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História

Impactando o lugar onde vive

História de: Vinícius Rodrigues Duarte
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/07/2021

Sinopse

Infância em Itapetininga (SP). Lembranças da escola. Trajetória no judô e escolinha do Corinthians. Mudança de bairro e de hábitos. Vestibular para Jornalismo. Faculdade e mudança para o Rio Grande do Sul. Programa de web rádio "O Rap é Compromisso" e envolvimento com a Central Única das Favelas (CUFA). Experiências com ações sociais. Centro Cultural e demandas do município. Novos desafios com a pandemia de Covid-19 e apoio do Instituto CPFL. Impactando a comunidade. Família e nascimento da filha.

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História completa

P/1 - Boa tarde, Vinícius, tudo bem?

R - Boa tarde, Genivaldo. Boa tarde, Grazielle. Tudo tranquilo. Espero que com vocês também. Eu queria agradecer a oportunidade dada pelo Museu da Pessoa, a indicação do Instituto CPFL e também da Cufa Frederico Westphalen, por me proporcionar esse momento único na minha vida, que eu tenho certeza que é de extrema importância, não só pra mim, pra toda a minha família, que realmente se empolgou muito com essa iniciativa, mas pra que a gente possa também fomentar o registro histórico de tantas outras pessoas, que desenvolvem ‘n’ atividades de mega importância na nossa sociedade. Então, desde já agradeço imensamente pela oportunidade.

P/1 - A gente que te agradece, Vinícius, pela oportunidade. Então, vamos começar. A primeira pergunta, então, é o seu nome completo, local e data de nascimento.

R - O meu nome é Vinicius Rodrigues Duarte. Eu tenho vinte e seis anos. Sou nascido em Itapetininga, interior do estado de São Paulo, no dia vinte e oito de fevereiro de 1995. Eu sou filho de Adriano Guerra Duarte, que carrego aqui comigo, no meu braço, e também de Silvia Lucia Rodrigues, que carrego tatuado na minha pele, do outro braço. 

Sou nascido no interior do estado de São Paulo, numa cidade de aproximadamente cento e oitenta mil habitantes. Pros padrões da região, onde eu residi até os dezoito anos, é uma cidade até pequena, mas que é seis vezes maior da localidade onde eu resido hoje. 

 

P/1 - Certo. E qual era a atividade da sua família? Com que eles trabalhavam?

R - O meu pai é funcionário da Sabesp. Eu lembro que ele começou a trabalhar muito cedo. Ele tinha dezoito anos e passou no concurso público pra trabalhar na Sabesp com auxílios gerais, encanador, leiturista. Ele era aquele cara que ia lá fazer a leitura do hidrômetro, pra fazer a cobrança da conta de água da população, ia fazer corte. Ele começou dessa maneira dentro da empresa. E hoje, há vinte e poucos anos - quase trinta anos ele tem de Sabesp, como funcionário público -, ele trabalha como motorista. 

A minha mãe, desde que eu me conheço por gente, sempre cuidou muito da casa. Ela ficava cuidando de mim, da casa, até os dez anos - enfim, é uma dona da casa até esse momento. Ela não trabalhava, desde que eu me conheço por gente. 

Antes de eu nascer, ela era vendedora. A minha mãe chegou a iniciar uma graduação, mas acabou não terminando. E ela era vendedora das lojas Pernambucanas, que eu acho que ainda existe aí em São Paulo; ela trabalhava com isso. 

O meu pai trabalhava com tudo o que precisasse, dentro da empresa, na verdade. Ele começou muito de baixo também. Não fez nenhuma graduação, não estudou, foi aprendendo com a universidade da vida mesmo. 

A gente teve uma vivência muito boa. Eu convivi muito com a minha família, presente e atuante dentro da minha casa. As melhores lembranças que eu tenho da minha infância são junto ao meu pai e à minha mãe, também com a presença dos meus avós maternos e paternos, sempre. A minha avó, Maria Aparecida Duarte, foi quem me ensinou grande parte das coisas que eu sei hoje, junto ao meu avô, Carlito Dias Duarte - os meus avós paternos. E também o João Rodrigues, o meu avô materno e a Marli Viso Romão, que é a minha avó materna, a mãe da minha mãe.  Estiveram sempre muito presentes na minha vida e a gente teve uma convivência muito boa, desde sempre. 

Eu fui filho único até os dez anos de idade. Em 2005 nasceu o meu irmão, o Nicolas Rodrigues Duarte, que hoje já completou os seus vinte e seis anos. Até então eu era o filho único e também o primeiro neto das minhas duas avós. Depois, nasceram os meus primos, fui perdendo a titularidade. (risos) Mas até 1999, quando eu tinha meus quatro anos, quase cinco, eu era o único da família, então todas as atenções acabavam girando em torno de mim. Depois isso acabou mudando um pouco. 

Foi uma infância muito boa. Eu tive os meus pais e a minha família muito presentes. E eu sempre tive essa vivência, quando comecei a ficar maior, com cinco, seis anos de idade, de brincar na rua, com os vizinhos da rua de cima, da rua de baixo. Jogar bola, andar de skate na rua, na frente de casa. Depois ir pras ruas de baixo, soltar pipa, andar de skate, enfim.  

Eu sempre fui criado muito assim, muito na rua, em contato com muitas pessoas, com muitas outras crianças, que é uma cena que, hoje, pelo menos aqui onde eu resido, a gente não vê muito. Acho que isso é uma coisa que faz muita diferença, porque você aprende muitos valores que acaba levando pra vida inteira. Você acaba aprendendo a ter o respeito pelas pessoas, como se comunicar pra que você não seja uma pessoa sozinha, pra que você consiga se relacionar mesmo com as pessoas. 

Essa foi, mais ou menos, a minha infância em Itapetininga, na Vila Rio Branco, depois no Jardim Itália e também no Jardim Shangri-lá. Os meus avós maternos residiam em Miracatu, no interior de São Paulo - num distrito de Miracatu, na verdade, chamado Oliveira Barros, onde eu passava as minhas férias, passava alguns finais de semana. E eu tenho ótimas lembranças de lá também, onde a minha avó residia, numa chácara, nesse distrito de Miracatu. E eu passava lá com os meus primos, os irmãos da minha mãe, meus tios. Tenho ótimas lembranças, mesmo.

 

P/1 - E os seus avós te contavam histórias? Alguém te contava histórias, quando você era criança?

R - Sim. Olha só, eu sou corintiano, né? Sou corintiano desde que eu me conheço por gente e devo muito isso ao meu avô e à minha avó, os pais do meu pai - a dona Cida e o seu Carlito. O meu avô dizia pra mim, o seguinte: “Quem não for corinthiano aqui nessa casa, não come, não bebe, não dorme.” Eu lembro muito disso, cresci com isso. 

Eu atravessava a cidade, andava dez quilômetros de uma casa pra outra, pra assistir jogo com o meu avô, no final de semana. A minha avó Cida foi quem me ensinou a assobiar (risos) e é uma coisa que eu lembro até hoje. 

A minha vó Marli, que é a mãe da minha mãe, era professora, então ela sempre me cobrou muito a leitura, me cobrou muito a escrita. E é muito disso, muito dela que eu devo ter escolhido o ramo jornalístico pra seguir na minha vida, porque eu sempre gostei muito de escrever. Não sou hoje um leitor assíduo como eu deveria ser, mas acabei pegando o gosto por influência dela, que me cobrava muito. Desde cedo, eu lembro que ela tinha um computador velho, caindo aos pedaços; ela me botava na frente do Word pra eu digitar e ir pegando essa vivência, botava pra escrever nos cadernos, pra ter a letra melhor e tudo o mais. 

Uma das melhores lembranças que eu tenho da minha família, da parte do meu pai, sempre é relacionada ao Corinthians. Eu até tenho tatuado no braço o primeiro escudo do Corinthians, com 1910 e o lema da Gaviões da Fiel aqui logo abaixo. E a galera aqui no Rio Grande  do Sul, hoje, olha pra mim, pensa: “Nossa, olha só como ele é fanático pelo time”, só que se tu me perguntar hoje qual é a escalação do Corinthians, eu não sei dizer pra ti dois jogadores. Eu tenho mais no meu braço, tatuado, porque isso me remete muito à minha família, sempre me lembrou muito. E eu guardo muitos bons momentos.

Eu acho que isso foi o que me aproximou do meu pai, foi o que me aproximou dos meus avós, dos meus tios, então lembro sempre disso com muito carinho. Não porque eu morra de amor pelo clube, mas muito porque a gente se aproximou a partir dos jogos que a gente assistia, quando a gente chorava na fase ruim do time -  agora a gente está chorando bastante, infelizmente. Quando a gente comemorava os títulos… Isso sempre me remete muito a eles. 

 

P/1 - Você sabe se a origem da sua família, dos seus pais, era mesmo de Itapetininga, ou se eles vieram de outras cidades, de outros estados?

R - Não. Na verdade, os meus pais são nascidos em Pariquera-Açu. O meu pai é nascido em Juquiá, também interior de São Paulo, na região do Vale do Ribeira, às margens da BR-116. E a minha mãe também é nascida em Pariquera-Açu, porque eu creio que era o único hospital (risos) da região, na época, mas ela morou grande parte da sua infância e adolescência em Miracatu - em Oliveira Barros, na verdade, que é um distrito de Miracatu, no interior de São Paulo também. É uma muito próxima da outra, ali, às margens da BR-116. Mas eles só se conheceram em Itapetininga, muitos anos depois, então eles não são de Itapetininga. Eles são da região do Vale do Ribeira, assim como grande parte da minha família, exceto por mim, meus dois irmãos e também os meus primos. O resto é todo mundo nascido na região do Vale do Ribeira.

P/1 - Então, vamos passar pra sua vida escolar. Qual é a primeira lembrança que você tem de ir pra escola?

R - Olha, a primeira lembrança, a primeira das primeiras… Comecei na pré-escola, na EMEI [Escola Municipal de Ensino Infantil] Lazara Galvão, situada lá na Vila Rio Branco, lá em Itapetininga, São Paulo. Eu lembro que eu não gostava de ir. Eu acho que é um processo até natural, né? Eu tinha muito medo, chorava e não gostava, bem no começo. Essas são as primeiras lembranças que eu tenho. 

Depois foi um processo muito natural, porque eu já comecei a me enturmar com a gurizadinha, que eram os meus colegas e tudo o mais. E eu lembro muito das minhas professoras na época, que participaram do meu processo de alfabetização, lá atrás. 

Eu lembro muito dessa escola, da EMEI Lazara Galvão, quando eu tinha os meus quatro até os seis anos de idade, de onde eu já saí alfabetizado, onde eu fiz a minha formaturazinha. Eu sei que a escola ainda está até hoje lá, visualmente um pouco diferente, mas atendendo muitas crianças, prestando um serviço muito bacana pra sociedade. 

Depois disso, no ensino fundamental, eu entrei no Serviço Social da Indústria, no Sesi - é muito conhecido aí em São Paulo. [Entrei] no Centro Educacional número 124, onde eu passei dez anos da minha vida, frequentando. Iniciei em 2002, aos sete anos de idade, e saí já no terceiro ano do ensino médio, no ano de 2012, aos dezessete anos de idade. Passei todo o meu ensino fundamental e o meu ensino médio nessas duas escolas - aliás, nessa única escola, o fundamental e o médio, no Sesi. 

Tenho até hoje muitos bons amigos, vejo que o pessoal evoluiu bastante. É muito bacana a gente ver aquela pessoa que hoje é jornalista, como o Caio Nogueira, lá no Mato Grosso do Sul, apresentando, na afiliada da Rede Globo, os jornais do meio-dia, aparecendo no G1. Era um guri que, lá atrás, pegava ônibus comigo pra ir pra escola, onde a gente brincava junto. As redes sociais e a internet facilitaram muito esse contato. 

Eu mantenho muito contato com pessoas que passaram a vida inteira comigo, nesses dez anos, e que hoje têm uma carreira muito bacana, que vêm desenvolvendo alguns outros trabalhos de suma importância. Viraram engenheiros, advogados, jornalistas; outros, trabalhando em outras profissões. 

Eu tenho uma lembrança muito, muito bacana do Sesi. Foi onde também eu joguei bola. Eu joguei nas escolinhas do Corinthians, que tinha há muitos anos, ali. Joguei também nas escolinhas de futsal que o Sesi proporcionava, tinha uma estrutura muito bacana. Pratiquei judô também. Fui atleta federado da segunda divisão da Federação Paulista de Judô, há muitos anos. Pratiquei durante cinco anos. Competi em outras cidades, também. 

