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História

Inclusão e cidadania por meio do computador

História de: Fátima Maria de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/05/2020

Sinopse

O CDI faz parte de uma organização internacional que visa a inclusão digital. Fátima Maria de Oliveira conta sobre quando entrou no CDI, aqui no Brasil, e apresenta as mais variadas formas de trabalho do CDI regionalmente. Fala sobre os projetos em parceria com associações, em comunidades, com escolas e a Fundação Casa. E conta o desafio que é trabalhar o conhecimento de informática nessa época junto com atividades de cidadania.

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História completa

P/2- Você poderia começar falando o seu nome completo, local e data de nascimento?

R- Meu nome é Fátima Maria de Oliveira, nasci em 31 de dezembro de 1965, em Natal, Rio Grande do Norte.

P/1- Conta para gente como você conheceu o CDI [Comitê para Democratização da Informática] e como você começou a trabalhar no CDI?

R- Eu vim para São Paulo em 2003 e vim para fazer doutorado tinha acabado de fazer um _____________ e vim para cá.

P/1- Em quê?

R- Em ciências sociais, na área de ciências sociais. Vim para ECA [Escola de Comunicações e Artes da USP]  para pegar uma disciplina com ______ especial, e me envolvi com uma pesquisa lá na ECA. Na minha casa, eu tinha computador, tinha Internet, mas quase não usava, usava mais à noite. Lá, nesta pesquisa, eu comecei a utilizar Internet e eu comecei a entrar em algumas revistas de terceiro setor e estava na minha cabeça de trabalhar no terceiro setor. Já tinha montado uma ONG lá em Natal e estava querendo entrar no terceiro setor, mas queria entrar numa ONG maior pra estar aprimorando o conhecimento. Entrei na Internet e sempre entrava no ___________. Aí o CDI estava pedindo pessoas na área pedagógica. A princípio, eu achei que não fosse pegar porque eu era socióloga e estava me candidatando a área pedagógica, embora minha vida toda fosse como professora. Fui e me inscrevi, concorri e fui entrevistada, passei por uma seleção e acabei aqui no CDI.

P/1- Em que ano foi?

R- Foi no ano passado, setembro de 2003.

P/1- Qual era o perfil profissional de pessoas que eles estavam procurando quando você concorreu a esta seleção?

R- Eles estavam procurando pessoas que estivessem envolvidos com educação popular, tivesse trabalhos na área de educação popular e que tivesse envolvimento social em educação popular e tivesse uma prática dentro da área de informática, que a utilizasse o instrumento como ferramenta pedagógica. Era isso que eles pediam, inclusive, eu não sabia que era uma ONG de inclusão digital, nem conhecia o CDI. Eu vim de Natal e lá não se falava em inclusão digital. Aqui que eu comecei a dar de cara com isso. Quando eu vim para a entrevista, foi que eu comecei a falar e meu histórico tinha tudo a ver com a vaga que estava disponível.

P/2- Como foi a seleção? Dá para descrever?

R- A seleção foi gostosa. Porque quando você se identifica com uma coisa, fica bem legal. O CDI estava com uma parceria com a (Kalants?) que é uma empresa de seleção e que faz trabalhos para ONGs. Então, eu fui entrevistada primeiro por essa empresa, por uma profissional, uma psicóloga e ela perguntou como era minha vida, como era minha vida profissional e eu comecei a contar. Eu estava a fim de falar um pouco, estava fora da minha terra, então eu comecei a falar muito e ela disse que se encaixava perfeitamente na vaga, já foi falando isso e eu fiquei super feliz. Ela disse “Eu entro em contato com você”, isso foi num dia, no outro dia já entraram em contato comigo. Aí fui fazer uma outra entrevista, desta vez com o pessoal do CDI, com o Rodrigo e com a Juliana, que antes era coordenadora regional e o Rodrigo era desenvolvimento institucional. Fui fazer com os dois a entrevista. Fiz a entrevista com os dois e aí foi tecnicamente eles falando o que era o CDI, o que eles pretendiam, como é que eu me encaixava, como é que eu me via neste trabalho. Uma das preocupações de Rodrigo era inclusive com doutorados e ele disse: “ E o doutorado você vai deixar de lado?”. Eu estava pegando disciplina na USP eu disse: “O doutorado eu não tenho amadurecido ainda o objeto e eu pretendo estar trabalhando para pensar neste objeto. Não é uma coisa que eu tenha que fazer para já, tanto é, que eu vou fazer seleção ainda”.

P/2- Onde você está fazendo?

R- Eu estou conversando com uma professora da PUC. Estou querendo trabalhar com inclusão digital e gestão comunitária. A entrevista foi assim: a Juliana é muito olho no olho, então bateu de cara uma identidade, foi legal. O Rodrigo era mais formal, mas também não teve problema com ele também. Perguntou algumas dicas de como entrar na ________ e tudo, então já começamos a trocar informações. Foi legal, correu super legal e na mesma semana me chamaram para trabalhar, para minha surpresa, porque eu estava trabalhando na pesquisa, então eu tive que me arrumar, ir para o Rio. Foi meio corrido mesmo.

P/1- Qual é a atribuição do coordenador pedagógico aqui no CDI?

