessoa saía de lá era um atendimento gratuito, como toda benzedeira, mas era um momento de atendimento. Isso fazia com que o vínculo dessas pessoas com a minha mãe fosse muito forte. E eu passava a entrar nessa rede de proteção indireta. Quando a gente estava no bairro aprontando alguma, acabava se voltando. E o meu pai também é da área de alimentos, do comércio, também trabalhava com isso. Então é uma linha assim, eu sou filha de comerciantes.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Não sou filha única. Estudava em um colégio aqui do bairro e quando eu ia para escola pública, a família da minha principal amiga matriculou-a numa escola particular em Higienópolis, o Rio Branco. Fiquei muito inconformada porque quando eu entrei para escola pública eu tinha que ser novamente alfabetizada. Eu já fui alfabetizada no pré, uma coisa que também não é muito comum. Quando eu entrei para escola pública como faço aniversário em agosto eu tinha que fazer tudo de novo. E aí eu fiquei muito inconformada com esse processo porque eu já sabia ler e eu tinha aquelas cartilhas. Eu fiquei irritadíssima, não tinha minha melhor amiga e tinha que fazer tudo novamente, me agarrei ao portão e eu falei: “Não entro. Não tem jeito, nesse lugar eu não entro”. Minha mãe ficou desesperada e ligou para mãe dessa minha amiga e falou: “A Adriana não quer entrar na escola”. Essa mãe falou: “Olha, vai ao Rio Branco que parece que eles têm um sistema de bolsas e de repente é essa coisa da relação dela com a Célia”, que era essa minha amiga. Minha mãe foi e conseguiu bolsa pra mim. Foi um processo muito interessante porque esse bairro extremamente comunitário de uma classe social mais simples, mais classe média baixa e eu fui parar no Rio Branco, em Higienópolis, que é de famílias tradicionais outro estilo de vida, outro jeito de pensar a vida, outra arquitetura, inclusive. E foi assim, acho que foi a melhor experiência sociológica que eu podia ter tido porque eu fiquei no Rio Branco até me formar no colegial. Mas foi uma mudança porque as festas que aconteciam lá e cá não eram as mesmas, era muito interessante. E também quando vinham nas minhas festas, é uma galera que não se misturava com outra. A minha turma era uma turma da pesada e eles tinham outros costumes. Então foi muito interessante essa questão da diversidade que pintou graças a quererem me alfabetizar de novo. Ainda bem que eles tentaram, senão era capaz de eu ter ficado no mesmo bairro estudando. Hoje eu acho que essa foi uma grande virada pra mim porque foi a partir dessa experiência sociológica que pela primeira vez eu saquei que existiam modos de viver diferentes e pude pensar sobre isso. Quer dizer, talvez se eu tivesse ficado nesse mesmo meio ambiente, a cidade, ela parece múltipla, mas ela não é tão múltipla assim. O Rio é diferente, já trabalhei no Rio. São Paulo consegue ainda manter os grupos um pouco mais homogêneos. Ela não é tão tudo junto e misturado como se gosta de dizer é aparentemente, mas na convivência ela não é tão mesclada, não. Então foi bom, pra mim foi bom.

 

P/1 – Conta alguns detalhes desse baque que você levou e como foi isso ao longo o tempo, estudando lá e morando aqui.

 

R – Na verdade tinham muitas coisas que eram diversas. A diversidade ia desde os brinquedos muito simples e brinquedos muito mais sofisticados. Eu me lembro de um que era um brinquedo ridículo de cores que você apertava e ele fazia uma música e você tinha que acompanhar, mas era um brinquedo caríssimo. Desde essa questão de objetos mesmo, convivência, até formalidades. Eu lembro que tinha um menino na minha sala que era o gênio da turma e na casa dele só podia ouvir música clássica, não entrava televisão. E pra gente era extremamente estranho porque, por exemplo, música clássica não fazia parte do meu repertório. E uma vez pra impressioná-lo, porque ele tinha uma espécie de um grupo muito fechado, uma panela, e eu resolvi estudar Física, fui o único dez da sala além dele. E aí ele veio falar comigo o que era praticamente uma coisa... Assim virei de mortal e entrei para o reduto deles. Era muito engraçado porque eu descobri que quando ele veio falar comigo ele estava nervoso, muito nervoso. E eu sou tagarela assim e ele começou a suar. Ele tentou pegar na minha mão, pensei “meu Deus do céu, o que está acontecendo?”. E assim desmistificou completamente. Eu acabei me aproximando dele e aí, por exemplo, aprendi música clássica, porque foi uma amizade de um território. E realmente, a biblioteca deles era uma coisa maravilhosa. Era uma família de cientistas. E já estava traçado que ele ia ser físico. E ele realmente foi estudar Física Nuclear na USP [Universidade de São Paulo]. Mas já tava traçado desde pequeno que ele ia ser físico, entendeu? Eu não tinha traçado o que eu ia ser pela minha família, se ganhar e sair do comércio. “[...] não vai viver vida de comércio que é muito complicada, tem que ficar todo dia”, mas o máximo era o que não fazer, não assim: “Você vai ser médica e trabalhar no hospital”. Ele não, ele ia ser físico nuclear, já tinha bolsa pra estudar em outro país, ou seja, um negócio completamente diferente. E aí foi muito legal porque eu me apaixonei por música clássica, depois fui fazer piano. Coisas que talvez não estivessem no meu repertório de experiência, de valor. Se eu ficasse aqui eu iria estudar cavaquinho, por exemplo, porque tinha uma turma de cavaquinho aqui, de samba, muito boa. E eu convivia também com a galera que era filha deles eram músicos que tocavam cavaquinho. São tradições, quer dizer, música e música, mas diferentes culturas musicais. E eu acho que é legal porque eu abri uma palheta de cores, da mesma maneira que hoje eu adoro chorinho eu sei apreciar uma música clássica. A introdução dessa diversidade é bacana porque você fica com um modus de vida diferente. Eu me lembro de festas onde a comida era estrogonofe, não era uma coisa tão “pop”. A Nestlé depois divulgou o estrogonofe, mas eram sabores diferenciados. Bife feito com certos molhos. A própria louça e a etiqueta à mesa. Por exemplo, outra amiga que eu tinha era milionária rebelde. E a mãe dela resolveu educá-la à mesa através de mim. Eu chegava e ela nem avisava a filha que eu cheguei, pois ela ficava trancada no quarto escutando os rocks transcendentais que a mãe detestava. Ela me fazia uma aula de etiqueta à mesa porque ela falava: “Bom, quem sabe as duas se relacionando a minha filha vira civilizada”. Essas coisas assim, e já na época da adolescência, mas foi uma coisa que, antes de me anunciar eu tinha que passar por ela porque ela me achava uma menina muito educada.

 

P/1 – E a Célia continuou?

 

R – A Célia continuou depois ela foi para o Porto Seguro, ela mudou de escola. Eu acabei continuando no Rio Branco. E a gente depois foi se perdendo no processo da vida, tanto que eu acho que a revolta por aprender o alfabeto foi pior que o meu amor a ela, mas a combinação das duas coisas foi super efetiva para uma mudança de destino. Claro que porque minha mãe bancou me levar todo dia pra lá, ou seja, se não fosse a minha mãe bancar esse destino eu não ia conseguir fazer. Mas a minha mãe sempre foi muito solícita aos meus devaneios. Teve uma época que eu enfiei na cabeça que tinha que aprender saxofone. Ela arrumou um saxofone pra mim. A minha única regra era estudar dentro do guarda-roupa pra não incomodar os vizinhos. Não foi muito bem sucedido porque depois de algum tempo estudando dentro do guarda-roupa eu não me senti com grandes horizontes tocando saxofone, mas foi legal pra estudar jazz, por exemplo. Escutei um monte de coisas de jazz. Mas assim, acho que ela sempre foi uma incentivadora das minhas maluquices, porque eu sempre fui muito curiosa.

