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Informática para todos

História de: Lucília Carvalho da Silva
Autor:
Publicado em: 05/05/2020

Sinopse

O relato de Lucília descreve o desenvolvimento do projeto do Comitê para Democratização da Informática para implantação de Escolas de Informática e Cidadania no Rio de Janeiro. Desde o ano 2000, quando ela entrou para o CDI, até a implantação de escolas em comunidades da cidade do Rio de Janeiro, houve o aprimoramento do plano pedagógico e o acompanhamento feito em cada escola para ajudar na evolução e sustentabilidade do projeto.

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História completa

P/1- Lucilia, boa tarde, você poderia começar falando o seu nome completo, local e data de nascimento, por favor.

R- Meu nome é Lucília Carvalho da Silva, nasci no Rio de Janeiro no dia 15 de maio de 1977.

P/1- Lucilia, você poderia contar um pouco da sua trajetória desde a formação, desde que você se formou até entrar no CDI[Comitê para a Democratização da Informática]. Como se deu a entrada no CDI.

R- Na verdade, eu entrei no CDI como assistente de projetos, que é a área de acompanhamento das Escolas de Informática e Cidadania, num momento em que não existia diferença entre matriz e CDI Rio de Janeiro, né? O trabalho do CDI matriz era, além de dar suporte aos CDIs regionais, também era de acompanhar as Escolas de Informática e Cidadania no Rio de Janeiro, que foi onde tudo começou. E eu entrei, eu estava no oitavo período da faculdade, faculdade de Ciência Social, normalmente tem 10 períodos, então estava, assim, quase me formando. E entrei como assistente pra fazer as visitas do acompanhamento, ajudar na capacitação dos coordenadores, os encontros de coordenadores, eu fazia parte de projetos que eram feitos naquela época, realizados naquela época. Entrei, e aí em 2002...

R- Isso que ano foi?

R- Isso foi em 2000, no dia 10 de maio de 2000. E aí em 2002, quando foi criado o CDI Rio de Janeiro, né? Que aí a matriz sentiu necessidade de ter o CDI local, de acompanhar esse trabalho local, que já não dava pra dar conta, que a gente cresceu muito, né? É... nós, parte da equipe da matriz veio pra cá. Então, o Ricardo veio pra cá como coordenador geral, e eu vim como coordenadora de projetos. Uma educadora nossa ficou como coordenadora pedagógica, enfim. A equipe que trabalhava lá diretamente com as EICs [Escola de Informática e Cidadania] veio pra cá. Eu trabalhava na matriz com a Raquel, que na época era coordenadora de projetos, mas da rede CDI como um todo. E aí depois se criou a coordenação de rede, a Raquel ficou como coordenadora de rede. Eu que era assistente dela, passei a ser coordenadora de projetos sociais aqui no Rio de Janeiro. Somente no fim desse ano, é que a gente sentiu necessidade, por conta de que o coordenador geral tinha um trabalho muito externo, né? De captação de recursos, de promoção do CDI Rio de Janeiro, a gente sentiu a necessidade de ter uma coordenação mais interna, que especialmente fizesse o alinhamento das áreas de projetos sociais e pedagógicos. Então a gente criou um cargo, que se chama coordenação operacional, e eu fui chamada pra assumir.

P/2- Quando você entrou como coordenadora de projetos, qual era a situação das EICs?

R- Nossa. Quanto eu entrei, nós tínhamos 40 e poucas EICs, eram escolas fundamentais que foram criadas num momento, vamos dizer, mais juvenil do CDI, né? Que a preocupação era, realmente, colocar os computadores, fazer com que a comunidade tivesse acesso aos computadores, realizar os cursos básicos. E aí, em 2000, houve todo um movimento de sistematizar uma proposta político pedagógica mais consistente, se contratou o LIEDE [Laboratório de Informática Educativa] da Unicamp, com todo esse movimento. E as EICs, na verdade, as entidades comunitárias, elas não estavam muito preparadas pra esse novo momento. Porque o CDI cresceu, o CDI evoluiu, o CDI ganhou espaço na mídia e tudo o mais. E a gente que estava com o trabalho, queria dar mais qualidade pro nosso trabalho, e as entidades comunitárias tinham uma expectativa muito menor do que seria o espaço da escola de formar cidadania. Então, a gente entrou num momento que foi um momento muito... É, de mudar de horizontes, sabe? E complicado, também, de administrar. Porque era o momento de dizer assim: “Olha, a gente vai começar a colocar algumas regras, criar alguns procedimentos e fazer o trabalho com mais qualidade.” Não que antes os profissionais que estavam não tinham essa preocupação. Mas, pelo próprio momento do CDI, que era um momento quase que amador. E ao longo do tempo, foi se profissionalizando e a gente começou a exigir mais das entidades comunitárias.Mas, assim, a gente não tinha, já tinha a Kombi, mas ela não ficava disponível pra fazer as visitações, porque a gente dividia a Kombi com uma série de outras coisas, pegar doação e visita institucional, enfim. Então a gente tinha condições muito restritas pra fazer as visitas de acompanhamento. Com a entrada, aí eu entrei, eu tinha uma coordenadora chamada Rosângela, que desenvolvia um trabalho, tinha um trabalho interessante de acompanhamento, especialmente com os coordenadores das EICs, que sempre foram o nosso contato, porque os coordenadores são gestores locais do projeto. Com a saída da Rosângela e a entrada da Raquel, é... a gente teve, na verdade, uma ampliação dessa área. Não só pela mudança de pessoas, mas porque também o CDI já estava num momento em que a gente já estava com uma proposta político-pedagógica sistematizada, e já tinha uma exigência interna de uma melhoria dos processos, de trabalhar mesmo a perspectiva de qualidade. Então, nós ampliamos mais as visitas de acompanhamento, e aí começamos a usar a Kombi três vezes na semana pra fazer as visitas. Nós ampliamos os encontros de coordenadores, passamos a ter encontros bimestrais de coordenadores. Enfim, a gente foi ampliando mais o contato com o monitoramento e o suporte que era oferecido às Escolas de Informática e Cidadania, né?

