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História

Infância, trabalho e vida de Aline

História de: Aline Gomes de Oliveira
Autor: Thais Montanari
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Infância no Recife. Primeiro namoro e casamento. Preconceito. Construção da casa. Desafios e alegrias da maternidade. Curso técnico de análise clínica. Estágios. Crescimento na carreira dentro da Fleury. Viagens.

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História completa

Projeto Fleury

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Aline Gomes de Oliveira 

Entrevistada por Gustavo Sanchez

Recife, 18 de outubro de 2011 

Código: FL_HV022

Transcrito por Beatriz Mesalira Alves

Revisado por Nayara Melo

 

 

 

P/1 – Vamos lá depois de tanto drama [risos].

R – [Suspiro e risos].

P/1 – Aline, então pra começar, vou pedir pra você falar seu nome completo, a data e o local do seu nascimento, tá bem?

R – Certo. Meu nome é Aline Gomes de Oliveira, nasci em 3 de novembro de 1978, aqui em Recife mesmo. 

P/1 – Legal. E, Aline, como é que era a casa da sua infância? A casa em que você nasceu, como é que era?

R – A casa em que eu nasci era linda. Um sonho. Depois foi que as coisas mudaram. Mas era bacana.

P/1 – Mas como é que ela era? Quantos cômodos ela tinha? Onde ela ficava? 

R – Ela ficava lá, próxima ao bairro que eu moro hoje, e tinha três cômodos, três quartos, sala, terraço e cozinha.

P/1 – Você falou que ficava no bairro que você mora hoje, mas qual é o bairro? Onde que ela fica? 

R – Também é Dois Unidos. Só que em outra rua, que eu não me lembro mais. Não me lembro mais o nome da rua. 

P/1 – Não, tudo bem. E aí você lembra das brincadeiras de infância? Do que vocês brincavam, o que vocês faziam de criança?

R – Não... a gente quase não teve infância. Então, assim, brincadeiras eu não... a gente não fazia nenhuma. 

P/1 – Entendi. Vocês começaram a trabalhar muito cedo? Você falou que não tinha infância porque vocês foram pra escola desde pequenos? Como é que era?

R – Com 4 anos, meu pai separou da minha mãe... assim, ele era muito agressivo com ela e ela não aguentou viver dessa forma com ele. Também porque ele queria dividir a casa com ela e outra mulher. Morar os dois na mesma casa, ter duas mulheres na mesma casa. Então, ela não aguentou e teve que sair de casa. Aí o que acontece, a gente... ele colocou a gente logo cedo na escola pra não ter que ficar com a madrasta e a gente não tinha muita infância porque assim... criados com ela (a madrasta), que não tinha paciência porque não éramos os filhos dela e maltratava muito a gente. Quando o nosso pai chegava, já vinha batendo porque ela já ia contando as histórias dela. Então, eu não lembro de nenhuma brincadeira que eu tive. 

P/1 – Entendi. E, Aline, o que seus pais faziam? Com o que sua mãe trabalhava?

R – Na época que minha mãe era separada, ela não trabalhava de nada. Porque, assim, quando ela foi embora, a gente ficou com ele e passou esse momento de sofrimento, tudinho. A madrasta era muito ruim com a gente, eu, minha irmã e meu irmão. Depois, eles resolveram se mudar dessa casa, eles foram embora para outro lugar. Ele não disse pra onde era. Ele se mudou à noite, quando já era de noitinha, e deixou nós três na casa de um tio nosso... uma tia nossa. E, quando minha mãe chegou, porque ela tava trabalhando, não sei o que ela fazia porque eu tinha uns quatro, cinco anos. Ela chegou e encontrou a gente lá, na casa desses meus tios. E ela não tinha onde morar. É... aí ficou eu na casa debaixo da minha vó e meu irmão e minha irmã na casa de cima com a minha tia e minha mãe, até ela encontrar um lugar pra morar. E ele não disse pra onde ia, não disse com quem ia, o que ia fazer. Ele não disse nada. Ele, na época, trabalhava no almoxarifado de alguma empresa que eu também não sei o nome. 

P/1 – Você falou que morava na casa da sua vó. E como era sua vó?

R – Aí fiquei morando na casa da minha vó e minha mãe levou meu irmão e minha irmã pra morar com ela, porque ela tinha arranjado já outra pessoa pra ficar... que também não era a casa dele, era a casa da mãe dele. E eu fiquei morando com a minha vó. Como eu era mais velha, eu fiquei morando com ela. Tinha quatro anos e meio, alguma coisa assim, e fiquei morando com ela. Não foi muito bom porque... é... ela tinha muitos filhos. Eu fui criada com o mais novo, os outros eram maiores e, assim, do mesmo jeito, eu brincava com ele, tudinho, mas não era aquela coisa de você tá entre família... ela sempre me rejeitava, não fazia como fazia pros filhos dela. Eu sempre estava de fora.

P/1 – Entendi. Mas aí você falou da escola. A escola era um lugar que vocês passaram o maior tempo, né? O que você lembra da escola? 

R – A escola era um lugar que também era muito ruim. Por quê? Porque a gente quase não podia falar porque a pessoa que ensinava era uma senhora bem antiga e o tratamento que ela fazia quando você fazia alguma coisa errada era palmatória. Então, se você errasse alguma coisa, conversasse com o coleguinha do lado, era palmada que ela dava nas costas da mão. Também não foi bom. A gente não gostava dessa pessoa. Era muito ruim. Era muito difícil. Mas quando eu voltei, quando eu tava morando com a minha vó, eu passei a estudar em outra escola que já era melhor pra gente. Quer dizer, pra mim, que eu já tava sozinha. Aí fiquei estudando nessa escola. Assim, me lembro pouca coisa dessa escola. Era melhor, eu sei que era melhor. Não tinha palmatória e...

P/1 – Você se lembra de algum professor? De alguma brincadeira?

R – Lembro... lembro. A gente brincava muito de queimada. Mas eu, quando era criança, gostava muito de brincadeira de menino [sorriso]. Então todas as meninas iam brincar com as meninas e eu brincava com os meninos. Eu gostava muito de empinar pipa, de jogar bola de gude, de futebol. Era assim, essas coisas que eu gostava. Então eu não brincava... boneca? Meu tio fazia vestido pra minha boneca e eu brincava com os brinquedos dele [risos]. Espeto, tudo que era dele, eu brincava. E ele... mas nenhum dos dois mudou de lado não [risos]. Quando a gente cresceu, todos dois seguiram o caminho certo pra sociedade [risos].

P/1 – E, Aline, tinha lugares que você gostava de ir quando era pequena? Lugares que você ia passear? Tinha algum lugar aqui em Recife? Alguma festa, alguma coisa que vocês iam? Que você lembra, assim, de criança?

R – Não, a gente não saía [pausa]. Não saía. Ficava lá... assim, naquele tempo a situação não era boa e a gente não... ela não levava a gente pra nenhum lugar não. Depois, quando a gente foi crescendo um pouquinho mais, ela começou a deixar. Minha tia... porque ela também não tinha boas condições... a levar a gente pra uma praia em um domingo. Então, o passeio que eu me lembro que a gente teve depois de mais velhos foi praia.

P/1 – E aí? Você gostava da praia? Como era ir pra praia?

R – Muito. Gostava muito... era a maior diversão pra gente. Até hoje eu gosto de praia... muito [risos]. Só essa era a diversão. Só era praia.

P/1 – E você lembra as primeiras vezes que você viu o mar? Que você foi pra praia?