 

P/1 – E os professores lá, como é que foi?

 

R – Olha, muda muito a época em que você está. No começo, que você tem um professor só para você e que ele é símbolo de autoridade, para quando você passa para o que hoje seria chamado Ensino Fundamental II, que você vai ter um monte de matérias. Por esses professores do começo sempre fui muito apaixonada. Eu sempre fui muito dedicada ao estudo, conhecimento sempre foi um valor pra mim. Ler, eu lia muito, sempre fui muito encantada com esses professores. Depois tem uma dissolução nessa relação mais afetiva porque você fica com essa troca da guarda, um para Matemática, um para Língua Portuguesa, você já não tem esse vínculo tão forte e fica aquela coisa dos preferidos, quase uma coleção de figurinhas, que você fica trocando lá com os amigos. Acho o que acontece é que a relação com a turma passa ser mais fundamental do que com os professores, é o grupo que forma. Eu sempre fui à prestativa da turma, a que ficava no grupo meio como articuladora das coisas, talvez até por essa experiência com a diversidade eu sempre rodei todas as turmas desde a turma que gosta de estudar até a zoeira. Desde saber do tráfico da escola até o último livro que saiu de não sei o que lá ou o cinema cult do Bixiga. Quer dizer, eu sempre rodei todas as turmas. E eu acho que a turma acaba tendo um papel fundamental no que você vai estudar porque, dependendo do grupo que você está ele te mobiliza a ir além daquilo que está no formal. Eu acho que o ensino no Rio Branco tinha uma média de qualidade. Hoje, depois de passado os anos e pensando nos sistemas educacionais eu acho muito fraco, mas na época pra mim era o que eu achava que era, é excelência, eu me sentia em um colégio que estava aprendendo. Foi legal depois para o vestibular, mas hoje se eu avaliar o currículo como Brasil ele é fraco. Mas é outro tempo acho que nem é justo comparar.

 

P/1 – Mais você saiu de lá e já foi para o curso Psicologia?

 

R – Não. Na verdade, o que aconteceu é que eu fiquei com muita dúvida no que fazer. E tinha opções completamente diversas. Eu queria fazer Computação Gráfica, Medicina, Jornalismo e Psicologia. E foi bacana porque uma amiga da minha mãe me falou assim: “Mas como você vai escolher sem nem saber o que é?”. E aí eu resolvi me dar um ano para escolher exercitando todas elas de alguma maneira. Deste modo, na Medicina eu fui fazer um curso de Instrumentação Cirúrgica e fui ser Instrumentadora Cirúrgica, para ver se esse ambiente hospitalar era isso que eu queria. Na Computação Gráfica eu fui trabalhar como assistente de um cara que trabalhava com Computação Gráfica e era um artista plástico; eu enchi tanto ele que ele falou: “Fica aí”. Porque hoje trabalhar com imagem em computador é ridículo, mas na época era grande tinha um curso só pra aprender a tratar as imagens. Eu ficava observando ele. Na verdade a experiência valeu mais pelas Artes Plásticas do que pela computação. Na parte de Psicologia, minha atenção para Psicologia era mais educacional, então eu fui trabalhar no Sesc [Serviço Social do Comércio] Pompéia . E eu fiquei um ano trabalhando nessas três coisas uma hora eu estava fazendo operação de varizes, outra eu estava no Sesc no Projeto Curumim e em outra eu estava no ateliê dele. E hoje eu acho que foi um modo muito interessante de escolher a profissão. Por quê? Eu fiquei horrorizada com os médicos na sala de cirurgia porque depois que você toma aquela anestesia, eles mudam, eles são outros seres. E eu era instrumentadora e estava na mesa de operação no que a Medicina faz de mais especializado que é cirurgia. E eu escutava cada horror passava mal com eles. Mal. Eu não desmaiei porque eu também fui testar isso, será que quando sair o sangue eu desmaio? Mas fui viver o ambiente hospitalar e eu detestei. “Alguma coisa está errada eu não posso escolher uma coisa que idealisticamente é legal, mas vou viver um inferno no meu cotidiano”. Não, fora. Na parte da Computação Gráfica, eu senti uma completa adoração foi pra parte de Artes Plásticas porque ele era um cara que ficava junto a PUC [Pontifícia Universidade Católica] com o Arlindo Machado. Trabalhava a questão estética e dentro dessa questão da nova modernidade ele estudava MTV [Music Televison] na hora que a MTV estava começando, ele trabalhava com uma equipe da MTV fazendo aquelas primeiras vinhetas. Era muito bacana! E o que eu me apaixonei foi pelo processo criativo porque a parte técnica é chata. Eu falei: “Gente, o que eu gosto é do processo criativo”. E eu amei trabalhar no Sesc. O jeito que eu consegui o emprego no Sesc também foi totalmente surreal, era uma pessoa que veio do Rio de Janeiro e comandava o Curumim. Vocês sabem o que é o Curumim? O Curumim é no fundo do Sesc Pompeia, lá embaixo, vocês já foram no Sesc? Lá embaixo tem as oficinas, tem oficina de xilogravura, de fotografia, de tear... E o Curumim era o programa infantil, onde você rodava todas as oficinas com as crianças. E na época não sei agora como está o Curumim continua existindo é um projeto tradicional do Sesc, mas na época a pessoa que foi trazida do Rio, a idéia era criar um eixo em que as crianças não passassem por fotografias simplesmente tecnicamente, mas que tivesse uma amarração pedagógica entre as oficinas. E eu fiquei como acompanhante da turma, pegava a turma e eu ia passando. Fazíamos fotografia com aquela técnica do pin hole na caixa de sapato, nós íamos para o laboratório de fotografia junto com as crianças revelar. Depois a imagem que saía virava xilogravura. Uma delícia! Descobri-me porque tinha processo criativo e tinha educação. Eu falei: “Não, meu negócio é Humanas mesmo, desencana”. Assim fui pra Psicologia porque era uma coisa bem expandida, mas logo que eu entrei sabia que não ia ser Clínica, eu já entrei pra uma coisa voltada mais para Educação. E como eu queria trabalhar e estudar ao mesmo tempo, fiz uma turma que era tarde e noite, e nessa turma que depois foi extinta, tinha muita gente que estava também com essa perspectiva mais de Psicologia Social, Institucional. E foi muito legal porque a gente fez uma turma que logo virou Centro Acadêmico, a gente fazia coisas engraçadíssimas de recepção dos calouros. A gente inventou uma teoria que em vez de ser os mecanismos de defesa era os mecanismos de ataque, uma cientista que a gente inventou, a gente criou papers que iam para a “xerox” naquela época, que os meninos iam tirar. A gente dava aula, eu tinha um coque que vinha até “aqui em cima”, que eu era uma estudiosa dessa teoria do mecanismo de ataque. Era tão engraçado! Era um centro acadêmico surreal, a gente fez enterro de livros, desceu com um esquife cheio de livros que eram livros que não serviam mais pra humanidade e que seriam enterrados na biblioteca. A gente era uma turma muito ativa.

 

P/1 – Onde que foi?