Grande parte da minha vida passei ali dentro do Sesi, onde eu ia, às vezes, até em período integral, porque eu estudava num período e no outro eu fazia as atividades que tinha à disposição - sejam as modalidades esportivas... Quando eu fiquei maior, eu fazia academia, então passava grande parte do meu dia, da minha semana, dentro do Sesi. E devo muito, o que eu consegui fazer até hoje, aos educadores e todo mundo que participou da minha vida nesses dez anos, lá dentro da escola. 

Assim foi o ensino fundamental e o meu ensino médio. Eu lembro que o Sesi promovia os jogos industriais, onde as empresas participavam, e os nossos pais iam lá pra competir em ‘n’ modalidades, futebol, isso, aquilo… O meu pai participou da equipe do cabo de guerra e eu lembro que [pra] quem ganhasse no cabo de guerra, o filho ganhava uma vaga com bolsa, com desconto, pra participar da escolinha de futebol do Corinthians, lá na época. Lembro até hoje, como se fosse ontem, do meu pai fazendo um esforço imenso junto com a equipe pra poder ganhar, e foi aí que eu ganhei a vaga pra participar da escolinha do Corinthians. 

A nossa condição econômica nunca foi muito boa, mas eu também não posso me queixar de nada. Nunca me faltou nada, graças ao esforço do meu pai, o seu Adriano. Lembro muito do meu pai trabalhando muitas horas por dia. Eu lembro quando ele saía às quatro horas da manhã de um dia, voltava à meia-noite, dormia, saía de novo às quatro; passava o dia trabalhando. E ele sempre fez isso, a vida inteira, desde que eu me conheço por gente, até hoje. Hoje eu já tenho aqui a minha família, já tenho a minha rotina, [e] ele ainda assim continua fazendo isso. Ele sempre fez isso, com o intuito de que não faltasse nada pra nós. 

A gente sempre foi muito esforçado, nunca teve muito luxo, mas também nunca faltou nada, então foi uma infância muito bacana. E muito do que eu faço hoje, eu trago lá de trás, prque a minha carga horária aqui, hoje, trabalhando, é muito grande. A gente tem uma rotina de trabalhar aqui na Cufa, hoje, das oito da manhã até a hora que precisar - ou, às vezes, das seis da manhã, até a hora que precisar. Sempre que eu faço isso, quando eu fecho o escritório aqui à meia-noite, à uma, duas horas da manhã e no outro dia eu estou aqui de novo, eu lembro do meu velho, que ele levantava, ia sem reclamar e na força do peito mesmo, pra poder dar uma estrutura bacana pra nós. E ele sempre me falava: “Estuda, estuda pra você não precisar fazer isso.” Não sei se eu estudei do jeito que ele queria, mas eu continuo fazendo o mesmo que ele fazia - claro que em outra função, mas o esforço que ele tinha lá atrás é algo que eu carrego comigo, hoje. Porque hoje sou eu que tenho a minha filha, sou eu que tenho a minha esposa, então, muito do futuro da minha filha vai passar pelas minhas mãos. Quando eu tenho qualquer sinal de cansaço, eu lembro dele e da história dele, eu lembro da minha pequena e vou à luta de novo, né? Eu trago muito isso lá de trás.   

 

P/1 - Vamos voltar um pouquinho em alguns detalhes do que você falou. Em relação ao ensino fundamental e ao ensino médio, teve alguma matéria ou algum professor que te marcou, por algum motivo? Você lembra alguma história a respeito disso?

R - Tenho, tenho sim. São poucos, mas eu tenho pessoas que levo com muito carinho, até hoje. Por exemplo: no ensino fundamental, nos anos iniciais, da primeira até a quarta série, eu tive a professora Ana Paula Azevedo, que é uma pessoa que até hoje me acompanha através das redes sociais, quando eu vou pra Itapetininga, São Paulo. Tive o prazer de encontrá-la algumas vezes. Ela me ensinou a ler lá atrás, me ensinou a fazer as continhas. Até hoje ela interage e acompanha tudo o que eu venho fazendo aqui, no exercício profissional. É uma pessoa que eu lembro com muito carinho, Ana Paula Azevedo. 

Também a professora Adriana Matarazzo, que eu lembro com muito carinho, participou dos anos iniciais do meu ensino fundamental. Posteriormente, eu lembro muito do professor Márcio Lopes, que me dava aula de História e Filosofia, nos anos finais do ensino fundamental e também no ensino médio. Foi um cara que dava aulas incríveis, aquele cara que sempre saía da sala e deixava um questionamento, aí fazia com que a gente refletisse muito sobre o tema que ele estava passando e relacionava com a sociedade e tudo o mais. Eu sinto [por] na época não ter tanta maturidade pra entender alguns temas que ele passava, não poder fazer reflexões mais profundas acerca daquilo, mas também é uma pessoa que eu lembro como um professor excepcional. 

Também a professora Flávia Blimer, que me deu aula de Sociologia e Geografia -  uma pessoa com quem eu interagi também, depois de adulto, e é uma pessoa excepcional, que eu lembro com muito carinho sempre. 

Eu acho que foram esses, na verdade. Não tive mais - peço perdão, o pessoal entrou aqui agora - nenhum outro profissional assim, que eu lembro com muito carinho. Esses aí são os que interagem comigo até hoje e que eu levo com muito carinho.

 

P/1 - E, pelo que você contou, você se dedicou durante esse período de estudos, bastante, aos esportes. Eu queria que você comentasse um pouquinho sobre a sua trajetória no judô. Como isso começou? Por que você se interessou? E depois falasse um pouco também sobre essa entrada na escolinha do Corinthians, como foi essa experiência pra você.  

R - Na verdade, foi muito influência dos meus pais. Eles sempre queriam que eu me ocupasse [no] tempo ocioso que eu tinha no outro período, o contraturno escolar. O meu pai achava que a melhor forma de eu me tornar uma pessoa disciplinada, com responsabilidade, com ordem, era fazendo alguma arte marcial, participando de escolinhas, onde realmente você é cobrado - não só para ser o melhor atleta, para ter os melhores resultados, mas também, nessa fase da nossa vida, para ser um bom aluno, um bom cidadão, respeitar os pais, não comprar briga na rua. Meu pai acreditava que essa seria uma forma de fazer com que eu adquirisse muitos valores, então ele fez questão que eu participasse da Academia Apajusi de judô, que era sediada, na época, no Sesi de Itapetininga. 

O meu sensei era o Valter, até um certo período, e depois passou a ser o professor Inácio; me graduaram até a faixa amarela do judô, me colocaram em competições. [Eles] me colocaram como monitor das atividades dos menores, da minha faixa etária. Pra competir, eu tinha que ser filiado à Federação Paulista de Judô, aí fizeram todo o processo pra eu poder competir. Fui filiado da Federação Paulista de Judô na segunda divisão, há muitos anos. 

Os meus pais me incentivavam muito, me levaram a competir em outros municípios: em Buri, Tatuí, Sorocaba, Votorantim. Eu lembro muito disso, o meu pai tirava lá o final de semana pra me levar nessas competições, algumas também em Itapetininga. 

A minha história com o judô, na verdade, se encerrou porque a gente teve uma mudança de bairro. Eu residia na Vila Rio Branco, na época. Por alguns problemas, a gente teve que se mudar lá pro Jardim Itália, pro outro lado da cidade, então acabava ficando muito longe, o que inviabilizou que eu continuasse no judô. Até no meio do caminho entre o Sesi e a minha casa tinha uma outra academia de judô, que era muito famosa na cidade, na época; fui até assistir alguns treinos, mas acabei não me identificando, não sei por que, mas acabei não querendo ir mais. E a minha história no judô se encerrou assim. 

Hoje eu sinto muita falta. Acho que é uma coisa que eu poderia ter explorado mais na minha vida, mas o judô ainda continuou presente na minha vida, porque eu sempre admirei muitas pessoas, muitos atletas, a exemplo da Rafaela Silva, que é um ícone do esporte, no Brasil, também nascida nas comunidades, que tem um projeto social muito bacana. E o João Derly, que é campeão mundial, que era secretário de estado do Esporte e Lazer aqui no Rio Grande do Sul e que eu tive o prazer de conhecê-lo no ano passado. 

A minha história como atleta, digamos assim, aspirante a atleta, encerrou por conta disso. Ficou inviável uma criança de dez anos ficar atravessando a cidade pra lá e pra cá pra ir pra academia; meus pais não tinham como me levar e acabou por aí. 

E o futsal… Na verdade, o futebol de campo… Eu vou dizer que eu era esforçado. Eu não era bom, não, mas era muito esforçado, eu tinha vontade. Eu corria bastante, eu chutava bastante, mas hoje eu não sou jogador, então tu já imagina que eu não era muito bom. 

Eu sempre fui fanático do Corinthians. E logo ali, na minha escola, tinha uma escolinha. Tinha um núcleo lá da escolinha do Corinthians, da Chute Inicial, que eu acho que existe até hoje aí em São Paulo. O meu pai fez questão de me colocar, mas ele não tinha dinheiro, porque tinha que adquirir chuteira, uniforme, pagar a taxa de matrícula, a mensalidade, e ele não tinha como. Foi aí que, nos jogos industriais do Sesi - eu não vou me lembrar [em] que ano, eu acho que foi em 2002, se eu não me engano, quando eu tinha os meus sete anos - eles venceram uma competição e os filhos dos funcionários ganhavam a bolsa na escolinha, pra participar. 

Fiz em torno de um ano. Depois, a escolinha acabou encerrando as atividades lá no Sesi, então não teve mais e foi por isso que eu encerrei a minha carreira por aí, senão eu poderia estar no Corinthians, hoje, (rindo) jogando bola. Mentira. Talvez não. Mas eu lembro com muito carinho também. 

A gente tinha o professor Alexandre, o professor Ronaldo. Eles proporcionavam pra gente uma vivência de jogador. A gente treinava na chuva, treinava no campo, corria dos quero-quero, frio, calor. Eles cobravam realmente da gente, enquanto crianças, e isso era uma vivência muito bacana. 

Tu sabe que hoje, Genivaldo, eu sou assessor de imprensa do União Frederiquense, que é um time de futebol aqui de Frederico Westphalen. Eu assessoro a base do União Frederiquense enquanto jornalista, através de projetos, de leis de incentivos fiscais, que eu ajudo a auxiliá-los e acompanho os trabalhos da base. Quando eu vou lá olhar os treinos do sub-8, da gurizadinha, eu acabo lembrando muito daquela época e pra mim é muito bacana. 

Também nesse lance do futebol, nós tivemos a oportunidade de levar as nossas escolinhas de futebol da Cufa com alguns meninos dos municípios Itatiba do Sul, Alpestre e Nonoai, pra IberCup, que é o maior torneio de futebol infantil do mundo, e que teve em 2020 - no começo, antes da pandemia -  uma edição em Porto Alegre. Nós fomos convidados pra participar e levamos a gurizadinha até Porto Alegre pra disputar os jogos com a Chute Inicial - que lá atrás eu participava -, com a escolinha do Ronaldinho, com a base do Grêmio, dentro da faixa etária do sub-8. E eu, olhando aquela experiência, tendo aquela experiência ali, lembrei muito daquela minha época lá atrás. 

Eu digo que eu não prosperei enquanto atleta; acho que nem teria como. Talvez, se eu tivesse treinado muito mais. Mas esses esportes ainda continuaram muito presentes na minha vida. Hoje eu vejo a diferença que isso faz na vida de uma criança, na vida de um adolescente. 

É mais ou menos por aí a minha história. Também fui aluno da escolinha de futsal do Sesi, que tinha lá o olhar do professor Inaldo, na época. Participei por algum tempo também, depois acabou inviabilizando por conta dessa nossa mudança de bairro. A minha história como atleta acabou por aí, mas o esporte continua muito presente na minha vida hoje, não como atleta, mas de acompanhar as atividades, de auxiliar em projetos que a gente pode falar aí também, na sequência.  

P/1 - Voltando pra esse período, você, então, teve essa questão de mudança de bairro, o que acabou inviabilizando algumas atividades esportivas que você tinha. O que mais mudou nesse período que você mudou de bairro? Você substituiu isso por outras atividades? Como foi pra você, na sua vida, essa mudança?

R - Nesse período, eu ocupava o meu tempo vago estudando. Nunca fui o melhor aluno da sala, mas também eu não tinha as piores notas. Eu sempre fui muito esforçado. Eu passava fazendo as lições de casa, as tarefas e tudo o mais, porque eu tinha muito medo. Os professores, na época, chamavam os pais, ligavam, faziam a diretora ligar pro teu pai se tu não tivesse feito a tarefa, então eu ocupava o meu tempo fazendo isso. Por medo, na verdade, eu acabava fazendo ali tudo o que tinha pra fazer. 

