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História

Importância da Educação Infantil

História de: Norma dos Santos Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Infância em Jardim no Mato Grosso do Sul. Educação. Importância da educação infantil. Restauração da escola em que foi diretora juntamente com o Instituto Camargo Corrêa, Avisa Lá e CMDCA [Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente]. Criação de projetos voltados para a formação cognitiva da criança. Importância do trabalho voluntário.

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História completa

Projeto Instituto Camargo Corrêa

Depoimento de Norma dos Santos Pereira

Entrevistada por Fernanda Prado

Bodoquena 13/04/11 

Realização Museu da Pessoa

Entrevista ICC_HV17

Transcrito por Ana Carolina Ruiz

 

Revisado por Júlia Teixeira Reis

 

 

P/1 – Norma, bom dia.


R – Bom dia.


P/1 – para começar eu queria pedir para você repetir para gente seu nome completo, o local e data do seu nascimento.


R – É Norma dos Santos Pereira, nasci em Bodoquena, 14 de maio de 1973.


P/1 – E qual é o nome dos seus pais?


R – Ivo dos Santos e Maristela Souza dos Santos. 


P/1 – Você sabe qual é a origem da sua família, de onde que eles vieram?


R – Os meus pais, da família do meu pai veio do sul quando teve a revolução no Rio Grande do Sul, eles vieram para cá. E a minha mãe é daqui mesmo, Mato Grosso, antigo Mato Grosso. São daqui da região mesmo.


P/1 – Você sabe como eles se conheceram?


R – Olha, os meus pais, naquela época o namoro era uma coisa assim bem de respeito. Meu pai casou com 28 anos e minha mãe com 18. Então foi coisa rápida. Minha mãe veio de uma família de classe pobre, que os avós eram separados, então quem criou minha mãe foi minha bisavó. Então minha mãe não teve muito contato com os pais, é a bisavó que criou. Mas através das fazendas, que era em festas de fazendas que eles se conheciam, que iam um na casa do outro fazer as festas, eles se conheceram e o casamento foi rápido, não demorou muito. Naquela época não namorava muito, conhecia e já casava.


P/1 – E você tem irmãos.


R – Nós somos entre cinco. Somos quatro meninas e um “guri” só.


P/1 – Um menino?


R – Um menino só.


P/1 – E que lugar você tá dessa escadinha de irmãos?


R – Sou a terceira. Tem a irmã, a mais velha, chama Soneli, a segunda Laurentina, a terceira sou eu. Daí veio meu irmão e a caçula que é minha irmã.


R – E como era a casa da sua infância aqui em Bodoquena? Como era a cidade...


P/1 – É que eu nasci aqui em 1973 e na época era Capão só que não tinha estudo, não tinha escola na época em que meus pais moravam aqui. Moravam em fazenda, fazenda Serra Alegre. Meu avô foi um grande fazendeiro na época, Cipriano dos Santos, conhecido do Cristóvão Albuquerque que foi o fundador de Capão. Então meu avô chegou ao Mato Grosso comprando terra, não foi um dos colonizadores da época. Então a minha infância eu passei em Jardim, na cidade, porque minha mãe teve que ir embora para dar estudo para a minha irmã. Porque minha irmã tinha que ir a Miranda para poder estudar, porque não tinha aqui. A minha infância foi tranquila, brinquei muito na minha infância, o que eu curtia era esconde-esconde, rouba-bandeirinha, jogar futebol, eu sempre era goleira. Da turminha os vizinhos eram poucos, a vila onde que morava tava iniciando na época. Então foi tranquila, brinquei muito.


P/1 – E como era essa vila?


R – A vila é Vila Angélica, estava iniciando, tinha muito, que eu me lembre era muita mata, não tinha quase casa. Meus primeiros vizinhos que vieram no tempo da (CR3?) em Jardim, foi a Tati que hoje mora em Mato Grosso. E os primos. Tinha muitos primos, nossos primos. A vila não era tão grande, não tinha muita criança, mas as crianças que tinham brincavam muito de faz de conta, que hoje é de casinha, bonequinha. Então nessa fase minha de infância, eu brinquei as brincadeiras daquela época mesmo, não do que é agora que é mais diferente. Bastante divertido.


P/1 – E você falou que a vila estava começando...


R – Estava iniciando.


P/1 – Tinha muito bicho, você tinha medo?


R – Que eu me lembro na época era muita mata, então não tinha. Minha mãe contava a história do Saci-Pererê, que na época tinha o tal do Saci-Pererê. A gente morria de medo porque minha mãe trabalhava numa firma, ela trabalhou uns dez anos numa firma e meu pai, como ele se acidentou, não tem a mão direita, perdeu numa fazenda, porque logo que meu avô faleceu, os herdeiros, que eram tudo fazendeiro, cada um pegou uma parte, só que a parte do meu pai meu tio... Meu pai tava vendendo a fazenda para vir para cidade, em Jardim não, para outra fazenda de mil hectares, daí meu tio pegou dinheiro do meu pai e não passou o dinheiro. Então meu pai tornou voltar a trabalhar, sem nada, com filho para criar. Aí foi numa fazenda em Pitangueiras aqui trabalhar e tava subindo de cargo, ele tava passando o serviço para o outro rapaz _______ de arroz. Ele foi explicar para o rapaz, ele é chefe de outro setor na fazenda de Pitangueiras, quando ele foi explicar a mão foi, ele perdeu a mão direita. Na época minha mãe tinha a minha irmã só e tava grávida da Laura. Meu pai teve que sair da fazenda, aquela coisa toda, até na época não tinha socorro, até meu pai chegar a Aquidauana acabou a gasolina no meio do caminho, minha mãe grávida. Então se hoje meu pai... É por Deus, perdeu muito sangue, porque na ida, de vinda de Pitangueiras para Aquidauana acabou a gasolina, não tinha socorro, mais de horas na beirada dessa estrada de Bonito para ter socorro. Aí que meu pai aposentou e teve mais eu, mais um irmão e uma irmã. Mas foi assim.


P/1 – E como eram as histórias do Saci que ela contava? Ele passava perto da casa de vocês?


R – Do Saci eu não sei porque ela trabalhava, a gente ficava muito sozinho, minha irmã mais velha que cuidava da gente. Ela falava assim: “Cuidado, tem um Saci-Pererê”. E escutava um assobio, mas o pessoal falava que tinha um passarinho que assobiava que nem o Saci-Pererê e na casa onde que eu morava tinha muito lote vazio. A gente escutava mesmo aquele barulho, assobio do Saci. Nós falávamos: “O Saci que a mãe tava falando. O Saci”. Nós íamos embora dormir cedo. Então do Saci-Pererê, a mãe sempre tava falando para te dar medo para gente dormir cedo. Na época na casa a gente tinha televisão, _______ tempo para minha mãe adquirir uma televisão. Meu pai depois que se acidentou aposentou, como era muito pouco ele vivia em fazenda, então quem mais nos educou foi a minha mãe. Então o pai vinha uma vez por mês trazer o pagamento, as coisas da fazenda que era mandioca, laranja, aquelas farturas que tinham e já voltava. A minha mãe ficava... Bem dizer a minha mãe que nos educou, a mãe que participou mais.


P/1 – Você falou de estudar na cidade, como foi para você a sua primeira escola?


R – A minha primeira escola, que eu me lembre, na época não tinha o pré, você entrava na primeira série, direto já assim. Foi o meu pai que me levou a primeira vez à escola, na escola Coronel Rufino, hoje é uma grande escola em Jardim, de vez em quando eu vou lá visitar, mudou bastante. E estudei o primeiro, o segundo até o quinto ano lá. Aí quando nós mudamos para cá, para Bodoquena, em 1987. Então minha primeira série, naquela época que falava, foi feita lá no Coronel Rufino, nessa escola, porque as escolas de Jardim tudo é coronel, Coronel Rufino, Coronel... Então eram os tempos dos coronéis na época.


P/1 – E você lembra como foi o seu primeiro dia de aula, de chegar lá com seu pai?


R – Eu me lembro sim. Eu chorei um pouquinho porque o pai que me levou, acostumada com a mãe, a mãe tinha que trabalhar. E a professora era muito carinhosa, a professora Nilva. Eu me lembro de que ela estava grávida ainda, era muito carinhosa, atenciosa com a gente, mas aquela coisa do tradicional. Chegava, sentava, ficava um pouquinho, meu pai nem ficou muito, que me lembre na época, não ficavam pais na sala. Mas ela foi bem carinhosa a professora do primeiro ano. Do segundo foi a professora Marlene que também marcou muito, porque eu era muito chorona, essa professora falava alguma coisa comigo eu já tava chorando. Se eu tirava nota baixa então, nota vermelha, eu já tava chorando e a professora gostava de brincar comigo, porque eu não era muito boa em Matemática, aí uma vez, eu precisando de média, ela falava que tinha nota vermelha. Eu chorava, ela ia lá na minha cadeira: “Mentira. Não tirou nota vermelha”. Então a professora brincava, professora Marlene, que faz pouco tempo eu tive em Jardim e não tive notícia dela. Os professores eu sempre procuro ter contato, ver onde que está. A professora Nilva, essa do primeiro ano, era do Paraná, o pessoal que veio do Paraná para Jardim. Eu só encontrei a filha dela, a Luciana. Ela eu não vi não. E minha terceira série foi a professora _______, que tem até um conhecido nosso que fala: “Os _______ são bravos”. Ela é bem rígida essa professora. Ela marcou porque ela era muito rígida, não é muito de conversa, de chegar, aquela coisa de conversar não tinha muito. E o meu quarto ano eu não me lembro muito bem do professor do quarto. Do quinto não. Do quinto da época minha tinha quatro quintas séries, era uma escola enorme de jovens. Na época tinha disciplina de religião, na época tinha muita disciplina, que é a quinta série que a gente fala. Não é mais, é o ensino médio.


P/1 – E como você ia para essa escola? Você ia com seus amigos?


R – Na época tinha uniforme, a escola tinha uniforme que era branco com emblema da escola e éramos eu, meu irmão e um vizinho que hoje é policial federal se eu não me engano, militar, Sérgio ____, uma família muito falada em Jardim, uma família de respeito na época. Éramos eu, o Sérgio que eram os companheiros, meu irmão ______________ e voltar. E tinha aquela coisa, tinha que esperar. Vai junto, tem que voltar junto. Não tinha esse negócio um lá e... Não. Era todo mundo junto. Então meu pai e minha mãe sempre ensinavam, um tem que ser companheiro do outro. É essa turminha, éramos só nós três. Na época me lembro que tinha em Jardim era os jogos da Primavera. Todas as escolas se reuniam, era uma semana de jogos no ginásio lá da cidade de Jardim. Então era bem assim, companheirismo mesmo, respeito naquela época que eu estudei.


P/1 – E com foi para você, depois de morar em Jardim e começar escola lá, mudar aqui para Bodoquena?


R – Foi difícil porque lá em Jardim já tava bem avançada. Tinha várias escolas estaduais, tinha escola particular que eu me lembro que meu irmão pequeno, que minha mãe trabalhava na firma e não tinha como alguém cuidar, ele estudou numa escolinha de jardim, que falavam na época, que era perto da firma e era uma área da (CR3?) quando iniciou o jardim, veio e virou hoje o quartel, na área de quartel hoje lá. Foi difícil, porque sair de uma cidade bem já desenvolvida, com várias escolas, com campo de trabalho e chegar numa cidade pequenininha, pequena, que eu cheguei aqui. Eu estranhei bastante, só tinha uma escola estadual que é do quinto ano. Eles arrumavam um horário assim, que era das sete às dez uma turma, das dez a uma outra turma, porque não tinham salas para atender à clientela na época quando eu cheguei em 1987. Eu cheguei nessa época que estava começando Capão. Aqui eu estava comentando, essa área que hoje é o centro de educação infantil aqui era tudo pasto, que eu morava na rua que é um sítio. Eu fui buscar leite para minha irmã, atravessava o campo para comprar leite para minha irmã. Então a área não tinha nada, foi difícil. Até pegar amizade, até porque assim, eu venho da cidade: “Ah, aquela menina de fora”. E eu tinha um cabelo bem comprido, longo, loiro, bem comprido: “Ah, chegou aquela menina diferente”. Mas assim que eu cheguei, eu sou muito comunicativa, de conversar, já fui líder de sala, já chegando ser líder de sala com votação e tudo. Aí até fui pegando amizade na sala, a primeira menina que veio conversar foi a Sandra Sena, que hoje já foi embora de Bodoquena, ela é enfermeira também hoje e sempre quando ela tá em Bodoquena a gente se encontra para conversar, matar a saudade.


