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História

Imigrantes japoneses

História de: Saburo Shirasaca
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Infância em fazenda no interior de São Paulo. Descrição dos pais, imigrantes japoneses que trabalhavam em lavoura de algodão. Trabalho familiar na infância. Escola e brincadeiras. Lembranças da casa da infância e o trabalho na criação do bicho-da-seda. Falecimento do pai e trabalho em granja no interior de São Paulo. Migração para a cidade de São Paulo e trabalho no Mercado Municipal. Produtos comercializados e perfil do consumidor. Aquisição de quitanda de frutas e verduras. Perfil do consumidor e formas de pagamento. O lazer na juventude. Casamento e filhos. Sonhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Saburo Shirasaca. Nasci cidade de Piratininga, em 16 de setembro de 1930. Meu pai é japonês, nasceu em Fukushima. Meu pai é Gentaro Shirasaca, minha mãe é Kane Shirasaca. Também nasceu no Fukushima. IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL No Japão [meu pai trabalhava com] agricultura, né? Plantar arroz, antigamente, a maioria no Japão só plantava arroz. Veio para o Brasil em julho de 1927. Veio com o navio La Plata Mar, isso eu me lembro porque meu pai sempre contava. Naquela época Japão não estava bom e Brasil estava bom, então todo mundo queria juntar dinheiro aqui. Uns tinham sorte, mas meu pai não teve sorte. Meu pai era muito aventureiro, primeiro foi na Fazenda Veado, aqui na Mogiana. Não aguentaram, o serviço era muito duro, não era como imaginavam. E o meu pai sempre falava assim: "Diz que Brasil, trabalhar um ano dá pra ficar rico." Todo mundo tinha essa ideia, aí não era nada disso. A fazenda foi muito dura, era trabalhar como fosse escravo, só que não foi acorrentado. Precisava fugir de lá. TRABALHO NA FAZENDA Arrendaram uma fazenda, fazenda São Geraldo falei. Ficou ali que três anos, é o lugar que eu nasci. Era cafezal, depois ajudou a plantar algodão também. Meu pai era muito aventureiro, sabe? Queria fazer uma coisa grande, arrendava 30 alqueires, derrubava aquele mato virgem, tocou fogo, ficou todo aquele tronco pra tirar. Isso aí precisava muito empregado pra limpar. Limpou, plantou algodão, algodão leva um ano mais ou menos. Deu pé de algodão de quase dois metros de altura, mas não abriu, então perdeu [a colheita]. Durante três anos perdeu. Ele ficou devendo, tinha muita dívida. Depois meu pai faleceu, meu irmão trabalhou também, todos nós trabalhamos, deu pra recuperar. O trabalho era cortar capim, passar arado com burro, puxar enxada. Trabalhava eu, meu irmão, minha irmã. Quase todos trabalhavam, só quem era menor que não trabalhava. Mas eu comecei a trabalhar com sete anos, era obrigado. FAMÍLIA Somos 11 irmãos aqui no Brasil. Eram 13, mas quando era pequeno morreu dois lá no Japão. Aqui no Brasil somos éramos 11. Depois, morreu três. Eram sete mulheres e quatro homens. INFÂNCIA Brinquedo não tinha como agora. Mesmo que tivesse, o pai não tinha dinheiro pra comprar. Brincava assim: pegava o cabo de vassoura, fazia cabeça de cavalo. Era brincadeira de pega-pega, essas que não gasta dinheiro. Quando eu era pequeno eu não tinha nem sapato. E falava mais japonês do que português, porque lá no interior não convivia, ficava dentro da casa. Meus pais só falavam japonês, né? A intenção do meu pai não era ficar aqui, ia voltar no Japão depois de juntar dinheiro. Mas quando começou Guerra Mundial todo japonês falava: "O Japão vai ganhar." E nem trabalhava, dizia que ia voltar pro Japão, todo mundo largava a enxada. Isso me lembro, até meu irmão não trabalhava. APRENDENDO PORTUGUÊS Comecei sair, comecei a jogar bola, pegar amizade com brasileiros, aí fui aprendendo. EDUCAÇÃO Todas fazendas tinham uma escola. Era escola pequeninha e a professora vinha da cidade todo dia, de cavalo. Tinha até o segundo ano primário só, mais que isso precisava ir na cidade, mas pra gente não tinha condições de ir lá. Precisava andar uns sete, oito, dez quilômetros pra chegar na escola. Eu estudei não sei quantas vezes o grupo até o segundo, tudo a mesma coisa e sempre andando. Andava 18 quilômetros pra ir e voltar. CASA DA INFÂNCIA Era casa de sapé, era parede era de barro, feito com bambu. Não tinha cama de agora, tinha que fazer a cama, cortava aquela madeira. TRABALHO NA FAZENDA Eu ajudava muito