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História

Idas e Vindas de Avani Fulni-ô

História de: Avani Fulni-ô
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/11/2019

Sinopse

Avani, professora e artesã indígena da etnia Fulni-ô , possui uma trajetória de migrante nordestina na cidade de São Paulo , mãe e mulher que enfrentou batalhas familiares , pela preservação de sua Cultura e na luta pelos povos indígenas.

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História completa

P/1- ... você dizendo o seu nome, local e data de nascimento.  

R- Meu nome é Avani, sou dos povos indígenas fulni-ô, de Pernambuco, Águas Belas, e moro aqui tem trinta e um anos, mas são trinta anos de idas e vindas. O que eu sei, tudo, é da minha cultura fulni-ô. 

P/1- E quando você nasceu?

R- Quatro do quatro de sessenta e três. Eu sou natural de Arcoverde, foi uma passagem da minha mamãe, passando lá, aí tive que nascer em Arcoverde, mas o meu forte mesmo é Águas Belas, onde tem a nossa tribo indígena fulni-ô.  

P/1- E o nome dos seus pais?

R- O nome do meu pai é Clemildo Florentino de Oliveira, e Alzira Maria Barbosa, que é o nome da minha mãe.

P/1- E o que eles faziam?

R- Meu pai era mecânico, minha mãe, indígena, assim, só que o meu pai também indígena, só que a gente morava mais na cidade, que é tudo próximo ali, né? E sempre o nosso forte é a nossa cultura que se chama ouricori. A gente tem um retiro de três meses e nesse retiro é aonde a gente aprende fazer nossos artesanatos, falar a nossa língua. Nós somos o único povo do nordeste que fala a língua indígena, que se chama yatê

P/1- Você pode contar um pouquinho, assim, do costume, da família, dos fulni-ô, do ouricuri?

R- Sim. Como eu falei, nós temos um retiro. Nesse retiro, é onde a gente aprende todo a nossa cultura indígena. Esse retiro é de três meses, onde nós temos uma abertura, no mês de setembro. Setembro, outubro e novembro, mas a abertura sempre começa um dia de domingo, e nesse domingo, aonde os povos brancos, que são os não-indígenas, que a gente fala na língua, que eles vão fazer a visita. Ali fica essa abertura pra todo mundo entrar. E nisso tem uma missa, o padre vai lá, celebra uma missa e faz, que é a abertura do ouricuri, que a gente chama. Porque nós temos duas aldeias, as duas aldeias fulni-ô, mas pra dividir, a gente coloca ouricuri, nesse retiro. A distância de uma pra outra é de seis quilômetros. Ali a gente passa três meses, só os povos fulni-ô, depois dessa abertura aí, só os povos fulni-ô ficam. Aí nós temos uma semana, como se fosse uma festa pra branco, assim, mas é tudo particular da gente, a gente comemora tudo ali durante os três meses.

P/1- E qual a origem da sua família, assim, as histórias que contavam do povo?

R- As histórias da gente, a história é a nossa vida lá, né, assim, porque vem dos mais velhos e nisso vai ficando dos mais novos também, assim, vai contando aquela história: “Vocês são fulni-ô, vocês são do nordeste, de Águas Belas”. E também através disso, a gente que tem consciência, a gente não deixa a cultura da gente. Não é porque eu estou aqui em São Paulo que eu vou largar de ser fulni-ô, de ter minha origem.

P/1- E lá você ouvia muitas histórias, assim?

R- Sim, dos mais velhos, sim.

P/1- Quem contava as histórias?

R- Só que conta assim, né, que a gente é índio... o que quer dizer fulni-ô pra o povo, assim? Muita gente não conhece, assim. São índios da beira do rio, fulni-ô significa isso. Por quê? Porque a gente tem uma história assim: na época de antigamente, como se acontece hoje, chama ‘os ruralistas’, chamava ‘os posseiros’, e os posseiros queriam afastar os indígenas, cortar a língua do povo, muitos de outros povos vieram embora pra aqui, pra São Paulo, pra outros lugares, deixaram, assim, a sua origem, e tinha medo. E durante esse período, também, de eu estar aqui em São Paulo, de trinta e um anos, eu nunca escondi a minha identidade, a minha origem. Por quê? Quando perguntou, assim, a primeira vez que eu cheguei aqui em São Paulo, fui trabalhar aqui em São Paulo, me perguntou: “Como é seu nome? De onde você veio?”, assim, que eu fui trabalhar numa padaria. Eu era professora lá, dava aula numa escola particular e a gente ganhava um valor de cinquenta centavos, que seria hoje, né? Aí era pago e, nesse caso, quando eu vim embora pra cá, fui trabalhar numa padaria e perguntaram qual o meu nome, assim, eu nunca neguei a minha origem: “Eu sou indígena. Eu sou indígena, eu sou dos povos fulni-ô”. Aí eles perguntaram: “O que é fulni-ô?”. Eu digo: “É um povo originário de Pernambuco, e nós temos uma aldeia lá”, onde eu não deixo a minha cultura de maneira alguma. Eu prefiro sair dos lugares do que deixar minha cultura.

P/1- E como era a sua infância, assim, entre a aldeia e a cidade, o que você costumava fazer?

