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História

Inovação total, só na Ducal

História de: Krikor Tcherkesian
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2005

Sinopse

Identificação. Família e sua origem armênia. As dificuldades com a Revolução de 32 e a mudança de atividade do pai. A infância dentro do ambiente das feiras-livres. Fornecedores, produtos e suas embalagens. As feiras que fazia e suas obrigações. As formas de pagamento e as entregas a domicílio. A conciliação entre trabalho, escola e lazer. Montagem do Supermercado Kiko. Dificuldades de abastecimento e distribuição das mercadorias. A Ducal. O trabalho desenvolvido na Warner. Avaliação do comércio. Sonhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Krikor Tcherkesian, nasci em 1º de maio de 1938, em São Paulo, sou descendente de armênios. Meu pai era Pedro Tcherkesian, minha mãe Annaki Tcherkesian, ambos de Adana, hoje Turquia, também descendentes de armênios. Meu pai veio para o Brasil numa contingência especial, porque a irmã dele, que tinha 14 anos, estava se casando com um rapaz, lá no Líbano, e ele estava mudando para o Brasil. Aí, como a família não permitia que ela viesse sozinha para o Brasil, meu pai foi incumbido a vir junto para tomar conta dela. Ele veio com nove anos de idade. Primeiro, tiveram que descer em Pernambuco, mas não gostaram do local e através de contatos eles descobriram que o local ideal, onde havia muita gente descendente de árabe e alguns armênios, era São Paulo. Então eles, através de muito esforço, conseguiram chegar em São Paulo e se estabelecer aqui. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO Inicialmente, meu pai trabalhava numa fábrica de sapato, na Rua Barão Duprat, perto da Rua Vinte e Cinco de Março e, depois, com alguns amigos, eles abriram uma fábrica de sapato que prosperou muito. Mas em 1932, com a Revolução Constitucionalista, eles tiveram problemas e tiveram que encerrar a atividade, já que a economia paulista sofreu uma grave crise. Aí, um senhor de idade disse pra ele que, como ele já tinha filhos, a melhor maneira de se ganhar dinheiro era trabalhando na feira, porque se comprava mercadoria nos atacadistas, vendia-se na feira e no dia seguinte já tinha um lucro para sustentar sua família. E assim ele fez, a partir de 1938. Assim, eu praticamente nasci dentro da feira, porque eu era muito pequeno e minha mãe me levava pra dormir embaixo da barraca. E minha infância foi toda dentro do ambiente comercial, especificamente nas feiras livres. Fui crescendo e aprendendo, descobrindo as técnicas de venda e comércio e tive uma grande sorte, porque morávamos ali nas imediações do maior centro atacadista da época, que eram as ruas Paula Souza, Santa Rosa e 25 de Março. Então eu, com cerca de 12 anos, já mantinha contato com todos os grandes atacadistas, cerealistas de São Paulo, que eram os donos daqueles depósitos na Santa Rosa, que eram os Alves Veríssimo, Dias Pastorinho, Dias Martins, Épio Monteiro, Lascani e Abdo Aires. E fui aprendendo que precisava ser rápido e ganhar dinheiro. Era o melhor meio de conseguir realizar todos os seus objetivos. E, assim, aprendi que é preciso ter mercadoria boa, bonita e barata, pra poder ter êxito na atividade comercial. Como feirantes, éramos marginalizados pelas indústrias da época. A única indústria que dava apoio a todo o comércio de São Paulo, até do Brasil , era a indústria Matarazzo. Matarazzo, na verdade, foi a maior empresa que deu suporte a esse crescimento que o Brasil viu. O Matarazzo vendia produtos na Vinte e Cinco de Março cujo prazo de pagamento era 365 dias, fora o mês. Eram tecidos. Nessa área, os árabes é que tomavam