R – Lembro...

P/1 – Como é que foi? Como é que você se sentiu?

R – Foi... foi lindo. Foi lindo... e entrar dentro dele foi mais lindo ainda, maravilhoso [sorriso].

P/1 – Tá certo. E, Aline, você começou a trabalhar muito cedo? Como é que foi ao longo do trabalho? Você foi trabalhar ou você concluiu os estudos? Como é que foi?

R – Não, não comecei a trabalhar muito cedo. Eu, assim... a gente foi, começou a estudar é... minha mãe sempre foi pai e mãe. Ela não... meu pai saiu do emprego pra não dar pensão porque ela botou ele na justiça, e a gente ficou sem pensão. A gente vivia da ajuda dos outros irmãos, né? Dela. Ela teve que fazer um curso de cabeleireiro, que ela gostava muito. Ela fez um curso, se profissionalizou pra sustentar a gente. E ficou. Pra gente terminar os estudos foi muito sacrifício... muito sacrifício mesmo. Assim, era muito... a gente passou necessidade... é... não passou fome, nunca dormimos com fome, mas necessidade a gente passou. Minha irmã ia pra escola andando pra que eu ficasse com o vale dela pra ir pra escola porque minha escola era mais distante. Aí a gente voltava junto. Eu descia lá pra não pegar outro vale... pra gente voltar andando um pedaço muito grande, muito grande mesmo, até chegar em casa. Até a gente terminar... de estudar. Nós terminamos o científico. Eu queria fazer faculdade, mas não tinha condições porque na época também minha mãe não podia pagar e...

P/1 – Deixa eu te perguntar uma coisa, Aline, você falou que sua mãe fez curso de cabeleireiro e que ela foi trabalhar. Você lembra de acompanhá-la alguma vez? De ir no salão com ela? Acompanhar ela no trabalho? 

R – Não, porque quando ela fez esse curso eu tava morando ainda com a minha vó. Quando ela é... meu pai tinha deixado uma casinha... ela vendeu essa casinha que era numa ( ___?). Vendeu a casa e comprou essa outra casa. Então, quando ela foi pra essa outra casa, que eu fui morar com ela, mas aí ela colocou pra cortar o cabelo em casa. Ela fazia o procedimento dela em casa. Ela cortava do lado de fora até montar um salãozinho. Então ela começou a ganhar clientela, mas não era tanto assim. A vida da gente melhorou um pouquinho depois que chegou “esse real” [risos]. Mas antes era muito difícil porque as pessoas não conheciam e o valor não era muito porque ela não podia cobrar muito caro porque o bairro onde a gente morava era muito... classe C mesmo, então não podia cobrar muito caro, né?

P/1 – Você lembra dela cortando o cabelo?

R – Lembro... lembro. Ela cortava o cabelo do lado de fora com a gente. A gente também começou a ajudar ela. Eu, com dez anos, aprendi a fazer umas coisas de cabelo pra ajudar também e... começava a cobrar e o pessoal pagava e, foi assim que a gente foi tentando a vida da gente até um dia conseguir terminar os estudos e conseguir fazer um curso profissionalizante pra arranjar emprego. 

P/1 – E aí você falou que com dez anos você ajudava. O que você fazia?

R – Trança raiz.

P/1 – Como é que era?

R – Trança raiz é você fazer uma trança toda embutida no cabelo. Geralmente, usam pra festa. Ela fazia na minha irmã e eu ficava olhando e depois eu treinava na minha irmã até que eu consegui aprender. Aí ela: “Minha filha também faz trança”. Aí o pessoal procurava e eu fazia e cobrava também pra ajudar. Ela lavava os cabelos das pessoas pra escovar. Depois eu aprendi a escovar cabelo também e aí, final de ano como era muita gente, eu aprendi a escovar e ficava escovando o cabelo com ela. Muitas coisas a gente aprendeu pra ajudar ela.

P/1 – Você falou que gostava de empinar pipa. Como é que era essa rotina? Onde você ia empinar pipa?

R – Eu ia empinar pipa próximo à casa da minha vó porque lá tinha um barranco bem grande e a gente ficava lá em cima. Eu e meu tio, que éramos quase da mesma idade, e a gente ficava lá em cima gritando um pro outro. Voltava todo dia rouca [risos] de tanto empinar pipa. E jogava bola também com ele. Meu cabelo era cortado bem curtinho e todo mundo pensava que eu era um menino [risos]. Era ótimo! Ali era a minha diversão. “Eu não quero essa menina fazendo. Ela não vai virar mulher, ela vai virar homem”. Aí minha mãe: “Vai virar homem não”. Tanto é que eu não virei homem, né? Mas assim, tudo que era de menino eu tava lá junto. 

P/1 – E o futebol como era?

R – E o futebol eu jogava com as meninas, porque os meninos não me deixavam jogar porque ficavam com pena, com medo de me derrubar e aí não deixavam. Eu jogava futebol com as meninas. Futebol, espeto, fazer bola de gude... tudinho eu tava lá com meus primos e com meus tios. Tudo jogando. Nenhuma brincadeira de infância de menina eu fiz, só essas de menino [risos].

P/1 – Legal. E aí? Como foi o período da adolescência? Você começou a ter mais liberdade? Sair mais sozinha? Ir pra festa?

R – Não...

P/1 – Nem um primeiro namorado?

R – O primeiro namorado foi com 19 anos. 18 pra 19. A adolescência da gente também não foi muito boa por causa disso, né? Assim, foi um período de criança até minha mãe... não tinha condições então... é, era muito difícil ver as pessoas tendo as coisas, e a gente não tinha. Quando a gente pedia, ela não podia dar. A gente morava numa casa muito pequenininha. Essa casa que ela ficou. Os colegas não iam porque a gente tinha vergonha, porque a casa era muito pequenininha, não tinha banheiro. O banheiro ficava do lado de fora. Era muita coisa... então, minha adolescência também não foi muito assim... tão legal. Eu vim curtir minha vida depois dos 19 anos porque eu conheci uma pessoa e essa pessoa começou a me levar pra lugares que eu nunca tinha visto na minha vida. Me levou pra conhecer o mundo.

P/1 – Como você conheceu essa pessoa?

R – [risos] É, assim, eu estudava num colégio no terminal de Dois Unidos e eu tinha uma paixonite por um rapazinho, só que por causa dele eu repeti de ano. Aí minha mãe foi e me tirou da escola. Eu nunca tinha repetido de ano. Colocou na escola onde estudava minha irmã. Aí eu fui pra lá estudar. Aí conheci essa outra pessoa que era muito mais velha que eu, oito anos mais velho. Todo dia quando eu ia, meu tio sempre me dava um trocadinho e eu comprava sempre salgadinho ou então biscoitinho Passatempo. E levava. Eu conheci ele. Ele ficava falando comigo: “Ai, você parece uma princesinha. Vamos tomar um sorvete?”. Aí eu: “Tá! Vamos.”. Mas eu não queria ir, né? Poque ele era bem mais velho. Nunca namorei na vida. Foi daí que eu conheci ele. 

P/1 – Aí você falou que ele te levou pra conhecer o mundo. O que você lembra dos primeiros passeios? Quais lugares você conheceu que você ficou assim: “Nossa, que legal!”?