R- Ah, isso aí é normal. O que eu costumava fazer, a gente sempre ficava observando os mais velhos, assim. Como eu, a gente era muito novo, assim, a idade da gente, aí eu ficava observando de fazer os artesanatos, assim, fazendo esteira, tapete. Inclusive, eu tenho tudo assim, eu posso mostrar um pouco pra vocês também. E, no caso, eu fazia aqueles artesanatos, aonde a gente faz de palha de coqueiro, onde os mais velhos vão lá, tiram a palha de coqueiro na serra e sobem em cima do coqueiro e tirava aquelas palhas. Coloca pra secar primeiro, e a corta todinha pra fazer o artesanato, o tipo de artesanato que for: esteira, tapete, chapéu, bolsa, vários tipo de coisa, né, que é cultural da gente. Aí, nisso, eu ficava ‘curiando” assim, aprendi também. Eu sei fazer tudo isso, mas como a gente está aqui na cidade, fica um pouco difícil da gente... isso aí eu pego, assim, como o material é quase tudo de lá, eu pego e mando as minhas irmãs fazerem e através disso é o meio de também dar uma ajuda de custo pra elas. 

P/1- Conta um pouco dos seus irmãos, quantos são, onde estão.

R-  Meus irmãos são, ao todo, oito irmãos. E depois, minha mãe faleceu e aí tem nove, né, porque eu nem considero assim, mas é um caso da gente, mesmo. Só que meus irmãos são, todos, indígenas, é tudo fulni-ô. Estão todos na aldeia lá, todo mundo. A mais velha tem sessenta e cinco anos e tem duas que moram aqui em São Paulo, mas não é por isso que a gente deixou de perder a nossa identidade, e os outros estão tudo lá na aldeia. Um é mecânico, o outro faz... cada um faz uma coisa lá, mas sempre sem deixar a cultura indígena da gente. Nessa época está tudo no ouricuri, lá no retiro da gente, particular.

P/1- Me conta um pouquinho da casa onde você vivia, a infância, o bairro.

R- Lá em Águas Belas? Era assim, era muito ‘bagunçento’. (risos) Não só dentro da aldeia da gente. Na época a gente se fazia, pra estudar, a gente tinha a escola... tinha não, tem a escola Marechal Rondon, que é o nome da escola na aldeia. Só que depois da quarta série a gente vinha pra cidade, porque não tinha como fazer, passando da quarta série não tinha mais nada de estudo lá, né? Mas tem a escola bilíngue lá também, a bilíngue, pra quem não entende, é onde a gente fala a língua indígena, tem professor indígena que fala o yatê. O yatê é a língua também, tem que estar clareando pra vocês, pra vocês entenderem como funciona, né? Aí, a escola é separada, só que a gente aprende a língua indígena e, no caso, quando passa da quarta série, pra gente dar continuação a nossos estudos, a gente vai até a cidade que é próxima ali, pra dar continuação ao estudo da gente, aonde eu cheguei a fazer, hoje que se chama, que era o segundo grau, né? Com a modificação de hoje, de política, tem outro nome, mas só que a gente chamava de segundo grau. E aí eu fiz magistério, fiz contabilidade, fiz vários cursos assim de segundo grau, só não tinha faculdade e aí, pra quando chega na faculdade, eu vim embora pra cá. Que era difícil e tento fazer, e fui até da polícia, até da polícia eu fiz curso também, exerci um pouco também o cargo, né, mas só que foi pouco tempo, porque a minha mãe e meu pai tinham falecido e, no caso, eu peguei, eu tinha duas crianças que eram meus irmãos, e eu tive que cuidar deles. Depois eu vim embora, eu vi uma situação difícil lá, eu vim embora pra cá, só que um vindo embora de idas e vindas. Peguei uma carona de caminhão, tive uma filha, assim, já tarde, maior de idade, tive uma filha, foi minha mala. E essa mala existe até hoje, que nós moramos aqui em São Paulo com ela, ela tem trinta e um anos, e já é mãe também. Só que agora eu vivo assim minha vida, vendendo  artesanato, que era uma coisa que eu não queria pra mim, mas aconteceu de querer, porque nós fizemos um Conselho Estadual dos Povos Indígenas, aonde juntou os indígenas pra ter o conhecimento dos indígenas urbanos, como chamam eles, né, agora índio na cidade. E ali eu fui pegando as duas coisas, o lado da aldeia, o costume de lá e o costume daqui e estou aqui ate hoje, mas é de idas e vindas. Tudo o que eu sei é da minha cultura, é do meu retiro, que são três meses lá.

P/1- Posso voltar pra infância?

R- Pode, que eu não passei, né? (riso)

P/1- Conta um pouquinho das brincadeiras, assim, as lembranças que você tem desse ser criança na aldeia. 

R- Ahh, criança, assim, a gente vai, a gente estuda, né, a infância da gente é essa, até a quarta série. E eu era muito interesseira, assim, até hoje eu sou impulsiva de querer insistir pelas coisas. Brincava de bola, a gente tem esse lado. Como a gente vive mais, assim, no retiro, dentro do mato, é ali que a gente aprende, de pequeno mesmo já está... a infância da gente foi essa, estar olhando, prestando atenção, brincando, correndo, que chama, os becos lá, as casa que eram separadas uma da outra, aí chama os becos. A gente sempre brincou assim, eu tive infância (risos). Foi muito legal, eu não tenho o que reclamar até hoje, e até hoje eu tenho infância, porque até hoje tem hora que eu brinco, tem hora que a gente fica nervoso, mas é assim mesmo a vida.