conta. Na área de alimentos, que era a área dos portugueses lá da Paula Souza, Cantareira e Santa Rosa, o prazo era 180 dias, fora o mês. Com isso, não tinha inflação, não existia correção monetária, e o Matarazzo cumpria o pedido. Ele tinha obrigação moral de entregar um pedido. Às vezes, uma mesma mercadoria que ele estava vendendo a 12, ele nos entregava a seis, porque o pedido tinha sido tirado com esse preço. Então essa indústria alavancou o comércio no Brasil de tal forma que todas essas grandes lojas e esses grandes depósitos cresceram. A barraca do meu pai se chamava Empório Latarias, mas, na verdade, era de gêneros alimentícios: arroz, feijão, azeite... E naquela época era difícil, o Brasil não tinha produtos pra atender à demanda. Era normal faltar farinha de trigo, açúcar, azeite. Existia muito câmbio negro e as firmas não entregavam. Na minha juventude toda eu me acostumei com a falta de produtos pra vender e muita gente ganhou dinheiro especulando em cima desses produtos. A embalagem da farinha de trigo imitava o saco grande de 60 quilos. Tinha outras embalagens de farinha de trigo que eram papel celofane e essas estouravam muito e a gente perdia mercadoria. As embalagens de azeite eram mais ou menos iguais às de hoje, mas eram mais ricas, mais onerosas. Hoje elas são mais simples e descartáveis. Nós trabalhávamos todos na feira, eu, minha mãe e meu pai. E tínhamos os ajudantes. Nós morávamos numa casa de dois andares, e tinha um porão. Nosso estoque ficava nos dois andares de baixo. Eram tempos difíceis. A gente acordava às 4h, todos os dias, pra ir montar nossa barraca na feira, era dificílimo. Mesmo embaixo de chuva e, às vezes, os empregados não apareciam, tínhamos que descarregar e montar tudo até às 7h, quando começavam a chegar aquelas donas de casa que compravam bem, mas era uma época gostosa. Meu pai tinha matrícula na prefeitura, era número 381. E trabalhava em uma feira no Largo do Arouche e em outra na Praça Roosevelt, meu pai tinha as melhores localidades. Como ele era um dos mais antigos, ele tinha o privilégio de ter os melhores pontos. E nós tínhamos uma boa clientela. Segunda-feira era no Jardim Paulista, domingo era na Lapa. E naquele tempo não existia supermercado, não existiam pontos de venda. O público esperava a feira se instalar pra invadi-las, era uma multidão de pessoas querendo comprar, porque não existia distribuição de alimentos como existe hoje. Eu arrumava as mercadorias para expor, fazia aquelas pilhas de quatro metros de altura de sabão, ficava montando, devagarinho. Tinha uma hora pra terminar aquilo. Depois, fazia pilhas de óleo, era interessante o volume que se vendia. Nós tínhamos feira em que se vendiam mais de dez caixas de óleo. Vinte caixas de sabão. A população era ávida por comprar. Hoje não existe mais esse volume. Eu era garoto, devia ter uns 15 anos, e começou a surgir na feira as pessoas procurando óleo Mazzola. Eu, como gostava de ser bem informado, descobri que quem fabricava aquele óleo era a Refinações de Milho Brasil, acho. Então eu fui no escritório deles conversar, e eles ficaram surpresos que eu perguntava daquele óleo porque ele ainda não havia sido lançado. Aí eu falei: "Não sei, eu trabalho na feira e toda a mulher chega e me pede óleo Mazzola. Eu não conheço esse óleo mas eu queria comprar uma ou duas caixas só para atender minha freguesia". Aí eles falaram: "Pra você nós não podemos vender porque você é feirante, você não tem inscrição, não tem crédito, mas nós vamos te indicar uma pessoa que vai receber esse óleo na semana que vem. Você vai lá e ele vai te arrumar uma caixinha". E eu descobri que essa empresa usou os médicos para divulgar