R – Foi... Ele me levou pra entrar em restaurante. A gente nunca tinha ido para um restaurante. Aí ele me levou. Ele me levou pra lugares, praias longe. Eu só conhecia uma praia é... hotel, essas coisas assim. Tudo que, na época que ele tinha dinheiro, ele me levou... me mostrou um mundo diferente que eu nunca tinha visto... pra Carnaval, pra gente ir passear. Eu nunca tinha usado um tênis com 19 anos, e ele comprou um tênis pra mim. Muita coisa que ele me deu, muita coisa que ele me mostrou... me fazia uma verdadeira princesa. Ele fez isso pra mim. Ele me deixou sentir como uma rainha. Nem uma princesa, era uma rainha porque tudo ele fazia pra mim

P/1 – Você contou de ir ao restaurante pela primeira vez. Como é que foi isso? 

R – Eu fiquei morta de vergonha. Não conhecia nada, não sabia como comer, me comportar. A pizza caiu do prato [risos]. Confundi uma carne lá, pensei que era outra, falei alto e não podia. E, assim, como ele já tinha curso, ele já sabia como se comportar. Ele que foi me ensinando como se comportar em um restaurante, como comer. “Olha assim, segura assim!”. Ele foi muito paciente comigo e me ajudou mesmo, me ajudou em tudo. Me mostrou a realidade da vida e também os prazeres da vida. 

P/1 – E como é que ele era? Você fala bastante dele, que ele era uma pessoa importante. Como é que era o jeito dele?

R – Ele era e é ainda muito extrovertido, brincalhão. Era o tipo de pessoa que eu sempre procurei, que eu falava: “Ah, quando eu crescer e casar, eu quero uma pessoa assim. Quero uma pessoa que seja brincalhão, quero uma pessoa que seja de alto astral, que não seja ranzinza.”. E ele era aquela pessoa. Ele apareceu, aquela pessoa que eu queria. Só apareceu um detalhe que eu não queria [risos]. 

P/1 – [risos]. Entendi. E aí você falou também de Carnaval, de outros lugares pra onde você foi. E, Carnaval foi a primeira vez que você foi?

R – A primeira vez que eu fui com ele foi nas Virgens de Olinda. Eu nunca tinha ido. Aí ele me mostrou: “Ah, é legal, mas a gente não fica no foco.”, “Tá!”. Eu tinha medo porque eu tenho medo de multidão. Com muita gente junto, eu fico com fobia. Mas aí ele me protegia: “Não, vem!” e me mostrou como era, tudinho e foi divertido. Foi a primeira vez que eu fui e pronto. Não queria mais deixar de ir [risos]. Até que ele conheceu uma religião e depois disso, não podia mais ir porque era coisa “do mundo”. Eu também concordei e não fui mais com ele. Mas a primeira vez foi muito divertido, o Carnaval com ele. A primeira vez foi maravilhoso.

P/1 – Tá certo. E me conta, você falou que fez o científico, né? O que era o científico, pra quem não sabe? Como é que era?

R – Não. Eu fiz o segundo grau, mas fiz em análises clínicas, que era como patologia clínica e hoje é análises clínicas. Eu fiz o segundo grau através de notas lá no Soares Dutra. A gente fazia... não fazia prova, a gente fazia por seleção de notas. Matemática e Português. Quem tivesse uma nota boa, ficava. E era um curso que eu não queria fazer. Minha irmã falou pra mim: “Olha, vamos fazer esse curso que é tão bom, dá emprego rápido!”. Aí eu disse: “Mas que curso é esse? Do que se fala? Do que se trata? Patologia?”. A gente fica pensando em pato, né? Patologia vai estudar os patos. Eu disse: “Sei lá, não quero não.”, “Não, vou descobrir o que é.”. Aí descobriu. Eu disse: “Então eu quero.”. E aí eu fui, mas não fui com aquela vontade porque foi ela que tava querendo ir, não eu. Aí pronto. Eu fui, gostei, me empolguei, gostei do que o curso falava, do que faz, colher sangue. Eu gostava mesmo de fazer. Eu não gostava da parte de enfermagem, mas da parte de colher sangue, de procurar veia... pra mim, quanto mais difícil, era melhor. Aí eu consegui estágios, fui pra hospitais, fui fazer estágios em hospitais, fui me aprimorando. Sou muito curiosa, então ia conversando com os médicos pra ver o que eu poderia e o que não poderia fazer, pros médicos me ensinarem a fazer alguma coisa ali que fosse parte do meu curso. E, assim, fui procurar depois a área pra começar a trabalhar porque foi uma coisa de que realmente eu gostei. Não sabia que era esse meu dom [risos]. Conheci depois. 

P/1 – Você falou que descobriu que esse é o seu dom. Qual é esse dom? O que você descobriu lá?

R – De colher sangue, de atender o cliente na parte de coleta. Eu me identifiquei com aquele procedimento. Quanto mais difícil fosse a veia, pra mim era ótimo. Eu pegava, conseguia... pra mim, foi maravilhoso esse curso. 

P/1 – Você lembra a primeira coleta que você fez, Aline?

R – Lembro. Foi desastroso [risos]. A primeira coleta que eu fiz foi com a gente mesmo dentro da sala, os estudantes. Um coletava no outro no laboratório da escola. E assim: “Furei! Peguei a veia!”. Mas na hora não sabia como puxar na seringa. Não sabia nada [risos]. Depois pra tirar... foi desastroso. Sangrou. Pingou sangue na menina toda e no hospital também. Porque, assim, eu colhi a primeira vez de seringa e depois eu colhi com o vácuo, que é um sistema que a gente tem que era novo na época. Coloquei o adaptador, coloquei o tubo e depois não consegui mais tirar o tubo. Depois, fui colocar outro tubo e a agulha entrou mais. Ainda bem que era rede pública. Ninguém reclamou, mas também foi muito desastroso. Mas depois foi o máximo. Eu só queria fazer coleta.

P/1 – Legal. E aí? Paralelo ao tempo que você fazia o curso, foi quando você teve esse relacionamento...

R – Foi... posso pegar um guardanapo?

P/1 – Pode. Fica à vontade.

R – Vou só enxugar aqui que eu tô suada...

P/1 – Se quiser uma aguinha...

R – Não. Quando eu tava fazendo o curso... eu conheci... eu ficava vindo pra escola onde minha irmã estudava pra ficar andando com ela até chegar em casa por causa do vale. Fui conhecendo essa pessoa... fui conhecendo porque todo dia parava lá pra comprar um biscoito, uma coisa. Depois, não tinha mais, e eu só passava e olhava quando não tinha dinheiro. Aí eu conheci ele. Ele me chamava sempre pra tomar um sorvete e, depois de tanta resistência, um dia eu aceitei tomar um sorvete com ele [risos]. Tudo mentira [risos]. 

P/1 – E aí você terminou o técnico e qual foi o seu primeiro emprego, Aline?

R – Eu terminei em 1998. Eu tinha feito estágio na Marinha e no hospital Agamenon de rede pública.

P/1 – Me conta do estágio então. Esse primeiro estágio na Marinha.

R – Eu fiz o primeiro no Agamenon. Passei seis meses de manhã e seis meses à noite lá. Era plantão. Eu passei pra plantão porque eu passei em uma prova da Marinha e aí eu fui fazer o da Marinha. Era de dia na Marinha de 7h às 12h. Escola à tarde e estágio à noite, que era plantão. O do Agamenon foi muito bom porque lá era muita gente, rede pública, muita gente tirando sangue e deu pra pegar muita experiência no tipo de coleta. Além da coleta, nas bancadas pra fazer análise de sangue. Na Marinha, eu aprendi o método antigo de como analisar as amostras porque no Agamenon era por aparelhos, e na Marinha era muito antigo, tinha que fazer tudo manual. Então o do Marinha foi muito, muito produtivo pra mim porque tinha coisas que eu via em estágio e eu praticava na sala de aula. Aí os dois foram de grande importância. A Marinha por parte técnica e essa análise manual, e no Agamenon pra coleta de sangue. 

