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Intercâmbio: eram 13 dias de navio

História de: Maria Luiza de Salles Coelho Gama
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/03/2016

Sinopse

Maria Luiza de Salles Coelho Gama conta da história da família e como foi a infância no Rio de Janeiro e nas férias entre Petrópolis (RJ) e Ponte Alta (MG), onde, desde pequena, fazia aulas de inglês no IBEU [Instituto Brasil Estados Unidos], onde soube do intercâmbio. Maria Luiza foi da segunda turma do AFS Brasil e ela conta como foi a viagem de navio até os Estados Unidos, com os casos de febre asiática. Ela conta como foi sua adaptação e a vivência na escola e numa sociedade bastante diferente. Na sua volta, ela recebeu o convite do próprio Galatti para montar um escritório no Brasil cuja primeira sede foi na casa de seus pais. Maria Luiza conta como foi esse período de trabalho e de expansão do AFS o Brasil e também conta como foram as viagens internacionais para a reunião de presidentes do AFS de todo o mundo. Além da experiência de intercâmbio, Maria Luiza conta como foi a vida de casada em Brasília e suas atividades profissionais.

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História completa

Eu estudava no IBEU [Instituto Brasil Estados Unidos] porque eu sempre gostei Inglês, porque eu gostava da professora. É sempre por aí, né? E eu sempre fui muito festeira, gostava de festa, essas coisas todas. Foi quando eu soube da oportunidade no IBEU do American Field. A seleção do primeiro ano e do segundo ano foram feitas pelo IBEU. Então, eu me candidatei e passei.

 Quando apareceu a oportunidade de intercâmbio, eu falei com meus pais, eu disse: “Olha, eu vou fazer o teste, mas se eu passar eu quero que vocês deixem eu ir". Meus pais acharam que era uma boa coisa pra eu aprender mais inglês, pra eu estudar mais e largaram pra lá. Então, quando veio a bolsa foi uma bomba, porque eu fui a primeira que fui da família inteira. Minhas tias tiveram um ataque, falaram com o meu pai que ele não devia deixar eu ir, de jeito nenhum.

Nós éramos só dez daqui do Brasil. E lá da Europa eram mil e quinhentos [jovens intercambistas], fretaram um navio pra vir da Europa e foi um problema, porque foi na época da febre asiática, o navio inteiro pegou febre Asiática. Eu cheguei nos Estados Unidos e nós ficamos umas três semanas, cada um na casa de uma pessoa que se ofereceu em New Jersey. E eu fiquei amicíssima da moça de New Jersey, eu considero ela minha irmã até hoje. Nós nos escrevemos pelo Facebook todo dia Quando eu larguei a casa dela num domingo, cheguei em Nova York, vazia, – teve um grego que morreu – fileiras de ambulâncias pra pegar os mais doentes. Eu tive a impressão de guerra. Eu não queria ir adiante de jeito nenhum, por mim, eu teria desistido ali, (risos) mas falei: "Não, vamos ver o que que vai dar". Disseram que eu podia continuar a viagem e eu entrei num ônibus cheio de gente espirrando e tossindo de febre asiática, é obvio que eu peguei. Ai, cheguei em casa, já tava melhor, mas eu encarei uma viagem sozinha de ônibus para Billings, 24 horas! Naquela época, as moedas americanas eram um Dólar de prata, pesava, você botava cinco dólares de prata na tua carteira, um troco de cinco dólares era prata, prata mesmo. E tinha que botar um dólar num índio de ferro, que os pés tremiam, que era justamente pra fazer massagem nas pernas, era um barzinho que tinha lá, que tinha Coca-cola e tinha esse índio e a gente segurava nas mãos do índio. Não esqueço esse índio por nada, botei um dólar lá e foi a minha salvação, porque as minhas pernas não aguentavam mais ficar paradas e dobradas. Ai eu cheguei em Billings, conheci minha família, tomei de amores por eles assim que os vi e tive um ano maravilhoso, um dos mais felizes da minha vida.

Eu dei sorte de ficar numa casa que eu considero tão minha quanto a minha do Brasil. E eu me dou com eles até hoje, cê vê? Já fui lá várias vezes depois, já levei meu marido pra conhecer, infelizmente papai americano já morreu também. Ele tocava piano divinamente, a mãe cantava.

[Na escola] Eu era vista como um extraterrestre, vinda de tão longe, falava inglês, e não sei mais o quê. Eu era chamada pra tudo. Eu fui a noiva numa festa que teve lá, de Billings. No campeonato de futebol, teve uma festa e a noiva era eu. Qualquer coisa que tinha assim, eles me chamavam e eu estava sempre em evidência e eu gostava daquilo, gostava também das minhas amigas, do meu professor de Civics, eu adorava a aula de Civics. Ah, eu também trabalhei de baby siter, numa casa que tinha dois meninos: um menino e uma menina. O primeiro dólar que ele botou na minha mão: nossa, eu me senti tão mal! (risos). Depois eu adorei, achava ótimo! Por isso que quando eu cheguei aqui no Brasil, eu quis trabalhar, porque minhas amigas não trabalhavam.

Mister Galatti veio para uma reunião e estava procurando uma secretária, cada uma das moças aqui ou já estavam engajadas para casar, ou estavam em faculdade, como a Ana Maria Santana que era de oito às cinco da tarde, e não queriam abrir mão das profissões. Eu não me incomodava de abrir mão da carreira de professora, porque eu não queria ser professora. Foi o que se apresentou na ocasião, pra eu fazer. Eu fiquei disponível e comecei a trabalhar e eu achava ótimo trabalhar, eu mandando, fazendo, acontecendo, do meu jeito, que eu sempre fui muito mandona. Era do meu jeito, lá em casa, que era muito confortável, porque acordava, ia pro escritório, via as cartas que chegavam com o carteiro, despachava tudo mas podia sair.

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