 

R – Na PUC. É muito politizado. E muito interessante que todos foram trabalhar na área social. Uma turma foi trabalhar com presídios, outro com as prostitutas do bairro do Bixiga. Todo mundo foi Febem [Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor], para área social. Era uma turma diferenciada do grupo todo das Psicologias porque era turma tarde e noite, era a turma que trabalhava uma turma mais madura, não estava lá só estudando. Estava estudando, trabalhando, então a gente se reunia tinha um monte de reunião política tinha uma discussão de centro acadêmico. Fomos discutir questões de estágio, fizemos seminário, éramos muito ativos mesmo. E festa, lógico. Mas era uma turma bacana.

 

P/1 – Você disse que preferiu ficar tarde e noite pra trabalhar de manhã. O que você fez?

 

R – Eu trabalhei na própria creche da PUC. A PUC tinha um convênio e atendia os funcionários na creche. Trabalhava na creche e também continuei trabalhando para o Sesc. Quando eu terminei esse um ano eu me apaixonei completamente por essa questão da Arte-Educação, continuei a relação com essa diretora e ela me colocou pra coordenar a integração e eu fiquei um tempo trabalhando em oficinas e como apoio para o Sesc. Entrei aí para o mundo da Educação, Arte-Educação é uma linha que vai ficar pra sempre comigo. Ali desperta uma coisa que depois eu vou dar continuidade, inclusive o projeto de Memória que eu fiz com o Museu, Memória da Arte-Educação que a partir da metodologia do Museu, entrevistamos arte-educadores que fundaram e foram vitais pro Brasil. Foi muito bacana, uma coisa que vai me acompanhar aí.

 

P/1 – Daí você formou...

 

R – E o que acontece é o seguinte esse engajamento de centro acadêmico me levou para uma área que tem na PUC que é o Núcleo de Trabalhos Comunitários. A PUC tinha um setor que estava vinculado nas redes de Pastoral da Criança e do Adolescente. Foi uma época muito efervescente porque é a época da defesa dos direitos, foi o Estatuto da Criança e o Adolescente. Nós entramos e eu fiz parte de todo o movimento que construiu o estatuto. Porque o estatuto não foi simplesmente de cima pra baixo, é uma questão de participação. As crianças escreviam que direitos eles queriam e a cidade inteira estava mobilizada pela Pastoral e fomos com o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua para o Congresso com as crianças. Foi muito legal. Eles tinham câmeras de papelão pra filmar, foi uma época muito rica de participação social. E eu me engajei nisso tudo, o Núcleo acabou me puxando pra trabalhar. Eu fui eleita junto com a coordenadora do Núcleo, porque aí eu entrei em dois movimentos o Movimento da Criança e do Adolescente e entrei no Movimento de Luta pelos Cortiços, que eram movimentos organizados, sociais. E fizemos campanha pra entrar no primeiro Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente quando se institucionalizou pelo primeiro conselho de São Paulo, na época da Prefeita Erundina, e tínhamos que fazer campanha pra ser eleito, porque era um conselho eleito. Então, eu fui para campo e eu fui eleita, eu entrei representando a universidade eu aluna, ela professora, a gente entrou como representante do Conselho Municipal. Isso foi muito legal porque foi a primeira vez que eu tive a dimensão de cidade e de política pública. Uma coisa é você estar numa ação micro, numa creche. Na creche fizemos algumas coisas de movimento de lutas por creche, mas é diferente. O Conselho Municipal deu uma dimensão de todos os setores porque você discute toda a política da infância, discute a partir de representantes porque é metade sociedade civil e metade governo, ali você tinha representantes de todas as secretarias discutindo a questão da infância. E aí, eu fui pra algumas apresentações de políticas públicas que existia e inventei o projeto do Ônibus Ludicidade, que aí eu falei: “Puxa, se tem ônibus biblioteca, por que não pode ter ônibus brinquedoteca?”. E era uma época que nos levantamentos, porque isso que é legal também a gente tinha muita informação por estar vinculado à secretaria. Tínhamos as informações da questão da evasão escolar, de bairros que estavam com maiores dificuldades tínhamos o mapa da cidade de situações de risco da infância. E propus para essa professora que era uma pessoa ousada, que me respondeu: “Ah Adriana se você conseguir vamos fazer o ônibus”. E aí eu tinha que arrumar um ônibus.

 

P/1 – Quem era sua professora?

 

R – Você quer que eu conte a história do ônibus?

 

P/1 – Quero.

 

R – O nome dela é Maria Stela Graciani. Ela trabalhou com Paulo Freire no MOVA [Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos] São Paulo, ela vem dessa linha. Ela é extremamente Paulo Freire. O Paulo Freire ia ao nosso núcleo, fazia palestra, conversava conosco, íamos a casa dele. Era um grupo muito forte e ela tinha essa questão da alfabetização de adultos e estava engajada até o último fio de cabelo nesse movimento da infância pela Pastoral. Eu fiquei com essa coisa na cabeça: “Eu preciso arrumar um ônibus, preciso arrumar um ônibus. Como é que eu faço isso?”. Eu participava na época do grupo Tortura Nunca Mais, com a dona Helena. Movimentos sociais são sempre as mesmas caras na Câmara Municipal. Tem muita gente na rua, mas na hora de dar a legislação é praticamente uma família: “Ô, tudo bom?”. A dona Helena é uma pessoa que tinha perdido um filho no Araguaia e era uma senhorinha que ninguém acreditava que em todas as reuniões ela estava. Pensa numa pessoa de 70, 80 anos, em toda reunião. Falta qualquer pessoa menos a dona Helena. Que criou o grupo por conta dessa experiência com o filho desaparecido que ela não pôde enterrar, imagino ser uma experiência horrível, você não vê a pessoa pra poder enterrar ela criou o grupo Tortura Nunca Mais que já existia no Rio De Janeiro, e ela criou em São Paulo. Encontrei certa vez a dona Helena que me disse: “Por favor, Adriana de uma ajuda, eles estão precisando de formação que você vai fazer”, aí a merendeira de pesquisa de produtos locais. Foi muito rico esse processo.

 

P/1 – Vocês se encontraram com o Chico [Francisco Garcia] e foram conversando, você não chegou com o projeto pronto?

 

R – Não, de forma alguma. Na verdade ele não sabia muito bem que programa ele queria. Porque a Fundação é uma Fundação tradicional como muitas que existem, são fundações formadas para premiações, reconhecimento, uma coisa meio elitista. Na verdade ele sabia que existia uma pressão paras empresas ganharem uma relação de fidelização com o público, uma popularização. Tinha uma necessidade de criar isso, mas não sabia muito bem o que. Ele viu no projeto do ônibus uma coisa legal, mas não dava pra replicar porque o acordo com a universidade não foi fechado. E se a gente fizesse isso seria meio à revelia não importa que fosse eu que criei a idéia não era essa de entrar em conflito. Então ele falou: “Vamos desenvolver outra coisa”. Como eu já tinha experiência com duas empresas anteriores eu sabia que tinha que ser alguma coisa que estivesse vinculada a essência da empresa porque senão não ia ter sustentabilidade. Qual saber que ali tem? Alimento é óbvio. Assim fomos desdobrando. Foi rápido o processo por que eles já estavam com muita vontade de fazer eles tinham na época uma agência muito interessante, inclusive a pessoa que criou que também talvez fosse legal vocês verem os logos é uma grande amiga minha hoje. Ela trabalhava na Norton na época e era a pessoa que respondia pela conta do Nutrir. Ela rapidamente sacou, então já veio. Porque a construção da identidade ajuda muito nesse processo. Eu sempre trabalhei muito na minha construção sou esquemática faço desenho apesar de não ter habilidade nenhuma nesse aspecto, mas eu tenho essa questão da síntese visual. E ela foi perfeita porque eu acho que aí sim tem uma criação coletiva porque tem diferentes expertises. A gente podia ter uma pessoa nada a ver, mas ela foi criando uma identidade que tinha a ver com o processo. Ela já atendia a conta Nestlé Literatura.