P/1 – E você contou essa história de quando você foi colher sangue pela primeira vez. Você tem alguma outra história boa de alguma das experiências dos estágios? 

R – Tenho. Não me chama de vampiro não, tá? Eu gostava tanto de colher, tanto de colher que teve uma cliente, que tinha uma veia tão boa, tão boa... grossa, bem boa mesmo. Quando eu coloquei o garrote, eu babei [risos]. Quando eu colhi. Sorte que ela não viu, mas eu fiquei de água na boca [risos]. A veia dela era muito boa,... poxa quando a agulha entrou, chega foi suave e a baba caiu. Aí ela não viu, né? Aí eu fiquei conversando com ela e pensando: “Putz! Que vergonha!”. Pronto. Essa daí ficou na história. Essa foi a única de babar por causa do sangue. A outra, era assim, eu gostava muito de coletar. Mas eu já tava no automático porque era muita gente que a gente atendia. E, assim, já colhi sangue na mão mandando a mulher dobrar o braço. Quando eu colhi, eu falei: “Aperta aqui. Pronto. Pressione e não dobre o braço.”. Só que a coleta era na mão. Ficava só no automático. Já peguei uma etiqueta de urina e, ao invés de colocar a etiqueta no recipiente, eu coloquei no braço ao invés de colocar o Band-Aid. Muita coisa louca que já aconteceu [risos]. Mas assim, nada de trocar amostra, essas coisas... Deus me livre, nunca fiz não. 

P/1 – Mas por conta também que tinha um fluxo de trabalho muito grande.

R – Muito grande, muito grande. “Pressiona aqui!”. Quando eu vi, era a etiqueta de urina e depois botei o Band-Aid. Só que a cliente não viu, se ela tivesse visto... [risos].

P/1 – E, Aline, aí você continuou morando na mesma casa em que você morava até concluir os estudos, né?

R – Até concluir os estudos.

P/1 – E aí depois que você concluiu os estudos, você ganhou experiências nos estágios e o seu primeiro trabalho foi onde?

R – Passei um tempinho sem conseguir um trabalho. Eu fiquei de 1998 e... consegui trabalhar só em 2000. Fiquei procurando, procurando... colocando currículo. Era uma luta árdua. Todos os dias eu saía, no sol quente, entregava currículo. “Tá precisando de currículo?”, “Não!”. Era sempre assim, né? Aí em 2000, uma colega minha falou que tinha uma cooperativa que encaminhava as pessoas pra emprego e ela me convidou pra ir lá, e eu fui. Foi quando eu consegui trabalhar no laboratório que hoje eu tô, mas era na marca antiga, que eu não conhecia. Só conhecia os laboratórios mais... Cerpe, na época. Esse eu não conhecia porque ele atendia muitas pessoas mais de nível mais alto.

P/1 – Entendi. E, aí, deixa eu te perguntar. Aquela história que você contou da pessoa que você conheceu, como acabou essa história? A história continuou? Como é que foi? 

 

R – Foi. Eu conheci essa pessoa em 1997, 1996. Em 1997, a gente começou a sair.

 

P/1 – Aí hoje vocês estão juntos? 

R – Hoje a gente tá junto, mas a gente tá junto assim... faz 14 anos que a gente tá junto e vai fazer 15 anos. Eu engravidei sem tá planejado... a gente tava fazendo uma casa pra gente, com muito sacrifício fazendo uma casa e aí eu engravidei e fui morar nessa casa. Até então, eu não podia ficar sozinha, tinha que ficar com alguém porque eu tive pressão alta. Aí a gente ficou juntos. Depois de muito preconceito... 

P/1 – Depois do susto de descobrir a gravidez, como foi o período da gravidez?

R – Quando eu descobri que tava grávida... pra mim, eu achava que eu não podia engravidar porque eu tinha um problema interno de ovários policísticos. Já tava fazendo esse tratamento pra tirar esses policistos. Já fazia mais de seis meses que eu tava sem tomar um contraceptivo pra tirar e, de repente, eu senti que tinha alguma coisa errada. “Não, tem alguma coisa errada acontecendo.”. Ele disse: “Não, não tem não.”, “Tem! Eu conheço meu corpo. Não é assim. Vou fazer um exame.”. Fiz e deu positivo. Nossa... meu chão se abriu... me lembro como hoje, foi a maior alegria da minha vida descobrir naquele momento que eu tava grávida. Pra ele também... porque ele era separado da mulher em casa, mas ele convivia na mesma casa ainda. Então eu achava que pra ele também ia ser muito bom, mas aí ele tomou aquele susto na hora e disse: “Fico muito feliz”. Levei ele pra casa da gente pra contar a história, botei a mão dele na minha barriga e disse: “Olha, tô esperando um filho.”. Ele ficou: “Ai, eu não acredito!”. Ficou muito emocionado, tudinho. Depois foi que as coisas ruins aconteceram. Eu sofri muito, chorava muito. Fiquei com trauma e depois não mais quis ter outro filho, porque as pessoas falavam que era filho dele, que ele era casado e eu só sofrendo preconceito da sociedade ainda. Depois ainda comecei com pressão alta, vivia muito deprimida, só esperando ter esse bebê... passar a fase. Porque, quando eu descobri que eu tava grávida, o irmão dele foi preso. Então ele dava muita atenção ao irmão que estava preso. Foi na mesma época, num dia eu descobri que tava grávida, no outro dia o irmão dele foi preso por um processo que não foi totalmente culpa dele, mas aconteceu e foram, né? Aí pronto... assim, descobrir que eu tava grávida foi a melhor felicidade, mas o processo que eu passei na gravidez foi muito difícil. 

P/1 – Você falou muito dessa coisa do preconceito, da dificuldade. Como você lidou com isso com tanta força? Você lidou com isso sozinha, na verdade? 

R – Sozinha. Sozinha porque minha mãe... ela não aceitava, né? Ninguém nunca ficou ao meu favor e aí eu disse: “Não, já que ninguém tá ao meu favor, vou tentar fazer uma casinha pra mim pra ficar longe, pra ninguém falar nada e eu tá no meu lugar.”. O que me deu força foi eu tá trabalhando e Deus. Primeiro, Deus. Depois eu tá trabalhando. Quando no trabalho eu chegava, as meninas falavam de outras coisas, a gente ficava tentando fazer o quartinho: “Não, vamos ver aí como é que vai ser o quarto da bebê!”. Fizeram um chá de cozinha pra mim, pra comprar umas coisas pra mim, porque eu tava passando por dificuldade mesmo trabalhando. Porque construir uma casa é difícil. Pagar pedreiro, mão de obra, comprar material de construção é muito difícil. Aí o que me ajudou foi Deus e tá trabalhando. Se eu não tivesse trabalhando, eu tinha entrado em uma depressão sozinha. Não tinha ninguém pra saber o que eu tava passando.

P/1 – E aí com luta você conseguiu construir essa casa, né? Como foi ver essa casa pronta? Chegar na casa...