P/1- Quantas, sei lá, qual a periodicidade das visitas de acompanhamento, qual é...

R- Pois é, em geral, uma vez, uma, duas vezes por ano se faziam as visitas. Até porque o número de EICs era muito pequeno...

P/1- Duas vezes por...

R- Por ano.

P/1- Por ano, claro.

R- Até porque o número de EICs era muito pequeno, as EICs freqüentavam muito o CDI. “Ah, quebrou a máquina, eu vou lá, levo a máquina.” Era uma relação pequena. Ela não era [uma ?] relação. Porque aí, o que que aconteceu? Com a reforma da [Érica?], também, a gente teve uma ampliação do número de Escolas de Informática e Cidadania. Porque existiam duas pressões internas nesse momento. Era ______________ garantir atividade profissional, né, de qualidade, mas também de garantir expansão pro projeto, né? As próprias comunidades ligavam: “Não, mas eu quero projeto similar na minha comunidade, como é que eu faço, e tem que enviar uma proposta, qual é o encaminhamento que precisa ser dado?” E pela própria lógica da organização, mesmo, que queria crescer, que queria expandir sua atuação, nós cedemos a essa pressão externa também. Então, em 2002, quando nós criamos o CDI Rio de Janeiro, nós já tínhamos 100 Escolas de Informática e Cidadania. Então a gente teve um crescimento, foi um boom, né? De cerca de 40 a 50 escolas em 2000, pra 100 escolas em 2002. __________

P/1- ________

R- Explodiu, né? Teve um boom. Então eu entrei, a coordenação de projetos era formada por uma coordenadora e duas assistentes, quando eu entrei. Na verdade, eu entrei como essa segunda assistente que não existia antes. E quando nós dividimos a equipe, né, criamos o CDI Rio de Janeiro, eu vim sozinha com a Tatiana. Nós duas éramos responsáveis pela área de projetos, com 100 escolas pra tocar. Então a gente teve que investir em outras estratégias de acompanhamento que não eram apenas as visitas. E aí, nós já tínhamos a Kombi disponível a semana inteira pra visitação, o que ajudou muito. Mas, aí nós criamos as oficinas locais. Foi um espaço criado, são eventos criados na sede de uma EIC e que até 10 EICs do entorno participam. Que foi uma maneira de trabalhar, também um pouco a articulação deles em rede. Essas oficinas são divididas por regiões. Foi fantástico pra gente, porque nós trabalhamos a questão do alinhamento, a possibilidade de trabalhar mais em conjunto e, também, da gente conseguir ter uma noção melhor do trabalho que estava sendo desenvolvido por eles, numa tacada só, né? Que as visitas ficavam [complicadas?]. E aí, em 2003 a gente teve a contratação, né, de mais duas assistentes. E aí ficamos com a uma equipe de quatro pessoas. E aí, deu pra fazer o trabalho com mais tranqüilidade.

P/1- Essas oficinas locais, qual é a finalidade delas?

R- A primeira finalidade é assim, olha, a gente não está dando conta de fazer as visitas. A gente precisa saber como o trabalho está sendo desenvolvido e, ao mesmo tempo, a gente tem que criar uma rede de colaboração entre eles. Então foi isso. Bem tímido, a gente não tinha nenhuma preocupação maior do que isso. E aí, novas coisas foram surgindo. Esse ano, por exemplo, nós realizamos, nas oficinas eles fizeram um diagnóstico e um plano de ação. Eles escolheram alguma área que eles queriam desenvolver um trabalho melhor. E tudo caiu muito na questão da sustentabilidade. Quer dizer, eles sinalizaram que eles têm problemas pra estar garantindo a sustentação da EIC e tudo mais, e eles quiseram investir mais na captação de recursos, então um projeto de captação de recursos. Então as oficinas locais têm sido espaços de capacitação, onde eles estão discutindo como elaborar um projeto, como abordar o parceiro, enfim. E como tocar o plano de ação que eles realizaram no início do ano. Mas, a princípio a oficina era esse espaço, mesmo, só pra se saber o que está acontecendo, trocar experiências e discutir, mesmo, os problemas e encaminhar quais eram as estratégias coletivas pra solução dos problemas.

P/2- No Rio existem quantas oficinas e quantas EICs congrega?

R- A Tatiana vai dar esses dados. Eu não sei, vocês vão entrevistar a Tatiana hoje?

P/2- Vamos, vamos.

R- Vão entrevistar a Tatiana, né? A Tatiana vai dar esse dado mais atualizado pra vocês. Porque nós somos nove áreas, mas agora, por conta dessa capacitação ela tem, ela fez uma outra divisão pra questão da oficina, porque elas não têm sido mais realizadas nos espaços, nas regiões onde as EICs estão inseridas. A gente está utilizando o espaço aqui, por conta até de estrutura mesmo, a gente precisava de um espaço maior, e a gente está usando um espaço aqui no [CEE?][Conselho Estadual de Educação]. Então eu estou com esse dado desatualizado, mas ela vai estar falando isso. E a gente ampliou, também, o encontro de coordenadores que passou a ser de 4 em 4 meses, sempre um espaço de capacitação, de troca de experiências. Então, além das visitas, nós criamos essas estratégias pra estar atuando aí no monitoramento e no suporte nas Escolas de Informática e Cidadania.

P/1- Talvez, você poderia falar um pouco, dar uma radiografia, que tipo de EICs existem no Rio de Janeiro. Quais são as áreas que vocês atuam, que público, descrever?

