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Insistir e persistir

História de: Carlos Wagner Cutrin Castro
Autor: Sophia Donadelli
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Apresentação. São Luiz. Trabalho da mãe. Mudança de cidade. Mudança de emprego. O trabalho no Aché. Detalhes da região onde a empresa fica. Experiências. Dia a dia. Socialização com os médicos.

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História completa

Projeto Aché 

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Carlos Wagner Cutrin Castro

Entrevistado por Eliana Reis

Fortaleza, 02 de julho de 2002

Código: ACHÉ_CB020

Transcrito por Maria da Conceição Amaral da Silva

 Revisado por Igor Gabriel de Sousa Galindo

 

P – Então para começar Wagner, eu queria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Carlos Wagner Cutrin Castro. Trabalho em São Luiz, região central do Maranhão. E nasci em 21 de setembro de 1962. 

P – No Maranhão mesmo?

R – No Maranhão. Só que em uma cidade chamada São João Batista. Mais dizendo, em um lugar chamado Alegre.

P – E é alegre mesmo o lugar? É bonito?

R – Se você chegar lá não é muito alegre. Mas é bem parecido com o paraíso. 

P – [risos] Por que é parecido com o paraíso?

R – Porque é tudo muito natural. Por exemplo, quando é época da chuva, das grandes chuvas, os lagos se enchem e fica a vegetação natural tipo vitória-régia e aguapé, toda aquela vegetação daquela região fica muito verde. Os animais se alimentam. Então começa a também dar muito peixe onde o pessoal daquela região se alimenta, de tudo. Onde aparece também outros animais como marrecas, e muita coisa assim que vem de fora. Para onde tem água. 

P – E você viveu nesse lugar até quando?

R – Vivi até os 6, 7 anos de idade. E vim para a capital, São Luiz.

P – Por que? Lá nessa cidade tua família vivia do quê?

R – Minha família vivia somente da lavoura. Meu pai era lavrador e a minha mãe era quebradeira de coco. Como até hoje existem lá as quebradeiras de coco. 

P – Você poderia contar um pouquinho como era esse trabalho?

R – Da minha mãe?

P – É.

R – As quebradeiras de coco na verdade elas se reúnem para, tipo assim, em comunidades. Então elas até para não ficar um trabalho monótono, né, então elas quebram o coco em um machado que fica posto em baixo da perna. Se a pessoa é destra ou canhota ela coloca em um dos lados que se adapta melhor para quebrar o coco babaçu ao meio e retirar as amêndoas. E aí vão enchendo as latinhas, ou os sacos. E nessa época, nessas grandes, isto é, nessas cidades como São João Batista e as cidades mais próximas como São Bento, São Vicente de Fé tinha os armazéns que compravam dessas pessoas que quebravam o coco e levava as amêndoas. Então era uma espécie de dinheiro. E foi com isso que a minha mãe foi sustentando a família juntamente com meu pai, que vivia só de roça, de plantio de mandioca, de outras coisas assim que plantava. Macaxeira.

P – Mas para consumo próprio ou para vender?

R – Para consumo próprio, para fazer a farinha de mandioca, que é muito comum naquela região. E também para vender.

P – Aí depois com 6 anos, 7 anos de idade você se mudou para São Luiz.

R – É, aí a gente veio para cá porque uma das minhas irmãs já tinha vindo antes para cá. Trabalhou e conseguiu alugar. 

P – Ahn.

R – Alugou casa e aí foi quando chamou a minha família. Meus pais, a mim e minha outra irmã mais nova.

P – E como é que você entra no Aché? Quando é que isso acontece?

R – Ah, [risos] uma briga.

P – [risos] Como?

R – Eu trabalhava em São Luiz já na indústria farmacêutica, na Farmalab. Eu na verdade não era empregado do Farmalab. Não tinha nenhum vínculo empregatício. Eu prestava serviço mas só como propagandista e vendedor. E eu na verdade não era satisfeito com isso. Queria uma coisa mais segura para a minha vida. E lá eu tinha muitos colegas que trabalhavam no Aché, já inclusive não estão mais. E eu conheci o Armando que hoje é gerente regional aqui de Fortaleza. E ele foi uma das pessoas que eu mais perturbei para entrar no Aché. Ele e um outro, nessa época ele era supervisor. Ele e um outro supervisor. Perturbava muito os dois. Insistia muito.

P – E você queria entrar no Aché por quê? O que você observava naquele tempo?

