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História

Inclusão e acessibilidade no ambiente escolar

História de: Anamaria Cristina Schindler
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/05/2011

Sinopse

Origem da família e descobertas. Infância e adolescência em Higienópolis. Se encontrando na vida e faculdade de Ciências Sociais. Hinduísmo. Amor à primeira vista. Filhos. Acompanhamento da filha mais nova, Ana Clara. Doença de Werdnig-Hoffmann e atrofia espinhal. Fisioterapia e o método de “self-healing”. Educação inclusiva. Acessibilidade na Escola Cidade Jardim/PlayPen. Crises, internações e operações. Contato de Ana Clara com as artes. Projeto pedagógico da escola. Proficiência em inglês. Anamaria e Filantropia empresarial. Projeto da McKinsey com a Ashoka. Entrada na Ashoka. Historinha emocionante.

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História completa

[Início da parte 1]

 

P/1 - Karen Worcman

P/2 - Márcia Ruiz

R - Anamaria Cristina Schindler



P/1 – Então, Ana, eu vou começar de uma maneira muito básica, que é seu nome, a data e ano de nascimento e o local.

 

R – É Anamaria Cristina Schindler. Nasci em de junho de 1963.

 

P/1 – E você nasceu em São Paulo? 

 

R – Não. Nasci em Hamburgo, na Alemanha. 

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É.

 

P/1 – Então me conta um pouco dos seus pais. Os nomes, se eles eram de lá. 

 

R - Os pais, os avós, de ambos os lados, todos são de lá. O meu pai se chamava Zigurd Wolfgang Schindler. (risos) 

 

P/2 – Nós vamos ter que ligar para você traduzir. 

 

R – E a minha mãe se chamava Dorotéa Schindler, embora o nome de solteiro dela fosse Dorotéa Footwengler. O meu pai é nascido em Frankfurt, e a minha mãe nascida em Berlim. A história é assim: a família do meu pai, eu nem sei muito da família do meu pai, porque meu pai escondeu a história da família a vida toda. Ele não falava da família dele. Eu sei que o meu avô, que era o pai do meu pai, Erwin Schindler, e minha avó Rosa, eram judeus na Alemanha, em, sei lá, 1800, 1800 e tanto... 

 

P/1 – Esses são os seus avôs paternos?

 

R – Paternos. A minha mãe não era judia. Quem era judeu era o meu pai. E eles, em 1933, que foi o primeiro governo de Hitler na Alemanha, através de amigos que meu avô tinha, já sacaram que ia ter, que o negócio ia fechar. Ele percebeu que ia fechar. Muita gente percebeu que ia fechar. E meu avô tinha um amigo suíço, que tinha umas terras aqui no Brasil. E esse amigo do meu avô disse para o meu avô: “Você vai para o Brasil, eu tenho terras lá no Estado do Paraná. Então, começa lá a abrir uma fazenda e, de acordo com o seu trabalho, o que você conseguir fazer, metade é seu, metade é meu.” Então formou-se uma sociedade entre esse suíço e o meu avô. Vieram o meu avô, a minha avó por parte de pai, e o meu pai, que tinha cinco anos na época. Então vieram para o Brasil e se estabeleceram lá no Estado do Paraná, numa cidade que hoje se chama Apucarana, que é entre Londrina e Maringá. Era tudo floresta. Para ir de Apucarana a Londrina, que hoje você demora 40 minutos, você demorava cinco horas a cavalo. Então, essa é a parte do meu pai. A parte da minha mãe já é uma outra história completamente diferente. A minha mãe nasceu em Berlim, o meu avô, pai da minha mãe, Franz Footwengler era cientista político, sindicalista, e se especializou nas relações de trabalho entre a Alemanha e a Índia. Então ele tem vários livros escritos sobre essa relação de trabalho, Alemanha e Índia, relações externas, e tal. E conheceu o Rabindranath Tagore, conheceu Gandhi, entrevistou todos eles, tem livros escritos sobre todas essas pessoas que ele conheceu, e tal. E aí ele foi perseguido por Hitler. Embora não sendo judeu, foi perseguido por Hitler porque ele era comunista. Então eles tiveram que fugir da Alemanha. Meu pai veio para o Brasil, e minha mãe foi para a Hungria. E se refugiaram na Hungria. E meu avô, de cientista político foi ser balconista de farmácia, na Hungria. Então, é essa história, dos europeus, quer dizer, a história do meu pai. Aí, enfim, tem milhões de coisas. Mas é um pouco a origem das famílias. 

 

P/1 – Mas como, então, que um veio para o Brasil, o outro foi para a Hungria, e você terminou em Hamburgo? Me conta essa história, essa conexão.

 

R – Então, essa que é a história que meu pai veio para o Brasil, com os meus avôs, abriram essa fazenda. Essa fazenda era uma fazenda de café. É ainda, ela ainda existe. Não é nossa mais, mas ela ainda existe. E meu pai aí estudou aqui em São Paulo - fica entre São Paulo e Paraná -, acabou fazendo Economia no Mackenzie. Meu pai estudou no Mackenzie, fez Economia lá. E passou a Guerra, passou tudo, [e] começou o auge do café no Brasil. E o meu pai então entrou nesse ramo de mercado de café. Ele sempre trabalhou pelo Governo brasileiro, ele trabalhou quase como um status de Diplomata no mercado internacional de café. Tanto que ele era naturalizado brasileiro, tudo, para ter esse trabalho mais ligado ao Governo brasileiro. E em 1951, mais ou menos... A Guerra acabou em 1949, certo?

 

P/1 – Em 1945. 

 

R – 1945. Desculpa. É, de 1939 a 1945. Então em, mais ou menos, 1951, 1952, meu pai, já formado em Economia, vai para os Estados Unidos, e faz lá uma Pós em Stanford, em Economia. E, de lá, volta para a Alemanha pela primeira vez depois de 1933. Ele tinha...

 

P/1 – Cinco anos quando saiu. 

 

R – Cinco anos em 33 - ele é de 28, 27. Então, ele volta em 51, eu não sei quantos anos ele tinha nessa época.

 

P/1 – Ele tinha 25 mais ou menos.

 

R – É. E vai fazer a Pós em Stanford, e de Stanford vai para a Alemanha. Volta pela primeira vez para a Alemanha, tendo enterrado na sua memória e na memória de toda a família, [a] história da família dele. Está certo? Meu pai, ele nunca falou da família. Nunca. E nessa volta dele em 1951 para a Alemanha, ele vai procurar os amigos do meu avô. Os amigos do pai dele. E aí, chega na casa do Franz, que era um amigo do Erwin, bate na porta, e quem atende é minha mãe. Isso deve ter sido em 1952, eu acho. A minha mãe abre a porta, [e] dois meses depois eles estavam no Brasil para sempre. (risos) Casados.

 

P/1 – Mas você nasceu lá?

 

R – Bom, é que a história não é uma linha reta, não é?

 

P/2 – (risos)

 

P/1 – Não. Isso, realmente, ela não é. Mas depois eu vou te perguntar uma coisa, a família... Vai.

 

R – Aí vem para o Brasil, tem toda a história do casamento da minha mãe e do meu pai, o nascimento dos meus irmãos. Eu tenho uma irmã que nasceu em São Paulo, e um irmão que nasceu em Londrina, que são mais velhos que eu. E meu pai no café: fazenda de café, comércio de café, importação e exportação, comércio mundial de café. E aí, já aqui no Brasil, ele dirigia o IBC, Instituto Brasileiro do Café. Então, a história do IBC e a história do meu pai andam em paralelo: o meu pai a vida inteira esteve ligado ao IBC. E até que, em 1961, ele é convidado pelo Governo brasileiro, que não sei quem era o presidente, para ser o diretor do Instituto Brasileiro do Café em Hamburgo. Porque meu pai é de origem alemã, falava alemão fluentemente, entendia pacas de café. Então meu pai foi dirigir o IBC na Alemanha, bolsa de café. Naquela época, café era moeda, que nem ouro. Bolsa de café no mundo inteiro, essa história de café. E aí, foi em 1961, voltou para a Alemanha, para Hamburgo, e eu nasci lá em 1963, e nós voltamos para o Brasil em 1965. Então eles ficaram quatro anos lá, nesse período. Foi aí que eu nasci. 

 

P/1 – Antes de você entrar na sua história, eu preciso te perguntar algumas coisas. Essa história dele não lidar com a família, que eu não sei o quanto você sabe disso. A família que você diz é a que ficou na Alemanha?

 

R – A família que ficou na Alemanha. Que eram meus... 

 

P/1 – Que eram judeus. Que você não sabe se morreram, se não morreram?

 

R – Sei, eu sei que morreram. Daí depois eu soube. 

 

P/1 – Você não sabe o que aconteceu e por que ele...?

 

R – Eu não sei. Assim, eu nunca ouvi um depoimento dele. Eu não soube dele. Eu posso supor. Mas tem uma história aí que é o seguinte, meu pai era filho único, então quem ficou lá na Alemanha são os parentes do meu avô e da minha avó. E o que eu sei mais é da família do meu avô, que é a família Schindler mesmo. O que aconteceu? Quando nós voltamos da Alemanha, em 1965, veio conosco uma tia do meu pai, chamada Erna. E a Erna era a única sobrevivente da família Schindler. Erna Schindler, ela chamava, e foi a única sobrevivente. Como é que eu sei dessa história? Eu já era casada, eu já tinha o Lucas, meu filho, quando a minha irmã mais velha, que é dez anos mais velha que eu, me contou que nós éramos de origem judaica. Eu tinha 20 anos. E aí, então, na verdade, quando eu digo que a história não é em linha reta... A minha muito menos, porque ela vai e volta para trás. Porque, nesse momento que eu já tinha 20 anos, já tinha vivido 20 anos, tive que voltar tudo, tudo, para entender a história da família, a história da minha vida. Eu, por exemplo, me lembro que a gente... Quando eu vim para o Brasil, em 65 - depois eu conto a história melhor, porque tem fatos aí que são bastante importantes. Mas eu sempre convivi com judeus. Os amigos do meu pai eram judeus, os nossos meio primos, primos por afinidade. A gente cresceu junto com judeus, a gente morava num prédio, o único apartamento não judeu era o nosso. Aí saímos de lá, fomos morar atrás da Hebraica. Aí era isso. E, ao mesmo tempo, eu não era brasileira no Brasil, não era alemã na Alemanha, não era judia, não era católica. Eu não era nada. (risos)

 

P/1 – Era um não.

 

R – Eu era um não, era um não-ser. Exatamente. (risos) E a minha irmã descobriu essa história porque a minha irmã namorou, o primeiro grande amor da vida da minha irmã era um judeu polonês, e os pais dele não deixavam a minha irmã namorar com ele, porque ela não era judia. Até que essa minha tia, vendo o sofrimento da minha irmã, com o namorado de dez anos, o amor da vida dela, conta essa história. “Não tem por que ter esse sofrimento, porque você é de origem judaica.” Porque tinha histórias, imagina, os pais do... Luiz Citrinovitch o nome dele. Foi o primeiro, o grande amor da vida da minha irmã. Os pais do Luiz, que eram sobreviventes de Guerra da Polônia; imagina ele namorando uma alemã, não judia? Foi, assim, tortura, para ambos, para as famílias. Foi super complicado. Então, assim que eu fiquei sabendo da história do meu pai. Ele nunca contou. Depois que ele já tinha morrido, que meu pai já tinha morrido, eu consegui ter acesso a fotografias da família dele. Fotografias, fotos e mais fotos. E entre fotos e mais fotos tem as dos túmulos onde estão enterrados todos os Schindlers. E aí você vê. Lá os túmulos são assim: “Yosef Schindler, morto em Auschwitz”, “Fulana Schindler, morta em Marie Therése”. E aí vai. Aí está lá. Então, eu fui tentando reconstituir um pouco essa história e a minha própria história por essas fotos. E aí tem um episódio... Bom, eu vou e volto... Tem um episódio, quando eu descubro, aos 20 anos - eu já era formada em Sociologia... Não, não sei se eu era formada, estava fazendo Sociologia na USP. Eu descubro essa origem judaica, que tudo faz um “rewind” na minha cabeça, e tudo faz sentido. Tudo se conecta, e tal, não sei o quê. Eu cheguei para a minha mãe e falei que eu tinha sabido, tomado conhecimento de que nossa origem era judaica, que papai era judeu, de origem. E, “Como é que fica?” Aí eu tomei uma grande porrada, porque minha mãe virou... E a história do meu pai e da minha mãe, história de filhos de Guerra. Porque minha mãe viveu toda a Guerra, como refugiada, como não refugiada. Porque depois Hitler mandou trazer de volta os refugiados políticos, que era o meu avô. Então a minha mãe veio. E a minha mãe, quando voltou para a Alemanha, no final da Guerra, costurava farda de soldado. Pregava botão. Passou fome, teve tuberculose. [Ficou no] sanatório [por] três anos, dos 17 aos 20, aquela história. E aí, a minha mãe, que era uma pessoa muito reservada, assim como meu pai, eles não falavam deles, pouquíssimo. Quando eu faço essa pergunta para a minha mãe, ela vira para mim e fala uma frase, que é uma frase que me chacoalhou para o resto da vida, até hoje me chacoalha. Que foi a seguinte: “Se o seu pai nunca falou nada para vocês é porque ele tem o direito de manter essa história com ele do jeito que ele quiser.” Tudo bem, aí você vai, socióloga, USP, 20 anos, você questiona direito. Mas aí entra a grande questão: até que ponto você tem o direito de invadir a privacidade? Ainda que seja a sua história, que você é parte dessa história. Eu poderia fazer um escândalo, quebrar o pau, quebrar tudo, (risos) quebrar esse paradigma aí. Mas até que ponto você tem direito de invadir a privacidade de uma pessoa, mesmo sendo ela o seu pai? Então, esse foi um choque para mim, aos 20 anos: conhecer a história da minha vida desse jeito, e ter esta resposta da minha mãe. Ali, realmente, foi um momento que eu acho que passei a entender o mundo, quer dizer, acho que eu comecei a entender o mundo talvez ali, sabe? O que é direito, o que não é, estudando Sociologia lá na USP, (risos) em 1985, sei lá que ano que era aquilo. Não, 1983, talvez.

 

P/1 – Mas, só para concluir, nessa época o seu pai já tinha morrido?

 

R – Não, meu pai morreu em 1993. 

 

P/1 – Você perguntou para a sua mãe.

 

R – Eu perguntei para a minha mãe. 

 

P/1 – E você nunca, então, você parou ali?

 

R – Parei ali, com essa resposta da minha mãe. Porque a minha mãe era uma pessoa... Com o meu pai, eu tinha muita dificuldade com ele. Até porque ele era um empreendedor, um político, uma cara [que] viajou o mundo inteiro, representou o Brasil em todos os cantos do mundo. Eu mal via o meu pai. (risos) Eu não tinha muita conexão com ele. A gente muito mais quebrou pau do que conversou profundamente. E quebrava o pau porque, imagina, eu era... Eu entrei na USP em Sociologia, eu era super radical, [dos] direitos humanos. Meu pai não acreditava. Meu pai trabalhou para o Geisel, trabalhou para o Figueiredo, para o Costa e Silva. Então eu era, assim, uma afronta para ele. Eu era uma afronta. Agora, a minha mãe já era a pessoa com quem eu tinha... Era “A” pessoa... Outro dia você falou do seu pai... A minha mãe é a pessoa que eu [mais] amei na vida acima de todas. Então, com ela não tinha filtro, não existia filtro. E ela, tem momentos da minha vida que minha mãe falou coisas assim, que me calaram. E essa é uma delas, que me calou. Porque é muito forte. Se você for descer na profundidade do que isso significa para uma história de uma família que vive, foge, refugia, volta, nasce, convive com não-ser. Eu lembro que aqui no Brasil as crianças falavam “Heil Hitler” para mim. Era uma coisa... Até hoje não se faz uma distinção. “Ah, é alemão, [então] é nazista.” É isso. Sair desse ciclo, construir uma outra história, a sua própria história, então, tudo isso, você vai montando um mosaico desse quebra-cabeça todo. Essa fala da minha mãe aos [meus] 20 anos foi uma peça central do quebra-cabeça ali. 

 

P/1 – Agora, isso, você veio a descobrir com 20 anos. Agora a sua lembrança de infância. Você tinha dois irmãos, são três, no Brasil. O que, como foi essa convivência com eles, como era?

 

R – Com meus irmãos?

 

P/1 – E com seus pais. Como era na sua casa? 

 

R – Tá. Bom, a gente tinha duas casas. A gente tinha a casa aqui de São Paulo, onde a gente passava o ano letivo, que era um mega apartamento em Higienópolis, daqueles enormes assim. Por isso que eu digo mal via o meu pai, porque meu pai entrava, saía, entrava com mala, saía com mala, (risos) era uma coisa. E toda vez era presente. Até que eu me enchia o saco de presente. “Não quero mais presente.” Eu queria meu pai presente, não presente. (risos) Então, a gente tinha as duas casas, aqui. E no último dia de aula, a gente já, a minha mãe pegava a gente de Kombi - era uma Kombi -, ela tirava o banco do meio, tinha as malas [e] em cima das malas ia um colchão, não tinha cinto de segurança, obviamente, naquela época. E pegava a gente na escola, a gente caía na estrada e ia para o Paraná. 600 quilômetros, [com] estrada de terra em alguns lugares. A Castelo Branco, nem tinha ainda, foi construída na minha infância. Ia para o Paraná. Então eu passava quatro meses por ano no Paraná. Passava dezembro, janeiro, fevereiro no Paraná, e julho inteiro, do último dia de aula ao primeiro dia de aula. Então, minha vida foi dividida assim. E também com duas realidades muito diferentes. Porque uma era no Paraná, que era campo, liberdade, fazenda, cavalo, cachoeira. Ficava o dia inteiro em cima do cavalo. Acordava às cinco da manhã, já ia tomar leite da vaca direto, me enfiava em cima do cavalo, só voltava às seis da tarde. Eu tocava gado. Saía para tocar gado mesmo, cavalgar. Ficava no meio do mato o dia inteiro. Então tinha essa realidade no Paraná, e a convivência com a cultura do café, que é uma cultura bem muito forte, muito rica, que diz respeito a todo o oeste do Paraná. Aí vai desde os bailes do clube do futebol, da fazenda - a fazenda tinha um clube do futebol. Era uma fazenda que veio da minha infância, nessa fazenda chegou a morar 300 famílias, 1500 pessoas. Tinha escola, posto de gasolina, posto de saúde, tinha armazém [com] venda na caderneta, fazia tudo na caderneta. E tinha o clube, que era o clube onde tinha forró, tinha tudo. Rolava de tudo, era uma comunidade. Eram 1500 pessoas que chegaram a morar ali. Então, era um mundo, assim, muito vibrante. Fora que o Paraná é terra roxa, e esse contraste com o café verde, era de uma beleza aquilo, assim, absurda. E o contraste com São Paulo, onde aí era a vida urbana, era muita vida política. Porque meu pai tinha essa vida política. Então, eram jantares e [mais] jantares, com comitiva da Costa Rica, da África, do Japão, com não sei quem, que era outro universo. Que eu não... Era tudo distante para mim, eu não fazia parte. Eu era criança, era a vida dos meus pais. E eu, nesse ambiente de São Paulo, por exemplo, me lembro de uma infância muito solitária. Porque a minha irmã é dez anos mais velha que eu. O meu irmão é dois anos e meio, mas dois anos e meio também já faz diferença. Além do que, eu cresci numa família alemã, então a cultura era alemã. Eu só vim a escutar, conhecer música popular brasileira quando eu tinha 15 anos de idade. Eu cresci escutando Beethoven, Liszt, Brahms, era isso que eu conhecia. Eu conhecia isso. Então eu me lembro da minha infância em São Paulo, era no apartamento estudando, porque eu estudava, era super “CDF”, super estudiosa. Adorava. Minha brincadeira favorita era brincar de escolinha. (risos) Saía da escola e ia para casa brincar de escolinha. E escutar música clássica, que eu sempre adorei. Escutava muito. Eu me lembro assim, dessa infância paulistana, muito solitária e, na época da ditadura, morando em Higienópolis. Então, teve período da nossa vida que a gente tinha guarda-costas, não podia sair. E você escutava, eu escutava, assim, eu tinha uma babá brasileira que foi quem me recebeu no Brasil, em 1965, Duca, que me pegou no colo quando eu cheguei. A primeira pessoa em Santos. Eu vim de navio, a pessoa que primeiro me pegou no colo foi a Duca. E a Duca, brasileira, super safa, totalmente. O que eu sabia, o que eu sacava. O meu pai [e] minha mãe não falavam nada. O que eu escutava era da Duca... Aí que eu ficava sabendo do cara que foi pego durante a noite, que foi torturado, [e] apareceu no dia seguinte com um monte de marca de cigarro, que tinha sido torturado. A Duca era babá em Higienópolis, então ela era assim com a polícia. Ela sabia de tudo, então eu escutava essas histórias da Duca, esse universo brasileiro. A porta de entrada para o universo brasileiro foi através da babá, da minha babá. Porque meus pais... Meu pai jamais falava nada. Metia o pau nos alemães de um lado, e do outro era um túmulo, com relação à situação brasileira, porque não podia falar nada. 

