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História

Inspirando Ziraldo

História de: Moacyr Viggiano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2014

Sinopse

Moacyr é mineiro e como amigo de infância de Ziraldo, inspirou a criação do personagem Jabuti, da Turma do Pererê. Em seu depoimento conta como ajudava o seu pai, caldeireiro, desde muito pequeno. Fala sobre as mudanças da família por várias cidades de Minas Gerais e como começou a trabalhar aos 13 anos numa loja para ajudar a família. Recorda a mudança para Caratinga para cursar o ensino médio e para Belo Horizonte com o intuito de estudar Medicina. Lembra do concurso que fez nos Correios, onde trabalhou durante o curso de Medicina, em Florianópolis e como mesmo depois de formado continuou exercendo funções nos Correios até a sua aposentadoria.

 

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História completa

Eu nasci em Inhapim, Minas Gerais, em 1930. A minha mãe é de Divino do Carangola e o meu pai de Inhapim. O meu avô paterno é italiano, o outro é de Divino do Carangola. É uma discussão muito grande o porquê que os italianos migraram para o Brasil, é porque aquela época estava muito difícil a vida, principalmente, em regiões que tinha falta de comida. Então, eles se dispersaram. O meu avô foi para a França, depois ele veio para o Brasil. Meu avô era caldeireiro, caldeireiro faz tacho, faz alambique, faz matéria de cobre, metal branco, metal amarelo e com o níquel também. O meu avô fazia isso e o meu pai foi o único dos filhos que herdou a profissão. Meu avô tinha 11 filhos. Meu avó foi para Barbacena, conheceu a minha avó, ele que também era italiana, casou-se com ela e foi para Inhapim, onde eu nasci. Ele era meio cigano, comerciante, estabeleceu-se. Começou a trabalhar na profissão dele e também comercializar. Comprava cereais, vendia cereais. Naquele tempo era muito comum tropa de burro, inclusive o meu pai teve tropa de burro, meu pai nunca foi tropeiro, mas os meus tios do lado da minha mãe eram tropeiros, e eles que cuidavam da tropa do meu pai. E eles levavam cereais, arroz, feijão, milho, etc. O meu avô deixou de ser caldeireiro, mas o meu pai foi que continuou na profissão dele. Nós todos, filhos do meu pai naturalmente, nós todos aprendemos a trabalhar de caldeireiro, eu já fiz tacho, já fiz. O meu avô materno, ele era sitiante, morava num sítio no Inhapim, mas ele tinha outra profissão, não era profissão, mas ele era curandeiro. A casa era uma casa antiga, muito grande, um salão, uma sala imensa, dois quartos assim, mais um outro quarto assim, e mais um quarto do lado de cá, uma cozinha imensa e um quintal que ia até o morro. Ali a gente tinha criação de galinha, de porco, criação de vaca de leite, bezerro, nós meninos montávamos nos bezerros. Nós éramos oito filhos. Eu sou o antipenúltimo. A minha mãe disse que eu engatinhava, não sabia nem andar, mas já jogava bola de gude. Depois disso os brinquedos da gente era a gente mesmo fazia, naquele tempo não tinha negócio de comprar. Eu tinha seis, sete anos quando aprendi a fazer tacho. O meu pai fazia alambique, às vezes, vinha um alambique para ele consertar e eu, como era menino, eu entrava dentro do alambique para segurar a coisa para ele bater o rebite para fazer as emendas do alambique, tinha que ser um menino, porque tinha que caber dentro da boca. O meu pai era uma pessoa muito inteligente, muito interessante, ele era caldeireiro, mas ele sabia de tudo, tudo, porque ele encomendava livros e revistas. Mamãe era costureira e aprendeu corte e costura por correspondência, e virou exímia costureira, era a melhor costureira da cidade. Tinha os métodos e eles mandavam os modelos. Ela ficou mais ou menos quase que autodidata, virou exímia costureira e costurava para as melhores damas da cidade. Os modelos vinham pelos Correios. Então, a minha ligação com os Correios já vem de muito, de muitos anos. Eu tive uma época que eu morei na roça e tinha professora particular, que chamava Dona Baíca. Com sete anos, o meu irmão morreu, meu pai ficou muito chateado com aquela história, vendeu a casa e fomos para Itanhomi. Acho que eu estava com sete anos, quando a gente começou a ir na escola em Itanhomi. A gente ia a pé, não tinha negócio, todo mundo ia a pé para o grupo, andava dois, três quilômetros, morava no começo da rua e o grupo era quase no fim da outra rua, mas para gente era normal. Brincava com os irmãos e a meninada da redondeza, jogar bola de gude, rodar jabolô, O meu pai escolheu Itanhomi, porque já tinha um tio que morava lá. O meu pai, meio aventureiro, não deu certo um lugar, foi para