R- Quando eu entrei no CDI, a gente tinha, a maioria das escolas eram parceria com associações de moradores, entidades comunitárias de base, centros comunitários, _________________. No ano [chão?], que foi o ano mesmo de crescimento, 2001, né, que a gente ampliou muito o número de EICs, começaram a aparecer outros tipos de organizações. Organizações religiosas, que já trabalhavam na área social, ONGs, como a São Martinho, [que hoje já?] são conhecidas, depois a Fundação Gol de Letra. E a gente tem um mix aí, grande, são entidades muito variadas. E até por conta da nossa exigência, mesmo, sobre o projeto, o perfil dessas entidades mudaram. Mudou. Antes, bastava ter uma sala que não tivesse com infiltração e a gente botava os computadores lá. Tem alguém pra dar aula? Enfim, vamos capacitar, né? E aí, a gente: “Não, a EIC precisa ter mais qualidade.” Não só é uma questão de infraestrutura, mas quem é essa equipe, qual a experiência com a comunidade, experiência com projeto social. Porque a EIC passou a ser não só um espaço de curso de informática, mas um espaço também na perspectiva de desenvolvimento comunitário. Então, a gente precisava de uma estrutura melhor e de uma equipe, não digo qualificada, mas que entendesse mais dessa coisa da gestão do projeto local, e de educação, também. Então, a gente começou... e também entidades que tinham condições de manter o projeto funcionando, né? A gente tem um modelo, que é da auto-sustentação, da autogestão, mas o que a gente começou a observar é que algumas comunidades tinham muita dificuldade de manter a sua autogestão ____________________________, especialmente nos momentos de violência, porque os alunos sumiam, aí os alunos deixavam de pagar e aí eles não conseguiam arcar com os custos da EIC, não conseguiam manter. Então, o critério que ficou mais pra gente é: instituições que consigam manter o projeto independente da mensalidade do aluno. Então a gente começou a buscar entidades que já tinham parcerias e que tinham uma articulação seja com o governo, seja com empresas, seja com outras ONGs, isso pra gente é muito importante. E aí mudou, mesmo, o perfil. Nós temos, claro, parceria com várias entidades comunitárias que.. entidades comunitárias que acabaram ganhando um vulto grande, como o Centro Comunitário ______________ dos Santos __________________ fica no Morro dos Macacos. Mas, hoje a gente já tem um número grande de entidades religiosas, muitas igrejas. E também de ONGs. Fora a nossa, o nosso convênio com a Secretaria Municipal de Saúde, temos, nós temos cinco EICs em instituições psiquiátricas. E com a FIA, Fundação pra Infância e Adolescência, que nós temos também cinco EICs voltadas pra adolescentes em situação de risco, que aí são nossas parcerias com o governo. E temos outras EICs também de...

P/2 – Tem as penitenciárias.

R- Sim, as penitenciárias. Com as penitenciárias, por exemplo, a gente não tem um convênio formal ______com a Secretaria correspondente, mas existe um ________ simples, também, que é um acordo bem pensado. Então tem essas entidades do governo, as entidades religiosas, de um modo geral, e ONGs, uma estrutura maior, e as entidades comunitárias __________.

P/2- Esses perfis de diferenciados das entidades, organizações, instituições elas criam demandas diferentes, exigem um tratamento diferente, __________?

R- É, elas criam demandas diferentes. E hoje a gente tem estudado como encaminhar essas demandas. A princípio, do ponto de vista do projeto EIC, nós temos as mesmas estratégias. Então se a nossa estratégia de acompanhamento é visita à oficina local, é o encontro de EICs, nós fazemos pra todo mundo. A questão que muda muito é abordagem. Então, por exemplo, nas oficinas locais quando tem alguém de órgão público e a gente está discutindo captação de recursos, eles ficam um pouco de fora, porque pra eles isso não é o universo, né, eles não precisam captar recursos, não é o caso. Mas, ao mesmo tempo, eles têm demandas que o Estado ou o Município não estão dando conta, então eles também precisam divulgar o projeto, correr atrás de parcerias. Então, em alguma medida ajuda, né? Agora, nem sempre, o que a gente oferece pra EIC atende a todos os pontos que a gente trabalha, né? A gente declara que numa capacitação ou outra você vai ter um tema que vai ter maior intimidade pras entidades comunitárias do que pras entidades de órgãos governamentais. E a gente não tem feito essa diferença, mas isso tem sido estudado aqui. De que maneira a gente pode estar trabalhando essa diversidade. Até hoje a diversidade ajudou, até pra que eles pudessem conhecer outras realidades e pensar em outras estratégias. Mas hoje a gente sente um pouco essa necessidade de fazer encaminhamentos mais específicos. Mas a princípio não.

P/1- Em termos do pedagógico, teria uma adequação a essa diversidade também, teria...