 

P/1 – E você estudava onde nessa época? Nesse momento da infância, que você...?

 

R – Estudava num colégio chamado Ofélia Fonseca, que existe até hoje, em Higienópolis. Era um colégio super tradicional, que usava uma sainha azul de prega até aqui, uma meia três quartos, sapatinho preto, camisa branca, com o punho de bolinha vermelha e azul, gravatinha branca de bolinha vermelha e azul. Era assim. O motorista me levava até a porta da escola, me pegava na porta da escola e me levava para casa. Essa era a vida. Minha mãe não me deixava sair sozinha de jeito nenhum. 

 

P/1 – Você não tinha nenhuma...?

 

R – Aqui em São Paulo não. Por isso que eu digo [que] no Paraná era liberdade total, era vida, vibração. São Paulo era uma coisa assim, esquisitérrima. Porque a gente não... Quer ver? Eu estou te falando. O AI-5 foi em 1968, eu cheguei no Brasil em 1965, com dois anos. Então eu entrei na escola em 1968, 1969. Estou falando dos anos pesados. E meu pai lá, trabalhando com o Figueiredo, com o Geisel, com o Médici. Era Médici, Costa e Silva. Meu pai trabalhava diretamente com eles. Então, nossa vida, assim, foi muito estranha, nossa vida aqui em São Paulo. E eu criança, não sacava nada, eu só vim a entender em 1979, aí que eu vim a entender. De novo, e por isso é que a história não é uma linha reta. Além do que ela vai e volta. (risos) Eu só vim a entender essa minha infância em São Paulo quando eu já era adolescente, que aí eu fui sacar porque eu vivi uma vida enclausurada assim. Não tinha família...

 

P/1 – E você tinha amigos na escola, vinham na sua casa?

 

R – Tinha. Mas era uma coisa, a gente vivia um universo... Na minha casa se falava alemão, então meus amigos iam na minha casa [e] meus pais falavam em alemão. (risos) Era meio esquisito. E eu não estudava em escola alemã. Porque se pelo menos eu estudasse em escola alemã, que as pessoas eram... Talvez... Mas não. Por isso que eu digo, a minha infância paulistana era muito solitária. Eu tinha amigas de escola, colegas de classe... 

 

P/2 – Eu queria voltar um pouquinho só. Quando você falou para a gente que você morava num prédio onde a única família não judia era a de vocês, e era uma família alemã. De que costumes... E, ao mesmo tempo, por outro lado, vocês conviveram muito com judeus. Então, que hábitos, costumes, você tinha dessas culturas, que fez parte da sua infância? Em termos de alimentação, em termos culturais.

 

R – Então, tem que entender que é uma família de origem judaica que negou o judaísmo. Negou. Então eu não tenho o hábito judaico, com exceção da culinária. Você tem razão. A culinária na minha casa sempre foi Alemanha, Europa Oriental e um pouco de Alemanha Ocidental. Muito. Até porque minha mãe morou... Minha mãe era uma exímia cozinheira. Não só isso, como ela plantava as ervas que usava na cozinha; lá no Paraná, ela plantava todas as amoras e frutos vermelhos que você podia imaginar, fazia todos os sucos, todas as geleias. Tudo, ela fazia. Então a memória de cozinha da minha mãe é muito forte. Agora, a gente viveu uma vida, assim, tinha Natal na minha casa, Páscoa. Não tinha Pessach, Yom Kippur, não tinha as festas judaicas, eram as festas cristãs, [mas] com comida judaica. (risos) Era a maior zona, total. Eram festas cristãs com comidas judaicas. Então, por exemplo, arenque na festa de Natal. A comida principal na minha casa era salada de arenque.

 

P/1 – Engraçado. 

 

R – Engraçadíssimo, não é? E aí, tanto que assim, até hoje [o] Natal na minha casa, se é Natal propriamente, tem que ter salada de arenque, por exemplo. Então eu aprendi a fazer a salada de arenque que a minha mãe fazia, e tal. Agora, a nossa família, assim, mais próxima, que vieram com os meus avós e com o meu pai, vieram no mesmo navio, é uma família que se chama Schtrauss. A Annelise Schtrauss, que é a pessoa com quem eu... Eu não me lembro da minha vida sem a Annelise Schtrauss. E a Annelise Schtrauss morreu há quatro anos. Com 85, quase 90 anos, 80 e poucos. Então, a Annelise era... Meu pai chegou no Brasil, e apagou a origem judaica - embora não tenha [propriamente] apagado porque conviveu a vida inteira, só tinha amigos judeus. E a Annelise, que veio junto, manteve. Então eu cresci com essa família chamada Schtrauss, que morava, moram ainda, ali na Riviera, sabe, perto da Guarapiranga? Na represa Guarapiranga. Quando era mato ainda a Riviera. Então, o que eu tinha um pouco de judaísmo era da família Schtrauss. Porque era com eles que eu convivia, e tal. E essa memória de, por exemplo, não tinha... Panetone só entrou na nossa vida muito tempo depois. Esse negócio que come muito aqui no Brasil no Natal, rabanada, eu vim a conhecer adulta. Nem sabia o que era. Na minha casa, a tradição é um pão de mel, que a minha mãe fazia um biscoito, uma torta de tâmara com nozes, que era... Eu lembro muito dessa história de culinária... A minha casa cheirava [a] comida. A minha memória da minha mãe, da casa, é olfativa. Minha casa eram cheiros. Cheiros de ervas, cheiros de temperos, e muito, só europeu, só comida europeia. Nada brasileiro. Nada, nada. Só vim a conhecer cultura brasileira adolescente. Em todos os aspectos, música, culinária. Aí que, na adolescência, eu comecei a integrar mais. Porque aí que eu comecei... Minhas grandes amizades não são amizades da infância, são amizades dessa época. Começa aos 12, 13, 14 anos, que são minhas amigas desde que eu tenho 12 anos.

 

P/1 – Que foi o quê? Você mudou de escola? O que começou a acontecer?

 

R – Começou a acontecer que daí, com 12, 13 anos, eu não queria ficar em casa, está certo? Não queria ficar mais enclausurada. Tudo bem, a mãe mantém até um certo ponto. Já que a gente não tinha naturalmente uma convivência familiar com amigos, etc., eu ficava lá numa boa, mas eu estava crescendo. Eu tinha 6, 7, 8, 9 anos. Aí quando começa essa idade que você quer sair para namorar, sei lá, (risos) aí eu comecei a desenvolver, primeiro, amizades no bairro. Assim, de ficar na rua, de descer, ficar lá, ver quem passava. (risos) Aí eu comecei a conhecer as pessoas do bairro. Então, a minhas amigas que são dessa época, que é a Pips, a Patrícia, a Bia, a prima dela, a Virgínia, que é irmã da Pips, é uma família que eu conheci nessa época, que estudavam no Rio Branco, que era na minha rua praticamente, eu conheci nessa época, e aí é que eu comecei a descobrir. Fui comer lula e brócolis, a primeira vez, na casa da Bia. Não sabia o que era brócolis, não sabia o que era lula. 

 

P/2 – E feijão?

 

R – Não, feijão eu sabia por causa do Paraná. Aliás, o Paraná é outra história. No Paraná, eu comia arroz, feijão, carne de porco, conservada na banha de porco, porque não tinha geladeira. Eles matavam o porco, comiam, esquartejavam o porco lá, e fritavam na banha. Daquele jeito conservava. Então, no Paraná, era comida de forno de lenha, arroz... E eu ia comer na casa dos colonos, eu não gostava de comer na casa os arenques lá só. Gostava também, mas eu saía... Essa fazenda era uma mega fazenda, tinha 1200 alqueires, era uma mega fazenda. E putz, era assim, tinha casas de hóspedes, tinha um refeitório, um cozinheiro internacional, que essa é outra história. (risos) Que aí meu pai conheceu, como recebia comitiva do mundo inteiro, um cozinheiro internacional que é um cara que fugiu da Alemanha na Guerra. Foi parar no Hotel Toriba... 

 

[Pausa]

 

R – Assim, a fazenda tinha uma capela, que foi construída pelos meus avôs, por esse meu avô. Meu pai tinha roupa de coroinha! Não sabia nem rezar o pai nosso. 

 

P/1 – Ele teve uma educação católica?

 

R – Eu não sei qual era a história. 

 

P/1 – Você não teve?

 

R – Eu não. 

 

P/1 – Você não ia à igreja com a sua mãe?

 

R – Não. 

 

P/1 – Você foi batizada?

 

R – É, fui batizada, e fui... Como é que chama isso?

 

P/1 – Primeira comunhão?

 

R – Fiz a primeira comunhão. Mas não era assim uma... Dizer que a religião cristã fez parte da nossa vida, me formou, esse catolicismo brasileiro, de jeito nenhum. Tanto que eu sou hinduísta. Eu fui buscar uma outra coisa, também adolescente já.

 

P/1 – Essa coisa que você foi buscar, vamos migrar para isso? A gente estava nos seus, mais ou menos, 12 anos. Vamos voltar um pouquinho para esse momento, que você estava saindo da infância. Aí você começou a fazer amigos...

 

R – Comecei a fazer amigos mais no bairro. E aí, meu irmão, que já estava passando dos 14 para os 15, a minha mãe pôs ele num negócio que chamava Grêmio, na época. Esse Grêmio, o que era? Os pais não sabiam o que fazer com os adolescentes, então punha no Grêmio. O Grêmio era, tipo, assim, sabe (Civis?)? Mas o (Civis?) é uma coisa internacional. O Grêmio era tipo um (Civis?), mas pequenininho, brasileiro, um grupo bem menor. E tinha tudo, tinha viagem, acampamento, festas, todo final de semana era festa. E eu pegava carona nessa história. Eu nunca fui para o Grêmio. Aliás, os meus irmãos estudaram no Porto Seguro, ambos. E eu estudei na Ofélia Fonseca. Nem quis ir para o Porto Seguro, eu não queria estudar em escola alemã. Também tem essa outra história, que eu também neguei a coisa alemã. Então, nessa época, eu comecei a expandir um pouco, a conhecer. Isso foi em 1975, 1976, 1977, foi nesses anos aí. Aí que eu comecei a conhecer mais, e formar mais esse grupo de amigos aí do bairro. Aí terminei o Ginásio, foi também nessa época, e fui fazer o Colegial no Mackenzie, isso já em 1979. Então, esses anos aí foram de tratar de fazer amizade aqui no Brasil. Porque também tinha essa história, a gente vivia tanto uma... Existia uma fronteira, um muro invisível, cultural mesmo, de língua. Então, imagina você conhecer, você, que é brasileira, os pais brasileiros, nasceram aqui. De repente, você conhece na escola uma menina que só escuta música clássica em casa. Era a minha realidade, mas eu fico imaginando as meninas, deviam me achar esquisitíssima. Eu imagino, deviam me achar esquisita. Então, nessa época, eu me lembro, com 12, 13, 14 anos, eu queria conhecer tudo. Aí eu fui ser tiete dos Novos Baianos. Eu viajei o Brasil inteiro atrás dos Novos Baianos. Conhecia todos os Novos Baianos, ia em todos os shows, pegava carona. Eu desbundei completamente na minha adolescência, nossa. Dei uma desbundada, assim, total. (risos)

 

P/1 – E aí, seus pais?

 

R – Meu pai era essa ausência permanente, ele nem ficava sabendo. (risos) Ele ficava sabendo quando acontecia alguma coisa.

 

P/1 – E a sua mãe, liberou?

 

R – Então, a minha mãe já tinha dois filhos, que era a minha irmã, que era dez anos mais velha. Tinha passado um perrengue lá com a minha irmã. E meu irmão também já tinha passado. Então, quando veio eu, assim... E eu era muito consciente. Tinha essa história que eu falei para vocês, a minha relação com a minha mãe era uma relação de alma. Não passava por essa esfera física. Eu sei que onde eu estiver, eu estou com a minha mãe a qualquer momento da existência. E assim era. Então, a gente não tinha... Ela não me impedia de fazer nada. Fora que a minha mãe ia embora para a Alemanha de vez em quando (risos) e ficava dois meses lá, então eu ficava sozinha aqui, com a babá, com a Duca. Então, era bem... Eu lembro assim, dessa época, de 13, 14 anos, de sair, voltar à pé de madrugada, em Higienópolis, sozinha, para casa. Chegar naquele mega daquele apartamento, a minha irmã que tinha 23, está certo? Minha irmã tinha 23, não estava em casa, minha mãe estava na Alemanha, meu pai estava na África, sei lá aonde, eu ficava sozinha naquele mega apartamento. Então, assim, foi uma época também de desbundar um pouco, e de muito, eu queria muito fazer parte da cultura brasileira. Conhecer a cultura brasileira, comer arroz e feijão, escutar Caetano Veloso. Noel Rosa, gente! Eu vim a conhecer Noel Rosa [com], eu tinha sei lá quantos anos, já era mãe! Então, foi todo um processo de descoberta da cultura brasileira nessa época. Aí, eu saí do Ofélia Fonseca... O Ofélia Fonseca é um capítulo à parte. Depois, se quiser, a gente retoma com o Ofélia Fonseca - também era um mundinho assim, era uma coisa. Um mundinho assim, porque era elite. Era uma escola de elite, das menininhas todas protegidas.

 

P/1 – Só de meninas?

 

R – Não. Meninas e meninos. As meninas super protegidas, os meninos super protegidos, a elite mesmo. Era um mundinho mesmo, eu nem [vou] dizer para você [que] me acrescentou [alguma coisa] porque eu estudei lá, mas não me acrescentou nada de experiências de vida, dizer que eu tenho memórias do Ofélia Fonseca. Não me lembro nunca do Ofélia Fonseca, não é uma coisa que faça parte do meu repertório espiritual, digamos. É uma coisa que eu tinha que ir lá, tinha que estudar, e tal. Mas não é uma coisa muito relevante assim. Aí eu fui estudar no Mackenzie, fui fazer o colegial no Mackenzie, e fui fazer Exatas, que eu era boa de Matemática e Física. Matemática, que eu tinha. Fui fazer Exatas, em 1979, [no] primeiro Colegial. Aí cheguei lá no Mackenzie, já era essa fase, eu tinha passado os últimos três anos da minha vida em busca do Brasil, está certo? Em busca do Brasil em todos os sentidos. E chego lá no Mackenzie, 1979, puta desbunde, todo mundo quebrando tudo. Obviamente que eu fui fazer parte da turma de quebrar todas as barreiras. Qualquer barreira, questionar tudo. “Por que isso? Por que aquilo?” Nada, nada. Não tinha o que a gente mantivesse em pé, em termos de não questionar. O que eu não questionei na minha infância, que eu era reclusa, eu tive uma adolescência mega questionadora de tudo, eu não aceitava nada. Nada. Não tinha nada pronto para mim, tudo era em construção. E aí o Mackenzie foi essa experiência. Foi a experiência de estudar para caramba também, que eu sempre estudei muito. E era uma escola super reacionária, na linha do Ofélia Fonseca também, era presbiteriana, ainda por cima, americana. Presbiteriana, putz. Aí tinha o tal do Dia do Mackenzie, que você tinha que vestir lá um shortinho branco, uma camisetinha branca, com aquele “M” vermelho, coisa horrorosa. A própria TFP, Tradição Família e Propriedade. Não, e tem a TFP, está certo, que eu convivi [e] cresci. A história da TFP ali em Higienópolis era fortíssima, eu via os meninos rezando, os Vidigais todos. A família Vidigal inteira, cortadinho de TFP, rezando ali na santa. Eu cresci com isso. Aí chego ali no Mackenzie, já estou com 15 anos: “Nada vai ficar em pé, nada será como antes”. Aí chega lá no tal Dia do Mackenzie, a gente põe para arrebentar. Colocamos para arrebentar. “Vamos fazer então uma passeata, esse Governo... Esse governador ladrão, não sei o quê.” Liderei uma passeata contra o Maluf, na comemoração do Dia do Mackenzie, que acho que acontece por setembro, mais ou menos. Gente do céu, essa história é muito engraçada. Aí, no dia seguinte, chamam o meu pai lá na escola, que por sua vez, em 1979, trabalhava para milico, acho que era o Figueiredo. Meu pai trabalhava para o Figueiredo. Chamam o meu pai lá: “A sua filha...”. Meu pai quase morre. Fui expulsa do Mackenzie. Aí, a história do Mackenzie era assim, eu tinha muito boas notas, era boa aluna, eu estudava. Aí eles falaram: “Bom, como ela tem boas notas, a gente não pode expulsar ela por [causa das] notas. Então, termina o ano, ela sai da escola”. Aí meu pai queria morrer. Imagina, a filha subversiva. Ele começou a me chamar de subversiva aí. (risos) E daí para frente, a história de vida com o meu pai, de 1979 até ele falecer, em 1993, a [minha] história de vida era essa coisa da subversão. Era sempre esse jogo político. Daí foi onde eu peguei nele também, foi ali pela política. E aí eu mudei para o Oswald de Andrade, eu fui a primeira turma do Oswald de Andrade. Aí, para piorar a situação, eu fui ler Marx, eu fui ler Engels... (risos)

 

P/1 – Você que escolheu o Oswald de Andrade?

 

R – Foi, eu escolhi o Oswald de Andrade. Porque que eu escolhi o Oswald de Andrade? No Grêmio do meu irmão tinha uma menina, que virou minha melhor amiga, Adriana Barcelos - é minha amiga até hoje, queridíssima. A Adriana, cujo pai era um publicitário ultra arrojado. Eu conheci Gilberto Gil, Caetano Veloso, tudo na casa da Adriana. A Adriana estudava no Oswald. O pai dela era ultra de vanguarda. Um pai, assim, super de vanguarda mesmo. Hoje o irmão dela é um dos psicólogos junguianos mais reconhecidos do Brasil, que é o Gustavo Barcelos. E a Adriana estudava no Oswald. Então: “Que escola que vai?”, não tinha nem escola para ir, não tinha ideia. Então acabei indo para o Oswald de Andrade, que era na Lapa, e fui ser aluna do Paulo Chacon, do Nicolau Sevcenko, do Tota, que é um professor da PUC, do Hilário Franco Júnior. Esses quatro foram meus professores de História. E o Chicão, que era um outro professor. Rive esses cinco professores de História. Ah! Tem a história que eu saí de Exatas, no Mackenzie. Cheguei lá, obviamente, me inscrevi em Exatas, no Oswald de Andrade. Quando eu entro na sala de Exatas, está sentada uma menina que foi a única menina na minha vida com quem eu briguei de porrada. 

 

P/1 e P/2 – (risos)

 

R – (risos) De porrada, de dar porrada. Quebrei os óculos dela na cara dela. Um escândalo essa história. 

 

P/2 – Aonde? No Ofélia?

