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História de: Olegário Caetano Porto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2004

Sinopse

Olegário tem muita história pra contar. Formou-se técnico em contabilidade, mas também foi radialista, vereador. Além disso, trabalhou por 25 anos na CTBC, presenciando as dificuldades e avanços na expansão da telefonia da região de Patos de Minas.    

 

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História completa

 

 

P/1 – Bom dia, Sr. Olegário. Muito obrigado por ter vindo, é um prazer tê-lo aqui. Eu queria, por favor, que o senhor dissesse seu nome completo, o local e a data de seu nascimento.

R – Meu nome é Olegário Caetano Porto. Nascido em Patos de Minas, no Distrito do Chumbo - Vila Areado, que é a sede do distrito. Mais precisamente, na localidade de Vertente, em 20 de maio de 1932.

 

P/1 – O nome do seu pai e de sua mãe, por favor.

 

R – João Antônio Barbosa Porto e Lázara Caetano Porto.

 

P/1 – O senhor conheceu seus avós?

 

R – Conheci os paternos e a avó materna.

 

P/1 – O senhor se lembra do nome deles?

 

R – Domingos Barbosa Porto, Amélia Teixeira dos Santos, Virginia Caetano Rodrigues. O meu avô materno não conheci, mas chamava-se Manoel Rodrigues.

 

P/1 – O senhor sabe se seus avós eram lá mesmo da localidade ou se vieram de outra região?

R – Não tenho essa certeza. Acredito até que sejam de lá, mas não tenho convicção.

 

P/1 – O senhor sabe da atividade que tinham seus avós?

 

R – Agricultores, lavradores e as avós, atividade do lar.

 

P/1 – E seu pai, Sr. Olegário, que atividade ele exercia?

 

R – Além de lavrador, era também carpinteiro e depois estofador.

 

P/1 – Lavrador...

 

R – Agricultor. Aquele que planta milho, feijão, arroz. E também a parte de pecuária, tinha as vacas leiteiras para cuidar.

 

P/1 – Era uma terra própria, a dele?

 

R – Inicialmente, não. Trabalhava em terras dos cunhados, Osório Caetano e Nelson Caetano do Carmo. Posteriormente, ele adquiriu um pequeno sítio, próximo à Vila de Areado, sede do distrito do Chumbo, onde ele executava suas atividades por conta própria.

 

P/1 – Os seus irmãos, Sr. Olegário. Quantos irmãos?

 

R – Tenho oito.

 

P/1 – Inclusive o senhor?

 

R – Mais eu, somos um total de nove. Todos vivos, graças a Deus.

 

P/1 – Como era essa casa onde o senhor vivia na sua infância?

 

R – Olha, era praticamente um isolamento. Eles falam em clausura, era praticamente clausura. Você não tinha conhecimento de nada, não sabia o que era rádio, não sabia o que era eletricidade, você não tinha praticamente conhecimento de nada. O que você tinha que fazer? Era levantar cedo e capinar, cuidar da lavoura, primeiro tirar leite e depois cuidar da lavoura. Esse era o dia a dia. Você não tinha nada em termos de progresso, desenvolvimento. E nem conhecimento, que é o principal. Você não tinha acesso à informação. 

Quem tinha rádio naquela região me parece que era só uma pessoa. Esses rádios eram a bateria. Não tinha uma maneira de utilizar desse meio tão limitado que existia, que era o rádio. E era o mais que a gente tinha. Mesmo a ligação com Patos, com Areado, era feita precariamente, não tinha nem estrada adequada. Embora tivesse tido telefone magneto antes, não era da minha época, mas tinha tido telefone magneto lá em Areado. 

 

P/1 – O senhor seria capaz de descrever a casa da família em Areado?

 

R – Esse sítio que a gente morava chamava-se Macega, fica às margens do Rio Areado. Era uma casa comum de propriedade rural: parede de alvenaria mesmo, telhado comum, sala, para essa quantidade de irmãos não tinha mais do que três quartos, cozinha. Tinha o paiol. Tinha onde você criava porcos, tinha o local para armazenar a safra de milho para poder passar o ano. E um curral anexo, para o trabalho com as vacas e suas crias. Pastagens que a gente sempre cuidava, as lavouras. 

Era um sítio pequeno, de apenas 25 alqueires. E o rio chegava quase na porta da cozinha, marcou a gente. Tinha que ter muito cuidado na época de enchente.

 

P/1 – E o senhor e seus irmãos ajudavam desde pequenos o trabalho do pai?

 

R – Isso foi uma coisa que meu pai ensinou cedo, a gente com menos de sete anos de idade tinha que começar a trabalhar. Ele levava [a gente] para auxiliá-lo na limpeza das lavouras, a tirar leite também. Isso foi uma coisa que ele nos ensinou muito cedo, a trabalhar e enfrentar o batente.

Infelizmente, a escola demorou um pouco porque a localidade não dispunha de estabelecimentos escolares. Eu comecei a estudar [quando] tinha mais de nove anos, fui para o Areado. 

Minha professora primeira chamava-se dona Odete. Foi pouco tempo. O segundo professor, ainda no Areado, foi o professor Armando, ficou acredito que não mais do que três meses. Vê a dificuldade, não tinha sequência. Você começava com um, ia para outro. Escola diferente, escola particular. 

Esse professor Armando mudou ainda para o distrito do Chumbo, uma localidade chamada Arrependido. Nós fomos para lá. Eu tive que sair de casa. Enquanto você estava no Areado, você tinha condição de ir e voltar. Eu tive que ficar na residência de uma família, nas proximidades, hoje chamada Firmes, próximo a Firmes. Nós ficamos na residência desse pessoal algum tempo que eu não consigo precisar, mais que três meses ou não. O fato é que você tinha que sair de casa para estudar, porque a vila não dispunha de um estabelecimento. 

Terminado o período desse professor lá, voltamos para a roça novamente. Meu pai falou: “Você tem que continuar os estudos, aqui não pode ficar.” 

Abriu-se uma escola próximo a Areado, onde tem uma jazida de mármore. A denominação do lugar é Brotas, na casa do Sr. João Cota; [o] professor era Antonio Felisbino. Lá que nós aprendemos, inclusive, a tabuada, foi lá. Ele tinha um método diferente de ensinar para a gente: tinha umas mangas de criar porco numa capoeira, você subia nas árvores e aprendia cantando. E fixava muito bem isso. E ai daquele que não aprendesse, porque tinha uma tal de palmatória que Deus me livre. Quem não aprendesse era castigado, um método bastante rústico, mas que funcionava. A gente ficava até com pena. Felizmente eu não levei não, mas alguém que levava a palmatória na mão a gente ficava até com pena. Não era preguiça porque não estudou, é porque não teve condições de memorizar, mas era um método da época e você tinha que aceitar. 

Essa escola não durou muito tempo, não. Acabou. Que coisa, transa para um, transa para outro, você ainda vai tentar mais uma escola rural. Fui para uma localidade chamada Mata dos Fernandes; [o] professor [se chamava] José Oliveira. Se os outros eram bravos, os Oliveiras eram piores ainda. Eu fiquei na casa dele. Felizmente, eu passei bem. Ele tinha um livro chamado Manuscrito, era um livro realmente manuscrito, acho que eu o decorei do princípio ao fim; lia tantas vezes, mas consegui aprender, principalmente matemática eu aprendi com ele. Aí meu pai falou: “Está difícil. Nós vamos te levar para Patos, você vai ter que estudar lá e depois você vai ter que nos ajudar com os irmãos, pra ver se a gente consegue dar um pouco de instrução para cada um.” Então nós fomos para a escola. 

Em três de março de 1948, a primeira vez que eu fui a Patos, eu já fui para ficar na escola, na Escola Madalena Maria de Mello. Ela me colocou no terceiro [ano], tive que fazer com ela o terceiro e o quarto ano. Saí muito bem, graças a Deus não tive problema. Depois fui para a Escola Normal, oficial de Patos de Minas, onde nós fizemos quatro séries. Lá nós concluímos o curso ginasial. 

[Após] dois anos que eu fui para Patos, o meu pai falou: “Aqui na roça, com essa quantidade de filho, não dá para ficar, não. O principal que a gente tem que deixar para vocês é um pouco de instrução, nós vamos mudar para Patos.” Vendeu o sítio e toda a família foi para Patos, em 1951. Evidentemente que estando lá, todos começaram a estudar. 