P/1 – E quando você voltou já era Bodoquena, não era mais Capão?


R – Era Bodoquena já na época. Quando eu cheguei aqui... Porque eu estranhei muito os professores, que lá em Jardim já tinha professores formados de Inglês, Matemática, Português e aqui não. Aqui eram tudo pessoas leigas. Então eu estranhei muito isso também, pessoas que não tinha formação que estavam em sala de aula. E muita disciplina já a gente não tinha. Inglês qualquer um podia na época dar inglês. Na época que eu cheguei em 1987 aqui. O quinto ano eu reprovei em Jardim, aí tive que fazer o quinto, o sexto, mas eu reprovei só um ano, só o quinto ano, aquela fase de mocidade, eu sei tudo, né? Naquela brincadeira eu reprovei numa disciplina, não tive como recuperar.


P/1 – E como foi estudar aqui e todo...


R – Eu estudei aqui o quinto, o sexto. Daí o sétimo eu retornei para Jardim porque eu queria ir para Fundação Bradesco estudar, que é uma fazenda, que você mora lá. Com muito custo eu consegui uma vaga. Só que eu não sabia que eu tinha que reprovar a quinta para eu poder ir para Fundação Bradesco. Fizemos três visitas lá, o diretor, professor na época era o senhor Francisco, explicou tudinho, só que não me falaram que eu tinha que reprovar. Porque lá era assim, quinta e sexta junta, sétima e oitava junta, era tudo misturado, tudo junto e eu não sabia. “Nossa, tinha que reprovar aqui _____”. Porque lá tinha magistério a formação, saía com magistério. Aqui não tinha formação nenhuma. Eu terminava o 7044, que fala, que é o colegiado, terminava e não tinha formação nenhuma. Então como meus pais não tinham condições de dar estudo para nós, de dar uma faculdade, pagar, eu falei: “Então eu vou para Fundação Bradesco e saio com o magistério de lá”. Mas como eu não sabia que eu tinha que reprovar, como posso dizer, não tinha vaga naquela época, daí eu não fui para Fundação. É a época que eu fui para Jardim, morei um ano em Jardim com a vizinha nossa, a dona Alda e a Tati, o Roosevelt. Morei um ano lá, ela foi embora para o Mato Grosso, não tinha com quem eu ficar mais, mas a minha intenção era ter feito magistério lá. Na época que tinha técnico de redação, técnico de contabilidade naquela época lá. Minha mãe não me deixou ficar morando na outra casa da comadre: “Não. Você não vai ficar mais não”. Daí eu retornei para Bodoquena de novo. Fiz a oitava e terminei o terceiro ano aqui, fiz tudo aqui. Em 1994 eu terminei o ensino médio. Daí eu casei, no mesmo ano que a minha turma estava se preparando para fazer... Não tinha opção, é em Aquidauana, é História, Geografia e não era o que eu queria, disse: “Ah, eu não vou fazer”. Minha turma toda se preparando para o vestibular e eu me preparando para casar. Em 1993 eu terminei e em 1994, janeiro de 1994 eu casei. Namoro de sete anos, eu tinha 13, meu esposo tinha 18, namorei sete anos, com 21 nós casamos. No mesmo ano que eu casei já engravidei também e parei de estudar. Aí teve o concurso da prefeitura, primeiro ano concurso da prefeitura. Fiz. Eu queria para enfermagem, não podia porque tinha que ter curso, eu falei assim: “O que eu vou fazer então?”. Olhei lá, falei: “Recepcionista”, estava com 18 anos. Daí eu fiz para recepcionista. Passei. De quatro eu empatei com a menina, mas eu nem estudei. O que eu sabia foi isso, eu fui um dia na casa da recepcionista, uma menina que hoje é psicóloga, a Rosinei, falei: “Qual é o papel da recepcionista?”. Ela falou: “Não. Você faz isso, isso e isso”. Ta. Foi minha aula, em um sábado, no domingo eu ia fazer o concurso. Passei, empatei, mas como a outra menina era casada e tinha filho, até o artigo “na na na” e tal, aí ficou ela. Eu não liguei, falei: “Se Deus abençoar eu vou ter esse concurso”. Faltava um mês para vencer e a prefeitura me chamou para ser recepcionista. Aí eu trabalhei de recepcionista. Teve uma chance de fazer magistério, um grupo de professores que estavam em sala, eu estava casada, com filho pequeno, meu esposo não quis me ajudar a ficar com o menino e eu não fiz o magistério. Até na época o meu cunhado: “Vai Norma” ele sempre incentivava a gente estudar. Ele foi diretor de escola, hoje está na secretaria de educação, sempre incentivava a gente estudar. Aí não fiz o magistério, o grupo todo foi, eu fiquei. É o magistério de férias que fazia em, acho que, Aquidauana, um monte de professor que tava em sala. Passou, passou, eu na recepção, teve a questão de política, tiraram a recepção, fiquei uma época no setor de obras, de recepcionista. Fiquei um tempo lá, não precisavam mais de uma pessoa lá, eu voltei para educação. Foi aí que eu comecei na educação, a trabalhar como agente administrativo, eu trabalhei um tempo lá, então aprendi com diário, ficha de aluno, matrícula, então eu aprendi naquela época. Só que o meu concurso como recepcionista, administrativo não. Eu fiquei, como não tinha ninguém fui ficando lá no trabalho. Teve outra questão que veio também política para trocar, daí me tiraram de novo. Veio outra menina, a menina não conseguiu fazer o serviço e a coordenadora, a diretora da escola me pediu de volta. Falou: “Não, eu quero a Norma de volta porque ela sabe tudo já como se trabalha aqui dentro”. Foi quando surgiu para eu fazer o curso de Pedagogia, era 45 vagas, uma coisa assim, faltava uma pessoa para fechar o grupo. Daí me ligaram __________: “Olha, Norma, eu sei que você é louca pela educação e quer estudar, você se envolve mesmo, você que participar? Você que fazer? Só que precisa fazer uma prova seletiva”. Falei: “Meu Deus, faz quase oito anos que eu não estudo, só na questão de filho, casa, ali. Não, vou tentar”. Nem perguntei para o meu esposo nada. Falei assim: “Dei o meu nome lá e já to indo, seja o que Deus quiser”. Teve uma prova seletiva, de 43 professores eu fiquei acho que em décimo lugar. Tinha uma redação para fazer e tinha uma entrevista também com as mestras que vieram da federal, por que eu estava ali, sobre a avaliação na educação, que era para fazer uma redação. Fiquei em décimo lugar e fui fazer esse curso de Pedagogia, quatro anos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul que é aqui em Aquidauana, que é um programa que foi feito para professores que estavam em sala e não tinha formação. E a nova lei da ______ vem exigindo agora, tem que ter formação em Pedagogia. Então eu fiz o curso de Pedagogia em Aquidauana.


P/1 – E Norma, explica uma coisa, quando você passou para trabalhar na secretaria da educação como eram os trabalhos, o que você fazia, como é que você começou a se envolver nessa área?


R – É assim, eu sou assim, quando eu: “Olha, você vai fazer tal coisa”. Eu procuro fazer certo e correto, eu exijo muito de mim. No caso, o que era para eu fazer? Era para fazer diário de professor, corrigir, matrícula de aluno, ficha de aluno, cálculo de aluno, primeiro, segundo, terceiro bimestre. Então eu passava tudo para a secretaria. Escola José Gonçalves da Silva, que hoje é lá da Canaã, uma escolinha que até tem uma preocupação grande, porque está com 32 alunos e na minha época eu falava: “Meu Deus, essa escola vai acabar”. Porque eu via pela primeira série, segunda, poucos alunos, é uma colônia muito antiga, então os jovens vão saindo, vão ficando só os que os pais mesmo estão ali. Então era esse serviço meu. Era Canaã e na época tinha extensão de escola, tinha a Escola Santa Cecília, ainda tem hoje, Escola Estrela. Então eram várias... As multisseriadas, que hoje eles falam escola ativa, agora é quase a mesma coisa. Eu que levava merenda nas fazendas, conferia, levava material. Tinha um diretor e eu como administrativa, então era esse serviço e o diretor que me ensinava, que me orientava. Outro menino que era da escola também, eu levava para ele o que ele podia assinar, ele que me orientava: “Não, Norma, tá certo” ou que não tava “Você tem que _____ assim”. Então eles que me ensinaram nessa época, aí e eu aprendi. Mas eu to na prefeitura desde 1993, antes do concurso que eu trabalhei como contratada. Trabalhei em sindicato também de trabalhador rural, então eu tive bastante experiência. Trabalhei em núcleo de educação também, que era cedido da prefeitura para o núcleo. Na época ali era o núcleo da educação. A Secretaria da Educação do Estado do Mato Grosso do Sul passou a ser núcleo. Eu trabalhei nessa época, quem era responsável era a professora Neuza Torres, coordenadora a professora Cristina, que hoje acho que está em Camapuã, Carapuá, uma coisa assim. Trabalhei. Então a experiência foi assim que eu fui gostando da educação, mas uma coisa minha desde menina eu sempre quis ser. Porque eu gosto muito de uma pessoa que eu sempre escutei, a dona Alda, ela falava: “Norma, seja professora, é bom”. Eu fui estudando, mas Deus foi me encaminhando certinho para dizer: “Não, eu vou fazer isso ou aquilo”. Foi caminhando, foi surgindo, abrindo as portas e eu fui fazendo.


P/1 – Norma, como funcionava esse núcleo de educação?


R – Esse núcleo de educação quem era responsável era a Secretaria do Estado do Mato Grosso do Sul. Então era assim, era em Aquidauana antigamente. Eles foram fechando e cada município tinha que ter seu núcleo. Então todos os documentos do professor do estado ficavam ali no núcleo.


P/1 – Em vez de na secretaria, é isso?


R – De __________ ficava aqui. Tanto que qualquer problema os professores daqui do estado iam ao núcleo, o núcleo tinha que resolver, o núcleo tinha que montar seus processos, dos professores para poder receber. E teve uma capacitação que eu participei na época, em 1994 foi, estava até grávida, assim que eu casei, foi em 1994, nessa época que eu fiz. Então eu tinha que fazer todo o documento, malote, eu ficava responsável pelo xérox quando pediam. Serviço burocrático administrativo era comigo, mas sempre a responsável chefe era a professora Neuza e a coordenadora foi Cristina. 


P/1 – E Norma, o que te fez ir atrás dessa faculdade de Pedagogia? Quando foi que você decidiu sozinha?


R – Acho que quando eu comecei a me envolver na educação e envolver ali com os professores. Eu não era professora, mas eu já guardava livro, atividades, entendeu? Eu ia guardando, mas nunca pensei em fazer: “Ah, vou...”. Porque eu era o magistério, já que eu não consegui entrar na época da Fundação Bradesco, então dei uma aquietada, porque eu fiz o 7044 porque é colegiado, que é o primeiro, segundo e terceiro ano. E colegiado não... Didática, não tem nada a ver com magistério. Eu falei: “Ah, acho que não vou fazer mais”. Daí essa oportunidade, como o pessoal, é um lugar muito pequenininho, um conversa com o outro, o pessoal sempre me chamava para substituir, com 18 anos eu já ia substituir. Naquela época não precisava ter formação, naquela época não precisava. Eu ficava 15 dias na sala, dez dias de professora do pré. E a minha primeira substituição foi no pré, no prezinho, crianças de cinco anos eu comecei. Hoje é o Ceib [Centro de Estudos da Imaginária Brasileira], mas era o antigo Doutor Arnaldo, lá perto da prefeitura, era lá antes. O Ceib não era aqui, era no antigo prédio que era Doutor Arnaldo, nem era Centro de Educação Infantil de Bodoquena. Minha primeira substituição começou ali, o pessoal começou a me chamar, eu ia.


P/1 – Você lembra como foi essa sua primeira experiência em sala de aula?


