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História

Insistência como chave do sucesso

História de: José Solano Carneiro da Cunha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Em seu relato, José Solano Carneiro da Cunha relembra diversos momentos de sua carreira profissional e no BNDES. Conta a sua experiencia no BANDEPE [Banco do Estado de Pernambuco], tempo em que ele diz ter adquirido muita experiência. Além de contar o caso peculiar da sua entrada no BNDES: em seu primeiro concurso foi reprovado no psicotécnico por atraso, decidiu não desistir para provar que conseguia e no concurso seguinte prestou e passou em 12º lugar.

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História completa

P/1- Boa tarde, Solano

 

R - Boa tarde.

 

P/1 – Eu gostaria de começar nossa entrevista pedindo que o senhor nos desse seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – José Solano Carneiro da Cunha Filho. Nasci no Rio de Janeiro, no dia 6 de outubro de 46.

 

P/1 – Seus pais. O nome dos pais e a profissão.

R – Meu pai era José Solano Carneiro da Cunha, advogado e minha mãe Nilsa Muniz Freire Carneiro da Cunha, do lar.

P/1 – Em termos de formação profissional, qual foi a faculdade que cursou? Em que ano foi?

 

R – Eu comecei meu estudo na escola pública, depois fui pro São Bento, fiz o segundo grau, terceiro grau no São Bento, e depois fui para a Escola Nacional de Engenharia, em 65. Me formei em 69. Depois, e, 70, comecei a minha vida profissional. Já formado, comecei a trabalhar no setor privado durante quatro anos, em setor de mármore e granito, parte de construção e depois, em 73, eu fiz o concurso para o BNDE. Foi interessante porque eu tinha um primo que trabalhava no banco, e o banco não fazia concurso há uns 10 anos. Aí apareceu aquilo e eu resolvi me inscrever porque eu tinha acabado de fazer um curso de Engenharia Econômica. Eu era engenheiro mecânico e em termos de Economia, pouco conhecia. Mas eu tinha feito um curso de formação, na Escola de Engenharia, de Engenharia Econômica, e Administração Industrial. Apareceu o concurso do BNDE e eu resolvi fazer. Foi interessante porque, como eu estava no setor privado e estava ganhando até mais, do que era pra entrar por  BNDE, eu fiz o primeiro concurso em 73. Eram quatro vagas pra engenheiro. Passaram sete, o sétimo fui eu e coincidentemente fui o único que não passou no psicotécnico. Por que? Porque eu cheguei atrasado. Eu não me lembro agora porque motivo, mas possivelmente foi talvez um pouco de desinteresse, não sabendo o que eu estaria perdendo, evidentemente, porque eu só vim a saber depois que eu entrei pro banco, mas eu perdi quase meia hora no primeiro teste do psicotécnico. Só sete passaram. E aí, como dos sete que passaram o único que não passou fui eu, resolvi, fui ao banco, falei com o diretor do banco. Foi a PUC que fez o concurso e ia ele explicou: “Olha, fez todas as provas, tem todas as notas, tudo certinho”.  E ele me disse:  “Não tem nada. O problema é que a primeira prova você não fez. Você fez muito pouco. O que aconteceu?” Aí eu expliquei: “Não, eu cheguei atrasado.”  “ Ah. Então está explicado. O resto foi tudo bem. Mas como o banco pediu o primeiro de Silva e você estava fora...” Aí eu falei: Mas tem alguma coisa comigo?” “Não, não tem nada”. Aí eu ia ao banco pra perguntar. Ele disse: “Se o psicólogo disser que não tem nada, você entra”. Isso o Rodrigues, que era o diretor do banco na época. Aí eu fui para o psicólogo e o psicólogo: “Se o banco me perguntar eu digo”. E ficou nessa, e eu não entrei. Mas, coincidentemente, logo depois houve um segundo concurso, no mesmo ano: o primeiro foi no primeiro semestre e o segundo foi em julho, agosto, setembro... No segundo semestre. E eu fiz de novo. Aí, já foi mais uma picuinha da minha parte no sentido de querer entrar. Isso foi um negócio que me marcou evidentemente, e sempre que eu posso eu conto essa história, porque é um negócio que foram poucas pessoas que um problema desses aconteceu, e realmente a oportunidade que eu ia perder se não tivesse insistido nisso.

 

P/1 – O que significava o BNDE nessa época pra sua profissão?

 

R – Bom, pra te dizer a verdade, muito pouco. Eu realmente não tinha ideia do que era o banco, apenas eu tinha um primo que era do banco, e minha ligação com o banco era através do consórcio, porque naquela época eu, estudante, dando aula, pra comprar carro, acabei entrando num consórcio, consórcio especial... A minha ligação era só essa. Aí acabou sendo um problema de querer mostrar que eu ia passar na segunda prova. Aí eu fiz o concurso, na segunda vez, tirei 12º lugar, entrei pro banco, inclusive eu já era diretor da empresa em que eu trabalhava, mas saí, abri mão e fui pro banco. E realmente não me arrependo nenhum pouco, fiz a opção do BNDE, fizemos um curso nas Paineiras, que vocês já devem ter ouvido bastante. O pessoal todo da nossa geração fala muito nisso porque eu acho que foi uma das coisas mais importantes que o banco fez, porque nós passamos uns 60 dias aqui em cima, nas Paineiras, todos. Eram mais ou menos uns 100 técnicos que entraram juntos naquela época. Engenheiro, economista, contador, advogado, e nós ficamos esses 60 dias escutando sobre o BNDE em palestras. Todos os chefes, todas as pessoas do banco vieram fazer palestras. Algumas de fora, sobre Economia. Enfim, dando uma espécie de uma... Não digo lavagem cerebral, porque a maioria que passou era do ramo de Economia, entendia de Economia evidentemente – eu era um dos poucos que não entendia – mas foi realmente um curso...Eu acho que esse curso pra nós foi... E aproximou muito. Hoje, teoricamente é o grupo que está mandando no banco. A minha geração. E são exatamente. José Mauro é um deles, têm outros. Quase todos os superintendentes, os chefes de departamento, estão todos nessa fotografiazinha que eu te mostrei, a maioria. Acho que isso foi muito bom E realmente eu acho... Isso foi a minha entrada no banco. Eu sempre fui...Quer dizer, eu como era um pouco mais velho do que os outros que entraram, talvez tinha um pouco mais de experiência. Sempre fui um pouco mais maduro do que a minha geração, dos meus próprios colegas. E isso me fez... Logo no primeiro ano eu saí do banco. Eu fui para...Fui convocado pra... Convocado não. Fui convidado pra trabalhar no BANDEPE, em Pernambuco. Foi um outro desfio pra mim.

 

P/1 – Nesse primeiro ano de BNDE, quais eram as suas atribuições?

 

R – Eu entrei e fiquei na área de Planejamento. O meu chefe era o Roberto Saturnino, que era o chefe do Departamento de Planejamento, fiquei mais ou menos durante um ano. Fatos curiosos – não sei. Aqui parece que são fatos curiosos – Interessante foi a minha ida pro BANDEPE. Quando chegou em setembro mais ou menos, o Roberto Saturnino saiu pra ser senador. Foi pouco, foi um mês... A decisão dele se candidatar foi muito rápida. E coincidentemente, quem viria para o lugar dele, era o Madeira, o Madeira Coimbra, que na época era o chefe de escritório do BNDE lá em Recife. Que tinha acabado de montar o escritório do BNDE. E o Madeira que estava lá em Recife, estava querendo vir pro Rio. Então ele substituiu o Saturnino. E coincidentemente, ele fez umas reuniões com a gente e quando ele assumiu, foi no Carnaval de 75. Ele chegou, e logo a seguir ele falou com a dona Eli, que era a secretária do Saturnino e seria secretária dele, Eli Furtado, que tinha sido convidado pra ser o presidente do BANDEPE, Banco do Estado de Pernambuco. Que na época passava por problemas complicados, o caso Moreno, o senador Wilson Campos...Enfim, o negócio estava um escândalo nacional na época, inclusive o senador foi cassado naquela época. E deu uma intervenção, mas foi como se fosse uma intervenção branca no banco. E ele falou pra dona Eli:” Olha, eu vou falar com o Marcio Viana que era então o presidente, que eu fui convidado pro BANDEPE.”Aí, dona Eli falou assim:” Porque você não convida o Solano?”. Eu trabalhava na sala exatamente ao lado dela. Realmente uma vez ele tinha me chamado pra ir pra Recife e eu não quis...Eu iria se fosse sozinho, mas ele queria que eu fosse com a minha mulher, que estava grávida... Não sei nem se esses detalhes têm que ser contados aqui, mas...