A gente fica feliz com isso, Luís, porque graças a esse esforço dele e da minha mãe, eles conseguiram educar os filhos. Eu fiz um dos cursos mais simples, que é Contabilidade, mas tem professores; tem engenheiro, que mora em Foz de Iguaçu, tem 22 anos que ele mora lá, engenheiro na Binacional, em Itaipu; outros que são contadores; dois que moram em Brasília; só três que não fizeram. Todos procuraram ter o básico para se viver. Essa mudança da Macega, do Areado para Patos, foi proveitosa. Perdeu-se um patrimônio material, mas ganhou-se outros.

 

P/1 – Voltando um pouquinho para trás, eu queria que o senhor primeiro me dissesse o seguinte: antes de sair pelas escolas, como essas crianças se divertiam? Que tipo de brincadeira vocês faziam?

 

R – Como eu te falei, não tinha informação nenhuma, mas naturalmente no final de semana a gente tinha o que fazer. E qual era nossa diversão? Como o rio passava próximo, você tinha que ir para o rio, com os outros amigos. Ia aprender a nadar, brincar com água. Tinha uma outra coisa que a gente fazia com muita frequência, carrinhos de mão. Você fazia o papel de boi mesmo. Você, com os colegas, fazia uma junta de bois. Duas juntas, três juntas. Que você ia fazer com isso? Buscar lenha no mato. E saía distante para fazer isso. Era um sistema de diversão, você não tinha lazer. Isso, para nós, era uma forma de lazer.

 

P/1 – Outra coisa que eu queria dessa fase anterior: como o garoto Olegário se acostumava com esse muda pra lá, muda pra cá, sai da saia da mãe, sai dos amigos, da casa. Como era isso para o senhor?

 

R – Não era fácil, não. O apego aos pais é grande demais. Quando eu fui para Patos, sinceramente, logo passados uns quinze, vinte dias, o desejo era de retornar. Queria ficar na zona rural, mas meu pai insistiu e falou: “Não, você vai ficar é lá. Você vai ter que aprender um pouco, não vai voltar de jeito nenhum.” Foi muito bom, volto a repetir; não só eu fiquei, mas como toda a família foi para Patos.

 

P/1 – Para finalizar essa fase anterior, só mais um detalhe, com relação às suas responsabilidades. Já que todo mundo ajudava o pai, quais as primeiras funções que o senhor teve e como isso foi se desenvolvendo com o passar do tempo, lá junto ao pai?

 

R – Meu pai era uma pessoa muito austera e não delegava nada pra gente, não, ele que resolvia tudo. O que ele determinava tinha que fazer, era realmente autoritário. Normalmente, essa questão de senso de responsabilidade, suas atribuições, se procurava exercer alguma coisa. Você tem que fechar o gado, sabe o horário que tem que fazer, então você fazia. Você sabia que tinha que fazer, ele determinava. 

Ele era dessas pessoas que se olhasse para a gente, a gente já sabia o que ele queria; era austero, realmente. A pessoa mais boazinha era minha mãe mesmo, ela era mais tranquila, mais amena, não tinha problema. Mas com ele, ele riscava, tinha que cumprir o que ele determinava.

 

P/1 – O que é fechar o gado?

 

R – Fechar. Você tinha o horário de apartar: chegaram [as] três horas, você tem que reunir as vacas paridas e separar dos bezerros, deixar os bezerros no curral, numa manga e soltar as vacas no pasto. No dia seguinte, fazia a ordenha. Era pouca vaca, muito pouca. O sítio era pequeno.

 

P/1 – A que horas vocês acordavam?

 

R – Acordava muito cedo, era de madrugada mesmo, não só para o trabalho na lavoura mas também para ordenhar. Tinha mais um detalhe: nesse trabalho manual, nós vínhamos trabalhar numa localidade chamada Posses do Chumbo, mais precisamente no Capoeirão. Fica distante de Passos, aí você tinha que levantar muito cedo, [às] quatro horas da manhã você tinha que sair, a pé. 

Esse tipo de atividade, o que era? Era chamado de troca de dia. Você ia ganhando esses dias, depois era o mutirão. Você ia para uma determinada pessoa depois fazer o mutirão para você. Era um sistema que funcionava na região, ganhar dia. Você acumulava e depois a marca: [a] sua vai ser dia tal. Aí você reunia quinze, vinte pessoas trabalhando para carpir uma lavoura, por exemplo. Você reunia a turma toda e fazia num dia só.

 

P/1 – Quando ia para longe da casa como as refeições chegavam, como vocês comiam?

 

R – No local, forneciam refeição. Naquela escola que eu falei… Você falou em refeições, foi interessante, estava esquecendo de mencionar isso. A comida era levada pronta, você tinha que levar nessas panelinhas de ferro e lá você dava um jeito de aquecer ou então comia fria mesmo. 

Era uma retona de menino a fazer poeira no caminho. E numa dessas idas, já não tinha poeira, tinha chuva. Numa passagem lá num córrego, chamado Córrego do Arroz, eu e meu irmão… Quase foi um acidente passar numa dessas pinguelas. O Córrego do Arroz estava cheio, nós fomos passar nessa pinguela; felizmente não houve nada, mas se houvesse uma queda, era uma vez... Não escapava ninguém. Era um córrego de muita correnteza, não sabia nadar, como de fato não sei até hoje. Não aprendi a nadar. 

 

P/1 – Fora o gado, nesse sítio de seu pai, o que ele cultivava?

 

R – Milho, feijão e arroz. Era cultura básica.

 

P/1 – De subsistência?

 

R – De subsistência. Havia uma pequena sobra e em 47 a gente levava aquilo que sobrava para vender em Lagoa Formosa. Tinha que levar de carro de boi. Outra atividade que a gente tinha [era] buscar aguardente no Carmo do Paranaíba, num lugar chamado Cabana. Várias viagens nós empreendemos lá. Eu era o candeeiro, o guia de boi. Várias viagens nós fizemos, inclusive com pernoites no caminho.

 

P/1 – Quanto tempo durava isso?

 

R – Essa viagem? Dois dias.

 

P/1 – Como o senhor descreveria essa tropa indo para lá, o senhor, o seu pai e mais quem?

 

R – Era uma atividade até divertida, a gente gostava de fazer aquilo. Você pernoitava no caminho; você chegava e tinha que soltar os bois, dormia debaixo do carro, às vezes você conseguia algum barracão. Nessas viagens para Cabana, tinha um local de pouso que a gente dormia num barracão de engenho - para Lagoa Formosa era no relento mesmo. 

De madrugada, a gente tinha que marcar uma estrela que aparece de manhã, chamava de Estrela D’Alva - deve chamar até hoje, não mudou nada. Ela era o nosso guia, o orientador, era o norte. Mas para Cabana a gente tinha um ponto de descanso na noite. 

 

P/1 – Levava comida para fazer?

 

R – Fazia durante a viagem, levava comida. Você tinha os mantimentos, você tinha já de acordo com a duração da viagem. [Quando] chegava no pouso você tinha que fazer o seu jantar. Saía de manhã, já almoçava, depois lá você fazia o jantar.

 

P/1 – Qual era o cardápio?

 

R – Cardápio era geralmente o feijão e o arroz, que predomina, e carne seca. Era isso. Não tinha nem verdura, nem frutas, nada disso. Basicamente, era isso.

 

P/2 – Vocês buscavam cachaça para vender?

 

R – Era para o comércio em Areado. A gente ia buscar e fornecia para os comerciantes de lá. Já ia sob encomenda. Trazia essa mercadoria e entregava para eles lá.

 

P/1 – Pra não voltar vazio?

 

R – Não, isso já ia especificamente buscar na Cabana, ia especificamente para buscar. Lá em Lagoa Formosa tinha algum retorno, mas era pouca coisa. Principalmente o feijão, que você levava para lá e trazia alguma coisa que era necessário para a localidade. Tinha encomenda e você trazia.

 

P/1 – O senhor se referiu dessa intenção de seu pai de criar condições de dar estudo para os filhos, aí finalmente mudaram-se para Patos de Minas. Embora o senhor tenha dito que não gostou, que queria voltar, como era a cidade? Como era isso aos olhos daquele garoto que chegou lá?