P/1- E qual é a sua lembrança da escola, a primeira lembrança?

R- A escola é muito boa, eu sempre me interessei, sempre eu gostei, sempre eu sou atenta, assim, às coisas. E eu faço de tudo, assim, quando eu vejo a situação de outros que não têm aquela situação financeira, como nós temos faculdade hoje assim,  bolsa, assim, falta de interesse dos outros, eu fico muito triste, porque pra mim estava todo mundo ali estudando. Mas até hoje... eu era bem maloqueira, assim, de tocar na banda, tinha as bandas do colégio naquela época lá, eu não sei se ainda tem, que isso aí eu nunca prestei atenção mais, depois que eu fui, mas as bandas. Toda vida eu fui inteligente, vamos dizer assim. Do que eu gostava de fazer, eu fazia.

P/1- E como foi a mudança dessa primeira escola que era bilíngue, que era na aldeia?

R- Não, não teve, assim... porque como a cidade é muito próxima, né, assim, é um quilometro da cidade pra aldeia, aí a gente não tem tanta diferença de mudança, não. Através disso, assim, sempre está num local e está num outro, assim, na aldeia e na cidade. 

P/1- Tinha bastante fulni-ô nessa nova escola, assim, você lembra?

R- Sempre teve, porque agora nós temos quase oito mil indígenas lá, fulni-ô, sempre teve, isso aí é de menos. As crianças, é bem interessante também. Até o meu neto, assim, eu vou contar um pouquinho assim, né: eu tenho um neto. Minha filha nasceu aqui em São Paulo e o que acontece depois, ela foi, arrumou um marido e foi embora pra lá. E eu tenho um neto lá, estuda lá, gosta bastante das escolas, porque ele come bastante (risos) e tem a merenda escolar, nunca faltou, assim. Ele estuda em duas escolas durante o período do dia, aí vai pra uma de manhã e a outra à tarde, e acha muito bom também, igual eu gostava também. Mais alguma coisa?

P/1- Vamos seguindo. Conta um pouco da sua juventude, assim, quando você começa a sair sozinha. Como é essa questão na aldeia, né, está sempre na vista dos adultos, mas aí cresce um pouco, vai pra cidade com os amigos, como é que foi?

R- Ah, não, isso ainda tem aquela pegacão de pé, não é? Porque a gente é liberal, às vezes, assim, no meu caso, assim, que eu estou aqui e eu digo: “Ninguém manda em mim”, mas acontece que chega lá: “Cuidado! É Isso e aquilo”. Ainda tem aquela juventude, até hoje, assim, qualquer coisa que a gente faz, se falhar numa coisa, os mais velhos pegam no pé da juventude da gente. Tem que casar certinho, tem que namorar certinho, tem que fazer tudo certinho, a juventude da gente é essa. E estudar, né, como sempre isso aí, a gente sempre gostou de estudar.

P/1- E sobre o trabalho, quando foi o seu primeiro trabalho? O que você fez?

R- Eu fiz Magistério, eu fiz Contabilidade e na mesma escola, eu estudava numa escola particular lá, depois que eu terminei o segundo grau, eu fui dar aula. Foi o meu primeiro trabalho, assim, eu fui dar aula na escola mesmo, porque disse que eu era muito inteligente, aí eu cheguei e fui dar aula, aí eu fiquei dando aula. Aí foi quando eu passei um monte de tempo dando aula e vim embora pra cá. Quando eu vim embora pra cá, eu vim de férias e até hoje!  (risos)

P/2- De férias?

R- Vim de férias! Até hoje, eu vim de férias.

P/2- Que gostoso! Vir de férias é bom, né?

P/1- E aqui, como é que foi, quando você chegou? Essa questão de trabalho.

R- Bom, eu com três dias que eu cheguei aqui, eu fui trabalhar. Eu fui trabalhar numa padaria, o nome da padaria, o meu primeiro trabalho foi a Padaria Arizona Pães e Doces, no Barro Branco, lá na zona norte e aprendi tudo rápido também, a prática, tudo, e fiquei trabalhando um mês. Aí depois eu casei, tive uma filha, o marido era funcionário do SBT, né, que era paulista, aí eu parei de trabalhar.  Aí passei um tempo sem fazer nada e depois veio a _____________ [15:25] há dezesseis anos atrás e foi quando eu retornei, que eu não queria. Eu vim trabalhar e viver a minha vida, mas chegou aqui eu vim viver essa vida de trabalhar com indígena, porque todo mundo me conheceu e foi procurar a gente em casa como indígena, disse que tinha ido na cidade de outros povos do nordeste. Porque o nordeste é esquecido também, né? O povo só foca no Amazonas. Só que comecei a trabalhar aqui, gostei também e foi minha prática aqui até hoje. Apesar de eu não estar mais trabalhando em padaria, tem dezesseis anos que eu trabalho por minha conta, surgiu a ajuda dos não-indígenas, dar força pra gente e abrir os espaços pra gente ir mostrar a cultura da gente. Aí hoje eu sou, também, artesã e luto pela causa indígena. 