R- É. A gente teve muito problema com as instituições, porque assim, essa proposta e aí vocês vão conversar com a Eliane, que vai explicar melhor. Mas, a proposta sofreu alteração desde o [LIEDE?], né, quer dizer, em 2000 saiu material do [LIEDE?], a tal. Eu, eu tenho até uma crítica interna, que é assim, que eu saiba eu acho que a maneira como a gente apresentou esse material foi ____________ . A gente discutiu pouco como é que ia ser desenvolvido isso na prática e eles criaram uma certa resistência a princípio. Porque tudo que é novo assusta, e eles estavam já acostumados a dar as aulas de informática. “Ah, vamos discutir cidadania.” E trazia um texto de cidadania. Mas uma coisa pouco sistematizada, não era processual, né? E quando a gente organizou, organizou assim, óbvio, com dados da realidade, coisas que eles já produziam. Mas aí, “Ah, mas agora tem trabalhar assim, eu tenho que desenvolver um projeto, tem que ser tão sistemático assim.” E eles criaram uma resistência de cara e a gente trabalhou muito mal, no começo, essa resistência. Fora que depois, a gente também começou a olhar o material com um olhar mais crítico. “Bom, acho que isso não está bacana.” O material tinha sugestões de projetos e aí eles replicavam os projetos, ao invés de criarem novos projetos de acordo com a necessidade daquela comunidade. Então a gente pensou assim: “Não, o que que a gente pode fazer pra rever este material.” E esse material sofreu uma alteração, no encontro da rede do ano passado, nós fechamos o que seria o nosso currículo mínimo, assim, pra ser trabalhado nas EICs. E aí saiu o plano de formação inicial dos educadores e o plano de gestão da EIC, que é essa versão mais nova, mais fresquinha. E para, como toda proposta político pedagógica e metodologia, é dinâmica e a gente acaba [entrando?] ao longo do tempo. Só que no Rio de Janeiro a gente já tinha um trabalho consolidado. Não foi como nos outros regionais que alguns foram criados, a proposta resistia e aí já, as EICs já nasceram dentro dessa proposta. No Rio de Janeiro a gente já tinha um trabalho consolidado. A gente apresentou mal esse material a princípio, e aí, a gente tinha um número muito grande de EICs pra resgatar entre aspas, né? Porque assim, como sensibilizar esse grupo, propor um outro, dizer que é assim que a gente trabalha agora. Então, foi um momento de conflito, a meu dizer, né? E a gente em 2003, no início do ano, resolvemos fazer um estágio comunitário, assim, com todas as entidades [que têm parceria conosco?] e explicamos: “Olha, nós temos essa metodologia, até aqui a gente nunca cobrou a aplicação, porque a gente entendia que era um processo de familiarização com essa proposta, mas agora a gente acha importante que ela seja desenvolvida, é importante ouvi-los, qual é a dificuldade, né?” Então a gente deixou claro a seguinte mensagem: essa é a essência do CDI, quem é EIC, precisa ser reconhecido em qualquer lugar, seja no Brasil, seja no Rio, seja no Pará, seja no exterior, né? E a, sobre a própria proposta político pedagógica é a essência. Então, se alguém chega numa EIC do CDI, e não vê essa proposta, ela não é EIC, ela é só um curso de informática. Então, a gente deixou isso bem claro pra eles, que nessa relação de parceria, a proposta político pedagógica é inegociável. A gente poderia pensar em outras coisas, “Olha, isso não está bom, isso ãã...” Certo, vamos negociar aqui, vamos ver o que que a gente pode melhorar e avançar. Agora, a proposta político pedagógica é inegociável. Então, educador que não aplica porque não sabe. Ok, isso é uma questão nossa, vamos trabalhar ______ [vamos dar suporte?]. Agora entidade que não está aplicando porque não quer, porque já tem uma outra proposta, porque não interessa. Aí a gente vai ter que sentar e rever a nossa condição de parceiro. Porque isso é essencial pra gente, faz parte do modelo. E aí, nós fechamos algumas EICs nesse processo. Algumas EICs foram fechadas por um problema de gestão, de organização, também essa questão da proposta político pedagógica. E algumas disseram “Olha, a gente não vai [topar?], a gente já tem um trabalho sendo desenvolvido aqui, é informática só o ______ desse trabalho; e isso vai dar, a gente vai ter que mexer na estrutura da instituição.” Então teve uma instituição, [inclusive, da Fundação?] São Martinho, tinha duas EICs conosco. Uma em Vicente de Carvalho, uma comunidade, e a outra numa instituição de encaminhamento de adolescentes pro mercado de trabalho. Essa, a proposta político-pedagógica mexia demais porque era tudo completamente técnico, o trabalho. Então eles disseram: “olha, a gente não quer mais.” Então a gente teve esse momento aí, que foi o momento decisivo, que as entidades tiveram que optar em ficar ou não.

P/2- E diminuiu quantas EICs?

R- Em 2003, nós fechamos [trinta?] Escolas de Informática e Cidadania. A gente não teve um impacto muito grande no número, porque também nós tínhamos escolas, entidades em capacitação. [Então, nós abrimos outras escolas?]. E um processo que foi __________ também.

P/2- ______________.

R- Porque a gente discutiu muito com a organização, antes de tomar essa atitude. Então, foi uma atitude que no momento foi consensual, a entidade também disse: “olha, ____________ [a gente não está se entendendo mais?]

P/1- Talvez, você poderia demonstrar com alguns exemplos, né, tanto das que, como era feita antes a atividade pedagógica, né, como a entidade tratava a questão pedagógica, depois da aplicação, e toda a discussão pra incorporação dessa nova pedagogia, dessa nova proposta. Talvez, ilustrar, com...

R- Posso ilustrar, sim. As EICs antes trabalhavam dando um curso, mesmo, de informática, como é um curso de informática convencional. Porque existia era o seguinte, o CDI sempre teve essa preocupação de discutir temas, de trabalhar alguma coisa que vai além da informática, mas antes isso não estava sistematizado. Então, as EICs, por exemplo, uma EIC trabalhava com a questão ambiental. Então, de alguma maneira os textos que eram digitados trabalhavam essa questão. Ah, como reciclar lixo, nãnã, enfim. Mas de uma maneira muito desorganizada. Não tinha uma preocupação de ter o projeto que saísse depois pra comunidade, pra socializar. Nada disso. Vamos digitar o texto, vamos criar tabela, e vamos fazer o Power Point lá com aquele texto que a gente leu, com aquela tabela que a gente discutiu. E às vezes eram coisas que tinham a menor relação, mesmo, com o cotidiano deles, ai a tabela.... Ou tinham, né, a tabela do futebol, enfim. Nada dentro de um processo educativo mais amplo, nada disso, tudo era muito informal. E aí chegou a proposta do [LIEDE?]. E nós discutimos, apresentamos, pegamos dados da realidade que o [LIEDE?] sistematizou, tudo mais. Quando esse material chegou na EIC: “Ah, então é assim que a gente tem que trabalhar. Legal. Eu parto do projeto de turismo, mercado de trabalho.” Aí eles replicaram, não era pra fazer isso. Na verdade, o que a gente queria era que aqueles projetos fossem só exemplos pro educador organizar e tudo mais. E eles acabaram replicando...