R- O coordenador pedagógico é responsável pela formação dos educadores. Diretamente, ele é responsável pela formação dos educadores. Os educadores que vão trabalhar nas comunidades.

P/1- Nas EICs [Escola de Informática e Cidadania]?

R- É, a área pedagógica é responsável por isso diretamente. Indiretamente, a área pedagógica é responsável para dar uma costurada em organização na parte pedagógica que é a sustentação do CDI. A área pedagógica faz o trânsito, como a gente vai trabalhar a gestão, como vai trabalhar a manutenção, como vai se dar isso, porque na realidade a proposta política pedagógica vai dar encaminhamento a proposta político pedagógica do CDI, que é a espinha dorsal do CDI.

P/1- Você pode dizer quais são os princípios básicos desta proposta político pedagógica?

R- Os princípios da proposta político pedagógica: um e que é o principal, é que todas as pessoas são sujeitos. Como sujeitos são ________, são trabalho e são autores de suas ações, por isso podem transformar o seu meio. Acho que a mola mestra é esta, que é um princípio baseado na metodologia de Paulo Freire, a metodologia baseada nos princípios de Paulo Freire, acho que é isso que baseia-se a proposta político pedagógica. Com base nisso, a gente trabalha a comunidade, se o sujeito estuda numa comunidade, como é que eu vou fazer para mudar esta comunidade. Eu sou responsável por ela, pelo espaço e pelas pessoas. Dentro desta relação com as pessoas, eu posso estar transformando esse ambiente, este espaço, então é essa a base da proposta político pedagógica.

P/2- Como foi a sua formação como coordenadora pedagógica? Você foi ao (Pio?)? Você fez algum curso? Como é que foi para você captar essa proposta?

R- Primeira coisa que aconteceu quando fui contratada, eu fui para o Rio, mas era um encontro internacional de CDIs. Eu fui para lá ter uma capacitação em base pedagógica e capacitação em projetos. Eu fui meio que sendo levada, eu não sabia exatamente para onde ir, porque eu não sabia como é que as coisas aconteciam. Então onde a Juliana ia, eu entrava e fui fazendo. Quando chegou na discussão do fórum, quando eu cheguei lá, a discussão não me era estranha, o pessoal estava falando de uma dinâmica de pesquisa mais voltada para a pesquisa, que era uma dinâmica de trabalho que eu conhecia. Não tinha nenhum problema naquele momento. Estava se falando da reformulação da proposta político pedagógica. Se falava daquela reformulação como se já estivesse em prática. Eu saí de lá já certa de que aquilo estava em prática e fui pegando o corpo da equipe aqu. Já fui entrando e vamos trabalhar assim, a capacitação é assim. Foi assim, o pessoal foi sendo levado e eu fui sendo levada por aquela coisa que já tinha sido discutida e assim fomos. Então a gente não teve mais cursos nem contatos a não ser com emails, mas acaba ficando... Agora, por exemplo, a gente está fazendo um exercício de interlocução pedagógica que é uma proposta que a gente fez lá no Rio, em junho. Quando a gente esteve lá, teve uma pessoa, um cara da regional, para estar discutindo, para estar puxando algumas discussões para não ficar muita coisa dispersa. Agora a gente até está discutindo algumas questões. Antes era assim: jogava um email “Olha, eu tenho que mandar a capacitação disso, plano de capacitação daquilo”, a gente fazendo do jeito que achava que deve e vamos fazendo. Houve o encontro do sudeste em maio de 2004. Quando houve o encontro do sudeste que eu fui me encontrar com todo mundo então, eu já tinha passado por um período iniciático, aquele período meio... Foi interessante porque quando eu cheguei no sudeste eu estava assim, era mais fácil para mim assimilar aquela discussão na prática, porque na realidade a discussão me era conhecida sim, mas era uma discussão teórica se eu tivesse como referência o CDI porque eu não tinha vivido a prática do CDI e cada um tem sua realidade. Quando eu cheguei lá no encontro do sudeste, foi super diferente porque foi caindo as fichas. Era a reformulação da proposta político pedagógica, então eu descobri que estava todo mundo tentando fazer e na realidade aquilo não era uma consolidação __________ _________ estava consolidada. A reformulação era uma proposta e que estava sendo amadurecida. Então eu fiquei mais tranquila, fiquei bem mais tranquila mesmo, inclusive o próprio desenrolar das coisas presentes que dependia da gente também, e dependia deste movimento acabou. A gente ali meio que como um rolo compressor, aí depois a gente começou a puxar o carro. Na realidade, pela própria intuição, a gente já começou a perceber que as coisas não eram bem assim, ia puxando aqui e ali, meio confuso sem saber até aonde a gente podia ir, onde tinha autonomia, onde não tinha autonomia pra puxar. No encontro ficou mais claro que é o meu papel, que é a autonomia que a gente tem e como a gente pode construir isso, como a gente pode trabalhar esta autonomia sem ferir os princípios, o que é importante então isso começou a ficar claro do ponto de vista mais geral.

P/2- Você poderia explicar um pouco esta relação? Qual seria o seu grau de autonomia e como se dá esta relação entre o regional e a matriz?