 

P/1 – Quem é?

 

R – A Bia Fioretti. Ela é muito legal. Hoje ela está em um projeto social maravilhoso o nosso encontro foi mágico, hoje ela está trabalhando com parteiras no Brasil inteiro é muito bonito. Ela é uma pessoa que tinha sensibilidade para isso e quando fomos nos juntando, esse programa foi sendo lançado. Lógico, cara Nestlé com eventos, cantores, aquelas coisas. Eu fotografada com o Chitãozinho e Xororó, deveria ter trazido essa é que eu não achei. Aquilo nada a ver, mas era muito engraçado. Que é a cara da Nestlé. Acho que também tem muita da relação com essas mulheres que estavam lá na ponta à mão das merendeiras no processo foi muito forte.

 

P/1 – Quando dá o start de trabalhar com as merendeiras?

 

R – Já nasceu assim. Ele já nasceu com essa relação de reciclar, de trabalhar esse duplo lado. Porque se a gente ia trabalhar com alimento, tínhamos que trabalhar diretamente com elas. Mas como eu tenho um forte viés da Educação, como juntar isso? Porque ia ser um programa pra elas, eu dou essa guinada, elas e os educadores equilibram. E aí que faz o kit, faz toda a sacola tudo isso é a Bia quem fez essa relação dos alimentos. Aí eu vou buscar livros de literatura e aí que entra esse cunho mais pedagógico, que na verdade o meu trabalho era esse design didático e de formação dos voluntários. Porque eu precisava de coisas que fossem simples pra que os voluntários pudessem engajar. Porque também tem uma diferença hoje um funcionário de uma empresa não consegue mais sair o tempo que ele conseguia no começo do voluntariado. Hoje eles estão trabalhando por dois, três, então, eles não têm mais tempo ficou muito mais denso muito mais difícil de você tirar. Na época não, eles entravam no processo criativo. Tínhamos formações na Nestlé de ficarem dois dias, gerente, criando, cantando, brincando, lendo história, fazendo receita. Vocês entrevistaram a Ana Maria [D’Angelo]? A Ana Maria é uma figura. Nós íamos para aquela cozinha sofisticadíssima deles, com fogão de vidro que esquenta. Era uma delícia as formações, trazia muitas ONGs [Organizações Não Governamentais] aqui de São Paulo, fazia essas formações nas outras regiões. É muito legal, mas é outro tempo. Eu acho que a construção colaborativa, hoje, dentro de empresa, é muito mais restrita.

 

P/1 – Mas como que os voluntários receberam.

 

R – Na verdade a natureza do voluntário da C&A era muito diferente do da Nestlé. Por exemplo, a C&A é jovem que fica na loja, “que tem um pique”, mas rapidamente vai embora. Na Nestlé, o cara que aposentou não consegue ir embora; eu tinha voluntário aposentado que vinha porque ele precisava estar na empresa. Da mesma maneira que o meu amigo já tinha o destino traçado que ele ia ser físico, tem pai que fala: “Você vai trabalhar na Nestlé”, era uma família, entendeu? Então isso pra voluntariado é excelente porque ele vem com família no sábado pra creche. Vem ele, a mulher, os filhos, é uma cultura muito forte de duração. Pode ser que hoje com a reestruturação tenha mudado, mas na época que eu trabalhava com eles era muito bom isso porque eram pessoas que vinham de diferentes setores, mas que estavam ali totalmente entregues àquilo quase como se fosse à igreja, sabe o grupo da comunidade? Eles eram o grupo da comunidade Nestlé, pessoas muito apaixonadas pela marca extremamente engajadas nas atividades sociais. Tínhamos uma fidelidade aos encontros, era incrível. E eles participavam mesmo. Eu sempre trabalhei com o lúdico, é muito bom porque você está no escritório de repente você está brincando, você está jogando, você esquece. Então eles falavam mesmo que era um momento terapêutico porque entrava. Você vai lá discutir, brincar de casinha, pensar em jogos é muito bacana. E tínhamos que criar estratégias didáticas para passar esse conteúdo nutricional. Então tinha personagens. Eles adoram é um momento mesmo de lazer. Tinha uma adesão muito grande que também eu acho que hoje as estruturas das corporações também alteraram isso. Você não tem mais tanta estabilidade.

 

P/1 – Como que eram as formações? Vocês construíam juntos: “Hoje a gente vai fazer tal coisa, vamos caminhar nesse sentido”?

 

R – Criamos um roteiro tínhamos a base da pirâmide que eram os elementos. Você chegou a ver aqueles vídeos que têm as músicas? A gente foi buscar material e fizemos uma curadoria de todos os materiais que existiam falando sobre isso. Tudo o que era literatura infanto-juvenil que falava sobre alimentação, vídeo, programas e fizemos uma análise qualitativa. E com isso geramos um material base. Por exemplo, você vai falar sobre a questão gordura, faz bem ou faz mal? Aí tinha o vídeo de uma mulher vestida de bolo.

 

P/1 – Mas têm nome esses vídeos?

 

R – São os Nutriamigos. Eu não sei se eles têm lá ainda. A gente pegava esses conteúdos “Gordura faz bem ou gordura faz mal? Você vai saber agora quem sou eu afinal”, aí ela vai cantando falando que ajuda as proteínas a passar pelo corpo. E ela vai contando o que ela faz bem, o que ela faz mal e ela é um bolo. É muito engraçado. Quando você passava isso já quebrava a turma porque era o melhor jeito de passar o conteúdo. Depois, junto com os educadores falávamos: “Bom, o que você sabe sobre esse tema, o que você não sabe?”. Eu vim de um trabalho de comunidade influenciada por Paulo Freire, minha metodologia é participativa de escuta e a partir do conhecimento dado, do que a chamamos de avaliação iniciante, do que o outro sabe você vai complementando e vai fazendo as conversas e vai produzindo conhecimento junto com o grupo. Então a gente tinha sempre elementos de catalisar isso, seja na brincadeira, ou então sempre começava com uma dinâmica: “De abóbora faz melão, de melão faz melancia”, então você dançava, fazia apresentações, jogos, pra relaxar. “É outra sintonia, vamos desligar a fábrica”, ou “vamos desligar a creche”, sempre tinha esse processo. Sempre com humor, isso também é uma marca registrada. E aí, a partir dessa quebra tanto de presença de você por as pessoas ali e uma visão diferenciada daquele conteúdo, nós começávamos essa avaliação. Se for um voluntário, da vida dele mesmo, então o que ele acha daquilo. O que é uma gordura saturada o que ele sabe daquilo, o que ele come o que ele não come. E aí ir trabalhando esse conteúdo. E sempre tinha um repertório imenso de possibilidades que ele pode fazer com aquele tema de jogo, literatura. Então, o que a gente foi criando foi um acervo de didáticas possíveis que esse professor podia ter pra aula dele. E no caso das merendeiras também não só de produção de receitas, mas a gente fazia formação conjunta para elas entenderem que conteúdo estava sendo trabalhado e essas duas coisas não serem dois momentos estanques, mas ser um momento conjunto. A coisa mais legal era quando na hora do almoço tinha toda essa interação. Tinha o jogo, as crianças iam pra cozinha como uma oficina. Acho que a Nestlé ajuda muito porque como a parceria acaba muitas vezes numa cidade pequena, a Nestlé é uma fonte financeira e a secretaria fala: “Vem aqui, meu querido”. As secretárias pensando políticas diferenciadas voltadas pra isso é incrível que aí você mexa na política pública mesmo, na formação das merendeiras, nas situações. Então eu me lembro de algumas situações como na Favela da Maré no Rio, teve uma coisa diferenciada não sei se vocês sabem dessa história, mas construímos uma cozinha? Isso é surreal. O consulado japonês foi no Rio de Janeiro, no Morro do Fubá, e resolveu construir uma cozinha mega super blaster. Que ficou fechada por muitos anos. Acabou acontecendo pela Firjan [Federação das Indústrias do Rio de Janeiro] à possibilidade de parceria. Eles precisavam abrir porque foi uma parceria Firjan-Consulado. Eles ficaram sabendo do Nutrir e entraram em contato. E a idéia é ocupar a cozinha do Morro do Fubá com um programa de educação alimentar, o Nutrir. Muito bacana, só que quem controla o Morro do Fubá? Pra quem tem que pedir autorização pra entrar na cozinha? Não é tão simples assim.