P/1- Por que você veio pra São Paulo, assim?

R- Eu vim pra São Paulo porque eu não tinha uma condição financeira, como eu falei anterior, que a gente trabalhava lá pra ganhar cinquenta centavos, que seria hoje, né, que naquele tempo era cruzeiro. E nisso aí me acostumei aqui. Tinha uma irmã também pra criar, os irmãos, eu ficava mandando um pouco pra eles também, era uma ajuda de custo pra eles. Como a situação lá não tinha mercado, não tinha nada, a gente é acostumado a viver a vida da gente, aí foi quando eu vim pra São Paulo. Porque viver só de lá mesmo, pra viver só de artesanato é um pouco difícil, na venda da cidade, né? Aí vende uma coisa, assim, vende aqui, um exemplo: se a gente vende por dez aqui, lá era pra dar por dois, três reais. Aí é muito devagar, né? Aí é um exemplo da vida da gente. E estou aqui até hoje.

P/1- E você veio, assim, porque já tinha algum familiar, algum conhecido?

R- Eu vim porque tinha o meu irmão que morava aqui, mas não vim por interesse de ficar na casa dele, só depois aprender a viver a minha vida, peguei uma carona de caminhão e vim embora, porque era uma situação difícil. Aí vim até Vitória da Conquista, fiquei lá seis meses, não tinha, assim, emprego também pra gente se virar, aí de lá eu vim embora pra cá, mas foi por precisão,  mesmo.

P/1- E o que ficou marcado aí nessa trajetória de vinda?

R- Muita coisa. (risos) Não tem nem como responder, tem muita coisa marcada: a mala que é a filha, a minha convivência aqui, e o apoio que eu tive de vocês não indígenas, eu agradeço demais. E até choro, me emociono também. (risos)

P/1- Se você quiser uma água, um lencinho, fica à vontade.

R- Não, pode ficar à vontade.

P/1- E aí, quando você chegou aqui em São Paulo, o que você achou dessa cidade? 

R- O que eu achei dessa cidade foi os costumes, eu fiquei doente, fiquei um pouco... perdi até a voz, por falta de costume de estar em cidade grande, né? Mas como sempre, acostumei. E fui vivendo a vida e trabalhando. E depois parei, assim, teve esse momento de arrumar esse marido funcionário do SBT que não quis mais que eu trabalhasse e até hoje. Depois ele faleceu, sou viúva também numa parte, que ele faleceu, mas me deixou de que eu aprender mais a viver cada dia, e é isso que eu faço. (risos)

P/1- Ah, conta mais um pouquinho aí da sua trajetória, a primeira etapa até Vitória da Conquista, né?  

R- Até Vitoria da Conquista foi assim: tinha um senhor... deixa eu tomar só uma água, tá?

P/1- Tá bom.

R- Tinha um senhor que falou... a minha vinda pra cá foi assim, tinha um senhor que sempre eu falava assim, que qualquer dia desse eu ia pegar uma carona de caminhão e vinha embora, mas eu não pensava de vir com uma filha, na época, né? Aí tive um casamento mal casado, vivi onze meses lá, e fiquei grávida. E nisso, foi quando eu olhei, meu pai e minha mãe tinham falecido, aí eu falei pra minha irmã mais velha, que tem sessenta e cinco anos hoje, aí eu falei pra ela que não daria mais, porque a situação era outra da gente criar os irmãos também, e era um meio de vida pra gente aprender a viver. E nisso ela não esperava de eu fazer isso. Aí o caminhoneiro falou - mas era parente conhecido da minha irmã também - assim: “Eu estou indo pra São Paulo”. Eu digo: “Até lá eu não vou não, mas vou até Vitoria da Conquista”. Peguei um monte de roupa que eu não sei como, né, fiz uma trouxa, como se chama lá, joguei numa sacola e coloquei lá e vim embora. E peguei a filha, larguei do marido e falei pra ele: “Nunca mais você vai ver essa filha, como filha sua”. E até hoje aconteceu, ela não quer nem saber, ter esse conhecimento, mas ele mora lá, essa pessoa. Isso aí, eu digo assim, que foi uma falta de experiência na época, da gente nunca ter saído de lá. Depois que cheguei aqui aprendi viver, foi o que eu falei, que vocês também me ensinaram muito. E fiquei seis meses na Bahia, né? Esses seis meses minha irmã, eu tenho uma irmã que mora lá, e essa irmã, tem mais de cinco filhos, que eu não sei nem que quantidade mais tem, e nisso era tudo pequeno na época, ela queria me ajudar, e eu procurar emprego também, mas só que era uma coisa difícil. Eu tenho família lá, primo, tem a irmã, tem tudo, mas só que eu digo: “Não, não vou viver às custas de ninguém também, não, né”. Aí eu ia voltar pra casa, porque esse mesmo caminhoneiro passou lá, aí falou assim... como ele era conhecido da gente, vamos dizer assim, aí a minha irmã mais velha falou assim: “Manda, pega ela de volta pra vir pra cá, que as aulas vão começar”. Aí a outra falou daqui, que estava aqui, os que estavam aqui falaram que não, porque se eu fosse pra lá eu ia sofrer, eu ia fazer isso e aquilo, aí ela falou assim: “Diga a ela pra que venha embora pra cá, pra São Paulo”. Eu vim embora e ela estava trabalhando numa padaria, que é essa padaria Arizona e, nisso, logo três dias depois eu fui trabalhar. E foi essa a minha rotina de lá pra cá , todinha. Seis meses em Vitoria da Conquista e o restante, que são trinta e um anos, aqui em São Paulo. E são trinta e um anos de idas e vindas. Onde eu não largo a cultura, que não é pra qualquer um, que tem essa coragem que eu tive.