R – Foi difícil porque as crianças são muito hiperativas. A professora tudinho, deu o seu planejamento tudinho. Foi difícil, eu pegava crianças assim que você falava, não obedecia, subiam em cima da mesa. Então primeiro foi aquilo, né, mas depois eu fui contornando, fui conversando com os pais. Essa coisa de ter a interação do pai, socialização com o pai, conversar, foi tranquilo. Meu primeiro momento foi o pré, a primeira turminha minha foi o pré, de educação infantil mesmo. Eu comecei a substituir primeiro ano, terceiro, quarto, quando precisava eu ia, sim, um dia, dois dias. Começou assim.


P/1 – E Norma, como foi o período de faculdade? Você teve que se mudar para Aquidauana?


R – Não. Foi daqui Bodoquena, foram vários municípios, de Bodoquena foram 43 alunos, de professores que estavam em sala que não tinham formação, tinha magistério, mas nível superior não. A gente fazia um alojamento, ficamos em alojamentos, primeiro alojamento ficamos com 80 professores. Bodoquena e Dois Irmãos do Buriti e mais outro grupo lá. Eu sei que foi uma turma em Anastácio numa escola. Esse primeiro momento foi em Anastácio. Tinha uma turma terminando de Corumbá, Dois Irmãos do Buriti, Galópolis. Então vários municípios tudo lá nessa faculdade na época. Foi num alojamento, tinha que levar tudo, colchão. Só que tem a parceria da prefeitura, a prefeitura entrou com bastante ajuda, alimentação, de levar colchão, tudo as coisas. A gente ficava nesse alojamento, primeiro momento foi aí. Depois nos outros quatro anos a gente teve que alugar casa, a prefeitura ajudava com alimentação, dava um valor de tanto para cada um e arrumava um grupo, grupo de cinco, seis, sete professores juntos, a gente ficava 45 dias do mês de janeiro lá. Ficava lá só estudando, só estudando, de segunda a sexta.


P/1 – Mas eram por períodos ou eram nas férias?


R – Nas férias. Na época de férias. Esse projeto veio na época da universidade para essa clientela que estava em sala de aula. Então o período era das férias, foi nas férias.


P/1 – E como foi? Teve algum professor que você gostou mais? Alguma matéria que você se identificou?


R – Olha, uma professora que eu gostei mais, que foi companheira da gente que teve, foi a professora Ana Lúcia, que é da educação infantil, hoje está fazendo doutorado se eu não me engano, a professora Ana Lúcia. Teve a professora Rosalinda também, foi uma pessoa assim, que sempre orientando: “Olha, Norma...”. Porque eu sou muito objetiva nas coisas que eu fazia, que eu respondia e ela falava: “Não, Norma, você tem que...”. Então a professora Rosalinda me orientava, ajudava muito, na época ela foi da disciplina de História Infantil, ela pegou Filosofia. Mas a professora que mais marcou foi a Ana Lúcia, é uma pessoa que do início ao fim do curso... Tiveram os outros, teve a professora Sônia Úrtico, hoje é psicóloga, doutorado também, mestra Sônia Úrtico mora em Campo Grande. Tem a professora também que no final ajudou, a professora Raimunda, de Língua Portuguesa. Até foi engraçado que fazia oito anos sem estudar, uma redação, falei: “Poxa vida, faz oito anos...”. Você desliga totalmente. Redação, daí eu estou lá... E tinham pessoas que já estavam em sala há mais tempo que eu revendo tudo, questão de coerência, coesão, aquela coisa toda, falei: “Meu Deus, oito anos”. Fui fazer a redação: “Meu Deus, vou sair uma hora dessa redação”. ____  e era todo mundo escrevendo, todo mundo escrevendo, escrevendo e eu parada só olhando o grupo. Olhei para o fundão, tem uma turma nossa de professores também que não tem magistério, só o 7044, fala 7044 que é o colegial. Daí eu olhava assim: “O que eu to fazendo aqui?”. E as “gurias” olhavam: “Norma do céu”. E a professora era exigente mesmo na questão de língua portuguesa, sabe? Tem que ser coerente nas coisas. Daí ela colocou os temas lá: “Olha, os temas são esses, vocês escolhem e fazem a redação”. Falei: “Tá”. Falei assim: “Meu Deus, qual que eu vou escrever aqui? Aborto”. Comecei escrever, sabe? Falei: “Seja o que Deus quiser”. Aí todo mundo lá. Daí eu cheguei, ela olhou assim, eu tive poucos erros, até admirei, foram poucos erros, tirei oito. Eu fiquei admirada porque a outra professora que estava há mais tempo falou: “Norma, eu não estou conseguindo fazer”. Eu falei: “Eu fiz e consegui oito” falei “Está bom demais”. Falei: “Oito, né? O próximo eu tiro dez” dando risada. Aí a professora: “Deixa-me ver o seu”. Então fiquei assim: “Poxa vida, então eu to conseguindo acompanhar, pelo tempo que eu fiquei parada, né? To conseguindo acompanhar os meus colegas também”. Então foi tranquilo. A disciplina que eu tive mais dificuldade, não só eu como a sala toda, foi História da Educação. Eu não sei se foi o jeito que a professora passou para gente, não sei. Assim, a sala toda não rendeu muito não. Na época, a professora ______. Até marcou. Eu fui num encontro do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica] e encontrei-a lá, professora __________, falei: “E __________ está aí” que ela é do estado, né? E estava aí. Foi História da Educação que...


P/1 – Como era para você ficar as férias um período longe de casa, do bebê?

R – Da família. Então, eu tive muito companhia da minha mãe. Minha mãe me ajudou para caramba. Porque na época quando eu fui dar meu nome eu falei assim, falei: “Vou perguntar para a mãe, se a mãe cuidar dos meus “guris””, porque eu tava com gêmeos já. Os gêmeos estavam com três aninhos e o outro menino já estava com cinco, seis, o Matheus, oito, dez, nove, não sei. A preocupação era os gêmeos, pequenos ainda, falei: “Quem que vai cuidar dos gêmeos para mim?”. Daí minha mãe falou: “Não, pode ir que eu cuido para você. Pode ir tranquila”. Agora no começo meu esposo ficou meio contra, porque eu comecei a estudar muito, eu estudando, fazia minhas redações, ia à casa da professora Edileisa, que é a coordenadora também da escola, eu levava para ela, para ela ver: “Não Norma, não está bom, você tem que melhorar aqui, você tem que melhorar ali”. Ela que ficava me orientando e eu estudava, ficava até uma hora, meia noite estudando. Meu esposo já ficou meio assim. Falei: “Mas se eu não estudar... Você não quer, eu quero”. Falei: “Minha mãe vai ficar aqui com minhas crianças, então tranquilo. Se a mãe vai cuidar”. Só que depois ele foi compreensivo, todo mundo conversando com ele, ele entendeu. Mas ele é muito companheiro, porque eu não vinha quase. Todo mundo vinha sábado, eu não, eu sou muito assim, se eu vou para estudar é para eu estudar, para aprender e estar ali. Eu e outra amiga minha, Neuza, que hoje é professora também, diretora da Sumatra. Então nós somos companheiras, se eu falar: “Eu não vou, não vai. Então não vamos”. Nós tivemos dificuldade no primeiro seminário nosso, que foi falar sobre o Freud, Piaget, Vygotsky. Então a professora repartiu em grupo, nós não tínhamos quase material, daí eu falei assim: “Eu não vou para casa porque eu quero tirar nota boa. Se eu vim para estudar eu vou ficar para estudar, não vou para casa, não”. Ligava para o meu esposo toda noite: “Como estão as crianças?” “Não, está bem”. Até teve um, não sei, terceiro ano, meus “guris” ficaram até internados ele não falou nada porque eu estava em prova. Depois que passou do dia: “Terminou a prova?” “Terminou a prova”. Depois me falou que minhas crianças ficaram internadas. Falei: “E quem ficou no hospital?”. Ele falou: “Não, não”. Minha cunhada: “Não, a Beta ficou com...”. Porque tem um dos gêmeos que ficou na incubadora tudinho e ele tinha um... Ficava doente, não sabia que uma infecção, a gente não sabia o porquê daquela infecção, até a gente descobrir o porquê ele não pode comer que dá infecção nele. Aí toda vez ele ficava internado e ele que cuidava, ele que ajudou cuidar dos “guris”, dos meninos.


P/1 – Certo. E você, enquanto você tava fazendo o curso, estava trabalhando na área administrativa.


R – Administrativa nessa escola. Todos os meus trabalhos eu tinha que focar em uma escola. Como a escola que eu mais participava, fazia mais substituição, foi a escola Doutor Arnaldo, que hoje é o Ceib, hoje ele mudou, é outro local. E então substituição, essas coisas, tudo as meninas me... Chamava a sala que eu escolhi tinha uma professora, ela me ajudou, a professora Marina, que a sala... Os relatórios, tudo são da turminha dela, tudinho. Aí vai acontecendo, acho de que tudo tem um momento que Deus prepara as coisas para gente. Teve uma sala no terceiro ano e precisava de uma professora, eu estava já no terceiro ano de Pedagogia e precisava de professora, não tinha ninguém, daí lembraram de mim. Eu não estava mais no administrativo, estava na biblioteca. Eu tive um desentendimento com a diretora da escola e falei assim: “Olha, eu não quero mais, não vou ficar aqui, antes que a gente começa brigar, discutir, entrego o meu cargo. É cargo de confiança, toma. Eu não quero mais”. Fui lá, conversei com o prefeito, na prefeito, na época o doutor Ramon, expliquei minha situação: “Não quero. Toma. Põe outro. Me mande para outro lugar”. Aí vim para biblioteca, que é aqui do lado, daí fiquei na biblioteca trabalhando. E eu gostei, já ia até organizar a biblioteca, ia fazer um curso, fiz um curso de bibliotecária na época que eu fiquei na biblioteca. Veio o diretor da escola, falou assim: “Norma, tenho uma vaga lá de terceiro ano, você quer? A professora vai sair e a gente não tem ninguém, o nome que falaram é o seu, você quer? Tem que responder até 11 horas”. Falei: “Poxa vida, mas até 11 horas tem que pensar” “Mas não, porque amanhã você tem que dar aula já, a professora já vai sair, você já tem que ir lá para ela repassar a turma para você”. Falei: “Meu Deus do céu”. Eu fiquei... “Estou esperando” ele falou. Ficou parado no portão esperando. “Tá bom. Daqui eu vou. Daqui a pouco eu vou lá saber como que é a turma, de quem é”. Daí eu fui. Minha primeira turma foi a do terceiro ano na escola Doutor Arnaldo, uma turma de 15 alunos, só que a coordenadora me ajudou muito, a professora Edileusa, sabe? Ensinando planejamento, a turma me ajudava com atividade. Então um grupo bem unido mesmo, a professora Conceição, Maria Marcília. Então nós fomos... Essa troca de experiência: “Norma, você vai por aqui, você faz aqui”. E ajuda, já tava fazendo o curso de Pedagogia, passei para Didática um, dois, tem até as cinco. Então me ajudou muito. O terceiro ano eu peguei uma turminha bem agitada, uma turminha que você tinha que ter muita paciência porque eles eram de enfrentar mesmo, até essa professora saiu porque seu aluno falou: “Eu fiz a outra professora chorar, você vai chorar também” “Então a professora vai ver quem vai chorar daqui então”. Quando eu já coloquei minhas normas e minha autonomia dentro da sala. Até hoje tem um menino, que hoje tá com seus 17, 18 anos, onde que ele me encontra: “Ô professora”. Foi meu aluno lá do terceiro ano. É um menino assim, de família bem difícil, uma mãe com sete, oito filhos. Hoje eu fico triste porque se envolve com droga, um monte de coisa. Então eu consegui dominá-lo, cativá-lo para fazer as coisas, entendeu? Só que é um trabalho assim... Graças à coordenadora, ela me ajudou muito essa questão de planejar, como fazer em sala de aula. Um período eu ficava cedo na escola dando aula, à tarde eu ficava na escola digitando alguma coisa que queriam, que era o Doutor Arnaldo, eu ficava auxiliando a direção ali. Até o pessoal tirava sarro de mim: “Ô Norma traz logo sua cama e dorme aqui na escola, porque você não sai dessa escola”. É que nem a questão aqui da creche também, fico até cinco e meia, seis horas, quando vê é 11 e meia, quando vê eu tenho que ir embora correndo. Assim, eu gosto muito do que eu faço. A partir do momento que você: “Não, eu vou para educação” eu quero fazer a diferença, eu que tenha avanços, mesmo que tenha muitas dificuldades na educação, mas eu gosto.