R – Foi o meu presente de aniversário. Porque quando eu cheguei lá... assim, a gente tinha comprado o terreno, mas a gente tava pagando e ia ficar pagando por 60 meses o terreno. A gente comprou em 2005... não, menos que isso. A gente comprou e ia ficar pagando, só que não sabia que, por trás, ele tava construindo a casa. Ele construía e sempre me pedia dinheiro pra ajudar. “Mas em quê?”, “Não, é pra pagar o terreno.”, “Tá certo!”. Mas eu não sabia, né? Então quando foi no dia do meu aniversário, ele me chamou: “Tenho um negócio pra te dar. Fecha os olhos.”. Aí eu fui. Quando eu cheguei lá, eu vi a casa. Digo: “Ai, meu Deus, eu não acredito não. É minha casa? Ai, eu não acredito!”. Foi uma realização pra mim essa casa. Eu disse: “Ai, meu Deus, eu não acredito, que presente maravilhoso. Foi o melhor!”, “Não fica com raiva se eu não te der outro presente.”, “Não, fico não. Esse é o meu presente, tá ótimo, eu amei!”. Pra mim, foi uma alegria imensa. 

P/1 – Quando você mudou foi durante a gravidez, né?

R – Eu ainda não tava grávida quando eu recebi esse presente. A gente ficou fazendo acabamento e tal. Quando eu me mudei, a casa já tava quase terminada.

P/1 – Quando a casa ficou pronta, ficou do jeito que você queria? Como era a casa?

R – Ficou, é. Só que como eu tinha engravidado antes de terminar, ficou algumas partes sem terminar. Até hoje ainda tá. Agora que a gente tá começando a comprar de novo as coisas pra terminar ela. Mas como ela é muito grande, ficou muita coisa sem terminar. Não terminou tudo. 

P/1 – E, Aline, deixa eu te perguntar uma coisa. Com o trabalho, você começou a ter mais independência na sua vida, né? Tinha lugares que você gostava de passear? Alguma coisa que você gostava de fazer? Você falou que o trabalho era muito importante, mas teve algum momento seu que você passeou? Que você ia pra algum lugar? 

R – Praia!

P/1 – Praia?

R – [risos]. Todo domingo eu tava na praia. Se chovesse, fizesse sol, eu tava na praia. Porque lá eu sentia uma calma, eu sentia uma paz. Eu sentava, tomava uma cervejinha, ficava esperando que ele abrisse a padaria, depois ele voltava pra lá. E eu ia e ficava lá... olhava o mar vindo. Meu filho começou a ir pra praia com 6 meses, quase 7, porque eu disse: “Se eu gosto, ele também vai gostar!”. A gravidez toda foi na praia e quando ele nasceu, quando ele fez quase 7 meses, ele também conheceu a praia. Eu sinto calma lá, sinto paz quando eu tô vendo o mar indo e voltando.

P/1 – Tá certo. E você contou também que em 2000 foi quando você conseguiu o emprego, que foi aí que as coisas também começaram... 

R – Foi. Aí minha colega me indicou essa cooperativa e eu fui chamada pra esse laboratório, que era o Paulo Loureiro, na época. Não conhecia. Ela disse: “Não é efetivo, você vai ficar somente quatro horas.”. Eu disse: “Tá!”. Fiz um treinamento, foi uma coisa muito boa o treinamento que eu tive na época. Fiquei lá trabalhando durante um ano como cooperativa, fazendo de tudo pra me efetivar. Só que depois que eu fiquei esse tempo todo como cooperativa, eu não consegui me efetivar porque ela teve uma perda de um convênio e esse convênio era muito forte no laboratório. Aí perdeu esse convênio porque eles não queriam pagar uma tabela que ela queria e teve que demitir muita gente. Saiu até no jornal, na época, porque ela demitiu 40 pessoas de uma vez só. E como a gente era da cooperativa, saiu muita gente da cooperativa, mas ficamos eu e outra menina. Eu fui a última a sair. Infelizmente, eu saí e chorei muito, muito porque não era aquilo que eu queria. Eu: “Não acredito, não acredito!”. Ela explicou a situação e tal. Aí eu disse: “Tá certo!”. Fiquei em casa muito deprimida, não queria mais trabalhar em nenhum lugar porque lá foi o meu primeiro emprego e lá eu via que tinha qualidade no serviço. Até que eu fiquei um mês parada e, depois de um mês, eu consegui outro laboratório para trabalhar. Só que não era a mesma coisa e eu não tava satisfeita.

P/1 – Qual era a diferença? Você falou que não era a mesma coisa, quais eram as diferenças?

R – Não existia ética profissional. Os coordenadores não falavam com ética com os funcionários, havia racismo de tudo, havia assédio moral, havia assédio sexual por parte do dono do laboratório. Havia muita coisa que eu não tava adaptada. Eu cheguei um dia pra trabalhar na coleta, no outro dia eu tava na triagem, outro dia eu tava na área técnica. Não tinha lugar pra ficar. Outro dia, ela descobriu que minha mãe era cabeleireira e que eu sabia fazer maquiagem, e ela me botou pra maquiar as meninas da recepção. Então cada dia eu tava fazendo uma atividade diferente e eu não tava adaptada. Eu pedia todo dia a Deus: “Por favor, meu Deus, eu quero ir pra outro lugar.”. Como eu tinha tirado um celular pra mim, que foi o meu primeiro celular, eu tava com medo de ficar porque não podia... quando você trabalha pela cooperativa e você não é efetivo, você não sai com direito a nada. Então, não tinha seguro, não tinha nada, então tinha que arranjar urgente um lugar pra trabalhar. Aí eu fiquei dois meses quando o laboratório Paulo Loureiro me chamou de volta e disse: “Você tá com a carteira assinada?”. Eu disse: “Não. Por quê?”, “Você quer voltar?”, “Quero! Eu não acredito!”, “Você vai voltar quando?”, “Eu não sei. Amanhã? Quando é que vocês querem?”, “Não, em tal dia.”, “Tá!”. Aí eu falei lá com a dona do laboratório: “Eu tô indo embora.”, “Não. Por quê? Aqui paga mal?”. Eu disse: “Também!”. Aí ela disse: “Não, não vá. Eu aumento o seu salário”. Eu disse: “Não. Não quero mais. Eu quero sair. Aqui não dá, vocês não têm ética pra falar com o funcionário, vocês têm racismo... ei(?) tô indo!”. Aí voltei e ela disse: “Olha, três meses de contrato para depois assinar realmente a sua carteira.”. Com dois meses ela aceitou minha carteira e tô aqui até hoje. 

P/1 – Aline, você falou uma coisa da ética, né? Qual é a diferença? Onde é que você vê essa ética? Exemplos de situações que você vê que o laboratório que você tá hoje é ético e que o outro não era. 

R – Por exemplo, falar mal do cliente. Você tá com um cliente no guichê, atendendo e vem outra pessoa e fala sobre outras coisas na frente do cliente. Chamar sua atenção na frente de outras pessoas, que eu não tava acostumada, porque se me chamasse atenção no laboratório antigo, me chamava no cantinho e conversa: “Você fez assim, mas faça assim. Assim não pode.”. E jamais falar algo na frente do cliente, e lá fazia. Lá chamava atenção na frente do cliente, lá interrompia o seu atendimento, tanto de coleta quanto de recepção, falava algum exame do cliente que não pode. O que eu não via antes no laboratório, eu também não vejo aqui no Fleury.

P/1 – No dia a dia, como você exerce o seu comportamento ético? O que faz de você uma pessoa ética?