o produto. A propaganda que eles fizeram foi em cima dos médicos, que receitavam óleo Mazzola pros clientes, que vinham procurar na feira! Foi o produto que teve a maior venda que se podia imaginar. Eles massificaram em cima dos médicos essa propaganda de tal maneira que o produto não dava conta. Todo o mundo queria óleo Mazzola. Foi receitado porque evitava problema de colesterol, problema de coração, e a técnica que eles usaram foi tão perfeita que esse óleo, até hoje, é campeão. CLIENTES As feiras que eu fazia eram todas de primeira, com pessoas de bairros abastados. Ninguém regateava preço, nós tínhamos uma banca muito boa e nós tínhamos uma clientela muito especial, que eram mulheres ricas. Elas vinham, faziam o pedido, a gente já separava na hora, já tinha pessoas pra entregar na casa delas e algumas até fechavam os olhos na hora de conferir a compra. Mais tarde eu vim descobrir que elas faziam aquilo pra ajudar a gente a vencer do que compra que ela estivesse fazendo. Eu era muito garoto, ajudava meu pai, minha mãe. Então era uma maneira, talvez, de elas ajudarem a gente. Eu tinha muita freguesa assim. Entregava mercadoria na Avenida Brasil, com aqueles jardins todos, eu entregava nas residências os pedidos que eles faziam e ficava surpreso que as mulheres não conferiam nada. Eu achava que elas eram bobas, mas, 40 anos depois, percebo que elas queriam, no fundo, ajudar a gente a ganhar dinheiro. EDUCAÇÃO Eu estudava à noite. Eu fiz o primário em dois turnos, de manhã e à tarde, no colégio José Bonifácio, que era da colônia armênia. O ginásio e colegial eu fiz no Alfredo Pucca, à noite. Depois eu fiz contabilidade, na Rua São Caetano, no Marechal Deodoro. Sempre estudei à noite. Nunca pude estudar de dia. E me formei em Direito, em Guarulhos, estudando à noite. Acho que foi uma grande coisa a escola à noite. No primário, a escola que eu fiz era muito boa, muito boa mesmo. Não sei se hoje há escolas de primeiro grau que tenham a riqueza que aquela tinha. E eu não conseguia pegar o primeiro turno porque eu tinha que estar na feira. Então nós terminávamos a feira, o caminhão me deixava na porta da escola e eu pegava só a parte da tarde. Ia sem almoçar, mas eu tinha sempre o carinho das professoras. Elas levavam em conta a minha dificuldade, então isso me ajudou muito. Mas não tinha esse negócio de brincar. O que eu podia fazer era ir ao cinema mais tarde, pegar aqueles filmes na cidade, no Cine Dom Pedro, onde é o Vale do Anhangabaú, e talvez comer um sanduíche de salsicha, que era o McDonald's da época, no Três Porquinhos. A gente tinha um dinheirinho pra comer aquele sanduíche e lá pelas 19h eu estava em casa de novo, pronto pra me preparar pro dia seguinte. Mas, foi o meu momento de maior riqueza, nessa época, por isso eu acho importante que qualquer criança comece a trabalhar cedo. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – SUPERMERCADO Na feira eu trabalhei mais ou menos até os 23 anos, e nessa época começaram a surgir os meus problemas porque meus amigos, todos também descendentes de armênios, eram industriais. Mas o único que tinha dinheiro no bolso era eu. E eu era feirante. Então determinados programas eu não conseguia acompanhar porque eram programas que eu teria que ficar até mais tarde: baile, essas coisas. E eu abria mão de ir. Mas qualquer outro lugar que a gente ia, quem seguravatoda a despesa era eu, que tinha dinheiro. Os pais deles eram industriais, todo mundo tinha fábrica de sapato, porque os armênios todos tinham fábrica de sapatos, mas eles tinham aquela mesadinha do pai que não dava pra nada. Mas eu já movimentava um volume de dinheiro muito bom. E isso meu pai sempre