 

R – No Ofélia. (risos) Miriam, ela chamava, essa menina. Ai, meu Deus do céu, a menina já me infernizava a vida. Aí um dia, era corrida lá na quadra, a “nega” veio me dar um... No que ela me deu um safanão, eu virei e dei outro nela, quebrei os óculos dela. Caiu no chão também, foi um... Aí chega, anos depois... Olha como é a vida, anos depois eu chego no Oswald de Andrade [e tem] essa menina estudou comigo no Ofélia. Isso aí é coisa de Primário, essa história que eu estou contando, da porrada. Chego lá, quando eu entro na sala, que dou de cara com a menina, eu falo: “Não, com essa menina eu não vou estudar. Vou mudar para Humanas.” 

 

P/1 e P/2 – (risos)

 

P/1 – Um motivo profundo... (risos)

 

R – Profundo assim. (risos) E aí vim a ser Socióloga. (risos) Aí que eu fui fazer Humanas, essa história. 

 

P/1 – E aí, quer dizer, quando você entrou em Humanas, é que você teve esse show de aula de História?

 

R – É, aí foi... Aí que eu... Bom, aí tem a escolha da Sociologia. Obviamente que esses dois anos no Oswald de Andrade definiram a Sociologia na minha vida. Definiram, definitivamente, a Sociologia na minha vida. Só que, lembra que contei a história que eu ouvia, das crianças, história das torturas, da polícia? Eu me lembro da história do faxineiro do prédio. O faxineiro do prédio que foi torturado a noite inteira, chegou todo marcado. Eu me lembro de ver isso, uma história horrível, fulano que sumiu! Então eu, desde essa época, e até hoje, no presente momento, aqui e agora, firmo a mesma coisa, eu tenho uma resistência absurda com qualquer tipo de polícia. Qualquer tipo de polícia. Pode ser a Federal, a Civil. E é uma coisa muito, muito forte. Eu acho... Às vezes eu vejo, até hoje, eu estou andando, e vejo a polícia parando motoboy [e] não pede documento. Para o motoboy, e já vai com o revólver em cima. Isso, desde aquela época, eu achava um absurdo que a polícia agisse assim. Então, eu estou contando a história da polícia, porque depois eu entrei na Faculdade, e os primeiros dez anos da minha carreira profissional eu trabalhei com Direitos Humanos. E muito em função dessa história que vem lá dessa infância em Higienópolis, de escutar esses casos. Mas foi lá no Oswald de Andrade, com esse show... Eram todos jovens. O Nicolau era menino. Imagina, era a primeira fase da carreira deles, em que eles estão fazendo os seus Mestrados, e vão dar aula no segundo grau. Eu peguei todos eles nessa época. Era um show, era absolutamente um show. Uma paixão. Depois o Chacon morreu. Não sei se você conheceu o Chacon. Beatles, o Chacon era um Beatlemaníaco.

 

P/1 – O Chacon, não foi ele que fez o Equipe?

 

R – Foi, antes do Oswald. 

 

P/1 – E aí, nessa época, você mudou tudo. No Oswald, outro mundo, o Brasil. E essa parte, já nessa época, essa parte espiritual, de procura, de religião, você teve alguma trajetória de procura nesse sentido? Depois, você disse: “Eu virei hinduísta.” Quando isso entrou na sua vida?

 

R – Então, adolescência, [em] São Paulo, comecei nessa época a descobrir, reclusa, eu tinha muitos momentos sozinha. Muitas horas que eu ficava sozinha. Então eu devolvi também uma reflexão, uma introspecção. Não que eu seja introspectiva, eu não sou exatamente introspectiva, mas eu gosto da introspecção, sempre gostei, acho que desenvolvi aí. Nunca tive essa infância cheia de amigos. Então acho que já começa por aí essa introspecção. E eu sempre gostei de meditar. Meditar mesmo, fechar o olho, concentrar, respirar. Não sei se aqui alguém já fez exercício de respiração. Mas as técnicas de respiração, elas são muito poderosas. Muito poderosas para tudo, para o seu fluxo sanguíneo. E eu fazia. Eu fazia isso aos 12, 13 anos, não sei o quê. Aí, nessa época, eu entrei na primeira escola de yoga. Com 12 anos eu comecei a fazer yoga, 12, 13 anos, aí, nessa época, que era na rua Ceará, em Higienópolis, a primeira escola de yoga. Narayana, chamava. Então comecei a fazer, pequenininha. Pequena, jovem, menina. Aí comecei a aprender. Paralelamente, como eu lia muito, comecei a ler a história do Gandhi. E me caiu na mão um livro chamado “Esta noite a liberdade”, que é um livro de dois jornalistas franceses, Dominique Lapierre, e o outro... Agora esqueci. Larry Collins! Que é um livro que eu li nessa época também, com 14 anos. Aí eu comecei a conhecer a história do Gandhi, e tal. E isso eu não sabia nada daquela história do meu avô, que isso é outro capítulo... Ai, a história vai e volta. Daquele meu avô cientista político, eu só vim a saber depois que eu entrei na Faculdade em Ciências Sociais. Aí que minha mãe contou que meu avô tinha sido cientista político. Tudo maluquice. Eu estou contanto tão em círculo, que a vida parece uma loucura. (risos) Mas aí, eu li a história do Gandhi, comecei a ler a história do Gandhi, e era aquilo. Eu lembro o impacto que esse livro teve na minha vida. É, o antes e o depois. Quando eu li aquilo, imagina, com 14 anos lendo aquilo, um catatau desse tamanho, um livro jornalístico, de História, lindo, super lindo, super lindo, eu falei: “Gente, mas é tudo isso que eu acredito. É isto o que eu acredito.” Por enquanto, naquele momento, era a questão dos valores: a não violência, a independência da Índia, que foi um processo totalmente diferente do que foi uma independência torpe do Brasil, por exemplo, que é aquela independência que a gente aprende na escola da maneira mais torpe possível. Aí eu vou ler a Independência da Índia, que é um processo revolucionário, uma coisa... Aquilo me impactou muito, a história do Gandhi, lendo, naquela época. E aí é que eu fui procurar a yoga [e] comecei a praticar. E sempre essa história da... É que hoje – e eu estou dando um salto triplo – eu sou estudante da Vedanta, [há] dez anos eu estudo Vedanta [também conhecida como Uttara Mimamsa]. A Vedanta, o que é a Vedanta? A Vedanta é a filosofia indiana baseada nos vedas. Os vedas são os livros sagrados da Índia, escritos há milhares e milhares de anos. Então, eu estudo a Vedanta hoje em dia. Por que eu falei que eu estudo a Vedanta?

 

P/2 – Você deu um salto triplo...

 

R – É. Ah, bom, sim. Então, quando eu li aquela história do Gandhi, eu falei: “Bom, eu acho que aqui talvez tenha algumas respostas para o que eu busco.” Eu buscava algumas respostas que eu não encontrava mesmo. Tinha feito essa imersão no Brasil, tinha conhecido candomblé. Religião cristã eu achava um absurdo, essa história de pecado sempre achei um absurdo. Eu achava as igrejas horrorosas, aquela coisa horrorosa, pesada, aquele cheiro: “Ahn”. Me asfixiava uma igreja, sempre me asfixiou. Então, eu sabia que queria, que o caminho que eu ia seguir era outro. E era um caminho de liberdade. Aí, no livro “Esta noite a liberdade”, e o Gandhi está falando o tempo inteiro da liberdade do ser. No sentido mais profundo, ele fala da liberdade do ser. Ele não está falando só da liberdade da Índia. Com Gandhi, surge Vivekananda, que é quem traduziu os Vedas para o Ocidente. O que [Swami] Vivekananda diz? “Todo ser humano é potencialmente divino.” O que Vivekananda diz? “Levante e não descanse enquanto você não atingir a sua meta.” Não é: “Ah, ano que vem, o meu planejamento é tal...”. É: “A sua meta... Quem é você, o que você vai ser, o que significa isso, o que significa tudo isso?”. Então, lá atrás, eu sabia que era isso. Eu queria buscar um caminho de liberdade de ser, na sua mais alta e profunda expressão. E aí começa a minha busca. A yoga foi um caminho natural e nunca parei. Comecei a fazer yoga no Narayana em sei lá que ano, tinha 13, 14 anos, e faço yoga até hoje. Até hoje. Então, um pouco é esse percurso. 

 

P/1 – Então, a gente fez essa coisa da escola, da yoga. Está se formando um novo painel, que aí você entrou na Sociologia. Vamos falar um pouquinho como você entrou nessa...

 

R – Ai, bom, essa história. No final da ditadura, já com essa, imbuído dentro de mim muito essa ideia da liberdade como a meta do ser humano. A liberdade não é a falta de civilidade. A liberdade interna, você ter a liberdade e ser quem você é, em qualquer circunstância. Então isso era muito forte, esses valores. E tinha uma ebulição muito de dentro para fora também, essa busca, essa ansiedade. Não estar satisfeita com as convenções e achar que eu tenho que ser engenheira química ou... Entendeu? Então como é que [é] a história da sociedade mesmo? Por que a gente se organizou dessa maneira? Aí fui fazer Sociologia. Prestei Sociologia, diurno, na USP. Ponto. 

 

P/1 – Era isso, acabou.

 

R – Isso. Aí entrei na Sociologia, isto foi em 1982, saindo do Oswald. Entrei na Sociologia em 1982, e casei.

 

P/2 – (risos)

 

P/1 – Como é que foi isso? Chegou no primeiro dia de aula e trocou?

 

R – Essa também é outra história que se eu contar ninguém acredita. Aliás, ninguém acredita. Quando eu contei essa história, ninguém acreditou. A Adriana Barcelos, minha amiga lá, que foi quem me falou do Oswald, minha amiga inseparável. Aí, paralelamente ao Oswald, em 1981, 1979, 1980, 1980 para 1981, expandindo a comunidade ao circuito brasileiro, a gente tinha uma amiga que chamava Raquel. A Adriana me leva na casa da Raquel, e eu conheço a Raquel, a gente fica amiga. E a Raquel me falava: “Ai, eu tenho um amigo que mora na Itália, que eu tenho certeza que você vai adorar ele. Olha aqui, lê as cartas dele”. Eu falei: “Você é louca! Eu não conheço o seu amigo da Itália, vou ler carta de quem eu não conheço”. Passou um ano e meio dessa história das cartas, e não sei o quê. Um dia eu entro na casa da Raquel, isso deve ter sido começo de 81. Entro na casa da Raquel, com a Adriana, e aí bato o olho no Maurício, fui lá na Raquel e digo: “Raquel, esse é seu amigo da Itália?”, “Eu sabia que você ia gostar dele!”. (risos)

 

P/1 e P/2 – (risos)

 

R – Neste dia, eu talvez tenha falado com o Maurício cinco minutos no máximo. O Maurício, eu tinha 17 anos [e] o Maurício tinha 24. Eu era... Saímos eu e a Adriana da casa da Raquel, neste dia, me lembro exatamente o momento em que eu virei para a Adriana e falei assim: “Adriana, eu vou casar com esse cara.” Ela falou: “O quê? Você é louca! Acabou de ver o cara, faz cinco minutos. Você nem falou com ele direito, você vai...”. Eu falei: “Eu vou casar com esse cara”. Saí de lá assim, convicta, que... (risos)

 

P/1 e P/2 – (risos)

 

R – Que é com quem eu estou casada há 27 anos. Está certo.

 

P/2 – Mas o que te chamou tanto a atenção neste homem? (risos)

 

R – Ah, não sei. Doçura, uma coisa muito transparente, de olhar para ele e saber que ele não estava escondendo nada. Olhar e conseguir ver a pessoa, sabe? Porque tem isso também. Às vezes, você conhece a pessoa [e] tem mil subterfúgios, você não chega na pessoa. Eu tenho essa experiência. Às vezes, eu não chego na pessoa, eu não consigo chegar numa pessoa. E o Maurício foi aquela coisa, que eu olhei para ele assim, e não sei. É um encontro. Um encontro assim, uma história de amor absurda. Eu tinha tido dois namorados, dois namorados mesmo. Aí eu falei: “Vou casar com esse cara aqui”.

 

P/1 – E aí, efetivamente?

 

P/2 – (risos)

 

R – O quê?

 

P/1 – O que aconteceu efetivamente? Você ligou para ele e falou: “Vamos casar?”. (risos)

 

P/2 – (risos)

 

R – Não, não, não. Aí, o que aconteceu? Tinha um interesse mútuo. Rolava um clima, a gente saía. Só que eu tinha 17 [e] ele tinha 24, então ele me achava uma pirralha. Está certo? Isso foi em 1981. Aí passou o ano inteiro de 81 assim, a gente saía, e tal, mas não rolava nada. Aí, quando foi em... Não, desculpa, isso aí foi em 1980. Quando foi em 1981, no Carnaval de 1981, precisamente, a Raquel me ligou e perguntou: “Aninha, o que você vai fazer no Carnaval?”. Eu falei: “Ah, eu vou para a fazenda”. “Ah, então, porque o Maurício me ligou perguntando o que você vai fazer no Carnaval”. Eu falei: “Pô, por que o Maurício não liga para mim para saber o que eu vou fazer?”. Bom, moral da história: levei o Maurício para o Paraná. Aí eu falo para ele que ele deu o golpe do baú. Não é que ele casou comigo? (risos)

 

P/1 – Olhou aquela fazenda... (risos)

 

P/2 – (risos)

 

R – E ali, a gente começou a namorar, foi na fazenda. Bom, casei em 1982.

 

P/1 – Foi um namoro muito rápido. 

 

R – É. Um namoro rápido, tal, casamos em 1982. Eu estava, aliás, tinha acabado de entrar na Faculdade. Casei com o Maurício. E aí foi Faculdade, o Lucas nasceu no segundo ano de Faculdade. Então o Lucas assistiu muita aula de Sociologia, Ciência Política e Antropologia, porque eu levava ele, amamentando ele, para a Faculdade. Naquela época, podia. E aí foi Faculdade com filho, essa história, que começa. Já no terceiro ano da Faculdade já comecei a trabalhar com Direitos Humanos, com o Sérgio Adorno, em presídio. Trabalhei muitos anos em presídio, porque eu comecei a trabalhar com o Sérgio - eu trabalhei dez anos com o Sérgio, em Direitos Humanos. Montamos, quer dizer, montamos não, ele montou o Núcleo de Estudos da Violência, aí eu logo fui para lá também. E fiquei no Núcleo de Estudos da Violência de 1988 até 1995. Então é essa a história. Vai dar tempo de falar da PlayPen, gente?

 

P/2 – E me diz uma coisa, o seu primeiro filho, em que escola você o colocou?

 

R – Carandá. Conhece? Na Vila Mariana. Carandá é na Vila Clementino, do lado da nossa casa. Tinha uma metodologia, que usava a metodologia do Vera, para Português e Matemática também, pus ele no Carandá. Aí tem também a história de Lucas também. Então, o Lucas estudou no Carandá, tinha um percurso muito parecido com o meu, que era escola construtivista. Quando chegou no final do Ensino Fundamental, ele se rebelou na Escola Carandá, e a diretora lá, construtivista, pôs suas manguinhas de fora, e começou a estabelecer um monte... E ele falou: “Pô, como é que não pode? Sempre podia? Por que agora não pode?”. Aí ele voltou para casa indignado, falou: “Esse negócio de construtivismo com regras obscuras eu não quero, vou mudar de escola.” Foi fazer o Colegial num colégio alemão chamado Benjamin Constant, que é assim, alemão nazista. Esse é alemão nazista. 

 

P/1 e P/2 – (risos)

 

R – Ele passou o ano inteiro namorando, conheceu a Diana no primeiro dia de aula, se apaixonou, eles passaram o ano inteiro namorando. A ponto da diretora me chamar, porque eles ficavam se beijando o tempo inteiro no corredor. Depois ele foi para o Equipe. Ele também tem essa história de escola. 

 

P/1 – Mas a Ana Clara nasceu quando?

 

R – Então, a Ana Clara nasceu em 1993. O Lucas tinha dez anos. O Lucas nasceu em 1983 e a Ana Clara nasceu em 1993.

 

P/1 – E o que foi que deu? Você quis ter outro filho?

 

R – Então, [quando] o Lucas nasceu eu tinha 20. Ele terminou de me criar, está certo?

 

P/1 e P/2 – (risos)

 

R – Foi bem isso mesmo. Ele terminou de me criar. Crescemos juntos. Aí o Maurício queria ter outro filho, queria ter outro filho, eu queria fazer Pós, queria fazer mestrado, queria trabalhar, queria tudo. E fui adiando [e] adiando. Aí fiz 30 anos, falei: “Uma boa hora para ter o segundo filho”. Outra maturidade, outra história, outro momento, tal. Aí veio a Ana Clara. A gravidez da Ana Clara, nascimento, parto. O nascimento, também [teve] histórias louquíssimas nesse parto.

 

P/1 – O quê?

 

R – Ah, aconteceu um episódio muito louco. O parto da Ana Clara foi no Hospital São Luís, parto normal. Porque até aquele, parto normal, fiz pré-natal, normalíssimo. Dei entrada, fui no obstetra. Eu tinha uma Brasília na época, nem lembro que carro que era, mas fui guiando [dirigindo] para o obstetra [com] nove meses de gravidez. Cheguei lá no obstetra, três centímetros de dilatação. Falou: “Vai para o hospital já”, “Mas posso ir guiando, doutor?”, “Você é louca! Não vai guiando”. Aí larguei o carro no obstetra, fui para o hospital, não sei o quê. Quando eu cheguei lá no hospital, a enfermeira que foi me fazer o exame de toque, que faz aquele exame para ver a dilatação, não sei o quê. Entrei com ela na sala, o Maurício não tinha chegado ainda. Tinha ligado para o Maurício, estava vindo. Comecei o trabalho de parto, tal. Entro lá na sala, ela faz o exame, e convulsiona. 

 

P/1 – A enfermeira?

 

R – A enfermeira. Ela teve uma convulsão. Não, muito louca a história. Muito louca. Depois eu vim a conviver com três outras pessoas que convulsionam. E tem toda uma coisa de áurea, de quem convulsiona, tem toda uma história de convulsionantes. A mulher convulsiona, e eu nunca tinha visto... Eu tinha visto uma convulsão do Lucas, que o Lucas convulsionou de febre, sabe, coisa térmica? Então, eu esperei ela terminar a convulsão. Inclusive, ela falava para mim, ela pedia para eu ter calma. A pessoa que convulsiona, que tem controle, ela é assim, gerencia a situação. Mas eu nunca nem comentei isso, acho que nem para o Maurício eu comentei isso. Aí nasceu a Ana Clara, parto normal, e tal, não sei o que, fomos para casa, tudo bem. Por que eu relaciono a história da convulsão? Porque eu sou muito sensível para essas coisas. Eu acho que têm pessoas que são sensíveis, num outro campo, no campo energético. E eu acho que a pessoa que convulsiona tem alguma coisa, energeticamente, no sistema nervoso, que tem uma sensibilidade. Eu já vi a descrição da áurea da convulsão. Então, eu relaciono um pouco. Eu acho que aquela mulher, de alguma maneira, ela teve alguma coisa ali. Foi uma experiência para ela, para mim, para a Ana Clara, o momento do parto, tal. Aí, fomos para... A Ana Clara com um, dois, três meses. No terceiro mês, a gente começou a... Eu comecei a perceber que a Ana Clara não mexia muito. 

 

P/1 – Ela mamava?

 

R – Mamava, mas tomava complemento também.

 

[Pausa]

 

R – Então, aí a Ana Clara tinha um pediatra, que se chamava Eduardo Goldenstein.

 

P/1 – Judeu.