P/2- Um estímulo, idéia, não é?

R- ____________ tudo. Aí virou cartilha, tudo o que a gente não queria, né? E como, com essa mudança, e aí mudança aqui das capacitações também, as EICs entenderam melhor o que que a gente tentando. “Ó, a gente está trabalhando pedagogia de projetos, está desenvolvendo projetos e tudo mais.” Então, as EICs hoje, e até porque a gente fez um trabalho, mesmo, de sensibilização e tudo mais, se você for numa EIC hoje: “Ah não, eu trabalho com projetos, fiz o meu projeto, nãnãnã.” Às vezes não tem nem muito uma preocupação com a processualidade, assim, a gente espera que seja feito o diagnóstico, [globalização?], uma pesquisa, né? E aí eles fazem meio que assim, no início o curso é todo só técnico, aí duas semanas pra terminar a aula, “Bom, vamos elaborar o projeto?” Aí, eles vão lá e desenvolvem um projeto de fim de curso. Nada do que a gente queria. A gente queria associar informática e elaboração do projeto. Tem uma dificuldade, ainda, muito grande. Agora, tem uma abertura muito maior pra trabalhar essa proposta. Eles entenderam que a proposta é bacana. “Ah, mas Paulo Freire, olha o que Paulo Freire dizia.” Eles começaram a gostar dessa idéia de Paulo Freire e tudo mais, e embarcaram e aí entenderam que a EIC é mais do que um curso de informática e cidadania. Agora, aqui no Rio especialmente, tem muita aresta pra aparar, ainda não está legal e a gente investiu e quando vocês, provavelmente vocês vão conversar com a Bia, ela vai falar isso, a gente está investindo muito nos acompanhamentos ___________.

P/1- Qual EIC você acha que aplicou melhor a proposta, qual é exemplar?

R- É a gente tem um exemplo bacana, que é a Sociedade Beneficente Sagrada Família. Tem Pedreira e tem outros exemplos. O que a gente gosta dessa EIC  _____ de Niterói, uma EIC de Niterói, na Avenida Ipiranga, uma comunidade chamada Ipiranga. É porque eles têm trabalhos até com um público que não é o público que o CDI costuma atender. São crianças. Eles trabalham com crianças e adolescentes. Mas tem um público grande de crianças de 7 a 12 anos. E eles estão conseguindo desenvolver essa proposta até com o público infantil também. Então isso chama a atenção pra gente. Que a gente achava que a proposta não era muito adequada pro público infantil, mas sim pra adolescentes, jovens e adultos, terceira idade. E aí a gente viu que eles conseguiram aplicar até com as crianças. Então tem projetos ótimos. Projeto de reflorestamento, projeto _________, enfim. Eles estão desenvolvendo, toda a turma tem um projeto diferente, que começa a partir do diagnóstico da comunidade e a garotada sai pra fazer pesquisa, criançada, monitorado, claro, pelo educador. Mas, isso é interessante, né? O ________ Pedreira também tem desenvolvido projetos interessantes e a gente tem _____________ pra desenvolver. Agora tem projetos muito tímidos, né? Que, aí, é apresentação em Power Point sobre DST/AIDS, né? E projetos de reflorestamento, que trabalham o impacto, que tem uma visualização maior da comunidade. E que a gente valoriza todos os dois.

P/2- E o sistema penitenciário, quer dizer, que tipo de dificuldades vocês encontram?

P/1- Pedagógica?

R- Muita dificuldade. Inclusive quando um regional tem interesse: “Ai, eu quero criar uma EIC dentro do sistema penitenciário, dentro um presídio, de uma penitenciária.” Aí, eu viro: “Calma, não é bem assim, calma; faz um convênio com a secretaria correspondente, porque isso é muito importante.” O que que acontece com a gente? Nós, foi bem no início do CDI, e a gente não teve o cuidado, na época, nem existia esse tipo de procedimento, de fazer um convênio com, que hoje é Secretaria de Administração, mas antes era de Justiça, né, se não me engano. Enfim, de fazer um convênio com a secretaria correspondente, que garantisse recurso pra gente acompanhar e realizar as capacitações. Porque o grande problema nosso, hoje, é que a gente tem que deslocar o profissional, porque quem é o educador da EIC é um interno, e a gente faz questão que seja, né? E aí a gente tem deslocar o profissional pra dar a capacitação lá. Ano passado nós fizemos isso, então eles estão atualizados.

P/2- Não pode [vir ninguém?].

R- É não pode. Ano passado nós fizemos a capacitação, estava todo mundo atualizado, capacitado. Mas a gente tem uma demanda grande de estar sempre acompanhando, porque não é uma proposta simples, é uma idéia complexa. E aqui a gente tem feito isso com todas as EICs, fazendo os acompanhamentos pedagógicos. Então, os educadores se formam e a gente cria aqui os acompanhamentos de 15 em 15 dias, aqui no CDI. Mas, eles não podem fazer isso. Então, a gente tem que deslocar o profissional pra dar o curso, pra depois ir lá ficar acompanhando o trabalho. Isso é muito difícil pra gente, pra gente que tem 106, 107 Escolas de Informática e Cidadania. É complicado. Então, o projeto, ele funciona, mas ele poderia funcionar melhor se a gente tivesse recurso pra ter, como tem a SMS [SEcretaria Municipal de Saúde], nas instituições psiquiátricas, duas profissionais...

P/2- SMS é o que?