outro, Itanhomi era muito pequenininho. Nós fomos para Conselheiro Pena, que chamava Lajão e o meu pai até comprou uma oficina. Foi em Lajão, em Conselheiro Pena que eu conheci o Ziraldo. Eu conheci o Ziraldo é o seguinte: o avô do Ziraldo era maçom e o meu pai também era maçom, e quando nós mudamos para lá, o Ziraldo já morava em Conselheiro Pena. E era costume, as famílias antigas visitavam, e chegou em casa a mãe do Ziraldo, o pai dele era guarda-livros do Carlomagno, um italiano, que comprava pedras preciosas, cereais e tudo. E eles foram, foi a mãe do Ziraldo, que á a Dona Zizinha, o Ziraldo e o Ziralzi, só tinha esses dois, só tinha esses dois, foram em casa visitar a minha mãe, para conhecer, dar as boas vindas. O Ziraldo mais o Ziralzi foram para o quintal e ficaram correndo atrás das galinhas, pegando goiaba nos pés, fazendo a maior farra. Eu estava entre nove e dez anos, eu estava com dez, ele com oito, exatamente. Só ficamos amigos de ficar brincando. Eu voltei para Inhapim na adolescência. A profissão do meu pai não estava dando muito certo. Até terminar o grupo eu trabalhava com o meu pai, na oficina com ele, e depois que eu saí do grupo eu falei para o meu pai: “Meu pai, você arranja um emprego para mim, um trabalho para mim, que eu não quero ficar na profissão sua, não”, via o meu pai com aquela dificuldade, caldeireiro. Ele foi no comércio, arranjou um lugar para eu ser auxiliar de balcão. Tinha treze anos, então, eu tenho documento até a partir dos 13 anos, isso me valeu muito porque quando eu aposentei eu apresentei o documento que eu tinha contou também o INPS para aposentadoria. Fui para Caratinga para estudar. Era a cidade mais próxima que fundou o ginásio noturno e eu fui para estudar à noite, porque de dia tinha que trabalhar. Com 18 anos entrei para o ginásio, e noturno, e fiquei seis meses sem ganhar, sem arranjar emprego, de repente arranjei um emprego no Ministério da Saúde, chegou a Serviço Nacional da Malária e eu fiz o concurso. Fui progredindo, passei para estatística, depois da estatística fui chefe da estatística, fui aumentando o salário, no fim eu estava ganhando um conto e duzentos, quer dizer, seria mil e duzentos, hoje. No Caratinga foi que eu reencontrei o Ziraldo e a gente ficou amigo, porque a gente jogava basquete, voleibol junto, e o Ziraldo estudava no ginásio de Caratinga com o meu irmão Alan e a irmã Lita. O Ziraldo era desenhista já, fazia desenho, só desenhava, mas não trabalhava, não, eu trabalhava de dia, fazia o ginásio à noite. Depois, quando nós fomos para Belo Horizonte, fomos todo mundo junto, a turma toda foi na mesma época, que foi fazer o científico e em Caratinga não tinha curso científico, então, nós em busca de curso científico e nível superior, fomos para Belo Horizonte. Comecei a trabalhar no Ministério da Saúde, me transferi, comecei a fazer pesquisa. Fui para escola de Farmácia aprender trabalhar com meio de cultura, cultivar protozoário e outros parasitas, leishmaniose, esquistossomose, e fui trabalhar nisso. Fui aprendendo na escola de Farmácia, aprendi e me levaram para o Ministério da Saúde, para o Instituto Manguinhos, que inaugurou um departamento em Belo Horizonte, eu comecei a trabalhar, montei o laboratório. Surgiu o concurso dos Correios, eu fiz o concurso dos Correios. Era para carteiro, carteiro eu ia trabalhar seis horas por dia, então, eu tinha mais seis para estudar para o vestibular de Medicina, e assim fui trabalhando nos Correios, foi como comecei a minha saga nos Correios. Quando saiu o resultado eu não quis assumir, eu passei em segundo lugar em Minas Gerais. Eram só 20 cruzeiros de diferença o meu salário de onde eu estava para os Correios, só que daí um ano os Correios dobrou o salário e você imagina, eu tive a oportunidade de trabalhar seis horas só por dia e ganhar o dobro do salário. O concurso era válido ainda por dois anos e eu fui para o Rio de Janeiro reivindicar outra nomeação que a primeira eu não fui. Cheguei, fui falar com o coronel que era o diretor dos Correios. O coronel chamou a secretária dele: “Ô, Diva, como é o caso do rapaz?”, ela falou: “É, está muito bem classificado, tem vaga e nós precisamos, é só nomear”, ele falou assim: “Então providencia. Ela disse para mim: “Vai, pode ir para casa que o dia que sair no Diário Oficial eu te aviso”. Como eu tomei posse fora de época, seria a segunda chamada, eu fiquei trabalhando em Belo Horizonte mais ou menos uns nove meses. O primeiro dia de trabalho seu como carteiro, tinha o chamado, o distrito, era dividido em distritos, o primeiro dia que você ia trabalhar ia um já conhecedor do distrito para te