o meu pai, carregava veneno pra matar formiga, formiga saúva. Devorava pé de algodão, então precisava matar com veneno, com arsênico. Precisava descobrir onde era o ninho da formiga, tinha aquele aparelho, ia fumaça de veneno. Ajudava num monte de coisa, carregar água, pegar água pra verdura, precisava regar, precisava carregar do rio, era duro, no interior é duro. Meu pai plantava algodão, batata, batata mais pra consumir, arroz, feijão, mandioca e monte desses legumes, repolho, alface, tudo pra consumir em casa. Depois, resolveu criar bicho de seda. Mas bicho de seda também é sacrifício, porque aquele bicho come o dia inteiro, precisa dar toda folha de amora. Demorava uns três meses a ter casulo, aí vendia por quilo. Tinha fábrica de seda, se não me engano, lá na Piratininga. Na época de guerra, subiu muito aquilo, então minha mãe começou a criar de novo, mas a principal era algodão. Depois carregou bastante maçã, deu pra pagar aquela dívida que meu pai tinha. MUDANÇA PARA SÃO PAULO Nossa família toda veio para São Paulo. Minha irmã foi se casando, duas foi pra São Paulo, foi diminuindo a família. Ficou minha mãe, que estava viva ainda, meu cunhado, meu irmão, eu, naquele Sítio Ishikawa, trabalhava de empregado, em Itaquaquecetuba. Ali ficamos quatro anos tratando galinha, mas aí pensei: "Puxa vida, eu não quero trabalhar criando galinha, tem que estudar também." Falei pro meu irmão: "Olha, eu não vou trabalhar mais como empregado, vou pra São Paulo." TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO Eu ouvia muito falarem que São Paulo era muito bom, lugar bonito, divertido. Então, eu saí de lá. Minha intenção não era trabalhar em empório, porque empório já era do meu tio. Achava que ia trabalhar como farmacêutico, profissão que eu acho que é mais limpo, bonito. Mas eu não tinha ninguém, não tinha onde ir aqui em São Paulo, fui direto pra casa do meu tio. Ele fez muita força pra mim, preocupou. Fiquei uma, duas semanas ajudando. Eu era muito caipira, não sabia nada, nada mesmo, só conhecia feijão e arroz, batata. Ali fui aprendendo, comecei a pegar amizade, começou a aparecer freguês. Foi modificando o empório, no começo tinha só cereais. Depois foi mudando: molho japonês, arroz japonês, tempero tudo. Chamava Empório Shimada, foi fundado em 1947. Durou uns cinco anos mais ou menos. Naquela época, japonês comia só o produto japonês mesmo, não é que nem hoje. Então japonês aparecia lá e perguntava. Às vezes não tinha, mas a gente guardava na cabeça. A gente comprava, começou juntar mercadoria, hoje acho que 80% é produto japonês. Agora é brasileiro que compra mais. Eu não preocupo mais. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – LOJA PRÓPRIA Meu tio tinha prometido que depois de sete anos ia me ajudar a comprar outro estabelecimento pra mim. Depois de sete anos, acho que não vai sair nada, daí eu tenho que também pensar na minha vida, não posso trabalhar como empregado. Encontrei uma quitanda que o brasileiro tinha e não ia pra frente, estava pra fechar, comprei barato. Comprei lá na Rua Albion, na Lapa, peguei muita freguesia lá. Aí meu tio veio me chamar: " Saburo, eu estava precisando de você. Tem freguês que está reclamando, ampliou mais o empório. Agora eu dou outra condições, pra ficar de sócio." Voltei lá, até hoje estou de sócio. CLIENTES NA QUITANDA Aquele bairro tinha muito japonês, mas é mais brasileiro, é mais residencial. Comprava dona de casa e tinha também restaurante, vendia muito alface e laranja. Naquela época tinha poncã deste tamanho e eu deixava até na rua, com caixa e tudo, pra atrair. Ali era rua principal, que ia lá pra Campinas. Quando o motorista via aquela laranja grande, parava lá e comprava por caixa. Vendia muito. COMPRA DA MERCADORIA Comprava no Mercadinho da Cantareira. Naquela época, estava todo mundo rindo, porque o único quitandeiro que trabalhava de gravata era eu. Quando eu entrei no empório, maioria trabalhava de gravata lá. Naquela época era assim. FORMAS DE PAGAMENTO Pagava tudo à vista. Às vezes, pendurava. Depois, freguês de confiança, não tinha nada de calote, deixava uns dois, três dias e vinha pagar, né. SÃO PAULO ANTIGA Naquela época era frio, eu estranhei quando cheguei. Acho que foi no 23 de junho, São João. Todo mundo naquela época estava com aqueles fogos de artifício, era bonito, era no Bairro do Ipiranga. Pra