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História

Infância e lugar

História de: Sonia G. Oliveira Silva
Autor: Sonia G. Oliveira Silva
Publicado em: 18/02/2015

Sinopse

Trata-se de um sítio, próximo da cidade, onde tudo era lindo e cheirava gostoso. Há mais de trinta anos ainda não tinha energia elétrica naqueles lados. Nem postes acesos na noite. O povo que por lá vivia acostumara-se a seguir a lua cheia. Era a única luz que tinham nas noites escuras. Em casa, só lampiões e lamparinas. Na frente da casa tinha um jardim muito bem cuidado pela minha avó. Tinha um caminho, que nós chamávamos de trilho que todos os dias era varrido com vassoura feita por ela mesma com galhos secos.

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História completa

Em um quarto grande, num sítio no interior de Minas... - Vovó, meu nariz está todo preto por dentro... - Venha aqui, filhinha, eu limpo para você, é assim mesmo, quando a lamparina fica acesa a noite toda vocês ficam de nariz preto. Lamparina: Espécie de lampião pequeno, feita de latão com um pavio de corda que conduz o querosene de dentro da lamparina para fora e pode ficar acesa a noite toda.

O problema é que quando está acesa, solta uma fumacinha preta que penetra pelo nariz da gente e o deixa pretinho, pretinho. Mas como era bom acordar naquele lugar. Trata-se de um sítio, próximo da cidade, onde tudo era lindo e cheirava gostoso. Há mais de trinta anos ainda não tinha energia elétrica naqueles lados. Nem postes acesos na noite. O povo que por lá vivia acostumara-se a seguir a lua cheia. Era a única luz que tinham nas noites escuras. Em casa, só lampiões e lamparinas.

Na frente da casa tinha um jardim muito bem cuidado pela minha avó. Tinha um caminho, que nós chamávamos de trilho que todos os dias era varrido com vassoura feita por ela mesma com galhos secos. Do outro lado da casa tinha outro trilho para quem vinha de trem. Meu avô era aposentado da antiga “Companhia Mogiana de Estradas de Ferro”, e logo depois do sitio tinha uma estação onde o trem parava para ele descer e voltava o caminho a pé. Em frente à porta da cozinha, alguns metros para baixo, ficava o paiol, sempre cheinho de milho já seco usado para tratar das galinhas.

Do lado do paiol ficava o “Giral”, nome dado a uma espécie de mesinha de madeira com as pernas compridas e bem altas. Entre as quatro pernas era colocada uma enorme bacia para as galinhas beberem água. Em cima do giral, minha avó colocava milho para secar, mandioca que apanhava no quintal, etc. Era um aparador para tudo que vinha da horta. Na hora de jogar milho para as galinhas dava até briga entre eu e meu irmão mais velho. Só nós dois podíamos passar as férias todinhas no sítio da vovó. Meu outro irmão, caçula, por ser menor, não ficava com a gente, voltava para casa com minha mãe.

Tínhamos os dias inteirinhos para brincar, pular, subir nas mangueiras e nos isolarmos na nossa “prainha” particular. Nos fundos das terras do sítio passava o Rio Guaxupé. Naquela altura, seu fluxo era menor, quase um córrego, e formava montes de terra dentro do leito. Nós dizíamos que eram ilhas. Para atravessar da margem do rio para a ilha, segurávamos em um bambu grosso e firme e pulávamos jogando o corpo todo. Dava certinho, caíamos em cima da ilha. Lá a gente ficava horas, conversando e sonhando com o que iríamos fazer quando crescêssemos.

Próximo a este sítio tinha vários outros. As crianças que moravam lá já sabiam que todo ano nós vínhamos passar as férias e ficavam esperando ansiosamente para brincarmos de soltar pipas, pular corda, de cobra-cega, para subirmos em árvores e outras tantas brincadeiras gostosas. Sem contar quando vovó fazia boizinhos de chuchu e de abóbora. Nós dois éramos da cidade e sempre tínhamos muita coisa para contar e para ouvir dos amiguinhos de lá.