 

R – Para mim foi uma curiosidade enorme que a gente tinha de conhecer, finalmente chegou aquele dia que a gente pôde conhecer. Gostava demais da cidade, era uma cidade que oferecia condições mínimas para a gente viver. A energia que não era muito boa, era uma usina própria; depois, quando a população foi aumentando, a energia ficou escassa, até que a Cemig entrou para resolver de vez o problema. Mas era uma cidade gostosa para se viver. 

Passamos a conhecer grande parte das pessoas, fizemos amigos. Era uma cidade de mais de vinte mil habitantes; nosso círculo de amizades, apesar de ter [se] ampliado, com relação à população era muito pequeno, mas era o suficiente para que a gente pudesse levar uma vida normal.

 

P/1 – A família foi morar onde?

 

R – Inicialmente na Rua Padre Caldeira, nº 33, depois na rua hoje chamada Santo André, nº 70. Mas inicialmente nossa primeira moradia é onde passa a [Rua] Major Gote, cruzamento da Major Gote com [a Rua] Jaime Ramos, próximo à faculdade; foi numa casa alugada. Logo em seguida meu pai comprou essa na Rua Padre Caldeira, 33. Nós mudamos para lá, depois ele vendeu essa casa e comprou no bairro São Francisco, na Rua Santo André e lá nós ficamos até quando me casei.

 

P/1 – E a atividade do seu pai, que havia deixado o campo, passou a ser a carpintaria?

 

R – Exato. Deixou a parte de agricultura e a pecuária, embora de pequeníssimo porte, mas trabalhando de carpinteiro. Depois eu e meu irmão montamos uma oficina de estofador, aí [ele] foi trabalhar conosco. Ele exercia lá também a carpintaria, tem a carpintaria lá também. A principal atividade dele era a carpintaria no estofamento.

 

P/1 – O senhor não se encantou pela carpintaria, não?

 

R – Não, porque logo tinha a necessidade de começar a trabalhar e fui logo para as comunicações. Praticamente depois da zona rural fui para as comunicações, trabalhando em radiodifusão.

 

P/1 – Como foi essa transição?

 

R – Pra mim foi muito bom. Eu encontrei o que eu gostaria de fazer. 

Um mês antes eu fui substituir um oficial de justiça, antes de entrar na rádio - isso em 51. Trabalhei um mês e fiquei muito insatisfeito, não gostei. Um mês passou rápido. 

Porque não gostei? Como eu te falei, eu não sabia nadar e não sei até hoje. Foi um ano de grandes enchentes e tinha uma missão para cumprir numa localidade chamada Porto das Posses. Tinha que passar numa canoa. “Não animo de passar não, não vou não. Arranja outra viagem para mim.” Felizmente apareceu outra viagem lá para o distrito do Chumbo, [para] uma localidade chamada Palmital, próximo a Vertente. “Essa eu vou.” Debaixo de chuva, mas fui para lá; não tinha que atravessar rio, não tinha perigo. Então felizmente esses trinta dias passaram logo e consegui o ingresso na Rádio Clube. 

 

P/1 – Como foi essa vocação para o rádio?

 

R – Eu me adaptei logo, gostei. Comecei a trabalhar como técnico de som em primeiro de fevereiro de 1952; logo, logo acharam que eu tinha alguma qualidade para ser locutor, fui para locução também. Então fazia técnico de som, locução e depois “tem fatura pra você receber”, você vai receber também. Era cobrador.

 

P/1 – Como era o nome da rádio?

 

R – Rádio Clube de Patos. 

Terminei o ginásio em dezembro de 1953; lá não tinha outra escola, eu teria que sair. Eu não tinha condições de sair, mas em 56 a Dona Maria da Penha Olivieri montou a Escola Técnica de Comércio Pio XII. Devo ter sido um dos primeiros a me matricular. Não podia ficar parado. 

Terminei o curso de Contabilidade; fui da primeira turma, 56-57-58. E com essa formatura, registrando o diploma, a rádio logo me aproveitou. “Você vai fazer a contabilidade para nós.” Alguém falou: “Você está louco, você está terminando o curso agora e vai fazer a contabilidade de uma S.A.” “Um dia eu não tenho que começar? Então vou começar agora, a oportunidade surgiu. Se eu deixar para amanhã, pode aparecer um outro e eu ficar sem.” 

Felizmente eu fui muito bem, não teve problema. Tinha um professor que me dava assessoria, correu tudo tranquilo. Em seguida comecei com a escrita da Rádio Clube de Patos. 

Em 61, o que era gerente da Rádio Clube de Patos, era gerente da Telefônica de Patos de Minas S.A. [disse]: “Nós estamos precisando de um contador lá, você vai trabalhar conosco lá.” Em junho de 1961 eu comecei na Telefônica Patos de Minas, já como contador. Aí eu tinha um respaldo muito bom, que era uma assessoria de um escritório de Belo Horizonte, o escritório Serra. Praticamente todo mês a gente tinha que ir para Belo Horizonte para levar o balanço e eles fazerem uma análise. Era um sacrifício bastante grande, mas que valeu a pena, foi um aprendizado para a gente. Ainda não tinha as estradas de terra, logo construíram... Paralelamente estavam construindo a BR-040, então tínhamos que ir 130 quilômetros de estrada de terra. 

A gente tinha que andar, mas foi bom. Foi muito valioso, apesar de trabalhoso. Foi um aprendizado que realmente a gente teve. E uma segurança no trabalho.

 

P/1 – Você chegou a apresentar algum programa de rádio?

 

R – Apresentava. Todo domingo tinha o programa de rádio que a gente apresentava, era o Formigão. Era um padre que cuidava da Vila dos Meninos, Padre Tomás; ele tinha o programa dele e eu era o animador do programa. [Tinha] apresentação de duplas caipiras. O programa tinha a finalidade de angariar auxílios para a Vila dos Meninos. Foi um programa muito bem-sucedido, ele era hilariante, brincava muito. Ele era um autêntico animador de programa e nós participávamos como locutor comercial. Depois, em 61, ele deixou a rádio. Nós tocamos esse programa. 

Um detalhe: em 56, quando ele foi convidado para celebrar uma missa em Bom Sucesso - que era um distrito de Patos, na época era distrito do Chumbo ainda - nós ficamos fazendo o programa e ele lá celebrando essa missa, participando de uma Festa do Milho, promovido por professoras da localidade - essa festa que deu origem à Festa do Milho. E nós fomos, consequentemente, sem nenhuma pretensão, sem saber o que ia acontecer, os primeiros divulgadores da Festa do Milho. Nós tivemos a oportunidade de receber uma homenagem do sindicato rural por essa participação, contribuição para a festa. Despretensiosamente, nós demos uma contribuição para a Festa do Milho.

 

P/1 – O senhor, ao final das contas, deve ter se tornado uma pessoa muito popular em Patos de Minas, com essa sua participação na rádio.

 

R – Não tenho dúvida que isso contribuiu para que eu me tornasse conhecido. O meio de divulgação que se tinha na época era o rádio. E hoje ainda continua sendo um dos mais eficientes meios de comunicação. Diferente da televisão, que além do som tem a imagem. Isso faz a grande diferença. Não tenho dúvida que essa participação na radiodifusão nos deixou bem conhecidos e tínhamos a oportunidade, através desse conhecimento, desse contato com a sociedade, de exercer outras funções no legislativo de Patos de Minas.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Sendo eleito vereador durante quatro legislaturas.

 

P/1 – Você entrou para a política?

 

R – Militante na política também.

 

P/1 – Que partido?

 

R – Na ocasião era UDN, depois foi Arena - Arena 1, Arena 2. Segui a Arena 1, depois criou-se o PFL, até hoje. Exerci o mandato [de vereador] de 62 até o final de 1975, quatro legislaturas. Dois mandatos, de 62 a 69, depois um mandato tampão de dois anos, 70-71 e o último mandato, que foi o de 72-73-74-75; foi o último que eu participei como vereador do legislativo. Foi até o ano que o Presidente Geisel esteve em Patos de Minas para inaugurar a Usina da Fosfértil. 

A gente continua militando ainda, mas não disputando cargo eletivo. No último governo, nós fomos convidados por ele [para atuar] como superintendente do Instituto Municipal de Previdência. Nós ficamos quatro anos com ele lá, mas com a mudança do comando político, nós deixamos. Era cargo de confiança. O prefeito [era] Emílio Alves do Nascimento.