P/1 – E Norma, como foi entrar nessa turminha de terceira série? O que você fez primeiro? Como é que você fez para cativar os meninos?


R – Assim, como a professora já tinha repassado um pouco como era a turma e aqui na cidade todo mundo conhece todo mundo, então é fácil, 15 alunos. Os alunos que eu vi que estavam com dificuldades eu comecei a conversar com os pais e a professora de inglês falou: “Norma, planejar, é aquilo, você tem que acompanhar o projeto pedagógico da instituição lá, você faz isso, isso e isso”. Fui acompanhando. Então os alunos que eu estava com dificuldades, eu conversava com os pais, os chamava. Então assim que eu fui superando os obstáculos que eu tava tendo ali na sala. E a direção também me ajudou muito, os administrativos me ajudaram em muita coisa. Na época não tinha xérox, era o mimeógrafo, de rodar, de lousa, mesma coisa de lousa, na época. Iniciava leitura compartilhada, leitura individual do aluno, a gente trabalhava tudo isso. A coordenadora entrava na sala, observava como estava sendo minha aula. Ela vinha, sentava: “Olha Norma, aqui tá bom, mas tem melhorar aqui”. Entendeu? Então eu tinha essa troca de a coordenadora sempre estar me ajudando como ensinar essas crianças. Mas foram tranquilos todos, se eu não me engano desses 15, um só que reprovou, parece. Só um. Até hoje não voltou para escola. Ele terminou o quinto na... A mãe dele: “Norma, ele não gosta, não quer estudar mesmo. A vida dele é campo, é mexer com boi, é montar boi. _____ estudar”. E só esse menino. Ele terminou até o quinto ano se eu não me engano.


P/1 – E Norma, como é que você foi passando da terceira série? Como é que você veio parar na parte de educação infantil?


R – Infantil. Então, daí eu fiquei na terceira série nessa época, eu dei aula, daí surgiu outro ano, peguei o primeiro ano também. O primeiro ano foi uma sala assim, mais complicada ainda, peguei alunos para alfabetizar. A terceira série eu achei mais fácil, questão de conteúdo. Agora primeiro ano pegar uma sala com um monte de aluno repetente, aluno que tinha cinco anos dentro da sala, falei: “Meu Deus, como que eu vou trabalhar?”. Eu ficava dias pesquisando, lendo, arrumando, organizando para ter uma aula diferente, para ser atrativa para eles, porque criança de três anos no primeiro, criança que eu acabava de explicar uma coisa, eu perguntava, não sabia mais. Foi difícil assim, sabe? Foi na época que eu tava entrando de licença-prêmio, eu fiquei até em outubro se eu não me engano, até o terceiro bimestre fechou comigo. Mas daí que eu vi um menino que fazia cinco anos que estava no primeiro ano, eu falei: “Não tá certo, _________ de cinco anos no primeiro tem alguma dificuldade”. Aí eu procurei a direção e como eu conheço todo mundo, conversei com o pai, como era em casa. Aí ele falou assim: “Tem como a gente levar essa criança para um psicólogo para ver como que é?”. Eu conversei com o diretor, com a coordenadora, chamei um pessoal que aqui na época era o pessoal do estado que veio, que fez um diagnóstico. Primeiro eu fiz um relatório, tudo da criança. Eles vieram e fizeram: “Norma, vamos levá-lo para o psicólogo para ver qual é o problema dele”. E foi. Através da assistente social, que tem essa parceria, o encaminhamos para Campo Grande para ver e deu problema no cérebro dele mesmo. Uma deficiência mínima, nem lembro o que era. Eu terminava de explicar uma coisa na leitura ele não conseguia... Mais ou menos o nome dele, com muita dificuldade. Eu perguntava: “Fulano, que número é esse?”. Eu falava: “Agora você fala para mim, conta para professora”. Ele não conseguia. Chegava no número três ele não lembrava mais. Então através dessa parceria, tudinho, o pai dele encaminhou, teve que tomar remédio. Hoje, seu eu não me engano, ele tá com seus 16 anos, 17. Aonde que ele me vê assim, o jeitinho dele você vê que não é assim, normal, de normal. Ele tinha seus nove anos, dez anos na época. Daí deu problema mesmo, que ele tinha. Ele toma remédio controlado até hoje, toma remédio controlado. Encaminhou-se com um psiquiatra, aquela coisa toda. [troca de fita]


P/1 – Você tava contando para gente como é que foi ________ você passou por um primeiro ano, processo de alfabetização.


R – Isso. Aí surgiu um concurso no município que a exigência que vem cobrando é que Bodoquena não tinha concurso, era muito contratado. Começaram, no caso o fórum, o juiz começou a cortar, aí aproveitei para fazer o concurso. Fiz o concurso. Como eu já era concursada como recepcionista, eu vou fazer. Fiz o concurso, passei.


P/1 – Para professora?


R – Para professora de educação infantil. Na época tinha 19 vagas, porque a minha era Pedagogia __________ para educação infantil e ensino fundamental. Eu foquei mais em educação infantil que eu me entendi melhor. Fiz. Passei. Fui chamada, tive a experiência já de trabalhar primeiro em direção de escola. Foi um momento assim de, vamos dizer, de muita mudança porque entrei na educação infantil, peguei uma instituição ainda que era assistencialismo. Falei assim: “Meu Deus. Como que eu vou trabalhar isso para comunidade? Mostrar que está mudando, cuidar, educar”. Na época aqui era de zero a cinco anos, aí que mudaram para zero a três anos e 11 meses. A questão do cuidar, como que eu vou falar com esse pai. As crianças entravam seis e meia e saiam seis horas da tarde. Falei: “Não tem como”. Teve todo um processo administrativo para administrar. Os professores, no primeiro ano meu, ainda eram contratados. No meio do ano foram chegando os concursados. Os concursados quando chegam aqui, aqui tem que lavar, tem que dar banho. Educação não é só papelzinho e canetinha, não. Você tem que dar banho, na hora de dar banho conversar, dar alimentação, ensinar, aquele processo todo de educação. Tinha professor que não queria fazer isso. Aí nas reuniões que eu tinha com os pais eu fui conversando: “Olha, pai, mudou. Agora é lei _____________, ela ampara no artigo tal que é cuidar e educar. Como que vai ser esse processo?”. Aí veio um professor homem para cá. Até também o pai, aquela coisa: “Um homem na sala. Um professor”. Ainda tem aquele preconceito. Tive que trabalhar tudo isso com a comunidade, com os pais na sala que ficou esse professor. Esse professor assim: “Ah, não vou dar banho. Banho eu não vou dar”. E são duas assistentes nas salas. Então eu fale: “Então faz assim, você só veste a roupinha então. Uma lava, enxuga, fica mais fácil para você”. Quem enxuga já coloca a calcinha e só veste a roupinha, né? Mas no momento dessa mudança, desses avanços na educação infantil para mim foi difícil. Tinha pai que chegava e falava assim: “Mas que lei é essa?”. Eu tinha que ir lá, mostrar, falar, explicar para entender. Toda reunião eu estava ali frisando. Educar, cuidar. Até os trabalhos na época que estava na faculdade, do portfólio, você não seguia muito material dessa faixa etária de zero a três anos. Nem na internet você não conseguia muita coisa, né? Então foi assim, bem complicado. Agora não. Agora já fiquei três anos e meio na educação infantil como diretora. Eu sou muito de compartilhar tudo junto com professor. Eu sou a que trabalhava o projeto, apresentação, assim, devagarzinho nós fomos inserindo. Uma coisa que não tinha aqui, não tinha horário de o professor tomar café. Tive que organizar, fazer o horário, os 15 minutos que são de direito na lei. Então teve todo aquele processo de estar conforme a lei.


P/1 – Norma, conta como é que era nessa escola quando você chegou para ser diretora. Como é que eram os espaços, quem que estava nessa escola.


R – Então, na época quando eu entrei aqui em 2005 era uma instituição que estava bem judiada, pouco espaço, não tinha quase brinquedo. A estrutura física era bem pequena, atendia 73 alunos na época, hoje atende 132. Os banheiros não eram adaptados, teve que adaptar os banheiros, teve que arrumar. Por sala eram 15 bebês. Daí teve que trocar colchão. A pintura estava bem suja, bem descascando, né? Com muito custo conseguimos pintar a antiga creche, conseguimos arrumar, organizar. Aí teve o projeto da Camargo Corrêa com o instituto ICC [[Instituto Camargo Corrêa] junto com o CMDCA. Quando eu entrei na educação eu entrei já participando do CMDCA, que é o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente. O primeiro projeto nosso foi com o pessoal do CMDCA já foi como... Porque tem vários órgãos, tem que ter da Apae [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais], da educação para estar dentro do CMDCA. Eu fui entrar como titular da educação. Como titular daí eu começava a participar das reuniões e dos projetos sociais da comunidade, porque veio, de onde veio, para onde que vai, a razão social, o dinheiro, os projetos. Aí que teve o início desse projeto do ICC. O primeiro foi Leitura e Escrita, que teve aqui. Nós não estávamos no cronograma deles, no projeto deles. Aí como eu fiquei sabendo eu falei para o pessoal que estava na coordenação, falei assim: “Olha, se vocês querem mudança, por que começar a partir dos quatro anos? Por que não lá do zero? Vamos trabalhar a comunidade do zero. Três anos, de quatro a seis anos”. Porque o projeto era a partir dos quatro. Os coordenadores: “Mas vamos ter que reformular o projeto.” “Mas dá um jeito de por nós os professores”. Aí começou a capacitação dos professores, da Leitura e Escrita de zero a três anos. Foi o primeiro projeto.


P/1 – E como é que era esse projeto? Era de leitura e escrita para as crianças? Ajudavam com material ou era de formação de professores?


R – Primeiramente foi só de professores. Então esse primeiro projeto só atendeu aos professores. Eles vinham uma vez por mês já com um tema, a gente discutia para inserir. Nós trabalhamos um projeto Leitura e Escrita de zero a três anos, começamos desde o berçário. Como a gente vai trabalhar essa questão da leitura e da escrita, né? Aí elas estavam orientando a gente. Ficou um grupo com o ensino fundamental e ficamos nós separados. Era aqui e outra turma era lá no Doutor Arnaldo, que era de primeiro, segundo e terceiro ano. O foco do projeto foi a oralidade, como trabalhar a oralidade das crianças dessa faixa etária. Foi um projeto que nós fizemos do folclore, as músicas folclóricas. Escolhemos e fizemos a apresentação. Teve um dia de uns seminários, tiveram acho que dois seminários para apresentar para comunidade toda. Como que se trabalhou... Aí o Marcha Soldado, Se eu fosse um peixinho. Fizemos projeto de cinco músicas no máximo, né, pequenas também porque da faixa etária deles não pode ser muito. A atenção deles é mínima que você consegue, é rápido, você não consegue a atenção por muito tempo. Aí foi um projeto de música, cantando folclore, coisa assim. Não lembro muito bem do projeto. Faz tempo.


P/1 – Norma, qual a importância da formação, desses cursos de formação para o professor? Por que eles são importantes?


R – Na época, quando eu entrei aqui, a formação dos professores tinha muita dificuldade de trabalhar nessa faixa etária, né? Aí começamos a buscar parcerias para ajudar os professores em sala, essa formação. O que eu estou fazendo aqui, qual é o meu papel aqui dentro da creche. Aí começaram esses projetos, as coordenadoras que vinham orientavam a gente. Como que eu vou ensinar o educar aqui? De que forma que eu vou aplicar para os bebês? Através da oralidade, do movimento, né? Essa formação para os professores foi muito importante. São professores que não tinham experiência nenhuma, professores que nunca trabalharam nessa faixa etária. Então a turma que veio do concurso eram poucos. A única que tinha experiência que é a professora Augustinha, que está aqui conosco, passou no concurso, era ela. As outras, nenhuma tinha experiência. Então esses cursos, a formação continuada foi para ajudar. O que realmente estava fazendo aqui dentro com esses alunos. Porque vir e ficar o dia inteiro, integral ainda, é cansativo. Então essa formação foi para ajudar os professores a aplicarem as atividades, que forma trabalhar a música, a identidade, a autonomia dessas crianças. Na época foi para auxiliar os professores. Esse foi o primeiro projeto.