R – Eu achava que era melhor para a minha vida. Na verdade essa profissão que existe hoje como propagandista eu tinha alguns primos que trabalharam anteriormente nessa profissão. Com o laboratório Usafarma. E eu admirava muito. Porque eles andavam muito bonitos. Eles tinham assim uma vida boa. E eu gostava daquilo. Então quando eu tive oportunidade eu também quis isso para mim. E aí eu comecei a,...

P – A insistir.

R - A insistir, persistir. Até que, foi no final de 1993 eu soube que ia ter uma vaga em 1994. Aí eu insisti para fazer essa entrevista, esses testes. E fiz os testes...

P – Lá em São Luiz mesmo?

R - ...em São Luiz.

P – Ahn.

R – E fiz os testes lá, as entrevistas. E eu me lembro que eu disse assim para a pessoa com quem eu trabalhava naquela época: “Olha, eu vou fazer um treinamento...”, eu passei nos testes, na entrevista, “...vou fazer um treinamento. Fui convidado para fazer um treinamento no Aché, mas eu não sei se eu vou ficar. Porque é uma concorrência e se eu for e não conseguir ficar você segura a minha vaga aqui onde estou?” Ele disse: “Não, eu não seguro a tua vaga não. Se você for, você fica lá, mas se você não for você fica aqui comigo.” Aí ele disse assim: “Mas se eu fosse você eu ia.” Eu falei: “Eu vou. Agora pode preparar tudo aí minhas continhas, tudo o que eu tenho, vou agora.” Aí vim. Passei  15 dias de treinamento, essa...

P – Aqui em Fortaleza?

R – Aqui em Fortaleza. Essa época a gente não era admitido de imediato. Porque tinha os testes antes. Não sabia se o Aché ia gostar da gente ou se a gente ia gostar do Aché. Era assim. Mas eu me identifiquei muito e acredito que o Aché também se identificou comigo. Tanto que eu estou há 8 anos e meio na empresa, graças a Deus e eu sou muito satisfeito.

P – E você começa a trabalhar em que região?

R – Eu, na capital. São Luiz. Sempre no centro da cidade. Eu comecei a trabalhar sempre na região mais antiga. Quer dizer, na parte mais antiga da cidade. Depois como houve alguma mudança eu passei a trabalhar no centro e periferia da cidade. E agora por último a partir desse ano eu estou fazendo só centro. O centro mais antigo da cidade. E viajo uma semana para a região central do Maranhão. Eu vou até Colinas. São 400, são cerca de 500 quilômetros de São Luiz até Colinas.

P – No começo trabalhando na capital você se deslocava com carro próprio?

R – Não, quando eu entrei no Aché tinha o meu próprio carro.

P – Que carro era esse?

R – Não era o carro da companhia que é hoje. Era um Passat velho. Caindo aos pedaços mesmo. Até eu lembro que foi uma coisa muito engraçada. A gente estava em um hospital. E aí encontrei com o meu supervisor e um gerente. Foram trabalhar comigo. E por incrível que pareça nessa manhã aconteceu. Meu carro estava caindo aos pedaços. Era um carro velho. Fazia pouco tempo que eu tinha entrado no Aché. E na hora de colocar a ré para sair do estacionamento a ré não entrou.

P – E você estava com os dois no carro?

R – Estava com os dois no carro.

P – [risos].

R – A ré não entrou de jeito nenhum. Mas, aí quando os dois, o gerente e o supervisor foram empurrar o carro [risos] foi muito engraçado aquilo. Aí o gerente reclamando: “Pôxa, vim lá rapaz...” Reclamando assim, mas daquela forma descontraída, né, brincando. “...vim lá de Fortaleza para empurrar teu carro aqui?” E foi assim. Assim tem muitas histórias engraçadas que nos deixam bastante felizes, entusiasmados saber que a gente já passou por tudo isso. Hoje a gente vive uma época bem mais satisfatória, bem melhor do que era antes. 

P – Ah, sem dúvida.

R – É claro que a gente já brigou muito por isso. A gente já lutou muito para que sempre estivesse encabeçando os primeiros lugares no ranking nacional. 

P – E nessas tuas histórias agora de viagens você podia estar descrevendo um pouco como que é essa região que você está trabalhando?

R – A região é, como o Maranhão é uma região que chove muitos locais, as colinas que a gente passa são muito bonitos. São sempre verdes. Durante o ano todo você vê muito pouca seca nessa parte que eu viajo. Então é tudo muito verde. Por exemplo, agora nesse período até agora nesse mês de junho, julho, está tudo verde. Porque continua chovendo bastante. E a região é muito cheia de palmeiras. Palmeiras de babaçu até que eu citei anteriormente que a minha mãe, né?

P – O babaçu é usado para o quê?