R – [risos]. Eu busco ser uma pessoa ética. Hoje em dia, quando vejo alguma colaboradora, que tô observando e ela tá fazendo algum tipo de atendimento, procedimento errado ou falou algo errado, eu espero ela terminar o atendimento pra depois conversar com ela. Se eu vir que ali no meio do atendimento tá tendo conflito, eu chego por trás. Calmamente, encosto, falo no ouvido dela, tento acalmar o cliente de uma certa forma. Não chamo atenção de nenhuma delas na frente do cliente. E, quando eu chego pra falar algo ou dar algum aviso, se ela estiver na frente do cliente, eu peço licença ao cliente: “Bom dia, licença” e falo com elas no ouvido, bem baixinho. Não tenho o tom de voz alto. Não falar em tom alto para que outras pessoas não escutem o que você tá falando. Eu procuro sempre me monitorar, me policiar pra não fazer os tipos de procedimentos que eu via antes.

P/1 – Legal. E como foi voltar pro laboratório? Você voltou em qual função? Como é que foi essa volta?

R – Eu voltei como coleta mesmo. A função que eu fazia. Fiquei muito aqui nessa unidade, Ilha do Leite, fazendo e praticando as coletas. Quando ela viu que eu tava bem desenvolvida, me colocou em outra unidade, aqui em Boa Viagem, e eu fiquei muito tempo aqui. Muito tempo mesmo. Até que, assim, por uma briguinha com a supervisora, eu tive que voltar. Aí voltei pra Ilha do Leite pra ser observada e ver se o problema tava realmente comigo e o que estava acontecendo. Aí fiquei na Ilha do Leite, conheci a dra. Paula, que na época, era a dona do laboratório. Uma pessoa muito exigente, que você tinha que entender com o olhar. Queria tudo muito rápido e comecei a ter ela como se fosse um desafio pra mim. Disse: “Se ela pode, eu também posso. Se as outras meninas podem acompanhar ela, eu também posso. Se elas podem entender, eu também posso.”. Até que uma menina que fazia um tipo de procedimento, mielograma, que se colhe da medula, saiu de licença maternidade e eu tive que começar a acompanhar ela. Eu fiquei com muito medo. Quando eu terminei o primeiro acompanhamento, parecia que eu tinha tomado um banho de suor porque eu suava inteira. A luva, quando eu tirei, pingou de tanto medo [risos]. Muito medo pelo que as pessoas falavam dela, mas ela não era aquela pessoa que eu pensava que era, e comecei a fazer, a acompanhar ela nos mielogramas, a tentar entender ela com olhar que ela fazia. Ela não gostava de passar nada na frente do cliente. Se você fazia alguma coisa errada, ela olhava pra você e você tinha que entender. Aprendi, e ela não queria mais que eu saísse de lá. Só queria que eu a acompanhasse nos mielogramas. Aprendi a entender ela com o olhar. E o que aconteceu? Ela não queria mais que eu saísse de lá. Só queria que eu acompanhasse ela nos mielogramas. Até que eu fiquei por muito tempo acompanhando ela nos mielogramas, até com barrigão. Sete meses pelos hospitais aí andando, porque ela não queria outra pessoa. Mas eu tinha o desejo de crescer, eu não queria ficar somente em coleta. Eu queria crescer porque já fazia cinco anos que eu tava na empresa e eu não saia da coleta. Aí eu passei esse desejo, essa vontade minha de crescer na empresa pra duas coordenadoras na época, que foi Eliane e Taibe. Elas eram coordenadoras de atendimento e hoje elas são coordenadoras de unidade. Taibe de hospital e Eliane de unidade. Aí eu passei esse desejo: “Olha, eu não quero mais ficar somente em coleta. Eu quero crescer, eu quero mostrar o meu potencial, o quanto eu posso ser um algo mais na empresa. Eu não quero mais ficar... vê aí se aparecer uma oportunidade e tal. Vê como é que eu posso fazer pra crescer.”. Pensei que ela não tinha dado importância, né? Ela: “Ah, tá, minha filha. Tá!”. Mas não falou mais nada. Aí saí de licença maternidade, e quando voltei fiquei na unidade Ilha da Leite. Ela disse: “Aline, agora você vai pra recepção.”. Fui pra recepção e fiquei lá na recepção olhando, não sabia de nada, tinha que ficar perguntando às outras meninas. Elas muito mal-humoradas, como se eu fosse tomar o lugar delas porque achavam que eu ia tomar o lugar delas. Fui pra lá, fiquei e um certo dia ela disse assim: “Olha, você...”. Eu tinha saído de licença, porque eu tinha feito uma cirurgia de vesícula. “Você vai pra uma unidade tentar mostrar porque aqui você não tá aparecendo e eu preciso que você mostre o seu serviço. Então pra você mostrar o seu serviço, você tem que ir pra uma unidade distante.”. Aí eu disse: “Ai, meu Deus. Eu não acredito não! E agora? Não sei fazer isso que vocês fazem. Eu não tenho experiência.”, “Você não quer? Você vai conseguir!”. Aí fui pra uma unidade chamada Rua da Hora, onde só tinham três pessoas pra coordenar com a pessoa da limpeza, para que eu servisse de referência na unidade, pra ver como que eu ia me comportar e elas verem meu potencial. Foi quando eu comecei outro processo porque quando eu fui pra lá, pra unidade, tinha uma pessoa que cuidava do meu filho e ele só tinha 7 meses. Então, essa pessoa não queria mais chegar cedo em casa pra eu ir pra lá. Ela começou a botar dificuldade, todo dia chegava de cara feia. Quando ela chegava, eu já tinha dado de mamar e já tava pronta pra sair. Saía correndo. Eu corria muito até atravessar a rua, passava por um rio, corria... até pegar um ônibus. Chegava lá às 6h30, em pontinho, pra começar o trabalho porque ela não queria ficar pra chegar cedo. Ela: “Ai, não vou chegar cedo não.”. Foi pra mim... minha mãe ainda não queria ajudar também nessa parte. Foi muito difícil essa época. Muito difícil mesmo. Ela não me ajudava em nada. Ela chegava em cima da hora para que eu chegasse lá atrasada. E eu chegava na hora, em ponto. Não tomava café, já ia maquiada e só fazia sentar pra atender. Depois eu saía na hora do lanche pra tomar um cafezinho. Assim, passei muito tempo, um ano com ela assim: ela chegando tarde, tudinho. Eu dizia: “Mas, dona Maria, se eu conseguir lá pra ser coordenadora, eu não vou pegar tão cedo, vou pegar um pouquinho mais tarde. Tenha paciência.”. Mas ela não queria. Aí foi outro processo pra você tentar superar...

P/1 – E aí? Como foi esse desafio profissional? Como é que você lidou com isso?