Nesse tempo vago, quando não tinha muita atividade, eu acabava indo pra rua, acabava indo andar de bicicleta. Eu lembro que, quando eu morava lá no Jardim Itália, do lado tinha um bairro mais pobre, que se chamava Barroca. Lembro que eu ia jogar bola com o pessoal da Barroca, ia empinar pipa, ficava por ali o tempo inteiro. 

Eu ocupava o meu tempo dessa forma. Não consegui preencher com outras atividades, pelo menos na infância, até os meus quinze anos, quando eu consegui fazer o meu pai, a minha mãe e a minha avó racharem [o pagamento] do curso de informática básica pra eu fazer e acabava preenchendo os meus dias fazendo aquele cursinho ali, mas antes disso, não. Antes disso, ou ficava em casa estudando pra fazer o básico, ou ia pra rua jogar bola com os vizinhos, a criançada das redondezas, que tinha ali. 

Depois veio a internet, né? Começou a se popularizar o computador de mesa, a internet discada, depois a banda larga, e aí eu acabei deixando de ir pra rua pra ficar na internet. Foi aí que a gente ficava lá nas conexões virtuais, através do Orkut, do MSN, enfim, mas não consegui ocupar meu contraturno escolar com algo que fosse realmente produtivo. 

 

P/1 - E ao final do seu ensino médio, você já tinha ideia de que faria jornalismo?

R - A gente chega naquela fase que você tem que decidir o que vai fazer. Eu fiz vários testes vocacionais que os professores empurravam pra gente fazer, na época, porque você precisa se descobrir de alguma forma. Não é nesse primeiro momento que você se descobre, mas, enfim, já é um pontapé inicial pra sair do zero, né? 

Quando eu tinha meus dezesseis anos, em 2011, eu comecei a relacionar as matérias da escola que eu gostava muito. Eu sempre gostei muito de História, sempre gostei muito de Geografia, Sociologia e tudo o mais das áreas humanas. E eu gostava muito de escrever. 

Eu nunca me dei bem com Matemática, nunca mesmo. Sei o básico do básico, pra sobreviver e não passar vergonha, mas nunca me identifiquei a ponto de trabalhar com aquilo a ponto de ir trabalhar com engenharia, ciências biológicas, nada do tipo. Foi aí que eu comecei a pesquisar sobre o curso de jornalismo, sobre as atribuições, sobre a grade curricular e tudo o que o curso desenvolvia, e também as áreas que eu poderia atuar depois, porque é aquela preocupação, né? “Pô, vou fazer dezoito, vou estudar. Mas e daí? Vou trabalhar no quê? Vou viver do quê?” Comecei a me questionar muito nesse sentido, nessa fase da minha vida. 

A minha escola, no ensino médio, sempre provocava muito essa questão de vestibular, de simulado de Enem. Acabei pesquisando sobre cursos de jornalismo no Rio Grande do Sul. E por que no Rio Grande do Sul? Porque eu tinha um tio, o irmão da minha mãe, o Jorge Rodrigues, que morava na região da serra gaúcha, próxima de Veranópolis, próxima de Bento Gonçalves. Ele morou aqui durante quinze anos, se eu não me engano; quando eu tinha ali os meus quinze, catorze anos, ele me trazia pra cá, pra eu passar as férias e eu gostava da calmaria da cidade que ele morava, em Nova Bassano, na serra. 

Era uma cidade menor, todo mundo se conhecia. Você saía na rua sem ter preocupação de ser assaltado, de qualquer coisa de ruim acontecer com você. Era um ambiente muito mais tranquilo. Eu sempre gostei disso. Comecei a pesquisar universidades e faculdades no Rio Grande do Sul, porque na minha cabeça eu queria vir morar pra cá. E era isso mesmo, eu ia sair de casa, vir pro Rio Grande do Sul estudar e ia dar tudo certo. 

Foi aí que eu descobri a Universidade Federal de Santa Maria, aqui em Frederico Westphalen, no interior do estado do Rio Grande do Sul. Na época, era vestibular ainda, os processos eram através do vestibular. Você tinha que pagar a taxa de inscrição, vir pra cá e fazer a prova. Hoje, não; hoje é através do Enem, do Sisu, o que proporcionou que muitas outras pessoas de outras regiões do Brasil pudessem vir pra universidade federal, que até um primeiro momento era uma coisa muito regionalizada, ainda. Embora fosse federal, você tinha que saber questões de geografia sobre o Rio Grande do Sul, você tinha que saber história do Rio Grande do Sul, algumas coisas mais voltadas… 

Eu me inscrevi na época. Juntei um dinheirinho que eu tinha guardado lá, me inscrevi sem ninguém saber. Eu falei: “Eu vou fazer o treineiro. Em 2011, eu vou fazer o treineiro lá na Universidade Federal de Santa Maria.” Os meus pais, num primeiro momento, não botaram muita fé. 

Eu lembro que, lá no ensino médio, uma professora fez uma reunião conosco - individual, tipo uma entrevista mesmo, vocacional. Ela perguntou o que eu queria fazer e eu falei: “Olha, eu já me inscrevi no treineiro. Eu quero ir morar no Rio Grande do Sul e quero fazer faculdade de jornalismo”. Ela falou: “É, talvez. É melhor você esperar um pouco mais, você ficar mais maduro.”  Ela me disse, em outras palavras, de um jeito mais confortável, que eu não estava pronto pra sair de casa ainda. E eu olhei pra aquilo, pensei: “Não. Eu vou, sim. Não é o que ela está dizendo que vai me impedir. Eu vou e vou.” Aí eu me inscrevi. 

Contei pros meus pais. Eles não apoiaram no primeiro momento, mas depois falaram: “Vamos ver o que dá, né?” E aí me deram o maior apoio, né, pagaram a minha passagem. E eu vim de Itapetininga pra cá sem conhecer ninguém, sem conhecer nada da cidade. Tinha olhado no Google e visto mais ou menos como era a cidade. Falei: “Vou lá.” Reservei um hotel. 

Fiz a prova naquele primeiro ano, quando eu ainda estava no segundo ano do ensino médio, em 2011, pra ter a noção de como é que era o vestibular. Pela minha pontuação, eu teria já passado em jornalismo naquele ano mesmo, mas como ainda não tinha concluído o ensino médio não pude vir  Fiquei por aqui quatro dias e voltei pra São Paulo com a convicção de que eu ia vir, realmente, morar em Frederico, ia fazer jornalismo e era o que eu queria pra minha vida, naquele momento. 

Foi mais ou menos assim: juntei as minhas malinhas lá, vim pra cá, fiz a prova, conheci a cidade, me apaixonei pela cidade. Como eu falei pra você, é um ambiente muito diferente do que a gente vivia em Itapetininga. O ritmo é outro. As pessoas se conhecem. Tudo é mais perto, tudo é mais fácil. Lá atrás, eu tinha que atravessar a cidade, dez quilômetros pra ir assistir um jogo do Corinthians com o meu avô. Aqui não; aqui, em dez quilômetros, você cruzou a cidade inteira. Na minha cabeça, tudo era mais fácil e eu me agradei muito com isso. 

Vim pra Frederico Westphalen no ano seguinte, muito porque eu queria sair debaixo das asas dos meus pais. Eu queria sair daquele ambiente e não queria mais ficar por ali. Achei que, pra eu crescer na vida… Eu tinha na cabeça que eu precisava sair de Itapetininga, por isso insisti muito nessa história. 

Passei vários perrengues ali no começo, mas tudo acabou dando certo. E acho que uma das melhores decisões que eu tomei na minha vida foi naquela época. E àquela professora que me falou lá atrás que eu não estava pronto, que eu tinha que amadurecer mais, que eu tinha que me preparar melhor pra sair de casa, eu agradeço de coração hoje, porque foi ela que me deu esse gás pra poder sair de casa mesmo, botar a cara e ver o que acontece no mundo afora.

 

P/1 - Então, no ano seguinte, você prestou o vestibular novamente, foi aprovado e veio pra Frederico Westphalen? 

R - Exato, em 2012. 

Voltei em 2011 pra Itapetininga. Em 2012, cursei o terceiro ano do ensino médio. Fiz o Enem porque ele era obrigatório pra gente se formar e me inscrevi novamente no processo seletivo da UFSM. Eram três dias de prova. [Fiz] da mesma forma: reservei o hotel, comprei a passagem. Fiz a minha inscrição em outubro daquele ano, se não me engano, e vim pra cá fazer a prova. 

Fiz a prova do vestibular, então, nos três dias. Eu lembro que era um nervosismo muito grande, porque se você se esquecesse do título da redação era desclassificado. Eu tinha um medo muito grande das questões de exatas e biológicas, que eu não dominava muito. Se você zerasse qualquer uma das matérias, ou se zerasse uma matéria, era desclassificado no vestibular, alguma coisa nesse sentido. Lembro que uma questão foi anulada por erro da UFSM mesmo, então eu pensei: “Opa, já não sou mais desclassificado.” 

Fiz o vestibular e passei, realmente, e foi aí que eu voltei pra São Paulo, depois desses dias de prova. O resultado saiu em janeiro de 2013 e falei pros meus pais, então, que eu ia vir morar pra cá, que ia tentar a sorte e que, pelo menos, se desse tudo errado, eu tinha tentado. 

Meus pais, vou confessar pra vocês que, no primeiro momento, não aceitaram muito bem. Talvez pelo momento que a gente estava passando lá em casa, de algumas crises familiares, da separação dos meus pais. Isso também foi um motivo que me fez sair de lá, porque eu queria fugir um pouco dessa realidade, queria viver a minha vida, então, num primeiro momento, eles não apoiaram muito. Mas eu tive o apoio incondicional da mãe da minha mãe, a Dona Marli, e também do companheiro dela, que hoje está com Deus no céu, o seu Afonso Viso Romão; me apoiaram do começo ao fim e me disseram: “Não. O Vinícius quer ir, então ele vai. A gente vai dar um jeito e ele vai viver o sonho dele.” 

O meu pai, até no primeiro momento, tentou impedir de algumas formas. A gente ficou sem se falar uns dias antes de eu vir embora. Eu lembro que no dia vinte e sete de fevereiro de 2013 eu olhei pra minha mãe e falei: “Olha, mãe, sinceramente, já deu o que tinha que dar. Já reuni as minhas coisas. Já fiz a minha documentação. Tenho um pouquinho de um dinheiro guardado” - acho que não era nem mil reais na época, menos que isso eu tinha guardado. “Eu estou indo porque estou perdendo tempo aqui. Preciso ver onde é que eu vou morar lá. Eu preciso saber melhor, me localizar na cidade.” Ela falou: “Vai. Pega e vai.” 

Eu estava sem conversar com o meu pai naquele dia, por uma discussão besta. Fui e pedi pra ele: “Pai, me leva na rodoviária, que eu estou indo embora.” No dia seguinte, no dia 28 de fevereiro de 2013, que era o meu aniversário de dezoito anos, eu pedi carona pra ele: “Me leva na rodoviária, que eu estou indo embora.” 

Ele olhou meio que... Sabe quando você não acredita, né? Daí eu falei: “Se você não me der carona, eu vou pegar um táxi e vou. O meu ônibus está aí. Eu preciso ir.” E aí ele me levou, a gente se deu um abraço. Embarquei no ônibus e vim pro Rio Grande do Sul. 

Chegando aqui, no dia seguinte, no começo eu fiquei num hotel. Fui até a universidade pra ver anúncios de gente que alugava casas, apartamento, vagas pra  morar. Descobri uma galera que tinha uma casa; tinha uma vaga lá no apartamento, a duzentos reais o mês, com tudo incluso - dormir, internet e luz, só. Falei: “Ah, eu vou lá”, né? Entrei em contato com ele, paguei ali a mensalidade daquele mês e passei um ano morando com mais oito pessoas. 

Foi uma experiência muito chocante pra mim, porque até então eu tinha a minha mãe, o meu pai, eu tinha o meu espacinho, e fui morar com oito pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Tinha um rapaz que dividia quarto comigo, que falava alemão. Isso era totalmente diferente de qualquer coisa que eu já tinha visto. Tinha um outro rapaz que era de Salvador, então ele passava muito frio; eu lembro que ele nunca tinha visto neblina na vida. Em Frederico Westphalen, o inverno é muito rigoroso. 

Essas foram as minhas experiências. Foi um dos anos que eu passei o maior perrengue da vida, em 2013. Acabei crescendo muito nesse período, porque eu tinha que me virar. Eu tinha que saber como lavar a minha roupa, tinha que saber como fazer comida. Essas experiências novas foram agregando muito na minha vida. 