R – O babaçu é uma palmeira nativa do Maranhão mesmo. E dela se extrai basicamente as amêndoas que é extraído o óleo. Mas tem uma outra, algumas outras coisas que é extraído também. o fubá do babaçu, que serve inclusive para alimentação de bebês. Isso tem algum trabalho, eu não sei explicar agora no momento. Mas existe um trabalho que é feito até com alguns pediatras do interior que as crianças se  alimentam com esse fubá. Que é o entrecasco do coco babaçu. Fica a casca, entre a casca e a parte mais sólida do coco fica uma, cerca de meio milímetro desse fubá. Então quando o coco seca eles tiram e desse fubá eles fazem alimentação, dão essa alimentação para os animais.

P – As palmeiras, tem muita água também?

R – Tem, tem. Essa região que eu viajo tem muita água. Então ela é muito cercada por colina, muitas fazendas. A paisagem é muito bonita. Agora a paisagem mais bonita mesmo é a paisagem da região da baixada, quando eu falei anteriormente que os campos se enchem de água, fica muito bonito. Fica assim parecendo o paraíso.

P – É essa a região dos lençóis maranhenses?

R – Não essa aí não. Essa é a baixa, dos lençóis maranhenses já é para a região onde tem a fronteira com o Piauí.

P – Ah.

R – Muito bonito também, muito lindo.

P – E tem alguma campanha mais marcante nesses anos todos de Aché?

R – As campanhas de produtos, que você fala?

P – É. De produtos.

R – Uma campanha que me marcou muito foi no lançamento do Candizol. Porque foi um produto na época muito difícil para a gente lançar porque tinha pouco material. E aí depois de conseguir colocar o Candizol no lugar que ele merecia estar é que a gente foi olhar, quer dizer, eu fui olhar para trás o quanto a gente trabalhou bem. Mesmo com a carência de material. Houve, parece que logo no lançamento que a gente trabalhou com poucas amostras, ou pouco material promocional. Mas depois o Candizol se tornou um sucesso. E esse foi um dos produtos que marcaram a minha vida assim. Com relação a lançamento.

P – E além desse produto, viajar pelo interior do Maranhão tem assim algum ponto específico onde você acaba se hospedando? Encontro de outros propagandistas?

R – Na verdade a gente quase não encontra muita gente trabalhando.

P – É?

R – Quando a gente encontra já é de outra região que vem tipo de Imperatriz, por exemplo, que já pertence a uma outra regional que vem fazer a região que a gente está fazendo. Mas existe uma cidade chamada Barra do Corda, que ela é cruzada por dois rios. O Rio Corda e o Rio Mearim se não me engano é o Mearim. E o Rio Corda tem as águas bastante límpidas, bem transparentes. É muito bonito. E o Rio Mearim já tem a água mais suja, mais barrenta. Mas elas se cruzam. Eles se cruzam no centro da cidade onde forma um balneário. Lá tem muitas barracas, muitos barzinhos onde as pessoas vão no final de semana comer, tomar banho de rio. É muito bonito lá. E é uma região cheia de mata. É também onde tem a maior concentração de aldeias indígenas. Tanto que quando vou trabalhar lá fico até um pouco amedrontado com relação aos índios. 

P – Por que, tem um certo atrito?

R – Não, não. A gente olha muito índio lá e a gente não está acostumado com esse tipo de convivência a gente tem um certo receio. Mas isso aí vai, a gente vai se adaptando.

P – E você se hospeda muito nessa área?

R – Me hospedei uma vez. Até porque os hotéis lá eles não dão assim muita...

P – Conforto?

R – ...não recebe cartão. Conforto até que tem. Não recebe cartão, os restaurantes lá não emitem nota fiscal. [risos] Então é meio bagunçado. Mas a região, a cidade em si é muito bacana. Uma cidade pequena, calçada de pedra. E as pessoas são muito simples, muito legais.

P – Em geral você passa uma semana viajando, uma semana em casa?

R – Não, atualmente eu viajo só uma semana, passo três na capital. 

P – E como é tua rotina? Teu dia a dia? Descreve para mim.

R – Tipo?

P – Como é que é o teu dia a dia? Você acorda cedo?

R – Ah, cedo, muito cedo. Quando eu acordo já é para levar os meus rapazes para a escola [risos].

P – [risos].

R – Aí já deixo na escola e vou para o meu primeiro ponto. O ponto de encontro.

P – Aí do ponto de encontro? 

