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Inocente, puro e besta

História de: Gilmar Gomes da Costa
Autor: Gilmar Gomes da Costa
Publicado em: 31/07/2013

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Ingressei nos Correios no dia 24 de agosto de 1968. Ainda era departamento, mas eu já fui admitido como celetista, com Carteira de Trabalho do Menor, aos quinze anos de idade, “inocente, puro e besta” como dizia o poeta Raul Seixas, em uma de suas canções. Fui contratado como Entregador de Telegramas para trabalhar na APT (Agência Postal Telegráfica) de Santa Rita/PB, cidade da região metropolitana de João Pessoa, onde residia e seria o único mensageiro, entre outros colegas estatutários (Postalistas, Telegrafistas, Condutores de Malas, etc). Trabalhei na distribuição de telegramas e, eventualmente, de cartas, vez que em agências de interior se faz tudo, até o ano de 1974, quando fui aprovado num recrutamento interno para Supervisor Postal. Após fazer o curso, de quase seis meses, no Centro de Treinamento Paulo Bregaro, em Recife/PE, retornei para a minha lotação de origem, já como Gerente da Agência. Nesses 45 anos de serviços prestados a esta grandiosa empresa, até agora, teria muitos situações para narrar. Algumas vividas e outras presenciadas nessa longa jornada, interrompida apenas por férias e algumas licenças médicas. Porém vou relatar um fato que corresponde a auto-descrição que fiz no início do texto: Como na época, por não haver telefone acessível à grande maioria da população, o TELEGRAMA era o instrumento de correspondência mais rápido e eficiente. Toda comunicação urgente urgentíssima era feita por esse meio. Por essa razão, o Serviço Telegráfico funcionava em horários regulares, por meio do aparelho MORSE, de duas em duas horas de domingo a domingo, inclusive nos feriados. Trabalhava nessa operação, de forma ininterrupta, eu e o Telegrafista (Reinaldo Alves de Oliveira), parando apenas nas Sextas-feiras Santas. Nunca fiz questionamentos sobre o direito a folgas, porque achava que não as teria, dada a grande importância que tinha o TELEGRAMA para aqueles que precisavam da comunicação rápida. E era aí onde residia a minha ingenuidade. Por que não questionar a razão dos demais colegas terem direito e eu não? Não fazia isso, e quando precisava me ausentar, por alguma razão, teria que pagar a alguém para entregar os telegramas. Isso ocorria com certa freqüência, porque eu gostava de namorar e havia arranjado uma namorada numa cidade que distava mais de 120 km de onde eu morava (Esperança/PB) e todas as vezes que eu precisava viajar, para ver essa jovem, normalmente de quinze em quinze dias, teria que pagar ao filho do Telegrafista ou a outro colega, Condutor de Malas (Jorge Viana Correia), para entregarem os meus telegramas nos sábados à tarde e nos domingos. Mesmo assim, quando voltava, ainda levava broncas do APT (José Serrão de Oliveira) porque alguns não haviam sido entregues. Até que num belo dia, não me lembro de que mês, no ano de 1972 a minha Unidade recebeu um Quadro de Horário, onde constava o meu nome na última linha, com a observação: FOLGA SEMANAL AOS DOMINGOS. E foi a partir daí que acabou o meu dilema e me deu tranqüilidade para me encontrar com a namorada, sem preocupação e sem o sentimento de culpa. Nunca cobrei da empresa, esses dias trabalhados aos domingos durante quatro anos, nem me arrependo de não tê-lo feito, mas ficou a constatação de que eu era mesmo inocente, puro e besta. Portanto, essa foi a situação mais relevante, ou bizarra, da minha carreira, pelo fato de haver trabalhado durante quatro anos sem saber que teria direito a folgas. Hoje, sou aposentado, mas continuo trabalhando, como Apoio Técnico, na REVEN-PB-02 (Campina Grande) não com o mesmo vigor, mas com a mesma disposição e amor de 45 anos atrás. Sou imensamente grato à empresa, por tudo que tenho e pelo aprendizado que adquiri em todos esses anos.
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