 

P/1 – Pode contar.

 

R – Pode contar? Então, ele queria que eu fosse pra lá. Depois, eu vim a descobrir que ele queria que eu ficasse no lugar dele lá em Recife.  Mas ele não me falou isso não.  “Ah. Você vem pra cá, faz um estágio de dois meses, e tal..” Eu falei: “ Eu vou, mas minha mulher está grávida, no sétimo mês. E eu tenho um outro filho. Tenho um filho de dois anos e eu não vou... Eu vou pra ficar sozinho aí“. “Ah não. Eu queria que você trouxesse...”. Acabamos não fechando. Eu falei: “Vou, passo um mês aí, venho aqui, fico  os dois meses aí... Mas sozinho.” “E não fui. Aí, dona Eli falou:” Porque não convida o Solano?” “Eu convidei o Solano pra ir pra Recife e ele não quis ir”. “Chama ele aí”. “Então chama ele agora”. “O Madeira era um cara  muito objetivo, chamou:” Solano...” Falei: “Mas em que condições?”. Falou: pa pa pa...O meu salário dobrava na época. E eu quando entrei no BNDE tive uma perda de salário. Ele falou: “O salário é tanto”. Eu falei: “Por mim, eu estou indo. Agora, eu vou conversar com a minha mulher em casa e amanhã te dou a resposta.”. Aí, saí dali e fui falar com o Marcos Viana. Aí o Marcos falou: “Você vai, mas não leva ninguém.’  “Mas eu convidei o Solano”.  “Esse tal de Solano pode ir. Quem é esse Solano?”  “Um que entrou agora.” “Então, esse tal de Solano pode ir, mas mais ninguém”. E foi assim que eu fui pro BANDEPE. Foi outra experiência sensacional, que eu vou falar daqui a pouco.  Mas, eu fiquei um ano e ainda falei pro Madeira:  “Mas eu não entendo nada de Economia”. “Se não der certo você volta”. E realmente foi uma experiência que eu diria que foi inesquecível.

 

P/1 – Quer dizer que você saiu licenciado?

 

R – Eu saí cedido. O BNDE me cedeu ao governo do Estado de Pernambuco, e eu fui pra lá, como o Madeira também ia. O Madeira foi como presidente e eu fui pra administrar a carteira industrial do banco, que era um banco grande. O banco tinha cento e tantas agencias, no Estado de Pernambuco todo, e algumas agencias em alguns Estados, mas era um banco comercial, era um banco misto na época, desenvolvimento e comercial. Eu fui pra área de desenvolvimento, que era 70% do banco, em termos de valor, de operação. Em torno de 70%. Os outros 30 era parte comercial, bancária. Eu fui pra essa área, fiquei quatro anos lá, e foi interessante porque eu não conhecia o Madeira. Hoje é um dos melhores amigos meu. Eu não conhecia o Madeira e foi interessante porque, no primeiro ano, eu fui à Recife, visitar umas empresas. Foi por isso até que ele me chamou. Ele me conheceu quando eu fui à Recife visitar umas empresas durante o primeiro ano que eu estava no banco. E fui junto com dois funcionários antigos do banco. Nós fomos juntos no avião – eles eram parte administrativa e iam fazer umas obras lá no escritório – e nós ficamos hospedados no mesmo hotel, o Miramar. Eles eram amigos do Madeira, que o Madeira era antigo no banco. O Madeira convidou-os para jantar, convidou a nós, estávamos os dois eu e tinha mais um que eu não consigo me lembrar quem era. Nós quatro, ele convidou pra jantar na casa dele. Eu falei: “Olha, Madeira, infelizmente eu não vou poder ir porque...” – Eu só conhecia um colega meu que tinha estudado comigo no São Bento e que estava em Recife. Eu tinha marcado pra ir na casa dele naquele dia. “Infelizmente não vai dar porque eu marquei com esse amigo meu”. E não fui. No dia seguinte, esses dois do banco falaram: “Vamos convidar o Madeira e a mulher pra vir jantar aqui no Miramar. Eu falei: “Tudo bem, eu estou aí”.  Aí fiquei no jantar. A Sueli, que é a mulher do Madeira fala pelos cotovelos, e eu sou um cara muito tímido, muito fechado. Foi interessante isso. Voltando lá pro convite pro BANDEPE, o Madeira deve ter falado pra Sueli: “Chamei o Solano.”. “Quem é o Solano?”  “Aquele que estava naquele jantar lá no Miramar.”  “Ah. Aquele que não abriu a boca?” “É esse mesmo.” Então, é outro lado interessante. Realmente depois a gente veio a se tornar muito amigo, e realmente a ...

 

P/1 –A experiência do BANDEPE foi...

 

R - A experiência do BANDEPE foi sensacional. Foram quatro anos trabalhando de sol a sol, e que eu tive uma experiência que eu não ganharia em oito ou dez no BNDE. Essa é que é a grande coisa. Por que? Porque eu fui trabalhar na linha de frente. Hoje eu acho que o banco tinha que... Na sua forma de... No seu programa de treinamento, ele devia fazer com que os funcionários – evidente que não todos, mas alguns – fossem pra linha de frente. Trabalhar num banco de repasse. A gente trabalha com... 70% dos recursos do BNDE são através de agente financeiro. Ir lá na frente pra sentir o que é o mundo. O mundo não é a Rio Branco antigamente e hoje a Av. Chile, aquele negócio de ar condicionado... O mundo é diferente. Liberar um dinheiro, você tem que autorizar. Liberar um cheque lá pra empresa, porque tem que pagar o funcionário, quer dizer, isso aí não tem... O cara bota... Fica na reta da coisa. Isso é um negócio que... Isso é experiência.

 

P/1- BANDEPE era parceiro do BNDE?

 

R – BANDEPE era o banco do Estado de Pernambuco, e era um repassador do dinheiro do BNDE. Então, o que aconteceu? Eu logo que entrei no banco, junto com diversos, com a minha turma toda, todos jovem. Eu também jovem. Tinha uns quatro anos de formado. Hoje o pessoal do banco que entrar– você não sabe – tem muita gente com mais experiência. Tem muita gente que você olha, que não tem nada.  A gente chama de sangue novo na briga. Sangue novo nada. Mais velho do que eu. Mas na época realmente quem entrava, era pessoa saída de faculdade. Então, um ou dois um pouquinho mais velhos, parecia que eram mais velhos, só porque eles tinham três, quatro anos de diferença a mais. Quando eu fui pro BANDEPE, o que aconteceu? Eu saí do banco, a nível júnior, e eu não fui cedido à toa. Eu fui se superintendente do BANDEPE. Mas, como não tinha diretor, eu era ligado diretamente ao presidente. Foram quatro anos e dois primeiros anos, nós não tínhamos diretor. Então, eu era de fato o diretor da carteira. Não era de direito. Eu nunca tive  o...Nunca fui diretor. Eu era superintendente, mas respondia pela diretoria. Quer dizer, durante dois anos e fui como se de fato eu fosse diretor. Então, eu participei da vida do banco. Eu digo que naquela época nós tínhamos os maiores pepinos nacionais em termos de... – por isso eu escrevi aí “pepino.” Você viu aí “pepino.”