 

R – Óbvio. Foi pediatra do Lucas 11 anos. Mas hoje eu cassaria o CRM dele. (risos) E aí, com quatro meses, por aí, eu falava: “Eduardo, a Ana Clara não tem a mesma... Tem alguma coisa”, “Ah, você é uma neurótica”. Ele falava assim para mim. “Seu padrão de filho é homem. Então agora você está comparando a sua filha com seu filho.” Bom, um dia, o Eduardo viaja, a Ana Clara tinha cinco meses, eu ligo para o Eduardo, secretária eletrônica: “O Eduardo está viajando e deixou Fulano de tal no lugar”. Eu ligo para o Fulano de tal, um Fulano de tal que eu nunca tinha visto, [nem] a minha filha. A Ana Clara com 40 graus de febre. Levo a Ana Clara no Fulano de tal, chego no Fulano de tal... Detalhe: Eduardo Goldenstein foi pediatra do Lucas dez anos, me conhecia há dez anos e meio. Acompanhou a Ana Clara do primeiro dia até aquele momento. Chego no Fulano de tal, que não me conhecia, nunca me viu, nunca viu minha filha, não sei o que, ele vai examinar. No que ele vai examinar, ele vira: “Tem alguma coisa com essa menina”. O Fulano de tal que eu não conhecia. Eu sozinha dentro do consultório. Sozinha dentro do consultório, com a Ana Clara e esse cara. Aí, putz, na hora que ele me falou isso, minha perna já virou bamba. Eu sabia, mãe sabe. Eu sabia, né? Mas eu pirei na hora, fiquei quieta, muda, fiquei super nervosa, muda, muda. E esse cara foi ali, examinando a Ana Clara. Aí ele vira para mim e fala: “Olha, tem alguma coisa com ela, você tem que levar ela no neurologista. Mas não se preocupa...”. Assim me fala o sujeito: “Mas você não se preocupa, porque, provavelmente, o que está acontecendo? O cérebro dela não está tendo espaço na caixa craniana para crescer. Então abre o crânio, faz uma cirurgia. Abre, racha, abre o crânio para o cérebro da sua filha poder se expandir.” Assim me falou o sujeito neste dia. Imagina. Eu lá, pego a Ana Clara no colo, com cinco meses, a cena é grotesca, é absolutamente grotesca. Aí volto para o Eduardo, conto essa história para o Eduardo, que tem sensibilidade zero. Mas a boa coisa é que o Eduardo me indicou o Abram Tobschewisch, que é um neurologista, um neuropediatra. Aí levei a Ana Clara no neuropediatra. Então, de cinco a sete meses foi o período de diagnóstico dela. Chegamos lá no Abram, examinou e falou: “Olha, eu desconfio que seja atrofia espinhal infantil, mas ela tem que fazer um exame que se chama eletromiografia...”. Ela tinha cinco meses, esse exame é super doloroso, é um exame que dá choque nos nervos para medir os impulsos nervosos. Desculpa, nos nervos não, nos músculos. Eletromiografia nos músculos. Ele falou: “Faz eletromiografia para confirmar. Aí, se o eletromiografia confirmar, aí vai ter que fazer exame genético de toda a família, do DNA...”. Não sei o quê. “Está bom, doutor Abram.” Imagina o estado que a gente ficou. “O senhor tem alguma literatura que eu possa levar para casa, tal?”, “Tenho”. Tirou xerox, levei para casa. Cheguei lá, pus a Ana Clara no berço, sento para ler o negócio. Fazia 45 minutos que eu sabia que a Ana Clara tinha algo chamado atrofia espinhal infantil. Abro o negócio para olhar, está lá, leio todo o texto, tal, aí tem uma tabelinha. Atrofia espinhal infantil progressiva, prognóstico: dois anos de vida. Imagina eu saber dessa coisa. Olhar para a sua filha de cinco meses, você pega um papel... Ele não me falou nada, nada. Não falou nem o que é que era. Enfim, aí começa toda uma longa história que eu vou pular. Depois, se vocês quiserem que eu... Eu estou preocupada é com o tempo. Porque não vai falar da PlayPen, não vou conseguir falar da PlayPen. 

 

P/2 – Você consegue remarcar? Em vez de continuar, a gente pára e retoma um outro dia? Pode ser? 

 

R – Eu acho que consigo. 

 

P/2 – Eu acho melhor, porque senão vai ficar uma história pela metade. Você vai continuando, aí onde parar a gente retoma. Está bom?

 

R – Está bom. Aí voltei no Eduardo.

 

P/1 – Eu preciso saber. Você leu aquilo, o que aconteceu?

 

R – Ah, então. Aconteceram várias coisas naquela tarde. Eu li aquilo, e nem sei, viu, Karen. Porque eu vou te falar que essa história com a Ana Clara, eu vou começar a chorar. Essa história com a Ana Clara, ela passa por... (choro) Assim, como mãe, (choro) a única coisa que eu conseguia pensar era: “Eu tenho que ter força, tenho que ser forte.” Eu não pensava em outra coisa. “Eu tenho que ser muito forte.” (choro) E aí, assim, a história é essa. É sempre isso, você ter que ser muito forte. Aí eu lembro que eu liguei para o Tobschewisch, na hora, falei: “Doutor Tobschewisch, acabei de terminar de ler...”. Fazia 45 minutos que eu tinha saído do consultório dele: “O senhor não me falou nada que tinha um prognóstico de vida”. Foi aí que ele me falou a frase que definiu a vida da Ana Clara. Ele falou para mim: “Anamaria, não é o indivíduo que tem a doença, é a doença que tem o indivíduo. Então, não acredite em prognósticos. Não se atenha a prognósticos”. Vou no Eduardo no dia seguinte, com os textos. Porque o Eduardo não sabia de nada. O Eduardo, quando eu falei com ele no telefone, que ele me indicou o Tobschewisch, nem sabia o que era. Não sabia. É um ramo da neurologia, da genética, super específico. Chego lá no Eduardo, falo: “Eduardo, o diagnóstico foi confirmado, é atrofia espinhal infantil. Aqui estão os textos”. Esse cara virou para mim e falou assim: “Não, eu não vou nem ler. E você também não deveria ler. Aliás, você deveria ir para a sua casa, pôr a sua filha no berço e deixar ela... Cuida dela aí, deixa ela deitadinha lá no berço”. Não, completamente... Por isso que eu digo que eu quero cassar, até hoje, o CRM desse cara. Aí, imagina, e eu só pensava nisso: “Eu preciso ser forte, preciso ter força.” Porque eu sabia que ia ser eu. A história ia ser... Eu fiz de uma maneira que envolvi todo mundo da história, mas sabia que era eu. Era comigo. Que a coisa, essa história entre a Ana Clara ia ser comigo. (choro) E aí foi isso. A primeira coisa que eu fiz foi chamar os amigos e a família. Foi assim que eu... Já fui de cara, já fui dando de topetada. Chamei os amigos e a família, sentei todo mundo em volta. Minha sogra, que é uma dramática. É uma pessoa que, para ela, a tragédia é aqui, está certo? (risos) Ela é assim: “A tragédia já está aqui”. Falei para os meus amigos mais íntimos, Edith, o Luís - são amigos muito próximos - eu falei: “Olha, o diagnóstico é esse. É assim”. Expliquei o que eu sabia. Dois dias depois do diagnóstico. “Essa história diz respeito a todo mundo”. Foi ali que eu comecei. “Cada um de vocês vai ter um papel. Cada um de vocês vai ter que ajudar, vai ter um papel.” E aí, bom, e eu fui construindo dessa maneira também, de dar para cada um, um papel. Acho que quem mais se ferrou foi o Lucas. Porque o Lucas tinha dez anos, acontece esse episódio, acontece essa história na nossa família, e o Lucas passa a ser totalmente segundo plano, nesse momento. Então acho que ele tem, assim... Ele é muito bem resolvido, o Lucas, tem uma história de vida super bonita, muito idealista naquilo que ele acredita também, foi atrás do que ele acredita que ele queria fazer na vida. Mas ele acabou ficando ali para segundo plano. E aconteceu... São as coisas que acontecem pela conspiração do cosmo... Naquela semana do diagnóstico, alguém – porque aí começa a falar com um, começa a falar com outro – alguém me falou: “Olha, tem um cara que mora em São Francisco, que tem uma coisa totalmente fora do... Não é fisioterapia, fora do normal, fora do padrão, não sei o que, e ele está aqui em São Paulo”. Liguei para o cara. Ele se chama Meir Schneider. Ele é um fisioterapeuta, que nasceu na Rússia, mudou para Israel, e, [foi] considerado em Israel cego, na carteira de identidade. Cego. E ele desenvolveu um método de fisioterapia ocular, e fez Doutorado sobre isso, que recupera, em determinados casos, a visão. Com fisioterapia ocular. E aí foi, esse cara acabou desenvolvendo um método que é registrado, a Universidade de São Carlos aqui tem um Departamento todo sobre este método, que se chama “self-healing”. E eu conheci, imagina, naquela semana do diagnóstico. E foi assim, fundamental na história toda, o tempo todo. A Ana Clara fez o método Meir. Eu acho que se não tivesse sido o método do Meir, talvez a Ana Clara não tivesse hoje aqui. Realmente, assim, foi... E aí, aquela história. Ensinei minha sogra, pus minha sogra em curso, pus todo mundo em curso, todo mundo fazia parte. Ia lá em casa, tinha que fazer fisioterapia com a Ana Clara, foi uma coisa, assim... Por isso que eu digo, a primeira... Você perguntou para mim: “E aí, qual foi a sua primeira reação?”. A primeira reação foi essa. Eu sei que vou ter que ser eu a conduzir essa história. Claro que hoje em dia eu percebo que isso foi uma coisa super presunçosa, porque a história é dela. Ela tem uma história de vida absolutamente incomum, linda, vitoriosa. Mas, naquele momento, eu achava que era eu que tinha que conduzir a coisa. O Maurício, gelatinoso, virou uma gelatina. O Maurício, ele só fazia o que eu falava. (risos) Ele não sabia o que fazer. O Maurício, ele se perdeu, não sabia o que fazer. E eu sabia que quem tinha que ter força era eu. De alguma maneira, eu achava isso. Então, você vai buscar aquela força, não sei o que acontece, você vira cinco vezes o seu tamanho. Mas você cresce para tudo quanto é lado. E aí, a história do Meir, eu acho que muda a trajetória, realmente. Porque o método do Meir é um método que induz... Você já ouviu falar do Oliver Sacks? O Oliver Sacks é um neurologista que também usa um pouco essa técnica. Indução do cérebro, do sistema nervoso. Então, o Meir trabalha muito com distrofia muscular, principalmente, distrofia de Duchenne. E a atrofia, a diferença entre atrofia e distrofia é a seguinte: os dois são processos de degeneração de origem genética. No caso de Duchenne, é uma distrofia genética da mãe. No caso da atrofia espinhal, que é o que a Ana Clara tem, é um caso de distrofia genética do pai e da mãe. 

 

P/1 – É uma combinação?

 

R – Eu e o Maurício temos o mesmo gene recessivo, a mesma genética. 

 

P/1 – É uma combinação, uma em um milhão?

 

R – Uma em milhões. Aí você pergunta: “Como é que você sabia que você ia casar com ele naquele dia?” É louco. É bem... 

 

P/1 – É muito mais interessante do que a gente pode pensar.

 

R – É, é bem louco. E no caso da distrofia é uma degeneração do músculo, e no caso da atrofia, da Ana Clara, é uma degeneração dos neurônios do corno anterior da medula espinhal. Então, tem um cromossomo, que é o responsável por fazer com que o impulso, na hora que você pensa em mexer o dedo, o dedo mexe. Então, o cromossomo que faz esse, ele é responsável lá por esse código...

 

P/1 – É o mesmo da respiração?

 

R – Não. São os neurônios que ligam aos músculos. Os neurônios que ligam o impulso cerebral ao músculo. Então, não tem esse canal, não tem essa comunicação. No caso da Duchenne, da distrofia, o que degenera é o músculo. No caso da Ana Clara, ela tem o músculo intacto, perfeito, não tem nada no músculo dela. O que ela não tem é a conexão entre o impulso nervoso e o músculo, então não tem desenvolvimento nenhum de movimento. E aí, o método do Meir é exatamente você induzir o movimento para mostrar para o cérebro, criar para o cérebro, o código de que existe o movimento. Entendeu? Então, a Ana Clara passou a primeira infância aí, até os 6, 7 anos, sendo “fisioterapizada” horas por dia. Horas por dia. Aí, eu estava no Núcleo de Estudos da Violência ainda, estava trabalhando com Direitos Humanos, aí eu resolvi sair. Ela já estava com dois anos. E eu fiquei um ano... Ela nasceu em março de 1993, o diagnóstico deve ter sido em setembro, outubro de 1993. 1994 foi aquele ano: “O que está acontecendo? O que é isso?” Em 1995, eu saí do Núcleo, fiquei um ano só fazendo Doutorado. E, nesse ano, eu fui estudar Anatomia, fui entender o que era essa genética. E fui estudar todo o método do “self-healing”. Aí eu fiz vários cursos com o Meir, com toda a equipe dele, da São Carlos, aqui em São Paulo. Fiquei um ano estudando, montei um grupo de fisioterapia que fazia um sistema de rodízio, para fazer esse atendimento na Ana Clara várias vezes por dia. Enfim, montei um laboratório fisioterápico lá na minha casa. Porque a única coisa para se fazer... Não tem cura, é um processo degenerativo que não tem cura. Até hoje, não tem cura.

 

P/1 – Degenerativo também significa que a tendência é piorar? 

 

R – É, é progressivo. 

 

P/1 – Por isso aquela história dos dois anos?

 

R – Por isso aquela história dos dois anos, é progressivo. E é uma faca no pescoço, até hoje. Esse ser progressivo é uma faca no pescoço da gente o tempo todo. Para mim, para ela. Hoje a Ana Clara tem 17 anos, e é inteligentíssima. Inteligentíssima. Não tem o que ela não saiba. Ela sabe muito mais do que nós cinco juntos. Não tem o que ela não saiba. De tudo. Se ela olha para você, ela olha para você, ela faz um raio x de você na hora. Você desmonta na frente dela. Coisa que não tem... E é isso, ela não tem toda essa... Imagina, ela é existência sem corpo, no sentido... Ela não tem o corpo para existir. Ela tem aquele corpo, mas ela não tem um corpo para existir. Então, ela é uma ultra referência de qualquer coisa. Quem não conhece e não convive com a Ana Clara não tem noção do que a gente não é. (risos) Entendeu? Porque a gente... O Rodrigo Mendes me ensinou isso uma vez, uma vez me falou isso. O Rodrigo tem outra história. A Ana Clara não tem referência de... E o Rodrigo tem. O Rodrigo me ajudou muito, eu conversei muito com o Rodrigo, muito. E uma das coisas era isso, que ele me dizia que era assim, que a pessoa que não tinha... Isso a Ana Clara era bem criança quando o Rodrigo me falou isso: que a pessoa que não tem um corpo, que tem uma deficiência, tem uma limitação física, principalmente no caso dele, que é tetraplégico, não tem dispersão alguma. Olha aqui, eu estou sentada aqui, o quanto de mão que eu já não mexi? E a minha unha? E o meu anel? E o que eu estou mexendo? E aqui que me coça, e aqui que me coça e isso, aquilo. O tetraplégico não tem dispersão alguma desse sentido. Não tem. A existência é toda aquela concentração que ele quiser dar. Entendeu? Não tem o corpo. A gente não sabe o que é isso. A gente não sabe, nem pensa: a gente está respirando, a gente está isso - a gente não tem noção. Experimenta ficar sem mexer. Então, uma pessoa como o Rodrigo Mendes, que eu conheço, e uma pessoa como a Ana Clara, que é quem eu conheço profundamente, eles têm um nível de concentração, que é uma ultra capacidade. Porque eles são super inteligentes, super conscientes, e têm essa capacidade de concentração, que é uma ultra, mega capacidade. Ultra, mega. Então, realmente, é uma coisa, de conviver com ela assim, de tudo, ela saca tudo. Mas aí, porque eu estava falando isso?

 

P/1 – Você deu isso dessa coisa muscular, o que tinha levado. Mas se você quiser voltar, você estava naquele momento, em que você montou um laboratório fisioterápico na sua casa...

 

P/2 – São sete horas. 

 

R – E você sabe o que eu tenho hoje? Vai ser dose dupla de emoção, hoje. Hoje é a formatura dela no Gracinha, e a entrega das autobiografias. E a Ana Clara fez uma autobiografia. 

 

P/1 – Gente, mas também não é por acaso então.

 

R – Ela fez uma autobiografia, da primeira à última... Ela me perguntou poucas coisas. Que é uma coisa simples, super singela, e linda, [muito] linda. A ponto da mulher, a coordenadora me ligar, e dizer assim: “Ana, queria só te dizer...”, que ela estava indo super mal de Biologia e Química... “Queria só te dizer, não se surpreenda se você ver que teve uma mudança na questão das notas da Ana Clara.” Eu falei: “Ah, por que, Vera?”. Ela falou: “Porque a autobiografia da Ana Clara alterou completamente todos os professores da escola”. Os professores dela. Que eles leram a história dela, a autobiografia dela, diz que todos os professores assim... E, assim, projeto de educação inclusiva. Cara, na hora que ela falou isso, a história, lembra, da história da educação inclusiva, lá na PlayPen, na hora que a Vera me falou isso, faz duas semanas, três semanas talvez, aí eu me dei conta, eu falei: “Gente, se realmente o que ela está me falando, de fato está realmente acontecendo, isto é educação inclusiva”. É quando o professor saca... Isso que eu estou falando, a gente não sabe. A gente olha para o Rodrigo Mendes e para a Ana Clara, [e] a gente não sabe, não tem noção do que é. Porque a gente está aqui. Agora, se um professor, se o grupo de professores dela sacar, pronto, está concluída a educação inclusiva. Tem que sacar o código. É outro código. Não é essa coisa de livro. Não estou dizendo que a avaliação tem que ser diferente, não, mas assim, por exemplo... Estou fazendo um salto triplo de novo... Por exemplo, uma das coisas ali, na educação inclusiva, é a questão do tempo. A Ana Clara tem um tempo para escrever diferente de nós. Para ela fazer uma prova, é outro tempo. E ela é uma heroína, uma vitoriosa, nesse sentido. Ela se propôs a viver neste tempo. Ainda que não seja o tempo dela, ela se propôs a viver esse tempo. O tempo que eu estou dizendo é 24 horas. O tempo que nós respondemos uma prova, é um tempo de 40 minutos, meia hora. Para a Ana Clara, certamente, é uma hora e 15. Entendeu? Mas não. Ela responde em meia hora, 40 minutos. Sabe, é uma coisa muito, é violentamente educativo. Quando ela falou isso, eu pensei assim: “Se os professores realmente sacaram o que é uma educação inclusiva...” E ontem foi a apresentação da peça “Morte e vida Severina”, a peça da classe dela. E ela estava lá no palco, fez duas falas. E todos os professores depois vieram falar comigo. Então, se eles realmente sacaram isso, aí eu posso dizer que o Gracinha tem uma educação inclusiva.

 

P/1 – Então, Ana, obrigada.

 

[Fim da parte 1]

 

[Início da parte 2]

 

P/1 - Karen Worcman

P/2 - Márcia Ruiz

R - Anamaria Cristina Schindler



R – Eu lembro que eu saí daqui aos prantos (risos).

 

P/1 – Você estava falando quando conheceu o Meir Schneider, da fisioterapia da Ana Clara. E você começou a contar um pouquinho...

 

R – Ah, sabe o que eu posso fazer? É retomar daí e aí já introduzir a minha amizade com a Guida e a escola, pode ser?

 

P/1 – Pode ser.

 

R – Pode ser a gente fazer esse caminho assim? Então posso começar?

 

P/1 – Pode.