 

P/1 – Vou fazer uma pergunta para o senhor sobre telefonia. Foi em Patos que o senhor viu pela primeira vez um telefone? 

 

R – Areado teve o telefone magneto, bem antes. Deve ter sido na época de 1920, então nem nascido na era. Mas conhecer telefone, foi realmente em Patos de Minas. A telefônica foi inaugurada em trinta de outubro de 1954. Foi nessa época que a gente passou a conhecer o telefone.

 

P/1 – A Tepamisa?

 

R – A Tepamisa, Telefônica de Patos de Minas S.A.

 

P/1 –  Ela foi criada quase concomitante à criação da CTBC aqui.

 

R – Foi, aqui foi um pouco antes, mas a organização começou em 52, me parece.

[Eram] 182 acionistas. As pessoas representativas da sociedade se reuniram e, vendo a necessidade de ter um sistema de comunicação, organizaram uma sociedade anônima, cada um com x cotas, formando-se um capital, me parece que de 250 mil cruzeiros na ocasião. Criada essa sociedade, as fases subsequentes para que a telefonia local fosse implantada. Conseguiram um terreno onde [a empresa fica] hoje ainda, anexa ao Fórum do Município, e a aquisição de equipamento. 

O equipamento não tinha nacional, era importado, era um sistema automático. Era a Ericsson que fornecia esse equipamento. Gastou realmente muito tempo para que esse equipamento chegasse a Patos. Aliás, isso demorou muitos anos porque, com uma segunda ampliação, acho que demorou mais tempo ainda. Mas o fato é que chegou, esse equipamento foi instalado, a rede foi construída. Foram instalados quinhentos terminais automáticos. 

Aqueles 182 acionistas tinham direito a um telefone. E o restante fazia o quê? O prédio já estava pequeno, mais de dois pavimentos já estavam construídos, o equipamento instalado, rede pronta. Você tinha que instalar os telefones de qualquer forma, tinha que dar um jeito de instalar, mas não se vendia telefone. Estava num sistema que é hoje, o sistema de contrato. Era chamado de Contrato de Prazo Determinado. Com isso, a capacidade da central foi logo se esgotando aos poucos.

A demanda por telefone era realmente grande, o pessoal tinha interesse. Até que veio uma segunda ampliação, isso já foi em 59 -  pelo menos o início da ampliação, já havia necessidade de ampliação. Mas o equipamento chegou lá em 1962 ou início de 63. Os outros quinhentos terminais foram ativados no final do ano de 1963, aí já não era mais através de ações. Quem tinha ações podia subscrever mais, eram chamadas de partes beneficiárias. Era uma maneira de você captar capital, mas sem entregar ações. Parte beneficiária, um bônus. Sem direito a votos, mas participava do empreendimento.

 

P/1 – Como foi esse desafio para esse jovem contabilista ingressar numa área que aparentemente, pelo que eu pude perceber, era absolutamente estranha para o senhor?

 

R – Realmente, era totalmente estranho. Mas a gente procurou, durante o curso, aprender o máximo. Além disso, o nosso professor de contabilidade era um amigo da gente, ele dava uma assessoria. Tinha um respaldo dele. Antes, a gente procurava orientação com ele e durante muito tempo, o professor Deodato Rodrigues de Oliveira… Gostaria aqui de mencionar o nome dele. É um amigo da gente, foi um professor, mas antes de professor foi um amigo também. Foi um orientador da gente, me deu esse suporte para que eu pudesse exercer essa atividade de contabilista com bastante confiança. Tive a felicidade de não ver as firmas para as quais trabalhava multadas; sempre o serviço tinha aprovação. 

Além da Rádio Clube de Patos, da Telefônica de Patos de Minas, tinha outras escritas também. Hoje vou citar a Imperatriz dos Calçados, uma empresa que nós organizamos. Essa empresa está lá até hoje, o Palácio dos Calçados. Além da firma Irmãos Caetano do qual eu fazia parte, Irmãos Motta, essa firma [era] lá de Pindaíbas. Aliás, essa firma [em] uma ocasião, levando mercadoria para São Paulo, foi pega na estrada, teve um vacilo, também foi a única. E escritas fiscais, que chamavam [as] que não eram escrita regular, de Lagamar, de Presidente Olegário, de Andrequicé fazia escritas para esse pessoal, mas eles iam lá porque eu não tinha como sair. 

 

P/1 – Nesse meio tempo, a carpintaria e a estofaria continuavam em atividade?

 

R – Continuava e continua até hoje, só que não sou sócio mais. Continua em atividade. Meu pai, infelizmente, veio a falecer em 83, mas na atividade.

 

P/1 – Nesse processo de expansão da Tepamisa, ao qual o senhor se referiu, como o senhor gerenciava contabilmente esses ingressos? Como é que a companhia conseguia captar recursos para poder financiar a sua expansão? 

 

R – Como eu já mencionei, foi a venda de partes beneficiárias. Tinha a lista daqueles que queriam telefone. Na época, ia custar 25 mil cruzeiros.

 

P/1 – Era caro, era barato?

 

R – Era o preço da época, acho que era bastante dinheiro. Não pagavam de uma vez aqueles que não tinham recursos, era parcelado. Com isso, formou-se um capital para a aquisição de equipamento e expansão da rede. Quem era acionista tinha direito a um determinado número de ações, mas contribuía com uma certa quantia em capital e tinha direito a um telefone. A um telefone, não importava…

Tinha o acionista maior, os maiores acionistas. Quem foram os idealizadores? Abineri Afonso de Castro, Benedito de Mello Amorim, Bernardino Correa Júnior, Genésio Garcia Rosa, Mário Garcia Rosa, José Roriz da Costa. Seu Abineri e ele foram os principais idealizadores da telefônica. Eles tiveram que subscrever mais ações. Cada uma ação dava direito a um telefone, mas o capital tinha que ser 250 mil, eles tiveram que subscrever a diferença. Miguel Salatti... Mas eles só tinham direito a um telefone, quem tinha mais capital não tinha direito a mais telefone não. 

Eu ainda não estava na contabilidade. [A empresa] começou em 59, eu só comecei em junho de 61, mas já estava tudo contabilizado. Esses recursos foram contabilizados, eles iam recebendo e também saldando os compromissos com a Ericsson e com os fornecedores, de modo geral. Além disso, tinha o faturamento das mensalidades, as mensalidades eram reduzidas e era difícil você conseguir um reajuste de mensalidade. Quem autorizava? Era o município, era a Câmara de Vereadores; era muito difícil. O vereador geralmente quer ser muito cauteloso e geralmente o é, analisava primeiro as consequências políticas daquele ato dele. Isso foi muito difícil para as empresas sobreviverem, limitavam a atuação delas até que a política passou a nível nacional, aí mudou tudo. 

Era uma atividade normal dentro da contabilidade: você apresentava os balanços normalmente, evidentemente que respeitando a época, as devidas proporções.

 

P/1 – O que diziam dos serviços prestados pela Tepamisa?

 

R – Olha, era um serviço bom. [De] poucos recursos, mas era um serviço que correspondia à expectativa do usuário. O que nunca foi aceitável foi a ausência de interurbano - não tinha interurbano. Ela foi inaugurada em 54; nós só fomos ter telefone treze anos depois, em maio de 1967. É verdade que antes funcionou, precariamente, na década de 20, mas não era com os grandes centros. Era ligado com o Carmo do Paranaíba, com Areado. Era uma comunicação domiciliar, mas era o que tinha na época. 

 

P/1 – Como foi a transição da Tepamisa e a então nascente CTBC?

 

R – Consequência principalmente da falta do interurbano. Esse era o grande desafio da diretoria da Telefônica de Patos de Minas, presidida pelo Dr. Herbert Hengler, que era o principal acionista. A população reclamava e com razão - aquele isolamento não era mais permitido, inibia inclusive alguns investimentos lá. Dr. Herbert se empenhou ao máximo para que a cidade fosse interligada na CTMG – Companhia Telefônica de Minas Gerais, mas infelizmente não teve sucesso. Após várias negociações, ele vislumbrou uma possibilidade de ligar a um circuito a Araxá. Existe até hoje uma casinha pequena que nós fizemos para abrigar o equipamento, mas deu em nada, não conseguimos. 