 

P/1 – Você falou mesmo.

 

R - Era grupo Lume,grupo Fernando Rodrigues, grupo Crecife (?)... Enfim, todos os quatro grupos grandes empepinados, que até hoje você encontra grupos empepinados. Eram clientes do BANDEPE, e por coincidência eram pernambucanos. Não sei se começaram lá ou não, mas enfim...Então, todos eles tinham problemas com a gente, lá no BANDEPE.E realmente isso foi uma experiência, porque nós tínhamos... Nós tínhamos umas 20 empresas inadimplentes, que tomavam da gente todo o nosso gás, e, evidentemente o dia a dia de um banco comercial, que não é um dia a dia do BNDE. O dia do BNDE é brincadeira perto de um banco comercial. Por isso que eu digo que eu ganhei ali um...Em quatro anos que eu estive no BANDEPE, foram oito anos de experiência porque... Por outro lado, veja bem, como eu estava na direção do banco, meus interlocutores eram os caras da direção do BNDE. Não o presidente evidentemente, mas os superintendentes, chefes de departamento, eram os com quem eu falava. Isso só dá experiência, evidentemente.

 

P/1-  E você retornar depois pro outro lado? De volta?

 

R – Difícil. Todo retorno é difícil. Isso eu sempre digo, inclusive pra todos os colegas do banco, quando saem. Eu digo: “A grande dificuldade é a volta”. Isso é natural, porque a comunidade se protege. Eu voltei. Sempre fiquei na área de Planejamento, porque na época o Madeira voltou, acabou o governo. Quatro anos. E foi uma experiência muito grande, porque foi a época da ditadura. Uma época muito difícil, A quantidade de vezes que eu tinha que ir por BANDEPE sábado e domingo pra fazer relatório porque o coronel do 4º exército mandava. Eles diziam que havia isso, havia ...E quando nós fomos pra lá, a coisa da... - até eu não sei se eu posso falar isso, mas enfim, depois a gente corta se for o caso – mas o símbolo do BANDEPE era uma porcentagenzinha.  Era uma bolotinha aqui com traço e duas bolotinhas em baixo. Então os amigos diziam que era um por dentro e dois por fora, porque era um negócio complicado, a coisa. Então, nós fomos...nesse ____ você sente que na época da ditadura, os coronéis sempre mandaram cartas...Aquele medo. E o jornal em cima da gente, que nós viemos do Sul. Eles chamavam “os estrangeiros do Sul”. O problema do Nordeste. Mas, graças a Deus, nós ficamos durante quatro anos, conseguimos resistir os quatro anos. O governador Moura Cavalcante sempre deu muita força ao Madeira. O Madeira era um cara brilhante, então nós tivemos...Foram quatro anos pra se aprender...Pra você ter uma ideia até segurança em casa nós tivemos que botar, em duas ocasiões. Por isso que eu digo que foram oito anos que eu ganhei de experiência, nos quatro que eu passei lá, porque foram difíceis. Depois eu vim a saber que – depois que eu voltei – que minha mulher disse que chorou muito. Eu não conhecia ninguém em Recife. Eu fui pra lá com minha mulher e dois filhos.

 

P/1 – O senhor não tinha mais família lá?

 

R –A minha família é de origem de lá. Mas, eu não conhecia ninguém. Meu pai já tinha nascido aqui no Rio. E a sociedade pernambucana é muito fechada. Eu não fui rejeitado, até porque o sobrenome é de lá, essa coisa toda. Mas, eu não entrava.Também, trabalhava tanto que nem me preocupei com esse negócio.

 

P/1 - E a sua mulher... , se integrou?

 

R – A minha mulher ficou sozinha. O que nós devemos à integração foi o seguinte: lá onde eu morava – eu morava em Boa Viagem – então, tinha muitas pessoas do Sul. Foi o início, quando a Chespe (?) estava indo pra lá. Mas enfim, pra você ter uma ideia, pra você falar no telefone – e não é tão antigo assim, são 25 anos. Pra falar no telefone, eu tinha que ir ao aeroporto, pedir a linha, e ficava lá meia hora, uma hora esperando, pra poder falar no telefone aqui com o Rio de Janeiro. Em 75. Não era há tanto tempo assim. É por isso que eu digo que o Brasil é um país que, apesar de a gente reclamar, porque a nossa comparação é sempre com os Estados Unidos,  o que não devia ser -  é um país maravilhoso, pra nós. Tudo bem pagou-se um custo, e nós não estamos do lado de quem pagou o custo. Quem pagou o custo não fomos nós. Por isso a gente diz, eu digo, que realmente é um país maravilhoso porque, 30, 40 anos numa nação não é nada.  De uma pessoa, tudo bem, mas de um país, não é nada. Só pra você ter uma ideia da...Quando eu falo isso, meus filhos não acreditam. Pra falar no telefone, eu tinha que sair de casa tinha que ir lá no aeroporto...

 

P/1 – Isso há pouco tempo.

 

R - 25 anos. Eu tinha que ficar junto com os caminhoneiros, pedir a ligação, ficava vendo os aviões descer, subir... E aí a mocinha: “Daqui a 40 minutos, uma hora”. Então, foram quatro anos nessa luta. Aí o Madeira voltou. Acabou o governo, ele voltou, e quem foi pro lugar dele... Pro lugar dele não. Aí, nos últimos dois anos, eu tive um diretor que era um cronista social lá da região.

 

P/1 –Lá no BANDEPE?

 

R – Lá no BANDEPE. Eu até fiquei muito amigo dele. No início ele tentou me tirar umas duas ou três vezes, porque realmente eu não era... Não fazia o gênero de... Era profissional. Então, o meu negócio era profissional. Não conhecia muita gente de lá. Então,esse era um detalhe. Ele era sobrinho do governador. Mas aí, o Madeira ficou os quatro anos, eu fiquei também. Depois, pra substituir esse diretor, veio um que vinha do BNDE, o Friederico Robalinho, que é família até lá de Pernambuco. Aí o Robalinho até pediu pra eu ficar. “Ah. Fica, fica”.  “Não vou ficar não. Estou indo embora”. Porque o Madeira saindo eu saio também”. Porque eu sabia que se eu não saísse era pra sair logo depois, e mal. Ainda fiquei mais um mês, que ele me pediu, que ele ia viajar. Ainda fiquei mais um mês com ele... Com ele não, mas substituindo-o enquanto ele estava viajando, mas quando ele voltou eu vim embora. Aí, como você falou: a volta pro banco. A volta por banco é sempre difícil. Porque o banco tem um problema sério que é o problema de executivo e não executivo. É um problema de salário. Não tem nada a ver. Nunca deveria ser isso, mas todo mundo sabe que é assim, e ninguém consegue fazer. Pra você aumentar o salário, você tem que dar um cargo de executivo por _____. Então, às vezes o cara não é executivo. No meu caso era o contrário. Eu sempre fui mais executivo, menos técnico, com a cabeça mais executiva. Isso é questão interna da pessoa. Isso é personalidade. Isso não é nem mérito nem defeito. Nem formação. É característica pessoal. Então, quando você sai de um cargo de executivo, você perde a comissão. Aí você ficava... Você tinha que arranjar um cargo de comissão. O problema é que isso existe até hoje no banco. Um dos grandes problemas do banco é esse. Então, o que acontece? Você às vezes coloca... Você ganha um mau executivo e perde um bom técnico, pra poder premiar um cara que é bom funcionário. Porque em vez de você premiar com dinheiro, com salário, sei lá, com umas férias, uma viagem, qualquer negócio, você premia com um cargo de executivo. E de repente você perde um grande técnico e ganha um péssimo executivo. E depois você não consegue tirar mais. Porque pra tirar, ele vai perder aquele dinheiro.  E ele não é culpado disso. Ele faz o máximo, mas ele não é executivo. Ele não tem característica de executivo.