falava: "Olhe, você tem dinheiro no bolso. No nosso ramo, todo o dia tem dinheiro no bolso, os outros têm que esperar 30 dias alguém pagar. Tem que descontar duplicata no banco. O nosso não! É dinheiro todo dia no bolso." Isso aí foi abrindo meus olhos, fui aprendendo. Comecei muito cedo a sentir que a força do dinheiro movimenta tudo. A feira era muito sacrificante, era muito dolorido o negócio. Por mais que você trabalhasse, você não era bem visto como comerciante, como empresário. As próprias indústrias já te marginalizavam, elas não te vendiam mercadoria, com exceção do Matarazzo, o resto era tudo complicado. Nenhuma firma te abria uma linha de crédito porque nós não tínhamos nem inscrição estadual, nós éramos isentos de impostos. Pagávamos uma taxa estimativa, uma coisinha mínima. Eu não via a hora de sair disso porque não adiantava você movimentar muito dinheiro, ter estoque, e ninguém te respeitar. Era um comércio marginal. Então eu comecei a planejar que eu tinha que tomar uma atitude pra mudar de ambiente. Na época, começou a surgir a figura de supermercado. Nos Estados Unidos já estava começando a aparecer grandes supermercados e, no Brasil, a família Simonsen, que era muito poderosa, tinha aberto um supermercado na Gabriel Monteiro da Silva, o Sirva-Se. E o Peg-Pag, que era um grupo de pessoas, tinha aberto o supermercado Peg-Pag na Rego Freitas. Aí eu descobri, na Praça Roosevelt, uma loja muito grande, boa e fui conversar com a dona, que tinha um procurador e o homem ficou impressionado comigo, já que eu era muito novo e queria abrir logo um supermercado. Estoque eu tinha, faltava só o ponto e estruturação. Aí eu falei pra ele: "Olhe, o senhor consulta a dona do imóvel porque eu eu não tenho fiador, eu não tenho nada. Vê se ela quer alugar." Ele marcou uma reunião minha com essa senhorae eu fui lá, na Avenida Higienópolis, e ela falou pra mim: "Olha, a loja é tua, você pode preparar tudo porque você vai ser nosso inquilino.” Assim eu abri o supermercado, o terceiro do Brasil. Chamava-se Kiko. Ficava na Praça Roosevelt, 158. Não tinha aquela praça como é hoje. Nela tinha asfalto, tinha feira lá em frente, por isso que eu descobri esse lugar. E quando abri o supermercado, eu avisei a todos os feirantes amigos meus. Falei: "Abre supermercado, vocês vão ver como é bom. Não tem frio, não tem chuva, não tem sol e o negócio é todo arrumado, todo o mundo te respeita e as firmas te paparicam." E era assim, as indústrias vinham lá e queriam por bandeirola, queriam enfeitar. Todo o mundo estava iniciando naquela fase. Fabricante de máquina registradora, NTR, cujo representante, hoje, é o presidente do Sindicato dos Comerciários. Ele me ajudou muito porque eles também estavam importando máquinas registradoras e me passaram todo o know-how de iluminação de exposição das gôndolas, aquela coisa toda. Assim eu consegui abrir, fazer esse supermercado funcionar e fiquei famoso nessa época. Eu não tinha noção ainda, porque eu era muito novo, do que valia o espaço de uma mercadoria colocada numa prateleira. Hoje a gente sabe a briga que é colocar uma mercadoria numa prateleira de supermercado, o retorno que ela dá em dinheiro, mas eu não conhecia bem isso. Fui aprendendo, fui ganhando dinheiro, fui fazendo os meus serviços e aí me surgiu a compra da Água São Lourenço. Um amigo eu tinha me ofereceu a Água São Lourenço. Me entusiasmei com a ideia e acabei comprando a concessão para São Paulo e Paraná. E a água era um negócio que, à primeira vista, era todo lucro. Na época não tinha embalagem de plástico, era só de vidro, então eu comprei essa concessão, mas as coisas não andaram muito bem, comecei a perder dinheiro e