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Infância no sítio, um pedaço de vida que não volta mais

História de: Ercilia Porfirio de Freitas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/05/2019

Sinopse

Desde cedo, Ercilia preferiu ir para a roça a cuidar da casa. Estudar, não quis não. Mas aprendeu tudo, do plantio à colheita, das lavouras - milho, cana, café. Aprendeu derriçar o café, varrer, abanar, peneirar. Um dia, o pai chamou a todos, fez divisão do que tinha e explicou: “Estou indo embora”. Estava morrendo. Com ele ausente, tudo desandou, tudo desmoronou. O irmão virou a cabeça, perderam tudo. Depois, continuou a viver da roça, mas a vida, o destino parece que se acostumou a judiar dela. Sozinha com seis filhos, enfrentou até a fome, foi mais forte que a miséria, mais resistente que a dificuldade. Foi vitoriosa. Foi pai. Foi mãe. Hoje é avó que cria os netos cuja mãe faltou. Hoje é bisavó. Hoje gostaria de ver o sítio de novo.

História completa

Nasci num sítio que ainda hoje me traz saudades. A cidade é Jacutinga, Minas Gerais, e tenho uma filha que mora por lá, mas o sítio se perdeu. Gostaria de ainda ir lá uma vez. Uma que fosse. Vivo em São Paulo desde 1974, mas me sinto da roça, devo ter deixado minha alma na roça. Também, comecei a trabalhar nela com sete anos! Na verdade, não gosto da cidade, tenho medo hoje em dia. Mas enfim, foi lá no sítio que passei minha infância. Como meu pai era viajante, ficava, às vezes, até meses ausente; mas ele tinha funcionários para tocar o sítio - os pensionistas.


Chegava, punha bênção nos filhos, ficava ali uns dias, depois ia embora de novo.


 

Eu não estudei - acho que fui três meses na escola, só; só sei que nada aprendi. Também as escolas eram tão distantes… Voltava em torno de dez horas da noite, ia e vinha com meu irmão. Uma noite avistamos um gato, preto, enorme. Ele foi crescendo, crescendo, crescendo… Saímos em disparada, era assombração. Desisti de vez da escola. Foi então que eu comecei a trabalhar na roça.

 

O que eu lembro dos anos de infância é de uma convivência boa em casa quando éramos três irmãos e os pais. Algum convívio também com os avós paternos, embora estes morassem distante, o que dificultava ir. E criança ainda, eu cuidava da casa, dos irmãos, da comida para a mãe trabalhar. Deixei pai chegar de viagem e pedi para trocar: “Prefiro trabalhar”. Fui trabalhar no roçado. Trabalhei até crescer; casei na roça.Só que lá em Itapira. Eu sempre gostei muito do serviço da roça: “a arranca” do feijão; a colheita do milho; da cana; do café principalmente. Na do café, no final, tinha festa. Eu fazia de tudo, tudo eu aprendi: derriçava o café (retirada do fruto e deixar cair no chão); varria os pés de café; abanava o café; peneirava o café. E eu não tinha medo de nada. Quer dizer, só do urubu. Morria de medo de tomar picada de urubu.

 

A gente vivia bem, no sítio. Uma casa com 13 cômodos - porque aí incluía os pensionistas, eles ficavam dentro de casa. Até um deles conquistou a confiança do meu pai; tanto que se tornou meu padrinho. Mas eu sei que era uma casa muito boa, cheia de móveis, sacada… E tudo isso acabou sendo entregue quase de graça pelo meu irmão, quando pai morreu. Aí, tudo desandou. Também, ele tinha quinze anos! Mas pai ordenou, quando se despediu da gente, que ele ficasse à frente de tudo. Eu tinha onze anos. Mas é aquela história: quando falta o cabeça, a vida da gente, a estrutura da família acaba, vira de cabeça para baixo. Mas assim… Além da casa, a criação, carroça, charrete, seis terreirões de café, o viveiro das galinhas, o mangueirão de porco. E cavalos, burros, vaca leiteira, galinhas, porcos. E tudo isso perdido, porque vendido por alguém sem experiência, sem vivência. Que depois passou a beber, a me bater, a responder à própria mãe, enfim, transformou-se. Até que se tornou evangélico. Aí pediu perdão, tudo melhorou.