P/1- E por que a primeira vinda você falou: “Não, eu não vou pra São Paulo, só até Vitoria”?

R- Porque a intenção era voltar, né? Assim, se não desse certo eu voltaria, ia pra casa, como eu tinha a aula lá de cinquenta centavos, a intenção era ‘seja o que Deus quiser’, né? Porque eu tenho fé em Deus e consegui, né? (choro) Eu sabia que eu ia me emocionar, que eu sou tão chata. (choro)

P/1- Quando a gente para pra pensar em tudo o que viveu.

R- Algo mais?

P/1- Sim.

R- Não. Pode perguntar, eu estou... não se preocupa, não. 

P/1- Você quer colocar alguma coisa?

R- Pode falar também. Que ninguém tem uma história dessa, né? (risos)

 P/1- Queria te perguntar desse primeiro marido, como foi, né? E aí depois também do moço do SBT e do atual.

R- Ah, foi assim... (risos) esse daí é engraçado, né? (risos) O primeiro marido só foi uma falta de experiência, como eu falei, né? A gente fica só lá, só fica lá, lá, lá e ali a gente convive entre os parentes mesmo, né? Aí nisso, ele trabalhava, sempre trabalhou aqui em São Paulo, sempre trabalhou lá em outros lugares aqui próximo, né? Aí quando ia todo bonitão lá (risos), mas isso não era pela boniteza. Aí eu estudava, quando eu dei fé um dia, ele chegou perto de mim lá e foi atrás de mim na escola: “Eu quero namorar com você”, aí pronto, esse namoro, a gente ficou foi, logo depois, uns três meses depois, foi quando o meu pai faleceu, né, e minha mãe. Aí eu não sei o que é dá na cabeça da gente, sempre dá um desespero, né? Ele chegou e falou assim: “Eu preciso tomar conta de você”. Aí foi daí que, eu digo que foi um aproveitamento até hoje, eu volto atrás e digo que foi um aproveitamento dele. Aí eu fui morar com ele, nisso foi quando eu fiquei grávida. E quando eu vi que era uma situação difícil, durante esse período que eu fiquei com ele, onze meses só, eu digo: “Isso não é vida pra mim, não”. Eu mesma acordei pra vida e falei que não era. Aí foi quando eu peguei a minha filha, eu digo: “Vou embora”. Eu aproveitei uma questão minha com ele, eu digo: “Eu vou me embora daqui”. Eu pensei: “Mas se eu sair daqui, eu vou ser ruim, e se ele me fizer raiva, eu não vou ser ruim pra ninguém”. Que lá qualquer coisinha é como eu falei, ne, fica todo mundo atenta. Aí, teve uma provocação lá de uma irmã dele lá comigo, aí eu peguei, eu passei oito dias brigada com ele, nesses oito dias eu peguei a minha filha e fui embora, eu digo: “Nunca mais você vai ver essa menina, viu?” Depois ele foi atrás de mim, eu não quis mais, assim, eu digo: “Se você morasse debaixo de uma ponte, eu convivia com você, mas você não mora”. Aí fui embora pra casa. Aí foi quando o caminhoneiro, que era parente da gente, chegou, que fazia, trazia carga de lá pra cá e falou: “Ei, estou indo”. Foi quando eu vim até Vitoria da Conquista. Aí cheguei aí, depois que, como eu já contei a história, minha irmã, não era mais pra eu ir pra lá, aí eu vim pra cá. Aí quando eu cheguei aqui teve esse paulista, né, do SBT, que se engraçou comigo e ia atrás de mim também, na padaria. Eu nunca fui atrás de nenhum namorado, não, viu? (risos) Aí, se engraçou comigo, quando eu dei fé, ele chegou na padaria atrás de mim. Eu digo: “Oxe! Agora deu”, eu falei pra ele: “Não, não quero, não”. E ele: “Não. Mas vamos tentar, vamos tentar”. Convivi seis anos com ele. Mas eu tenho um caso complicado, também, nesse meio, de nós dois, foi minha irmã, essa mesma que eu criei, me chamava de mãe, e nisso aí ela chegou, eu a ajudando, mandava.  Depois a gente pensou assim, eu mais a outra irmã, e falei assim: “Vamos trazê-la pra cá, porque ela vai aprender a viver a vida dela”. Ela não aprendeu, ela aprendeu a querer tomar meu marido. Mas foi isso mesmo, acabou, queria porque queria. Chegou na minha cara: “Você tem tudo”. Aí ele, cabeça fraca, eu disse que paulista tem cabeça fraca, aí ele pegou, aí quando foi um dia, eu via tanta coisa assim, mas: “Eu não tenho nada com ela”. Eu reclamava, né, que também a gente não é de ferro, né? “Eu não tenho nada com ela”. Aí ela: “Mãe, ele cresceu!”. Pra quem me chamava de mãe, eu digo: “Você tem muito respeito, né? Esse marido, Deus não me deu à toa, não, tá?”. Aí, quando foi um dia, eu digo: “Tá bom, você quer, vocês querem ficar aí, fica, que eu vou embora”. Aí ele falou: “Se você quiser, eu faço isso, eu vou, ó o que é que eu faço”. Pegou, eu não tenho vergonha de dizer, porque quem não deve, não teme, um pouco de álcool, só era o fundo de álcool, e jogou nele e jogou o isqueiro, aquele do Paraguai, “se pegar”. Aí, mas tinha que acontecer, né, acho que tinha de acontecer, aconteceu. Passou quinze dias internado, se queimou aqui, aí passou quinze dias internado e ela pegou e foi embora de volta, de novo. Aí eu fiquei seis anos sozinha, eu disse: “Não quero ninguém”. Porque a gente dá um tempo também pra gente, né? Aí esse daqui, esse marido aí, apareceu por acaso, só que eu morava no meu sogro, e meu sogro era ciumento comigo. Aí quando foi um dia eu falei, por desaforo, mesmo: “Nem que eu vou arrumar um feio”. (risos) Ele sabe disso, e foi quando eu o arrumei. (risos) Tem vinte e um anos que a gente convive. Nossa convivência tem vinte e um anos. 