 

P/1 – Não é a Secretaria de Educação?

 

R – Não é a Secretaria. Deste modo quem vai fazer a negociação e conhecer? Eu, óbvio. Afinal de contas eu sou a pessoa da comunidade, quem trabalhou com a comunidade.

 

P/1 – Você arrumou o ônibus, consegue tirar o ônibus da garagem, não vai conseguir falar com o traficante?

 

R – Lógico. Vai lá pra fazer apresentação formal. Mas, acho que o Nutrir fez investidas para além da metodologia. Porque o que acontece? Você cria uma metodologia, uma tecnologia social, isso eu achei muito bacana do processo que tem a ver com a liderança é claro. Não ficar também hermeticamente fechado. A gente criou agora vamos mandar paras os acionistas ou pra bolsa, eu já tive demanda assim: “Olha, a gente precisa entrar na Bolsa de Nova York, a bolsa só aceita se tiver responsabilidade social”. Sabiam disso? É. “Então a gente precisa de um programa social”. É. Então assim, cumpriu todos os protocolos, mas na verdade no caso desse programa ele não só estava cumprindo protocolos, ele foi chamando agente que era do setor. Na hora que ele faz a viagem do cardápio de soluções ele conversa com pessoas do setor ele traz uma pessoa que tava vinculada ao ministério que trabalha com isso há muitos anos. São diálogos que estavam totalmente fora do esquadro de um programa fechado, era um programa aberto. E de repente tem uma demanda dessa cozinha ele topa ir lá ver o que é, dá pra montar, não dá pra montar vamos tentar fazer uma parceria. Aí ele vai buscar gente da região. Fizemos uma parceria com uma pessoa que cuidava e  estava vinculada com doação de alimentos dentro do Sacolão do Rio de Janeiro, que pegava essas doações e fazia todo um trabalho com mulheres empreendedoras. Então ele não ficou na caixinha, não criou um modelo só de marketing social. Realmente se estava interessado em fazer essa discussão do que era essa política pública. Depois entraram as questões de obesidade, responder às pesquisas porque eles têm muito acesso aos médicos que trabalham com essas questões. Conversávamos com diferentes setores, não era uma celulazinha fechada era um processo pulsante. Acho que essa é uma riqueza que não é para qualquer programa por isso tenho muito carinho por esse programa. Com ele não só a estávamos nacionalmente a possibilidade de ver uma política funcionando e acho que teve secretarias que a gente teve impacto forte no modo de ver as merendeiras na formação, no modo de operacionalizar o atendimento. Por exemplo, as crianças não serem servidas, mas as crianças se servirem. Acho que não aconteceu em uma, aconteceu na rede, isso é incrível. E montar experiências dessas cozinhas experimentais. Ele testou esses outros que se pensarmos, estão fora do modelinho, mas eram ousadias. Ainda é num momento que dava pra fazer essas entradas e testar. Então eu acho que isso é impagável.

 

P/1 – Você acha que o nome da Nestlé também ajudava?

 

R – Eu acho que da mesma maneira que você tinha esses funcionários extremamente fieis e ‘eu quero isso pro meu filho’. Tinha uma coisa da marca Nestlé ser afetiva. Vimos nas comunidades que a gente atuava um carinho muito grande pelos produtos. Uma marca que passava mesmo uma relação muito forte. Fruto do trabalho deles de comunicação, mas que encontrávamos isso. Acho que quando a gente falava da Nestlé era um complemento. Claro que estou falando no sentido popular, porque no sentido social tinha conflitos a própria Ashoka, a gente viveu isso. Mas no lado da população e depois tinha uma época que eu estava lá e que eles estavam com aquelas campanhas com o Faustão, então eles também estavam num momento pop. “80 casas nos 80 anos”, tinha uma coisa da própria empresa. Eles nunca foram elitistas. Ela tinha uma relação com o consumidor muito forte. Eu trabalho para empresas algumas que já tem outra. Quem lida direto com o consumidor tem uma relação mais aberta do que quem lida indiretamente com o consumidor, lida para outras indústrias que vão lidar para o consumidor, essas são mais apagadas. Agora quem tem uma relação direta com o consumidor tem uma relação mais quente. Eles realmente tinham. Além de ser uma empresa tradicional, 80 anos na época era muito tempo. É meio que uma fidelidade ao Brasil também.

 

P/1 – A gente deu uma fugida, você estava falando do Morro do Fubá.

 

R – No Morro do Fubá, fui lá mesmo negociar com os traficantes eles desceram em um “Opalão”, todos saíram armados pra saber o que a gente queria. Fizemos uma mesa como as que fazíamos com as das receitas para eles fazerem um degustação, fomos desarmando...

 

P/1 – Eles foram até a cozinha então?

 

R – Foram. Na verdade eles disseram que Eu estava na cozinha porque aquele território era deles. Que era um momento de conflito com o Comando Vermelho e mais outra facção, então eles vieram eu que era convidada, apesar de que a gente ofereceu a comida por lá. Mas eu era a convidada. Fui meio que pedir autorização mesmo para poder começar alguma coisa. E aí foi interessante. Tinha negociação de uma das pessoas deles, vir aprender e assim fomos conversando e conseguindo estruturar tudo, por para funcionar. Na realidade a Edna que era uma pessoa da região que depois acabou ficando como coordenadora do programa, e foi uma experiência muito interessante porque era uma época em que a Nestlé estava fazendo aquela base da pirâmide então eles estavam estudando como fazer esses produtos, ou a distribuição de produtos, exatamente nesses nichos de mercado. Esses estudos de bicicleta que leva Nescafé, por exemplo, estava começando a ficar forte isso, essa idéia do Yunes que é toda essa pesquisa do micro financiamento do microcrédito que funciona “empoderando” esses agentes locais. Lá acabou tendo um sentido também de formação de pessoal para trabalhar. Era uma escola e acabou virando não só uma cozinha de atendimento pras crianças locais, mas virou uma escola de formação de pessoas de empreendedores nesse setor da alimentação. Era uma iniciativa bacana de enveredar, porque aí a gente tinha na verdade a candidata à merendeira. Porque o que acontece é que a gente descobriu que essa pessoa que vai ser merendeira ela não tem um curso de formação. Ela vai aos poucos dentro da institucionalização do trabalho dela tendo formações. E a gente começou lá com a Edna um trabalho de formação mesmo dessas mulheres. E não necessariamente só para serem merendeiras elas podiam também desenvolver pequenos negócios. Por exemplo, hoje um dos negócios mais bem sucedidos no Rio de Janeiro são as boleiras. Vocês já ouviram desse caso? Então era um pouco dentro desse sentido dos micros empreendimentos vinculado a esta questão da alimentação. E se você vende o bolo, por que você não vende junto um café solúvel?