P/1 – E qual é a importância da educação infantil?


R – A importância na educação é vários fatores. A educação infantil hoje tem um desenvolvimento muito grande cognitivo, psicomotor, isso ajuda muito a criança, né? A educação infantil hoje é fundamental. Quem tiver... Os pais terem essa conscientização das crianças interagirem, socializando com as outras crianças, é muito importante isso para o desenvolvimento da criança nessa faixa etária. Eu tenho uma experiência aqui, quando eu comecei eu falei: “Pessoal, vamos começar desde o berçário”. Porque vai descendo a turminha do berçário: nível um, nível dois, nível três. Com quatro aninhos vai para outra instituição. para eles saberem se sentar à mesa, para se alimentarem, para vestirem uma roupa de uns três aninhos. Essas fases todinhas são importantes para criança. A educação infantil é muito importante para criança. Então se cada família, cada professor tiver essa visão de como é importante a educação infantil nessa faixa etária, é muito importante para o desenvolvimento da criança em todos os aspectos.

P/1 – E qual é o papel do professor nessa...


R – É intermediar, ser o mediar, ensinar. Por exemplo, chega aqui cedo, tem o acolhimento, como que é feito o acolhimento, o acolhimento de todos os níveis? Através do cantinho. Como que o professor vai trabalhar o cantinho? O professor vai ter que receber aquela criança, conversar com aquela criança. Porque tem criança que chega e estranha as pessoas. Estranha. O primeiro momento do acolhimento é um “chororô” porque é diferente, não conhece. Tem que cativar aquela criança. Aí tem a rotina do acolhimento. O que eu vou fazer no acolhimento? Chegou a criança... Porque tem uniforme aqui, então tem que trocar a roupa, a instituição dá o uniforme. Trocou a roupinha, tem criança que demora, não quer. Daí você tem que trabalhar. Deixa no momento, depois a gente vai fazer isso. Se você trabalha desde o berçário isso com a criança, do acolhimento, da rotina, alimentação, você está ensinando tudo para criança. Isso é muito importante nessa faixa etária do desenvolvimento da criança.


P/1 – Norma, antes de eu dizer do trabalho da educação infantil e da sua importância, você estava contando um pouquinho da estrutura de como é que era aqui antes...


R – Esse primeiro projeto nós estávamos na estrutura ainda bem precária, não tinha muito espaço, refeitório, cozinha, tudo apertadinho. Aí teve outro projeto que foi através das parcerias com o Instituto Camargo Corrêa, o CMDCA, a prefeitura municipal. O CMDCA fazia reuniões ampliadas, então a comunidade que votou e escolheu aonde seria o outro projeto. Daí escolheram educação infantil de zero a seis anos. Teve essa reunião ampliada, a comunidade escolheu. Ta. A gente vai para educação infantil por quê? para atender o quê? ____ não tem vagas, não tem uma sala. Teve o projeto que, a comunidade escolhendo, através do CMDCA e o pessoal do ICC vamos sentar, vamos agora pôr em prática como que vai ser esse projeto. A gente vai mexer na questão da estrutura, espaço físico para aumentar a clientela? Sim. Aumentou, mas e depois? A gente montou essa estrutura toda, como que vão trabalhar os profissionais? Então teve a etapa da estrutura física, que teve todo um projeto que foram várias reuniões e várias discussões. Quando começou a reformar aqui nós tivemos que mudar para outra instituição onde que é o Ceib. Ficamos no Ceib de janeiro até o meio do ano, até eles reformarem aqui. Mas nesse tempo estávamos sempre reunindo, sentando, discutindo, olhando a planta. Teve o pessoal, os parceiros, os voluntários que fazem parte do CDC também que é o nosso grupo de desenvolvimento voluntário, né? Uns eram voluntários do instituto mesmo, o engenheiro... Então essa parceria foi muito importante. Dentro de várias reuniões foi fechando o que vai fazer, arquitetura, pintura, essas coisas. E teve esse grupo. Aí teve outro grupo que é da formação continuada, que foi o ______ que ficou responsável. Cada grupo tem um coordenador. E teve outro projeto também, esse não... Dessa razão social, que era buscar índice. Esse não conseguiu desenvolver, então ficamos com esses dois. Nesse projeto da restauração aumentou mais duas salas, cozinha, cozinha bem ampliada, refeitório. Tiveram móveis também, as cadeiras de refeitório, armário, mesa de professor. Os professores ganharam um computador. Então através dessa reestruturação dessa construção que teve nós ganhamos esses materiais também dentro do projeto, orçado tudo. Depois que teve esse grupo que fechou veio a turma da formação continuada que é o pessoal do Avisa Lá [Instituto Avisa Lá], que é a professora Silvana, e da saúde. Foi legal que dessa formação continuada não foi só o professor, foi a escola toda, desde o porteiro até o pessoal dos serviços gerais. Então foi todo mundo. Não ficou aquela coisa: só professor, só professor, só professor. Não. A escola como um todo, então todos estão envolvidos. Tem dois grupos: o grupo da saúde, que é a Elza que é responsável; e da formação pedagógica é a professora Silvana. Como se trabalhar projeto dentro da instituição, de que forma, para que a gente tá fazendo. Então ficou a Silvana. E da saúde ficou a Elza. Só que é dividido, coordenação vai com a Silvana e a direção vai com a coordenação da Elza. Aí a direção coordena os administrativos que são da lavanderia, o zelador, fica com a direção. A parte pedagógica, que é a Silvana, fica comigo. Aqui tem as assistentes, que eu falo monitor, pajem, vários nomes tem, mas que colocamos como assistente de professor. Elas conosco também. Então é todo mundo junto, a troca é junto. Eu fico responsável com as professoras e assistentes e a Elza. O meu trabalho aqui é coordenar os professores. No nosso município nós não temos um currículo infantil ainda. Então tá em projeto para ser construído. Essa nova volta que tem outro encontro começa dia 25, 26 agora, pensando já no nosso currículo do município, da rede, porque não tem. Nós não temos. É referencial da educação infantil, a lei a gente acompanha, mas não tem, a rede vai construir agora. Se Deus quiser nós vamos construir agora. Com a Silvana, como que é o trabalho dela com a gente? Ela vem, na parte da manhã ela aplica a teoria, o que nós vamos trabalhar. Ta. Vamos trabalhar projeto. Que projeto? Nós vamos trabalhar poema, nós vamos trabalhar conto, reconto de história. Então no ano passado aqui ficou, de zero a três anos ficou sobre o reconto e trabalhar as cantigas de roda. Então isso ficou para nós. O reconto como que era feito? Os níveis maiores de dois, três aninhos, eles recontavam para o aluno para o aluno recontar para eles. Tinha que filmar, né? Foi difícil. A maioria dos professores vindo: “Ah, não to conseguindo nada”. No começo foi difícil para os professores até pegar o ritmo. Fizemos do nível dois e do nível três. O nível dois ficou com a professora Zenaide, que foi A casa sonolenta, né? Mas só que foi todo dia, todo dia sentando, conversando até eles conseguirem recontar. Aí contaram para outra turminha. O da outra sala de dois anos, da professora Denise e a professora Cristina, ficou a Chapeuzinho vermelho, que é o reconto. Eles fizeram com figuras, eles recontavam, cantavam. Algumas crianças conseguiram recontar. A gente não consegue atingir todas, isso é difícil. A outra turminha de três anos, que é a professora Adriana com a professora Maria, que até aposentou. Foi a primeira professora da educação infantil, professora Maria, já aposentou. Ela ia falar sobre fábulas, não deu certo por causa da faixa etária. O ______ veio e explicou o porquê de fábulas dentro da faixa etária deles, nós mudamos para Os três porquinhos. Cada um fez um reconto, Os três porquinhos, o Chapeuzinho Vermelho e outro A casa sonolenta. A turma dos bebês. Como que eu vou trabalhar o bebê? Aí com os bebês foi a cantiga de roda. Os professores trabalhavam as cantigas de roda todo dia, dentro do seu planejamento, dentro da semana. Fizeram cartaz. Eu vou trabalhar O pintinho amarelinho, já com figuras, cantando com eles. Daí todo esse processo as três turmas fizeram. Produto final, o que era? Os pais faziam a visita nas apresentações. E nesse processo das cantigas aí teve um questionário para os pais responderem. Tinha um questionário que os professores fizeram para responder que músicas cantavam quando eram crianças, resgatar um pouco também dessas músicas com os pais. Tirava foto. Tudo tem que ter relatório, foto, tudinho. Fizemos um dia para exposição dos pais. Um dia só com os pais. Teve o momento dos pais brincarem com as crianças no pátio, verem as fotos, verem como foi o trabalho do professor nessa turminha, que é a turminha dos níveis pequenos, bebê. Então foram os dois projetos que a formação da Avisa Lá veio. O que foi importante dessa formação que é uma coisa que a gente tá ganhando muito importante para educação infantil de Bodoquena foi assim, não é que a gente não sabia como ensinar, mas que norte. Estamos trabalhando dentro do referencial, mas será que é isso mesmo? Será que as crianças estão aprendendo? Eu questiono muito com os pais: “Por que estou trazendo meu filho aqui para ficar o dia inteiro? Por quê? O que vocês esperam da instituição, criança que fica três anos com a gente aqui?”. Então eu questiono muito isso com os pais, porque eles estão trazendo os filhos aqui, porque escolheram essa instituição aqui. Por mais que nós sejamos só uma, mas o pai tem que saber da sua participação aqui dentro. Dessa formação com a Silvana eu achei legal que nós temos caderninhos de registro. Os cadernos de registros são assim, vamos registrar o que o professor faz na sala, que são as assistentes, questão da criança que morde, que bate. Ter o registro do que aconteceu aquele dia. A gente fazia para ter um cuidado da gente. Se a criança morder a gente marcava... Coisas assim do dia-a-dia. E a Silvana veio com a ideia: “Vamos fazer o diário a bordo”. Um registro, um diário. E a Silvana estava orientando ano passado também como registrar, como fazer o registro das ocorrências que acontecem aqui dentro. Então isso foi muito importante para gente aprender como que faz. Tem um caderno da assistente por mais que o professor tenha o dele, que registra também, mas o assistente também tem, da instituição.


P/1 – Qual é a importância de todos os profissionais da instituição participarem do processo de formação, não só os professores? Porque é importante você instruir o zelador ou então a pessoa da lavanderia?


R – É porque às vezes a gente vê só o professor. Não é, dentro da instituição, é o grupo todo porque o zelador está também aqui dentro olhando essa criança. A merendeira que faz a comida deles. É a merendeira Edna, ajudar, auxiliar. Então o convívio dessa pessoa aqui dentro é muito importante também para essa criança. Então essa parceria do zelador, da lavanderia, pessoal da limpeza, tem que ter essa troca. Por mais que você... Às vezes tá todo mundo no pátio ali, mas a zeladora também está ali olhando, ajudando. A merendeira vem e auxilia também. Então tem essa ajuda um com o outro. Na hora quando tem a festividade mesmo está todo mundo junto, sentado, olhando, cuidando porque é muita criança. Então é muito importante esse grupo coletivo dentro da instituição, do zelador, do professor, do assistente. Dialogar muito, conversar muito com eles também. Queira ou não queira, nós somos uma família aqui dentro. Nós entramos aqui seis e 45 e saímos cinco horas da tarde. Por mais que tenha a turma, um entra o outro sai, mas todo mundo está cuidando, ajudando o outro. Isso é muito importante dentro da educação infantil, da escola como um todo, essa troca.


P/1 – E quais foram para você os resultados desse projeto? O que você achou da reforma estrutural?