R – Na hora, pra mim foi um impacto porque tinha muitas coisas que se faziam e eu não sabia como fazer. Mas fazer reunião em unidade, organizar unidade. A coordenadora geral sempre chegava lá pra dar um toque e chegava de surpresa pra ver como é que eu tava agindo. Passar e-mail... até que eu consegui fazer muitas coisas. Depois de um ano e alguns meses que eu já tava lá, ela já me colocou pra tirar umas férias de outra coordenadora que tava saindo de licença maternidade. Ela disse: “Olha, agora você vai pra Dom Bosco e fica em Dom Bosco e Rua da Hora”. Eu disse: “Ai, meu Deus! Outro desafio! Meu Deus, eu não vou conseguir!”. Eu não era ainda coordenadora, eu tava ainda como referência pra chegar lá. “Ai, eu não vou conseguir não!”, “Vai conseguir!”. Foi outro processo porque cada dia era um desafio diferente. Vai aprender a fazer manifestação, vai fazer isso, vai passar e-mail... muita coisa. “Como é que vou fazer pra ir pras duas unidades e cuidar das pessoas?”. Porque é muito difícil lidar com as pessoas. Quando eu tô lá com três meses que ela sai de licença maternidade, minha coordenadora já me chamou e disse: “Olha, você vai pra um desafio maior.”. Eu disse: “Eu não acredito não!”, “Você vai!”. Eu disse: “Pra onde?”, “Pra Ilha do Leite”. Eu disse: “Meu Deus, Ilha do Leite? Mas Ilha do Leite é muito grande, é muito complexo.”. Ilha do Leite é a que eu tô hoje. Eu disse: “Eu não vou conseguir.”. As pessoas não me aceitavam porque eu tinha vindo da coleta. “Eu não vou conseguir, Eliane.”, “Você vai conseguir! Você não tá se mostrando? Você vai conseguir.”. Aí quando eu cheguei na Ilha do Leite, foi um processo muito maior porque as meninas não me aceitavam porque eu tinha vindo da coleta e eu tava começando a me mostrar, então elas achavam que eu ia ser rude, que eu não ia ser compreensiva, ia ser uma pessoa chata com elas, que não ia dar certo. Então elas me rejeitaram. Tudo que eu falava, elas não aceitavam. Tudo procuravam a Eliane, que era a coordenadora de unidade, e não me procuravam. Eu passei também por esse processo. “Eu tenho que ter força. Eu vou mostrar, meu Deus, eu vou conseguir.”. Aí fiquei um tempão trabalhando, depois mostrando pra elas que não era daquele jeito, tentando ter uma afinidade, mostrando como era o meu serviço, como é que eu tava agindo. Até que, em setembro do mesmo ano, eu consegui a promoção. Aí quando eu consegui a promoção de coordenação de atendimento, elas me viram com outros olhos e foi quando tudo mudou pra mim [risos].

P/1 – Em tudo, né? A vida pessoal...

R – Em tudo. Porque na vida pessoal pra mim e pro meu marido foi uma vitória. Ele disse: “Olha, eu tô muito orgulhoso. Você persistiu muito, você conseguiu!”. Ficava horas mostrando o que eu podia fazer e o que eu não podia. Aprendi muita coisa de computador que eu não sabia. As outras coordenadoras não queriam me ajudar porque achavam que eu tava tomando o lugar de outra coordenadora que tava de licença. Aí ninguém queria me ajudar. Eu disse: “Meu Deus, o que eu vou fazer? Que desafio! Vou desistir. Não, não dá mais, vou desistir porque as pessoas não querem me ajudar, eu fico sozinha no mundo.”. Me sentia sozinha no mundo, um grãozinho de areia sozinha. “Como é que faz planilha?” Porque tinha que saber fazer planilha. “É assim... aí, é assim. Você faz assim, assim, assim...”. Era assim que as pessoas me falavam e só quem me ajudava era a Eliane. Ela era a única pessoa que não tinha medo de perder o cargo dela, o lugar dela pra ninguém porque ela me ensinava, ela me mostrava que era assim, assim... “Vou lhe ensinar como é que faz.”. E foi ela que me ensinou as coisas e eu fui descobrindo o restante das coisas por curiosidade [risos].

P/1 – A gente começou a sua história com aquela menina de 19 anos que ainda não tinha usado tênis...

R – É... [risos]. Nem calça jeans...

P/1 – Tudo isso que você já conseguiu, que balanço você faz das conquistas e como é que é olhar pra tudo isso e ver quanta coisa você conseguiu? Tá como coordenadora...

R – Pois é. Eu dou valor a tudo que eu não tinha antes. Tudo, eu dou valor. Preservo muito, falo muito pra pessoa que cuida hoje do meu filho, que é a irmã da minha mãe, a importância da alimentação, de não estragar comida. Falo pra ela que hoje ela tem as coisas que antigamente eu não tinha. Não tinha nada. Fui ter a minha primeira calça comprida com 18 anos, meu primeiro tênis com 19... muita coisa eu consegui muito depois da minha adolescência. Eu não sei o que é uma infância de: “Mãe, eu quero isso.” e a mãe dar. Então, hoje eu dou valor a tudo. Eu não sou uma pessoa estragada, eu sou uma pessoa econômica. Morro de medo de... não gosto de jogar comida fora porque já passei necessidade. Não gosto de estragar... de jogar dinheiro fora também. Quando a gente tem uma diversão, a gente aproveita bastante, o máximo. Porque eu quero aproveitar mesmo aquele dia que eu tô saindo porque antes eu não tinha, não conseguia. Hoje eu tenho o meu dinheiro. Hoje eu tenho minhas coisas de fazer, tenho aquilo pra fazer com o meu dinheiro que antes eu não tinha. Antes a gente não tinha dinheiro nenhum. Então o que eu fizer hoje, eu sempre guardo muito bem na minha lembrança. Eu sempre tiro foto pra registrar os momentos que eu já passei... muita coisa boa que eu já passei... não desperdiço nada. Sempre tiro foto, guardo e mostro pro meu filho, que vai fazer 4 anos. Ele é pequenininho, mas ele já tá entendendo como são as coisas. Nada eu deixo de guardar na minha lembrança, e sempre mostro pras pessoas e pra menina que fica com o meu filho porque ela também já passou por uma situação assim. Como é difícil, como ela tem que aproveitar e dar valor a tudo que ela tem hoje. 

P/1 – Aline, você falou do seu filho que já tá com 4 anos. Como é você como mãe? Ao longo desses quatro anos, como foi?

R – Eu era muito insegura no começo. Muito insegura. Tinha medo de perder ele, derrubar ele, tinha medo de tudo. Mas tinha medo de não conseguir dar uma boa educação. Eu disse: “Ai, meu Deus. Eu não vou conseguir dar educação a esse menino. Como é que eu vou fazer pra criar ele? É tão difícil criar!”. Mas eu consegui. O primeiro banho foi muito bom e foi aí que eu comecei a desenrolar as coisas com ele. Nos primeiros momentos de vida, ele teve refluxo, que voltava o leitinho e saía pelo nariz. Foi o primeiro susto que eu tomei, e o medo de perder ele. Quer ver o medo maior? É o medo de perder seu filho. Só de pensar, dá uma dor muito grande dentro de você. Ele me ensinou muita coisa. João Pedro me ensinou muita coisa. A ser mais passiva porque eu era uma pessoa muito fechada. Ele me ensinou muita coisa que eu fico olhando: “Meu Deus, eu não era assim!”. Até na rua mesmo... no trabalho, eu me controlo. Mas, na rua, se pisasse no meu pé, eu dava uma pesada. E ele me ensinou a ser uma pessoa passiva... que eu não era. Se viesse brigar comigo, eu brigava também. E hoje em dia, eu respiro fundo, eu penso duas vezes: “Eu tenho filho pra criar, eu quero ver ele crescer!”. Mudou muito... 

P/1 – Aline, a gente conversou um pouco sobre a coisa de viajar de avião. Você lembra a primeira vez que você viajou de avião? Foi pra ir pra São Paulo?