Eu saí de casa no dia que fiz dezoito anos. Vim na cara e na coragem, mesmo. Talvez, se eu tivesse pensando um pouco melhor, eu nem teria vindo. E hoje eu vejo que foi a melhor decisão que eu tomei. Eu saí e tudo aconteceu. E hoje eu estou aqui, conversando contigo. (risos)

 

P/1 - Essa mudança, pra você….Você falou sobre morar com várias pessoas, sobre sobre as mudanças que aconteceram. Nesse período, como você se sentiu, quando caiu a ficha: “Estou morando em Frederico Westphalen. Não é igual. Nem temperatura, nem nada.” Como você se sentia, nesse período inicial, na cidade?

R - Eu pensava: “Quero voltar. Ir embora.” (risos) Basicamente isso. Eu pensava: “Meu Deus, onde é que eu fui me enfiar? O que eu fui fazer?”

Teve um momento muito importante, eu diria, que foi o meu primeiro dia de aula na faculdade. Primeiro que eu não sabia nada, só sabia chegar até o campus. Não sabia onde era a minha sala, não sabia quem era a minha turma, nem nada. Eu só tinha aula naquele dia; era uma segunda-feira, durante a tarde, e eu fui de manhã pra faculdade. Eu fiquei lá a manhã inteira e acabei conhecendo o Leo, que é meu amigo até hoje, que também não sabia nada. Ele é daqui de Frederico Westphalen, mas ele não sabia nada. A gente se encontrou ali e passou a manhã inteira na lanchonete lá da faculdade, conversando. Aí, sim, a gente almoçou e teve a aula de tarde. 

Quando eu entrei naquele ambiente… Eu nunca esqueço a aula de Redação 1, com o professor Elias José Mengarda - que faleceu anos depois, mas que foi o meu primeiro professor na faculdade. Eu lembro que na primeira aula ele já deu uma aulai de gramática e tudo o mais. Eu [estava] achando meio estranho, meio diferente, mas tudo ok. 

Ele fez um intervalo e depois já falou sobre um artigo científico que a gente tinha que fazer, que era a atividade do semestre. Eu dependia daquilo pra poder avançar no semestre, senão ia trancar a minha faculdade. 

Cara, eu nem sabia o que era artigo científico. Eu não sabia o que era uma referência bibliográfica. Eu não sabia o que escrever, nem como escrever, nem nada, então foi um choque muito grande. Mas é nessa adversidade que a gente tem que lutar e tem que acabar crescendo, então, fui me “espertando”. Como eu te falei lá atrás, eu sempre fui muito comunicativo, conversava muito com as pessoas. Então, pede ajuda aqui, pede ajuda ali… Conheci um veterano, foi me dando uns toques.  Eu fui me virando sozinho, conhecendo as pessoas e tudo deu certo, mas foi um momento muito impactante. E eu pensava, muitos dias, mesmo, te juro... Porque até eu me enturmar, eu era sozinho. Inclusive, na época, a UFSM não tinha muito paulista, então eu era meio que o ponto de referência do negócio: “Ah, onde é que fica tal coisa?” “Ah, ali do lado do paulista.” Não tinha muita gente que vinha de fora, porque o vestibular era muito regional, né? Hoje, sim, tem pessoas de outras regiões do Brasil, então até eu conseguir me enturmar, realmente, conhecer pessoas ali que ficassem comigo até o final da graduação, foi bem difícil. Eu pensava todo dia: “O que eu vim fazer? Ah, eu vou embora.” 

Tu ia lá no banco, tinha dez reais pra passar mais quinze dias. Cara, era tenso, mas é aí que a gente aprende a se virar, né? Hoje eu agradeço muito aquele período, mas às vezes tinha vontade, sim, de ir embora e começar de novo, pensar em outra alternativa, sei lá. 

Acabei me enturmando, me ambientando um pouco mais e me adaptando a tudo o que acontecia por aqui. E fui gostando do curso, fui me interessando. Nunca gostei muito de teoria. Não me dava muito bem ali lendo, escutando o professor falar. Foi aí que eu comecei a ter as aulas de laboratórios, onde eu tive algumas vivências que foram importantes, até pra eu estar nesse momento aqui, de hoje. Foi quando eu comecei a pegar o gosto mesmo pelo jornalismo e saber que era isso que eu queria fazer na minha vida, dali pra frente.

 

P/1 - E me conta um pouco mais sobre esse período da faculdade. O que você fazia no seu tempo livre? O que você acha que foi mais marcante, dentro desse período da faculdade, pra você?

R - Todo o meu período livre, na verdade, eu comecei a me ligar que eu não tinha mais a minha mãe pra me acordar de manhã e falar assim: “Levanta e vai. Levanta e vai pra aula, que está na tua hora.” Isso foi uma coisa que a vida foi me trazendo, de responsabilidade, de você assumir compromisso, ter a noção que você tem que cumprir os horários e se dedicar. Depois desse processo, desse choque inicial que eu acabei levando, eu fui me ambientando e conseguindo me esforçar melhor. E, como eu te falei, eu sempre gostei muito mais da prática do que da teoria, aí comecei a ter vivências com o radiojornalismo e com web radio. 

Na faculdade tinha um projeto de extensão chamado Agência da Hora, que era uma agência experimental de notícias, onde o acadêmico se inscrevia pra participar voluntariamente ou recebendo bolsa pra produzir notícias, programas de rádio, de tele, pra ter essa vivência do jornalismo experimental e pra ir produzindo, né? Cobrindo eventos, participando de coletivas de imprensa. E era um projeto muito interessante. 

Eu lembro que, na época, no segundo semestre de 2013, o coordenador do laboratório, que era o Gustavo Simões, foi propor que a gente preenchesse a grade de horário da web radio Da Hora, que era uma web radio que estava lá com toda a estrutura à disposição. A gente tinha que propor um programa pra preencher a grade de horários. Pensar em tudo: conteúdo, nome, identidade visual pras redes sociais e executar esse projeto. Num primeiro momento eu não me interessei, mas depois eu pensei: “Não, eu vou tentar. Vamos ver o que dá.”  Foi aí que eu propus o programa Rap é Compromisso, porque o rap sempre esteve muito atuante na minha vida e eu sempre escutei muito, graças ao meu pai, porque o meu pai era muito fã do Racionais. Ele conta que a primeira pessoa que escutou Racionais foi o pai dele, o meu avô Carlito, né? O meu avô era caminhoneiro e nessas idas e vindas ele estava passando por São Paulo, capital e ouviu na rádio lá: “Pô, galera que fala aí da polícia, da periferia e tal.” Contou pro meu pai. 

O meu pai conseguiu ter acesso ao trabalho dos Racionais, na época, nem sei como. Hoje em dia é tudo muito mais fácil, você tem ao seu alcance, na internet. Ele começou a ter contato com esse trabalho do rap, do gênero musical, do movimento hip hop. E eu me lembro, desde muito pequeno, do meu pai ouvindo o disco Sobrevivendo no Inferno, que hoje é um livro, inclusive, é questão de vestibular de universidades. Eu lembro dele cantando alguns clássicos, que nem O Homem na Estrada, Diário de um Detento, Pânico na Zona Sul, Mano na Porta do Bar. Cresci com o meu pai cantando isso, cresci com o meu pai me influenciando dessa forma e acabei me interessando também. 

Desde a infância, até os dias de hoje, eu sempre fui um fã assíduo do movimento hip hop como um todo, mas especialmente do rap, sempre escutei muito. E eu achava que na programação das rádios locais aqui não tinha muito esse movimento. A minha justificativa foi justamente essa: “Não tem nenhum programa de rap hoje, aqui na cidade, então vou fazer o meu. Embora não seja numa emissora oficial, eu vou fazer aqui na web radio da faculdade.” 

Era também uma forma, Genivaldo, de eu exercitar o jornalismo, na prática, porque eu não queria só sentar lá na frente lá da mesa de som, do computador e falar assim: “O meu nome é Vinícius. Eu vou tocar aqui uma música tal.” Eu queria trazer mais conteúdo e falar sobre toda essa relação com as causas sociais que o rap tem, desde a sua origem até hoje. Eu queria fazer um negócio mais profundo, porque [o programa] tinha duração de duas horas. 

Eu lembro que comecei sozinho. Depois eu chamei o meu amigo Vitor, que morava lá comigo, naquela casa, com outras sete pessoas, que era lá de Salvador; fazia Engenharia de Alimentos, não tinha nada a ver com jornalismo, nem nada, mas ele falou: “Eu vou junto”. E acabou indo junto comigo. Depois eu agreguei outras pessoas, que acabaram saindo, e continuei sozinho, fazendo esse programa. Toda semana, na terça-feira, eu ia lá na faculdade de noite, das sete até às dez; eu ficava lá na faculdade, entretido no Rap é Compromisso

Uma semana eu falava sobre rap do nordeste; eu falava sobre o rap só de mulheres; eu falava das novas vertentes, dos lançamentos; eu falava do pessoal das antigas e tudo o mais. Eu sempre tentava abordar um tema. E graças a esse meu contato com o movimento hip hop, né, especialmente com o rap, pela influência do meu pai, quando eu fiquei maior, eu tinha alguns amigos que também eram muito fãs de Racionais, do SNJ, do Sabotage, do RZO. E eu gostava muito do MV Bill, que eu conheci pesquisando na internet. 

Eu comecei a descobrir que o MV Bill não era só um cantor, ele não era só um cara que fazia umas rimas ali. Ele tinha um trabalho social muito importante, que fundou junto com o Celso Athayde, no final dos anos noventa, chamado Cufa [Central Única das Favelas]. Eu sempre conheci o trabalho da Cufa em nível nacional, por conta do rap que o MV Bill cantava, desde lá de trás, e sempre admirei muito o trabalho da Cufa, porque era uma coisa muito diferente. Era uma entidade que representava os moradores de periferia, os moradores da favela e todos aqueles movimentos que eram marginalizados. Sempre gostei muito do trabalho da Cufa, graças ao MV Bill.

O meu pai me colocou aqui dentro hoje, também, de alguma forma, indiretamente. E foi aí que, andando em Frederico Westphalen, um dia, depois que eu já fazia o meu programa, que eu estava passando na Rua do Comércio - pra quem conhece Frederico Westphalen, é a rua principal do comércio de Frederico, localizada no Centro. Andando pela rua, eu olhei numa parede, do lado de uma loja de roupas; eu vi lá “Cufa Frederico Westphalen”. Eu falei: “Pô, cara, mas tem Cufa aqui em Frederico? Mas eles fazem o que, aqui?” 

Até então, eu tinha uma visão diferente e totalmente fantasiosa do que eram as cidades aqui do Rio Grande do Sul, porque eu só vinha pra passear. Eu achava que tudo era uma calmaria, que não tinha problema nenhum, que não tinha gente que passava fome, que não tinha esgoto a céu aberto, que não tinha barraco de madeira. Eu achava que não existia nada disso. Eu achava que estava, sei lá, na Disney, entendeu? Daí eu olhei aquele trabalho ali, olhei aquela placa e falei: “Pô, cara, mas olha só que legal. Uma organização mundial que tem aqui também. Eu preciso saber quem é esse pessoal.” 

Pergunto pra um, pergunto pra outro ali, dos meus colegas, e acabei conhecendo o Junior Torres, que é o coordenador da Cufa aqui de Frederico Westphalen, há treze anos. Entrei em contato com ele, porque queria saber mais sobre o trabalho, sobre o que eles faziam aqui. Entrei em contato com ele, pelo Facebook, os colegas dali me passaram. Eu falei: “Junior, meu nome é Vinícius. Sou estudante de jornalismo. Eu tenho um programa numa web radio, chamado O Rap é Compromisso, e quero levar você lá pra fazer uma entrevista.” Ele ia ser o primeiro entrevistado do meu programa que, pra mim, pô, era uma honra imensa, porque eu só ficava lá falando com o computador. Eu acho que nem a minha mãe me escutava, às vezes. Eu ficava lá e de repente eu ia ter um entrevistado. 

Isso [foi] em dezembro daquele ano, em 2013. O Junior não me deu muita bola, não me deu moral. Ele não falou comigo durante uns seis meses. Ele só me enrolava, falava: “Tal dia eu vou. Ah, não tranquilo, semana que vem. Bah, hoje deu um problema. Eu não vou poder ir.” Até que um dia, de incomodá-lo tanto… Eu incomodei tanto esse cara, que ele falou: “Eu vou lá no teu programa. Hoje eu vou lá, vou dar uma entrevista pra ti.” 