Sentávamo-nos em frente ao fogão de lenha da vovó, (isto quando não sentávamos na própria “trempe” do fogão), por causa do frio de julho, e ali ficávamos horas ouvindo minha avó contar histórias de assombrações e fantasmas, de bruxas e fadas, coisas que ela ouviu da avó dela e modificava um pouco para nós; sempre com três ou quatro lamparinas acesas e as brasas fumegantes do fogão de lenha. Às vezes ela resolvia cantar para nós e com a voz rouca começava a cantar “Terezinha de Jesus”, “Mamãe, mamãe, mamãe, avental todo sujo de ovo, mamãe...” e várias outras cantigas lindas. Geralmente essas histórias e cantigas eram acompanhadas de tigelas de arroz-doce, broa de milho e doce de batata-doce. As noites de sábado, minha mãe passava com a gente, e ajudava vovó a cantar fazendo cafuné na minha cabeça.

Nas noites de Sexta-Feira Santa era uma loucura. No silêncio da noite escura só se ouvia o som das “matracas”, objeto feito de madeira que, batendo, provocava um barulho estranho. Quem tocava as matracas na sexta-feira eram os homens encapuzados com panos pretos e acompanhados das mulheres, também com a cabeça coberta de preto e velas acesas. Iam cantando um canto fúnebre e triste. No meio da noite só se via o brilho das velas acesas. Eram os caçadores de Cristo. Quem saísse na porta de corpo inteiro morreria. Eu quase morria era de medo Não entendia o que era aquilo. Não via a hora de o dia amanhecer. Na Sexta-Feira Santa não se varria a casa, não podia trabalhar. Era preciso tomar cuidado para não machucar nas brincadeiras, pois “Jesus havia morrido” e não olharia por nós.

No Sábado de Aleluia, cuidado todas as artes (travessuras) que fizemos durante a Quaresma poderiam ser descontadas neste dia. Era o dia de “arrancar aleluia”. Estávamos saindo do mês de maio, após a Semana Santa, e de vez em quando minha avó gritava para sairmos na frente da casa para ver os balões subindo. Ainda não se falava em proibições. Apesar do perigo, como era lindo vê-los subindo nas noites escuras, totalmente iluminados. No mês de junho os “meeiros”, homens que plantavam no sítio “a meia” (dividindo ao meio a produção) com minha avó, vinham montar a fogueira. Ela, já idosa, havia ficado viúva, então combinava com aqueles homens e a tarefa do plantio ficava por conta deles nas terras de minha avó. Tudo que a terra dava era dividido.

E nas festas juninas toda a comunidade daquele lugar participava e ajudava. A festa era sempre no sítio da vovó. O preparo era trabalhoso. Nós já “fazíamos a festa” com a preparação da festa. Pães, roscas, broas, bolos de todos os tipos, tudo assado no forno a lenha; pipoca, canjicada, milho verde, docinhos de pedaço (feitos com leite purinho, vindo das fazendas onde se distribuíam o leite da Sexta-Feira Santa), e o mais importante: o “quentão”, (bebida feita com cachaça, gengibre, cravo, canela e açúcar). Tinha também o famoso vinho quente, outra bebida à base de vinho tinto colocado em uma calda quente de açúcar com canela e cravo, uma delícia, mas nós, crianças, só podíamos olhar.

O que achávamos mais chato era esperar rezar todos os terços (o rosário todinho), pois se rezava para os três santos: Santo Antônio, São João e São Pedro. E na hora de levantar o “mastro” (tronco de madeira fincado no chão, bem alto, onde eram colocadas as imagens dos santos), as meninas deviam jogar com as mãos um punhado de terra no buraco onde ia ser colocado o mastro para “arrumar bom casamento”. Minha avó ficava feliz ao fazer as famosas “matulas”, sobras de bolos, doces, roscas, etc. que ela fazia questão que todos levassem para casa. Dizia: Leva, "cumadre", ocê não trouxe o Zezinho. Ele pode ficar com vontade. No outro dia, nós corríamos a preparar argila e moldar qualquer coisa que desse na cabeça, bonecos, casinhas, carrinhos, porque o forno estava cheio de brasas e podíamos usá-lo para queimar nossas “esculturas de barro”.