Foram tantas as tentativas que o Dr. Herbert fez e tantas as reclamações. “O que eu posso fazer é procurar uma empresa bem-estruturada que possa fazer esse trabalho.” E nós temos um exemplo aqui perto, que é o Grupo Garcia - chamavam de Grupo Garcia: Sr. Alexandrino, Dr. Luís, Sr. Walter. 

As negociações foram implementadas, concluídas no final de 1966, com a CTBC. Então a história da CTBC em Patos de Minas efetivamente começa em janeiro de 1967, quando nós tínhamos lá somente esses mil terminais que eu te falei e 22 quilômetros de linhas físicas ligando Patos a Lagoa Formosa, onde funcionava um circuito e uma mesa semiautomática com cinquenta telefones, beneficiando as populações das duas comunidades.

 

P/1 – Como era, desde o ponto de vista de quem estava trabalhando em Patos, enxergar essa empresa que estava começando a se estruturar? Como pra Tepamisa era avaliado o nascimento de uma CTBC a alguns quilômetros de distância?

 

R – O ingresso da CTBC em Patos foi recebido com bons olhos. O ingresso dela foi muito positivo, porque já tinha experiência. Apesar da empresa contar com apenas treze anos, ela tinha dado mostras que estava estruturada, tinha condições técnicas, financeiras e administrativas para implantar o serviço telefônico interurbano lá em Patos de Minas. Era o grande desafio da CTBC, solucionar esse problema do interurbano de Patos e região. 

Demorou um certo tempo, porque é um projeto não muito pequeno, partes burocráticas. Ela ingressou em janeiro de 67 e o telefone foi inaugurado em maio de 1968. Foi estabelecida a rota Patos-Uberlândia com 24 canais, era um sistema via rádio. Com isso, de vez foi eliminado esse vazio, esse isolamento que Patos e região viviam. 

 

P/1 – Quem foi o interlocutor dessa negociação por parte da CTBC?

 

R – Por parte da CTBC foi diretamente com o Sr. Alexandrino e o Dr. Luis e da parte da Tepamisa foi o Dr. Herbert Hengler, que era o diretor-presidente.

 

P/1 – Qual foi a primeira lembrança que o senhor tem do Sr. Alexandrino?

 

R – De um homem arrojado; não diria aventureiro, mas de um homem determinado a executar obras. Na verdade, o desejo dele era de executar obras o mais rápido possível, não só em Patos; imediatamente onde a CTBC entrava era a expansão, o negócio alastrava. 

Tinha um fator que auxiliou bastante, não só pela experiência dela. A região [estava] isolada, os prefeitos correram; aquela proposta que a CTBC tinha de desenvolver as comunicações encontrou eco imediato. A primeira cidade foi Vazante; o prefeito era Gustavo Soles Rosa, hoje reside aqui em Uberlândia. Paralelamente, em Presidente Olegário, não tinha nada de telefone, era totalmente isolado, [o processo foi feito] através do prefeito Natal José Fernandes. [Em] Lagoa Formosa, [pelo] prefeito João Gomes Carneiro - apesar de ter uma semiautomática de cinquenta linhas, não tinha interurbano. [Em] Carmo do Paranaíba - foi tudo paralelo - [foi o] prefeito José Queiroz, tinha cem terminais e uma mesa semiautomática. [Em] Rio Paranaíba, que é um pouco mais distante, nada de telefonia, nem local nem interurbano. Esse pessoal se interessou tanto em aderir a proposta da CTBC. 

Enquanto se executava a rota Patos-Uberlândia, o serviço era melhorado também nessas localidades que eu mencionei. Isso foi numa fase inicial, porque não ficou limitado a isso. Mais tarde outras cidades surgiram; também na proposta [havia] Cruzeiro de Fortaleza, mais tarde Lagamar, nós tentamos mas não conseguimos sucesso com São Gonçalo do Abaeté, Arapuá, Patrocínio: esses três não conseguimos, mas a região inteira praticamente integrou-se à CTBC e viu com bons olhos a presença dela lá. Sabia que tinha alguém, uma empresa bem-estruturada e que tinha tudo para resolver o problema das comunicações, não só naquela época. Sabia que ela iria atender as necessidades de cada comunidade, ia contribuir de uma maneira decisiva para o progresso dessas localidades, como de fato contribuiu e hoje é um exemplo excepcional em termos de comunicações.

 

P/1 – O senhor chegou a conviver com o Sr. Alexandrino?

 

R – Muito tempo.

 

P/1 – Que impressões o senhor traz dele, fora essas que o senhor já mencionou? Como ele era?

 

R – Era um homem comum, simples, amigo da gente. Não era um empresário muito exigente, nada disso. Ele era exigente no trabalho, isso ele era. A convivência com ele foi muito boa, foi proveitosa. 

O Sr. Alexandrino viveu à nossa frente no tempo, do empresário comum. Ele já enxergava o futuro com muito otimismo; era um homem determinado, tinha uma visão administrativa excepcional. Ele soube aproveitar esses momentos. Era uma pessoa de decisão rápida, corajoso, tanto assim que construiu esse império que é isso hoje, essa grandiosa CTBC, que se tornou a maior empresa privada do país no setor das telecomunicações. Acho que o Sr. Alexandrino, na nossa concepção, foi um grande vitorioso, deixou a marca de sua administração positiva em todos os setores que atuou. Realmente foi um exemplo, além de ter sido um pioneiro. Foi um bandeirante das telecomunicações, no bom sentido.

 

P/1 – O senhor tem algum episódio da sua convivência com ele que tenha lhe marcado a memória?

 

R – Aliás, não saiu da memória. Coisa muito simples e também hilariante, mas como nós estamos numa conversa bastante informal eu poderia até comentar. Essa ida para Vazante, na primeira viagem dele lá. Quando estávamos chegando em Lagamar - ele usava sempre uma Veraneio -, eis que surge na estrada uma cobra. “Para, para, vamos ver se a gente consegue matar essa cobra.” Tivemos que correr atrás desse réptil até conseguir, e conseguimos matar. Ele dizia que aquela cobra poderia causar mal a alguém, a outro animal. Isso me marcou, uma coisa simples, mas que me marcou muito. Um outro fato foi lá em Ibiá, quando a gente estava explorando o serviço lá e a Telemig entrando até a concessão vencer. Estava terminando, substituindo; nós temos que atuar, não podemos ficar de braços cruzados. [Ele disse:] “Calma: boi em terra alheia berra como vaca.” Ele sabia onde entrar.

 

P/1 – Como foi a sua transição da Tepamisa para a CTBC? O senhor se manteve no mesmo cargo, foi absorvido dentro da nova estrutura? Como isso se deu na época?

 

R – Eu procurei me precaver. Houve um concurso para fiscal do estado; logrei bom resultado. Mas nessa viagem que a gente fez com o  Sr. Alexandrino lá em Vazante, para assinar o contrato para a implantação do serviço, cujo prefeito era Gustavo Soles Rosa, no retorno nós passamos em Presidente Olegário, visitando o prefeito Natal José Fernandes. O prefeito veio me cumprimentar pela promoção que a gente teve - ia ser funcionário estadual, fiscal de rendas. O Sr. Alexandrino falou logo, logo: “Olegário, você não tem personalidade para ser fiscal de renda não, nós precisamos do senhor, o senhor vai ficar conosco.” “Sr. Alexandrino, se o senhor vê dessa forma, eu, com maior prazer, vou continuar com vocês. Na verdade, o senhor acertou, acho que a coisa mais difícil que eu faria na vida seria ser fiscal, mas por circunstâncias eu teria que ir.” 

De início, não falou comigo nenhuma vez que eu teria que deixar - pelo contrário, teria que continuar. E continuei com eles até início de 1990. Ainda continuei um ano, exercendo uma assessoria para eles lá, [de] maneira que eu sou muito grato a eles porque enxergaram alguma coisa positiva na gente. Contando com o apoio deles, com o apoio dos funcionários, com o apoio do pessoal técnico de Uberlândia e do administrativo, não foi difícil essa tarefa. Nós conseguimos executar todas as etapas, tudo aquilo que era projetado pela CTBC.

 

P/1 – Esse momento em que o senhor já estava efetivamente integrado à CTBC, a partir daí passa a um processo de expansão muito acentuada dos serviços. Parece que a empresa queria ocupar o seu espaço o máximo possível, em vista da estatização que estava desenhada no horizonte.