 

R – Então, a Ana Clara teve o diagnóstico da atrofia espinhal, provavelmente, em novembro de 1993. Logo depois, eu conheci o Meir Schneider que trabalha com essa técnica do “self-healing”, que é uma técnica de fisioterapia autoconduzida – autoconduzida não, que [é] conduzida – e sempre foram várias horas de fisioterapia por dia. E aí começou toda uma história de vida da Ana Clara, um percurso dela, né, ainda bebê. E assim, muita massagem, eu fazia muito Shantala [técnica de massagem], aprendi a técnica da shantala. Então, a Ana Clara foi muito massageada com shantala, fazia fisioterapia, sei lá, algumas vezes por semana mais o método Meir Schneider. E é engraçado porque até hoje a Ana Clara, toda vez que a gente fala do Meir Schneider, porque várias fisioterapeutas ao longo de alguns anos trataram a Ana Clara no método do “self-healing” – teve a Odete, a Lia, a Bia, todas elas ligadas à Universidade Federal de São Carlos que tem um centro de “self-healing” lá – mas o que ela lembra mesmo, ela fala: “O Meir, aquele que tentou me afogar?”, “Mas como tentou de afogar?”, porque um dos métodos do Meir é a terapia na água. Então, sempre que o Meir vinha ao Brasil, ele vinha duas, três vezes por ano e atendia a Ana Clara pra dar orientação para as outras fisioterapeutas e uma boa parte do tratamento do Meir é dentro da banheira, então ela ficou com essa memória do Meir. Mas eu atribuo a qualidade de vida que a Ana Clara teve dentro de todo prognóstico, porque o primeiro prognóstico era de dois anos de vida. E dentro disso, todas as consequências da atrofia espinhal infantil, eu atribuo ao “self-healing”, né, a melhor qualidade de vida que a Ana Clara teve. Inclusive, poder ter uma vida social, cultural, humana, assim, de interação muito rica, né? E eu atribuo aos anos de “self-healing”. Porque, realmente, se não tivesse sido o “self-healing”, talvez ela não tivesse enfim sobrevivido nesse prognóstico. Bom, os primeiros anos de vida da Ana Clara, 94, 95, 96, os primeiros três anos assim foram primeiro: muito de tentar entender o que era aquilo, tentar entender o que era a [doença de] “Werdnig-Hoffmann”, como tratava, como não tratava; eu a inscrevi na “Johns Hopkins University” onde ela é um “case” estudado até hoje; a inscrevi na Universidade de Indiana em Chicago, também onde o caso dela é um dos casos analisados da atrofia espinhal infantil. Aí fui procurar grupos de pais e acabei fazendo parte do “Spinal Muscular Atrophy”, SMA, que é o equivalente ao que é a ABDIM, a Associação Brasileira da Distrofia Muscular, aqui no Brasil, que é uma organização que foi dirigida até por aquela geneticista Mayana Zatz. Então, fui fazer parte do SMA, aí acabei também depois uma amiga minha que morava em Londres, acabou inscrevendo a Ana Clara num grupo lá de Londres chamado “Jennifer Trust”. Enfim tentando entender, conhecer, conectando um pouco pra poder dar o melhor pra ela do que havia. Porque o que havia e, na verdade, é quase o que há ainda, apesar de serem 16 anos essa história, quase 17, são paliativos, são tratamentos laterais. As técnicas mudaram etc., mas ainda é uma síndrome que não tem cura, né, e progressiva, não sei se eu cheguei a falar isso antes, mas ela é genética de pai e mãe. Então, e nesses três primeiros anos a Ana Clara teve várias... Aliás, os seis primeiros anos de vida ela teve várias internações longuíssimas em UTI, a gente chegou a morar em UTI por três meses assim, períodos logos de UTI. E a Guida era, já naquela época, uma amiga. Eu conheci a Guida, o Lucas que é o meu filho que tem 27 anos, irmão da Ana Clara, o Lucas tinha, provavelmente... Eu conheci a Guida por volta de 1987... Desculpa 87, 88. Então eu conheci a Guida, [ela] acompanhou toda a gravidez da Ana Clara, conhecia a Ana Clara. E a Guida já tinha a PlayPen – a PlayPen é de...

 

P/1 – De 1981.

 

R – De 1981. Eu conheci a Guida, sei lá, em 1988, 89 por aí...

 

P/1 – Mas por causa do Lucas?

 

R – Não, não. Eu conheci a Guida por causa do Luiz. [Ele] foi marido da Guida. Ela foi casada dez anos, se não me engano - ou 13 anos, acho que 13 anos – com o Luiz, que é colega de faculdade do Maurício, meu marido. E aí quando o Luiz conheceu a Guida e começaram a namorar e já apresentou. Eu e a Guida, a gente se transformou assim em irmãs, quase; somos amigas, até a gente não se vê tanto quanto a gente se via hoje em dia, mas ela é uma amiga dessa época e muito querida, muito especial e tal. Então a Guida nos acompanhava o tempo todo, né, nessa trajetória com a Ana Clara. E aí chegou a idade escolar da Ana Clara, né, chegou a idade, provavelmente acho que cinco anos – eu não lembro exatamente as idades – mas mais ou menos cinco anos. Desta época, eu me lembro bem. A Ana Clara tinha, inclusive, tem várias fotos dela na PlayPen nessa época, ela tinha uma cadeirinha de rodas pequenininhas daquelas bem pequenininhas assim, (risos) uma rodinha, cadeirinha, sentadinha; ela sentava com o colete e ela tinha cinco anos... E o que acontece na “Werdnig-Hoffmann”, você tem a degeneração dos neurônios da medula espinhal, então você não tem a comunicação com os músculos, com a força da implacável gravidade ela nunca chegou a sentar sozinha, então foram desenvolvidas diversos... Botinha, colete, várias coisas assim, até coisa pra mão, né? Mas, nessa época, ela sentava com a ajuda do colete numa cadeirinha pequenininha para uma criança de cinco anos. E a Guida, nessa época, falou: “Eu quero educar a Ana Clara”. Ela falou bem assim pra mim: “Eu quero educar a Ana Clara, quero que a Ana Clara seja educada na minha escola”. Naquela época, a PlayPen era a casa – eu sou meio ruim de espaço (risos) – mas era a casa, aí tinha toda aquela... Você olhando pra frente, olhando assim, a fachada desse lado, tem o que era o "playground" onde tem as árvores e tal, a casa. Acho que tinha um anexo e a Guida, então, fez algumas obras na escola, colocou rampas aonde dava para colocar e a Ana Clara entrou na PlayPen...

 

P/1 – Com quantos anos?

 

R – Mais ou menos com cinco anos, era pré, “preschool”. Não era o “preschool one”, não era daqueles que tem lá, que começa pequenininho, era um pouco maiorzinho ali. Eu acho que já tinha uns cinco anos, ela tinha. Era “preschool”. Ela tinha cinco anos porque ela ficou um ano – isso, eu vou contar a história aqui. Eu acho que era, mais ou menos, cinco anos que ela tinha. Teria que resgatar aí pra ver se é essa idade. Ela entrou na PlayPen, a primeira cadeirante que a PlayPen teve. A escola se adaptou no espaço físico e as professoras dela naquele anos foram a Michelle, que está na escola até hoje, e a assistente da Michelle na época era a Patrícia. Então as duas que trabalharam com a Ana Clara, incluindo nessa proposta de inclusão espacial e pedagógica. E tem umas coisas muito interessantes, porque, assim, a PlayPen ela é uma escola da alta elite paulista e, nós, a nossa família não é uma família da alta elite paulista, nós somos mais intelectuais artistas, né? Menos consumidores, mais arte-cultura do que... Então, teve aí um processo de integração também da Ana Clara com esta cultura, que é a cultura da elite paulista, da mais alta elite paulista, quer dizer, todas as crianças nas férias iam para os Estados Unidos, para a França, para a Suíça, para Aspen, esquiar em Aspen e tal. Então teve aí também toda uma integração cultural com a escola. Eram grupos pequenos, salas pequenas, então eu tenho impressão, assim, que a convivência da Ana Clara com... A Ana Clara transforma a vida de todo mundo que entra em contato com a vida dela, com ela. Veja: são 17 anos até hoje, ela acabou de se formar no Gracinha e eu recebo até agora, a formatura foi a três semanas, e fico recebendo e-mails dos pais falando o que foi o significado da convivência com Ana Clara. Mas na PlayPen havia um pouco dessa dificuldade da convivência da Ana Clara com as outras crianças. Até que, um belo dia, a gente vai buscar a Ana Clara na escola e a gente vê a seguinte cena, que depois a gente chegou com ela e ela nos contou que acontecia todo dia. Para ir ao "playground", a Guida tinha feito também uma rampa, e aí o "playground" era de terra. Estavam umas crianças, uma ou duas meninas empurrando a cadeira e um monte de crianças atrás, da classe, sei lá, umas oito crianças da classe – eram umas dez crianças empurrando a cadeira e oito atrás – e elas iam cantando assim: “Lá vem a rainha em sua carruagem”. (risos) Então eles criaram essa brincadeira, que a Ana Clara era a rainha na carruagem, e a cadeira era a carruagem. Depois a gente pegou a Ana Clara e colocamos no carro e disse: “Filha, que brincadeira engraçada, interessante. Bacana!”, “Ah, mãe, eles fazem isso todo dia, a gente brinca de carruagem e de rainha”. Então foi assim, foi uma cena muito engraçada. Logo no começo da PlayPen, que a gente tinha questões dessa integração, de como é que iria ser, tanto pelas razões que eu já falei. Então, esse ano todo aí, que deve ter sido mais ou menos o ano de 98, provavelmente, ela fez a pré-escola lá e muito feliz, né? Ela [foi] muito feliz, mas a felicidade dela maior era de se sentir integrada. Ela já tinha com cinco anos essa consciência, era parte de um grupo. Logo depois desse primeiro ano, a Ana Clara começou o segundo ano, mas logo em março, abril ela teve a pior crise, a mais severa mesmo de toda a história dela; foi o período que ela ficou três meses na UTI. Tudo sempre começava com pneumonia, resfriado [que pegou na] escola, pega resfriado à beça. Pegava o resfriado, aí aquilo foi se transformando em pneumonia e virou uma pneumonia super severa...

 

P/1 – Mas o que a pneumonia tem a ver com a doença?

 

R – Tem. O que acontece na atrofia espinhal? Ela acomete, principalmente, as extremidades e a parte torácica, então como você não tem a comunicação nervosa com os músculos, não tem o desenvolvimento muscular. É basicamente isso que acontece, não tem desenvolvimento. O músculo não desenvolve. Tem o músculo, mas ele não desenvolve, não se fortalece, e idem para a caixa torácica. Então essa capacidade pulmonar, que você inspira e expande a caixa torácica, esse movimento muscular, ela não tem, entendeu, e já não tinha. Nessa época, já tinha passado por pneumonias, mas essa pneumonia foi gravíssima. Por que, o que acontece? Ela já estava com cinco anos, então o corpo dela maior... Quando ela era pequeninha... A primeira pneumonia, ela tinha um ano que foi internada [na] UTI, parara-parara, mas nesta ela já era grandinha e aí tudo fica mais difícil porque a medida que você vai crescendo, o corpo vai crescendo, o fato dela não ter força muscular nenhuma torna tudo muito mais difícil, todo o funcionamento, né? Com a baixa capacidade pulmonar, ela pega pneumonia muito mais fácil, pegava pneumonia muito mais fácil. E era imediato, praticamente, gripe e pneumonia, porque não tosse, certo, não tosse, por exemplo. E como é que ia fazer com aquele monte de secreção lá dentro? Então eram aspirações pelo nariz. Aí na UTI, ela ficava com aquele BiPAP, que é um aparelho que tinha uma máscara, então, é um respirador que ficava com uma máscara, né? E aí, foram três meses de UTI e quando ela saiu, obviamente, dentro de uma UTI, deitada, já não conseguia mais ficar sentada, nem com o colete. Então a gente teve alta, nessa UTI. Obviamente, esse ano ela foi na PlayPen, que seria “preschool” 2. O último “preschool” que eles tem lá – o “two” ou “three”. Aí voltamos para casa e ela já [não] conseguia mais sentar, nem com o colete, por quê? Porque em três meses ela ficou muito fraca, mas ela ficou muito fraca, muito, muito magra. As fotos dela dessa época era pele e osso e não tinha um músculo na perna, né? Aí voltamos para casa, já com "home care". E foi nessa época que entrou o "home care", a terapia intensiva doméstica. Naquela época do "home care", ela ainda usava em casa esse aparelho com a máscara, então era um aparelho... É esse aparelho que usa, inclusive, para quem tem problema para dormir, que ronca muito. Quem tem apneia [do sono] usa esse aparelho também. Só tinha esse aparelho naquela época. E a gente foi pra casa e aí, esse ano, ela realmente entrou numa debilidade muito grande, sabe? O que é que aconteceu no caso dela, mas é o que acontece nos casos das atrofias, principalmente, nessa “Werdnig-Hoffmann”, que [é] essa baixa capacidade pulmonar. No caso da Ana Clara, acabou gerando uma coisa como essa Síndrome do Mergulhador [doença de descompressão]. Você vê que esses caras que mergulham muitas horas e tal, eles acabam desenvolvendo a mesma coisa. O que acontece? Você não tem mais a troca efetiva de gases, então, acaba se autointoxicando com o gás carbônico, né? Então ela não conseguia expirar o ar; ela até inalava o oxigênio porque tinha esse BiPAP, mas não conseguia exalar. Então, isto vai dando um entorpecimento, e é assim que os mergulhadores morrem no fundo do mar, com esse entorpecimento...

 

P/1 – Autointoxicados.

 

R – Autointoxicados com o gás carbônico que você não exala. Então chegou num momento em que a Ana Clara dormia 18 horas por dia. Me lembro, assim, de cena dela estar desenhando e ela ia fazendo assim e parava. Dormia, assim, desenhando. Aí você mexia com ela, ela acordava e dormia de novo, 18 horas e ela estava indo embora...

 

P/1 – E você?

 

R – Tudo isso e você... O “você” em tudo isso é uma luta contínua de observação, de entender a sua limitação, de ter que ter uma sensibilidade pra agir imediatamente em qualquer momento, sacar o que está acontecendo e tomar atitude. E nem sempre você saca exatamente o que está acontecendo, porque você não sabe, você não conhece. Você não sabe eu nem sabia dessa história, né, do mergulhador, da troca de gases, de intoxicação não sabia até que ela foi internada novamente, e aí [foi] super grave, foi da vez que o Rogério... Porque tem uma figura nessa história, eu vou voltar na Guida, mas tem uma figura nessa história que é o nosso grande parceiro na trajetória da Ana Clara, que é o Rogério, doutor Rogério Pereira da Fonseca, médico da Ana Clara que a acompanhou desde que ela tem sete meses. Quando eu tive o diagnóstico, ela era paciente de um senhor que era chefe da pediatria do Einstein, chamado Guido Faiwichow e o Guido era um senhor... Quando ele recebeu a Ana Clara com esse diagnóstico, ele falou: “Olha, minha filha, eu não vou ter condições de dar para a sua filha o que ela vai precisar, estou com 80 anos. Então vou apresentar o Rogério pra vocês”. Apresentou o Rogério, então o Rogério é o nosso grande parceiro de vida, até hoje, é nosso parceirão de vida. Então, voltando no episódio, a Ana Clara dormindo 18 horas por dia, foi internada novamente lá no Einstein e foi a vez que o Rogério saiu de dentro da UTI e falou pra mim: “Se prepara”, e o Rogério que é imbatível e não tem tempo quente, solução pra tudo. Na hora que ele falou: “Se prepara, porque...”. O que tinha acontecido? Tinha acontecido que o pulmão dela tinha colabado, o colabar, grudou o pulmão.

 

P/2 – Um no outro?

 

R – Não, ele...

 

P/1 – Ele se gruda dentro, murcha.

 

R – É, murcha. Aí, dentro da UTI e, pra ser bem sincera, não que é a gente nunca se prepara para uma coisa dessa, porque a nossa vida era uma luta minuto a minuto. Inclusive, com essa dimensão de tempo, né, não tinha daqui há dez dias. O tempo é agora. É agora. Não tem daqui há dez dias, (risos) a gente não sabia quantos dias. Foi aí, nesse momento, que chega o segundo anjo da nossa vida, que é o doutor Manoel, que também nos acompanha e viramos superamigos desses dois, tanto o Rogério quanto o Manoel. O doutor Manoel Peçanha Gonçalves, o nome dele, ele que é o maior especialista em endoscopia e broncoscopia no Brasil. Aliás, se você for fazer uma endoscopia é com o doutor Manoel, ele é o grande fera brasileiro. E o doutor Manoel chega com um aparelho de broncoscopia, enfia o aparelho dentro da minha filha e “puf”, expande o pulmão, ou seja, quem salvou a vida da Ana Clara foi o doutor Manoel. E, nesse momento, o Rogério falou: “Olha...”. A Ana Clara [tava] com seis para sete anos, eu sou bem ruim de idade de data. Na verdade, ela tinha de seis para sete anos, nós estamos falando aí de 99 para 2000, mais ou menos. Sou ruim de data, tá? Aí, o Rogério chegou pra nós e falou: “Tem duas alternativas aqui: ou fica como está e provavelmente ela vai viver mais dois meses, seis meses, sei lá quanto, não muito mais que isso, ou faz uma traqueostomia nela”. A traqueostomia é um orifício aqui bem na traqueia mesmo, em que você põe uma cânula e essa cânula, muitas pessoas só precisam da cânula. No caso da Ana Clara, foi outro caso depois: “Ou a gente faz uma traqueostomia e ela vai ter uma qualidade de vida completamente diferente, vai mudar da água para o vinho”. Eu na hora já fiz a minha decisão, só que é uma coisa assim, aí me desceu aquela coisa... Lembrando Hannah Arendt, a Condição Humana, (risos) me desceu aquela questão da condição humana: “Como é que posso eu tomar uma decisão de fazer uma traqueostomia na filha?”. Tudo bem que você é a mãe, mas ela tinha seis anos; ela não era bebê, entendeu? Que eu [decidi a] traqueostomia, que a mãe traqueostomizou, que decidiu traqueostomizar com seis meses. Ela tinha seis anos [e] inteligentíssima. Então, fiz uma consulta familiar, primeiro consultei meu filho, o Lucas, contei pra ele o que estava acontecendo que teria que ser feita uma traqueostomia e ficou todo mundo apavorado porque não tinha noção do que era. Então ficou todo mundo apavorado, e depois consultei a Ana Clara...

 

P/1 – E o Maurício?