Eu lembro que o Junior chegou e ainda colocou uma marra. Ele falou assim: “Olha, eu só tenho uma meia hora pra ficar aqui. Eu não tenho muito tempo. Tenho uns compromissos. Eu vou embora.” Daí eu: “Não, não. Claro, sem dúvida. Fica aí, vamos conversar. Eu quero saber sobre o que vocês fazem e tudo o mais.”

Começou o meu programa. Botei [pra] transmitir, botei [pra] gravar. A gente começou a conversar e naquela noite a gente passou umas duas horas e meia conversando sobre o trabalho que ele desenvolvia, sobre tudo o que ele já tinha feito até então, sobre o que ele estava fazendo naquele momento. Isso [foi] em 2014. Quando acabou o programa, eu falei: “Pô, cara. Passou do teu horário, aí. Desculpa, Junior. Ele: “Não, não tem problema.” 

Depois do programa, ele me convidou pra apresentar o programa Espaço Cufa - que é até hoje transmitido na Rádio Comunitária, uma emissora aqui do município de Frederico - que estava meio parado, na época. Era ele mesmo que apresentava. Ele falou: “Não, eu quero que tu vá apresentar.”

O Junior, até hoje, foi o único entrevistado que o meu programa teve. O resto era só eu sentado lá, ouvindo música e falando sobre outras coisas. Ele passou por lá e a gente nunca mais perdeu o contato depois disso. 

Passou todo aquele ano de 2014. Eu fui evoluindo ali na faculdade, passando nos semestres e nas matérias. E no ano seguinte, em 2015, o Junior ia promover o Festival da Juventude, aqui em Frederico Westphalen. O Festival da Juventude era um evento que, na época, eu acho que nem o Junior sabia direito o que era e que hoje é um dos maiores eventos voltados pra juventude do estado do Rio Grande do Sul. Ele ia propor uma agenda toda voltada pra juventude, em torno de oficinas, palestras, sorteios e shows. E o principal show daquele ano era do MV Bill. Ele ia trazer o fundador da Cufa pra Frederico, pra fazer um show gratuito, e precisava de uma assessoria de imprensa. Ele precisava de uma equipe ou, enfim, de alguma pessoa, pra fazer a cobertura desse evento. 

A gente se encontrou lá na faculdade, ele me falou: “Olha, precisa assim, assado.” Eu falei: “Vamos, sim. Vamos lá.” Eu juntei uma equipe de quinze pessoas, botei à disposição dele. Fiz uma reunião, falei. Ele foi lá, apresentou a iniciativa, o que ia acontecer. A gente montou essa equipe, fez a cobertura, através da agência Da hora, lá da faculdade, pra ele. Escrevia release, mandava pros meios de comunicação aqui da cidade, gravava vídeos, fazia foto, fazia texto, atualizava as redes da Cufa. 

Dessas quinze pessoas, todas - passou o período do festival ali - saíram e eu fiquei, de forma voluntária. E eu lembro que, naquele ano, eu nunca vou esquecer, no dia dezessete de abril de 2015, o MV Bill fez um show aqui em Frederico Westphalen, que era pra ser na frente da catedral e deu um chuvão absurdo. Molhou o equipamento do pessoal e foi mudado pra uma casa de shows aqui, de última hora. Eu tive o meu primeiro contato com o MV Bill, que era o ídolo que eu escutava lá atrás, influência do meu pai, que foi através dele que eu conheci o trabalho da Cufa. Esse foi um dos pontos mais marcantes da minha vida, nesse sentido; enquanto acadêmico, pude fazer voluntariamente a assessoria do Festival da Juventude e iniciar a minha trajetória dentro da Cufa. 

Eu lembro [que] uns dias antes disso… O Junior sempre foi um cara de desafiar muito a gente. Ele ligou, um dia chegou, pegou o celular dele, ligou, jogou em cima da mesa tocando e falou: “É o MV Bill. Entrevista o MV Bill aí, que a gente vai lançar agora nas nossas redes - o MV Bill falando do show que ele vai vir fazer.” Lançou pra mim. Eu olhei e falei: “Cara, sério?” Ele falou: “Sim, sim. Está chamando. Presta atenção aí, que está chamando. Entrevista o MV Bill”. E aí eu entrevistei o MV Bill, cara. Foi o meu primeiro contato, assim, do nada; eu não imaginava, né? E pude conhecê-lo pessoalmente. Uma referência, pra mim, um ídolo. Eu pude ter esse contato através da Cufa. 

Esse foi o momento mais marcante, eu diria, da minha graduação, que teve uma relação direta com o que eu pude fazer depois disso, né? Eu pude aplicar tudo aquilo que eu conheci na faculdade, tudo aquilo que eu aprendi, nessa organização aqui em Frederico, nos bairros, em tantas localidades, em outros municípios aqui da nossa região também. Eu diria que o meu programa lá, O Rap é Compromisso - que depois acabou, é uma pena que ele acabou - me serviu pra ser o que eu sou hoje e ter construído tudo o que eu fiz, hoje. 

 

P/1 - O seu primeiro contato com a Cufa, você já deu uma introdução pra gente. Depois desses eventos que você falou, depois que você finalizou a faculdade, você permaneceu já direto na Cufa?

R - Exatamente. Eu já era voluntário. Passou o Festival da Juventude; depois do show do MV Bill e tudo o mais, o Junior me convidou. Ele falou: “Olha, se você quiser fazer um estágio voluntário aqui na Cufa, está convidado. Você vai atualizar as nossas redes, vai tirar fotos dos projetos, vai fazer texto, vai fazer release, vai fazer vídeo.”

Na faculdade, a gente tem um negócio chamado horas, atividades complementares da graduação, as horas de ACG. Ele me dava o certificado de que eu tinha trabalhado voluntariamente, fazendo esse estágio não obrigatório, mas que me ajudava lá também. Eu comecei como voluntário aqui dentro, em 2015, depois do Festival da Juventude, e acabei nunca mais saindo. 

No final daquele ano, em 2015, eu tive a minha primeira experiência com gestão de projetos, pra qual o Junior me desafiou novamente, me incumbiu dessa missão. E também nesse ano de 2015 teve uma das coisas mais importantes da minha vida, que foi a produção do livro Cidade de Todos, que foi um livro que nós lançamos, que nós escrevemos e publicamos, contando a história da Cufa Frederico Westphalen, até aquele ano - até 2015, onde a Cufa ainda tinha seis anos de atividades. Eu pude, junto a outras pessoas que também são autoras do livro, que colaboraram conosco aqui, na época… Junto ao Junior também. Eu sou um dos quatro autores do livro Cidade de Todos, que tem registro na Biblioteca Nacional. Eu fiz um resgate histórico de tudo o que tinha acontecido na Cufa, os fatores que levaram à fundação da Cufa no Brasil e que levaram à fundação da Cufa aqui em Frederico Westphalen, quem convidou o Junior pra participar desse projeto, como ele começou lá atrás. Entrevistei pessoas que abriram portas, digamos assim, nas comunidades, que levaram pras pessoas e disseram assim: “Olha, esse pessoal aqui está se propondo a fazer isso em prol da comunidade, em prol do desenvolvimento social aqui do local.” Entrevistei todas essas pessoas, depois a gente organizou tudo. As outras meninas que, na época, eram colaboradoras, fizeram a diagramação e o Junior mandou pra gráfica, pra editora, pra publicar esse livro. 

Na época foi muito bacana, porque imagina, eu enquanto jornalista, enquanto acadêmico de jornalismo, já poder lançar um livro. Ter um livro publicado, pra mim, foi uma experiência enorme, foi uma experiência muito bacana e que eu guardo com muito carinho, até hoje. Inclusive, a gente sempre fala em escrever um livro desses seis anos pra frente, porque já aconteceu muita coisa de lá pra cá, fatores muito importantes na nossa história, que impactaram muito na vida das pessoas. A gente sempre se desafia, né? Fica comentando: “Pô, vamos escrever outro” e acaba deixando de lado, mas eu tenho certeza que vai sair. 

Naquele ano eu pude conhecer o meu ídolo, que era o MV Bill, e pude participar da produção do livro Cidade de Todos. Cidade de Todos porque a gente tinha um conceito, que é o seguinte: em Frederico Westphalen nós não temos transporte público. A nossa cidade é cortada pela BR 386, então tem muitas pessoas que moram longe do Centro e que não podem, muitas vezes, vir ao Centro sem ser andando ou com carona, ou com carro particular, porque não tem transporte público. Coincidentemente, grande parte desses bairros que se encontram em situação de vulnerabilidade social estão do outro lado da BR, onde a nossa sede é construída e atende hoje. A gente dizia que Frederico Westphalen era a cidade de todos, graças ao trabalho que a gente desenvolve e graças a tudo isso que foi acontecendo. 

Na época, a gente pensou em vários modelos de capa. A gente tentou não ser ofensivo com ninguém, porque esse não era o intuito e sim narrar a história da Cufa Frederico Westphalen. Eu lembro que a gente virava a noite pensando na diagramação, no conteúdo, em como escrever melhor. 

Naquele ano, isso foi muito marcante pra mim. O lançamento do livro foi na Feira do Livro do município, inclusive. Nós fizemos quinhentas cópias e distribuímos de graça pra crianças e adolescentes das escolas públicas aqui do município de Frederico Westphalen. E também mandamos uma cópia pro Celso Athayde, pro MV Bill, pro Manoel Soares, que é repórter da Rede Globo hoje e é liderança da Cufa no Rio Grande do Sul e pra outras lideranças, como o Preto Zezé, que hoje é o presidente nacional da Cufa. Cada um desses, os fundadores da Cufa, receberam um exemplar do nosso livro, e também os nossos familiares. 

Como foram feitas só quinhentas cópias, é um negócio muito raro, nem eu tenho mais uma cópia; a gente tem uma aqui no escritório. Mas foi muito bacana, mesmo.

Passado esse período, o Junior… Surgiu a oportunidade de me remunerar pela primeira vez, pra exercer ‘n’ atividades aqui na Cufa. Foi quando eu comecei a fazer outras atividades, que não o jornalismo. Eu parei de fazer só assessoria de imprensa e comecei a acompanhar alguns projetos que a gente tinha aqui, num município vizinho chamado Iraí, que é na divisa com Santa Catarina, na beira do Rio Uruguai. Na época, a gente tinha um projeto que desenvolvia aulas gratuitas de futsal, aulas gratuitas de circo, apresentações, torneios, e ele me colocou pra ser coordenador de tudo isso. Eu tinha que garantir que as atividades iam acontecer, que não ia faltar material, que o professor ia estar lá. Eu tinha que fechar a agenda com as escolas, com a Secretaria da Educação, com a prefeitura, garantir o transporte. Eu tinha que gerenciar, digamos assim, o projeto; depois, prestar conta desse projeto. 

Essa foi a minha primeira experiência. Deu tudo certo, foi muito bacana. Foi onde eu pude palestrar na área indígena nangã lá de Iraí. Os povos indígenas, aqui na nossa região, são muito presentes, têm comunidades muito grandes. E foi a primeira vez que eu tive que falar pra um público maior, na minha frente, sobre evasão escolar e a importância da frequência escolar nas comunidades indígenas. 

Foi lá que eu apresentei o livro. Foi lá que eu falei um pouco do que eu era até então, não tinha muita carga de experiência. Mas dizia que a frequência escolar era importante, por ‘n’ motivos e tudo o mais. 

Esse foi o meu primeiro contato com comunidade indígena porque, até então, lá na minha região não tinha. Nunca nem tinha entrado numa comunidade indígena, né? Esse foi o meu primeiro contato, através desse projeto, que era... O nome do projeto era Esporte, Cultura e Cidadania, Esporte, Cultura para a Cidadania, alguma coisa assim, desenvolvido nas escolas. Foi muito bacana naquele ano. 

Também nesse processo, passando o tempo, eu fui me envolvendo nas atividades. Chegou num momento que o Junior falou: “Olha, eu só posso te remunerar agora se for pra fazer aulas de futebol. Se tu puder dar aula de futebol, tem uma vaga assim, assado. Tu é um cara que tem experiência”, porque eu tinha a vivência, era muito interessado em aprender.  Ele falou: “Tu vai ter que entreter a galerinha lá. Tu vai ter que dar uma aula que, realmente, tenha a ver com futebol. Ou é isso, ou vai pra casa, ou continua voluntário.” Aí eu falei: “Não, vou abraçar essa. Vou até o fim. E vamos lá.” 