 

P/1 – E com você, como foi?

 

R – Aí eu fiquei pouco tempo sem cargo de executivo. Muito pouco tempo. Tinha duas áreas que eu gostaria de ir: era a área de Planejamento, de Enquadramento. Eu nunca fui de visão micro, pro isso até minha característica de ser mais executivo. Eu sempre tive visão macro. Detalhe, eu sou um cara que não consigo ir no detalhe. Então, eu tinha duas áreas para ir: ou a área de Repasse, ou a área de Planejamento. Na área de Repasse, ninguém me sinalizou com possível cargo de gerente, de executivo. Na área de Planejamento, na época o superintendente falou assim: “Olha Solano, você vem pra cá. Eu não posso garantir nada, mas o primeiro cargo de executivo que aparecer, eu te coloco”.  Eu falei: “Tá bom.” E fiquei. E fiquei talvez uns dois meses sem ser executivo, lá trabalhando. Aí, dois meses depois apareceu um cargo de executivo, e ele me botou. Aí voltei...Isso a parte financeira, porque problema de trabalhar como executivo ou não executivo, pra mim é indiferente. O problema é a parte financeira, que você realmente não pode abdicar. Aí fiquei dois anos.

 

P/1 – Isso em que ano?

 

R – Eu sai do BANDEPE em 79. De 79 a 81, eu voltei pro banco, na área de Planejamento, fiquei com o superintendente, o Mandarino. Nessa época eu era também muito ligado à área de Representação, que tinha as regionais. De repente, vagou a regional de Recife, e a de São Paulo. Primeiro vagou a de Recife, que o chefe da Representação, o Perrone, saiu pra ser diretor do... Presidente do Banco do Estado da Paraíba. Aí vagou. Aí o Paulo Roberto, que era o superintendente da área me chamou: “Olha, surgiu uma oportunidade lá em Recife”. Eu falei: “Voltar pra Recife rapaz, agora que...Vou pensar. Amanhã te digo”. Aí, conversei com a minha mulher - porque nós tínhamos um grupo grande lá em Recife. Esse é que foi o negócio. E a vinda na primeira vez, nós sentimos, porque eram quatro anos, porque nós, mais ou menos da mesma idade, faixa etária, com os filhos mais ou menos da mesma idade, tudo pequenininho. Então, a gente fez um grupo muito grande. Eu morava, no mesmo prédio do Madeira lá em Recife, e todo pessoal daqui do Rio, São Paulo, nós tínhamos rede de vôlei na praia... Enfim, tinha um grupo bastante grande na praia...

 

P/1- Do “estrangeiro?”

 

R – Dos “estrangeiros”. E todos com o mesmo problema: sem família, com criança pequena. Então, a gente saia junto, fazíamos os programas juntos. Dia das mães. Junta na casa de alguém, porque ninguém tinha a mãe lá. Então tinha que ser na casa de mãe mesmo. Natal. Então, isso cria uma amizade. Até hoje, eu tenho muitos amigos lá em Pernambuco, mas praticamente todos de fora, não pernambucanos. Não locais. São pessoas que foram, que na época a Chespe (?) se transferiu do Rio pra lá, e então foi muita gente da Chespe (?) O Banorte, também era um banco que estava crescendo muito, mas hoje não existe mais. Então, foram diversas pessoas, e como era do Sul, você ia morar em Boa Viagem. Então ficou todos mais ou menos próximo.

 

P/1 – O senhor aceitou essa segunda vez que o senhor foi pra lá?

 

R – Aí, coincidentemente vagou Recife e vagou São Paulo. Até quando eu voltei o _____ falou: “Você quer ir pra São Paulo ou pra Recife?”  “São Paulo não quero não. Eu vou   pra Recife”. Aí voltei pra Recife. Fiz mudança de novo em Recife, e aí passe mais quase quatro anos lá. Na segunda vez na Representação Regional do BNDE.

 

P/1 – Me fala um pouco então dessa Representação, da política, do desenvolvimento do Nordeste. Como é que nessa época estava sendo direcionada, quais os principais projetos.

 

R – Nessa época, até dei sorte, porque foi uma época, a nível do banco, até foi muito boa porque foi uma época que estavam se desenvolvendo grandes projetos: o polo petroquímico de Camaçari, o polo de Maceió. Sergipe, tinha o potássio.Ceará tinha também grandes projetos desenvolvendo. Enfim, eram grandes projetos que estava sendo desenvolvidos, e o escritório regional nosso, não é que ele aprovasse, mas ele acompanhava projetos. Então, nós tínhamos escritório lá e na época nós tínhamos umas 25 pessoas, todos técnicos, a maioria técnicos, com poucos funcionários administrativos, e que faziam o acompanhamento. Evidentemente sempre a pedido do pessoal aqui da sede. Porque ninguém ia abrir mão de comer lagosta no Nordeste, não sei o que, A gente fazia isso lá.  Mas sempre no “pepino” – por isso que eu botei o “pepino” – sempre na podre, você é que... O diretor ligava pra você lá: “Olha, eu não consegui falar com o governador. Avisa ele que o negócio dele foi negado”. Entendeu? Então, era sempre comigo. Então, esse lado aí, eu acho que foi uma outra experiência pra mim, na minha carreira, a parte política. Foram quatro anos que eu acompanhei a Sudene...

 

P/2 – Como é que é essa relação do banco com a Sudene?

 

R  - Na época – porque hoje mudou muito, inclusive hoje acabaram a Sudene – na época,

 

P/2 – Na época.

 

R – Na época, o governador da Bahia era o Antonio Carlos Magalhães. O governador de Pernambuco era o Marco Maciel. O governador do Ceará era o Ney Távora. Então, eram três... O governador de Minas era o Tancredo Neves. Então, foram figuras, que quando eles iam – eles não iam a toda reunião. A reunião da Sudene, era como se fosse esse negócio de Fórmula 1. Aquele grupo, todo mês se reunia. Num Estado, noutro Estado, noutro Estado. E aquilo era como (chamava) um circo. O circo da Fórmula 1. O circo lá era da Sudene. Então, como o pessoal do Rio não ia, o chefe da Representação sempre representava o banco. Então, quem sentava lá na cadeira representando o banco, era eu.  O presidente do banco talvez tenha ido umas duas ou três vezes. Nos três, quase quatro anos que eu passei lá, o presidente do banco deve ter ido umas três ou quatro vezes só. Nas outras vezes todas, quem estava lá sentado era eu. Era uma parte política e pra nós difícil porque nós somos técnicos não somos políticos. Então numa ambiência política, às vezes o governador metia o cacete no banco e você tinha que defender, e você não podia entrar na parte política. Primeiro que você não podia nem...Você tinha que defender bancando o bobo “Ah. Vou ver, não sei o que. Vou falar com o presidente”. Mas você sabia tudo, mas você não podia dizer ali. Entendeu? Porque o político, ele fala as coisas sem dizer nada. Ele consegue falar as coisas sem dizer nada, mas o técnico não consegue.

 

P/1- Alguma reunião dessas foi mais marcante?