 

P/1 – Mas foi uma coisa inovadora pra vocês.

 

R – Pra mim.

 

P/1 – Pra dentro do programa.

 

R – Para dentro do programa era inovador porque o que acontece? Não tinha ainda no terceiro setor uma relação, que depois isso vai evoluir pra cadeia de valor híbrido, por exemplo, da Ashoka. Mas o que acontece? O setor foi se tornando complexo de uma maneira orgânica. Você começava um projeto, tem uma idéia e você vai crescendo junto com o projeto. O projeto vai se desenvolvendo e você não poda ele até corta algumas idéias mirabolantes que não valem nada, mas você não poda no sentido de: “Não, vai ser sempre isso, nós vamos reproduzir isso”, como uma franquia. Uma franquia é assim, a mesma roupa, a mesma rotina. Não era uma idéia ainda de franquia, ou seja, de você fechar aquele modelo era uma idéia de investigação constante, de estar dentro de um tema, você desenvolveu aquilo e você vai atrás do próximo problema que a relação te dá, que é um processo de aprendizagem de fato. Se as merendeiras não têm formação como é que isso poderia ser antes? Onde teriam isso? Se a gente está aqui encontrando nesse processo uma dificuldade, por exemplo, na estrutura das cozinhas como é que você resolve isso? Então vai entrando o programa vai se desenvolvendo e vai amadurecendo, mas ele não vai petrificando, congelando numa idéia que se reproduz como uma cópia. Ele está tentando responder as questões você sai da desnutrição pra obesidade, entram em outra seara em outras discussões, outras doenças, inclusive. Assim fomos vendo a partir da realidade as necessidades. E também foram aparecendo oportunidades essa cozinha de repente caiu, vamos fazer, não vamos fazer? Mas ainda tinha uma largueza não só de horizonte como de tempo e de dinheiro para arriscar isso, que é diferente, eu acho que esse entusiasmo acabou depois sendo arrefecido e vieram também outras sistematizações. Então por exemplo, os guias Exame de quem são os melhores, também foram começando a criar modelos do que é uma responsabilidade social corporativa, o que ela tem que ter pra entrar no guia e ganhar um prêmio. Isso é outra sistematização, é outro viés. Da mesma maneira que foi começando a pensar: “Bom, mas tem uma contradição entre a ação social e o business que é: como que esse business é sustentável?”. A sustentabilidade começou a puxar isso. “Vocês estão trabalhando isso aqui, obesidade, mas nossa questão é a cadeia de valor inteira do café”, então, entrou outra lógica e aí a coisa se modificou. Eu não sei te dizer ainda se um era melhor ou pior, eu sei que ali tinha uma liberdade de tirar do chão. Que nem árvore, vai crescendo, ramificando. E agora a gente está em outra ordem, outra lógica que é uma lógica de pensar macro e age no micro. O social dissolveu e passou a ser tudo porque aí é a questão da sustentabilidade traz para o social, você tem que agir coerente na cadeia inteira. E não sei se a obesidade é uma questão, claro, posso ser daqui a pouco, processado por conta disso de não se tomar cuidado, mas muda. É outra perspectiva. Tem vantagens que eu acho interessantíssimo, tem coisas da cadeia de valor híbrida que eu adoro e que traz essa relação de você pensar a partir de macro. E aí o macro é mundo, macro são problemas do setor alimentício não é só da Nestlé, macro é gigante entram as questões de competição entram outras variáveis que não estavam nesse processo de baixo pra cima, é outra ordem completamente. Que é quando eu saio. E o Chico também.

 

P/1 – Quando foi esse momento que você sai?

 

R – O que acontece é que tem essa mudança de complexidade, mas ao mesmo tempo também na minha vida acontece uma transferência do meu marido para os Estados Unidos e eu mudo, saio do Brasil e vou morar cinco anos fora. Eu ainda vou e volto de lá pra trabalhar aqui, alguns clientes. Mas na verdade na Nestlé, porque a idéia de um consultor é criar um programa, desenvolver e depois ele andar sozinho. Na Nestlé a minha tarefa já estava meio cumprida. Tem uma virada aí do Chico pra Silvia [Zanotti], primeiro a Silvia veio pra trabalhar com ele, depois ele vai para outro setor e ela que assume isso. A Silvia é uma pessoa que, não sei se vocês vão entrevistar, mas deviam também. A Silvia trabalhava na C&A, ela também é uma pessoa que está no mercado já faz tempo. Assim vamos mudando tanto essa lógica de funcionamento, quanto vai mudando a minha vida também eu vou entrando em outros processos e aí eu me afasto desse que já era uma estrutura toda montada. Mas eu acho que a lógica vai dar outra cara, eu vejo pela Rosana [Padial] que ficou algumas coisas se estruturam, mas o movimento é outro agora. Porque o setor mudou, não foi a Nestlé, foi o setor que mudou.

 

P/2 – Você lembra que ano foi isso, mais ou menos, que você vai se distanciando do programa?

 

R – Eu acho que não lembro diretamente o ano, eu não lembro. Mas acho que 2004 ou 2005.

 

P/1 – Conta de outros projetos dentro do programa que vocês fizeram. Você contou do Morro do Fubá, tem outro?

 