 

R – Realmente o trabalho foi muito intenso, com essas implantações e expansões. Numa cidade desprovida, uma região desprovida de comunicações, nós tivemos que... Como eu falei, tivemos que implantar em Vazante, em Presidente Olegário, Rio Paranaíba, Cruzeiro de Fortaleza, Lagamar, Lagoa Grande, isso para ficar no alto Paranaíba. Ainda tem Ibiá, Campos Altos. Depois a regional foi ampliada, ela foi contemplada com outras localidades: Campos Altos, Córrego Dantas, que não tinha telefone nem urbano, nem interurbano; Luz, que tinha uma mesa semiautomática; Moema não tinha telefone, lá foi implantado o urbano e o interurbano; Lagoa da Prata, lá tinha uma mesa semi automática com 540 terminais, mas não tinha interurbano; a CTBC colocou com 58 fixos. Ela construiu uma linha física de Carmo do Paranaíba para Pará de Minas, com derivações para Campos Altos, Luz, Córrego Dantas, Moema, para Lagoa da Prata. Tinha uma outra rota que era partindo de Luz para Bambuí e Iguatama, tinha essa de Córrego Dantas que eu já mencionei. Então era uma fase realmente muito intensa de atividades. 

Nós tivemos, nessa região de Luz, a participação efetiva de Neilton, foi construída na época dele e o construtor de rede, o consultor evidentemente era o Sr. Alexandrino, mas o mestre de obras era o Rivalino. Rivalino trabalhou muito anos conosco, tivemos o prazer de conviver com ele muito tempo.

 

P/1 – Sr. Neilton que o senhor mencionou?

 

R – Neilton, a região de Luz era coordenada por ele.

 

P/1 – O sobrenome dele o senhor tem?

 

R – Eu não me lembro da assinatura toda. Neilton é o primeiro nome.

 

P/1 – Como foi esse momento, no tempo da Tepamisa ainda, como foi 1964? O que significou, ou se isso significou alguma coisa no serviço que estava prestando, isso criou alguma insegurança para aquela empresa? Como foi?

 

R – Não chegou a criar nenhum empecilho, acho até que a gente era mal informado. O único meio de comunicação era o rádio e nem sempre se ouvia aqueles noticiários, principalmente A Voz do Brasil. Muita gente condena A Voz do Brasil, pra mim é um dos melhores noticiários que tem, sempre que posso ouço o noticiário A Voz do Brasil, mas até isso a gente não tinha oportunidade de ouvir, para ficar atualizado. O movimento foi recebido até com uma certa surpresa, acho que ninguém esperava que aquilo fosse acontecer. Pra nós, chegou repentinamente. Eclodiu o movimento daqueles, mas consequência nas telecomunicações não houve não. O que trouxe consequências lá foi o Plano Cruzado.

 

P/1 – Nós vamos chegar lá. Eu queria que o senhor falasse a que o senhor atribui o fato da CTBC ter se mantido privada, num momento em que o sistema Telebrás e a estatização estavam com a corda toda, com toda a força.

 

R – Aí vem a característica do Sr. Alexandrino, muito bem auxiliado pelo seu filho Dr. Luis Alberto Garcia. Aquele arrojo, aquela coragem em acreditar no que faz, porque tinha certeza que não estava andando na contramão da história, estava agindo corretamente. Isso impulsionou, deu coragem a ele e ao Dr. Luis para persistirem naquele trabalho de implantar os telefones, implantar e melhorar. Tinha que oferecer serviço de boa qualidade. A população era a maior autoridade, ela que se servia do serviço. Quem quer a empresa A, B ou C? A CTBC está satisfazendo as nossas necessidades. Porque tirá-la daqui? Se tem alguma reclamação essa está próxima a nós, nós temos aonde chegar. Nós não temos que nos dirigir a Belo Horizonte, onde quer que seja para fazer uma reclamação, ela está junto de nós. Isso era altamente favorável à CTBC. Por isso eu acho que o Sr. Alexandrino foi um homem de coragem, persistente. Enquanto estavam tomando outras empresas, vamos seguir.

 

P/1 – O senhor fala dessa teimosia, digamos assim, em ter se mantido privado.

R – Uma sadia teimosia do Sr. Alexandrino. Era um homem corajoso, destemido. Acreditava naquilo que fazia. “Estamos no caminho certo. Estamos correspondendo aos anseios da população.” Sempre melhorava, sempre prestava bons serviços, desde o início. Essa foi a preocupação máxima. 

Ele sempre usava um slogan: “O nosso maior patrimônio é o assinante, trate-o bem.” Disso a gente cuidava com muito carinho. 

As ameaças de desapropriações que estavam ocorrendo por todo lado, principalmente na década de 70, Deus me livre, era demais. “Vamos continuar, estamos no caminho certo. Não podemos ter medo de trabalhar, vamos ser penalizados porque estamos trabalhando? Se for pena estar trabalhando, que venha essa pena!” Ele era um homem realmente corajoso. Acreditava sobretudo no que fazia, enxergava o futuro com muito otimismo, ele enxergava bem à frente do empresário comum.

 

P/1 – Nesse momento de franca expansão, Sr. Alexandrino era a cabeça estrategista e Dr. Luís era a cabeça da linha de frente. Vamos falar um pouco do Dr. Luís. Como foi o seu conhecimento e sua aproximação com ele, que impressões o senhor guarda dele?

 

R – Impressão positiva. Um companheiro, um amigo. Antes de ser um chefe nosso, ele era um amigo da gente. Eu tive o privilégio de recebê-lo em minha casa, ele e sua família. Isso nos honrou demais, esse convívio com o Dr. Luís, também era outro destemido. É uma pessoa que tem qualidades excepcionais, um empresário também de grande visão. Dr. Luís parece que tem o poder de antever o que vai acontecer. Um homem excepcional, ele realmente deu condições administrativas à CTBC, técnicas também para chegar ao ponto que chegou.

 

P/1 – E as suas responsabilidades dentro da empresa, que foram aumentando também com o passar do tempo? Como foi sua trajetória dentro da CTBC, daquele jovem contabilista da Tepamisa até onde o senhor chegou na CTBC. Como foi esse seu caminho?

 

R – Percorrido de maneira natural. Na medida que o serviço ia chegando, a gente ia enfrentando, a gente procurava se adequar, sobretudo sob orientação dos comandantes, o Sr. Alexandrino Garcia e o Dr. Luís. Aí com respaldo técnico e administrativo da sede a gente tinha tranquilidade para remar esse barco. Confesso com sinceridade: eu não achei difícil administrar, conduzir a regional, porque a gente tinha esse respaldo, tinha apoio, a gente fazia com confiança. Isso para nós foi muito gratificante, trabalhar nessa empresa que cresceu tanto e que tinha grandes homens e tem à sua frente.

 

P/1 – O senhor foi convocado ou convidado a assumir a regional?

 

R – Fiquei naturalmente. O convite que surgiu, na verdade, foi o que ocorreu no gabinete do Prefeito Natal José Fernandes, quando ele me cumprimentou pela promoção a fiscal de renda do estado e o Sr. Alexandrino falou: “Você vai ficar, nós precisamos do senhor, o senhor vai ficar conosco.” Eu considerei isso um convite, quase como uma intimação para que eu permanecesse no grupo.

 

P/1 – O senhor permaneceu como contador ainda ou já assumiu a coordenação?

 

R – A coordenação. Era gerente regional. Não sei o nome que deu logo de início, mas era a função de gerente regional. Isso a gente já passou a exercer logo de imediato. Eles foram lá, receberam da Telefônica e já ficamos no comando. Já traçaram mais ou menos o caminho que deveria ser seguido e nós procuramos cumprir aquilo que foi estabelecido.

 

P/1 – E sua equipe, era uma equipe afinada? Que tamanho tinha essa equipe, como ela operava?

 

R – Era uma equipe reduzida, própria da ocasião, não precisava mais. Mas os conhecimentos eram limitados naquela época. Tinha um técnico de computação que cuidava da central, tinha uma equipe de rede com poucos elementos. O serviço era executado todo a pé; não tinha nem um carro para isso, não tinha condição. O escritório [tinha] dois funcionários para emitir fatura e receber. E tinha uma mesa semiautomática que interligava com Lagoa Formosa, então nessa tinha um funcionário contínuo - era o telefonista, na ocasião. Era uma equipe pequena, porém dedicada, consciente das suas responsabilidades, [que] procurou exercer suas funções dentro das limitações de cada um, principalmente levando em consideração a época. Mas o serviço era prestado e era considerado satisfatório, atendia as necessidades da população, até porque era só local a não ser o circuito que interligava com Lagoa Formosa.