R – A reforma assim, eu que peguei a outra no início, para mim, para outros professores... para começar nós não tínhamos lugar para planejar, os professores. Nós planejávamos no antigo refeitório, aí na época dez horas as crianças vinham comer, vinham almoçar e nós tínhamos que catar tudo e sair catando nossos materiais para dar espaço. Não tinha lugar para sentar para fazer nosso planejamento. Hoje não. Tem nossa salinha de professor, que não tinha, a mesa, o computador. Livros também. Através da formação nós ganhamos livros também. Através do projeto, dessa parceria, que é muito importante dentro da nossa cidade, do nosso município, ganhamos brinquedos também do Avisa Lá. Isso é muito enriquecedor para nós da comunidade. Primeiro que nós professores, aqui é cidade pequena, não temos muito recurso. Então essas ações sociais que acontecem dentro do nosso município são muito gratificantes. Agora tem espaço para gente sentar e planejar, antes não tinha. O refeitório é bem mais confortável. A cozinha tá a coisa mais linda. Tem o lactário também, faz um tempo que tem lactário também até para funcionário, mas não está, mas vai funcionar até no meio do ano. Então armário, mesinha nova, foi bastante... Agora, hoje tem muita coisa a melhorar ainda. Avançamos bastante em vista de 2005 para 2011 eu, na minha opinião, dentro da educação infantil de Bodoquena avançamos bastante. Tem que melhorar? Tem que melhorar ainda. Questão de formação... Não adianta formar, formar e não colocar em prática. Tem que formar e cobrar. Ta. Vamos fazer essa formação, mas lá na prática. Qual é o resultado? Foi positivo? Não foi positivo? Aonde precisa de ajuda? Então a estrutura física conta muito. A estrutura física ajuda o professor também a colocar a sua prática em sala. Isso é muito importante. Essa reforma foi excelente, pelo menos para nós da educação infantil. Foi pintura, aumentaram mais duas salas, cozinha ampla que não era. Um depósito que não tinha, tem. Se você fosse ver os colchões ficavam dentro da sala, agora não, tem um lugarzinho para colocar os colchões. O cantinho do brinquedo que não tinha. Tem o cantinho do brinquedo lá, a prateleira de brinquedo. Então foi muito boa essa gestão, essa parceria que tá tendo do CMDCA com o ICC, CDC, dentro da comunidade de Bodoquena, a prefeitura municipal também. É muito importante.


P/1 – Como é que foi para você participar desse curso de formação?


R – Então, na época quando eu iniciei no CMDCA eu tava na direção. Aí eu saí, retornei para minha sala, peguei um nível três e aqui no município a gente tem direito a dobra, né? Ainda eu peguei um aqui e um no Ceib de quatro, uma sala de quatro anos no Ceib e aqui de três anos. Mesmo assim eu continuei, eu não saí do processo. Do início até agora eu estou junto o processo todinho. Então eu não tive “eu parei e não fui” eu to junto desde o início. Por mais que da outra vez eu voltei para minha sala de manhã do outro ano, berçário, mas à tarde eu fui para escola do doutor Pacheco que é informática, entendeu? Aula de informática. Eu sempre estava junto com o pessoal, nunca me desliguei dos projetos desde que começou, desde o início estou no desenvolvimento todinho. Quando iniciou o CDC [Crédito Direto ao Consumidor], como que foi construído o CDC dentro da comunidade, todinho. Sempre estou junto, ainda participo, sou voluntária, dentro do CDC sou do voluntariado.


P/1 – Antes de a gente falar um pouquinho do CDC, eu queria que você falasse como é que foi voltar para sala de aula já depois de toda uma formação não só acadêmica como das formações, e de viver a parte de direção.


R – Foi difícil assim, porque eu sou muito de fazer diferença. Eu voltei para minha sala, ficou outra diretora, outra coordenadora. Eu via as coisas, mas eu não queria interferir. É ela, o momento é dela. Eu tinha que me policiar muito, sabe? Eu ia falar alguma coisa: “Não. Não sou eu. É ela”. No caso eu me entreguei para minha sala, para minha turminha, planejamento, como trabalhar fora e a turminha tranquila. Eu passei um momento mais difícil que eu acho aqui quando eu fiquei nos três anos na hora do banho. No banho é complicado porque são 24 crianças e três para dar banho. Então eu esperava duas horas a outra chegar, aí eu dava uma atividade, uma leitura, uma roda, uma cantiga que tava dentro do meu planejamento. Aí duas horas chegava a menina, ia pro banho. Era rodízio. Então um dia eu dava banho, um dia enxugava, um dia... Entendeu? Era rodízio entre nós. Era desse jeito, tem que ter uma troca. Quando ia dar banho falava: “Primeiro meninas”. Eu ficava com os “guris” lá com os brinquedos. Ligar a televisão não chamava a atenção deles, então a televisão para mim só quando alguma coisa diferente para dar para eles eu não tinha mais. Então eu via coisa que não dava certo dentro da sala. Na hora do banho então não dá certo, eu não posso ligar a televisão, eles não chamam a atenção. Aí quando eles pediam para mim: “Professora, eu quero assistir o filme...” eles gostavam muito do Tarzan, aí eu colocava, eles ficavam deitados no chão assistindo Tarzan. Foi difícil um pouquinho, porque você ser diretora, depois você volta para sala de aula, aí depois você tem que se policiar, você vai interferir no trabalho da colega. Eu me corrigia muito para não interferir. Fizemos projeto, na época que eu tava na sala, da primavera. Fiz. Eu e a outra colega da outra sala fizemos um projeto, nós aplicamos em sala, fizemos todo mundo se envolver, desde os professores da manhã, nas áreas do vespertino. Fizemos o projeto, de manhã eles foram passear na praça. À tarde que... Não é corrido, os pais vêm buscar mais cedo, né, então à tarde essas coisas de pintar, dessas coisas, ficou conosco. O passeio ficou com a turma da manhã dentro do projeto Primavera que fizemos. Um projeto quando eu tava em sala que nós fizemos.


P/1 – Você falou da parte do banho, mas como que é a rotina deles? Qual é o período mais difícil? No começo do ano é difícil a adaptação da criança.


R – No início a adaptação. Acho muito difícil. Até estava com um projeto para fazer com o pessoal do Avisa Lá, ainda não deu certo. Eu me preocupo muito até com a questão do acolhimento, porque a ideia que eles trouxeram para gente é legal, mas trabalhar primeiro a comunidade. Nós vamos ter a mudança? Então vamos. Mas informar a comunidade. A adaptação vai ser como? A ideia das meninas era o quê? Primeiro momento os alunos novos. Os alunos novos você tem que dar mais atenção, você tem que dar colo, você tem que ter muita paciência porque chora a mãe, até acostumar com você, seria isso. Daí outra semana vinham os alunos que já são nossos, já misturava tudo, né? Aí não deu certo. Fiz até o projeto na época, estava já na coordenação, fiz o projeto e não deu para colocar em prática. Só ficou no papel, mas na prática não deu certo porque eles estranham muito, muito, eles choram muito. Demora uns dez a 15 dias para eles acostumarem com a gente, mesmo assim demora. Tem crianças que passaram anos chorando, principalmente criança que mama no peito. Criança que mama no peito é difícil para adaptar. Por mais que a mãe venha, os horários, que a mãe trabalha, tem o direito, vem, mesmo assim é difícil para adaptação. Na hora do banho é mais difícil porque tem que ser três. Uma lá dando banho, outra na porta enxugando e outra vestindo. Então uma dava banho, a outra enxugava e passava para mim. Aí na porta eu tinha que vestir e ir cuidando dos outros para não se baterem e não machucar. Então tinha que ter brinquedo, tinha que ter... Entendeu? Tinha que ter alguma coisa diferente para eles. E com 24 crianças... Hoje vêm 19, 18, 17. No berçário vieram hoje 11. Eu admirei, porque o berçário sempre eles estão rasgando o dente, vem dez, oito. São matriculados 15, mas vieram 11. “Poxa. Vieram 11 hoje”. Essa coisa do pai ter a conscientização de trazer as crianças, a questão que é uma escola, que teve muita mudança. Então esse trabalho tinha que ser feito. É um processo muito lento na educação. A comunidade vê qual é o trabalho nosso aqui dentro como professor. É lento, mas estamos conseguindo bastantes coisas já.


P/1 – E aí eles comem, tem sonequinha...


R – Chega o acolhimento, o café da manhã. Aí vai pro café da manhã, vem a atividade do professor. 11 horas é o almoço, sempre tinha um lanche, porque tem o acompanhamento de uma nutricionista, tudo baseado, têm o acompanhamento da nutricionista. Antes não tinha. Na época que eu entrei não tinha, não era nutricionista, era ainda pela assistência até _______ educação. A assistente social colaborava bastante com a gente, cortina, toalha, essas coisas todas eram pela assistente social. Agora não, tem nutricionista, ela vem, acompanha, vem acompanhando as meninas. Até o curso do Avisa Lá ajudou bastante as meninas da cozinha, da limpeza como é que é. Eles se alimentam sozinho. Antes não. Antes servia para eles um prato e entregava pronto. Agora não. É na mesa, eles vêm, fazem fila, estão aprendendo a fazer fila desde um aninho. Filinha, fila para chegar a oração. Aí começa a ensinar. Tem uns que já conseguem, três aninhos, dois aninhos estão conseguindo se servir sozinhos. Mas no momento o professor tem que ir auxiliando e falando, né? Vem a alimentação que é o almoço, depois do almoço vem o descanso, o sono. Aí meio dia e 40, por aí, eles vão acordando. No que vão acordando as meninas já trazem serviço para fora, sentam ali, esperam a professora chegar uma hora para acordá-los. Tem que ser duas, uma não dá conta porque vai que deixa essas crianças sozinhas e acontece alguma coisa. Então espera a professora chegar uma hora, porque duas horas chega a outra. Quando a professora chega a assistente e a professora vão juntando os colchões e organizando o que vão fazer. Guardam o colchão no depósito aí a professora dá uma atividade, roda de leitura, canta uma musiquinha, o que está dentro do seu planejamento do dia. Aí espera chegar a outra auxiliar, a outra assistente e vai pro banho. O banho é demorado, se vem os 24, dar banho, pentear. E segunda-feira é o dia de higienização. Segunda-feira olha as unhas, ouvido, cabelo a questão do piolho e alguma coisa. Aí vem a higienização. Terminou, arrumou, organizou, três horas é o lanche. Três horas é o lanche, eles lancham, fazem o lanche deles daí retornam para sala com atividade ou vem para pátio. A partir de quatro e meia eles vêm para o pátio à espera do pai, aí já libera. Depois de quatro e meia quem quiser vir buscar pode, mas tem criança que fica até cinco horas. Tem criança que o pai às vezes esquece. Ontem eu saí daqui era cinco e 15, já era quase cinco e meia e esqueceram a criança. A menina fica já para... A rotina é assim. Tem os projetos, tem a questão da Páscoa, dia do circo, a gente sai, canta, dança, os professores se vestem de palhaço, de coelhinho, bagunça com eles no meio. Aí é só o que tem dentro da instituição mesmo. Uma coisa que a gente tá trabalhando agora que deu certo, começou o ano passado, são as reuniões individuais. Não tinha. Era reunião ampliada com os pais, dava informativo dentro da instituição. Agora faço individual, comecei ontem. Sala por sala. Eu dou texto informativo, faço uma ata pedindo autorização dos pais para passeios, para fotos, caso eu monte um blog da instituição eu estou conversando isso com os pais. Tem uma fala minha da abertura, é só lá com professor, todos os professores vão falar a sua metodologia, o que eles fazem aqui dentro com seu filho esse tempo todo que está aqui. Então a professora conversa com os pais. Eu só faço a abertura, a questão de horário, de higienização, a questão do portão que eu brigo muito porque eles passam e deixam o portão aberto e eu tenho medo, já fugiu criança. Então sempre o portão fica fechado, passou, fechou. Eu estou reforçando isso com os pais. Eu retornei agora, faz pouco tempo, porque eu estava de licença, então os pais iam deixando aberto. Eu não. Venho ver cedo, eu já estou ali. Eu cheguei era seis e 20 ______: “O que foi?” “Cheguei cedo. Eu vou educar esses pais para fechar esse portão. _______ quando você vê está lá na esquina já”. Conscientizando os pais para ajudarem a gente também nessa questão de olhar, fechar o portão. Aí as professoras falam dessa metodologia. A rotina que acontece aqui dentro, como que é feita, as atividades de pintura, giz de cera, de massinha, para fora, né? Sair para o pátio tem um objetivo, o que você tá fazendo lá fora, trabalhando movimento, música, oralidade. São essas reuniões que todo dia estão acontecendo. Cada dia é uma sala até terminar. Aí tem a troca do pai que fala, teve pai que falou ontem mesmo que o filho já melhorou bastante a questão do limite porque a criança quer fazer tudo. Por mais que tenha a faixa etária deles, ________, eles sabem o momento de sentar já para ouvir a historinha. São coisas rápidas, né? “Ah, vamos guardar os brinquedos”. Já ajudam a guardar os brinquedos. É devagar, mas já estão sabendo. Os pais estão vendo essa diferença do filho em casa.