R – Tem vários no momento que eu lembro com carinho. Eu acho que as formações eram sempre momentos muito especiais de fazer o mesmo modelo de formação não a mesma formação, mas o mesmo modelo em regiões diferentes. Isso dava essas características locais dava esse envolvimento. Eu sempre fui uma pessoa que sempre gostei muito de escrever fui fazendo os registros também de processos que a gente ia vivendo. Eu acho que a revista que foi feita junto com a Silvia, o Avisa Lá, vocês têm esse material? Voltada especificamente para essa questão foi um marco porque a gente já vinha registrando muitas oficinas, muitas coisas porque recebíamos projetos. A gente criou o Prêmio Nutrir. O Prêmio Nutrir era muito interessante porque fazíamos a formação e o que aconteceu lá? Demorou um tempo para gente precisar dessa escuta formalizada. Quando vinham os projetos e vinham pilhas, eu lembro a euforia que era ficarmos na sala do Nutrir, aquela coisa das cartas com relatórios grossos, aquelas encadernações, com fotos. “Puxa, eles escutaram isso!” “Olha, que legal!”. E as idéias que vinham. Eu me lembro de um projeto que a menina resolveu trabalhar com pão e ela ficou quase que três meses trabalhando com os meninos, pão feito pelo mundo inteiro ela viajou o mundo através do pão e fez pão para as crianças. Ficávamos maravilhados de ver os resultados. E depois tinha que ter uma comissão avaliadora era super difícil de julgar porque às vezes tinha uma simplicidade no registro, mas tinha uma experiência ali muito legal, sacadas. Que isso que eu acho que também é legal. O processo vai se alimentando desses retornos e isso é vivo, isso é orgânico. Porque quando voltava reavaliávamos o currículo que estávamos montando. E muitas vezes na próxima formação eu levava. Minha mala, assim, tira essa roupa, tira essa roupa, esse vai, esse vai. Porque eu queria levar pra próxima turma o que foram os projetos. Tinha uma parte da minha formação que eles simplesmente compartilhavam projetos feitos por outras instituições. Isso é muito bacana porque aí já não era mais eu dando aula, era o resultado do trabalho feito por outra pessoa falando dentro da formação. O que sinto é que a formação foi ficando polifônica, ela foi ganhando cada vez mais experiências. Fomos colocando isso dentro de uma sistematização. Quando a Silvia faz a revista já é outro nível de registro, um nível já conceitual sai da experiência para teoria. E aí a defesa de algumas coisas que já são de conceito disso. Quando a gente fala de uma tecnologia social que acho ser o Nutrir é, tanto que depois ele vai ser exportado, não estamos falando de uma técnica, ou de um método que se reproduz friamente. Falamos de princípios que são vivenciados. Eles pulsam. E tem o espírito da coisa também. Acho que é mais do que uma seqüência de atividades tem ali uma harmonia um jeito de fazer um modo. Por exemplo, na hora que você vai entrevistar, por exemplo, as pessoas que faziam a parte de formação das receitas, as clones da Ana, parece que elas são todas muito parecidas porque tem várias pessoas. Trazendo as regionais qual a pessoa de Minas? Mas todas elas tinham aquele humor no cozinhar aquela alegria uma leveza. Tinha um espírito que inclusive agregava na hora da seleção. Quando traz um Adelsinho [Adelson Murta] que é de Minas para fazer esse brincar é o espírito do Nutrir. Não saímos desse espírito vamos agregando, mas não ia perdendo essa animação, essa identidade que o programa tinha. E o programa era muito querido em si, as pessoas falavam do Nutrir como se fosse um ser que vivesse ali. É, é muito engraçado assim. Não foram todos os programas que eu criei, ou que eu trabalhei, colaborei que tinha essa identidade. Eu falo do Nutrir, eu vejo um menino, eu vejo um moleque, tem um espírito forte. Ele tem uma identidade. Eu acho que isso em parte é de uma concepção mesmo gráfica que é uma concepção muito amistosa, acho que a Bia é muito intensa na produção acho que tem isso. Acho que é essa dinâmica aberta, de poder estar sendo embebida da presença de outros, e todo mundo se sentir participando e colaborando, e as iniciativas poderem ser diversas, mas estarem dentro de uma unidade. Eu acho que essa é uma coisa inesquecível. Acho que ela não está em um momento, mas ela está num pulsar do programa que tem um contínuo, acho que essa continuidade é muito legal. Tanto que quando eu fiz esse afastamento eu fiz com muita segurança porque isso já estava tão enraizado, tão próprio, que exatamente é o momento onde você já tem que sair o consultor não tem que ficar. Porque eu acho que já está vivo, inteiro, podendo fazer as suas modificações. E aí, eu acho que tem as modificações que estávamos falando antes do próprio setor. O setor vai vivenciando alterações de métricas de jeitos de ver e isso também vai alterando todos os programas não foi só o Nutrir que se alterou, vários programas.

 

P/1 – Conta o que foi o Prêmio Nutrir. Na essência você já falou que era pra ver resultados. Mas como foi na prática?

 

R – Na verdade ele era uma maneira de ver resultados, uma maneira de reconhecer porque uma coisa são as pessoas que fizeram se dedicaram a isso. Então ele tinha um reconhecimento mesmo de objetos, ele tinha um reconhecimento em dinheiro. A gente sabe que as organizações sociais padecem de formas de captação, não é fácil, principalmente as mais tradicionais. Para uma creche, é muito fácil fazer uma crowdfunding pra uma super idéia bacana, mas você vai fazer um crowdfunding pra uma creche que vai fazer uma rotina, quem vai financiar isso? Muitas vezes notávamos que com pouco recurso você conseguiria fazer modificações em uma rotina de alto impacto. E se aquela equipe está mobilizada isso potencializa muito. Vimos que isso seria também uma forma legal. Era uma maneira também de devolver pro voluntariado deles verem esse trabalho porque eles estão ali, porque o que acontece? A narrativa de um programa social está muito nesse corpo que está no cotidiano. Por exemplo, quem está na narrativa do Museu? Vocês que estão aqui dentro. Quem está de fora está vendo fragmentos. Um voluntário que vai uma vez por mês numa instituição, ou de três em três, ele vê parte. Então, quando ele entende a dimensão de onde se está isso também dá um significado muito maior. Para o próprio voluntariado muitas vezes a premiação era fechamento de formação de voluntariado pra que tivesse esse retorno, esse encontro. Então tinham várias estratégias em uma só, mas eu acho que foi uma coisa que alimentou muito, foi uma boa sacada Porque não foi um prêmio por um prêmio, foi um prêmio que tinham essas diferentes camadas que podiam dar significado.

 

P/1 – E quem poderia participar?

 

R – Todas as instituições que tinham participado da formação. Na verdade, quando elas saíam da formação, já comunicávamos que tinha a premiação. Isso foi se estruturando, mas no final das contas eram paras as próprias instituições que tinham participado e era um retorno da prática pra gente do que foi feito.

 

P/1 – E até você sair ainda existia o Prêmio?

 

R – Existia. Ficou mais um pouco depois. Acabou?

 

P/1 – Eu não cheguei a perguntar se ele acabou mesmo, mas ainda em 2012, 2013 teve.

 

R – Eu não sei. Eu realmente não sei o que está acontecendo agora.

 

P/1 – Eles estão reformulando, revendo este histórico. O projeto tem a ver com isso.

 

R – Legal, acho que era uma parte interessante. Mas hoje acho que continuo no mercado dessa área, creio que não adianta sair da história do que foi tem que olhar por esse outro ângulo. Porque esse processo não tem mais cultura pra acontecer, eu vejo porque estou em programas que estão nascendo e em outros, ou de outras instituições, ou estou fazendo processo. Agora estou em um processo de avaliação de um instituto que está há 12 anos atuando e, mesmo essa instituição que não está diretamente vinculada ao mundo da empresa é financiada por empresários, mas ela está solta, não dá mais pra funcionar assim. Mudou a substância, não mudou adjetivamente, mudou substantivamente. Assim você tem que repensar dentro dessa nova ordenação. E acho que manter o espírito, o que tem de força, o que tem de vitalidade, mas isso tem que ser cultivado dentro de outra condição mesmo, não é a mesma. Agora, acho que o que tem de bacana no Nutrir é que ele tem uma personalidade. Ele não é uma tatuagem só sobre a pele, ele está enraizado mesmo ele pode chamar dentro de outra ordem que funciona porque ele já está nesse sentido para além da história, acho que ele realmente criou uma alma mesmo.

 

P/1 – Você chegou a voltar como consultora em algum momento?

 

R – Não, para Nestlé não. Na verdade nos dois primeiros anos que eu fiquei nos Estados Unidos priorizei os projetos que não estavam tão maduros. Fiquei com os filhos menores; os adolescentes, jovens eu falei: “Se vira negada”. Os pequenininhos que tinham sete, nove, eu falei: “Espera lá gente esses tem que ser a prioridade” para finalizar profissionalmente, esses já tinham pai e mãe, já tinham toda a família pra cuidar. Eu finalizei esses outros dois e acabei fazendo uma imersão lá mesmo, em outro setor porque nos Estados Unidos a cultura da responsabilidade social empresarial é muito diferente da nossa, nós somos muito mais divertidos, não achei graça nenhuma neles, mas eu adorei o que eles fazem com museus. Eu mergulhei na área de museus e tecnologia. E lá tem uma conferência internacional chamada Museum and the Web, que vêm museus do mundo inteiro. Eu entrei de cabeça nessa área e fiquei enlouquecida porque lá realmente a coisa é bem avançada. Aí abriu de novo essa parte de Arte-Educação, abriu esse outro território que é forte e acabei sendo puxada pra lá. Fui trabalhar lá e fiquei lá três anos.