ensinar, primeiro dia, depois no segundo dia, então, você já ia sozinho, distribuindo carta. Como eu não tomei posse na época, eu fiquei trabalhando em Belo Horizonte até eles me mandar para algum lugar onde tinha vaga. Surgiu a vaga em São Paulo e Curitiba, fui para Curitiba, fiz vestibular de Medicina, que eu já tinha me preparado em Belo Horizonte para isso, mas eu não passei não, passei no oitavo excedente, só tinha 35 vagas, em Belo Horizonte também, 35 vagas, eu fiquei o oitavo excedente e não entrei. Chegou, preparei para o vestibular, mas não passei, fiz vestibular na federal e fiz aqui, em Florinanopolis. Passei aqui na federal, vim para cá, naquele tempo você passava na faculdade você tinha o direito a transferir, e aqui comecei minha saga. Fiquei um ano e meio em Curitiba. Eu escrevia cartas e mandava coisas, presentes, essas coisas. Recebia Também. Cheguei em Florianópolis, já vindo transferido como carteiro, não cheguei a entregar carta, não, fui trabalhar na seção de malas, chegava as malas de correspondência, então, a gente conferia tudo aquilo ali, eu fiquei duas horas, como estava já estudando Medicina. Chegou um ponto que eu falei “A minha aula é o dia inteiro, então, vamos fazer o seguinte: vocês arranjam tarefa para mim, eu vou cumprir essa tarefa de noite”, assim fui fazendo até chegar no quinto ano. Fazia todo o arquivo e correspondência, quer dizer, eu ia para lá de noite e fazia até acabar, duas horas, três horas da manhã. Recebia seção de tráfego postal, vinha uma carta para lá, tinha que resolver o problema e responder por carta, então, era uma espécie de correspondente da seção do tráfego postal, que tinha o tráfego postal e tinha o tráfego telegráfico, porque eram dois setores totalmente diferentes, outra chefia, outra seção, e eu fiz isso. Dali eu fiquei duas horas, depois fui para chefia, trabalhar como encarregado da correspondência e do arquivo de toda a parte da chefia do tráfego postal. Depois que eu me formei, eu já passei, eu fiz concurso no DASP, Departamento de Saúde Pública, que era o órgão do Ministério da Saúde que formava médicos e especializava os médicos, era no Rio de Janeiro num hospital. Passei no concurso e fiquei trabalhando. Depois fiquei médico dos Correios muito tempo, atendi muito funcionário. O Ziraldo, ele nessa época já era desenhista, mas ele tinha ido para o Rio de Janeiro, como ele contou, botou os desenhos debaixo do braço, foi para o Rio de Janeiro, mas não conseguiu ter sucesso não. Ele voltou para Caratinga e de Caratinga, na mesma época, nós fomos todos para Belo Horizonte e, foi que começou, isso foi mais ou menos em 64, é 64 que começou a revista Turma do Pererê. Ele começou a fazer os personagens, e ele para despedir dos amigos, então, ele inventou a história da Turma do Pererê, ele botou os bichos como nome dos amigos, foi que começou, o Moacyr, o Alan, o Galileu e tal. Naquele tempo os Correios era muito lerdo, demorava a entregar a carta. Então, ele escolheu por isso, tartaruga é muito lerda e eu também muito calmo, por minha vez muito calmo, e demorando a entregar as cartas. No Ministério da Saúde fiquei até aposentar, juntando esse tempo dos Correios com o outro tempo de comércio, deu 45 anos de trabalho, aposentei com 45 anos de trabalho. Eu trabalhava no hospital, eu continuei trabalhando no hospital. Nos Correios eu passei a trabalhar das quatro em diante e até as quatro eu trabalhava no hospital como pediatra. Nos Correios não podia ser só pediatra, não, atendia tudo. Funcionava assim: o funcionário comunicava que estava doente, o serviço pessoal mandava uma folha para mim com nome, identificação, residência e tudo, e quando eu acabava de atender o ambulatório, no ambulatório tinha mais gente, o chefe, eu e tinha mais um outro médico, eu ia fazer as visitas, as visitas às vezes até no município, nos Correios não podia morar fora do trabalho, mas eles moravam, fazia vista grossa, Cinco anos antes de sair eu comecei a escrever, porque a Betina morava na Alemanha, no JAMB, Jornal da Associação Médica Brasileira, tinha um versinho, uma quadrinha, eu escrevi para ela e pus a quadrinha do JAMB, do jornal. No mês seguinte eu escrevi, já fiz a minha poesia, minha quadrinha. Na carta seguinte eu já fiz uma poesia, mandei a poesia, na outra carta mandei outra poesia, e comecei assim, hoje eu estou com dois mil e tantos poemas escritos. Eu já publiquei dois livros. Chama “Ecos – poesia” e o segundo são médicos que publicaram um livro de sonetos. Faço parte da Sobrames, Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.

 

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