 

R – Teve. Teve. Sensacionais. Foram várias. A mais marcante que eu diria, foi uma que foi na Bahia, lá em Juazeiro, ali pertinho de Petrolina, foi na Bahia, na véspera... Na véspera não. Estava perto de uma eleição, e tinha havido um problema na Bahia, um problema político, e o governador da Bahia, que era o anfitrião da reunião que foi em Juazeiro, ele meteu o cacete no banco. Eu tomei um susto. Falei: “Ué, o que é isso?”. Eu então respondi que nem um bobo falando qualquer besteira e corri no telefone pro Rio, pra avisar que: “Olha, está acontecendo isso”. Porque o presidente do banco era baiano, que era o Luiz Fandi (?). Eu falei: “ Paulo Roberto, que era o meu superintendente, aconteceu isso aqui. Estranhei tal, mas depois te digo mais informações. A gente vai almoçar..”. A  gente vai almoçar e a gente fica muito amigo, porque na realidade... Porque as coisas... Aquele negócio de: você vai pra uma cidade do interior, então você janta, passa o dia inteiro ali com o governador. Isso que eu dizia. Isso dá uma vivência política. Esse lado pra mim foi interessante porque, eu estranhei e aí, pouco depois eu conversei com o piloto do governador da Bahia e ele me disse ... Minha preocupação era o presidente do banco. Aí ele falou: “O presidente do banco já rodou há uns quatro dias”. E eu não sabia.  O negócio – eu não sei nem se eu posso falar isso  - mas de certa forma, o Fandi (?) até já morreu coitado. Enfim, você pediu um dado pitoresco e eu achei que esse foi um dado pitoresco. Quem me disse foi o piloto do avião, que ele escutou a conversa. Há quatro dias atrás. Mas ninguém sabia. É evidente que o pessoal aqui do Rio, tinha uma ligeira – o pessoal político, aquele ti ti ti. Mas o Fandi (?) continuava como presidente. Ele não tinha saído. Mas no dia seguinte ele caiu.

 

P/2- Tinha essa disputa? Pra quem o banco vai?

 

R - Isso sempre teve. Sempre teve e sempre vai haver. Sempre teve.

 

P/1- Mas assim explicita? Na frente do _____

 

R – Explicita não. Você sentia as vezes o governador batendo porque não era do Estado dele, o outro defendia porque era do Estado dele. A coisa política sai da esfera técnica. Não é um negócio assim: um mais um é dois. Isso é muito interessante porque na época o Marco Maciel, por exemplo, que era o governador de Pernambuco, ele toda...Vamos dizer a maioria. Vamos dizer, são 12 reuniões anuais. Talvez seis ou sete anos ou mais era em Pernambuco, em Recife, que era a sede da Sudene. Então, a gente ia sempre almoçar no palácio. Acabava a reunião ia pro palácio. E o Marco Maciel sempre dizia: “Pra você ser técnico é mais fácil realmente ´pra ser técnico você tem que dizer sim, não, muito pelo contrário, sugerir... O político não. O político vai e conversa com você. Depois vai e conversa com ela. E depois conversa com outro aqui. Completamente diferente do que ele conversou contigo. Aí ele tem que voltar pra você... E ele fica costurando isso. E era interessante a pessoa do Marco Maciel  - e é até hoje – a turma sempre dizia que ele parecia uma dona de casa dentro de uma festa. Aquela pessoa que: tem um grupinho na casa, vai lá, conversa, daqui a pouco tem que fazer sala aí pro outro... E ele tem  a ... tem que é o vice – presidente da República – ele tem isso.  A gente dizia: “Quando a gente chega em casa, fulano liga, beltrano...”. Político é o contrário, se ele chegar em casa e não tiver ninguém ligado, ele se suicida. Porque é completamente diferente a visão. E ele parecia uma dona de casa realmente. Ele conversava aqui, conversava ali. Ou seja, naquela... Pouco antes do almoço, ele falava com todo mundo. Com os grupinhos todos. Com o governador daqui, governador dali, do outro Estado, pa pa pa, porque todos eles iam pra lá pra gente almoçar. E isso pra mim foi uma experiência sensacional. Então eu diria que o banco pra mim foi, e está sendo – eu ainda tenho um pouco de tempo no banco – uma coisa maravilhosa. Não tem o que...

 

P/2 – E nessa época, quais eram as diretrizes dessa política, diretrizes do banco mesmo.

 

R – O banco sempre foi...Vamos dizer assim, ele sempre saiu na frente das coisas. O banco é o braço financeiro do governo. E é um braço que o governo consegue controlar. É um braço que eu diria tecnicamente bom. Não vou dizer ótimo porque parece que a gente está querendo puxar muito...mas realmente o que o governos consegue... Precisa de um negócio, ele pede ao banco e o banco faz. Por que? Porque sempre pagou bem. Isso é um outro dado importante no banco. E, eu diria que, o amor ao banco, a geração que me antecedeu conseguiu passar pra gente, e a gente tenta passar pras gerações futuras. Hoje a cabeça das pessoas está um pouco diferente, mas a gente espera que isso ainda continue, que é o que faz o banco... Decisão de colegiado, não é decisão individual. Nenhum diretor decide uma coisa sozinho. Nem o presidente do banco decide. É evidente que uma ou outra ele decide, mas eu estou dizendo de modo geral. Nem o presidente decide. Tudo é em colegiado. Isso, pra efeito da organização eu diria que é o grande... Benéfico. E na época que eu estava no BANDEPE. 75, 79.A década de 75 a 80 e pouco, foi uma época que foram esses grandes investimentos no Nordeste, então o banco estava repassando recursos por Nordeste. O banco ainda tinha uma linha de crédito subsidiária e tal, e pro Nordeste sempre teve mais recursos, e com isso, o que aconteceu? O banco sempre apareceu muito no Nordeste, na minha época. Na minha época não. Na época que eu estava lá ainda. Foi mais ou menos nesses 10 anos que eu, coincidentemente fiquei por lá. Esses projetos chegaram a um ponto que de repente foram implantados, essa coisa toda, e hoje, nossa grande luta no banco, é conseguir manter a participação. O banco chegou a 21, 22% de  recurso no Nordeste. Hoje está em torno de 13, 14,11%.

 

P/2 – Foi 21 quando, mais ou menos.

 

R – Na época que eu estava lá foi em torno de 21%. Não é porque eu estava lá. É porque foram os projetos do polo de Camaçari. Você pode ver foi nesse período. Você pode pegar as liberações do banco nesse período, estava em torno de 20, 21, 22%. E depois caiu evidentemente. Hoje, a nossa grande luta no banco é pra... Voltar isso é muito difícil porque novos projetos assim desse tipo é difícil, mas, não deixar cair o percentual. Porque é a forma de você distribuir recursos.

 

P/2 – Esse aumento nessa época era por causa desses grandes projetos, e hoje são pulverizados?

 

R - Não porque esses grandes projetos... Veja bem: polo de Camaçari – já está consolidado. Então não tem investimento do governo federal mais. Esses projetos que eu te falei todos: Alagoas, polo petroquímico de Alagoas, Potássio em Sergipe e lá no Ceará, são projetos que foram implantados com a grande participação do pull.  Que naquela época era aquele terço. Quer dizer, era 1/3 de capital privado nacional, 1/3 de capital estrangeiro, e 1/3 do setor público. Era um 1/3, 1/3,1/3. era na época do polo de Camaçari, que foi o grande modelo e foi quem foi que desenvolveu a Bahia não tem a menor dúvida. A Bahia era uma,antes do polo e outra depois do polo. E realmente, o Antonio Carlos Magalhães era um dos grandes, vamos dizer assim, causadores. A importância do Antonio Carlos foi isso: ele foi um dos grandes brigadores pela Bahia e ainda é. Mas nessa época foi fundamental. A Bahia desenvolveu barbaridade em função disso. Em função desses investimentos que foram dirigidos para lá.

 

P/1  E o projeto Suape?