tomar ônibus precisava andar uns 500 metros pra chegar no mercado, era na Dom Pedro. LAZER Quando entrei durante uns sete anos trabalhava domingo, fechava segunda-feira. Domingo trabalhava até meio-dia. Depois de meio-dia era difícil sair, não dava para ir na praia. Naquela época não tinha carro, só ônibus, mas era muito, era divertido. Às vezes ia no baile. Depois, aos domingos pegava matinê no cinema. Eu ia muito a filme japonês, "Sete Samurais". Toda semana eu ia, eu gostava assistir filme de samurai, de bandido. Às vezes, ia no concurso de música, porque eu gostava muito de música também. Também tinha festa de colônia em Itaquera, festa de pêssego, caqui no Mogi, eu ia lá. Cinema era um tal de Tanaka, que era do Paraná, na Rua Galvão Bueno. Durou dez anos, se não me engano. Depois foi demolido pra fazer aquele ponte, prefeitura tirou. Ia quase toda semana. Tinha fila enorme. CASAMENTO Um conhecido da pessoa que apresenta, que nem o programa do Sílvio Santos, o namoro no escuro. Então, a pessoa: "Ô, Saburo, quero apresentar uma fulana de tal, da boa família." A gente: "Ah, podemos ver. Não sei se ela vai gostar e eu vou gostar, tem que ver." Marcamos data, ela também estava sabendo o dia. Fui buscar ela no Paraná, pra nós sairmos. Cheguei na casa dela, primeiro aparece os pais, a família tudo. Fiquei sentado esperando ela aparecer, precisava ver como é que era. Daqui a pouco ela apareceu, tudo assim vergonhoso, nem olhou pra minha cara de vergonha. Os pais também ficaram observando, o sujeito podia ser malandro. Meu padrinho chamou lá fora: "Que tal, o que você achou dela?" "Bom, não vi ainda direitinho, queria conversar pessoalmente." Conversei, foi mais de uma vez, fui conhecendo família, ela também conheceu minha família. Marcamos dia de noivado, levei aliança. Fizemos noivado na casa dela. Precisava marcar data de casamento, quem resolveu tudo foram os pais e padrinhos. No dia de casamento fui lá com padrinho e com minha mãe. Não um monte de gente, porque era longe, precisava alugar ônibus. Chegamos na casa dela, fez uma bruta festa. Terminou a festa e voltamos direto pra São Paulo, porque aqui o pessoal já estava esperando pra também festa. Teve duas festas. FAMÍLIA Até nascer a filha minha mulher não trabalhou, eu não deixei. Depois ela queria trabalhar como autônoma, ficou na escola do Senac como cabeleireira, manicure. Tirou diploma lá, mas ela não trabalhou nisso aí, preferia trabalhar em empório, empório dava mais. Ela ajudava a vender. Depois resolveu ir no Japão, isso faz dois anos e seis meses. Minha filha que chamou ela, pra cuidar do neto. Pra mim não é muito fácil viver assim Nossos filhos cresceram direitinho. Quando meu primeiro filho, Norio, fez seis anos, minha mulher falou: "Vamos colocar no baseball, tem que fazer esporte, alguma coisa." Na família da minha esposa é tudo jogador de basebal. Corre bastante e é bom mesmo. Ele gosta de esporte, sempre foi bom jogador, tem um monte de taça. O segundo é Moacir, ele gosta mais de desenho. Depois o Norio, quando chegou 20 anos, um dia ele falou que ia cantar. "Cantar, eu nunca vi você cantar." Aí ele foi. Lá pra meia-noite, eu estava dormindo e ele me acorda. Quando eu olhei ele trouxe taça. Toda vez que tinha concurso ele ganhava e trazia uns troféus. Ele representou o Brasil no Japão e ganhou também, tirou primeiro lugar. Foi duro porque quando ele ganhou precisava comprar um monte de roupa, não podia ir com o sapato feio, tem que comprar roupa pra subi no palco, até fiquei devendo no banco. Ele ganhou o primeiro lugar. Saiu no jornal brasileiro, do Japão, veio um monte de convite pra ele. Agora ele não quer cantar mais, diz que enjoou, às vezes canta no karaokê. FUTURO Quero curtir agora, quero descansar. Passear um pouco, pode ser no Japão. Aqui no Brasil mesmo eu não conheço, só conheço mercado, primeiro tem que conhecer aqui o Brasil, tem tanto lugar bonito aqui. Sou brasileiro. Tenho mais de onde eu nasci, onde fui criado, Piratininga. Lugar que eu sofri, mas dá mais saudade, gozado. SONHOS Quero sempre conviver com o pessoal com muita amizade, sempre saúde, meu sonho é isso aí. Que todo mundo passe bem, meu filho que aproveite, assim espero. Meu sonho é isso aí, viver bastante, ter bastante amizade, conhecer vários lugares, quero divertir também.

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