R- É Secretaria Municipal de Saúde, tá? Duas profissionais dedicadas a esse trabalho, elas fazem capacitação de educadores, que são pacientes do hospital. Fazem a capacitação, acompanham os planos de aula , se a gente pudesse ter isso com a penitenciária, também, seria ótimo, né? Então o CDI que tem uma estrutura menor, talvez até acompanhe isso com mais tranqüilidade. Pra gente é meio complicado, pra gente é meio complicado. E por conta dessa coisa de não ter uma verba específica, voltado pra esse tipo de atividade, o que que acontece no Estado também? Eles têm dificuldade de garantir o papel, o certificado, _______________ [imprimiu?] certificado aqui pro pessoal, eles têm dificuldade de garantir mochila, fita, enfim, todos esses problemas de falta de recurso. Porque também não se pensou dentro do orçamento uma verba específica pra [essas coisas?]. Então, tem que ser formalizado. Essa relação que a gente tem com as outras entidades...

(FIM DA PRIMEIRA FAIXA)

R- uma instituição governamental é mais complicado, por que? Porque você depende muito do diretor do momento, da mentalidade que ele tem com relação ao projeto educacional dentro do sistema penal. Aí...

P/1- ___________

R- É. Se não tem um convênio de cima, da Secretaria correspondente, é mais complicado. Agora um projeto que traz resultados ma-ra-vi-lho-sos. Temos o Altamiro, o __________, o próprio Ronaldo que vocês vão entrevistar, que são pessoas que saíram do sistema. Tiveram contato com informática através do CDI, né? Através das EICs e já estão, saíram do sistema, e estão dando aulas de informática, alguns em liberdade condicional, e tendo essa possibilidade de estar atuando na área de informática. 

P/1- E o Projeto [Morro?] do Silício tem alguma especificidade pedagógica nele, talvez explicar um pouquinho o que que é o projeto.

R- O projeto [Morro?] do Silício está pensando um pouco mais num universo que não é o universo maior de preocupação do CDI, que é a melhoria das condições de empregabilidade. É, eu costumo dizer pros coordenadores das EICs que, os coordenadores: “mas, o aluno não vai ter aula de informática, ele quer ter acesso a emprego.” Ótimo, vamos desmistificar isso. Primeiro que o curso de informática não vai resolver todos os problemas da vida dele. Porque ele vai lá, né, fazer a entrevista, seja pra ser o balconista lá da vídeo locadora, o cara vai perguntar qual a escolaridade dele. Então, se ele só tem o primeiro grau, ele já está fora. Porque o mercado está cada vez mais competitivo, até pras tarefas mais simples. Então, assim, não é só o curso de informática. Mas a escolaridade conta, comportamento, postura, linguagem, enfim, uma série de coisas. Então vamos desmistificar essa história de que informática vai garantir tudo. Agora, é uma demanda, né? É uma demanda, que é uma demanda que não pode ser ignorada. Então, a gente trabalha a EIC numa perspectiva mais social, de _______ acaba ajudando na melhoria das condições de empregabilidade, porque ele tem acesso a uma ferramenta nova, que é a informática, que é importante. Mas isso não é tudo. E a gente trabalha sempre [a perspectiva?] do desenvolvimento comunitário numa perspectiva mais ampla. Não na questão do trabalho, em si, do acesso ao emprego. Só que há uma demanda que a gente não pode ignorar _________. Então a gente desenvolveu um projeto que pudesse estar trabalhando dentro dessa linha. Bom, o aluno passou pra EIC, muito legal, ele voltou pra escola porque passou pela EIC. Ele mudou suas relações conforme ele passou pela EIC, ele está preocupado agora em garantir que aquela comunidade seja uma comunidade melhor, que as pessoas tenham qualidade de vida, ele está agora na associação comunitária, sendo lá um militante da associação comunitária, mas e daí? Ele precisa trabalhar, né? Então vamos pensar num projeto que a gente consiga garantir alguma coisa nesse sentido. E é um projeto especificamente de capacitações mais avançadas, pra que ele possa, realmente, desenvolver alguma coisa profissional _________-. Então a gente tem o curso de [vídeo?] digital, que está sendo desenvolvido em parceria com a [Elsie?] também. É, o maquinário dessas escolas do projeto [Morro?] do Silício foi doado pelo [BID?][Banco Interamericano de Desenvolvimento], que é um projeto também com a parceria do Viva Rio, e a gente tem as nossas responsabilidades nesse projeto que foi equipar as EICs e garantir capacitações mais avançadas. Então, a gente realizou algumas capacitações de Excel com empreendedorismo, e aí o Sebrae também nos ajudou nessa capacitação. Sempre garantindo uma postura empreendedora, formação de cooperativas e pequenos negócios na comunidade. De resultado concreto, a gente tem a cooperativa, né, do Morro dos Macacos _______, que foi a comunidade realmente que mais absorveu a proposta e conseguiu desenvolver, né? Todas as outras ainda estão muito naquela fase, “Ah, estou absorvendo a capacitação” ou “Instrumentalizei o educador, agora, em ferramentas novas, mas isso não se redundou num projeto coletivo, mesmo, de melhoria da empregabilidade.” Agora o Morro dos Macacos, não. O Centro Comunitário _______ dos Santos, [CEACA?][Centro Educacional da Criança e do Adolescente-Lídia dos Santos], eles criaram a cooperativa, eles conseguiram colocar todos os computadores, todos os projeto do Centro em rede, depois que participaram do curso de redes aqui no CDI, e muitos dos cursos que eles estão oferecendo foram cursos que eles tiveram aqui conosco. E as pessoas conquistam serviços de informática porque participaram indiretamente aí do projeto [Morro?] do Silício, recebendo os cursos dos educados. Então, é um projeto agora, uma experiência piloto, a gente, na verdade assim, é claro, de uma maneira a gente cometeu erros na elaboração desse projeto, a gente ________ é melhor mexer aqui. Avançar um pouco mais nesse sentido. A gente entendeu também que não adianta, na escolha das entidades que participam do [morro?] do Silício, cinco foram escolhas do próprio [BID?], o [BID?] que escolheu, e as outras que compõem foram escolhas nossas. Então, essa escolha externa foi muito complicada, porque algumas entidades não entenderam qual é essa proposta, que é uma proposta ampla de melhorar as condições de empregabilidade daquela comunidade. Então, receberam os cursos, mas não fizeram nada por isso. Receberam máquinas novas, mas sub utilizaram, enfim. Então, hoje, a gente, foi uma experiência piloto, mas a gente já pensa que esse processo de seleção das entidades é fundamental. Que a gente errou um pouco nisso. Tem que perceber quais são as entidades que já têm essa vocação, né, que é o desenvolvimento, mesmo, de negócios na comunidade. E aí, eu não sei nem se vocês [tiveram a oportunidade?] de conversar com o pessoal da [USAID?][United States Agency International Development] lá, do projeto da [USAID?] lá na ________.