R- A matriz ela tem um papel fundamental que é de unificação pros princípios inclusive, até porque se você tem uma proposta que vem __________, uma proposta política que eu entendo, assim se você se identifica com ela, você vai trabalhando. Então assim, se tem várias franquias, é assim que eu entendo, os regionais são franquias e se as regionais são franquias, elas procuraram o CDI por um motivo, então elas se identificam, se há uma identidade você vai trabalhar junto, construir junto. A matriz, o papel dela é unificar, ela está trabalhando para a unificação. A nossa autonomia, ela é autonomia da prática, como é que eu vou fazer. Existe uma proposta político pedagógica que é uma proposta baseada em princípios gerais, mas como é que eu vou desenvolver? Então, se está claro para mim o princípio, a prática, evidentemente, eu vou estar trabalhando, e vou estar tentando não ferir os princípios, porque a gente não pode pensar que vai estar todo tempo certinho, quer dizer não existe 100%. Uma das coisas que a gente trabalha muito é com processo, a gente valoriza o processo porque a gente tem todo um trabalho de discussão naquilo. A gente está trabalhando aqui fazendo uma prática, construindo experiência, vivificando coisas e a partir destas vivências a gente está pensando aqui, refletindo aqui, jogando na rede estas reflexões e trabalhando e refletindo junto como os outros. A partir daí, construindo outras coisas que tem a ver com nosso princípio lá, que está norteando tudo. Eu vejo a nossa autonomia a partir desta prática de estar construindo e exercendo esta prática.

P/1- Você disse que a proposta está sendo rediscutida. O que está em jogo, o que está se revendo?

R- A proposta antes do CDI era baseada… Ela tomava como base uma proposta pedagógica do pessoal do NIED [Núcleo de Informática Aplicada à Educação] da Unicamp que trabalhava focando uma pedagogia de projetos. Quando você trabalha, por exemplo, pensando em computação, informática, você trabalha o Word, então vamos fazer um jornalzinho no Word, porque Word dá para você fazer um jornal, um folder, o que o Word te dá capacidade de fazer. Então você vai e faz e cria instrumentos dentro da escola para fazer um projeto. Um projeto que pode ser geralmente a construção de um jornal, de uma coisa mais escrita do que uma ação. Quando se começou a discutir os princípios de Paulo Freire, começou a se perceber que não se casava muito, quer dizer você tinha uma proposta que era muito mais construtivista e passando muito mais o cognitivo e a aprendizagem do que a ação. E se coloca o instrumento, a informática, não como mediadora, não como instrumento mesmo, mas como fim, então se começou a discutir isso. Nesta discussão se colocou que a gente precisa estar realmente trabalhando a ferramenta como instrumento, trabalhando como ferramenta e não como fim. Neste pensar se construiu esta proposta de trabalho. Na realidade, o que se viu lá no Rio em setembro de 2003 não foi a reformulação da proposta, foi o pensar deste processo e a proposta de ação. Como é que eu vou fazer isso funcionar a partir de agora? Foi trabalhar a capacitação do educador. Como é que a gente vai dar esta capacitação? Aqui quando eu cheguei, eu comecei perceber que a gente estava dando uma capacitação de 92 horas que se colocava passo a passo como se a gente tivesse vivificando o momento de EIC com base na proposta do NIED. Aí foi que eu pensei, a gente precisa estar trabalhando... Eu acho que estes educadores das primeiras reuniões que eu participei, principalmente em dezembro de 2003, que no final a gente fez uma grande reunião para apresentação de projetos. E pela apresentação de projetos, eu comecei a perceber que o pessoal não... Era este o meu conflito porque eu achava que a proposta estava consolidada e quando eu vi eu fiquei louca, mas o pessoal está apresentando projetos sem nenhuma consistência. Quer dizer você não tem nenhum pé na comunidade, que projeto é este aí, eu comecei a ficar aflita. Aí a gente com uma equipe e uma forma começou a trabalhar uma capacitação de 40 horas, mas conforme a metodologia, vamos trabalhar a metodologia porque se a gente tem claro a metodologia a ferramenta é muito mais fácil. Como é que eu vou usar a ferramenta se eu não tenho clara a metodologia? Como é que eu vou trabalhar a ferramenta? Como instrumento se eu não tenho claro o que eu devo fazer, como é que eu posso fazer?  Então a gente está trabalhando esta capacitação hoje de 40 horas, nós tivemos quatro capacitações neste modelo, temos visto que tem mexido, os educadores que estão fazendo esta nova capacitação estão sendo mexidos.

P/1- Mexidos como?

R- É, provocados, provocados para refletir e questionar a própria ação. Porque na realidade a gente não tem como, eu acho que o grande princípio da capacitação é a sensibilização. Primeiro você tem que se sensibilizar. Se a pessoa se identifica, se você conquista, se você cativa, aí a gente começa uma formação, primeiro passo para a gente, entendeu, como sensibilização. Por isso que a gente diminuiu a carga horária. Não adianta você ficar com 90 horas cozinhando, primeiro como se você fosse um partido que você fica dizendo tudo. Não é assim, a gente não vem com um pacote, a gente está querendo trabalhar, despertar, construir junto, por isso que eu falo provocar, porque a gente está provocando para começar a trabalhar isso. É difícil, não é fácil o processo, a gente está colhendo umas pequenas e poucas coisas agora, mas a gente está feliz com que está colhendo, fazendo um pequeno efeito, mas este efeito talvez com continuidade, a gente consiga melhorar.