P/2- E da sua filha, conta pra gente um pouco da história com a sua filha, com o seu neto. Como é que é o sentimento? 

R- A minha filha, aí a primeira que eu vim embora com ela, foi o que eu falei: “Ninguém nunca mais vai pisar em cima de mim, nem da minha filha”. Mas sempre eu contei a história pra ela do que aconteceu, eu digo: “Olha, agora eu vou contar”. Porque depois acontece da gente, como se diz, esconder, né, e aí:  “Minha mãe tem culpa. Fulano tem culpa”. Aí eu contei toda a história pra ela, nunca neguei a minha história pra ela. Aí um dia ela escutou também dos mais velhos lá na aldeia, que ela depois que ela cresceu mais, se entendeu mais de adulta, vou falar assim, mas aí: “Sua mãe sofreu bastante, sua mãe foi isso, sua mãe foi aquilo”. Aí ela pegou e entendeu. Até hoje ela diz que ela tem, eu não sei quantos irmãos, mas tem muitos agora, dele com outra mulher, ela tem vários irmãos, mas ela não considera, ela diz: “Não, que eu não considero ninguém”. Agora, só a minha filha, a que eu tive desse paulista, ela considera. As duas brigam, que as duas são irmãs, só elas existem, só que essa, a paulista, foi embora pra lá, arrumou um marido lá, indígena fulni-ô também, tem uns quatro anos que ela convive lá. E o que é que ela faz? Ela tem todos os costumes de lá, aonde a outra que nasceu lá tem o costume daqui. (risos) É diferente. (risos) Aí, eu digo: “É complicado esse caso, porque é meio complicado mesmo, porque a de lá pega, digamos assim, come feijão, farinha, o peixe e a daqui gosta das coisas de São Paulo, o lanche”. Ela tem trinta e um anos e a outra tem vinte e cinco. E nisso aí é a nossa rotina aqui, tem a rotina dos artesanatos, elas me ajudam também. A gente fez um projeto no início com a... na época, é o que? Núcleo, né? Lá na USP. E foi daí que eu comecei com o projeto da carteira indígena, que chamava Fome Zero. Até teve uma pessoa de lá que nós trabalhávamos tudo junto, o Maurício Fonseca, assim, não se garantiu da minha confiança, e eu mostrei tudo o contrário pra ele, que eu disse a ele: “Você não vai se decepcionar comigo”. E até hoje mesmo, quando nós nos encontramos, nós somos... ninguém decepcionou comigo. Tem toda uma história grande, viu, essa história. (risos)

P/2- E o seu netinho?

R- O meu netinho? Os meus netinhos, agora. Os meus netinhos, que eu digo a eles que eu não sou... eu sou a tia deles. Tem dois, um de oito anos, que é o Adrian, é o que convive lá com a minha filha de vinte e cinco anos, e a Case, é nome indígena de lá, com o (tuiã?) _______  [32:01]. O (tuiã?) __________ [32:02]é um negrão que é entre negro e indígena, que está em casa agora assim, porque ela casou com um negro, mas é uma boa convivência também e tem um ‘negão’ de dez anos, que é o (tuiã?) _______ [32:13]. O (tuiã?) _______ [32:14] significa o primeiro neto. E tem, sim, o Talio, agora, que nasceu lá, da minha filha de vinte e cinco anos e a outra está grávida, já está pra ter nenê também. Porque quando uma faz uma coisa, a outra quer fazer também. Eu digo: “Agora deu, nunca é, isso aí é coisa feia”. (Risos)

P/1- É bom pros primos cresceram juntos, né?

R- É, o (Tuiã?) __________ [32:42] completou anos, agora dia nove, o outro vai ser dia vinte e nove. E essa é a rotina da gente. Algo mais?

P/1- Um pouquinho de hoje, assim, conta o que você tem feito hoje. Assim, atualmente.