Eu chegava da faculdade - ainda fazia faculdade também - sentava, montava o meu plano de aula, pensava em atividades. Comecei a trabalhar numa localidade chamada Iguaçu, que também é na beira do Rio Uruguai. É no interior do município de Santa Catarina - do município de Caiçara, perdão. Essa localidade é muito marcada pela vulnerabilidade social, enfim, por ‘n’ questões negativas que tem ali, em torno da escola onde a gente trabalhava, mas tinha um público muito legal, tinha um corpo docente muito legal. Os funcionários da escola eram muito dedicados, nos receberam muito bem. Os alunos até hoje entram em contato, interagem, encontram na rua, falam: ”Pô, que bacana.” Lembram da gente com muito carinho. 

Foi ali que eu comecei a dar aula de futebol, dava aula de futsal. O meu timezinho ficou campeão do município naquele ano, com as aulas que eu dava ali. Foi muito legal, mesmo. No final do ano, o Junior me propôs a fazer uma exposição fotográfica, dar aula de fotografia pra aquela galera que eu atendia lá, semanalmente, com as aulas de futsal. Foi aí que eu comecei a trabalhar com fotografia. Eu já tinha a minha experiência, apenas de fazer fotos, mas eu tinha que sentar e ensinar uma criança a operar uma câmera profissional ou um dispositivo que ele tenha ao alcance dele, de acordo com a sua realidade. Hoje qualquer celular tem câmera e ele é muito mais popular. Comecei a ensinar isso, com o intuito de fazer com que as pessoas utilizem esses dispositivos em favor da sua comunidade.

É uma ferramenta pra consolidação da cidadania, né? A gente não quer que seja o melhor fotógrafo, o melhor atleta, mas que seja o melhor cidadão. 

Foi assim que começou a Cufa. O Junior dava aula de taekwondo pra jovens de baixa renda, afim de estudar os impactos que a artes marciais, o taekwondo, traziam pra autoestima e autoimagem desses jovens. Ele dava essas aulas e fazia o TCC dele, de acordo com os resultados que ele ia obtendo. E esse projeto deu tão certo que ele nunca mais parou, foi agregando outras áreas. Recebeu o convite do Manoel Soares pra representar a Cufa aqui em Frederico Westphalen e nunca mais parou. Esse é o nosso intuito. 

Isso foi uma coisa que eu assimilei muito naquela época, quando eu comecei a trabalhar com a oficina de fotografia. E o desafio foi muito grande, porque ele falou: “Olha, você tem duas semanas pra fazer uma exposição.” Eu nunca tinha dado aula de fotografia, não sabia nem pra mim, direito, quem dirá pra ensinar. E aí, mais uma vez, senta, estuda, vai pesquisar, pensa numa metodologia mais fácil pra ensinar pras crianças. 

A gente conseguiu fazer um registro muito bacana. A gente fez uma exposição lá dentro da escola e foi muito legal, mesmo. E essa foi a minha iniciação, sabendo que eu tinha que fazer ‘n’ coisas e que eu tinha que viver me desafiando, pra conseguir nunca mais parar e nunca mais sair dessa organização.

 

P/1 - Eu queria que você comentasse um pouco [sobre] como surgiu a ideia e como aconteceu a criação do Centro Cultural de Desenvolvimento Social da Cufa, aí na cidade.

R - Muito bem. O Centro Cultural e de Desenvolvimento Social da Cufa é uma demanda histórica do nosso município, de toda classe artística e cultural e todos aqueles que buscavam um local pra abrigar espetáculos, pra abrigar ensaios. Ele surge com essa demanda, porque aqui no nosso município nós não temos nada semelhante. 

Lá atrás, o Junior e o seu pai, o seu Roberto Torres, iniciaram o sonho desse projeto, que era de construir uma sede que servisse pra abrigar todas as atividades da Cufa Frederico Westphalen e também pra suprir essas demandas. Pra que a gente tivesse à disposição da comunidade um local pra fazer aulas culturais, de circo, de teatro, pra fazer eventos públicos. 

Não existia nada semelhante, até esse momento. Foi aí que a Cufa recebeu esse terreno, onde hoje o Centro Cultural está instalado. Um terreno que era um aterro sanitário, então tinha que fazer escavações de dez metros pra chegar à laje, de tanta coisa que saía daqui de lixo - geladeira, sofá, pneu. Era um local que não servia pra muita coisa, né? Tinha só um campinho de futebol, aqui em cima. E que não tinha nada à disposição da comunidade. 

Através de uma rede de colaboradores, eu auxiliei nesse processo também: a escrever o projeto em toda a parte da execução física mesmo, da justificativa e metodologia, e dizer por que esse projeto era importante. [Apresentamos] pro sistema Pró-Cultura, onde nós cadastramos o projeto, da maneira que deveria ser, na Secretaria de Estado da Cultura, na lei de incentivo à cultura do estado do Rio Grande do Sul. Esse projeto passou por toda a avaliação da secretaria, depois do Conselho Estadual de Cultura, e finalmente foi aprovado. Foi aprovado pra gente captar o ICMS junto às empresas pra viabilizar a construção desse projeto. 

A Cufa Frederico Westphalen conta com o patrocínio da Arbaza Alimentos há muito tempo. Foi a empresa que, nesse momento, abraçou essa causa do Centro Cultural e que patrocinou esse projeto, que depois desse período foi concretizado. 

Ele iniciou a sua obra em 2017 e foi inaugurado no dia dezesseis de dezembro de 2018, com um show do MV Bill; com participação do Preto Zezé; do Celso Athayde; do Isaac Souza, que é um dos maiores grafiteiros do Brasil, lá de Toledo, do Paraná; também com a participação do Chimia de Passo Fundo, que é outro grafiteiro espetacular, que produziu um mural; os dois, em conjunto, produziram um mural espetacular aqui no nosso centro. 

O Centro Cultural foi construído num tempo recorde; qualquer obra pública não teria o mesmo valor, não teria a mesma economicidade, e não conseguiria ser feita num prazo tão curto - o projeto foi concretizado em apenas oito meses. 

O nosso centro, hoje, está instalado no bairro Jardim Primavera, onde antes era um aterro sanitário, e hoje ele abriga todas as atividades da Cufa Frederico Westphalen: as oficinas culturais, as oficinas sociais, os cursos de capacitação profissional. E ele também dispõe de estrutura pra ser multiuso, na verdade, então a gente usa pra tudo um pouco. E ele está à disposição da comunidade. 

Nós temos a sala do administrativo, temos as oficinas acontecendo, temos sala pra evento. Banheiros adaptados. Temos a biblioteca. Temos uma sala de costura, enfim. Temos a cozinha, temos alguns depósitos. É uma estrutura que… Lá atrás, quando eu conheci o Junior, quando eu conheci a Cufa, eles tinham apenas um escritório, uma sala não muito grande, de uns quatro metros, mais ou menos, que não tinha banheiro e que não tinha janela. Aliás, até tinha uma janela, mas não abria. Esse era o escritório da Cufa lá atrás, e mesmo assim, mesmo com todas as adversidades, o pessoal não desanimou, continuou trabalhando. Sempre sonhando alto, trabalhando com muita humildade, e de forma incansável, sempre. 

Pra mim é um motivo de orgulho, ter participado da produção desse projeto e visto a concretização desse sonho, que não era um sonho só do Junior e do pai dele, ou do Vinícius, ou de outras pessoas. Era um sonho conjunto, que foi construído em colaboração com muitas pessoas, com uma rede de colaboradores, com fornecedores aqui do município, fazendo girar a economia local. Foi construído com muitas mãos e de uma maneira muito responsável e muito transparente também. Na época, a gente fez uma página que chamava Portal da Transparência do Centro Cultural e Desenvolvimento Social da Cufa, onde a gente colocava todo o andamento da obra, onde a gente foi dando o passo a passo pra toda comunidade.

A obra até hoje é aberta. Não tem paredes, não tem grades, nem cerca, nem nada. Ela é pra uso da comunidade, mesmo. Tem internet vinte e quatro horas liberada. Tem uma quadra ali fora, que o pessoal usa pra jogar o seu futebol. Tem as arquibancadas, onde as famílias vêm tomar o seu chimarrão. E aqui a gente abriga todo o nosso administrativo, as oficinas e as outras ações. 

Nessa estrutura, Genivaldo, nós concentramos todas as mais de quatrocentas toneladas de doações, que nós distribuímos em quinze municípios aqui do estado do Rio Grande do Sul e também Santa Catarina, como parte das ações que a Cufa vem adotando em Frederico e também em todo o Brasil, pra amenizar os impactos da pandemia nas famílias que encontram-se em situação de vulnerabilidade social. Porque a gente sabe que na pandemia aquele que tinha pouco passou a não ter nada e aquele que tinha mais ou menos passou a ter pouco. A gente sabe da necessidade das famílias e de todos os impactos econômicos, que foram arrasadores, sobretudo pra essas famílias que se encontram em situação de risco. Então, a Cufa também… Quando começou a paralisar tudo - as escolas, com as aulas presenciais; a indústria; as atividades culturais; as atividades esportivas - as pessoas nos mandavam fotos da geladeira vazia. As pessoas tinham lá… Grande parte dos diaristas, que trabalhavam por dia como pedreiro, como faxineira, acabaram tendo a sua renda reduzida a nada durante um bom período e isso foi impactando na vida das famílias, então, a Cufa passou a dar suporte pra essas famílias, nesse momento. 

Nós arrecadamos itens de gênero alimentício. Nós fizemos grandes doações de cestas básicas aqui no nosso município e também em outros municípios da região: Nonoai, Itatiba do Sul, Passo Fundo, enfim, ‘n’ localidades aqui no nosso município. Nós fizemos entregas de unidades de álcool em gel, de máscaras reutilizáveis; naquele período onde nem matéria-prima se tinha muito pra produção de álcool em gel, a gente conseguiu arrecadar esses itens. Nós fizemos uma entrega muito marcante, que foi junto à foz do Chapecó Energia, que é uma empresa do grupo CPFL, em todos os municípios que são abrangidos pela usina, tanto no estado do Rio Grande do Sul, quanto de Santa Catarina, como insumos hospitalares pros órgãos de saúde e pra hospitais aqui da nossa região. 

Nós mobilizamos uma série de doações e utilizamos o Centro Cultural como a referência, o centro de distribuição de doações. Ele deixou de ser só o nosso Centro Cultural, com as atividades e o administrativo, pra também servir de referência pras pessoas, pras famílias e pros hospitais da nossa região também. O Centro Cultural acabou adotando, de fato, esse viés de desenvolvimento social, nesse período de pandemia. 

Já faz mais de um ano que a gente está nessa luta. Hoje mesmo, recebemos mais de duzentos e cinquenta cestas pra entregar pra 250 famílias, que são cadastradas e atendidas pela Cufa aqui no nosso município. Enfim, as atividades são muitas. E por aqui já passaram mais de quatrocentas toneladas de doações, de diversos itens.

Esse Centro Cultural foi considerado, pela Assembleia Legislativa do estado do Rio Grande do Sul, como de relevante interesse cultural do estado. Através de um projeto de lei, elaborado pelo deputado estadual Edson Brum, o Centro Cultural acabou recebendo esse reconhecimento, por todo o trabalho que ele vem desenvolvendo, por ser essa referência pra comunidade e pelo fato dele existir. É uma estrutura que não existia em Frederico e hoje ela existe e é referência no nosso município e da nossa região.

 

P/1 - Eu queria que você comentasse um pouco, Vinícius, detalhasse um pouco mais a respeito das atividades que vocês forneciam antes da pandemia -  os cursos, as oficinas, que tipo de opções a comunidade tinha, e o que ficou permanente, o que foi possível manter. Ou se foi suspenso temporariamente, durante esse período, do início da pandemia pra cá. 

R - Bom, nós tínhamos uma agenda muito ampla, com uma série de atividades gratuitas, fazendo o contraturno escolar; eu falei pra ti lá atrás, no começo dessa entrevista, que eu tive contato e que hoje vejo que é de suma importância pras nossas crianças e adolescentes. Nós tínhamos atividades esportivas e culturais, aulas de futsal, de taekwondo, música, teatro, circo, fotografia, cursos de violão. Enfim, nós tínhamos ‘n’ atividades, que aconteciam de forma presencial. 

Posteriormente a essa paralisação, a gente começou a atender as famílias dessas crianças, porque muitas delas encontravam-se e encontram-se em situação de vulnerabilidade social. Hoje, graças à mudança no cenário, o avanço da vacinação, a gente conseguiu retomar muitas atividades de forma presencial, mas sem dúvidas, respeitando todos os protocolos que são exigidos pela Covid-19, que ainda está muito presente na nossa região. A gente tem atividades presenciais, tem atividades no modelo híbrido, acontecendo. Algumas têm o presencial e tem à distância, outras têm só à distância. 