P/2- Você poderia dar exemplos, por exemplo, desta reunião que você teve com os representantes deles e os projetos que eles mostraram? Você poderia dar exemplos em que pontos que eles não estavam cumprindo? E depois talvez o exemplo desta mudança que você percebe?

R- Nesta reunião, tínhamos quase 40 educadores e me deixou feliz também porque o pessoal não estava vindo muito.

P/1- Foi neste ano, 2004?

R- No final de 2003. Eu fiz uma reunião captadora e esta foi a segunda reunião que eu fiz junto com a equipe. Os projetos se davam assim: discussão sobre sexo e drogas, aí os meninos tinham feito um PowerPoint sobre DST [Doenças Sexualmente Transmissíveis]. Tinha um projeto que eu lembro sobre a identidade dos meninos que eu achei interessante, que inclusive o projeto mesmo escrito do jeito que foi apresentado, ele é muito pobre. A princípio, você olha assim e fala “Eu não estou vendo nada”, mas quando você vai vendo ele durante o processo, você vai discutindo e vendo como se desenvolveu, aí você percebe a riqueza. Naquele momento, como eu estava só vendo aquilo ali, eu não percebi muito bem. Só me chamou a atenção este de identidade. Tinha um outro... Uma grande parte falava de projetos da associação, da instituição, tipo assim, “Estamos fazendo uma gincana da cidadania”, aí as pessoas estão envolvidas, “Quem foi que fez a gincana da cidadania?”  A EIC se confunde com associação, isso é uma coisa que aparecia muito. Outra coisa, isso tem muito sexo, drogas, eu acho que era mais isso. E violência, se falava muito em violência. Não violência da comunidade, violência assim, estudos sobre a violência. Tinha uma pesquisa sobre violência e se colocava slides, uma coisa meio por aí. Aí eu perguntava como foi que surgiu este tema, aí o pessoal “Surgiu porque a gente trabalhava na associação com estes temas e a gente acha necessário que seja assim porque os meninos e não sei o que”. Tinha toda uma preocupação em trazer alguma coisa para os meninos e não tirar dos meninos isso. Aí a gente foi trabalhando isso e agora em algumas visitas que eu fiz e em algumas visitas que o pessoal fez também, a gente fez uma avaliação nestas visitas. A gente ficou maio e junho de 2004 fazendo visitas. E eu descobri alguns “foquinhos”, algumas fagulhas. Lá no (Einstein?), por exemplo, Paraisópolis que é uma grande associação, instituição, um menino que trabalha lá e é educador, ele é uma das mais antigas e ele fez a primeira capacitação neste modelo de 40 horas. Ele já tinha feito a antiga e fez esta. Eu cheguei lá e comecei conversar com ele, ele disse que estava querendo fazer um trabalho com projetos porque ele era extremamente técnico entes. Ele fez faculdade de informática, então ele era meio técnico e ele tinha muita dificuldade. O que acontece lá no (Einstein?) é que tem umas oficinas de cidadania e tem a de informática, eles não conseguiam fazer este link. Aí aconteceu um fato curioso, ele me contando. Tinha um pessoal que começou a trabalhar Windows e ele pediu para trazer, para que eles pensassem como era a família deles, de onde os pais vieram não sei o que, aí todo mundo descobriu lá dentro que era do nordeste. Então eles fizeram histórias de vida, como os pais vieram até ali, como foi o trânsito deles até a chegada em Paraisópolis. Surgiu uma turma de adolescentes que ficou com muita vontade de fazer uma peça de teatro ou vídeo contando a história de Paraisópolis. Eles não chegaram fazer, foi só um momento de reflexão e tudo mais. Ele não conseguiu conduzir este processo, só ficou na vontade realmente. Eu estou trabalhando isso com eles, como é que a gente pode _____ e tudo de uma forma delicada, porque a ansiedade que a gente tem que as coisas aconteçam, as coisas não podem ser assim e eles estão bem empolgados. Outro menino que saiu da EIC, o Washington, eu até coloquei ele para vocês entrevistarem, ele saiu da EIC e foi fazer nossa capacitação aqui. Então, ele ficou muito mexido, ele ficou muito tocado.

P/1- Ele saiu da EIC, mas ele trabalha com o que?

R- Ele saiu da EIC como aluno e agora ele fez capacitação para ser educador. Quando ele chegou lá, que ele começou a falar o que estava acontecendo na capacitação, então o pessoal ficava meio... Né? Ele está confuso, mas é uma confusão boa, eu acho uma confusão boa, porque é assim meio, ai como é que a gente vai fazer? Ansioso, querendo, então ele está trazendo isso e a minha coordenadora conversou comigo e disse que ele está muito empolgado e “tá” mexendo muito com a estrutura de _______. Eu vejo a capacitação e acompanhamento muito ligados. Se a gente não perder este bonde acompanhando e tudo, porque a gente está tentando fazer isso, a gente mudou inclusive o nosso trabalho de acompanhamento em função desta nova fórmula de capacitar, acho que a gente tem ganhos para mais tarde. Outra coisa que aconteceu que me deixou muito feliz também foi algumas percepções mesmo. Lá na creche, Arquinha, por exemplo que vocês foram. Tem um projeto de desconfinamento, que é um projeto da associação.