R- Bom, eu convivo do artesanato, sempre eu estou no evento, tem o Revelando São Paulo, assim, onde a gente tem assim, do Conselho. Em 2006 a gente fez o Conselho, tem O Revelando São Paulo, que é uma parte da cultura da gente junto com a Secretaria de Cultura. E a minha rotina sempre é essa. Não tem nem o que contar que é a mesma, né? Vai e vem, vai e vem, e evento, e vai pra lá, a gente se encontra, a gente sentado nos lugares. Esses dias eu encontrei ela lá no Butantã, não foi? E foi daí que nós, some um pouco, depois estamos junto de novo, mas as coisas são as mesmas, a rotina é essa. Hoje mesmo de manhã eu acordei, fui lá no hospital, lá em São Caetano, porque o meu irmão está perdendo, assim, a vista, e no caso aí o cirurgião de lá falou que... arrumei né, particular, mas vai ser grátis. Ele disse que fazia a cirurgia, mandasse os documentos, analisasse. E é essa a minha rotina, idas e vindas.

P/1- E desses trinta anos em São Paulo, assim, como você sente a cidade recebendo você como indígena? Você acha que...

R- Tem muitas coisas que rolam também, boas, discriminação, uma hora um discrimina, outra hora a gente é bem atendido, mas assim, o que vale é o que eu sou, não é o que os outros querem e o que pensam, eu sou fulni-ô e eu não vou mudar nunca a minha identidade por causa de ninguém, onde eu estiver tem que me aceitar assim, e se não aceitar eu saio. Eu sou bem sincera, e me orgulho do que eu sou, fulni-ô.

P/1- E assim, o que te move na vida, o que é importante, você diz: “Isso aqui é o que dá sentido na vida”?

R- Minha coragem, minha luta, que eu não desisto. Às vezes até eu sou criticada pelos próprios parentes mesmo porque, e eu entendo eles, assim, porque às vezes eles chegam com tudo, pensam que é da maneira deles, que não é, né? A gente tem o lado bom e o lado ruim. Isso aí eu entendo tudinho também entre os brancos, os indígenas e os não-indígenas. 

P/1- Conta uma história aí pra gente, da sua coragem, que você lembra, assim, de um enfrentamento que você teve que ter.

R- O que você quer que eu conte?

P/1- Não sei, algo assim que vem à memoria, nessa sua trajetória toda. 

R- Não tem, igual eu estou falando: tem o lado bom e o lado ruim. Tem hora que a gente tem o lado bom, assim, como tem o Revelando São Paulo; o outro que agora também está tirando tudo, né, o nosso governo tirando tudo, querendo tirar a nossa identidade, aonde ele não vai conseguir de maneira alguma, cada dia vai ser uma luta. Nós podemos ser o maior inimigo entre parentes, mas a gente não desiste, e a crítica também, tem todo esse lado, mas acontece que a gente não vai desistir de ser o que a gente é, indígena. Não adianta. Esses dias mesmo, eu sou do Conselho Estadual, como eu falei, esses dias mesmo o Davi passou o cargo pra mim também uns dias, depois se ausentou, e a gente vai numa trajetória, o que vale é a nossa luta, o que nós somos, pode ser ontem, hoje e amanhã, enquanto a gente estiver vivo, nós não desistimos. 

P/1- Me conta um sonho seu.

R- Ah, tem tantos!

P/1- Pro seu futuro.

R- Não. Mas eu realizo. O sonho eu realizo. Nem preciso eu contar, toda vez que eu quero um, assim, que eu digo: “Eu vou conseguir uma coisa”, eu realizo os meus sonhos.

P/1- Então, conta um pra gente, um sonho realizado.

R- Tem coisa assim, que eu penso assim: “O sonho é esse”. Aí eu penso assim, eu digo: “Eu vou, nem que eu quebre a cara, nem que eu...”. Primeiro a gente diz isso, né? Eu penso negativo e penso o positivo, mas eu não vou desistir disso aqui, isso é meu sonho e eu chego lá. Aí é muita coisa, assim, os sonhos são assim, de pensar positivo, aonde eu vou eu penso positivo e consigo alcançar o que eu quero, mesmo sendo pouco, mas eu consigo. Eu não desisto.

P/1- Posso te perguntar mais uma coisa?

R- Pode.

P/1- Queria que você contasse um pouco dessa trajetória do ir e vir pro ouricuri, que é o ritual lá que tem importância, mas também é difícil ir e vir, né, é distante, é caro.