 

Saudade, então, do tempo do meu pai. O tempo das festas de São João, de que ele era devoto. E minha mãe era doceira, fazia doce de tudo quanto era tipo: mamão, figo, abóbora, pêssego, abacaxi. O que mais? Ah, pé de moleque, canjica, mungunzá. Assados tinha o frango e a leitoa pururuca - feitos na forquilha, que naquela época não tinha churrasqueira. E era muita dança, muita música, batata doce assada na fogueira… Três dias de festa!

 

Acho que não existe mais isso. É um pedaço que a gente passa que não volta mais.


 

E usava vestido novo. Que mãe fazia, godêzinho, manga fofa, tecido de bolinha. Só que era comprido, no meio da canela. Agora, além das festas, a gente se divertia com boneca. Fazia batizado, preparava comidinha. Bonecas de milho, ou então de pano, que mãe fazia, botava cabelinho amarelo.

 

Aí, depois veio a fase de ficar mocinha. Mãe não orientava nada não, quem contava tudo era minha madrinha. O pai também tinha lavoura de fumo, aí a gente ficava a noite toda estalando fumo e conversando. E era ali que ela tocava nesse assunto. Mas era um negócio muito cheio de proibições. Vinham as regras, não podia comer isso, não podia comer aquilo. Igualzinho quando ganhava neném: banho no rio só em quinze dias; lavar a cabeça só depois de quarenta dias.

 

Mas eu falei sobre a morte de pai e não contei a coisa estranha que foi. Simplesmente inacreditável. Ele tinha tido um problema de memória, foi para o sanatório e depois voltou, curado. Um belo dia, sentou, pediu água, chamou todo mundo e começou a dividir os bens. Assim, do nada, falou: “Não, eu estou indo embora”. E foi. Desmaiou e não voltou mais. Aí o meu mundo começou a desmoronar. O meu irmão passou a judiar de mim - dizia que eu não era irmã - pôs-se a beber, a vender tudo daquela maneira sem cuidado, sem critério. No auge dos maus-tratos, eu fui deixada com uma tia, e só depois que ele abraçou a religião dele e tudo se acalmou, é que eu pude me juntar à família em Itapira. Lá, trabalhei em farmácia, em casa de família e na roça. Pertinho de lá, eu conheci meu marido. Quando ele veio me ver, que eu o levei em casa, “já o meu irmão o fez marcar o casamento”. Durou cinco anos, duas filhas.

 

“Não, mas é o regime do meu pai. Ou então, não vem mais. Se você gosta dela, você vai casar. Se você não gosta, não precisa vir mais”.


 

Na verdade, eu só fui namorar de verdade, no sentido de tentar conhecer a pessoa com quem se pretende assumir um compromisso, com esse meu segundo marido. Uma relação que, talvez por causa disso, durou onze anos. De felicidade. Em que fui bem tratada na maior parte desse tempo. Até que ele conheceu uma outra pessoa, foi embora com ela. Com ela teve um menino e uma menina. E comigo deixou os quatro filhos, todos homens, que tivemos. Alegou que não queria mais um menino e por isso foi quando o nosso caçula tinha apenas quarenta e dois dias. Obrigando-me a ser pai e mãe. A lutar com todas as forças que eu tinha para criá-los, para transformá-los no que eles são hoje: pessoas do bem e trabalhadores. Todos e todas. Não apenas os quatro meninos, mas as duas meninas também, do primeiro casamento. Suportando e vencendo todas as dificuldades, todas as provações e privações. Por isso, quando seis ou sete anos depois ele, que hoje é, inclusive, falecido, veio tentar ver os filhos, eu disse a ele que ali não tinha nada dele, a não ser o que ele abandonou. E o toquei a cabo de vassoura.

 

Aí, quando já estavam quase criados - um até casado - a minha mãe veio morar conosco. E foi muito bom. E nos deixou saudades. E tenho certeza de que trouxe muita felicidade para ela. Pelos passeios, pela brincadeira constante, pela convivência amorosa. Mas Deus a levou. Hoje eu cuido de netos. Basicamente é o que faço, porque Deus também entendeu que era hora de levar a mãe deles. São dois, filhos do meu caçula. E espero a hora de ir. A hora de filhos, netos e bisnetos me enterrarem. Porque não quero enterrar mais ninguém não. Chega!


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