um amigo do meu pai, um senhor de idade muito inteligente me falou: "Você fez um mau negócio." Eu falei: "Mas a água é barata, é tudo quase lucro." Ele falou: "Mas eu vou te dar um exemplo." Ele pegou duas garrafas, jogou no alto, a garrafa caiu e se espatifou no chão. A água se esvaiu e ele falou pra mim: "Não sobrou nada. Todo negócio que você tem, quando quebra, cai, não sobra nada.” E dito e feito. Perdi muito dinheiro, fui obrigado a vender o supermercado pro Pão de Açúcar, foi a primeira loja que eles compraram, mais tarde, vendi a água São Lourenço também, porque só dava prejuízo. Nessa época, as mercadorias já eram expostas como hoje. Todas essas informações vieram dos Estados Unidos e quem foi precursor foi a NTR - Caixas Registradoras Nacional. Eles nos traziam folhetos americanos e iam mostrando como deveria ser a iluminação do produto, sua exposição, que produto deve ficar perto de qual. Hoje, o Brasil já tem know-how suficiente pra até exportar essas técnicas, mas na época foi muito difícil, havia problemas com fiscalização. No dia em que eu iria abrir o supermercado, prefeitura não deixou porque as paredes tinham que ser ladrilhadas. Era uma fortuna na época. Então eu descobri um funcionário da prefeitura que me disse: "Olha, surgiu uma tinta nova aí que é a mesma coisa que ladrilhar, chama-se látex. Você vai passar o látex e nós vamos quebrar o galho pra você aqui.” Assim eu fiz e consegui abrir o supermercado. Sempre tem um jeitinho. O supermercado era um paraíso, era um negócio. Mas tem uma coisa ruim: você pode ter três mil produtos, vem uma mulher e pede um que não tem. Não podia faltar mercadoria. Hoje não, ela compra o que tem, mas naquela época havia uma fidelidade da dona de casa com o produto que era um negócio fantástico. Naquela época, nós tínhamos uma tabela simples, que era CLD - Custo, Lucro, Despesa. Você comprava uma mercadoria, aplicava o CLD em cima dela e tinha quanto ela iria custar. Você botava na prateleira e vendia. Hoje, como tem inflação, esse negócio morreu. Não tem como você fazer o valor do preço. Felizmente, está o Plano Real aí, mas nós estamos vendo o comércio desorientado, os industriais também desorientados porque eles não perceberam ainda que alguma coisa está acontecendo na área de controle de inflação. Há 15 anos o Brasil vem escorregando nesse setor delicado, que é aferir os índices de inflação. Nenhuma autoridade percebeu ainda que tem uns meninos brincando com os índices de inflação, inviabilizando qualquer plano que o Brasil apresente. O país já apresentou dez planos e todos foram parar no lixo porque tem um diabinho trabalhando nos índices de inflação. No meu tempo de feira existiam os produtos básicos que não podiam ser alterados, sob pena de influir na inflação. Eram: gasolina, luz, telefone, que pouca gente tinha, rapadura, que no nordeste todo mundo come rapadura no lugar de açúcar, sal, feijão, arroz e querosene, por causa da lamparina, já que muita gente não tinha luz. Esses produtos eram os fatores que mostravam a inflação. Então o Brasil ficou 20 anos trabalhando em cima daqueles produtos sem inflação. Quando aumentaram uma vez o bonde de 20 pra 50 centavos, o povo saiu e derrubou tudo quanto é bonde que estava na rua. Ninguém aceitava o aumento. Hoje é um absurdo. PRODUTOS Não existia muita variedade de mercadorias. Fermento era só Royal. Você era obrigado a comprar dele. E se você não fosse falar com ele dando risada, ele não vendia mais pra você e você ficava sem comprar. As embalagens eram boas, bonitas, mas deterioráveis, hoje elas têm mais consistência. Tem produtos que sumiram. Tinha um tal de Mandiopã que vendia barbaridade. A gente expunha