 

R – Esse é de Pernambuco. Coincidentemente, na época, eu tenho até uma foto ali que eu vou te mostrar. É de um jornal da época, em que nós assinamos um protocolo...Esse negócio de protocolo o banco é o seguinte: quando a gente queria fazer uma coisa política, mas não tinha definição técnica, você não podia... Porque uma coisa é um contrato. Num contrato você tem uma série de condições – as vezes as condições não são definidas, não está definida, mas tem que a parte política, necessita de algum evento. Então criou-se na época um protocolo de intenção, que teoricamente não diz nada, mas pra político serve. Então, nós assinamos um protocolo de intenção de Suape (?)no aeroporto dos Guararapes na época, porque o Sândi, que era o presidente na época passava de avião, e então o Marco Maciel que era o governador saiu, e nós fomos assinar no aeroporto dos Guararapes. Então é uma foto de jornal da época e eu estava ali presente também. E o polo Suape (?), ele foi implantado pelo Marco Maciel, hoje é uma realidade. Eu estou até precisando voltar a Recife. Faz uns 10 anos que eu não vou lá, até pra visitar o polo, que tem hoje... Mas na nossa época estava patinando. É aquilo que eu digo. Da mesma forma que o Antonio Carlos fez pra Bahia, o Marco Maciel está fazendo pra Pernambuco. E todos os Estados fizeram isso. No Sul sempre teve os grandes. Hoje não precisa mais porque a própria dinâmica dos negócios leva...os seus empresários levam os recursos pra lá, do governo. Mas, sempre tem alguém no passado que puxou essa coisa toda. 

 

P/2 – O grande projeto de Pernambuco o Suape?

 

R – Eu diria que o grande projeto de Pernambuco foi Suape. Na época nossa tinha uma parte de estradas vicinais, que era o problema da cana de açúcar, mas que eram projetos que era mais pra ter pra sustentar, que a cana de açúcar é que sustenta a mão de obra lá de Pernambuco, do Estado. É o grande empregador.  Hoje, comparativamente acho que está empregando bem menos. Mas ainda o grande empregador de Pernambuco é o setor sucro alcooleiro. Você tem as usinas de açúcar, você tem as destilarias de álcool. Hoje você tem diversos projetos de camarão, lá em Pernambuco, desenvolvidos também. É uma área de exportação. Essa área é interessante, porque cresceu muito. Esse também é bastante empregador de mão de obra. E tem a parte... Porque o Nordeste nos últimos anos, no meu modo de ver, está entrando com uma coisa que eu acho que é importante, que é o turismo. No Nordeste você tem...É o que eu dizia quando eu morava em Recife, esses oito anos que eu te falei, eu dizia pra todo pessoal que ia pra lá: “Olha, eu aqui tenho 50% do meu lazer praticamente garantido o ano todo”. Por que? Porque você tem praia o ano todo. Em Pernambuco, em Recife, você tem praia o ano todo. Mas veja, eu passei lá e nunca tive um guarda-chuva e meus filhos nunca tiveram... Eu comprei um cobertor quando vim do Recife pro Rio. Eles não tinham cobertor lá. Eu morei em Recife oito anos – eu não vou dizer que não senti frio, mas, eu não tinha cobertor, e guarda-chuva pouco. Eu não tinha  também. De repente...É só você esperar que a chuva passa. Cai aquela chuva rapidinho, passou, pronto. E a temperatura constante. A água do mar é quente. Então, o que você tem no Nordeste é isso. Você pode oferecer isso. Você vai querer disputar indústria? Não tem matéria prima. Você tem que deixar isso pro Sul.

 

P/2 - E está sendo incrementado o turismo?

 

R – Está. Eu acho que está. O banco tem agora incrementado diversos projetos, grandes projetos de resorts em Pernambuco, em Natal, que desenvolveu Natal. A costa de Natal é toda de hotel, a grande maioria financiada pelo banco. O Ceará é um pouco mais industrial, mas também tem diversos projetos na área hoteleira, que é uma área geradora de emprego, que é a única geradora de emprego, porque hoje o setor industrial não gera emprego. Pelo contrário. Ele capa os empregos que existem. Quer dizer, diminui. Hoje, uma empresa moderna, ela não tem quase empregados. Então, você investe uma fábula de dinheiro numa petroquímica, numa indústria de plástico, não sei o que, e a matéria prima entra aqui, sai ali, com quatro, cinco caras controlando. Quer dizer, na hora que você fizer o investimento, pela quantidade de trabalho que você gerou, é uma barbaridade. E ao contrário, o setor de serviços, se você fizer isso, quer dizer, um investimento no setor de serviço, gera uma infinidade de empregos, diretos e indiretos. Você tem toda a parte de turismo, você tem tudo. Não é só a parte de hotel: a construção do hotel, a manutenção do hotel, as agências de viagem... Enfim, é um... Essa eu acho que é a grande linha que eu vejo pro Nordeste, e parece que eles estão tocando lá.

 

P/2- E o cultivo de frutas lá na região de Petrolina...

 

R – Ele se desenvolveu bastante também. Mas o grande problema disso aí, no me ver, é o problema de comercialização. Por que? Porque isso é exportação. E exportação é comercio. Tem certas coisas que você mais velho, você tem algumas coisas que é engraçado, que eu tento passar para os meus filhos. Por exemplo, naquele curso que eu te falei logo no início do papo aqui, que eu fiz antes de entrar no banco, eu me lembro que um professor – não me lembro qual foi a cadeira – falou.. Isso em 71. eu me formei. Setenta e um eu fiz o curso. Ele dizia o seguinte: “Hoje (naquela época), a gente produz o que vende, e não vende o que produz.” Que até então, você vendia o que produzia. Em 71, 72,ele dizia isso. Ele vinha com a conversa dizendo: “Hoje, você produz o que vende.”Ou seja, a venda está na frente. Eu, realmente, na época não percebi aquilo, mas hoje, eu estou bastante... Hoje não, de algum tempo pra cá, isso na minha cabeça é o que...Então isso, nós não temos cultura de venda. O Brasil não tem cultura de venda. O Brasil faz, o Brasil produz, mas a venda é um negócio..  A gente está começando a... Porque a nossa indústria é de 40 anos pra cá. Se você pegar a história do Brasil em 1950. O Brasil exportava três bilhões de dólares, a população era de, acho, nem 50 milhões de pessoas, 2/3 no campo e 1/3 na cidade. No campo, a pessoa produz, na cidade, consome, não produz. Hoje, a situação no Brasil é o contrário. Você tem 180 milhões de pessoa, 2/3 vivendo na cidade e 1/3 no campo. E ainda a gente reclama do país. Acha que o país é... Se você fizer isso, você compara com os outros países desenvolvidos, que hoje, 40 anos depois, 50 anos depois, tem a mesma população da guerra. Alemanha, Itália, França, Inglaterra, todos esses países, tem a mesma população de 45, quando eles acabaram a guerra. Então, você imagina isso o que é em termos de...Tira os Estados Unidos, porque os Estados Unidos é diferente. Mas fora os Estados Unidos, você compara com países desenvolvidos da Europa, por exemplo, você tem...Esses países todos tem a população a mesma.   Então, a infraestrutura deles, não tem o que fazer. Você vai ver no meu currículo, eu passei...Depois a gente vai chegar lá. Eu não sei se a gente tem tempo, mas a gente vai chegar lá na frente, eu fiz um curso na Itália. Então você vê o seguinte: Eu, na época, era o mais velho do curso, e quando eu entrava no ônibus, eu parecia um menino dentro do ônibus na Itália. Era até engraçado. Eu sempre tive cabelo branco. Por que? Porque a população é velha.

 

P/1 – Em que ano que era isso?

 

R – Eu fiz um curso de... Deixa eu entrar no curso mais na frente. Já que a gente está entrando na...

 

P/2 – Deixa só perguntar um pedacinho. E o Proalcool? O senhor chegou a pegar?