Um exemplo disso que eu gostaria de citar, Genivaldo, se tu me permite, são as atividades que acontecem nos municípios de Nonoai, que é outro município aqui do interior do estado do Rio Grande do Sul, situado a mais ou menos setenta quilômetros de Frederico Westphalen, que acontecem com o patrocínio da CPFL Energia e o apoio do Instituto CPFL, e que disponibilizam, semanalmente, aulas de dança, futsal, karatê, circo, música, fotografia e grafite, atendendo centenas de crianças e adolescentes. Esse projeto passou por essa adaptação, nunca deixou de atender as crianças, seja à distância ou de forma presencial, ou destinando, até mesmo, doações às suas famílias. E hoje, graças a uma mudança no nosso modo de trabalhar, nós continuamos as atividades do projeto. Se antes uma turma tinha trinta alunos, hoje a gente tem três turmas com dez alunos, vamos supor. A gente acabou fracionando. Todo mundo usando máscara, sempre álcool em gel e tapete sanitizante à disposição dos alunos, higienização do local, tempo reduzido de aula, pra atender esse protocolo que é necessário, o nosso plano de contingência. 

Em Itatiba do Sul, que é outro município também situado aqui no interior do estado do Rio Grande do Sul, nós temos atividades que também são patrocinadas pela CPFL Energia e têm o apoio do Instituto CPFL em andamento, de forma híbrida. Os professores passaram a atender os alunos à distância e também tem as atividades presenciais: aulas de viola caipira, dança, aulas de xadrez, aulas de música, aulas de futsal, que são, muitas vezes, a única opção no contraturno que aquele aluno tem, então essas aulas são de suma importância. 

Em ambos os municípios, elas têm uma aceitação muito grande por parte das famílias e elas têm também uma grande adesão dos alunos, porque eles ocupam todo aquele tempo que eles teriam ocioso fazendo alguma atividade que é útil pro seu dia a dia. E como eu disse em vários momentos aqui da nossa entrevista, elas são não só pra formar grandes atletas, grandes fotógrafos, grandes artistas, mas sim pra formar grandes cidadãos. 

As nossas atividades, hoje, são viabilizadas pela CPFL Energia, com o apoio importantíssimo do Instituto CPFL. Elas estão em andamento, atendendo as comunidades na nossa região. Nós tivemos, então, essas atividades paralisadas, num primeiro momento; passamos a atendê-las, as crianças, de outras formas e as suas famílias também. E hoje a gente consegue cumprir essa demanda de forma híbrida, então [são] um pouco à distância e um pouco presencial.

 

P/1 - Você está há cerca de seis anos na Cufa. Quais pontos você acha marcantes nessa trajetória? Tanto pessoalmente, quanto institucionalmente. 

R - Eu acho que o trabalho da Cufa me proporcionou conhecer todo o lado B do nosso município. Como eu te falei em algum momento, eu acreditava que aqui no nosso município não existia pobreza, não existia problemas. E quando eu conheci o Junior, lá atrás, eu pude conhecer o lado B do nosso município, eu pude ir do outro lado do asfalto, falando de forma prática. Pude conhecer outras realidades. Muitos acadêmicos aqui do nosso município - não vou falar só de uma universidade,  pra não ser algo particular – vêm pra ‘n’ instituições que tem aqui no nosso município, passam por aqui durante a sua graduação e muitas vezes não aplicam esses conhecimentos que adquirem na instituição na comunidade, que é onde esse conhecimento tem que estar. 

Eu pude conhecer esse outro lado da cidade e pude apagar na minha cabeça aquela estética que a gente tem de favela, de dizer: “Ah, Central Única das Favelas, mas Frederico não tem favela”. Não, mas a gente sabe que o trabalho que é desenvolvido através dessa organização é de suma importância pra gerar o desenvolvimento social nessas localidades, que há, infelizmente, muitas pessoas em situação de vulnerabilidade e privação de direitos básicos. 

A Cufa funciona como uma grande articuladora nessa aproximação entre a comunidade e as políticas públicas, na democratização das oportunidades. Eu passei a entender isso, passei a entender o meu papel na sociedade. 

Tem uma frase do Junior, o nosso coordenador, que ele falou no TedX, que é um evento internacional, onde ele palestrou. Ele falou o seguinte: que a transformação social só será realidade quando cada setor da sociedade entender o seu papel. Acho que é, realmente esse o ponto; acho que é todo mundo se inserir e contribuir de maneira positiva, pra que a gente alcance grandes avanços. 

Pra mim, enquanto pessoa, isso foi uma lição esplêndida. Eu aprendi muito aqui dentro dessa casa. Eu cresci muito tendo contato com as pessoas. Conheci ídolos como o MV Bill; conheci o Emicida; conheci o René Silva, lá do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, o Voz das Comunidades, o jornal que desempenha um trabalho muito importante no jornalismo comunitário. Conheci pessoas que hoje são minhas amigas e que também me inspiram. 

Conheci a minha esposa através da Cufa; a conheci e hoje tenho a minha filha graças à Cufa também, eu diria, porque a conheci trabalhando, (risos) entregando unidades de álcool em gel. Devo muito à Cufa. E, enquanto profissional, eu acho que toda a vivência que eu tenho aqui na Cufa acrescenta muito na minha vida, pelo fato de eu sempre me entregar muito pro trabalho, eu sempre me dedicar de cabeça em tudo aquilo que eu estou fazendo, porque eu acredito que é, realmente, muito importante. Porque eu sei que o meu trabalho aqui, sentado nesse escritório, vai impactar na vida de muitas crianças lá na frente. Vai possibilitar que muitas crianças, tenham a sua aula de futebol, tenham a sua aula de caratê, a sua aula de música, que eles possam aprender com profissionais qualificados pra se tornarem grandes cidadãos. Que eles tenham as oportunidades que eu, lá atrás, tive, que o meu pai pôde me dar com muito esforço, com muita dedicação; que eles tenham isso de graça, porque isso é um direito constitucional. 

Também me ensinou a me desafiar demais, me ensinou a ser uma pessoa multifacetada, que faz muitas coisas e que está pronto pra qualquer coisa - seja pra puxar cinco toneladas de cesta básica e entregar nos bairros, durante o dia, seja pra escrever uma reportagem e falar sobre a Cufa, sobre os projetos que são desenvolvidos. Seja pra elaborar um projeto, seja pra escrever um livro, seja pra limpar o chão. Seja pra puxar saco de cimento, como a gente fez há anos, pra pintar uma praça pública, que a gente reformou lá na Pedreira, uma comunidade aqui ao lado do Centro Cultural. Pra fazer ‘n’ coisas e estar a serviço da comunidade. Pra que esse serviço que eu venho desempenhando aqui sirva pra comunidade, [pra] que as pessoas possam contar comigo. 

Foram coisas que eu aprendi aqui dentro dessa casa, que eu vou levar pro resto da minha vida, porque eu não sei o dia de amanhã. Pode ser que amanhã ou depois eu tenha outra oportunidade, possa sair daqui de Frederico Westphalen pra crescer, pra dar mais conforto pra minha família. Pode ser que amanhã ou depois eu não seja mais bem vindo aqui, não sei por qual motivo, enfim. Mas eu tenho certeza de que eu vou levar ótimas lembranças e de que a minha parte eu venho fazendo dia após dia, com muita dedicação e muito empenho, entendendo que esse trabalho é de suma importância. 

Pra mim é um orgulho imenso ver empresas como a CPFL Energia e organizações como o Instituto CPFL acreditando nessas iniciativas, porque todo esse trabalho que é desenvolvido aqui impacta de forma extremamente positiva lá na ponta. Ele faz toda a diferença na vida de famílias, na vida de crianças e adolescentes, diariamente. Então, pra mim é um orgulho imenso ver esse trabalho tendo a credibilidade da CPFL, do Instituto CPFL.

 

P/1 - Eu queria que você comentasse, por um ponto de vista pessoal mesmo, como você sente que o seu trabalho impacta a comunidade. Alguma coisa que aconteceu, que você pensou: “Olha, realmente eu estou vendo aqui um resultado. Eu fiz isso e estou vendo que está dando resultado.” Você tem alguma lembrança, alguma ocasião em que você sentiu isso?

R - Sem dúvidas. Eu vou falar de uma que me ocorreu agora. Aqui ao lado da comunidade, aqui ao lado do Centro Cultural, no nosso bairro, também no bairro Jardim Primavera, nós temos a comunidade da Pedreira, que é uma comunidade que se estabeleceu numa pedreira desativada há mais de cinquenta anos e as pessoas ainda residem lá. São muito parceiras nossas, de muitos anos, aqui na Cufa; pessoas pelas quais eu tenho um carinho muito grande. Tive o prazer de trabalhar lá dentro durante um certo período. 

A gente promoveu, há anos, algumas reformas ali na comunidade; eu vi que as pessoas se sentiram mais felizes com aquilo. Nós tínhamos um espaço onde [se] concentrava o lixo, os entulhos que, muitas vezes, não só as pessoas dali jogavam, mas pessoas de outros bairros iam descartar também. Nós fizemos a reforma desse local, fizemos a limpeza. Com a mão de obra da comunidade, nós reformamos e construímos uma praça pública. Construímos também, junto [com] a UFSM, [com] o curso de Engenharia Ambiental, uma lixeira que foi toda pensada e estudada pra comportar o volume de lixo que a comunidade produzia durante a semana. 

Tudo isso foi feito pro bem-estar das pessoas, pra autoestima das pessoas. E foi uma reforma que a gente fez que me marcou muito, porque a gente é sempre acostumado a ver essas localidades - e eu não estou falando só dessa, mas de tantos outros bairros aqui - apenas nas páginas policiais, nas páginas da editoria geral, e nunca na editoria de cultura, nunca na editoria de esportes, nunca expondo um morador X fazendo uma coisa superbacana, de uma maneira positiva. Essas mudanças foram muito significativas pra mim. 

Também [marcaram] todas as outras iniciativas. A gente desenvolveu junto ao Presídio Estadual de Frederico Westphalen as atividades que nós levamos lá, os cursos de capacitação profissional de corte e costura. Nós disponibilizamos as máquinas e a capacitação pras internas do Presídio Estadual de Frederico Westphalen produzirem máscaras, que são itens de extrema importância agora, nesse período de pandemia. Essas máscaras que vinham de lá [para] a gente distribuir pra comunidade, de forma gratuita, pra auxiliar na prevenção à Covid 19. Muitas dessas iniciativas foram muito bacanas. 

Também tem uma outra que eu queria comentar, que era o projeto Folha na Comunidade. Nós temos aqui um jornal que é parceiro da organização, o jornal Folha do Noroeste, que disponibilizou um espaço pra que a gente fizesse o Folha na Comunidade. A gente escrevia sobre algum tema, alguma pessoa dos nossos bairros aqui de Frederico que fizesse alguma coisa diferenciada, que cantasse uma música, até sobre os problemas da comunidade também, e colocava nas páginas do jornal essas matérias. A gente pôde, pela primeira vez, colocar uma gurizada que fazia um free style, que cantava, que compunha, lá nas páginas do jornal. Isso também foi muito bacana. A gente pôde falar da comunidade da Pedreira de uma maneira extremamente positiva. 

A gente teve uma série de momentos assim.

 

P/1 - Voltando agora, um pouco, pra sua vida pessoal, eu queria que você falasse um pouco como você conheceu a sua esposa e sobre a experiência de ser pai.

R - Pois é, eu conheci a Gisele fazendo o que eu mais faço nessa vida, que é trabalhar. (risos) Trabalhando. Na época, ela trabalhava no Hospital Comunitário de Nonoai, onde eu fui levar doações de álcool em gel, unidades de máscaras reutilizáveis, luvas descartáveis e tudo o mais que pros profissionais de saúde era de extrema importância naquele momento. Os itens foram doados pela Foz da Chapecó Energia, empresa que é do grupo CPFL, e nessas doações a gente se encontrou. 

Ela é enfermeira e era enfermeira responsável do hospital, na época. Nós entramos em contato e passamos a conversar, depois disso. Bateu uma identificação muito grande e tudo deu certo pra que a gente vivesse junto. Depois disso, ela recebeu uma proposta de emprego aqui em Frederico Westphalen, veio morar pra cá. E aos três meses de gravidez a gente descobriu que ela estava grávida e que ia nascer, então, o nosso filho ou a nossa filha, né? Foi um choque num primeiro momento, porque eu jurava, pra mim, que nunca seria pai, que eu não cuidava nem de mim direito, quem dirá de outra criança. Mas foi, é um sonho da minha família. Era um sonho do meu pai ser avô. 

Todo mundo ficou muito feliz. E eu passei também a ficar muito feliz, porque o nascimento da minha filha foi uma coisa que norteou muito a minha vida; me deu um objetivo claro de vida, fez com que eu me desafiasse e me entregasse mais ainda no trabalho. Depois que passou esse choque, eu fiquei muito feliz mesmo. 