 

R – O Maurício estava junto comigo. Nessa história toda, o Maurício está junto. Daí consultamos a Ana Clara e explicamos: “Olha é assim, a traqueostomia é assim”. Mostramos fotos de como ficava, e ela falou assim: “Legal se é uma coisa que muda, mas vai ficar um buraco na minha garganta? Eu vou ficar com esse buraco na garganta? Como é que eu vou sair na rua com esse buraco na minha garganta? (risos) Como é que eu vou sair na rua com esse negócio?”. A questão dela era a estética (risos): “Como é que eu vou sair na rua com isso?”. Bom, aí conversamos com ela e, então, foi uma decisão compartilhada. Conversamos com ela e ela fez a traqueostomia, né? E ainda ficou no Einstein também muito tempo, porque, naquela época, tinha um aparelho respirador que é o que ela veio a usar depois todos esses anos, mas não era uma coisa acessível. Então ela ainda ficou bastante tempo no respirador do Einstein. E aí, assim, aquela Ana Clara que era pele e osso foi ganhando peso, foi fortalecendo... Não, ela fez uma gastrostomia, porque é assim, essa é uma síndrome genética progressiva, ou seja, você não sabe. A gente percebeu ao longo desses 16 anos que tem períodos bem estáveis que não acontece nada e tem episódios que acontecem e são da progressão da própria síndrome. E uma das coisas que eu expliquei aqui, da questão pulmonar, mas toda a musculatura dela é afetada, né, inclusive, a da mandíbula a da deglutição. Então, pra mastigar e engolir é muito mais trabalhoso do que para qualquer um de nós, a língua da Ana Clara é bem trêmula, por exemplo. Então através da alimentação via oral, ela não estava conseguindo suprir aquilo que ela precisava, então foi feita na mesma época que foi feita a traqueo, já foi feita uma gastrostomia, que é um “bottom” aqui na barriga. Independente daquilo que ela come, e ela adora comer ela, é super gourmet, adora sabores e coisas: salmão defumado, Croque-madame - até ontem a gente comeu croque madame. Independente disso, ela tem alimentação via gastro. Ela come só o que ela quer, o que ela está afim de comer. Bom, aí o que aconteceu então: nós voltamos para casa com a Ana Clara [e] o respirador, com a traqueostomia, com a gastrostomia, com a UTI doméstica. E aí, como é que vai estudar? Naquela época, a gente nem sabia se seria possível a Ana Clara ter uma vida social, uma vida normal de sair e de fazer as coisas, né? Voltamos do Einstein pra casa: “E agora, como é que vai ser isso em casa?”, voltar para casa, você trás uma UTI para dentro da sua casa. A gente não sabia muito bem como ia ser, né, mas sem educação, ela não podia ficar também. Aí, eu não lembro exatamente qual foi o percurso, a própria Ana Clara deve lembrar, mas, acabei chegando numa professora que foi a tutora da Ana Clara durante todo o Ensino Fundamental. Ela não voltou para a PlayPen, naquela época, ela ficou alguns anos fora da PlayPen e, nesses alguns anos, a Guida sempre acompanhando, a gente sempre conversando a adequação ou não de curso, porque não tinha condições de voltar naquele momento, realmente. E a Guida resolve fazer a reforma da escola, a tão famosa reforma da escola (risos) e aí, para minha surpresa... Obviamente que não é de se espantar tanto, a Guida sendo quem ela é, a Guida é uma pessoa de visão; super mega hiper empreendedora, visionária, uma pessoa que tem uma coisa intuitiva, visionária adiante, né? E ela me liga e fala: “Ana, eu contratei dois arquitetos, o Marcio Kogan e o Isay Weinfeld, mas eu vou pedir para eles o primeiro projeto da escola totalmente acessível de São Paulo”. E aí foi essa a concepção dela da escola, né, que fosse uma escola totalmente acessível. Eles construíram e desenharam aquele prédio e foram construir. Então, esse período, por exemplo, a gente não estava na PlayPen, o período que deve ter sido entre 2002 e 2003, e a Ana Clara então... Eu já sei, como é que chegamos na Adriana, a Adriana que é essa tutora foi indicada por uma professora da PlayPen, era sobrinha de uma professora da PlayPen. E a Adriana ia todos os dias à tarde em casa e ensinou todo o currículo do ensino fundamental e tinha um acompanhamento dessa tia dela, prima dela – eu não sei – lá da PlayPen, então ela também ficava ligada no currículo da PlayPen e ela fez primeira, segunda, terceira série. Ela fez três anos em casa, né? A gente não voltou para PlayPen nesse período. Até que voltamos. Aí depois de três anos, voltamos para o término do ensino fundamental I e aí, fazer o fundamental II na PlayPen. Então ela fez eu acho que mais cinco anos na PlayPen – se não me engano – quatro anos. Acho que a partir de 2003 até 2006, 2007 – sete, oito, nove, dez, não dez, nove, oito... Sete, ela ainda estava na PlayPen. Então sete, seis, cinco – ela deve ter voltado em 2004, talvez, para a PlayPen. E aí a volta dela para a PlayPen também recoloca os mesmos desafios, aqueles que eu falei anteriormente, que é o da integração dela com aquele grupo que era um grupo pequeno – mas com um grupo – e que tinha caminhado junto três ou quatro anos sem ela lá. E ela volta em outras situações, porque ela volta traqueostomizada, com um aparelho respirador, com enfermeira, numa cadeira deitada. Não era nem mais a cadeira sentada. Então teve todo um processo de reintegração que foi bastante difícil para a Ana Clara, não foi simples não. Foi bastante complicado pra ela; a escola era outro espaço. A escola tinha crescido, eram outros professores. E aí a Ana Clara fez o último ano do Ensino Fundamental lá e passou para o que seria a quinta série, passou lá na PlayPen. Então já tem aquela mudança enorme de sair de um professor para vários professores e tal, mas tiveram algumas pessoas com quem ela se identificou muito e que foram muito importantes para ela no aprendizado dela lá na PlayPen e no acolhimento dela. Apesar de que ela sempre me colocou, principalmente, agora que ela teve três anos em outra escola e que ela teve um convívio mais adolescente, ela faz uma comparação do que foi a integração dela na PlayPen do que foi a integração dela no Gracinha, ela faz esse comparativo.

 

P/1 – E qual é o comparativo?

 

R – O comparativo é esse que na PlayPen ela tinha muito mais dificuldade, apesar de a classe ser bem menor, e talvez por isso mesmo, né, ela tinha muito problema de integração ali. Da PlayPen ela traz uma amiga, ela não desenvolveu uma amizade forte com o grupo. Tanto que, por exemplo, tinha um dos alunos que ela conta muito, que é o Erwin, que durante um período se aproximou muito dela, ficou muito amigo dela. Depois, à medida que eles foram fazendo 12, 13 anos e começa na pré-adolescência, o Erwin se afasta dela de uma maneira bastante assim... Ele fica melhor amigo do menino que nunca nem cumprimentou a Ana Clara. Uma classe de oito ou nove crianças, e este garoto que se chama Eduardo nem cumprimentava a Ana Clara - nem se referia a ela, ignorava. E esse Erwin é o que na formatura do fundamental escreve o texto e lê o texto, até mencionei isso no workshop, e leu o texto de encerramento da classe falando, principalmente, do que foi o convívio com a Ana Clara. Isso no final do Ensino Fundamental.

 

[Pausa]

 

R – Então, nessa volta dela para a PlayPen, nesse novo espaço físico, né, porque isso pra ela foi um “show” entrar numa escola totalmente adaptada em espaço físico e adaptada ao ponto de que todos usam as rampas, não usam outro acesso. Isso foi incrível. Na época, você vê, isso foi em...

 

P/2 – Em 2001 e 2002...

 

R – São oito anos atrás, né? A gente fala isso, na época, parece que foi o século passado, não, oito anos atrás ainda era pouco usual você ter espaços totalmente acessíveis em São Paulo, e muito menos numa escola, uma escola inteira acessível. Então, por aí dá para imaginar também a relação que a gente vai desenvolvendo com a Guida. Porque a Guida não só é melhor amiga, não só é a pessoa que nos acompanha como uma amiga nesses anos todos, como a Guida é projeto de vida pra gente, certo? A Guida representa na minha família, projeto de vida; a Ana Clara está onde está porque a Guida existe. É uma coisa muito muito forte, é muito profunda, além de qualquer convenção. Ela não só acolheu a Ana Clara, integrou, tentou fazer, fez um projeto pedagógico de inclusão, como reformou uma escola e criou a primeira escola arquitetonicamente acessível em São Paulo. Não é pouca coisa, acho que é um exemplo que deveria... Eu, em até alguns momentos, quis fazer, deveria ter escrito, deveria ter feito uma matéria sobre isso porque você fica tão envolvida também em conduzir a vida... Eu acabava meio que sem energia para fazer esse tipo de coisa, mas é uma história a ser contada, né? Arquitetonicamente, se você considera educação como espaço físico, mais projeto pedagógico, mais relacionamento, foi a proposta dela toda e todo mundo entrou na proposta. Bom, e aí, no Ensino Fundamental II, algumas pessoas que foram assim muito relevantes para a vida da Ana Clara: primeiro é o Rafael. O Rafael foi uma pessoa que ensinou Matemática para a Ana Clara de um jeito, para a Ana Clara e para a classe toda, mas a Ana Clara, assim, ela tem um amor por Matemática até hoje. Ela pode ir mal em qualquer outra matéria, mas Matemática ela vai bem; ela e o Rafael até hoje têm uma ligação em redes sociais e tal, né? Então, a relação com o Rafael foi muito forte e eu acho que quando eu estava falando dessa questão da integração, essa diferença cultural dentro da escola, porque a Ana Clara não se reconhecia muito assim para as meninas, para o meninos, a coisa era: “Que vestido eu vou comprar? Que sapato eu vou comprar? Que hotel que vai ficar?”. Não era muito o universo da Ana Clara. Era uma questão de integração, um desafio mesmo. E aí, o Rafael, por exemplo, ele entra como sendo a pessoa com quem ela conseguia dialogar, no sentido de “esse é mais o meu universo e tal”. E o Rafael depois, agora não [lembro] exatamente como é e em que fase, em que momento, entra na nossa vida a Rosana que é a irmã do Rafael, que também – ah não, desculpa, é o contrário. Perdi um pedaço aqui porque eu sou meio ruim de memória. A Rosana foi a professora da Ana Clara na volta à escola no que seria a quarta série, foi a Rosana. Amada professora. Essa conexão que eu estava falando é a Rosana amadíssima. Imagina, a volta dela depois de quatro anos fora da escola, e ela volta com a Rosana que se apaixona por ela e ela pela Rosana, tá certo? Era uma paixão mútua. E aí termina o Ensino Fundamental I e começa o II, aquele monte de professor e a Ana Clara novamente foi um “bum”, né, perdida: “Como é que vai ser?”. E o professor de Matemática é o Rafael, que é o irmão da Rosana, então cria-se aí um círculo super importante para ela dessa relação ensino, educação e pessoas com quem ela pode partilhar um certo universo. Assim, nesse período todo, eu falei que tinha uma menina que se tornou meio melhor amiga dela, que é a Graziela, ela ia na casa da Graziela, a Graziela ia lá em casa, dormia em casa, então criou essa... E aí o Felipe Maluf que é quem ela conhece, que acho que é um ano mais velho que ela. É da turma mais velha. E ela conhece o Felipe na PlayPen e aí a gente vai conhecendo a família Maluf, né? A Patrícia e o Mauro a gente conheceu depois. A gente conheceu o Felipe primeiro, aí a Manuela, que é a Manu, a irmã mais nova do Felipe, tem o irmão do meio que a gente não conheceu muito, mas era a Manu e o Felipe. E com o Felipe a Ana Clara tem uma relação desde então, isso são oito anos que eles têm um relacionamento super forte, são super amigos e foram para a mesma escola no Ensino Médio, então fizeram o ensino médio juntos. O Felipe sempre um ano na frente, até que ele repetiu o segundo ano, então passou a ser da mesma turma. Então essas duas pessoas, a Graziela e o Felipe são as duas pessoas mais importantes assim que vieram desse período da PlayPen.

 

P/1 – Por quê? Como era com o resto das crianças, com o resto do grupo? O que acontecia?

 

R – Era distante, ela nunca estabeleceu um vínculo. Ela não tem uma comunicação fácil, principalmente no começo quando ela estava recém traqueostomizada. E aquilo que eu contei pra vocês, ela foi traqueostomizada num momento em que ela estava muito debilitada. Hoje em dia, você ainda tem que prestar atenção...

 

P/1 – No que ela fala?

 

R – No que ela fala. E mesmo eu, mãe, tenho vários momentos que eu falo: “Não entendi, repete”, eu vou até que eu consigo entender. Se por telefone então é bem, às vezes, dependendo, por exemplo, ela tem muita saliva porque uma das coisas que aconteceu – eu vou dar um salto triplo mortal aqui –, mas uma das coisas que aconteceu dois anos atrás é que uma das progressões da “Werdnig-Hoffmann”, ela perdeu a deglutição, ela parou de engolir, nem saliva. Então, a Ana Clara tem todo um mecanismo de lidar com isso: por aspiração. Enfim, várias coisas. Às vezes, junta saliva e ela tem que falar e ela fala com a saliva, entendeu? Então você tem que prestar muita atenção, tem que olhar na boca dela. E se é por telefone, então, é mais complicado ainda, porque daí você não está vendo ela, se ela está bem assim. Às vezes ela fica cansada e no que ela ficou meio cansada, aí fica pior a fala. Então, ela já não tem uma fala muito fácil. Enfim, aquele grupo que é um grupo que também não conheço... E a nossa grande conexão, pais, família e escola, sempre foi a Guida, a amizade que a gente tem com a Guida, essa sempre foi a conexão maior. A gente nunca se conectou com os pais das outras crianças, a não ser da Graziela e depois, mais tarde, com os Maluf. Então, eu não sei muito como é que os pais lidavam assim. Por exemplo, uma das coisas que a PlayPen fazia era que no começo do ano sempre se fazia uma reunião dos professores, com a direção da escola, com os pais para apresentar o currículo do ano e tal, e nessa ocasião era quando eu encontrava com os pais. E logo no retorno da Ana Clara, eu fiz uma fala para os pais, mas depois eu não fiz isso todos os anos. A gente também não estabeleceu muito vínculo não, sabe? Até mesmo porque não tinha muita afinidade assim com os pais também, sabe? Os pais também ficavam um pouco assim, não são pais que eu acho que convivem ou que estão expostos a uma maior diversidade, eu não sei o quanto que os pais da turma da Ana Clara estiveram ao longo das suas vidas expostos a uma diversidade maior, de conviver com o diverso. Não digo ver, porque ver todo mundo vê, tá certo? Mas conviver, ter a chance de conviver. E é no convívio com o diverso que você vai aprender, não no ver no diverso, né? Você vai compreender como é que lida com aquela situação na medida em que você convive com ela. Então, nessa questão da dificuldade da fala, também a própria dificuldade de locomoção, que naquela época muito menos com uma locomoção que não é muito simples, acabou que não teve essa integração maior com as outras crianças e com os pais mesmos.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar uma coisa: como é que era que os professores lidavam com esses alunos com necessidades especiais, que era o caso da Ana Clara? Porque, assim, a impressão que eu tive no workshop e com o que a gente sabe, a Ana Clara foi realmente a pessoa que os professores conviveram. E você percebe que teve um aprendizado, mas como é que era a escola lidava com isso, como é que eles formavam os professores para lidar com o diverso, tem informação para isso ou era só uma postura da Guida?

 

R – Olha, era uma postura da Guida, era uma postura sim discutida na coordenação. A Célia, na verdade, entrou no final do período da Ana Clara na PlayPen, porque era a Márcia. Então, tinha sim, por parte da coordenação e isso [era] expresso nas reuniões com os professores, na reunião de coordenação de maneira geral. Agora, o quanto isso, realmente, representou, digamos assim, um projeto específico pedagógico inclusivo, eu não sei te dizer. Arquitetonicamente, 100%, o que já é hoje em dia. Eu considero que a arquitetura e espaço urbano é 50% da vida de um cadeirante, de um portador de deficiência, qualquer que seja, é 50%. Se você não tem uma cidade com equipamentos públicos com acessibilidade, você não tem condições de ter uma vida urbana de convivência com a cidade, não tem. Então acho que primeiro o arquitetônico. Agora, do ponto de vista do projeto pedagógico, o que eu posso te dizer é que, com a Ana Clara havia o currículo mesmo, matéria, as aulas eram as mesmas, mas questões como: o posicionamento na classe, a Ana Clara não pode ficar no fundão da classe, ela tem que ver o professor, até mesmo porque ela fica nesta posição então ela tem que ver o professor, então o posicionamento na classe sempre foi discutido; o tempo de fazer as provas sempre foi discutido, sempre foi concedido mais tempo para ela fazer a prova, porque ela não tem a mesma agilidade que as outras pessoas têm para escrever. Então acho que basicamente é isso, o posicionamento da classe e, um pouco assim, como que a Ana Clara dava a devolutiva de educação. Quer dizer, eles davam a matéria do mesmo jeito para todos os alunos, mas, no caso da Ana Clara, sempre eram discutidos e foram pensados mecanismos; não que facilitassem exatamente, mas que permitissem a ela dentro das condições dela ser avaliada e dar a devolutiva para a escola. Então, principalmente, em tempo de prova ou, às vezes, também, trabalhos para serem feitos em casa nesse tipo de mecanismo. Agora, eu também estou falando desse tema da integração que sempre foi um desafio, mas, por outro lado, existem episódios bastante interessantes porque a Ana Clara sempre foi super internauta, qualquer rede social ela se conectou desde o princípio e não sei muito bem o que aconteceu... As crianças da classe se relacionavam fora da escola via as redes e parece que houve um episódio dentro da escola em que houve uma troca de insultos entre duas colegas da classe e a Ana Clara ao chegar em casa dispara na rede social um posicionamento. Ela assume um posicionamento e assumiu um posicionamento crítico a uma das meninas, com uma das colegas: “Porque você foi assim, foi assado. Você foi preconceituosa, foi ignorante, você...”. Pá! Mandou pau na menina e isso vazou lá de um determinado jeito, e a Guida me chamou na escola – e eu sabia, porque a Ana Clara havia me falado essa história, ela tinha me contado a história e tinha sido clara. A Ana Clara tinha agredido via internet a menina, aí a Guida me chama e fala: “Aconteceu isso, você está sabendo?”, “Tô, tô sabendo”. Ela falou: “Pois é, isso é grave”. A mãe da menina que é uma pessoa conhecida, veio na escola querendo chamar a polícia (risos) porque tá sentido que a filha está sendo alvo de “bullying” por parte da Ana Clara e isso tudo acontecendo fora da escola, via rede social, né? Então é um episódio, eu falei o tempo inteiro da história da integração, o quanto é difícil, mas, de repente, acontece um caso desses que é típico de adolescente de qualquer escola, né, e quem está no centro da coisa é a Ana Clara – a Ana Clara no centro da história. E essa mãe é, (risos) a mãe dessa menina é dona de uma rede de lojas super conhecida e a Ana Clara até hoje passa na frente da loja e fala: “Mãe, nunca que eu vou entrar nessa loja pra comprar nada, não vou comprar nada nessa loja. Nunca”. (risos) E foi um episódio. A mãe entrou no circuito e ameaçou chamar a polícia, disse que a filha dela estava sendo alvo de... Isso aconteceu, sei lá, contando aqui um episódio porque falei tanto que não tinha integração. (risos)

 

P/1 – E como a Ana Clara lidava quando tinha questão das Bienais, que é uma coisa muito forte na escola na PlayPen, que é essa coisa de chamar essa coisa dos artistas?

 

R – Então, aí tem esse lado que é super interessante – ainda bem que você me perguntou, porque eu não vou me lembrando das coisas. Tem a Maria Helena, acho que se chama, a professora das Artes que tem paixão pela Ana Clara e a Ana Clara sempre gostou muito dela. E por conta dessa história, que começou lá na PlayPen, mas não necessariamente, e a Ana Clara se interessou muito por pintura e desenho. E acabou se conectando aí com uma pessoa, a Patrícia, e fez durante alguns anos curso de desenho e pintura com a Patrícia. Então a Ana Clara tem vários quadros pintados, tem quadros, tem desenhos. Depois ela chegou a fazer aquele desenho japonês, sabe, mangá – sei lá como é que chama – começou a fazer o desenho japonês. Então, nas Bienais, a Ana Clara sempre participou. Em alguns casos, ela tinha ajuda para fazer algumas coisas, né, mas com a ajuda da Patrícia ela conseguia fazer as coisas ali e sempre apresentou nos eventos das Bienais. Sempre, a Ana Clara [estava] apresentando, participando, gostando, né?

 

P/1 – E me fala uma coisa, como é que... Você falou da crise que apesar da Ana Clara não estar na escola, mas acho que você acompanhou um pouco de perto a crise da escola que foi em 2001, 2002, que foi logo depois da reforma, quando a escola sofre o processo de interdição da obra e tal. Se você pegar, e você cita, na verdade, a escola quando era aquela casinha que tinha o anexo, que era a própria casa, a Marinalva. Que benefícios, fora a questão da reforma que você traz, que é a coisa da acessibilidade, que outro tipo de mudança trouxe para a escola que você acha que foi significativo? Fora essa questão da acessibilidade. O que você acha que trouxe e foi importante?