dez caixas e meia hora depois não tinha mais. Era um negócio tipo batata frita, nem sei do que era feito aquilo. O Brasil era carente de tudo, aqui não tinha nada. Eu me lembro que eu levava farinha de trigo pras donas de casa, eu chegava lá com sacola de dez quilos porque elas tinham pedido. E lá reuniam-se todas as irmãs, dois quilos pra cada uma, elas ficavam contentes. Me faziam chá, chocolate e davam uma gratificaçãozinha. Fiz muito isso. Vendi muita mercadoria que não existia. Porque eu ficava na Santa Rosa, eu morava ali perto da 25, Paula Souza, eu ficava vendo quem é que estava descarregando mercadoria escassa. Eu via F. Monteiro, entrou farinha de trigo. Eu chegava lá e dizia: "Eu quero uma caixa da farinha de trigo." Não podiam falar não porque já sabiam que eu brigava, arrumava encrenca. Todo dia, o ano todo faltava mercadoria. Se não faltava açúcar, faltava óleo, faltava arroz, faltava feijão. Eles entregavam a mercadoria em casa. Meu pai, coitado, tinha um medo de duplicata. Os vendedores gostavam muito de mim porque sabiam que eu trabalhava ajudando meu pai e minha mãe, eles tiravam o pedido de mercadoria que não tinha e, de repente, chegava na nossa casa um caminhão entregando 60 caixas de farinha de trigo. Mercadoria de ouro. Eu aceitava aquilo, mas meu pai via. Meu pai tinha medo do valor da fatura que chegava, na hora nós não íamos poder pagar. Porque no comércio é isso, você vai pagando, vai pagando, não sobra nada, fica pro mês que vem. E vai continuar nessa briga toda a vida toda. Então a gente armazenava lá na nossa casa e à tarde já montava todas as mercadorias pra feira seguinte. Se faltasse, havia uma solidariedade entre os feirantes, um emprestava pro outro. Então era fácil, essa parte de distribuição de mercadoria. A ORIGEM DA DUCAL A Ducal foi a precursora de toda a transformação que o comércio sofreu no Brasil. Não existe nenhuma firma no Brasil que tenha contribuído para o desenvolvimento do comércio no país como a Ducal, ela foi pioneira em tudo. Era chamado o estranho grupo Ducal, porque era um grupo autenticamente nacionalista. Era de um pernambucano arrojado que conseguiu construir essa rede fabulosa. Toda a indústria de vestuário do Brasil deve à Ducal. Layout, embalagem, publicidade, propaganda, tudo tudo foi a Ducal que desenvolveu e auxiliou os fabricantes a se atualizarem. O comércio, antes da Ducal, era de lojas estáticas, lojas pra dentro, lojas onde a pessoa tinha que entrar, as mercadorias escondidas nas gavetas, um senhor sóbrio pra te receber. O brasileiro não podia entrar num negócio desses, o brasileiro é humilde, simplório, então o nível de venda era muito baixo. O fundador foi o José Luiz Moreira de Souza, um homem especialíssimo. Em cerca de 1958, ele criou uma filosofia revolucionária. A loja é do povo. O povo tem que ter acesso a ela. Ele contratou o maior arquiteto do Brasil, Sérgio Bernardes, e o mandou pros Estados Unidos, pra Inglaterra pra ver quais as técnicas de vendas que existiam lá fora. Na França, foram na Galeria Lafayette, assessorados pelo Itamaraty, eles tiveram as portas abertas em toda a grande rede de organização nos Estados Unidos e na Europa. E lá eles foram convencidos de que a mercadoria tem que ser exposta. Porque se não expor a mercadoria, não vende. Me contaram que um dos interlocutores falou: "Escuta, mas se expor a mercadoria vão roubar. Vão passar a mão e levar embora." "Não faz mal. Está na conta. É melhor você expor e vender do que você não expor, e não vender." Então a Ducal veio pra cá, o Sérgio Bernardes fez a Rua Direita, importou vidro da Inglaterra, triplex, e fizeram a loja com a fachada tudo pra rua. Você vê essas lojas