Ela fez o exame de sexagem fetal pra saber, antecipadamente, qual seria o sexo da criança, então a gente descobriu que era uma menina. Quando a família inteira dela dizia que ia ser um guri, eu falei: “Não. Vai ser uma menina. E é isso. Vai ser, não sei por que, mas vai ser.” O teste provou que seria uma menina. 

Então, a gente teve... Passei a morar junto com ela, pra dar um suporte enquanto gestante. No dia primeiro de abril de 2021, ou seja, há pouco mais de três meses, nasceu a minha filha, Lívia Luiza Czarnobay Duarte. O “Luiza”, no primeiro momento, não ia existir, ia ser só Lívia Czarnobay Duarte, mas como o pai da Gisele, o meu sogro, acabou falecendo e o nome dele era Jorge Luiz, a gente decidiu homenageá-lo, então, incluindo o “Luiza” no nome da Lívia. 

Pra mim tem sido uma experiência muito gratificante chegar em casa e saber que tem uma vida ali te esperando, saber que grande parte do futuro dela depende de mim. É uma responsabilidade muito grande, mas é o que me motiva ainda mais, é o que me dá aquela energizada pra seguir na batalha diária, aqui, todos os dias. Eu amo a minha filha, amo a minha esposa, e sou muito grato por isso ter acontecido na minha vida. 

Tudo isso só foi possível porque lá atrás eu falei: “Não, eu vou embora mesmo. E eu quero tentar. E, se não der certo, pelo menos eu tentei.” Hoje eu lembro de uma frase do... Eu lembro sempre de uma frase do Emicida, que diz: “Jamais volte pra sua quebrada de mãos e mente vazia.” Eu cheguei em Frederico Westphalen, Genivaldo, com dezoito anos, sem nunca ter saído de casa e só com duas malas. Numa eu tinha dois cobertores e na outra eu tinha as minhas roupas. No bolso eu tinha o canhoto da passagem e no outro bolso, eu tinha uns trocadinhos. E hoje, independente do dia que eu sair de Frederico Westphalen, eu vou levar uma família junto. Eu vou levar uma carga de experiência. Eu vou levar a certeza de que, até então, o meu papel até aqui, eu fiz e muito bem-feito. E acompanhei grandes mudanças aqui na nossa região, aqui na nossa realidade. 

Eu sou muito grato por tudo isso, por tudo o que vem acontecendo na minha vida de 2013 pra cá. Por todas as pessoas que possibilitaram que eu estivesse aqui, hoje, falando com você, que é, sem dúvida, um dos momentos mais importantes da minha vida, estar falando com o Museu da Pessoa e estar deixando a minha história registrada com vocês. E eu não poderia deixar de agradecer, né? Eu não sei se o seu planejamento já era encerrar, mas antes que eu esqueça, eu preciso muito agradecer aos meus pais, seu Adriano Aguiar Duarte, dona Silvia Lucia Rodrigues, aos meus avós paternos, dona Cida, seu Carlito. Também aos meus avós, seu João Rodrigues, pai da minha mãe, e também a dona Marli, que com certeza vai assistir essa entrevista, mãe da minha mãe. E ao seu Afonso, que foi, durante muitos anos, o companheiro da minha avó Marli, que hoje mora com Deus, no céu, e que realmente acreditou em mim e falou: “Não. Eu vou ajudar o Vinicius a se manter em Frederico Westphalen, porque ele não é qualquer um e ele vai fazer a diferença. E eu preciso fazer isso por ele”. Não sei por que, até hoje, mas foi uma pessoa que me ajudou muito, que possibilitou 80% de tudo isso que eu vivo hoje. Faleceu em 2016, infelizmente, sem a gente poder se despedir, mas está comigo no meu coração todos os dias, em todos os meus trabalhos, em todos os meus projetos e na minha dedicação diária, então eu não poderia deixar de agradecer a ele também. Agradecer do fundo meu coração aos meus poucos amigos que eu tenho aqui em Frederico Westphalen, mas que eu tenho certeza que são verdadeiros: o Rodrigo d’Ávila, o Tiago Henrique, o Adriano Dal Chiavon. Também ao Fernando Vian, que foi um parceiro que eu descobri nessa caminhada e que levo comigo todos os dias. À Gisele, a minha companheira, à minha filha e à toda família da Gisele, que sempre me recebeu muito bem. E, por último, eu quero agradecer a Cufa, por mostrar o mundo pra mim, de uma maneira que eu nunca tinha visto. Agradecer ao Junior, por ter me enrolado durante meses, lá atrás, e que depois tenha topado o meu programa, tenha olhado pra mim e falado: “Não, eu vou dar um voto de confiança pra esse cara. Vamos ver o que ele faz”. Agradecer o seu Roberto, que está aqui também, no escritório, que é uma pessoa fantástica. E tenho certeza de que se existissem cinco mil Juniors aí pelo mundo afora, esse mundo seria muito mais agradável de se viver, sem dúvidas. Eu não poderia deixar de agradecer a todas essas pessoas.

 

P/1 - A gente tem mais duas perguntas, pra encerrar. Primeiramente: quais os seus sonhos pro futuro?

R - Essa sempre foi uma pergunta muito difícil, pra mim, Genivaldo, vou dizer pra ti, porque essa é uma pergunta que as pessoas faziam pra mim, lá atrás: “Onde é que tu se vê daqui cinco anos?” E eu sempre ficava: “Não sei. (risos) Quero viver”, né? Eu me vejo, hoje, daqui a cinco anos, com a Cufa continuando nesse volume de atividades. Eu vejo a Cufa prosperando muito e auxiliando muitas famílias. Eu quero estar aqui no futuro, não sei mais [por] quanto tempo, mas eu quero estar aqui, ou pelo menos acompanhando à distância esse crescimento e o impacto desses projetos que a Cufa vem desenvolvendo.

Eu quero ver a minha filha grande, adulta, prosperando também. Que ela cresça num mundo melhor, que ela cresça num mundo com mais oportunidades, mais justiça, mais igualdade, menos preconceito, menos racismo, menos homofobia, menos ignorância. Eu quero ver a minha filha crescendo num cenário muito melhor do que a gente tem hoje. E quero estar despreocupado, em muitos sentidos. Eu quero ter a certeza de que fiz a minha parte até então e que deixei uma marca boa nesse mundo. Não sei daqui a quantos anos, então não vou dizer pra ti ‘daqui a cinco, daqui a dez, daqui a vinte’. Eu sei que, lá na frente, eu quero me ver dessa forma. 

Eu quero me ver sabendo que outras pessoas também escutaram essa entrevista, daqui vinte, trinta anos e pensaram assim: “Nossa, olha que legal esse rapaz aí. Lá atrás, quis sair de casa, saiu, botou a cara, mesmo. Deu certo e conseguiu chegar aí”. E eu desejo do fundo do meu coração que muitas outras pessoas tenham o prazer de saber o que é esse privilégio de estar conversando aqui com vocês, de serem reconhecidos pelo papel que desempenham na sociedade, fazendo qual seja a tua atividade, né? Pra que outras pessoas também possam nos inspirar no nosso dia a dia. pra que outras pessoas também possam servir de exemplo pra nossa vida. É mais ou menos isso.

 

P/1 - Então, vamos pra última pergunta: como foi você contar a sua história de vida, pra gente?

R - Foi muito, muito importante, porque a gente… Eu nunca tive um tempo pra pensar na minha caminhada, que é recente. Eu tenho apenas 26 anos, é uma história muito recente. Eu nunca parei pra refletir sobre a minha própria história, sobre o que eu fiz até então, sobre o que eu construí e sobre o que posso fazer de melhor ainda, a partir daqui. Eu quero, daqui a muitos anos, daqui a cinco anos, escutar toda essa entrevista e pensar assim: “Não, hoje eu já fiz isso diferente.” Eu já quero pensar à frente do que penso agora. 

Pra mim foi uma experiência única. Foi uma experiência que eu vou levar por toda a minha vida - cada um de vocês, do nosso amigo ali do enquadramento e você, que conduziu essa entrevista de uma maneira espetacular, da Grazielle que fez o convite,  que entrou em contato comigo na semana passada. Vou levar a Cufa por toda a minha vida. Nunca mais eu vou esquecer da indicação do Instituto CPFL pra estar aqui nesse momento proporcionado, e que outros jovens também, que participam das iniciativas patrocinadas pela empresa, tenham essa vivência. 

Pra mim, foi um momento único, eu vou levar pra toda a minha vida. Vou postar em todas as redes sociais, vou mandar pra toda a minha família. Pode ter certeza disso. Eu fico muito agradecido, mesmo. 

Tem uma outra vivência que eu passei aqui, recentemente, que eu acho que é muito importante comentar com vocês, não sei a gente tem mais tempo.

 

P/1 - Pode falar.

R - Das dependências aqui do nosso Centro Cultural a gente também operacionalizou o edital Ações Culturais das Comunidades - um edital que viabilizou a distribuição de recursos da Lei Aldir Blanc em 63 comunidades de 23 municípios do estado do Rio Grande do Sul. 

Essas cidades e localidades integram o programa RS Seguro, que reúne todos os índices de violência do Estado. Todas essas localidades e cidades elencadas por esse programa basicamente são as que concentram 90% dos números de violência, de criminalidade, do Estado do Rio Grande do Sul. E a nossa missão, nesse edital, era mapear todos os agentes culturais, os coletivos culturais de base comunitária, aquelas pessoas que atuam na produção cultural nas periferias e nas favelas do Rio Grande do Sul, pra terem acesso a esse recurso, porque a gente sabe que o setor cultural foi o primeiro a parar, foi o que sofreu muitos impactos negativos na cadeia produtiva e que vem ainda sofrendo. Talvez seja o último a voltar à sua normalidade.

A gente teve essa missão de mapear todos os artistas, nessas 63 localidades, [em] 23 e três municípios do estado do Rio Grande do Sul. Fiz parte da equipe. Tivemos um recorde de inscrições, de 7824 inscritos, que é um número recorde na história da Secretaria de Estado da Cultura, e tivemos um total de 4736 contemplados. 

Nós operacionalizamos aqui, da estrutura desse Centro Cultural, toda a distribuição desses catorze milhões de reais, provenientes da Lei Aldir Blanc, toda inscrição que chegou aqui pra nós, de forma física. A gente acabou não adotando tanto essa metodologia do on line, de fazer as inscrições on line; nós tínhamos 63 agentes locais que iam de porta em porta na comunidade, fazendo a ficha de inscrição. E a gente sabe que todas essas fichas de inscrição não são só um monte de papel amontoado e grampeado. Elas são um registro histórico de todas aquelas pessoas que lutam pela produção cultural nas periferias do Estado do Rio Grande do Sul.

Essa foi uma outra passagem muito importante, que a gente conseguiu operacionalizar de uma forma transparente, séria e muito correta, de dentro dessa estrutura aqui. Hoje a Cufa passou a ser não só uma entidade que serve de referência aqui pro município de Frederico Westphalen e pra sua região, mas também pra outras localidades do estado do Rio Grande do Sul. 

Esse foi outro ponto muito positivo que aconteceu conosco esse ano e que me marcou também muito. Acabei não passando na ordem cronológica dos acontecimentos, mas não poderia deixar de falar sobre isso, que foi muito importante, sobretudo nesse momento que a gente passa. E a gente sabe dos desdobramentos da Lei Aldir Blanc em todo o país, né?

 

P/1 - Então, a gente parabeniza, né? Em nome do Museu, eu parabenizo você e a Cufa, pelo trabalho incrível que vocês fazem, inclusive encontrando essas alternativas durante a pandemia, pra continuar mantendo o compromisso de vocês com o desenvolvimento social. E agradeço também pelo seu tempo, por se dispor aí estar aqui com a gente, fazendo essa entrevista. Muito obrigado, Vinícius.

R - Genivaldo, como eu te falei, pra mim é um privilégio imenso. E a nossa luta vai seguir incansável, vai seguir pra que outras pessoas também tenham essa oportunidade e esse privilégio que eu tive hoje. Então, muito obrigado mesmo pela tua companhia. Que possamos nos encontrar novamente, em outras ocasiões. Quero agradecer o nosso amigo do enquadramento também, espero que esteja correto agora. (risos) Quero agradecer a Grazielle pela atenção, pela disponibilidade e pelo contato. Muito obrigado, mesmo. Vida longa a essas iniciativas e ao Museu da Pessoa! Que vocês sigam registrando tantas histórias, Brasil afora. Muito obrigado, mesmo.

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