R – Foi... como era a primeira vez, falei pra todo mundo: “Meu Deus, vou viajar de avião. Ai que máximo! Não sei o quê...”. Aquela euforia. Não dormi no dia anterior, não dormi a noite toda e fiquei acordada. A viagem era pro meio dia, mas eu tava assim: [olhos arregalados]. Não conseguia nem piscar o olho. Até chegar lá na hora, que foi até uma foto que eu trouxe, foi do aeroporto que eu tirei. Eu não acreditava que era daquele jeito. O tempo todo olhando pra janela, o tempo todo olhando pro chão. “Ai, meu Deus, eu não consigo nem ver nada. Isso é maravilhoso. Como é que pode?”. Foi o máximo conhecer o Fleury na hora que eu cheguei lá. Quando eu cheguei, me senti a pessoa mais importante do mundo. Então a primeira viagem de avião ficou na história pra mim.

P/1 – Você já falou, mas me conta o porquê da primeira viagem. O que você foi fazer lá? 

R – A primeira viagem foi pra fazer um treinamento de ser multiplicador. Na época, a menina que fazia a multiplicação, que fazia os treinamentos, tinha saído de licença maternidade e não tinha outra pessoa. Aí ela perguntou: “Você quer?”. Meu filho tava com menos de um ano... não, tava com um ano e meses e eu já tava com essa outra pessoa dentro de casa. Ela disse: “Você quer?”, “Ai, meu Deus!”. Aí ela: “Pensa!”. Aí eu liguei pro meu marido, liguei pra minha mãe, liguei pra todo mundo que era mais apegado a mim e disseram: “Vai! Vai!”. Minha mãe falava: “Eu não acredito que minha filha vai pra São Paulo! Não acredito. Vou espalhar pra todo mundo”. Meu marido: “Vai! Te dou todo o apoio!”. Aí eu: “Eu quero, Alessandra!”. Vibrou, né? “Aline vai pra São Paulo!”. E falou pra todo mundo. Aí eu fui fazer esse treinamento de como passar pras pessoas um treinamento admissional. Eu fazia aqui treinamento admissional. Aí lá, ela me deu um CD, deu tudinho de como me comportar. E era passar isso pras pessoas. 

P/1 – E o que era multiplicação?

R – Multiplicar é ensinar as pessoas como fazer uma ficha, atender um cliente, como usar um uniforme, como se maquiar, mostrar a padronização de maquiagem, de uniforme, a história do Fleury desde quando ele começou, que ele começou com um laboratório assim, tal, mostrando tudinho até hoje. E como é que tá os laboratórios do grupo Fleury hoje e depois mostrar a parte de como fazer um atendimento. A parte ética, de conduta da empresa, toda essa parte...

P/1 – Como foi chegar em São Paulo? O que mais te impactou? O que você achou mais diferente de São Paulo?

R – O clima. Eu sofri um pouquinho com o clima. Fiquei com alergia. Tive um monte de coisa, de rinite, de tudo que é “ite”. Nem todo mundo, eu não achei tão acolhedor como aqui [risos]. Mas o clima era muito gostoso... eu não me adaptei por causa das minhas alergias. Mas eu gostei do clima de lá, eu gostei da parte do Jabaquara, do pessoal da educação. Eu gostei de tudo. Apesar de ter chegado às 23h da noite, ter feito o primeiro voo com escala...

P/1 – Só um minutinho, Aline.

(Troca de fita)

P/1 – Você tava me contando de São Paulo, que você gostou muito da parte do Jabaquara, da unidade da educação...

R – [tosse] Desculpa!

P/1 – Não, fica tranquila. Então, termina de contar pra mim sobre São Paulo. O que mais? Você fez o treinamento e voltou?

R – Foi... eu fiz o treinamento, que durou um dia e meio, e voltei. Até então eu achava a viagem de avião ótima, maravilhosa... 

P/1 – Deu pra passear em São Paulo? Algum lugar?

R – Não... eu fui sozinha, nunca tinha viajado de avião. Nunca tinha viajado sozinha. Cheguei lá às 23h da noite, peguei uma escala... pra quem viajou pela primeira vez, ainda peguei uma escala. Aí fiz o treinamento, que foi maravilhoso, conheci umas partes lá. Zu me levou pra conhecer umas partes, só que não deu pra conhecer tudo porque ela tava fazendo outros tipos de treinamento. E a viagem de volta também foi tranquila, foi maravilhosa.

P/1 – Legal...

R – Da terceira viagem em diante foi que eu peguei medo de avião... [risos].

P/1 – O que aconteceu que você pegou medo de avião? 

R – Assim, depois da segunda viagem, passei uma semana lá com a coordenadora da regional, que foi quando a gente foi ver essa parte da unidade nova. Ela, muito tranquila, então me passou tranquilidade. Eu fui também e voltei, tranquila. Na terceira viagem de avião, peguei turbulência, turbulência mesmo. Nunca andei de montanha-russa, mas disseram que é parecido... então, eu senti meu coração ficar desse tamanhinho, bem apertado. Ele ia e tremia. E eu fiquei onde? Fiquei logo na parte da asa, ali no meinho, né? Então, ali eu sentia tudo. Ele tremia muito, tremia muito e baixava. Pronto. Chorei dentro do avião [risos]. Que mico. Orei pedindo a Deus pra chegar aqui em paz. A coordenadora que tinha vindo comigo também passou mal, chorando o tempo todinho. A gente nunca tinha passado por uma turbulência dessa, né? E aí eu peguei o medo de viajar de avião e daí em diante só foi indo através de remédio. Vou e tomo um remédio, apesar de que o remédio não faz efeito. “E aí, já tá com sono?”, “Não!”. [risos]. “Tá com sono não? É sublingual o remédio!”, “Não!”. Depois que chego lá, vou tranquila pro hotel. No hotel começa a dar moleza. Aí eu digo: “Meu Deus...” [risos]. Foi assim que eu comecei a ter medo de viagem de avião. Quando me falam: “Vai viajar.”, já começa tudinho. Dando um friozinho na barriga, o coração começa a apertar...

P/1 – Tá certo. Deixa eu te fazer as últimas perguntas agora, Aline. Hoje, qual seu maior sonho?

R – Hoje? Fazer faculdade. Eu ainda não consegui fazer. Meu sonho é fazer faculdade. E, assim, crescer mais na empresa, que existe espaço e eu quero crescer mais e fazer minha faculdade. É meu maior sonho hoje. 

P/1 – Você sabe qual faculdade? O que você faria? Qual curso?

R – O curso que ,realmente, eu queria era Gestão em Saúde. Só que assim, eu vejo que tá um pouquinho difícil... condições pra fazer também. Aí tá aparecendo Logística e no final do ano eu vou tentar Logística. Pra ver se eu me adapto [risos]. Mas isso tem tudo a ver com o que eu faço mesmo, então eu vou fazer.

P/1 – E como é que foi a entrevista? Como é que você se sentiu? Como que foi?

R – A entrevista foi boa. Você é ótimo, Gustavo [risos]. Deixa a gente a vontade. Foi ótima. Só o que foi ruim é que você revive tudo de novo, o passado. 

P/1 – Essa história de passar e lembrar a história da vida da gente, como é que é? Você falou sobre a memória. Como é que você se sentiu?

R – Quando o passado é bom, você fica feliz em relembrar. Quando o passado é ruim, você fica com um aperto no coração, né?... Porque você revive tudo de novo, pensa em tudo que passou, em tudo que sofreu. Mas como a realidade agora é outra, vou pensar na realidade e não vou pensar mais no passado...

P/1 – Tá ótimo, Aline. Obrigado, querida. 

R – Nada! 

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

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