na cidade, foi a Ducal que trouxe. As lojas abriram as portas e colocaram seus produtos na vitrine, na calçada na frente da loja. E isso tomou conta do comércio de São Paulo. Logo depois veio esse processo todo da melhoria da nossa economia, a oitava economia do mundo, explodiu, foi um negócio fantástico. A Ducal abriu uma linha de crediário sem nenhuma exigência. Isso é impressionante. O comércio no Brasil é fora de série. O brasileiro vem comprar, sem carteira de trabalho assinada, sem dinheiro no bolso, sem emprego, sem conta no banco, sem talão de cheque, sem dinheiro. Ele chega na loja e fala: "Quero comprar." E compra. E nós vendemos e ele paga. Graças a isso, o comércio cresceu, o Brasil se tornou a oitava economia, apareceu de uma hora pra outra, em cinco anos o Brasil se tornou uma potência industrial. O comércio foi a mola que alavancou tudo isso. Foi a Ducal que participou disso daí. A Ducal, ela surgiu com o termo: duas calças, du-cal. Bem brasileiro. Aquilo foi um estouro, compra um terno e vem duas calças, todo o mundo gasta as calças e não gasta o paletó. Foi um gancho publicitário fantástico. Filas e filas na porta. Foi um negócio muito louco, vendeu barbaridade. A Ducal foi obrigada a fazer uma uma confecção no Rio de Janeiro que fabricava cerca de 24 mil ternos por mês pra atender a demanda das lojas. Fomos abrir uma outra no nordeste porque o volume de vendas era muito grande. Depois começou a veicular aqueles anúncios na televisão, no rádio, coisa que não existia antes. Ninguém fazia anúncio na televisão, não existia essa força. Os anunciantes na televisão eram raríssimos. Então a Ducal fez a Oferta do Dia, a Oferta Ducal, a Oferta da Semana e mobilizou todas essas indústrias para produzir. AQUISICAÇÃO DA EMPRESA Eu comprei a Ducal em 1983. Ela tinha um acervo de cliente negativo de 400 mil quando eu assumi. 400 mil pessoas compraram na Ducal e não conseguiram pagar. Em cima do acervo da Ducal, dos negativos, nasceu o SPC. A Associação Comercial criou o SPC - Serviço de Proteção ao Crédito. Hoje já existe um certo rigor na elaboração de crediário, mas o brasileiro ainda chega na loja e quer comprar sem dinheiro. CONTATO COM A MPB Eu tive a felicidade de ter como amigo o João Gilberto, que, na minha opinião, é a maior expressão da cultura brasileira. Nenhum brasileiro no mundo conseguiu elevar a cultura do país como o João Gilberto e isso eu vi porque viajei por todas as partes e notei que a música brasileira deve muito a ele. E num determinado momento me surgiu uma proposta para produzir um disco com a participação dele mais Gil, Caetano e Maria Bethânia. Eu aceitei porque era um projeto cultural, pra gente tentar mudar o cenário da música popular brasileira, que estava muito confuso. Eu trabalhei nesse projeto por cinco anos. Fui contratado da Warner, fiquei morando no Rio de Janeiro e tentamos fazer esse disco. O nosso prazo era dois anos, mas levou quase cinco. E tive duas úlceras por causa disso, todo o mundo conhece bem como é trabalhar com esse pessoal todo. O disco hoje é consagrado. Foi indicado ao prêmio Grammy, ele é muito bem vendido na Europa, nos Estados Unidos. É classificado como disco de primeira linha, ele não é comercial, aqui no Brasil ele é bem vendido também. Como produtor, eu tenho 2% do preço de capa, mas eu confesso que eu nunca recebi. Foi um prazer ter feito esse trabalho. CASAMENTO Eu me casei em 1980. Minha esposa é a Clarice Mendes Cortez. Descendente de espanhóis. Ela também é empresária, no ramo de materiais ferroviários, só que é na área da indústria. SONHOS E PROJETOS Eu acredito que nessa área comercial muita coisa vai mudar com o novo governo. Porque o