 

R – Olha, eu acho que também a escola deu um salto de crescimento enorme, ela teve esse período que eu acompanhei de fora da escola como amiga da Guida e não como mãe da escola. Eu não estava mãe da escola nesse período, então acompanhei. É muito interessante porque a Guida é de uma família de dez filhos, já falei, ela é de Minas Gerais, mas ela é uma mulher muito independente, sabe, financeiramente, nunca precisou de ninguém. Não digo emocionalmente, mas mesmo nos relacionamentos sempre muito independente e muito empreendedora, então isto eu percebi que sempre despertou muito e sempre muito determinada. Então sempre despertou muita reação de outras pessoas. E eu encaro essa história lá do embargo e, depois, o processo, tudo isso, muito em função disso. Ela é uma pessoa super determinada que chegou lá e falou: “Eu vou construir aqui dessa maneira etc.” E isso, sempre causando muita reação nas pessoas. Então, é uma mulher meio que fora do seu tempo, e sozinha sempre. Inclusive, proprietária única da escola durante a maior parte dos anos. Então a luta não era a luta de um colegiado, de uma associação, de um grupo de sócios, era contra a Guida. Bom, neste momento, o projeto arquitetônico, ele é um lado da moeda, mas o outro lado é que, paralelamente, corre também um salto pedagógico. A escola perde quase todos os alunos, mas depois ela começa a ter – eu percebia – uma preocupação. Percebi que primeiro veio a arquitetura, mas aí logo depois, disse: “Não, precisa mudar o projeto pedagógico”, precisa dar um salto, do mesmo jeito que foi o salto de sair da casinha para aquele prédio. Precisava dar esse mesmo salto no conteúdo e na qualidade da educação. E a Guida foi atrás, eu me lembro dela ir para fora do país e participar de congressos, e começar a mandar as professoras para congressos fora. Na escola bilíngue ela tinha esse posicionamento, pra ela foi sempre um posicionamento muito importante de ser posicionada como uma escola bilíngue aqui e fora do Brasil. Percebi que, nessa época, também começa a ter uma preocupação maior, tanto no sentido de educação quanto no próprio sentido de “business”, de um posicionamento como uma boa escola bilíngue. Então tem um investimento pedagógico aí bastante importante nessa época. A Marcia representa sim a estruturação pedagógica da escola, né, eu acho que a escola não seria o que é se não tivesse tido a Marcia para estruturar tudo. Aí vem a Celia e traz uma bagagem de educação, de conteúdo, de projeto pedagógico importantíssimo, é claro. É nítido que há um salto, mas eles não são concomitantes. O adensamento do projeto pedagógico e [faz] você ter clareza mesmo com o projeto pedagógico de que era aquilo ali, a questão da escola bilíngue. Então você tinha no Ensino Fundamental II, tinha Ciências e “Sciences”, Matemática e “Math”, Português e “Language”. Então você tinha todo esse… E fica bem evidente.

 

P/1 – Isso, você está dizendo mais com a Célia? Quando a Célia entra? E o mister French?

 

R – É... Eles entraram juntos, o French e Célia?

 

P/1 – O mister French entrou um quatro ou cinco meses antes da Célia.

 

R – É, eu lembro bem...

 

P/1 – Eles entram em 2005, 2006.

 

R – Na verdade, a entrada da Celia, digamos, coroa ela, consolida esse movimento, mas o movimento vem antes. A preocupação e o diagnóstico de que precisava de ter um salto qualitativo pedagógico importante vem antes da Celia. A Celia, na verdade, ela entra já para implantar. A Guida já tinha... Acho que com a própria Marcia, acho que ela já estava, tanto que já começa as idas para congressos fora das professoras e tal; é antes da Celia. Aí a Celia entra e traz isso tudo, ela vem, entra e traz tudo isso mesmo, um projeto pedagógico mais robusto, uma preocupação enorme com a qualidade. Então traz isso...

 

P/2 – E isso, hoje você sente na educação da Ana Clara a presença desse tipo de projeto, de conteúdo? Isso refletiu?

 

R – Ah, totalmente. E, assim, depois, quando a Ana Clara passa para o Ensino Médio, e a Célia foi fundamental nesse processo, porque a Celia é que recomendou o Gracinha. A gente viu três escolas: a gente viu o Móbile, o Lourenço Castanho era uma outra escola que a gente nem foi ver porque aí a gente achou que não tinha nada que ver com a Ana Clara que já estava saindo de uma escola de alta elite paulista, e ir para o Lourenço Castanho também não ia ser... E aí, a Celia fez uma recomendação muito especial sobre o Gracinha e aconteceu justamente de eu visitar e o diretor do Gracinha ter sido meu professor de Química no colegial, então também teve ali... Ela acabou indo para o Gracinha. E assim, na PlayPen, pode ser que como a Ana Clara, foi o primeiro caso de um projeto inclusivo etc., também foi aprendizado para a PlayPen. Então, pode ser que a Ana Clara tenha sido avaliada com pouco mais de flexibilidade, pode ser – não sei, ninguém nunca me falou explicitamente. Agora, no Gracinha, ela não foi avaliada com flexibilidade nenhuma, ela foi avaliada como todos os outros alunos. Ela vem para o Gracinha e vai super bem, ela foi super bem, ela ficou de recuperação agora, mas primeiro colegial ela não ficou de recuperação nem no segundo, passou sem recuperação no primeiro, passou sem recuperação no segundo e no terceiro é que ela pegou três recuperações, mas teve toda condição de acompanhar... E sei que no Gracinha ela foi avaliada dentro dos critérios de avaliação da escola, e da prática de avaliação da escola geral.

 

P/1 – Ana, deixa eu te perguntar, você disse muito que a Ana Clara é muito ligada a questão tecnológica, a questão das redes sociais. Como isso foi introduzido na PlayPen, tinha a parte tecnológica da escola? Era muito boa? Como é que era isso? Ou foi uma coisa que vocês trouxeram mais dentro de casa?

 

R – Olha, você me pergunta e eu não tenho referência nenhuma da parte tecnológica na escola. Acho que ela teve aula de informática, mas ela sempre foi ultra mega hiper internauta até porque é o principal veículo dela de acesso ao mundo. Expliquei um pouco como é que é e o computador é um instrumento dela. Então, isso desde pequena, ela sempre foi muito ligada no computador. Agora, eu acho que ela teve informática lá, mas sabe que eu não me lembro direito, eu acho que ela teve informática, mas eu acho que foi assim como na Gracinha, também não foi nada tão relevante. O que acontece é isso, é que as redes sociais, o Orkut da vida, hoje em dia mais o Facebook, mas naquela época ainda era o Orkut, mais do que o Facebook hoje em dia, e todo mundo compartilhava isso na escola, né, nas horas fora da escola.

 

P/1 – E deixa eu te perguntar, alguma vez a Ana Clara falou alguma coisa da jabuticabeira da PlayPen? Porque, assim, várias pessoas que a gente entrevista cita na história da PlayPen a jabuticabeira.

 

R – Não. O que ela fala é da Marinalva. (risos) Ela fala da Marinalva, dos lanches, lembro das histórias dos lanches, lanche também era todo um tema: cada dia era um tipo de lanche, que lanche que era, dela comer e não comer, tinha todo o tema de como é que a Marinalva fazia, não fazia. Sempre voltava falando alguma coisa da Marinalva e do lanche.

 

P/1 – E o que ela falava da Marinalva, que ela contava? 

 

R – Ah, ela falava, tinha uma interação com a Marinalva: que a Marinalva falava pra ela tal coisa, que a Marinalva deu bronca no menino. Depois a Marinalva ainda vira – como é que chama – inspetora, aí foi... A história da Marinalva virar inspetora foi assim, como é que vai ser, né, essa palavra inspetora, então era assim: a Marinalva que era a pessoa que cuidava deles, da alimentação deles, né, passa a ser inspetora e ela muda radicalmente como inspetora, então tem toda essa devolutiva, ela chegava sempre comentando alguma coisa. Na primeira fase, quando a Marinalva estava no lanche, era sempre se comeu ou se não comeu, se se comporta ou não se comporta; e a Marinalva, sempre, ela se reportava num misto de severidade, ela sempre falava que a Marinalva queria disciplina, que tinha que comer o lanche na hora, tinha uma certa severidade e, ao mesmo tempo, um coração super mole, né? Então era mais, assim, relacionado na época do lanche, era mais relacionado ao lanche, ao que a Marinalva deu e que tava horrível, que não sei o que, entendeu, era aquelas coisas: “Hoje, o lanche estava horrível. Imagina, colocou pouco requeijão. Não tinha requeijão no pão, era só pão puro”. Inventava coisas. Ou então falava: “Tinha bolo e estava uma delícia”, “A Marinalva serviu bolo”. Mas jabuticabeira não. Eu sei que tem a jabuticabeira lá, eu lembro da jabuticabeira, mas nunca foi tema para a Ana Clara. Até porque pra Ana Clara sempre foi muito mais importante as relações sociais, porque era o grande desafio dela, do que propriamente o espaço. 

 

P/2 – Ela ficava na escola de horas a que horas?

 

R – Ela ficava na escola... Até às três horas da tarde, se eu não me engano, das sete e meia até às três.

 

P/1 – E como foi o desenvolvimento dela em inglês também, ela participava das aulas? Assim, ela foi alfabetizada em inglês também lá no PlayPen?

 

R – Não, ela foi alfabetizada em português. Porque tem isso...

 

P/1 – As duas alfabetizações.

 

R – É, mas ela foi alfabetizada em português, até porque teve esse “gap”, né, então ela não pegou o período de alfabetização. Ela pegou aquele primeiro ano que era o “preschool”, o último “preschool”, né, e depois ela fez em casa. Então ela não foi alfabetizada pela PlayPen em inglês. Aí, quando ela volta – como é que foi a história: ela teve professor de inglês particular, teve muito professor de inglês particular. Quem deu muito, muito incentivo para a Ana Clara no inglês foi o Mr. French. Quando o Mr. French chega, que eu não lembro que ano foi...

 

P/1 – Foi 2005.

 

R – Em 2005, você vê, ela pegou dois anos com o Mr. French, né? Dois anos e meio, foi até mais. Não sei quando ele chegou, mas ela saiu dela em 2007... 2008, 2009, 2010. E o Mr. French, ele tomou como um desafio pessoal dele que a Ana Clara falasse em inglês, ele investiu muito tempo. E o Mr. French é outro de coração super mole, um cara super amoroso, super querido, mas ele é linha dura mesmo. Então, ele pegou, eu lembro que ele veio falar pra mim que era para ela ir fazer o exame de inglês, o Toefl... Não, é o Cambridge.

 

P/1 – “Proficiency”?

 

R/1 – O de “proficiency” e que ela iria fazer e eu falei – tem um episódio muito engraçado desse exame –: “Mr. French, você acha que...”, “Não, ela vai fazer, ela vai passar. Ela vai ter que estudar”. Ele pegou, sabe, como um desafio mesmo e foi ótimo porque ela agradece a ele até hoje, assim, ela atribui a ele... E o inglês que ela fala é muito do próprio investimento do próprio French. E aí ela foi lá fazer o exame e era na Cultura Inglesa ali do Butantã, aí quem foi levar ela era o motorista que a leva aos lugares numa [Fiat] Doblo... Ela tinha terminado o exame, ele a colocou no carro, põe ela no carro primeiro, depois põe a cadeira, e o aparelho com o negócio da traqueostomia fica acoplado na cadeira, você põe a cadeira no carro, breca a cadeira e conecta na traqueostomia da Ana Clara. E aí eles saíram do exame de inglês - que ela passou nesse exame, ela tem o “proficiency”-, e o cara esqueceu a porta do porta malas aberta. (risos) “Bum”, a cadeira sai do carro, cai do carro no meio da rua. A Ana Clara diz que nunca passou um susto tão grande na vida. Caiu a cadeira com o carro andando no meio da rua. Eu não estava, eu estava na Ashoka ainda, vivia fora do Brasil. Aí fico sabendo dessa história por telefone depois.

 

[Pausa]

 

P/2 – Eu ia fazer uma pergunta um pouco mais para você. Nesse tempo todo dessa história da Ana Clara nas escolas, só retomando um pouco a sua vida, você veio me contando um pouco da sua vida, [que] você estava na USP, tinha feito Sociologia. Não precisa ser extensiva. Você acabou entrando pra Ashoka e como foi essa vida: a Ana Clara por um lado e a Ashoka muito intensa pelo outro?

 

R – Na verdade, assim, esse paralelo de intensidade de trabalho e vida pessoal sempre existiu, né, porque sempre fui super devotada, digamos assim, a trabalhar, a fazer, a participar dos processos de mudanças. Sempre quis mudar as coisas, nunca fui satisfeita com nada. A primeira fase da minha carreira profissional é em Direitos Humanos, antes da Ashoka; dez anos trabalhei com Direitos Humanos como pesquisadora e como militante no movimento de Direitos Humanos na redemocratização do Brasil, no processo de redemocratização do Brasil em 88, 89. Na verdade, eu comecei em 87, trabalhando em prisões, presídios; depois, 88, 89, 90 até 95, eu trabalhei com direitos humanos [por] quase dez anos. E aí, fazendo parte desse movimento brasileiro de retomada da democracia, e uma das coisas que eu tinha assim uma aflição muito grande, era uma coisa que me indignava muito. Aliás, a indignação é quase como um valor assim na construção da minha trajetória profissional, da minha trajetória de trabalho, sempre foram processos de ter uma indignação e ir atrás daquilo: “Por que isso acontece mesmo? Como é que faz pra mudar?”. Então eu tinha uma indignação muito grande com a maneira como a polícia tratava as pessoas, tenho até hoje, mas, naquela época, era muito pior, né? Então trabalhei com direitos humanos [por] dez anos. Agora, nesse processo de trabalhar com direitos humanos, eu engravidei da Ana Clara em 1993, certo – não, eu engravidei em 1992 – e eu estava no Núcleo de Estudos da Violência na USP, trabalhando com Direitos Humanos. Aí ela nasceu, eu voltei depois de quatro meses, aí tem o diagnóstico dela, eu ainda fiquei o ano de 94 todo no Núcleo [e], em 95, eu pedi afastamento – acho que cheguei a contar isso para vocês. Foi aí que eu fui estudar, estudei anatomia, estudei o “self-healing”, parara-parara. O ano de 95, fiz esse de dedicação a conhecer isso, a “Werdnig-Hoffmann” e tudo isso. Agora, o meu mestrado, como eu já trabalhava com questões de violação de Direitos Humanos, eu comecei a trabalhar com o Sérgio Adorno num projeto de violência praticada dentro de instituições filantrópicas criadas no século XIX e começo do século XX. Então o meu mestrado já é sobre filantropia histórica do Brasil, como é que foram criadas as instituições filantrópicas que acabaram absorvendo pobreza, delinquência, parara. Agora, eu tinha sempre... A segunda indignação, uma era a questão da polícia; sempre foi com a desigualdade, né? Por que a gente pode conviver num mundo tão desigual? Mas tão disparadamente desigual, não é que é medianamente. Não, o Brasil é absurdamente desigual. Como é que a gente convive num país de tanta desigualdade? E aí eu me interessei, ainda no Núcleo, como é que os homens ricos brasileiros pensam essa questão da pobreza e da desigualdade: como é que passa pela cabeça deles, como é que é? Então eu queria conhecer como é que os homens ricos pensavam, aí fui fazer o doutorado sobre filantropia empresarial no Brasil, que foi o tema da minha pesquisa, do meu doutorado... Eu prestei o doutorado grávida de nove meses. Eu lembro que no exame eu estava grávida sim, a banca na USP de seleção e prestei contando desse projeto. Isso foi em 93, não tinha ainda movimento de responsabilidade social, nem se falava em responsabilidade social ainda no Brasil. Era filantropia empresarial, era assim que chamavam. O Gife (Grupo de Institutos Fundações e Empresas) estava começando nesse período, né? E aí a Ana Clara nasceu 15, 20 dias depois do exame de doutorado, e tanto que eu até brinquei com a banca: “Vocês sabem que se vocês me aprovarem, eu não vou fazer o primeiro semestre”, “Sabemos, sabemos”. Enfim, passei etc. e tal. E aí eu fui fazendo essa coisa da filantropia empresarial, entrevistando – entrevistei o Guilherme, o Jayme Garfinkel, fui conhecendo... Na verdade, o grande “insight” – também não sei se já falei isso, se falei, eu pulo – aconteceu no ano de 1995, portanto, foi o ano que eu tirei para ficar com a Ana Clara e tal. E lendo uma entrevista do George Soros na revista “Time”... Eu li, era um retrato biográfico dele, ele vai contando. E você sabe que o Soros foi orientando do Karl Popper, que é um dos caras da Lógica da Filosofia? É o grande cara da Lógica da Filosofia. Então conta essa história: que ele estudou Filosofia, ele é filósofo, George Soros com Karl Popper aprendeu Lógica e aí foi para o mercado financeiro e virou um dos homens mais ricos do mundo. Depois que ele virou um dos homens mais ricos do mundo, ganhando dinheiro no mercado financeiro, tá certo, ele resolveu abrir uma fundação. Eu me lembro que li essa entrevista e lembro do momento, de onde eu estava, lembro exatamente tudo. Eu fechei a revista e falei: “Não pode ser que o cara faça a sua riqueza inteira espoliando os recursos da sociedade e depois ele vai pensar ‘agora estou milionário, então vou fazer alguma coisa pela sociedade’”. Não pode ser assim, tem de ser um processo paralelo. Tem que ter construção de riqueza sim, mais igual, né? Mas essa construção de riqueza ela tem de andar junto com um envolvimento com a sociedade, um caminhar junto com a sociedade. E foi aí que eu resolvi fazer filantropia empresarial. Aí a Ashoka, fui entrevistar a Câmara Americana de Comércio que tinha na época um comitê de relações comunitárias, e era o máximo que se chegava naquele momento. A Câmara Americana tinha um comitê de relações comunitárias e quem coordenava era uma mulher chamada Kristen Landi. Aí eu fui entrevistar a Kristen e aí, no meio da entrevista, a Kristen me recrutou para a Ashoka; do escritório da Kristen descemos o elevador, andamos duas quadras e eu fiz a minha primeira entrevista na Ashoka. A Ashoka estava buscando uma pessoa para começar a parceria estratégica com a McKinsey. E eu lembro que não sabia nem o que era a McKinsey. Eu falei para esse cara, esse americano que me entrevistou, o Schott: “Olha, me dá” - tinha um negócio de duas folhas, eram duas páginas -, “Me dá aqui, deixa eu ler. Deixa eu ver se me interessa e a gente continua a conversar”. Desci do prédio dele, ele morava ali atrás do Shopping Iguatemi, sentei na praça com o papel e li. No que eu fui lendo, falei: “Gente, é isso que eu tenho que fazer na vida”. Porque o que era o projeto da McKinsey com a Ashoka e era tudo que eu acreditava, e é tudo que eu continuo acreditando até hoje! Transferir conhecimento. Eu não acredito em fim da pobreza se não for pela transferência de conhecimento. Enquanto não houver conhecimento igual, se não tiver uma democracia em conhecimento, não adianta você transferir recursos, não adianta. Você pode injetar bilhões, mas se você não tiver a equanimidade em conhecimento, em educação, você não vai ter sustentabilidade desse... E a McKinsey era isso, era transferir conhecimento da McKinsey em alta gestão empresarial para o empreendedorismo social e vice-versa. Falei: “É isso”. Lembro até que eu liguei para o Maurício da praça que tinha um orelhão e falei: “Maurício, você não vai acreditar!”. Ele falou: “O que aconteceu?”. Aí eu contei essa história rápida assim pra ele: “Encontrei o projeto no qual eu vou dedicar o resto da minha vida”, falei assim. Lembra que eu contei que no dia que eu vi o Maurício, falei que eu queria casar com ele? (risos) Nesse dia, também, foi a mesma sensação. E aí, foi muito engraçado a história da Ashoka fiz várias entrevistas: “Ah, você é a pessoa, você é a pessoa, tem que ser você”. Aí veio o cara da McKinsey, sócio da McKinsey: “Só que tem um problema, a gente não tem espaço no escritório pra te acolher. Então a gente resolveu suspender um pouco o projeto por um seis meses e vai retomar o contato com você daqui a seis meses”; aí eu olhei para a cara dele e falei: “Meu amigo, me retome, me retome, porque daqui a seis meses eu não sei aonde eu vou estar e muito provavelmente não vou estar mais interessada no seu projeto”. Aí o cara me olhou com aquela cara assim e falou: “Espera aí um pouquinho...”. Levantou, saiu da sala, voltou e falou: “Tudo bem, você pode começar”. (risos) Ai meu Deus do céu. Aí foi a Ashoka, e essa convivência da Ana Clara com a Ashoka sempre foi muito ambígua assim, porque ao mesmo tempo que ela adorava esse mundo da diversidade, que cada hora chegava um africano, um americano, chegava não sei quem em casa, ela odiava que eu estava viajando, ela odiava [que] eu passava muito tempo viajando. E cenas como internar a Ana Clara por telefone, entendeu, ligar de outro lugar para chamar a ambulância pra pegar ela em casa e a levar ao hospital, enquanto eu pegava o avião pra chegar aqui, tudo bem que era Recife, não era Washington, mas fiz isso de Recife. O Maurício em Paris. Também, pais irresponsáveis com uma filha como a Ana Clara, um vai para Paris e a outra vai para o Recife. (risos) Sem noção... (risos)

 

P/2 – Depois a gente para para pensar. (risos)

 

R – Sem noção. (risos) Aí, nossa, internei ela por telefone. Me lembro lá do Recife [que] internei, cheguei do aeroporto e fui direto para o hospital. Então, é uma convivência assim, a vida dela é essa porque eu jamais vou deixar de fazer as coisas que eu acredito que tem que serem feitas, não vou, e, por outro lado, é isso. A gente foi montando estruturas, fomos agregando pessoas, né, tanto que a vida da Ana Clara hoje... É claro que hoje em dia eu sinto que sou muito mais ligada nela do que quatro anos atrás, quando eu estava na Ashoka, por exemplo. Hoje em dia, a gente tem uma... Foi muito bom acompanhar esse ensino médio dela aqui no Brasil, de estar aqui no dia a dia com ela, mas durante alguns anos eu não estava, né? Era coisa de quando eu vinha, ficava duas, viajava duas, ficava um mês e viajava dez dias, era meio assim. E o Maurício assumiu muito. Se não fosse o Maurício, não teria sido, porque o Maurício cuidou e cuida, e assim, pai e mãe em muitas ocasiões. Totalmente pai e mãe. Ele tem pela Ana Clara um amor, assim, uma coisa muito grande, e ela por ele. Eles brigam pra caramba, mas...

