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Ibrahim Belaciano

História de: Ibrahim Belaciano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/11/2005

História completa

Meu nome é Ibrahim Mourad Belaciano. Belaciano quer dizer que nossa origem vem da Espanha, do tempo da Inquisição, quando os judeus foram expulsos e se espalharam pela costa da África, pelo Oriente Médio. Nosso nome antigamente era "Palaciano", da gente que vivia nos palácios, origem boa. Como em árabe não tem a letra "p", "Palaciano" virou Belaciano, porque eles usavam o "b" no lugar de "p". 
Nasci no dia 25 de maio de 1919. Naquela época os aliados tinham ganho a Primeira Guerra Mundial e vieram ocupar o Líbano e a Síria, junto com a Palestina, que era uma colônia turca. Como a Turquia era aliada da Alemanha, e os dois foram derrotados, os ingleses e os franceses ocuparam toda aquela área. O Líbano e a Síria eram um único país, mandato francês. Mas depois a França separou os dois países para agradar aos cristãos do Líbano. 

Minha cidade chamava-se Sidon. Em hebraico Tsidon e, em árabe, Saída. A cidade tinha uns trinta mil habitantes entre católicos, muçulmanos, xiitas, e mais ou menos uns cinco mil judeus. Tínhamos uma escola especial, a Alliance Israélite Universelle, onde não entrava católico, nem muçul- mano. Era uma sociedade filantrópica francesa, fundada pelo Barão Hirsh. 

Nós todos morávamos num bairro judeu, em árabe Hart el Iahud, quer dizer "quarteirão dos judeus". Lá tinha sinagoga, tinha forno, tinha água, tinha tudo o que se precisava. Só se saía de lá para trabalhar. Na porta desse bairro tinha um portão de ferro à noite com um guarda para proteger, porque tinha muito vandalismo: entravam lá, queriam raptar as moças judias, que eram bonitas. 

A maioria dos judeus era pobre. Alguns tinham propriedades ou bons comércios, mas havia até gente que vivia na miséria. 

Mesmo assim os judeus se ajudavam, sempre, toda sexta-feira de tarde, a gente fazia pão em casa e mandava pro forno em honra ao Shabat . Aí vinham dois rapazes de nossa comu- nidade, tocavam a porta e falavam assim: "Mazon, Mazon!", quer dizer, pão. Então cada família dava dois, três pães e eles juntavam tudo isso e iam nas casas dos necessitados e distribuíam. 

Havia um comércio local e também outra gente que ia nas aldeias para vender produtos, gente que não podia abrir uma loja, que custava caro um aluguel. Mas a maioria dos judeus estava no comércio. Meu pai tinha uma loja. 

A nossa língua materna era árabe, mas na escola estudávamos três idiomas árabe, hebraico e francês. Naquela época éramos muito amigos dos muçulmanos, éramos quase como uma família. Tanto no Líbano quanto na Síria, nos países árabes em geral, tinham muita amizade com a gente. No dia de Simchat Torá, por exemplo, a sinagoga ficava cheia de muçulmanos que tinham algum problema, que eram cegos, paralíticos, e que vinham especialmente para botar a Torá cima da cabeça. Nas ruas, as mulheres muçulmanas perguntavam: "Ó menino, quando vai ser o Simchat Torá de vocês?" Eles esperavam aquele dia para entrar na sinagoga e serem abençoados. 

No dia de Pessach , a gente mandava para eles alguns matsor . Isso era como uma benção de Deus. Eles adoravam, comiam aquilo com muito gosto e, para retribuir, na despedida de Pessach mandavam uma bandeja de cobre cheia de pratos: ovos cozidos, queijos, beleuas, pão árabe, azeitona, frutas. Era uma delícia! Era costume, em Pessach, comprar dez, vinte quilos de arroz e chamar as filhas para limpar, grão por grão. Fazia-se doces de marmelada, preparava-se o açúcar e o café e se colocava tudo isso em vasos de vidro especiais, tudo kasher . Depois era a casa. Tinha que limpar, tirar as roupas, revirar os bolsos. Aí se passava cal em todas as paredes. Tudo tinha que ser branco: era sinal de Pessach quando tudo era branco. 

No shabat, a comida era mais sofisticada. Chamava-se hamim . Deixávamos de sexta para sábado em fogo lento, brando, pronto para comer quando se saísse da sinagoga. Mas antes íamos visitar os parentes; se tinha bar mitsvá , íamos na casa do barmitsvá dar os parabéns, depois chegávamos em casa meio dia, sentávamos, a mesa já estava posta com o chalá no meio, com bebida, arak, aí o pai fazia o kidush , sentava e começava a beliscar: quibes, doces, picles, saladas, todo tipo de saladas. 

A cidade estava sempre cheia de acontecimentos. Quando tinha um noivado, por exemplo, se juntava todo mundo para ir na casa da noiva, dançar, faziam danças, festas; todo mundo sentava na sala, traziam uma moça árabe de fora para cantar em árabe, nossas mulheres cantavam junto. Era gostoso! Ofereciam limonadas, refrescos, doces, frutas. Era farra naquele dia! Ficávamos até meia-noite. Isso acontecia no Brit Milá , no Bar Mitsvá e no casamento. Era assim que a gente passava o tempo: na sinagoga, na rua, na praia. Era litoral e era bonita a praia. 