Sempre chegávamos à cidade com caixinhas cheias de esculturas de argila. Eu tenho algumas até hoje. Também me lembro nitidamente dos “benzimentos”. Quando eu ficava com dor de barriga ou alguma coceira estranha no corpo e minha avó não queria chamar minha mãe na cidade, ela chamava a “SinhAna”, mistura de Sinhá e Ana. Era uma senhora negra, bem gorda, da cabeça branquinha, que todos diziam ter sido escrava. Parece que escuto a voz dela, macia, dizendo baixinho: “O que é que eu corto, minha fia?” E ela ensinava a responder: “Cobreiro, sapeiro, aranheiro, assim mesmo eu corto” e ia cortando um talinho de couve com uma faca enorme. Rezava baixinho e fazia o sinal da Cruz várias vezes. Acho que eu obedecia de medo. Não sei explicar: a dor de barriga ou a coceira iam embora. Mas ela não saía sem aconselhar minha avó: - Cumadre faz um chá de hortelã, misturado com erva-doce bem morninho e dá para ela. Pra essa coceira, faz um chá de “picão”, côa num paninho limpinho e branco vai passando no braço dela “pela vorta do dia” (ela queria dizer durante várias vezes no dia). Ocê vai vê que amanhã ela num tem mais nada Quando minha mãe e meu pai retornavam nos fins de semana para nos buscar, tínhamos muita coisa para contar, e normalmente não queríamos ir embora para a cidade. As férias na minha casa não tinham graça.

Eu não tinha videogame, nem nada dessas modernidades. Só podia brincar na porta de casa, sob a supervisão de minha mãe, pois cidade é perigoso, mesmo sendo cidade pequena e no interior. A minha paixão na cidade era a escola. Sempre adorei estudar, então, férias, já que não tinha escola, eu queria era ir para o sítio. Da idade de cinco até os doze anos passei as férias, fins de semana e feriados do lado de minha querida avó. Foram tempos maravilhosos, principalmente quando minha mãe deixava levar alguma colega da cidade. Eu me sentia muito importante mostrando a ela tudo que tinha na roça, desde os animais, as árvores frutíferas, onde eu subia com orgulho pelos galhos, até as flores, o rio, a ilha, os porcos no chiqueiro, o ferro de passar com brasas dentro, o milho verde assado no braseiro, a batata-doce assada junto com o milho, tudo delicioso, o contrário do que se faz hoje.

Os meninos da cidade encantam os da roça com as coisas modernas, e os deixam frustrados por não terem nada daquilo. Eu só ficava triste no dia marcado para matar o porco. Não saía do quarto enquanto a vovó não chamava. Quando eu ia para a cozinha já via aquele enorme pedaço de carne sobre a mesa, sendo retalhado pelas vizinhas, minha avó e minha mãe, enquanto meu pai e os outros homens lavavam o lugar onde mataram o coitado. Era um tal de dividir com todo mundo. A minha tarefa e de minhas amigas era levar para os vizinhos do sítio os pedaços que minha avó mandava. Tempos de muita fartura.

Depois cresci e percebi que na cidade tem lojas, shoppings, cinemas, praças, festas e, para desgosto da vovó, nem eu nem meu irmão queríamos mais ir para o sítio. A gente ia de manhã com toda a família e voltava à tarde. Os compromissos eram outros. Os trabalhos da escola, as reuniões, as amigas, o namorado, o cinema, etc. Tudo isso concorria com minha avó, que ficava cada vez mais sozinha. Finalmente, a família achou que a vovó estava muito só, que ficaria melhor na cidade, ficaria mais fácil para nós, com nossa falta de tempo, ‘olharmos’ por ela. Compramos uma casa e ela se mudou para lá. Quem plantava de tudo, passou a comprar verduras “na carrocinha”. Isto era a morte para ela. Não se conformava de viver na cidade. Não sabia nem acender o fogão a gás. Foi preciso fazer para ela um fogão a lenha. Isso fez com que ela voltasse a assar os deliciosos bolos para os netos. Com a família toda ao seu redor, ela voltou a sorrir. Mas, infelizmente não durou muito. Algum tempo depois não tínhamos mais o “lugar de nossa infância”. O sítio ainda existe, mas não é mais o mesmo. Com tudo moderno nada sobrou para nos lembrarmos, a não ser o que me vai, verdadeiramente, na memória.

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