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História

Idade da pedra

História de: Manuel Henrique Farias Ramos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/12/2012

Sinopse

A infância passada em ambiente rural. O pai, carpinteiro, e a mãe, dona de casa. O contato com o livro Brasil, País do Futuro, de Stefan Zweig. A guerra nas colônias e a decisão de morar no Brasil. O estabelecimento em São Paulo e o trabalho em um grande açougue no Brás. As transformações do setor varejista de carne e dos hábitos de consumo. A abertura do próprio negócio, as dificuldades iniciais e o início da participação sindical. Atividades atuais como criador de gado, vice-presidente da Fcesp e, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Carnes Frescas do Estado de São Paulo.

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História completa

“Eu nasci nos Açores. Os Açores são um arquipélago de nove ilhas que fica entre o continente americano e o europeu. Reza a tradição que ali teria sido a Atlântida, e nós acreditamos nisso, nesse mito. É um arquipélago que tem em torno de 300 mil habitantes, e a ilha onde eu nasci, como foi a terceira a ser descoberta, chama-se Ilha Terceira. Minha infância foi bem típica do meio rural: jogava-se bola, havia brincadeiras de correr. Isso foi lá pelos anos 40. Depois veio o tempo da escola, e aí tinha uma peculiaridade que vocês não conhecem: a alfabetização se dava numa pedra. Era uma pedra que tinha um caixilho e o lápis, que não era de pedra, era um pouco mais mole. E ali você podia escrever. Os primeiros dois anos você escrevia numa pedra de ardósia. Então, por incrível que pareça, eu sou da idade da pedra. Nessa época, nós vivíamos numa aldeia e tudo era bem rústico. No comércio, por exemplo, a coisa ainda se fazia pelo sistema de trocas. Meu pai semeava trigo, colhia o trigo, dava uma parte do trigo para o moleiro que moía, ficava com uma parte e trazia a farinha. E era igual com os outros produtos. Você fazia troca de batata com o pescador que levava o peixe e assim por diante. Depois, por volta de 1946, meus pais mudaram para a quinta dos meus avós. Eles produziam hortaliças para o mercado; tinham uma banca no mercado, então a relação já era outra. Eu me dei bem ali, mas sempre tive o espírito rebelde. Questionava a ditadura de Salazar e então pesava uma certa ameaça sobre mim. Para piorar, naquele tempo eclodiu a guerra nas colônias. Então eu só tinha uma saída: migrar. Eu fiz a viagem de navio para o Brasil. Saí da Ilha Terceira e passei por outra ilha chamada São Miguel; isso levou um dia. Depois, navegava-se mais dois dias para chegar à Ilha da Madeira. E, finalmente, da Ilha da Madeira para chegar a Lisboa mais dois dias. Só nesse trecho você viajava por cinco dias. E de Lisboa até o Brasil, a viagem durava em torno de nove, dez dias. O plano era eu ficar no Rio de Janeiro, trabalhando para um português açoriano na Confeitaria Colombo, mas ele pediu para acertar a documentação e eu descobri que o processo ia levar um ano. Aí eu desanimei. Na hora em que me disseram isso, eu fiquei matutando e lembrei que tinha o endereço de uma viúva de mais de 80 anos, que o marido dela tinha sido amigo do meu avô. Ela morava na Rua Vilela, no Brás. Brás não, Tatuapé. Eu disse: ‘Bom, vou para São Paulo.’ Então, 11 horas da noite, eu peguei o ônibus e vim. Cheguei aqui umas cinco, seis horas da manhã, uma neblina, um negócio terrível. Tinham me avisado para pegar o bonde Penha, depois de desembarcar, então chegou o tal bonde e eu tentei entrar pela porta da frente, mas todo mundo vinha saindo e o motorista bateu com a porta na minha cara. Eu falei: ‘Não é possível.’ Aí fiquei esperando, veio um ônibus escrito Penha, e eu pensei: bom, agora não vou entrar pela porta da frente. Só que o motorista bateu a porta na minha cara de novo. Eu achei que o mundo estava contra mim, viu? No fim, fiquei estudando o movimento dos ônibus e dos bondes até entender que um entrava pela frente e o outro por trás. Quando cheguei na casa dessa viúva, ela me recebeu muito bem, talvez pela alegria de encontrar alguém do lugar onde ela tinha nascido. Logo em seguida, o filho dela me arranjou emprego numa fábrica e as coisas começaram a se acertar."

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