 

R - Peguei. Peguei na época lá. Exatamente. O Proálcool foi uma decisão fundamental na época. Eu não sei nem porque terminou essa Proálcool. Eu acho que foi.... Evidentemente você não tem o apoio da indústria automobilística, então você tem... Mas eu acho que pro país, o custo realmente tem que entrar na parte técnica, que é hoje... Não me lembro mais. Mas diziam que o custo do álcool era caro, comparado com o petróleo na época. Mas isso, o petróleo a 4 ou 5 dólares que era naquela época. Hoje, o petróleo está a 20 e tanto. Hoje eu não sei.Teria que refazer. Mas só que você não tem apoio da indústria automobilística, não tem o apoio das grandes nações evidentemente para fazer o pró – álcool, porque isso é um negócio que o Brasil e mais ou outro país ai, um ou dois, podem ter isso. Não tem... Então, você fica sozinho no mundo. E realmente o mundo é uma troca. Então, você não pode fazer porque você não consegue ter o carro. Porque quem faz o carro é a indústria automobilística. A indústria automobilística não faz o carro. Vai querer que o Brasil seja independente? Não vai nunca. Então isso aí é tudo um jogo marcado. Na minha visão da coisa, isso é tudo um jogo. Não vai...Porque o Brasil aceita isso? Porque é assim. Porque um monte de fatores...Só pra dar um exemplo daquele negócio que sempre eu gosto de falar: Se você fizer 50 anos, o Brasil mudou da água pro vinho. Mudou da água pro vinho. Agora, evidentemente, hoje a gente sofre o problema mundial que é o problema da tecnologia, que tira emprego. Então, tem que partir pra que? Tem que partir pra... Onde é que vai dar emprego? É serviço. A população fica mais velha, então você começa a ter uma necessidade melhor de laser. Então serviço é que vai...Então, eu acho que é por aí. E as coisas acontecem assim mesmo.

 

P/1- Então, quando você volta pro banco, você vai pra que departamento?

 

R- Aí, mais uma vez a dificuldade de se colocar porque: “Mas o Solano nunca trabalhou na área operacional”. Porque o nobre do BNDE ou de qualquer instituição, o nobre é a área operacional. Está certo? Então: “Mas ele não sabe...” Isso eu sei porque amigos me contavam essas coisas depois. Eu falei: “Pô. Graças a Deus”. Eu nunca...Eu respeito cada um na sua área. Acho que cada um tem a sua área. Mas enfim, como eu nunca fui da área de projetos, da área operacional do banco, eu sempre tive dificuldade de  fazer parte da turma que tinha que me acolher. Então eu tinha que ser acolhido numa outra área, quer dizer, que eu volto pra área de Planejamento. Aí sou acolhido na área de Planejamento. Aí fico na Consultoria da Presidência, na Cotec (?) durante um período, e aí logo depois nós... Aí tem uma outra pessoa que eu acho que é importante lembrar, que é Henrique Dettmann que é um cara que também tem uma visão!! Hoje está aposentado. Mas o Dettmann era o nosso representante em Brasília. Então, ele passou o processo todo de ditadura, abertura política, essa coisa toda. Ele viveu isso. E o Dettmann, quando chegou em 80 e... Logo depois...Quando começou negócio de abertura, um pouco depois, e tal, ele começava a falar. Foi o primeiro cara do banco que falava em Congresso, ia ao Congresso falar, fazer exposição, pa pa pa. Por quê? Porque ele viveu, ele vivia isso em Brasília. Ele sentia. Porque na época eu estava na primeira fase, na época da ditadura, o presidente do banco tirou um governador. Eu me lembro que tirou um governador do Rio Grande do Norte. Na época.

 

P/1- Por conta de...

 

R - Por conta de problemas... Quer dizer, não é que ele tirou. Ele influenciou de tal maneira, que tiraram o governador. Por conta de coisas na época lá. Mas, na segunda fase, por exemplo, ele sempre dizia que bastavam dois governadores pra derrubar o presidente do banco. Não precisou nem dois. Bastou o governador da Bahia e derrubou o presidente do banco, na época. Então, as coisas, as forças políticas mudam. O Detmann foi um cara que começou com essa ideia no banco. Ele falou: Olha, nós temos que criar uma área institucional. Que hoje é a área da Beth.  Que isto aqui é uma decorrência de uma visão que o banco nunca teve. O banco sempre teve fechado pra dentro, nunca precisou. Nunca precisou lutar pra recursos. O banco está lutando por recursos agora, porque ele nunca precisou. A vida dele toda, o banco que fazia todas as medidas provisórias, todos os decretos eram feitos no banco. Então, na realidade – eu sempre disse – na realidade não era um banco. Quando eu voltei do BANDEPE, eu falava assim: “Rapaz, você não tem planejamento? Não tem orçamento?” na época do banco estar fazendo orçamento. 79...”Você não tem?”  “ Nós temos.” “Mas o orçamento de vocês não...” Eu dizia: Tudo bem. É ruim, mas... E nós temos porque vocês obrigaram. O BNDE obrigou a gente do BANDEPE a fazer orçamento.Eles não tinham a época porque não precisavam. Depois, começou a...

 

P/1- ...Virar banco.

 

R - Lógico. Aí depois começou. Esse institucional é interessante de desenvolver que... Mas então voltando aí a minha... Nessa fase de 85,86 – por sinal que depois a gente pode até ver, que eu não me recordo direito. O Detmann – estava falando do Detmann – ele começou a batalhar dentro do banco, pra criar uma área institucional. Nós tínhamos a área de Representação, que na realidade era uma área que promovia eventos e tal, mas que não se preocupava com a parte de divulgação institucional do banco. Então, eu fui trabalhar com o Detmann, ele me chamou pra trabalhar com ele... O que aconteceu? O Ditmann era o chefe da Representação em Brasília, eu era em Recife e tinha o Laércio que era em São Paulo. E nós três, volta e meia estávamos nos reunindo aqui no Rio, trocando ideia junto com o pessoal da área de Representação, e nós tínhamos evidentemente... E como eu digo, o representante lá fora, ele tem que ser ao mesmo tempo o advogado da região dentro do banco, e tem que ser o despachante do banco lá. Quer dizer, ele faz as coisas do banco na região, mas ele defende a região. É um negócio difícil, porque você tem que defender os dois lados. E o Detmannm, nessa parte...Então nós ficamos muito amigos, no sentido de que sempre tínhamos uma reunião juntos, porque mais ou menos pertencíamos à mesma área, e ele acabou conseguindo criar uma área de Representação no banco, que passou a ser a área de Relações Institucionais. Por que? Porque ele via isso aí, a importância do banco lutar no Congresso, a dificuldade que o banco teria pra recursos, que é o que está acontecendo de lá pra cá. Então, nós temos que ter uma participação, dar satisfação à sociedade, coisa que nós nunca demos, porque nunca precisou dar. Procurar ver, saber como é que a sociedade vê o banco. Então, isso o Detmann passou realmente essa semente dentro do banco, e eu fui trabalhar com ele nessa área, nessa época. A Beth foi trabalhar com a gente também, e pessoas que estão lá até hoje. E são pessoas que não são aquelas pessoas da área operacional. Um cara do dia a dia. O cara que conhece muito de siderurgia, conhece muito de cimento. Eu não conheço nada disso, graças a Deus. Mas, eu tenho uma visão geral do banco bastante boa. Participei da evolução do banco esse período todo, e aí, fui trabalhar com o Detmann. Nós começamos a fazer esse trabalho, nós trouxemos algumas pessoas pra falar. Nós criamos uma... (como é que a gente chamou?) Uma comissão institucional no banco, de diversas áreas. Chegamos a levar umas duas vezes essa comissão pra Brasília, pra deputado fazer a palestra pra gente. Pessoas do banco até espalhadas. Isso até acabou. Não sei se a Beth pensa em retomar isso. Mas enfim, isso foi importante por banco na época. E vai ser até mais, porque a gente vê aí o presidente do banco à toda hora está sendo convocado pro Congresso, coisa que no passado não existia. Nunca existiu isso.