 

P/1 – Então, vamos voltando já para gente finalizar. Queria te perguntar uma coisa, Ana: você já falou um pouco do impacto da Escola PlayPen na sua vida pessoal e, principalmente, na vida da Ana Clara, mas se você fosse listar, qual seria o maior impacto [que] teve a PlayPen, a escola, na vida da Ana Clara? Qual seria?

 

R – Acesso à educação inclusiva. Se não tivesse sido a PlayPen, provavelmente, se não tivesse sido a Guida, tudo bem a PlayPen é... Mas eu vou te falar sinceramente, eu personalizo mesmo neste caso, porque se não tivesse sido a Guida, provavelmente, a Ana Clara ia ter alternativas como escolas para crianças especiais, porque era o que tinha. Na época, isso em 97, 98 – que a gente falou – eu fui também ver o que tinha, eram escolas para crianças... Era segregado, escolas para crianças com necessidades especiais. Então, eu digo para você, com toda convicção [que foi o] acesso a uma educação inclusiva. Ela teve uma educação como o Felipe Maluf, a mesma educação que o Felipe Maluf teve em termos pedagógicos e escolares, por exemplo.

 

P/1 – Você contou muito da sua formação escolar, foi muito rica e, como você compararia as escolas que você estudou com a PlayPen? Como é que você vê a diferença, olhando para essas escolas e para a PlayPen? 

 

R – Nossa, mas é água e o azeite, não se misturam em nada, em absolutamente nada. A não ser, vai lá, que você tenha um currículo que toda escola tem que ter. Começa que na minha escola tinha que ir com o uniforme, que era: uma saia de tergal pregueada azul marinho, meias três quartos branca, sapatinho mocassim preto, uma blusinha de gola assim, uma camisa, né, branca, com bolinha vermelha e azul, a gravatinha, que era branca, vermelha e azul. A saia tinha que ser quatro dedos acima do joelho e a diretora... E a gente ficava em fila, porque tudo era fila – fila para entrar, fila para sair, fila para o recreio –, a diretora passava, pegava assim e olhava, ela vinha e punha pra ver se estava quatro dedos acima dos joelhos. Obviamente, o que a gente fazia, a gente dobrava a saia, então, para ficar mais curta. A gente queria a saia aqui, a gente dobrava a saia, aí eu fui mais ousada e subi a barra da saia. Quando ela chegou, que mediu, e que não tinham os quatro dedos. Eu na fila do recreio e eu sou Anamaria - então eu era número um, número dois, sempre a primeira ou a segunda da fila -, aquele vexame, todo mundo da fila olhando. A mulher descostura a minha saia, ela andava com um carretel de linha vermelha com agulha, e costura a minha saia na meia, na fila do recreio. Aí você tem que sair assim, você não pode andar, tem que sair assim com a saia costurada na meia que é para... Então, você imagina, não tem nem o que falar, né, numa escola dessas na década de 70. A PlayPen, se eu comparo, a minha escola era super tradicional, super conservadora da elite brasileira, da elite paulista. Era da elite paulista, era aquela elite conservadora. Na minha escola estudavam os filhos da família Vidigal que são do TFP, Tradição-Família-Propriedade, eles eram meus colegas de classe. Eu tive excelentes professores, vou te falar que tive excelentes professores, mas em termos de cultura, de hábitos e costumes, muito conservadora, né? Se eu comparo com a PlayPen, a PlayPen é uma escola que dá liberdade, a pessoa tem liberdade; eu até me lembro do episódio: eu fui levar a Ana Clara na PlayPen e aí eu vejo uma menina de pijama e eu comentei com uma professora, falei: “Ué, mas a menina veio de pijama na escola?”. E a professora falou: “Mas não é bem um pijama...”. Eu falei: “É um pijama, não é bem um pijama, não. É um pijama”. Ela estava de pantufa no pé, calça de pijama. Então, assim, a PlayPen é uma escola que tem por princípio a liberdade. Claro que tem regras, mas esse princípio da liberdade da pessoa ter liberdade, não é um enclausuramento; segunda coisa que também, comparativamente, na minha escola, na minha época, era assim: o professor entrava na classe, a gente tinha que levantar, levantava e aí só sentava quando o professor mandava, o professor dava a matéria e você copiava. Na PlayPen, você tem projetos coletivos, projetos que vão ao longo do ano inteiro, são multidisciplinares. Naquela época não tinha, era outra coisa. 

 

P/1 – E um pouquinho da sua relação com a Ana Clara, quais foram os maiores aprendizados de vida que você obteve com a sua filha?

 

R – É, bom... O primeiro grande aprendizado, o maior aprendizado, é que o mais importante é o momento de hoje, porque é uma convivência de uma existência que nos foi dito aos sete meses que ela viveria dois anos. Então, a cada ano que passa é uma celebração, é dois mais um, são três, são dois mais dois, são quatro, são dois mais 15, são 17, né, é um pouco essa a referência. O importante é o dia de hoje, curtir o aqui e agora, é cuidar do que está aqui e agora. Claro, não significa que eu não faça planos, mas essa é a matriz. Mais do que qualquer outra coisa, a matriz é esse momento, [o] agora, e vivê-lo com a maior... Então, esse é o primeiro grande aprendizado. Isso daí a gente foi forçado a aprender. Não adianta tá pensando: “Ah, quando eu for...”. Não tem, é agora, né? O segundo grande aprendizado é o da relatividade, sabe, que tudo é relativo. Você passa a dar importância, ou não dar importância, de uma maneira muito verdadeira para a maioria das coisas. Quando você tem que batalhar tão fortemente... Ah, eu escrevi uma carta tão bonita para ela na formatura agora. Os pais tiveram que escrever uma carta e uma das coisas que eu falo na carta é exatamente isso, é que teve um momento... E que isso é muito claro a Ana Clara está viva porque ela quis estar viva, é claro que tem as circunstâncias, mas ela está viva porque ela quis estar viva. Ela quase morreu várias vezes. Então é isso que eu escrevo na carta: “Você quis a vida e ela te abraçou”, então você relativiza tudo. As coisas que você acha que são importantes, não são nada importantes, né, aí você vê tanta gente... Aí o terceiro grande aprendizado... Então, o primeiro é a questão do tempo, segundo é a questão da relatividade das coisas, o quanto a gente acha que é importante e o que é importante; agora, o terceiro grande aprendizado com a Ana Clara, que é “O” aprendizado, “show” de bola, é o maior assim, conviver com ela é um prazer a cada segundo por causa disso, que é: ela não reclama. Ela não reclama: “Ai que saco de vida que a gente já acorda de manhã, que saco de vida vou ter que ir para o trabalho, vou ter que fazer não sei o que...”. Ela não reclama, cara. Ela tem um prazer de estar viva, de viver assim que... Aí, você convivendo com ela, você olha e: “Porra, vou reclamar do que mesmo?”. Ai meu pescoço está doendo, né, ai estou com dor no pescoço; ai, tô com cólica, né, assim, reclamar menos, ou se possível quase não reclamar, né? Então é um terceiro grande aprendizado. Acho que são essas três grandes coisas.

 

P/2 – Por você ter sido da Ashoka por tanto tempo, acho que é mais um plano assim. Qual seria uma visão sua, do seu futuro e dela, mas para o lado dos sonhos, apesar de você viver no dia a dia?

 

R – Olha, Karen, é o que eu falei um pouco. Claro que tem sonho, tem visão, né, e enquanto a gente estiver viva a gente vai estar sonhando e tendo visão. Esse aprendizado que eu disse que é o momento do dia, de estar aqui e agora com toda força de vida, o que significa a vida, o que significa estar vivo, né? Essa potência de vida, pra mim vida é força, vida é potência, vida é energia, vida é poder, mas o poder da vida, né? Você tem que vivê-lo agora. Então, se você faz esse exercício de vivê-lo agora com toda a sua potência, o seu sonho tem que estar com você aqui e agora, não tenho sonho de futuro, entendeu? Seu sonho é hoje, então o que eu acredito hoje? Assim, em relação a Ana Clara, ela passou na faculdade, ela é universitária, passou no ensino médio. Vão acontecer novos desafios, ela tem o desafio de empregabilidade, por exemplo, pra ela é um grande desafio, ela está pensando, está super encanada com essa coisa de com que ela vai trabalhar, como ela vai ganhar dinheiro, como ela vai se sustentar, né? Uma outra coisa que eu penso, obviamente, quando eu não estiver mais aqui, como é que vai ser a vida dela, então são várias coisas que a gente pensa, mas assim, tomo os cuidados um pouco para que ela tenha uma estrutura caso eu não esteja aqui. E que estrutura é essa, por isso eu fui criando para que tenha uma autonomia, relativa, e tudo segue, em relação a Ana Clara, no sentido de buscar uma independência e uma autonomia maior pra ela, né, e ela ter sonhos. Isso falei uma vez para Sushmita Ghosh, que foi presidente da Ashoka: enquanto ela tiver sonhos, é essa a meta, é ela ter sonhos. Então, não consegui comprar o ingresso do U2, o sonho é ir, mas ela não vai descansar enquanto ela não for no show do U2, ela vai dar um jeito de ir nesse show [do] U2 de qualquer jeito, por exemplo. E, assim, com relação a mim, é um pouco disso que eu falei apesar de ter uma compreensão da vida e dos seus limites etc., eu tenho uma indignação sim, porque eu acho que nós, os seres humanos, em sociedade somos corresponsáveis pelo que está acontecendo, entendeu? Não adianta dizer que a culpa é desse, nós somos corresponsáveis. Assim, acredito numa sociedade mais igualitária, eu acho que hoje o país desenvolvido significa você ter um equilíbrio de renda. Isso, se não acontecer no Brasil, não adianta falar em desenvolvimento sustentável, democracia, em crescimento econômico, não tá bom. Assim, profissionalmente, eu vou continuar... Empreendedorismo é a grande coisa e acho que não tem nada mais que seja capaz, educação, aquilo que eu falei, a democracia no acesso ao conhecimento e na retenção do conhecimento, as pessoas terem uma educação mesmo, Educação Fundamental, Médio, Técnico. Acredito muito no ensino técnico, sabe? Acho que a gente tem que chegar nesse ponto. Não adianta o Brasil falar que é isso e aquilo. Está uma porcaria essa coisa da educação, não adianta falar porque vai ser “x”, “y” e “z”. Não vai ser nada se não tiver uma educação capaz de formar melhor o cidadão brasileiro. Então são essas coisas que eu acredito, essas coisas que me mobilizam. Aonde eu vou estar, em que lugar eu vou estar, [para mim] tanto faz. Não sou uma pessoa exatamente pegada institucionalmente, mas sou sim, obstinada, obstinada... Participei de campanha política agora [há] um ano, pela primeira vez na minha vida, num grupo super privilegiado, com uma plataforma super privilegiada, mas insisto [que] é um país que tem uma das maiores desigualdades de renda do mundo. E é um país que é um fracasso em educação, é. Essas são as minhas indignações do momento. (risos)

 

P/1 – Eu vou te fazer uma última pergunta. Eu sei que assim por uma questão de oportunidade ou de algumas coisas, a Karen sempre quis fazer com que você desse um depoimento, a coisa foi se adiando e a gente conseguiu ter a oportunidade de poder te ouvir, de ter o seu depoimento. Eu queria saber, o que significou pra você ter participado dessa entrevista?

 

R – Bom, olha, a primeira coisa é que a entrevista foi em dois turnos... (risos)

 

P/1 – Já facilitou, né?

 

P/2 – Foi que nem eleição.

 

R – A gente teve um período pra se refazer do primeiro turno. (risos) E foi muito engraçado porque a campanha presidencial também [tem] dois turnos, foi muito engraçado. E assim, essa história que a gente brincava que a Karen falava: “Não, tem que fazer o depoimento e tal”. Eu nunca quis fazer o depoimento pessoal, porque falar da vida profissional do que você faz na Ashoka, empreendedorismo em direitos humanos isso e aquilo, tudo bem, você fala, país. Mas a vida pessoal, não. A vida pessoal é uma coisa que eu não gosto de ficar falando, falo com muitas poucas pessoas mesmo, eu comento pouquíssimo, sou muito resguardada, saio pouquíssimo. Não é que sou antissocial, mas eu sou mais para o antissocial do que para o social. (risos) Apesar de que eu falo assim bastante, mas eu não sou uma pessoa muito, sou uma pessoa muito resguardada. Então eu tinha um incômodo muito grande de falar sobre a minha vida mais pessoal. E a história da Ana Clara é uma história que precisa ser contada. Tem um episódio que eu não contei para vocês. Eu contei o episódio da Simpatia? 

 

P/1 – Não.

 

R – Esse episódio é lindo.

 

P/1 – Então conta.

 

P/2 – Então conta.

 

R – Então a história da Ana Clara mais ainda, porque a história da Ana Clara não é a minha história, entendeu? Então eu tenho esse desconforto, mesmo jeito do meu pai. Lembra da história que ele tem o direito de manter? Eu tenho um pouco esse desconforto, eu fiz isso, mas esse sempre foi o meu desconforto. Por outro lado, eu acho que o Museu da Pessoa tem um projeto assim, a ideia do Museu da Pessoa, a ideia de poder contar histórias de pessoas humanas, de seres humanos e isso está num acervo que vai ser disponibilizado e vai estar acessível daqui há gerações. Lembro de um filme do Woody Allen que ele acorda num outro planeta, ele acorda não sei quantos anos depois. Então eu acho importante, mas não me sinto muito confortável não. Não é uma coisa... Tem algumas coisas mais fáceis de falar, mas a vida pessoal é mais complicada mesmo de falar. E falar da Ana Clara ainda mais, jamais no lugar dela. Por isso, eu acho que um dia vocês deveriam fazer uma entrevista com a Ana Clara.

 

P/2 – Eu acho mesmo.

 

R – Ai só precisaria ver só essa questão da linguagem e tal, mas é super fácil de gerenciar. Mas a história da Simpatia é uma dessas coisas que aconteceu nas nossas vidas que provavelmente seis pessoas no mundo sabem. Quando a Ana Clara completou quatro anos e quatro anos na infância é a idade do porquê – “Por que mãe?, Por que tem aquele pé preto?, Por que a borrachinha é preta ali?, Por que aquele fio está conectado? Por que aquele fio é azul e amarelinho e vermelho?”. E a Ana Clara começou a me perguntar a seguinte questão: “Mãe, se eu tenho pernas por que eu não ando?”. E eu, na época, a gente fazia, a Ana Clara tinha o acompanhamento de um médico de Antroposofia, e aí numa dessas consultas, eu falei para o doutor Rômulo: “Doutor Rômulo, a Ana Clara está me perguntando e eu estou me embananando. Estou tentando explicar pra ela o “Werdnig-Hoffmann” [e] tá péssimo, eu não estou conseguindo passar a mensagem ela não está conseguindo entender”. Ele falou: “Ana, não adianta, não vai ser pelo racional. Você vai ter que contar uma história pra ela”. E aí eu fui para casa e com a cabeça a mil e criei uma história central, que tem um corpo central que é sempre o mesmo, então a história sempre começa do mesmo jeito com vários episódios. Então, você vai mudando os episódios e a história começa da seguinte maneira: era uma vez um país muito grande e você tinha oceanos, praias, florestas, cidades enormes, montanhas, rios... E nesse país viviam pessoas muito diferentes: japoneses, italianos, negros, brasileiros, brancos, índios. Então você vai acrescentando a riqueza dos tipos sociais: velhos, crianças, pessoas que andavam em cadeira rodas, pessoas que não andavam em cadeira de rodas. E nesse país vivia uma menina e ela tem nove anos de idade – pus a idade um pouquinho mais velha. Nesse país, mora uma menina, ela tem nove anos de idade, e ela usa uma cadeira de rodas, o nome dela é Simpatia e a Simpatia tem um segredo, mas só ela sabe, um segredo que ela guarda só pra ela. Quando a Simpatia fecha os olhos e se concentra muito fortemente, nascem asas nas costas dela, saem daqui. Então nascem as asas e a Simpatia consegue voar. Então, quando tá muito chato e a Simpatia está aborrecida ou que ela quer ter alguma aventura, ela se concentra [e] cria essas asas, nascem essas asas e ela voa. E aí várias coisas acontecem. Então tem vários episódios, tem um episódio, por exemplo, que ela está lá super aborrecida, “boring”, completamente chateada porque não tem nada para fazer e ela resolve ir voar e ela voa pra fora da cidade onde tem um bosque e aí ela começa escutar gritos: “Ah”, e ela sobrevoa, como ela voa, o bosque até que consegue ver um grupo de crianças que estão perdidas no meio do bosque e já estava escurecendo. As crianças não conseguiam ver a saída, como ela voa, ela chamou a atenção das crianças que olharam para cima e a Simpatia vai guiando as crianças para fora do bosque; daí ela desce e faz amizade com as crianças. Então esse é um episódio que ela vai ao teatro, tem um episódio que ela pega um barco, tem um episódio do sapo, tem vários episódios que eu fui contando, mas tem um núcleo central. E esse núcleo central sempre com muita riqueza, eu caprichava no detalhe. (risos) E aí ela sacou que tem a diversidade e que tem o poder da concentração e da imaginação. Então, foi super bacana, realmente, porque ela começou a acalmar, a ficar mais apaziguada, depois dessa história.

 

P/1 – Queria agradecer pelo Museu da Pessoa e pela PlayPen pela sua participação que foi muito, muito boa.

 

R – Obrigada, imagina, super legal também.

 

[Fim da parte 2]

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