No Bar Mitsvá se mandava convite e todo mundo ia, às seis horas da manhã. O barmitsvá ficava sentado no Hechal , esperava a vez dele para subir na Torá, descia o chazan e pegava ele pela mão, fazia uma ronda, todo mundo batia palma, brincava, dançava e carregava o menino até chegar à bimá e ele subia lá; todo mundo subia com ele, a garotada pegava uns doces feitos de amêndoas, jogava em cima dele. Isso na quinta-feira. Na sexta-feira, o barmitsvá voltava à sinagoga e cantavam para ele Iaassé Shalom . No sábado, então, era a festa grande: ele que lia a Torá, fazia discurso. Depois o bairro inteiro ia para sua casa e ficava o dia todo, é comida, é bebida, é arak, é cerveja, é de tudo. 

Os casamentos eram arranjados, mas tinha que haver uma relação entre os noivos para ver se se gostavam. Se sim, então as famílias intervinham. Traziam o chazan para casa e botavam as condições do casamento no papel. Decidia-se quanto a família da noiva ia dar, porque a moça tem que ter um dote. Na nossa religião, isso vem do tempo de Moshe Rabeinu, a mulher recebe a sua parte da herança quando casa e não quando da morte dos pais. O casamento se fazia na casa da noiva, vinham os convidados com presentes, chegava o rabino, trazia a Ketubá. Depois do casamento tinha a festa de todos os familiares, quando a noiva, junto com o marido, ia retribuir a visita aos parentes. Cada vez, faziam um jantar, distribuíam doces, faziam uma festinha, que se chamava habra, que quer dizer de passagem, isto é, a noiva passou de uma vida para outra. 

Eu estudei até a idade de quatorze anos e depois, eu não me dava bem como minha madrasta, meu pai falou: "Você vai para a Palestina e vê se arranja um trabalho, tem mais futuro lá". Fui para Haifa. Comecei a trabalhar como boy na loja de um senhor da Bulgária, Moshe Pilosof. Ele me dava duas liras por mês. Cada lira valia três ou quatro dólares. Eu vivia, pagava hotel e ainda sobrava dinheiro para ajudar meu pai. Fiquei em Haifa dois meses, depois peguei febre tifóide e voltei para a casa. Quando fiquei bom não quis mais voltar para a Palestina. Pensei no que fazer e tive uma idéia: resolvi fazer um concurso para a Escola Nacional de Belas Artes em Beirute. Entrei em 37, fiquei quatro anos, como num internato, comia e bebia lá. Quando saí arranjei trabalho na fábrica de um judeu que vinha da Rússia. Trabalhei como eletricista, primeiro em Beirute, depois em Damur. Só voltava a Sidon nas festas, para visitar a família. O último Pessach em Sidon, cheguei, vi os judeus pálidos, com a cara amarela de medo. "Que houve?" "Os palestinos estão chegando aqui". Vinham em massa os palestinos fugindo da guerra. Chegaram centenas de refugiados, as mulheres ainda de pijama, fugiam de Israel. Isso foi em 1948. Os palestinos fugiam para o Líbano, para a Síria, para o Egito e tomaram conta de Sidon. Então os judeus largaram tudo e foram para outro lugar. Seis meses depois, quando as coisas acalmaram, voltaram com medo e logo cada um começou a procurar um lugar para imigrar. Eu estava em Beirute e continuei por lá. Meu pai veio morar conosco. Deixei a fábrica e, em 52, abri uma loja com um companheiro. Mas as coisas não eram boas, a loja não dava lucro, os aluguéis eram muito caros, os palestinos começaram a hostilizar os judeus, impediam que comprassem em nossas lojas. E, no Egito, Nasser tinha começado a subir. Então começou a guerra do Sinai em 56 e essas coisas todas não estavam me agradando... as nuvens estavam se formando e eu pensei: "Puxa, eu tenho cinco filhos..." Eu já tinha cinco filhos nessa época. E resolvi. Escrevi para meus irmãos que queria emigrar. 

Meus irmãos já estavam no Brasil há muito tempo. Nos anos 20, 25,30, todo mundo saía do Líbano porque era um campo pequeno. Era moda vir para a América, "fazer a América: diziam que aqui tinha ouro no chão. Também em 1910, 11, 12, vinham muitos, fugindo do militarismo. A Turquia mandava a rapaziada servir o exército, eles não queriam servir o exército turco. E todo mundo, quando tinha quatorze, quinze anos vinha para o Brasil. Meu primeiro irmão, Eliahu, veio em 1926. No navio dele vinham mais quarenta famílias. O segundo, chama-se José, chegou em 1928 e começou a trabalhar como vendedor ambulante. Em 29, chegou o outro, Aslam, que veio com 13 anos para se juntar aos irmãos.

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