 

P/1 – Agora, só pra gente estar encaminhando pro final, você agora está em que  setor?

 

R – Não. Deixa eu falar só antes... Que você falou na volta, na dificuldade da volta. Aí, quando chegou em 70(?) – eu acho que é um dado importante a gente falar – na época do Collor. Isso foi uma data marcante no banco. O que o Collor fez? Ele, como mudou muita coisa... A época de privatização foi uma coisa que foi empurrada goela abaixo do banco – ele tirou todo mundo que tinha cabelo branco no banco, nas chefias. Inclusive eu. Então nessa época também saí e logo no ano seguinte eu fui fazer um curso na Itália, um curso no IRA (?) na Itália, passei seis meses lá. Foi muito bom. Excelente. Me deu uma outra visão de mundo, de saber viver. Uma visão fora da influência americana, negócio de PIB, não sei que. Foi a primeira vez que ouvi qualidade de vida. Até vi um cara na Veja, falando que qualidade de vida não existe. Um empresário, um maluco, que vai dizer uma besteira dessas. Está hoje na Veja. Hoje ou essa semana agora. Qualidade de vida é o cara trabalhar até se matar. Isso não existe. O cara não pode...Ele pode até fazer isso, mas você passar isso como uma coisa de... Isso é uma coisa que...Entendeu? Mas esse foi um lado importante. Esse curso pra mim foi muito bom. Aí eu voltei, e fiquei mais uns dois meses...Dois meses não. Fiquei uns quatro anos perambulando pela área financeira, voltei pra área de crédito que é a área de enquadramento onde você tinha os projetos. A visão macro, quando o projeto entra no banco, que eu sempre gostei de conversar com o empresário. Enfim, estar no mundo real. Está certo? Eu sempre digo. Aí, quando chegou em 96, eu fui pro gabinete do presidente. Eu fui ser subchefe de gabinete. Aí peguei o Luiz Carlos, André Lara Rezende, Pi Boache (?) e o Calabi. O Calabi eu pedi pra sair, que eu não agüentei. E aí eu estou há dois anos no ____. Mas aí tem toda parte de privatização da Vale do Rio Doce, toda essa parte estava no gabinete do presidente. Então, esse processo é um processo que alguém vai falar aqui pra você,

 

P/1- A gente está indo pra entrevista temática.

 

R - Pois é. Eu acho que o negócio da Vale foi um negócio que vale a pena, porque foi um negócio importante no banco, mas eu, pra falar sobre a privatização da Vale, tem gente que eu acho que ia falar muito melhor.

 

P/1 – Terminamos perguntando qual é agora dentro dessas metas, de 2000-2005, como é que você vê essa política direcionada pra um desenvolvimento regional mesmo.

 

R - Olha, eu acho que a grande coisa que nós temos que fazer hoje, o banco.  Porque o que eu acho é o banco. É exatamente o problema do emprego. O problema da exportação, que é emprego e que é divisa. Pro país não ficar tão dependente do capital externo, como está hoje. O regional... O problema do regional é um problema... Um problema que eu acho um dos grandes problemas do país hoje – hoje não. Já de algum tempo – e que até está sendo resolvido, mas não por política, mas pela organização que está havendo, é o problema da natalidade. O país nenhum no mundo consegue desenvolver com essa natalidade que a gente tem. Então, você tem a Igreja de um lado. Não deixa o governo fazer uma campanha a favor do controle da natalidade. A natalidade responsável, uma coisa assim, que eu acho que é fundamental. Acho que um dia será, mas deixa tocar. Então o banco hoje, você entende a política do banco, você tem diversas coisas, e você tem ali a parte da pequena, média empresa que é....Acho que tudo na geração de emprego. Eu acho duas coisas fundamentais dentro desse... Eu acho que são sete pontos do banco, no planejamento estratégico, é o problema da pequena e média empresa, que é a geração de empregos, desenvolvimento da exportação que é geração de empregos e geração de divisas. A parte de desenvolvimento regional, que é fazer com que o homem não venha pra cidade, que dê condições de sobrevivência pro cara no campo porque senão você vai inviabilizar...O problema da segurança é consequência disso tudo. Ao lado do problema do tóxico, então você tem...Você vai inviabilizar as grandes cidades, se a gente continuar desse jeito que nós vamos, nós vamos inviabilizar. Infelizmente, eu vejo muita dificuldade nisso, por causa desse problema. Quer dizer, o aglomerado urbano, você não controla. É incontrolável. Então, isso é que eu acho que... Não sei se...

 

P/2 – E pra finalizar, queria fazer uma pergunta. O que é o BNDE pro senhor?

 

R - O BNDE, pra mim...

 

P/1 –O BNDE ainda é o BNDE, sem S?

 

R – A gente tem o hábito de falar BNDES porquê... Não é nada contra o social do nome. Pelo contrário eu acho até que hoje, a importância do S é que é... Eu acho que o BNDES fez nesses 40... De 1950, quando foi criado, 52, sei lá, até há uns cinco, seis anos atrás, o banco fez, como até agora, fez muito pelo país. Quer dizer o banco é o país. Porque o banco, não é o banco que faz. Isso aí é política de governo, essa coisa toda. Gostando ou não gostando, enfim, foi feito. Agora no meu modo de ver, o que foi feito, foi feito a um custo muito alto. Então eu acho que a discussão hoje, não é nem se vale à pena ou não, porque o custo já foi feito. Não tem como você não...Você discutir: “Foi bom, não foi. Foi ruim”. Não tem jeito. Já foi feito, então o que a gente tem que fazer hoje é tentar resgatar esse custo. Ou seja, esse custo é o que? É a parte social, é a miséria que nós temos nos grandes centros. Você tem a violência. Tudo consequência desse custo social. Então eu acho que esse próximo governo, quem quer que seja, tem que ir por esse lado. Tem que haver um processo de melhoria da social, dar condições ao homem pra não vir pra grandes cidades. Por exemplo, a gente está ouvindo até agora, tem uma novela aí que fala em negócio de tóxico... Porque normalmente, as coisas são sempre incentivo mau, incentiva a família... Você só vê em novela pai gritando com a mãe, o filho com o pai. E eu acho que isso é totalmente contra... Essa novela, o Clone – eu não vejo não, mas pelo que eu já li e pelo que eu tenho escutado – ela fala do problema do tóxico, que é um grande problema nosso. Do Brasil. Do Brasil nada. Da humanidade. Então eu acho que a gente tinha que fazer novelas pra mostrar pro cara que no campo ele pode sobreviver, ele pode se dar bem. Porque tudo só mostra o cara aqui na cidade. O cara na cidade. O cara na cidade. Então, todo mundo vem pra cidade. E realmente é verdade. O cara vem porque não consegue sobreviver lá. E com isso cada vez complica mais a solução dos problemas nossos. Mas eu acredito. Sou um cara que acredita no país. Acredito, acho que o banco vai continuar tendo um papel importante nesse desenvolvimento, e eu acho que o banco, pessoalmente pra mim, foi um excelente... Eu diria que eu sou o que sou graças ao banco, e espero continuar. Espero que o banco continue...Daqui a pouco eu me aposento, mas espero que o banco continue, com as novas gerações a fazer o que o Brasil precisa, enfim, o que for preciso pra gente melhorar a qualidade da nossa vida. Eu acho que qualidade de vida é a melhor coisa que a gente tem que correr atrás. Está bom?

 

P/1 E p/2 – Obrigada pela entrevista.

 

R - Acho que eu falei demais. (risos)

 

P/1- Que nada. Foi ótima.

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