P/1- Projeto de quê?

R- Desconfinamento, que eles chama de desconfinamento que é um trabalho dos meninos saírem daquele lugar para conhecer outros lugares, para conhecer outros espaços, conhecer a cidade, conhecer os lugares e sair dali.(Fim da fita).

R- A associação está puxando, só que a associação se identifica muito com o CDI, mas os educadores estão meio que tateando, eles sabem da necessidade de fazer o link com a EIC, eles trabalham e puxam alguma coisa de lado porque assim a EIC está ali, naquele universo todo, é uma pequena parte e eles estão tentando fazer o trabalho puxando este trabalho para a comunidade. Para gente, eu pelo menos vejo assim, o que é importante é que você esteja utilizando isso como avanço, isso eles estão fazendo para a comunidade. A partir da discussão que a gente teve lá, eles estão pensando em propor um projeto para o pessoal lá dentro deste desconfinamento, que eles chamam de projeto do meio ambiente, para ir para Paraisópolis e estar trabalhando jardins e canteiros. Os meninos estarem trabalhando isso com o computador, como usar o computador, eles estão pensando nisso. São algumas coisinhas assim, na AEB também, a gente, Associação Evangélica Beneficente lá no Jabaquara. É uma instituição grande também. Eles estão tentando trabalhar agora com mulheres. Eles estavam fazendo um projeto de empreendedorismo, aí eu estava conversando com a Daniela, que é a coordenadora, eu disse “Por que você não puxa essas mulheres para fazer o curso de informática?”, eles puxaram e as mulheres estão fazendo e estão fazendo um projeto de buffet em festas. Dentro da EIC tem algumas coisas que estão tendo, agora eu não estou lembrada muito bem das coisas. No ASA Transforma, por exemplo, tem uma coisa que eu acho interessante que foi onde eu vi o projeto de identidade. O ASA, o pessoal de lá, eles entraram, foi bem interessante como eles apresentaram o projeto em dezembro de 2003. Eles apresentaram dizendo que não sabiam nada de computador e computador para eles era tão estranho quanto para os meninos, era muito complicado. Eles preferiram não trabalhar com nada, com nenhum projeto porque eles fizeram capacitação anterior e eu os conheci já em dezembro de 2003 também. Eles preferiram não trabalhar com nenhum projeto porque eles preferiram se familiarizar com a máquina junto com os meninos, porque para eles também aquilo era meio que, sabe? Então eles passaram o ano de 2003 querendo se familiarizar com a máquina melhor e eles estão ainda tentando fazer alguma coisa relacionado com... Na realidade, eles fazem, eles pegaram os circuitos  da _____________, por exemplo, e dizem que fizeram um plágio como os circuitos da ____________ estão pegando as famílias e estão trazendo, estão querendo ver se as famílias se apropriam da EIC, se trabalham na EIC à noite, o que eles ainda não conseguiram porque lá é mais uma creche, trabalham mais com meninos adolescentes até 14 anos.

P/1-  Estes exemplos que você deu são importantes para você. Eles têm um traço incomum que é a aplicação da ferramenta dentro da realidade local. É assim?

R- É, está iniciando este processo, eu diria. De estar pensando esta ferramenta como um instrumento da comunidade e não só como instrumento de uma associação ou de uma EIC assim. Na realidade, a gente tem um desafio grande e tem uma ousadia muito grande na nossa proposta, que é esta apropriação da ferramenta, do espaço. Tem até uma proposta da matriz que eu achei super interessante de não ser escola de informática, mas ser espaço mesmo de informática. Escola dá uma coisa de curso e fecha. Uma das dificuldades que a gente tem: ontem eu estava conversando com uma educadora e ela estava dizendo, “Sabe, eu sei que a gente tem que dar Word porque tem mercado de trabalho, não sei o quê”. Eu disse “Olha tudo bem, mas qual é o objetivo? É só você dar o Word?” Então, assim você acaba trabalhando os softwares em função do curso e o curso fecha e acaba botando uma camisa, uma camisa de força e você acaba. Eu preciso de uma mês para dar o curso de Word, aí eu vou dar o curso de Word em um mês e faço qualquer coisa que possa se fazer com o Word. Isso é uma coisa que a gente identifica e que a gente está tentando trabalhar melhor. Acho que no momento que a gente tem esta relação de escola mesmo, no momento que a gente puder tirar um pouco desta coisa de imaginário construído, que é o imaginário de escola que é muito forte. Escola é aquela nave espacial que parece que está fora da sociedade, aí talvez a gente consiga. Eu concordo com a matriz, com o pessoal do pedagógico da matriz, que não é assim que se faz o espaço. Eu acho que os espaços se fazem com um processo. Porque se a gente fizer o espaço, é a gente que vai estar fazendo, essa apropriação, ela vai estar acontecendo e o nosso papel é estimular pra que isso aconteça e não manifestar, decretar aquilo é um espaço e não uma escola.

P/1- Você estava falando do sistema de acompanhamento que vocês fazem nas EICs. Como é que é este sistema? A sistemática do acompanhamento?