P/2- Não, não.

R- Que com os nossos erros, né, eles já estão deslanchando lá. Que aí tem sido um projeto interessante pra realidade, mas voltado para jovens de uma faixa etária específica...

P/2- Não um projeto...

R- Mas que vão estar utilizando os cursos que foram oferecidos pelo [Morro?] do Silício, que estão sendo oferecidos. Então, não adianta equipar a entidade precária com uma estrutura bacana, se ela não entende, especialmente, o que é essa proposta.

P/2- Em termos, assim, de uma pedagogia, faz diferença ser ligado à internet ou não? O que que muda o fato de uma EIC...

R- Faz toda a diferença. A gente já conseguiu, aqui no Rio, eu não tenho esse número de cabeça...

R- O que que muda também.

R- Mas, a gente conseguiu uma parceria com o Gesac [Governo Eletrônico Serviço de Atendimento ao Cidadão]. Fim do governo...

P/2- Gesac é o que?

R- É Governo Eletrônico Serviço de Atendimento ao Cidadão. É um programa do governo federal. Fim do governo FHC, início do Lula, a gente conseguiu. E aí, nós conectamos algumas escolas Brasil afora. E, localmente, aqui no Rio, a gente conseguiu uma parceria com um programa de conector com as Escolas de Informática e Cidadania. Fora as entidades que também contrataram serviço via [box?]. Isso fez total diferença, porque é, enfim, internet é um mundo de informações e que eles ali restritos na comunidade deles não têm, né? Então, um projeto elaborado com a ajuda da internet, ele é muito mais rico, porque se tem a oportunidade de pesquisar não só os recursos locais, mas o que que aí fora aconteceu, que outras comunidades estão desenvolvendo coisas similares, que tipo de material está sendo elaborando, o que eu posso trazer pra minha comunidade, enfim, né? Foi uma coisa, mesmo, super básica que a gente às vezes desenvolve pouco, mas que é uma necessidade deles, de ter _______ acesso à internet, de poder utilizar, de ter sua conta de e-mail. Que um jovem da classe média tem, não é pecado nenhum dizer que eles também querem isso, né? Que não garante uma proposta lucrativa mais ampla, mas que é, faz parte do processo de inclusão, de ter acesso, mesmo. Que isso faz toda a diferença. E é uma pena que a gente não tenha todas as escolas conectadas. Nós estimulamos muito até aqueles que contratam gente pra um serviço, como é feito no Morro dos Macacos, que tem feito, tem sido realizado em outras comunidades também. Eles cobram pela hora de uso 1 real, uma taxa muito...

P/2- Simbólica.

R- [abaixo?] do valor do mercado, simbólica. Mas com isso eles conseguem manter a assinatura, enfim. A gente tem estimulado. Mas o ideal é que a gente consiga __________.

P/1- Esse projeto da USEID...

R- [USAID?]

P/1- [USAID?]. Como que é exatamente e o que é [USAID?]

R- É um projeto com recursos da [USAID?] e que participam uma ONG americana a [Air?] e CDI e Brás, né?

P/1- Tem nome o projeto?

R- É Interjovem.

P/1- Ah, tá.

R- E é um projeto que o CDI, a responsabilidade do CDI no projeto são as capacitações. Basicamente, as capacitações, ________ formação específica ________ , que é um outro modelo de dar condições de empregabilidade que difere um pouco da linha mais geral do CDI.

P/1- Não chega a ser um projeto de empreendedorismo.

R- Também.

P/1- Também. Empreendedorismo?

R- É.

P/2- Você, faz o alerta, você na sua conversa com as entidades faz o alerta de não esperar muito em termos de emprego, né? Quer dizer o aprendizado da informática não ter...

R- Ele é importante, mas ele não é determinante.

P/2- É, não é determinante. Mas que tipos de resultados que podem ser esperados, com certeza, de um curso desse ou de um movimento desse?

R- Da perspectiva de emprego... é claro que a gente já teve gente que passou pelos cursos, tem um menino, o Diego, que a gente perdeu até um pouco de contato com ele, ao longo do tempo, que está numa empresa. Ele desenvolve site, ele ganha bem, sabe?

P/1- Objetivo [alcançado?].

R- É. Eu preciso me localizar. E... Onde eu estava , mesmo?

P/2- Estava _________.

R- Ah, legal. Então, ele era mais presente agora a gente ficou, enfim, a vida mesmo afasta. É pessoas, hoje, que estão trabalhando em outras ONGs, na ______ trabalhando em outras ONGs. Isso existe, né. A gente desmistifica pra num potencializar demais.

P/2- Claro, claro.