 

P/1 – O senhor se referiu ao fato da companhia estar muito próxima do assinante, esse patrimônio. Isso na teoria é muito bonito. Como isso se dava no dia-a-dia? Como a companhia dialogava com o assinante, principalmente numa cidade do porte de Patos de Minas?

 

R – Isso era uma das principais características dela, era dialogar com o assinante e olho no olho. [Se o cliente] tinha alguma reivindicação a fazer, você procurava se inteirar do que realmente ele estava pleiteando. Era um defeito no telefone? Você tinha que corrigir logo, tinha que consertar. [Se] ele queria mudar esse telefone de local, ele ia lá e assinava; não tinha nada por telefone não, ia lá no balcão para poder atender. Normalmente era uma atividade quase rotineira.

 

P/1 – O senhor tinha contato direto com as pessoas?

 

R – Tinha, contato direto. Fazia questão de atender o pessoal. Esse contato direto, eu fazia questão. Nós tivemos também a colaboração da prefeitura - eu gostaria de mencionar isso -, do Prefeito Ataíde Dias Vieira; ele foi o incentivador também para que a CTBC entrasse na região. Ele era inclusive empresário na região de Uberlândia, na área de transportes e tinha uma grande aproximação com o Sr. Alexandrino, com Dr. Luis. Ele exerceu positivamente, no sentido que a CTBC fosse para Patos de Minas. Lá tinha um campo totalmente aberto, tinha um potencial muito bom. Não só Patos como a região inteira, a base da economia era a agricultura, pecuária. É a capital nacional do milho. Hoje nem sei se tem isso mais, porque ________  produz mais milho do que Patos, mas ainda permanece. 

Foi uma pessoa que deu apoio. Inclusive na gestão dele que foi inaugurado o interurbano. Na ocasião, o Sr. Alexandrino estava presente, evidentemente; tinha também a presença do governador - me parece que era Israel Pinheiro - e outras autoridades. O Dr. Luís se encontrava no Japão, em Tóquio. Naquele dia foi estabelecida uma ligação com Tóquio, no qual o prefeito falou. E nas vilas e povoados, foi o pioneiro também. 

Um dia, com Dr. Luis, próximo a Santana, estávamos parados. Eu perguntei: “Dr. Luís, se a prefeitura entrar com __________ nós podemos colocar PS aqui em Santana e em outras vilas e povoados?” “Perfeitamente, você pode iniciar as negociações.” Procurei o prefeito Ataíde Dias Vieira e imediatamente [ele disse]: “Pode comprar os postes, e você mesmo que vai comprar.” A gente adquiriu esses postes, construímos os circuitos para Santana. Logo que chegou em Santana o prefeito de Cruzeiro da Fortaleza, José Milton, falou: “Nós precisamos desse serviço aqui também”, então estendeu o circuito de Santana a Cruzeiro da Fortaleza. Para poder atender Santana era um toque, e para atender Cruzeiro da Fortaleza eram dois toques. Funcionava dessa maneira. Puxamos uma linha também do município de Patos; por interesse do prefeito também, construímos um circuito para Pindaíbas, de Pindaíbas levamos para o Areado, que é a sede do distrito do Chumbo e para Major Porto, que antigamente era Capelinha do Chumbo. Era projeto levar para Bom Sucesso, noventa quilômetros distante de Patos, mas esse infelizmente não deu para levar. Nós instalamos primeiramente um PS em Pindaíba e logo em seguida uma KD, de lá nós instalamos um terminal no Areado e outro em Major Porto, de maneira que naquela região tinha discagem direta entre eles. Para chamar Patos chamava o circuito interurbano, caia na mesa semiautomática porque o serviço era todo através de mesas; DDD e DDI nós só fomos ter em 1978. O fato [é] que as necessidades daquela região leste do município de Patos foram plenamente atendidas e também a parte do oeste, que foi Santana, e veio beneficiar Cruzeiro da Fortaleza.

 

P/1 – Como o senhor poderia avaliar, mesmo que na distância do tempo, o impacto que esse serviço acabou tendo na economia local e microrregional? O telefone hoje é uma coisa tão comum que as pessoas não tem ideia do quanto isso foi capaz de alavancar negócios e serviços. Que avaliação o senhor faz desse impacto havido na época?

 

R – Foi altamente positivo. O comércio local, não só de Patos como da região, tinha dificuldade de se comunicar com os fornecedores, que geralmente se localizavam e ainda se localizam em São Paulo, Belo Horizonte, essa área de Ribeirão Preto, então isso fazia uma falta tremenda. Com a implantação do sistema telefônico, embora não fosse essa maravilha que é hoje, dava para equacionar os problemas, o impacto [foi] altamente positivo. Foi muito bem recebido e contribuiu para o desenvolvimento de Patos e região, seja no aspecto econômico, cultural, social. Foi importante essa implantação desses circuitos interurbanos na região e também o serviço urbano, porque muitas localidades não possuíam. Isso mudou completamente o aspecto da região. 

Através do telefone você aproxima as pessoas; a  maneira mais rápida e mais eficaz de se comunicar é através do telefone. Outros processos estão aí em funcionamento, mas nós estamos enfocando aquela década de 60-70, onde você não tinha a internet, o e-mail… Enfim, estou falando que a discagem direta só foi implantada em março de 78. Aí a euforia foi maior ainda, foi total.

 

P/1 – Nesses contatos que o senhor tinha com os assinantes, com seus clientes, como era capturar esse tipo de sentimento de euforia, de satisfação? O que significava isso para o senhor?

 

R – Era uma realização. Ter certeza que a empresa estava contribuindo com uma parcela significativa para que se realizasse pessoalmente, profissionalmente, trazia para gente motivo de alegria, de realização profissional e pessoal.

 

P/1 – Depois, nessa sua trajetória dentro da CTBC, como o senhor identificava nas pessoas esse sentimento do serviço prestado? O Sr. Alexandrino sempre teve ideia do telefone como um serviço público, isso passa a ser cada vez mais banalizado na cidade. Como o senhor capturava esse sentimento, não mais na relação profissional, mas na rua, na família, na vida social?

 

R – Também de uma maneira positiva, porque o assinante sempre tinha uma confiança muito grande no serviço da CTBC. Ele procurava exteriorizar esse sentimento dele, na medida que você prestava um serviço dentro das suas expectativas. 

A ausência do interurbano criava uma expectativa de insatisfação, uma expectativa de que iria resolver de uma maneira mais eficaz; o serviço tornou-se precário principalmente porque outras cidades passaram a contar com o DDD e o DDI e Patos ficava privado desse serviço - não por vontade da diretoria, Sr Alexandrino, Dr. Luís, mas [por] aqueles entraves burocráticos. A intenção do Ministério era na verdade encampar, encontrou uma barreira difícil de ser transposta, isso foi realmente um muro que encontrou pela frente. E que pretexto tinha? Mau serviço? Não. Prestava serviço à altura do que a sociedade reclamava. Não era melhor? Não era culpa dela. Quem estava prejudicando era o próprio departamento encarregado do setor, no caso o Ministério. Isso deixava a diretoria da CTBC e nós que estávamos agindo, coordenando as atividades, também tranquilos. Fizemos a nossa parte; embora não queiramos ser Pilatos, nós podemos lavar as mãos, estamos trabalhando para arrumar.

 

P/1 – Eu vou lhe fazer uma pergunta óbvia, mas eu queria ter um comentário seu a esse respeito. Porque o senhor acha a companhia tão plenamente identificada com a cidade, com as pessoas, com as comunidades que ela opera?

 

R – Principalmente pela qualidade do serviço que presta, essa maneira de contatar as pessoas. Ela não isola o assinante, até porque é uma empresa de comunicação; ela faz jus a isso, valoriza o assinante. O Sr. Alexandrino já dizia, é nosso maior patrimônio, então ela valoriza o assinante e ele se sente bem em ser contatado, de saber até sua opinião sobre o serviço. Isso atualmente está até muito em uso, anteriormente não se fazia, mas é através dessa facilidade que o assinante tem de contatar essa administração e a qualidade do serviço prestado é que identifica a empresa com o assinante. Hoje está tudo eletrônico, isso às vezes causa insatisfação e naquela época não existia isso. Era conversando, dialogando mesmo, pessoalmente.