Até maio, a gente estava discutindo e avaliando como estava sendo nosso acompanhamento. A gente estava fazendo as capacitações e o acompanhamento era de responsabilidade de projetos. Eu comecei a discutir e colocar a pedagógica junto com projetos para estar trabalhando este acompanhamento. Fiz uma proposta, a gente começou a discutir esta proposta e a gente hoje está implementando. A proposta que a gente está começando a implementar é cada pessoa de nossa equipe, tanto projetos como pedagógico, tome conta de um número de EICs, tome conta mesmo, trabalhe com eles, oriente. Hoje a gente está dividindo 12 EICs para cada pessoa, para pessoas que estão priorizando orientação porque tem uma pessoa que está trabalhando com a capacitação, principalmente capacitação. As pessoas vão estar acompanhando, fazendo visita de dois em dois meses presenciais. Nessas visitas presenciais vai estar trabalhando planejamento, avaliação junto com o educador e estar discutindo as questões pertinentes à relação educador, coordenadora, gestão da EIC e estar trabalhando com eles esta coisa da ferramenta à serviço da comunidade. Então a gente está começando este esquema de trabalho agora, que foi uma necessidade que a gente viu da própria dinâmica de trabalho.

P/2- Quantas pessoas na equipe são?

R- É uma média de 12 EICs para cada um. A gente está contratando mais duas pessoas. Nós tínhamos quatro pessoas e estamos contratando mais duas pessoas.

P/2- Sobre a formação, esta diferença que você colocou. Agora vocês estão aplicando um novo modelo de formação. Tem alguma coisa a acrescentar além daquilo que você disse? Como é agora hoje em dia essa formação 40 horas? A diferença entre a antiga e a nova formação de educadores?

R- A de 92 horas que a gente fazia antes era uma formação assim, você pegava e ia vendo Windows, aí você trabalhava Windows e trabalhava o que poderia vir do Windows, terminava o Windows e começava o Word. Aí começava a trabalhar o Word e o que poderia ser feito com o Word. Seguindo o princípio do NIED, hoje a gente tem uma capacitação assim: nós trabalhamos as 40 horas, as primeiras aulas são para gente discutir e construir o papel do educador, “Qual é o meu papel dentro da sociedade? Qual é o meu papel dentro da comunidade ali naquele momento?” A gente prioriza isso. A partir deste papel, “Como é que a gente vai trabalhar, a nossa forma de incluir divinamente, qual é o papel do CDI e como me encaixo dentro deste processo?”. Dando continuidade a este processo, “Como é que eu vou fazer isso dentro da EIC?” Aí a gente vai trabalhar planejamento, dentro deste planejamento, a gente vai trabalhar avaliação e se está avaliando e tomando como base esse princípio, que é o princípio de eu sou sujeito transformador, e eu sou responsável pela transformação da minha comunidade. Toda a capacitação, ela vai sendo norteada com este trabalho. A gente tem um momento para trabalhar a comunidade de onde eu vim? Qual é a minha comunidade? Como eu vejo esta comunidade? Depois o educador vai para a comunidade e entrevista algumas lideranças e vai vendo como é que estas lideranças veem a comunidade, e confronta com a sua imagem que ele faz. A partir daí, a gente vai construindo esses elementos, vai construindo isso dentro do local, esse local que é importante para gente trabalhar com nosso objetivo que é a inclusão digital.

P/1- Como é que vocês aqui no CDI avaliam a inclusão digital mesmo? O resultado da formação destes alunos ao final do processo? Aí já falando dos alunos mesmo. Que critérios que vocês usam para avaliar a inclusão digital?

R- Eu vou colocar duas pontes tecnicamente falando. Você está colocando se eu sou incluída divinamente, que parâmetros eu teria para ser incluída e como a gente está vendo isso com os alunos. A gente está construindo hoje, pensando hoje, no mínimo que seria interessante para este aluno aprender do ponto de vista da ferramenta. A gente tem uma preocupação com o foco na comunidade sim, mas para eu fazer alguma coisa eu preciso saber usar este negócio, esse computador, então eu preciso ter o mínimo. A gente está vendo algumas coisas que deveria ser o mínimo, dentro do Word, Windows. A gente acha super importante o uso da Internet até para o desconfinamento, para você se incluir também como pessoa, cidadão, já que a gente fala de cidadania e a gente está fazendo também um movimento para a conexão de todas as EICs para que elas façam este trabalho de acesso. O mínimo para gente seria saber algumas ferramentas básicas do Word, Windows, como mexer no Windows... Hoje a gente está tentando fazer o que seria importante para um aluno ser produtor ou ser pelo menos independente.

P/1- Produtor?

R- Produtor, construir alguma coisa sem ajuda. Construir, se eu quiser fazer um seminário, qual a ferramenta que eu uso eu vou usar, o PowerPoint pego tudo, eu vou trabalhando o PowerPoint, isso é o mínimo que você pode fazer. Ou eu sei fazer uma planilha de cálculo, mas não sei fazer, eu vou pensar quais as formas e quais as coisas que eu preciso para resolver determinado problema. Isso seria um aluno produtor. Isso seria um aluno já avançado, que é uma das nossas metas, mas hoje a gente tem poucos. Não sei dá até para fazer uma pesquisa sobre isso, mas não saberia dizer em números.

P/1- Mas os critérios são esses que você está dizendo...