comércio, com o decorrer do tempo, vai mudando o seu aspecto. No início, as ruas principais de comércio eram a Rua São Caetano, Rua Lavapés, Independência, Silva Bueno. E de repente essas ruas foram sumindo, comercialmente. Foram surgindo outras. A mudança do tráfego dos ônibus faz com que uma rua comercial que era importantíssima acabe se diluindo. A rua Augusta era uma rua famosíssima, o comércio lá era violento, o ponto comercial lá era absurdo. Mas depois que surgiu o Shopping Center Iguatemi, acabou a Rua Augusta. Hoje, o ponto lá é de graça. Não precisa pagar ponto e o comércio lá não se desenvolve mais. Então eu acho que com esse projeto do Plano Real o comércio vai mudar muito, ele vai encontrar os seus novos caminhos e o surgimento desses shoppings, outlets, essa coisa toda eu não sei como é que vai ficar. Nós vamos chegar próximo do comércio dos Estados Unidos, onde aquele mundo de pessoas comprando nas lojas não existe mais. A tendência é cada vez mais você brigar pelo seu freguês. Oferecer produto com preço é o que vai atrair, porque o deslocamento do pessoal em São Paulo também é difícil. Para atravessar a cidade pra fazer uma compra num local, você não consegue. Então eu acredito que nesses dez anos que faltam pro milênio o comércio vai mudar muito, vai se transformar demais. Meu sonho é ver o país estável. Meu sonho é chegar no banco e fazer um empréstimo pra fazer investimento com juros honestos. Hoje você trabalha com capital próprio, é muito difícil. O banco não é teu parceiro. É teu inimigo, teu agiota. Ele quer ficar com parte do teu trabalho. Isso atrapalha, por isso que o Brasil está sofrendo muito. O dia em que tivermos o banco como parceiro, em que o juro for baixo como é nos Estados Unidos e na Europa, coisa de 4% ao ano, não vai ter mais desemprego no Brasil não vai ter mais gente miserável. A miserabilidade do povo brasileiro é de 20 anos pra cá. Eu não conheço brasileiro miserável, eu estou vendo brasileiro miserável agora. Isso tudo é decorrência da má administração da coisa pública. Se esse governo tiver a inteligência de internacionalizar a área bancária, como fez o México, a Argentina e o Chile antes, eu acho que o Brasil resolve todos seus problemas. E uma coisa que eu queria aproveitar pra dizer também é o seguinte: nós nunca tivemos esse pessoal viajando de um lugar pra outro pra arrumar lugar pra dormir. E eles ainda não se deram conta de que isso é decorrência da lei trabalhista. Quando eles implantaram a lei trabalhista pro campo, todos aqueles proprietários de terra que deixavam as famílias morar na sua propriedade, davam um cantinho pra pessoa plantar arroz, plantar hortas, foram obrigados a pôr esse pessoal pra fora. Aí ele foi pras estradas, invadiu as cidades, criou essa marginalidade toda. Quase toda semana eu tenho problema policial. Toda a semana. É assalto na loja, é roubo disso, é roubo daquilo, toda semana tem um coquetel de novidades. Isso aí faz parte já do nosso dia-a-dia. Outro dia invadiram a loja de um amigo e levaram até o cofre, com guindaste. Não dá pra entender. REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Eu achei que é um projeto interessante, é um projeto que faltava. Estão de parabéns os patrocinadores desse projeto, é papel da Federação do Comércio levantar esses depoimentos para formar um material pro futuro, para todos terem conhecimento de como foi difícil esse trabalho. Só conhecendo o que houve no passado é que nós vamos poder dar valor e corrigir o futuro. Eu espero que esse projeto seja ampliado e que todas as pessoas tenham a oportunidade de saber como foi construído esse país.

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