P/1 – Qual é a relação da instituição com a comunidade, com a cidade?


R – Tem as reuniões que a gente faz, bimestrais. Fora essa que a gente tá fazendo agora, que começou esse ano de novo, qualquer dificuldade que o pai tem em sala ou não gostou, alguma coisa, sempre está conversando. Eles vêm, procuram a direção, mais a direção, aí a coordenação auxilia também. É tranquilo, não tem muita dificuldade aqui, não. Por ser uma cidade pequena todo mundo conhece todo mundo, então é mais fácil de conversar. Qualquer probleminha já vem aqui, conversa, já chama. A gente sempre pede para conversar com o professor, né? Porque o professor está mais tempo. Por mais que a gente esteja andando junto, mas a gente não está dentro da sala. Se caso não resolver o que o pai falou ou a professora, aí procura a direção e coordenação que a gente conversa e resolve. [troca de fita]


P/1 – Então, Norma, eu queria ainda para dar uma fechada nesta parte do seu trabalho aqui, que você comentasse um pouquinho sobre a importância das parcerias, se você vê que é importante manter parcerias para esses projetos, para melhoria da escola, como é o papel de cada um.


R – Então, as parcerias dentro da educação são muito importantes porque envolve a comunidade toda. Por exemplo, o CMDCA, Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, tem lá quem faz parte dentro da comunidade, Apae, da educação, da administração. Cada área tem lá o seu representante, tem o titular e o suplente. Religião também, igrejas que fazem parte também do CMDCA. Essas parcerias dentro da educação envolvem não só a educação, envolvem a saúde, segurança. Então essas parcerias com o instituto do ICC que faz tempo que está acontecendo, muita coisa já fizemos juntos, para nós da comunidade é muito importante essa troca. São recursos que o poder público às vezes não tem condições de olhar, mas tem um grupo que está olhando, que nem no caso nosso do CDC que eu faço parte, do voluntariado. Ser voluntário você tem que gostar. Gostar mesmo porque isso não tem hora, chamou você tem que estar lá, às vezes você conta com aquela pessoa que é voluntária a pessoa não vem. Então o voluntariado tem que partir de você. Eu quero fazer diferença na minha comunidade e vou fazer. Tem reuniões que a gente faz, programa para um tanto de pessoas, vem menos. Mas é isso mesmo, voluntário quando você tem 20, você tem dez. Quando você tem 50, você tem 30. Então voluntariado você não pode exigir: “Ah, tal”. Depende da pessoa mesmo em estar envolvido na comunidade para o desenvolvimento da sociedade nossa.


P/1 – E você falou agora do CDC, qual é a importância dele?


R – O CDC veio para juntar esse grupo. Estavam escrevendo o regimento dele, não sei se terminou, que nas reuniões eu não estava participando. Tem o regimento, o papel de cada um lá dentro, do presidente, do vice-presidente, do secretário, que tem que ter alguém para não ficar só para uma pessoa. Fulano é só para aquela. Não. para distribuir os trabalhos também, cada um fazer um pouco. Então o CDC é Comitê de Desenvolvimento Comunitário, ele foi criado para repartir também as tarefas. Muitas vezes acontecia que não tinha antes, ficava só para um. Então é muito cansativo e você tendo esse grupo que vai distribuindo fica mais fácil para trabalhar, cada um vai ajudando o outro. Montar um projeto, de sentar, discutir de que forma vai ser, para atender qual público, de qual faixa etária, o porquê, qual objetivo daquele, projeto que nós estamos desenvolvendo já vários aí.


P/1 – E por que você entrou nesse grupo?


R – Foi assim, eu já era do CMDCA, daí eu conheci qual é o trabalho do CMDCA e comecei a me envolver, gostar de participar. E assim, na minha cidade também, se eu não começar a participar, vou ficar esperando os outros? Se você olhar, o Instituto Camargo Corrêa é mais o pessoal de fora que vem, engenheiro, é um pessoal mais de fora. Da comunidade são bem poucos, da comunidade. Se não partir de mim, se eu não fizer diferença dentro da minha comunidade ninguém vai fazer por mim. Então se eu estou lá junto com eles, mostrando o que precisa melhorar, tal projeto assim, tal projeto da ordem comunitária que já teve, o projeto Brinquedos Pedagógicos já teve, o projeto Pão Bodoquena que já teve. Então eu estava junto mostrando: “Olha, tal lugar, tal vila precisa disso”. Tinha cinemateca também. Então eu estando junto estou vendo onde estão as necessidades, eu comecei a pensar também nos jovens da nossa comunidade que não tem muita coisa atrativa aqui. Então por isso que eu gosto, que eu vou, sou responsável e sou muito de horário, de cumprir horário. Se você marca tal horário, dez, 15 minutos eu estou lá, eu sempre fui assim, sou eu, é o meu jeito. Até meu esposo fica bravo comigo, falei: “Não. Se marcou tal hora tem que chegar dez, 15 minutos. Você não sabe o que vai acontecer no caminho. Você não sabe o que vai acontecer lá, será que a gente vai chegar no horário certo lá?”. Então eu sou muito disso, até no meu serviço as “gurias” dão risada, porque eu sou assim desde criança, desde a escola, sempre fui assim. Então até ontem na reunião um fica cuidando para não ultrapassar o horário, para não se tornar uma reunião cansativa. Porque já são voluntariado, então as pessoas que estão ali é porque querem a mudança dentro dessa comunidade, querem ajudar de alguma forma. Eu falava: “Pessoal, vai ser oito horas, vamos encerrar já”. Como o grupo já conhece todo mundo fica até mais fácil, não tem aquela coisa de um ficar bravo com o outro, falava, parava, vamos começar. Então é muito legal o grupo do CDC, que as tarefas são muito divididas, quem é responsável hoje pelo comitê é o Marcelo, ele que é o nosso... Até ontem na reunião ele não pôde ir porque teve uma viagem imprevista. Como já tava marcada a reunião nós fizemos. Graças a Deus tudo certo, a comunidade assim, quem foi convidado tava lá para participar, para interagir mais com ideias. Porque não adianta fazer um projeto, aquele grupo ali... Não. Vamos buscar dentro dessa faixa etária e estamos buscando por mais coisas no nosso projeto para atender os jovens.


P/1 – Certo. E quais são seus desafios hoje aqui?


R – Hoje? Olha, eu estou fazendo especialização da educação infantil. Então para mim eu estou amando, porque são as dificuldades que eu tive muito no início da educação infantil. O que eu estou fazendo aqui? Principalmente nessa faixa etária de zero a três anos, você passar o dia inteiro com essas crianças aqui dentro, o que eu ofereço para elas dentro da educação? Então meu desafio é de ajudar mais essas crianças na aprendizagem deles. Então a especialização, para mim, da educação infantil tá sendo um grande desafio. Minhas angústias, tudinho, sabe? Então é agora que eu vou fazer. Até eu to pensando em como que eu vou fazer minha defesa, monografia. É um acolhimento? Vai ser um desafio para mim esse acolhimento, para realidade nossa aqui, a comunidade é muito pequena. Então esse será meu grande desafio, como que farei meu acolhimento ano que vem aqui, de que forma. Mas eu to pensando em ajuda já com o pessoal da formação que já tinha uma ideia, eu vou tentar. Mas para esse desafio eu vou ter que contar muito com a comunidade. Porque eu pensei, falei: “Vou fazer esse acolhimento”. Ta. É a comunidade, como vai reagir? Porque eu vou pegar primeiro os anos novos. Vão falar: “Ah, estão nos discriminando”. Então ______ trabalho desde o começo para eu conseguir ter resultado bom, senão eu não consigo.


P/1 – E Norma, você agora fez uma pergunta enfática e tal, qual é o seu papel aqui? O que você tá fazendo aqui para essas crianças? Quais são os seus objetivos?


R – A partir do momento que eu tive a experiência de direção, três anos e meio, fui para sala de aula, retornei, fiquei um ano em sala de aula, voltei para coordenação, entrei o ano passado, no meio do ano para coordenação, eu ficava muito preocupada: “O que eu to fazendo como coordenadora?”. Então eu sou uma pessoa muito de buscar. Não sei, corro atrás. Eu tenho a humildade de falar: “Eu não sei. Ajuda-me”. Eu vou atrás das pessoas para me orientar. Então qual é o meu papel aqui? Ensinar essas crianças a terem uma qualidade de ensino melhor para vida deles. Sei que é difícil. É. Trabalhar com pessoas, por exemplo, coordeno nove professores. É pouco, mas para mim, eu não tenho muita experiência em questão de coordenação, coordenar. Então esse papel que eu estou fazendo hoje aqui de coordenação é orientar meus professores para fazerem um bom trabalho para essas crianças, pensando nas nossas crianças aqui. Como vai ser daqui três, quatro anos essa criança daqui. Porque o processo nosso aqui você não vê rápido assim, às vezes leva três anos. Entra no colo, sai engatinhando, falando, é esse processo. Os limites, o sentar, o comer, o servir, a escrita. A escrita e a coordenação que são as _________, são menos, você não pode também forçar, tem que ser devagar porque lá na frente tem mais coisas para eles.


P/1 – E como você acha que esse projeto de educação infantil que aconteceu, junta essas duas unidades aqui, o CEMAP [Centro de Estudos Macroeconomia Aplicada] com o Ceib?


R –O Ceib. Na minha opinião é que veio assim, ajudar a auxiliar num momento que todos estavam precisando. Claro, aí vai partir de cada professor que está atuando lá na sua prática. Ela veio, encaminhou, mostrou o que tem que fazer, você tem que aplicar. De que forma que eles vão fazer, de que jeito dentro dessa faixa etária é de cada professor dentro... Então eu estou coordenando lá dentro através de projeto. Que projeto que vai precisar para trabalhar dentro dessa instituição, de autonomia, de trazer a família para dentro da instituição, a participação, a socialização. Então o projeto dessa formação do Avisa Lá para nós aqui da comunidade, não só os professores como a turma toda, foi muito bom, muito gratificante. Eu converso sempre com as meninas, tem muita coisa que eu vou orientando. Então para o município nosso de Bodoquena, avançamos, sim. Porque eu estou fazendo especialização e falei dos projetos que acontecem, das parcerias dentro da nossa instituição, eles ficaram assim, maravilhados. “Norma, como eu consigo trazer para nossa comunidade?”. Eu explicando através do CMDCA, você procura a prefeitura, são parcerias. Então o Instituto Camargo Corrêa está ajudando muito nessa questão da nossa formação dentro da nossa comunidade. Porque termina esse, tem outros projetos também que vão começar. 


P/1 – E quais são?


R – O que vai sair agora é um projeto que nós estamos fazendo, montando, é do Pabum. Esse é o monitor ideal, que está em fase de construção. Já está escrito o objetivo, alguma coisa, só falta fazer uns fechamentos, uns questionários para os jovens, para eles verem como é que vai ser, através do Pabum. É o monitor ideal que vai ser aplicado no Pabum, que está construindo tipo uma área esportiva com um espaço enorme. E o outro é para capacitar as pessoas do conselho tutelar, já é outro projeto. E se eu não me engano no meio do ano vai começar a Escola Ideal, que é de sete a 16 anos. Pelo menos tava conversando que vai acontecer. E eu estou nesse do Pabum, que é o monitor ideal. É capacitar jovens de 17 acho que até 21 anos, para atender a nossa meta, 250 crianças, 125 cedo e 125 à tarde. Vai depender todo do fechamento, cronograma, gastos, essas coisas, porque a gente está fechando.


P/1 – Quais são as suas expectativas quanto ao futuro?


R – Dentro da minha comunidade aqui eu espero que esses jovens através dessas capacitações, tenham um espaço melhor de emprego, de serviço. Esses jovens nosso que estão com caminhos tortuosos que tenham uma visão, tenham uma esperança, uma autoestima de vida para eles através dessa formação. Claro que a gente não vai conseguir 100%, mas conseguindo 80, 90% tá bom demais.


P/1 – E para cá, para educação infantil?