R- A gente persegue um aluno independente, quer dizer que você possa estar trabalhando o computador sem que necessariamente precise estar todo tempo com um professor, educador ao teu lado fazendo. A gente persegue, no mínimo, este independente, mas a gente tem como meta tornar o aluno um produtor, quer dizer, seria este independente avançado.

P/1- Sobre os educadores, muitos deles vêm da EICs, eles são ex-alunos. Qual é este perfil e principalmente o conhecimento técnico de computação deles? A questão da rotatividade há ou não? Se eles ficam muito tempo?

R- Eu vou dizer de percepção porque a gente está fazendo uma pesquisa agora. Eu percebo que tem uma rotatividade sim de educadores, uma grande rotatividade. Às vezes eu chego na reunião eu fico... Também à procura de capacitação inicial está sendo imensa, então isso realmente eu acredito que seja muito por causa dessa rotatividade. Mas existe uma rotatividade e a gente está pesquisando o porquê. Tenho algumas dicas, mas não sei exatamente. Principalmente salários são muito baixos. O perfil dos educadores, eles geralmente são usuários, alguns são da área de informática, uns são curiosos da área de informática e a maioria terminou o segundo grau. Eu fiz uma pesquisa no ano passado, em 2003. Eu acho que tinha 10% que estavam fazendo graduação, o resto tinha terminado o segundo grau ou estava fazendo o segundo grau. É este, o educador que a gente pega. A grande maioria, a grande mesmo, quando vem para cá, isso eu olho pelas fichas e tudo mais, eles não tem envolvimento com a associação. A associação pega eles lá e trás para cá. Agora a gente está tentando mudar um pouco isso quando a gente está jogando dentro das apresentações de EIC. A gente está colocando a importância desta seleção de educador e tudo. A seleção quem faz somos nós, mas é uma seleção difícil de fazer porque não tem muita alternativa, você chega com três do mesmo jeito, fazer o que, alguém tem que ir. Você acaba não tendo muita alternativa, hoje inclusive a gente está fazendo a seleção durante o curso, durante capacitação. Uma das avaliações que a gente faz é o grupo que faz, não é a gente. A gente promove esta avaliação e o grupo vai dizer quem está apto e quem não está. O grupo da capacitação, o grupo que está ali sendo capacitado é que vai assumir e que vai assumir o ônus de responsabilidade de dizer se está apto ou se não está apto. Todos os educadores individualmente também se auto avaliam e como eles se veem neste processo.

P/2- A entidade faz alguma seleção e manda estas pessoas para a capacitação aqui?

R- Faz uma seleção a grosso modo. Pega quem estiver disponível e manda.

P/1- Na verdade, o que prevalece é a familiaridade da pessoa com o computador?

R- Com o meio ou com o computador é alguma familiaridade, seja com o meio ou com a associação por algum motivo e pai ou filho de não sei quem.

P/2- Mas vocês têm algum pré-requisito?

R- O nosso pré requisito é ter mínimo 18 anos e ter segundo grau completo, pelo menos. Mas alguns choram muito e a gente acaba botando. Às vezes a gente se surpreende, não é todas as vezes, mas ______________ ter segundo grau completo. A gente está tentando trabalhar toda esta linguagem metodológica no nível popular, na realidade, a gente está fazendo formação de lideranças.

P/1- Essa metodologia, por que isso é uma caracterização daqui aplicada com textos diferentes? Vocês precisaram desenvolver alguma metodologia específica para algum tipo de público ou para contexto tem esta experiência aqui no CDI São Paulo?

R- A gente tem contextos bem diferentes, tipo Febem [Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor ou Fundação CASA], escola públicas e comunidade. A gente não desenvolveu uma metodologia, a gente está desenvolvendo na prática. Tem uma capacitação aí de uma empresa que precisava dar uma em 24 horas porque o projeto dizia que eu tinha que dar em 24 horas, então eu fui adaptando aquilo ali. Hoje a gente está fazendo um estudo de caso para ver como isso, se está variando mesmo o processo, para ver um modelo de capacitação. No caso da Febem, por exemplo, na discussão com a Febem, se viu a necessidade de um acompanhamento específico com a Febem. Então a gente está contratando uma pessoa para cuidar de Febem e Funaps que tem uma discussão totalmente diferente. Você está trabalhando cidadania num sistema fechado, isso é totalmente contraditório, gritante e complicado. Tem que ter alguém que pense e se aproprie melhor disso. Esta foi uma das iniciativas que a gente teve que estar trabalhando isso. Essa pessoa talvez vai nos auxiliar muito nessa construção desta metodologia, a gente está fazendo muito intuitivamente.

P/2- Quem é esta pessoa?

R- Ainda não tem. A gente conseguiu fazer um projeto agora, conseguiu captar recurso e vamos estar contratando por esses dias.

P/1- Escola pública também teria uma realidade...