R – São, geralmente são os principais hospitais de São Luiz ou consultórios. Tipo Hospital Português, que é um hospital muito antigo lá de São Luiz. Outros hospitais tipo Hospital Geral que é um outro hospital antigo. E Hospital Escola também. E outras clínicas. Porque agora com essa redução de setor eu fiquei sem outros hospitais que eu já trabalhava anteriormente. E assim vai, a gente vai até às 19h. 

P – Propaga além do médico também para o estudante?

R – Não entendi?

P – Além do médico você também propaga para estudantes de Medicina?

R – Atualmente para estudante não porque eu, nesse Hospital Escola que eu falei, ele vai começar agora. A partir do segundo semestre. E os médicos que eu visito lá atualmente não estão ligados ainda com estudantes. A maior parte agora quando começar, é porque estava em reforma, é que vão ficar os estudantes. E claro, naturalmente, eu vou ter um contato maior com eles. Mas anteriormente eu trabalhava muito com os estudantes. Com os sextoanistas, quintoanistas. A gente tinha uma amizade assim muito forte. Tanto que os médicos que se formaram durante esse período, todos assim são muito amigos da gente. A gente quando entra no consultório deles eles têm a maior alegria em receber a gente. E é muito legal essa ligação. Principalmente quem, eu já estou até com saudade de visitar esse pessoal.

P – Tem algum caso, assim, alguma historinha com médico que tenha marcado?

R – Tem muita história. A verdade tem muita história. Só que tentando não me vem assim [risos] a mente rapidinho assim para contar...

P – De alguém que foi difícil conquistar e agora...

R - ...uma história. 

P - ...é bem receptivo ao Aché.

R – É, na verdade na minha região, todos os médicos – eu digo todos porque a grande maioria, é certo que tem aquela especialidade que é mais difícil como cardiologista, que é um pouco mais difícil mas também eles acabam cedendo – eles são bem receptivos. Bastante receptivos mesmo. Em especial a especialidade Pediatra que eles são mais, são bem mais amorosos.Recebem muito bem a gente.

P – tem algum diferencial do propagandista do Aché?

R – Tem.

P – Qual é?

R – Tem, é o carisma. Acho que os propagandistas do Aché todos são carismáticos. Eu, nesses 8 anos e meio que eu trabalho no Aché eu nunca tive problema com nenhum médico, com nenhuma atendente. Nenhuma dificuldade assim para alguém me receber. Eu sempre tive portas abertas. E quando a gente fala que é propagandista do Aché aí diz: “Ó, você é do Aché?” Quer dizer, é uma referência muito  grande. É muito bom a gente se sente altamente valorizado com isso.

P – Tem uma diferença do médico da capital para o médico do interior, na forma de receber o propagandista?

R – Tem uma pequena diferença. Que eu digo pequena mas se torna muito grande também. que é ele é bem mais receptivo. Mais aberto. Ele sempre estende a mão para a gente. Da capital não, ele fica mais no lugar dele. A gente fica lá também. E eu sou bastante assim profissional. Ele como profissional médico e eu como profissional propagandista. Gosto sempre de separar essa coisa. Não entrar muito na intimidade do médico. Somente no lado profissional. 

P – Certo.

R – Agora o médico do setor de viagem já é mais aberto. Vê a gente e estende a mão. Se bem que eu ainda estou novinho nessa parte, ainda não tenho muita vivência com ele. Mas a gente vai aos poucos conseguindo ter uma convivência melhor e a gente vai tendo mais abertura com eles. E assim a gente vai ganhando mais receitas. Porque é esse o nosso grande objetivo. 

P – Sem dúvida. A prescrição. E por fim eu queria te perguntar o que você achou de contar  um pouquinho da sua história?

R – Muito bom. a gente se sente valorizado. Como na prévia eu dizia, eu não conheço a fábrica eu tenho vontade de conhecer. Acho que a grande maioria tem vontade. Então eu acredito até que isso está nos projetos de todo mundo conhecer, de todo mundo se integrar. E a gente se sente valorizado por uma entrevista como essa. E muito bacana, muito legal.

P – Muito obrigado Wagner. 

R – Eu só esqueci de trazer alguns materiais, que foi algumas medalhas que eu...

P – Esqueceu de trazer as medalhas.

R – É, eu saí já com a vitória do Brasil. A gente ficou meio envolvido assim ]risos]. 

P – [risos].

R – Eu estou rouco mas não por gritar. Eu estou gripado mesmo.  E eu esqueci de trazer algumas coisas. Fotografias. Acabei deixando em casa na praça, para não perder o voo.

P – Se tiver necessidade a gente combina. Manda por malote.

R – Obrigado.

P – Obrigado.

---FIM DA ENTREVISTA---

 


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