R – Aqui eu imagino muita coisa, mas a minha alegria agora é da pró-infância que vai sair para nós, que é um milhão e meio, se eu não me engano, que vai ser construído já. O terreno já está comprado, já chegou um pouco da verba, para atender 250 crianças. Então eu já penso nessa estrutura para atender mais crianças. Nossas crianças aqui são mais de vila, as vilas longes. Então aonde vai ser construído vai ficar num local que vai atender todas as vilas. Então essa pró-infância veio para ajudar a gente mais nessa parceria.


P/1 – Certo. E agora indo mais para o lado seu, pessoal, voltando para essa parte um pouquinho, você falou do seu esposo, como é que você o conheceu?


R – Meu esposo? Eu tinha 13 anos, ele tinha 18, começamos namorar. Foi assim, a época do meu namoro aquele respeito, tem que pedir para o pai, para mãe. Ele foi em casa pedir para namorar. Ele tinha 18 anos, ele fala que quando eu cheguei a Bodoquena, passei na avenida, com o cabelo bem longo, comprido, porque eu cheguei na frente, antes de chegar a mudança. Nós ficamos três dias na casa do sítio do meu tio, que a casa onde a gente ia morar não tinha desocupado. Com a vinda da Camargo Corrêa você não conseguia casa para alugar. Então nós viemos na época para Bodoquena porque meu pai ia montar uma pousada. Só que não deu certo, nós chegamos aqui as casas não quiseram alugar, nós ficamos. Ele fala que o primeiro momento foi esse, que me viu a primeira vez foi aí. Aí começou namorar, mandar bilhetinho, na época do bilhetinho ainda. Ele queria me ver na escola, eu falava: “Não. A escola é para estudar, não é para namorar, não é para ficar namorando não”. Eu sou muito assim, não é sistemática, eu brinco, converso, dou risada, mas em partes eu sou meio sistemática para algumas coisas. É minha criação mesmo. Ele foi o meu segundo namorado, não namorei muito, namorando já sete anos, com 21 já casei. Não queria casar ainda, não, queria estudar mais. Aí falou: “Vamos casar”. Pela minha mãe a gente não casava, estudava, para você ter... Minha mãe tinha sempre tinha essa coisa: “Estude. Tenha o seu estudo, o seu conhecimento ninguém tira de você, vai ter a sua casa, as suas coisas, depois pensa em casar”. Com 21 anos eu casei. 


P/1 – E como foi o seu casamento?


R – Eu casei na igreja messiânica. Ele era católico. Eu fui criada dentro da igreja católica, com 12 anos revoltei, discuti com o padre lá, com as coisas que eu achei injusta, peguei e saí. Eu era muito católica, católica, aquela que faltava a vela, mas não faltava dentro da igreja. Participava de tudo. Missa da criança, culto de criança, tudo de participação eu tava dentro da igreja. Quando instalou a Igreja Messiânica em Jardim, na vila que eu morava, é essa dona Alda, era dessa religião, daí comecei a conhecer. Com 12 anos me tornei membro da igreja, da Igreja Messiânica. Quando me tornei membro eu fui começar a ensinar as orações, que são todas em japonês. Toda quinta-feira era meu dia de prática, de dedicação dentro da igreja, aí vim embora para Bodoquena. Sempre, eu encontrei uma turma aqui, sempre em Miranda, Aquidauana, Campo Grande, eu fui a São Paulo em encontro de jovens de vários países, na época. Aí casei na Igreja Messiânica, depois se quiser casar com... Mas só que a Igreja Messiânica não interfere nesse negócio: “Tem que ser da igreja para casar”. Ele seguiu as normas, casamos, fomos para Bonito. Simples, foi num sítio que é muito simples, muito churrasco, à vontade. Bem bruto mesmo, bem simples, não teve nada essa coisa de bolo, lembrancinha. Não quero. Não. É só churrasco, pronto, acabou. Minha mãe queria fazer bolo, minha sogra, falei: “Não, não, não, não, não. Pode parar. Não quero não. Vamos fazer só churrasco”. E a Igreja Messiânica tem um ritual assim, o peixe que vai, o significado do peixe que vai ao altar, do arroz, tem todo um significado, o que significa dentro do casamento. Então meu padrinho é só um também, eu só quis um. Um meu, um dele, esse negócio de um monte de padrinho, só um, um padrinho só. Eu casei já em janeiro, como eu não nunca tomei remédio para evitar, nunca tomei, aí fazendo tabelinha, vai e engravidei em março, do meu filho. Então o mesmo ano que eu casei já engravidei.


P/1 – E como foi ser mãe?


R – É gostoso, mas também tem as... Difícil. A sorte minha é que minha mãe me ajudou muito, então eu trabalhava, que eu trabalhei até quase nove meses. Do primeiro filho a barriguinha foi pequenininha, só foi o bebê mesmo, três quilo e pouco, o Matheus. Mas é difícil, trabalhar... E eu não queria largar meu emprego, porque eu era concursada e para não largar minha mãe me ajudava muito. Eu tive que arrumar uma pessoa para cuidar. Daí demorou uns três anos vieram os gêmeos. Os gêmeos eu fiquei enorme, tive que... Quase nove eu tive que sair já para... Eu trabalhei até quando pude. Aí como ficou muito enorme, eu inchei muito tive que sair logo. 


P/1 – Certo. E seus filhos estão estudando? Eles participaram... Eles entraram logo na educação infantil? Ou entraram na escola do estado?


R – Não. Não. O Matheus. na época, a creche antiga, Dona Branca que foi a primeira creche lá no início ali da Avenida Vila Moreira. Eu queria. Eu queria que ele participasse, mas o meu esposo levava, porque ele tinha mais tempo que eu, porque ______________, meu horário é sete horas. “Então você tem tempo. Então você leva o Matheus”. E ele começava a chorar junto. Quem era chefe da creche era a Zuila que hoje é secretária da educação. Ele começou a chorar muito, muito, muito, aquele tempo era assistencialismo mesmo naquela época, em 1995, 1996. Ele não deixou, porque ele saía chorando. __________________ pai que deixa que sai chorando. Ele falou: “Ah não. Não vou deixar mais não”. Eu por mim queria. Mas ele não quis, nem os gêmeos também não foram de educação...


P/1 – Foram direto para escola.


R – Não, de creche não foi... De educação entrou. O Matheus entrou com três aninhos para quatro. Foi a primeira turminha que o município foi tentar montar com três aninhos, que até quem foi a primeira professora dele é a professora Conceição, que está hoje aqui trabalhando comigo. Foi a primeira professora dele, que foi o primeiro grupo que montou na época, da educação infantil. Mas são tranquilos, um tem 16 anos, foi tranquilo, calmo, tira nota boa, não dá trabalho, meu companheiro em casa. Os gêmeos também são meus companheiros, ajudam, cozinham. Se dez e meia a mãe não chegou, o pai não chegou eles vão para cozinha, desde cinco, seis anos. Ensinei-os a serem companheiros meus, se precisar lavar roupa eles me ajudam a lavar roupa, são bem companheiros mesmo. A gente tem que ensinar, a gente não sabe. Porque o ano que vem um vai ficar sozinho para estudar, quem vai fazer o almoço? Vai ter que ser ele. Tem que se virar já, eu sempre tive essa coisa, desde pequeno eu estou ensinando.


P/1 – E como foi para você como mãe levar os meninos para educação? para escolinha com três anos de idade, de acompanhar, como que é a sua postura como mãe nessas reuniões?


R – Nas reuniões eu vou, mas quem leva sempre é meu esposo. Eu sou muito de conversar, eles nunca choraram quando eu saio para trabalhar mais cedo. Eu sempre converso: “A mãe vai trabalhar, a mãe precisa, então não é para chorar”. E eles dão tchau. No primeiro dia dos gêmeos mesmo, meu esposo não podia ficar para passar, entrou, conversou com a menina, falou assim: “Olha, eles estão aqui sentadinhos, você só os encaminha para professora”. Numa boa. Não choraram os dois juntos, encaminharam, a Eucina até, que trabalha, os encaminhou para sala. O Matheus também não deu trabalho, não foram de chorar, chorar por causa de mim, não foram. Eu sempre conversei, se eu ia comprar alguma coisa: “Olha, mamãe não tem dinheiro agora. Mamãe vai receber daí a mãe vem comprar, está bom?”. Não faz escândalo no mercado, nunca fizeram escândalo para alguma coisa. Nunca. Então eu sempre explicava, tudo de conversar. Não posso, quando eu posso eu... O meu filho mais velho participa de um grupo de dança. Já foi para fora, de tango. E estão montando outro grupo agora de anos 1960. Está lá: “Mãe, tem que comprar sapato não sei o quê, chapéu não sei o quê”. Ta. Falei: “Tá bom. Vê com o grupo, racha com o grupo”. Tem que ser da nossa realidade, não mostrar uma coisa para o meu filho que eu não tenho condições. Acho que mãe é isso, o que a gente pode dar, não oferecer coisas que não pode. Então sempre meus pais, por serem pessoas humildes, analfabetos, porque minha mãe, meu pai estudaram até o A e o B daquele... Eu lembro que na fazenda meu avô tinha que pagar uma professora para ficar na fazenda naquela época. Então o único formado dos 12 filhos é só um tio meu que é veterinário. Só um dos 12 filhos. E a minha mãe nunca estudou. Minha mãe depois de certa idade que começou a estudar o Mobral, nunca tinha tempo porque trabalhava o dia inteiro, o tempo do Mobral. Eu me lembro de que no domingo, sonolenta, eu junto com a mãe na escola. E ela não conseguiu terminar, faleceu faz quatro anos. Faleceu com 61 anos, só tem meu pai, agora tem 75 anos e mora no sítio, ele com meus irmãos.


P/1 – E para você hoje quais são as coisas mais importantes da vida?


R – Mais importante da vida? Meus filhos. Meus filhos são mais importantes. Eu penso na minha aposentadoria, mas vai demorar ainda, né? Quero curtir a vida, poder viajar, conhecer outros lugares, nem que seja no Mato Grosso do Sul, tem vários lugares bonitos aqui também, mais outros lugares. Eu tive a oportunidade de conhecer o mar o ano passado, nunca tinha conhecido o mar, praia, nunca tivemos oportunidade, nós fomos. Coisa maravilhosa de Deus.


P/1 – E o que você achou do mar?


R – Não tem o que... O mar, azulão, que você olha, meu Deus, como Deus é poderoso, meu Deus do céu, aquelas ondas. Nós ficamos na praia de São Joaquim, umas ondas bem fortes lá. Conheci outras. Gostei, mas eu prefiro o meu riozinho daqui. Com todo o marzão eu quero o meu riozinho. É melhor, é melhor. O rio aqui é tranquilo, a água não é salgada, aquela água salgada.


P/1 – E quais são seus sonhos?


R – Meu sonho? Terminar minha especialização. Eu estou com uma meta, se Deus quiser dá certo, construir uma casa, que minha mãe tem um sítio e deixou para nós um sítio de 45 hectares, aqui pertinho. Aí eu quero fazer uma casinha e morar para lá. Eu quero terminar lá mexendo no sítio, cuidar, ficar na vida rural. Se Deus permitir ate la se puder trabalhar. É pertinho, dá para eu ir e voltar. Mas eu quero ter minha casinha, uma coisa bem aconchegante para mim, é isso que eu quero. Vamos ver, se Deus der permissão.


P/1 – E o que você achou de parar um pouquinho agora e contar a sua história para gente?


R – Eu voltei tudo o tempo lá quando eu nasci. Foi legal. Foi um memorial da minha vida toda como pessoa, como educadora, como professora, se eu botar tudo. É muito gostoso, é legal.


P/1 – E tem mais alguma coisa que você gostaria de falar, deixar registrado?


R – Eu penso que as mudanças tem que começar a partir de você. Então a partir do momento que o ser humano falar assim: “Eu quero fazer, eu vou mudar”. Principalmente nós da área da educação, que o tradicional é muito... E partir para o novo, mas o novo compartilhando com o tradicional. Então as mudanças nossas da educação, a qualidade, vão acontecer. É um processo lento, mas vai acontecer e está acontecendo. Com essa experiência que eu tive de cinco, vai fazer cinco anos já na educação infantil, muita coisa já aconteceu. Então tem que partir da gente mesmo, não ficar esperando pelos outros não. Vou fazer, vai acontecer.


P/1 – Tá certo, Norma. Obrigada.


R – De nada.


---FIM DA ENTREVISTA---

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