 

P/1 – Conta um pouquinho, fiquei curiosa agora.

 

R – O que acontece é que os Estados Unidos está muito avançado nessa relação entre museu e mídias digitais, a mídia como outra mídia mesmo. A questão é que museu e web são duas mídias e os Estados Unidos está pesquisando muito profundamente como é que esses dois se encontram de ser uma só, mas sem se fundir, sem se confundir. Ao mesmo tempo podendo ter um diálogo entre esses dois territórios. Então, o que acontece? Primeiro eles trazem, foram a todos os grandes museus que você pode imaginar vão pra essa conferência. E eles estão explorando desde as questões da internet, quem trabalha nas redes o que acontece, até como o museu sai das suas portas e ocupa a cidade. Os museus que estão fazendo place-making, os museus que estão usando aplicativos e jogando com a cidade inteira. É muito bacana. É um universo que talvez pegando a computação gráfica que estava lá atrás, era exatamente o que eu queria, mas não tinha a teoria não tinha isso tão facilitado na tecnologia. Porque eu não queria gastar tempo no CAD [Computer Aided Design], mas eu queria ter essa coisa. Então eles fazem jogos, brincadeiras, processos de construção de histórias. São incríveis como eles estão fazendo projeções e coisas na rua. Árvores que contam história é uma loucura. E todas as pessoas, as cabeças que inventam essas maluquices vão pra esse congresso. Então você fica meio assim: “Gente, minha cabeça não dá conta de tantas coisas”. E tem diferentes camadas tem desde questões mais do educativo, dos museus, até as questões de acervo mesmo, que são internas. Então assim, desde processos colaborativos internos, é muito maluco, tem de tudo. A delicadeza dos processos de colaboração e como eles estão gerando essa cultura de participação e produção de exposições coletivas, colaborativas. É uma delícia. Você participa e você colabora na criação da exposição. Aí tem uma menina que a gente ficou amiga que tem um museu lá na Califórnia e que ela faz todos os processos colaborativos do bairro na cidade inteira, o museu dela é totalmente coworking, todo mundo junto. É muito bacana. Estão acontecendo experiências muito interessantes. E aí assim, eu acabei me apaixonando e mergulhei nisso nos últimos três anos fiquei completamente apaixonada por essa história e vamos ver.

 

P/1 – É até uma boa dica pro Museu da Pessoa, que é totalmente virtual praticamente.

 

R – Vocês já nascem assim. O Museu da Pessoa já nasce com esse DNA [Deoxyribonucleic acid]. Eu até queria conversar com a Karen por conta disso. Eu fiz agora uma websérie chamada Museu em Mutação, estou trazendo essa discussão para o Brasil e entrevistei pessoas muito legais. Foi um pouco essa história, mas pra esse conceitual aqui. E eu queria até conversar com ela, viu Karen, preciso conversar com você.

 

P/1 – Adriana estamos chegando às duas horas de conversa, mas eu tenho algumas poucas perguntas pra finalizar, tudo bem? Quais foram seus aprendizados pessoais dentro do Programa Nutrir. O que agregou em sua vida, ou que conseguiu se reformular em sua experiência?

 

R – Primeiro a minha dieta. Melhorou, inclusive aprendi receitas muito novas em casa de reaproveitamento nunca mais joguei talos e cascas. Brincando, mas é verdade. Falar tanto sobre essas questões nutricionais acabou fazendo com que eu ficasse uma chata na família falando sobre isso. Depois eu acho que a experiência mesmo de vida de ter um programa tão pulsante, tão possível. Foi muito interessante, por exemplo, quando a gente criou o cardápio de soluções e ele serviu de referência pra tantas pessoas depois que tive muito retorno de muitas pessoas que leram o cardápio, ou que conheciam o Nutrir. Eu acho que participar de um programa desses que foi referência, eu acho que foi muito importante para entender que é possível fazer. Porque é um programa simples, de fato. Mas ele tinha um impacto tão grande e a possibilidade dele pegar tantas pessoas pela força da indústria, pelo carinho da marca, dá um alento uma esperança incrível, porque você fala: “Puxa, é possível fazer”. Então, para uma sonhadora trabalhar num programa que alimenta o seu próprio sonho é vital. Depois eu acho que as amizades. Muitas pessoas que eu me relacionei no programa eu considero amigas. Pessoas que vieram para minha vida pessoal, como pessoas que eu admiro. Então eu acho que isso também é fruto da cultura de trabalho do Nutrir. Quando a gente fala do Nutrir, falamos de algo em comum que fez parte da nossa história isso é quase a fogueirinha no meio que as pessoas estão ao redor. Isso também é raro num programa empresarial. Porque os programas passam. E esse não é um programa de passagem, esse é um programa de existência. Eu me lembro que fiz um registro dos vários projetos sociais que eu fiz que chamei de Coreografias Sociais. Eu não sabia, mas da mesma maneira que tem pauta de música, tem pauta de dança, vocês já ouviram isso? As pautas de dança são lindas parece arte abstrata. Eu conheci uma coreógrafa ela me mostrou as pautas de dança e eu enlouqueci. Aí eu falei: “Gente, que coisa linda!”, resolvi fazer as pautas das minhas coreografias sociais que foram os projetos, uma maneira de refletir sobre todos esses programas. E quando eu fiz a pauta do Nutrir, o desenho, eu acho que uma das coisas que me veio foi da fogueira e eu me lembrei disso, é essa coisa da luz. Foi um programa muito iluminado, um programa que tinha muita luz. Não só pelo brincar, pela leveza que ele trazia, mas eu acho que ele sempre aglutinou gente que queria muito fazer o bem. Ele sempre teve esse sabor, é um voluntariado escancarado, doado. Se eu fechar os olhos eu vejo as crianças chegando, abraçando. Ele era muito afetivo era uma coisa muito forte, muito quente, por isso muito iluminado. Acho que esse calor humano e a possibilidade da bondade ficaram muito fortes porque é legal você participar de uma história assim, que depois quando você está participando de outras que não são tão assim você fala: “Não, espera lá, mas tem aquela outra”. E eu acho que tem a ver também com essa liderança. Eu acho que são muito corajosas as pessoas que estão dentro da corporação que dão essa abertura. Porque a gente sabe que os modelos institucionais nas corporações são sempre meio burocráticos. Por exemplo, o Nutrir financiou o Tear, que era uma escola, vocês estão sabendo da história do Tear? Então, por exemplo, a disponibilidade do Chico, eu fiz o Chico dançar música indígena. Eu lembro, se ele vier aqui vocês perguntam como é que foi a dança com a Ninon. O Chico é um empresário, que é diretor de comunicação e de repente está lá numa roda dançando. É muito engraçado. Eu acho que isso tem a ver com essa disponibilidade de alma mesmo. E é um programa social ele quebra um pouco essa hierarquia ele põe todo mundo em roda, isso é muito bom.

 

P/1 – Eu ia fazer outra pergunta, mas eu acho que você finalizou tão bonito eu vou parar. Até porque você tem um tempo e também ia ser mais uma reflexiva Brasil, mas você já falou disso o tempo inteiro também.

 

R – É.

 

P/1 – Adriana, pra mim foi um privilégio fazer a tua entrevista, que delícia. Obrigada!

 

R – Imagina! Pra mim também foi muito bom, eu adoro essa casa. É muito bom que vocês estejam fazendo essa memória eu fico com muita gratidão que vocês estejam contando essa história. Porque, às vezes, ela fica tão nos bastidores.

 

P/2 – É verdade.

 

P/1 – Parabéns pela tua história, muito bom. Obrigada!

 

R – Nada!

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