R- Tem, a gente fez uma capacitação em escola pública que terminou agora. A gente se bate com escola e escola pública são duas coisas bem complicadas. Escola tem aquele sistema fechado, trabalhar com a comunidade, uma das propostas é trabalhar com a escola da família, projeto para trabalhar em parceria com a escola da família no final de semana. A gente percebe que para o pessoal que está envolvido em este projeto da escola da família se está claro para eles mesmos, porque foi um projeto de cima para baixo. A gente está tentando trabalhar. Como a gente conhece comunidade, a gente está trabalhando tentando puxar, fazer com que esta experiência nossa de comunidade sirva para gente estar experimentando junto com o pessoal da escola da família. É difícil porque você tem um educador que é estagiário da universidade, que só está lá no final da semana, tem muitas coisas assim bem complicadas. Começou agora também, ainda nem inauguraram as EICs, a gente está vendo o que que vai dar. Outra experiência que a gente está vendo é uma experiência no Pontal do Paranapanema com os assentados, mas que a gente vai estar trabalhando agora também. A gente vai estar fazendo seleção de educadores na próxima semana em __________, estamos viajando para lá. Eu acho que vai ser uma experiência muito importante e interessante porque eles têm muito a ensinar para gente no que diz respeito ao movimento popular e a gente no que diz respeito a esta organização do terceiro setor e tudo mais. Todas essas especificidades, a gente está trabalhando... Tem o princípio geral, esse princípio geral que norteia e esse princípio geral a gente está tentando trabalhar de acordo com as necessidades, puxando da própria realidade para gente poder estar construindo esse processo.

R- Você poderia exemplificar como é este desafio de trabalhar cidadania numa situação de reclusão?

R- Você está colocando desafio num sentido...

P/2- Um exemplo como aparece? Como os educadores trazem isso na capacitação?

R- Vou te dizer como é que eu vejo, como é que na prática isso está acontecendo. Os educadores da Febem, eles são muito bons mesmo, eles são muito envolvidos. Eles fazem concurso e entram e eles são muito envolvidos, eles são muito emotivos também. O que acontece é que eles se identificam com a proposta do CDI, então fica muito fácil para gente estar trabalhando com eles. Em contrapartida, a gente encontra uma situação completamente complicada. Quer dizer, você está num sistema fechado, existe uma hierarquia dentro da própria Febem, existe uma burocracia que está acontecendo com o estado e os meninos e o educador parece que estão num mundo diferente do restante da hierarquia. Quanto os meninos estão lá com educador as coisas se desenrolam, quando sai daquele espaço, a coisa complica porque se bate na hierarquia dos diretores da unidade, se bate na hierarquia dos carcereiros. Aconteceu agora um fato interessante lá na Febem que houve uma rebelião. Nesta rebelião quebraram todos os computadores da administração e deixaram os da EICs, mas aí o que aconteceu: com dois dias depois a gente ficou super feliz porque não tinham sido quebrados os computadores da EIC. Isso quer dizer que os meninos estão envolvidos. Dois dias depois, a polícia de choque chegou lá e quebrou os computadores procurando drogas dentro dos computadores. Os meninos ficaram super tristes, aí o coordenador arrumou computadores com uma escola e conseguiu colocar lá para não acabar as aulas. Os meninos, eles são super envolvidos com as aulas, gostam muito. Na Febem, tem duas experiências: Bradesco e CDI. O Bradesco é mais técnico e tem uma evasão muito grande quando eles puxam para o técnico, porque os meninos têm uma vontade muito grande de se expressar. Como a gente trabalha muito com expressão, então eles se sentem muito mais à vontade nas aulas. Esse são os depoimentos que os educadores nos dão. A gente fez uma formatura de educador lá na Febem junto com os meninos, que era uma turma da Febem que estava se capacitando...

P/1- Os educadores são meninos da Febem?

R- Não, os educadores são da Febem, são da instituição Febem, não ex-internos, pelo menos eu não conheço nenhum. A gente fez uns trabalhos lá em grupo e se misturou com eles e foi super legal, foi muito envolvente, os meninos tocaram violão. Eles adaptaram o estatuto do adolescente e leram, fizeram uma homenagem aos educadores na formatura dos educadores, foi super legal o envolvimento deles. Você vê que existe uma receptividade, um troca, existe um trabalho legal do educador com o menino e do menino com o educador, uma relação muito próxima. Mas existem problema que é a burocracia e a hierarquia institucional. Mas é uma coisa que a gente está tentando trabalhar, descentralizar a coordenação, é difícil porque não depende da gente. É uma coisa que você vai ter que estar trabalhando com esta realidade e construir um pouco em cima dela. (FIM do CD1).

P/1- Tem alguma coisa que a gente não perguntou e você gostaria de falar?

R- Foi a pergunta mais difícil que você fez até agora. Eu não consigo lembrar agora.

P/1- O que você acha de ter dado esta entrevista e do projeto?

R- Eu acho super legal essa iniciativa. Primeiro de você pensar em ter este Museu da Pessoa, eu acho super legal também já. Estar contando história do CDI através das pessoas, a história das pessoas e como elas se relacionam porque o CDI na realidade é trabalho, o processo e esse processo está constituído de relações interpessoais. Eu acho que é fantástico e a iniciativa é muito interessante. Eu gostei muito. [risos] Vocês estão de parabéns.

P/1- Obrigada pela entrevista.

R- Eu acho que este tipo de entrevista é bom porque por mais que você não tenha registro, é terrível o terceiro setor pra ter registro, é muito complicado. Por mais que a gente não tenha momentos de avaliação, esses momentos servem como avaliação porque no que você vai falando, você vai pensando e processando, vai avaliando é um momento de você refletir é a defesa do teu trabalho. É isso.



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