 

P/1 – Porque o senhor saiu da empresa?

 

R – Essa é difícil de responder, mas eu acredito que deve ser atribuído a uma reestruturação da empresa. Na ocasião ela estava optando por profissionais de nível superior, que eu infelizmente não tive condições de ter. Embora eu acredite que tenha correspondido às expectativas da diretoria - tanto é que fiquei 25 anos só com eles - faltava aquele algo mais que a gente precisava, que era um curso superior. Infelizmente eu não era engenheiro, eu era um simples contabilista, isso me impossibilitou de continuar na empresa, acredito eu. Ninguém me falou isso, mas agora que você está me perguntando, eu tenho esse sentimento. Se eu fosse um engenheiro dedicado, um profissional capaz, um profissional de grau superior, eu acredito que eu poderia ter ficado mais tempo, apesar de ter completado 59 anos na época.

 

P/1 – Mas depois de tanto tempo, como o senhor recebeu essa notícia?

 

R – Olha, foi desagradável, não foi bom. Nós estamos aqui para falar aquilo que realmente sentimos. Eu realmente fiquei perplexo com aquilo que aconteceu, não esperava ser mandado embora naquela ocasião. Foi o que aconteceu. Eu tinha esperança de ter continuado mais um pouco, com 59 anos, mais uns cinco anos eu poderia perfeitamente dar a minha contribuição para as telecomunicações lá na região, de maneira que me pegou de surpresa. Mas [era] uma coisa irreversível, não tinha como retornar de jeito nenhum. Nem pleiteei também. Não serve mais, paciência; vou para minha casa, vou cuidar das minhas atividades. Eu me preparei durante um certo tempo, na área rural, adquirindo alguma... No campo político, depois que deixei a vereança, apenas era um militante do partido. 

 

P/1 – Voltou às origens?

 

R – Voltei às origens, perfeitamente; adquirindo algumas áreas de terra, sendo um agricultor e um pecuarista também, pequeno, um microprodutor. Infelizmente em 1986 eu fui... Tive um problema sério de saúde, praticamente me inviabilizou essa atividade no meio rural, pelo menos a gente tem que procurar trabalhar com a cabeça. Mas ir para lá, trabalhar, eu não tenho condições. 

Eu fui penalizado com aquela doença que aconteceu comigo, um acidente, vamos dizer. Tive que extirpar o intestino grosso, na verdade ficou ostomizado, isso dificultou bastante para a gente. Estamos tocando aquilo que a gente acreditava, voltando às origens com essa atividade. 

Durante um certo período, em 91, tentamos um outro tipo de atividade, um serviço de comunicação, aqueles bips. Isso durou pouco tempo, a necessidade que tinha desse serviço na época logo desapareceu porque foi implantado o celular e o telefone celular não tem nem comparação. Com isso, a gente teve que desativar a empresa também.

 

P/1 – Com essa sua experiência toda, como o senhor enxerga o futuro dessa companhia nesse cenário concorrencial que se desenha pela frente?

 

R – Acho que a CTBC não vai perder campo - pelo contrário, ela tem tudo para ampliar. [O] serviço atende às recomendações da Anatel. Atendendo todas as metas, a CTBC tem um campo vastíssimo ainda pela frente, é ilimitado. Acredito que não vá perder oportunidade de se expandir mais ainda. Já é grandiosa e vai virar um gigante mesmo. As concorrências que se cuidem.

 

P/1 – Ainda com base nessa sua experiência riquíssima, se o senhor tivesse na frente de uma pessoa que dissesse para o senhor: “Sr. Olegário, eu vou começar a trabalhar na CTBC amanhã.” O que o senhor diria?

 

R – Parabéns, você vai para uma grande empresa, para um excelente local de trabalho. Seja dedicado, seja competente, mostre que tem qualidades. Tem futuro.

 

P/1 – Sr. Olegário, o que o senhor achou de ter dado esse depoimento para nós?

 

R – Foi uma oportunidade muito rara de fazer uma narração da nossa vida, da vida da CTBC na região, comentar esse convívio que tivemos com o Sr. Alexandrino, esse privilégio de conviver com ele e com o Dr. Luís, com o Sr. Walter Garcia nós tivemos pouco tempo. Também com nossos diversos contatos com os diversos departamentos de Uberlândia, nas áreas administrativas e técnicas. 

Enfim, foi muito bom ter essa oportunidade de deixar para o futuro essa mensagem de agradecimento à diretoria da CTBC por ter confiado em nosso trabalho, porque ela nos deu respaldo para que pudéssemos fazer esse trabalho; aos funcionários da regional, aos departamentos diversos aqui de Uberlândia, enfim, a todos que tiveram a sua participação, nós temos uma mensagem de agradecimento. Não fora esse apoio, não fora essa dedicação, o nosso trabalho não teria sucesso. Nós tivemos sucesso porque executamos o que nos foi passado e aquilo que vislumbramos também. Temos a possibilidade de fazer isso, tal aconteceu em Lagamar. Antes de encerrar gostaria de citar uma coisinha sobre Lagamar, coisa rápida.

Já não podia mais entrar cidade nenhuma. Lagamar é uma cidade que fica entre Presidente Olegário e Vazante. “Dr. Luís, essa cidade vai ficar isolada. Para ir para Vazante nós vamos ter que passar numa área de outra empresa, mas se o senhor fizer um compromisso de colocar um telefone aqui dentro num espaço de tempo curto o prefeito nos dá o conto, você pode executar.” “Mas sem autorização?” “Pode executar.” 

Copiamos o projeto da casa de rádio, Antonio Cassiano Pereira é que fez a cópia, dentro de trinta dias estava pronto, Dr. Luís mandou a central, no dia trinta de agosto de 1978 nós inauguramos cinquenta terminais numa KD, 34 dos quais instalados. E depois o que aconteceu? Veio a renovação de contrato e nós incluímos Lagamar. Lagamar passou a ser um município integrante da regional. Posteriormente, nós fizemos algumas aventuras - em Lagoa Grande, município de Presidente Olegário, também não tinha possibilidade quase nenhuma, mas vamos fazer. Dr. Luís nos apoiou, nos deu o equipamento, instalamos um PS e lá tivemos uma passagem interessante que gostaria de registrar se puder. O prefeito, Sr. Irineu Godinho, estava estava vendendo os telefones; visitava um, visitava outro. Tinha um comerciante lá, “Foi escaldado aqui, eu não vou comprar isso não. Porque o contador fez isso, fez aquilo, não está dando certo, agora estou recebendo multa, tenho que pagar coisa atrasada…” “Mas vai trazer o telefone para cá, uma coisa boa, principalmente no comércio.” “Se você assinar com ele, eu vou comprar.” “Prefeito, você assina?” “Quantas vezes você quiser.” E ele comprou o telefone. 

São detalhes mínimos, talvez de menos importância, mas para a gente marcaram muito. O pessoal era desconfiado, mas confiava em alguém. Sabemos a capacidade da CTBC, de maneira que fica a melhor das impressões. A gente fica feliz de ter tido essa oportunidade de narrar alguns episódios da nossa vida e não complementei a questão do fiscal de rendas - cheguei em Patos, o que eu fiz foi renunciar, então nem tomei posse porque atendi um pedido do Sr. Alexandrino e fiquei muito feliz, me realizei profissionalmente. Foi ali que consegui educar minha família. Enfim, me realizei na CTBC, eles também nunca reclamaram, acredito que devem ter ficado satisfeitos com nossa atuação porque não os decepcionamos, pelo contrário. Sempre procuramos o melhor caminho para a CTBC, principalmente visando ser uma empresa bem conceituada e uma diretoria de renome nacional e internacional.

 

P/1 – Agradeço demais, o senhor tem que se dar conta que tudo o que falou para nós, vai ser muito útil para as pessoas saberem. Essa sua memória acaba sendo reproduzida e usada didaticamente, para que as pessoas compreendam essa circunstância difícil e heroica que vocês viveram e que pra nós é muito importante.

 

R – Ela é realmente heroica, foi um desbravamento dessa região. Por isso que chamei o Sr. Alexandrino de bandeirante das comunicações. Além de pioneiro, realmente teve um papel preponderante no desenvolvimento das comunicações.

 

P/1 – Obrigado.




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