R- Uma coisa que não é real. Agora, até no último rela... avaliação [do Zeca?] que foi feito, que fala que muitos voltaram pra escola. Do ponto de vista da educação é super interessante. Porque eles passam a ter uma noção de informação, de interação, de trabalho em equipe, que muitos deles não tinham antes. E acesso a outras informações que muitas vezes eles não encontram nem na escola formal. E o resultado, mesmo, que é interessante é esse novo olhar sobre a comunidade. Porque em geral quem mora na comunidade, especialmente as comunidades do Rio de Janeiro, urbanas, com história de violência e tráfico, e tudo mais, tem uma visão assim: “que horas que, que dia e que horas eu vou sair daqui?” “Bom, isso está dado, é assim, não vai mudar, então eu preciso ir embora.” Né, ou então: “eu não me preocupo com as condições de vida daquelas pessoas, mesmo sabendo que a maioria [nunca trabalhou?] no tráfico.” E esse novo olhar, assim, “Pôxa, vamos tentar mudar aqui; tudo bem a violência a gente não consegue resolver sozinho, é uma articulação muito maior, mas o que que a gente pode fazer pra prevenir essa violência, pra prevenir que as crianças estejam...” Então, esse novo olhar sobre a comunidade, às vezes a EIC nem consegue desenvolver um projeto que tenha um grande impacto, não. Mas essa discussão da sala de informática, poder falar livremente do que incomoda, do que faz mal. Como a comunidade ____________, pra gente já é um resultado, que é de um ponto de vista mais subjetivo, muitas vezes individual, que a gente espera que seja coletivo, né, mas que ainda é, mas que já faz uma grande diferença. Que acho que todo o processo de transformação social começa primeiro com o indivíduo, né? Então, acho que esse é um resultado muito bacana, esse novo olhar, essa possibilidade de olhar a comunidade de um jeito diferente. Que pode não parecer muito concreto, mas pode [desenvolver ações concretas?] __________ .

P/1- Talvez, quais são os desafios pro futuro na área do CDI Rio, na pedagógica.

R- Desafios são muitos, né? Na área de acompanhamento, a gente tem muitos sonhos. Vocês vão conversar com a Tatiana, a gente queria dar um suporte maior, especialmente nessa questão da sustentabilidade. Como garantir isso, como a organização pode controlar melhor os seus recursos ou como ela pode captar melhor recursos, como ela pode mobilizar recursos locais, que a gente tem feito isso através de cursos, tal. Mas o que a gente queria mesmo era sentar com cada EIC, fazer um plano de ação e dar suporte que isso a gente [ainda não tem tempo pra fazer?]. Mas esse é o grande desafio na área de acompanhamento. Como ajudar as EICs a garantir a sua sustentabilidade. Esse é o desafio. Parte pedagógica é exatamente fazer com que essa metodologia, realmente, seja aplicada. E fora que a gente, também não tem uma idolatria: “Ah, essa metodologia é maravilhosa, então a gente está aplicando porque não sabe.” A gente faz autocrítica sobre ela também. O que que não funciona nessa proposta, o que que a gente precisa trazer mais pro chão. Isso é a cada turma que é oferecido aqui, a gente muda, muda, muda a forma de trabalhar. Não o conteúdo, mas como é que ele vai ser passado. Então o grande desafio é fazer com que eles realmente comprem essa idéia, que possam aplicar, que possam desenvolver projetos interessantes que tragam esse resultado pra gente, pra pessoas terem um olhar diferente sobre a comunidade, que pensem em alternativas pra melhorar as condições de vida da comunidade. E se essa alternativa dependa de mobilizar externamente, mobilizar governo, que seja, né? Mas a gente espera que essa proposta, ela ajude essas pessoas nesse caminho . É isso, é o grande desfio pra área de projetos e pedagogia.

P/1- Você teria algo que você quisesse falar , ou seja, que nós não perguntamos, alguma colocação ou exemplo?

R- Eu acho que só [o Macedo?] pra falar da história pra falar da história do CDI.

P/1- Perfeito, perfeito.

R- Que é exatamente isso. É uma ONG que cresceu muito, ora pela essa pressão externa, que teve, das pessoas: “Ah, eu quero um computador na minha comunidade.” Ora pela pressão interna, mesmo, de expansão. E de ter essa coisa de ter um modelo muito flexível e todo mundo quer, ___________eu quero levar pro Estado, né? Mas que é uma ONG que, hoje, está muito preocupada com essa questão da qualidade. Então, nós temos conversa com as regionais do Brasil afora, está todo mundo pensando: “Não, não vou abrir EIC esse ano, pô, eu tenho que melhorar as que já existem.” Então aquela: “Eu sou a fã da expansão”, que tem tudo a ver mesmo com o momento, mesmo, inicial de toda organização, hoje está sendo muito controlado por essa nossa vontade de melhorar nosso trabalho, de manter a mesma qualidade. Então a gente está num outro momento. Eu entrei num momento do CDI, estou vivendo outro completamente diferente. É espera aí, vamos segurar um pouco, desacelerar, como o Rodrigo diz, porque a gente precisa manter a qualidade desse projeto. Mais do que a qualidade da equipe interna do CDI, as EICs e as entidades comunitárias precisam ter boas equipes, equipes qualificadas pra estarem fazendo um projeto social de qualidade, e isso que a gente tem responsabilidade [com isso aí?]. Pronto. É isso.

P/1- Certo. O que você achou de dar esse depoimento nesse momento?

R- Ah, eu acho legal, porque quando a gente tem a possibilidade de rever uma trajetória é interessante, né? Porque às vezes você não pensa, vai fazendo no dia-a-dia e você nem consegue vislumbrar o tanto que a organização já cresceu, quanto que ela já desenvolveu. Quanto que precisa melhorar em determinados aspectos, né? E eu acho que o momento pra falar é um momento que você repensa, a possibilidade de repensar, mesmo, a prática e quem sabe orientar aí pra fazer um trabalho melhor

P/2- E a idéia do CDI de realizar esse registro da sua história, o que que você acha?

R- Ah, eu acho bacana.

P/2- Esse proposta, né?

R- Meio tímida. [riso] Mas eu acho, eu acho bacana, né? A gente tem pouco isso, né? A gente está, a gente [tem percepções mais individuais pra uma organização que _________é isso mesmo de percepções individuais?] a gente tem um discurso oficial e tudo. Mas, cada um dá um jeito que quer dar de acordo com a sua vivência, sua história, sua formação. Eu acho muito bacana, uma idéia muito legal, que ela tenha um resultado.

P/2- Obrigada, então, Liliane, obrigada.

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