R- Ah, tá. Esse é o único que eu vou com todo o prazer e vou por minha conta. Porque se for pra viajar, assim, da luta, a gente vai também, mas acontece, mas esse daí é outra coisa que eu não desisto, porque eu estou aqui em São Paulo, pode estar onde eu estiver, quando chega numa época dessa eu vou, porque é uma coisa que eu nasci nela, me criei nela. Às vezes, até os parentes falam, como a gente está distante, que chama, na língua, (mulate?) _________ 38:16, porque a gente está fora da aldeia, assim. E eu digo: “Eu não sou (mulate?) _______ [38:23], porque eu nasci e me criei ali. Tenho, como se diz, minhas promessas, a minha fé, que eu digo que eu vou alcançar e consigo”. Agora mesmo, o caso do meu irmão, eu deixei passar tudo lá no Recife, deixei a mulher dele lá acompanhar tudo, aí chega uma hora que eu falei, ontem mesmo eu falei com ele, eu falei pra ele assim: “Nós vamos conseguir aqui”. E está conseguindo. Porque pra pagar dezoito mil é caro, né? Da onde vai sair esses dezoito mil? Isso é uma graça e eu vou alcançá-la, com fé em Deus. Mesmo ele estando lá e eu estando aqui, e eu não desisto de ir pra lá, como eu fui, vou em novembro de novo, tem minhas coisas lá, minhas responsabilidades, que eu sei que é uma responsabilidade minha e isso também eu não vou desistir. É uma trajetória de idas e vindas, e quando eu vou, eu faço o impossível pra eu não depender de ninguém, ir por minha própria conta. 

P/1- E é um ritual ali, né, que vocês guardam pra si, né?

R- Esse é nosso.

P/1- Você estava dizendo que o branco entra só ali no primeiro dia, né?

R- É, só no primeiro dia tem uma igreja, aliás, tem uma missa, assim, e quem já foi lá já sabe como é que é, tem muitas promessas que o povo paga lá, tem um pé de juazeiro lá que é muito importante, que o povo considera tipo uma santa, santa Aparecida do Norte, e nisso ali, muitas pessoas pagam promessa e onde, dizem eles, que são alcançadas. A gente vai desistir do que a gente tem fé? Não. Onde eu estiver, não. Se eu estiver aqui, não; se eu estiver lá, não. É a mesma coisa, o que vale é a minha fé.

P/2- Tem alguma coisa que você queira falar, que a gente não perguntou?

R- Bom, tem assim, que eu agradeço demais. Eu fico muito feliz, porque isso aqui, agora quem vai falar sou eu, assim, é mais uma oportunidade pra gente, entendeu? Pra gente indígena, assim, que a gente está na cidade, não só eu, como se fosse outros, da gente estar sentado aqui, falando um pouco da vida da gente pra vocês e vocês acatarem de braços abertos, eu agradeço demais. E o conhecimento da Julia, que já vem há dezesseis anos de altos e baixos, mas não comigo, né? Altos e baixos, o que eu quero dizer é assim: que uma vez nós estamos junto, outra vez nós estamos distante, né, mas sempre unidas. A união faz a força.

P/1- Você gostou de contar a sua história?

R- Gostei. O meu marido fala que eu vou fazer um livro e eu nunca faço esse livro. (risos)

P/1- Vamos fazer esse livro. (risos)

R- Vamos fazer esse livro, dá pra fazer.

P/1- A gente agradece você, pelo tempo disponível, essa disposição a contar a sua trajetória.

R- Os altos e baixos, mas vamos lá, vamos juntos.

P/1- Está certo.

R- Algo mais?

P/2- A não ser que você queira falar.

P/1- Eu ficaria aqui o dia inteiro te fazendo pergunta.

R-  Pena que eu estou, é o tempo também. Cheguei cedo, cumpri meu horário, né? Ainda avisei: “Estou indo”. Desde cinco horas que eu estou na rua, ainda eu vou passar lá no Brás. Sabe o que é que eu vou fazer lá? Pegar o fumo, é da história também, né? Eu fumo a xanduca, a xanduca quer dizer o cachimbo da gente. Que pena que não deu pra mostrar, né, mas tem eles todos no meu Face. E o fumo, até isso pra mim é importante, olha a minha fé, como é importante, o meu fumo também. Eu não compro fumo que a gente fuma aqui, é o fumo de corda, eu mando buscar lá na minha aldeia e só fumo se for de lá. Aqui eu não pego de jeito nenhum, nem dos parentes eu pego, porque o dos parentes, às vezes, é misturado, e aquele fumo de corda que vem é bem forte e eu gosto dele. É mais uma história, né?

P/1- E o pessoal fulni-ô que faz, lá, o fumo?

R- Não, o fumo não vem diretamente dos fulni-ô, porque tem a fábrica, né, em Arapiraca, que eles compram lá, só que o fumo é forte, né? E aí revende nas cidades vizinhas, e como lá é próxima, aí a gente só usa de lá. Só que o da gente já vem protegido, né? A gente pegou um indígena lá do fulni-ô, aí é protegido, é uma proteção pra gente.  É onde eu uso, de lá. 

P/1- Ah, conta agora um pouquinho do tabaco. Assim eu conheço um pouco, o que os guaranis falam do tabaco, o petinguá. Eu queria saber, também é um processo de cura, né, o uso do tabaco?

R- É um processo de cura, é a fé da gente também. Eu acho que eu não estou aqui à toa hoje, se eu vim foi, os outros dias não era pra ser, entendeu? O dia era hoje. E ali, quando eu saí de casa, de noite mesmo também, como eu saí cedo a gente - é coisa nossa, particular – faz, como diz eles, o rezo, que vocês já conhecem, e ali a gente passa o dia e seja o que Deus quiser. Se for pra ser bom vai, se for pra ser ruim também vai, mas é uma proteção pra gente, entendeu? O fumo de corda é muito importante pra gente. 

P/1- Então, a gente vai te liberar pra ir pro Brás, né? Obrigada.

(risos)





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