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História

Humor é compromisso

História de: Victor Sarro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/04/2021

Sinopse

Para o paulista Victor Sarro, ninguém se torna comediante; ou se nasce assim ou se escolhe outra profissão. No caso dele, então, não poderia haver outro caminho: além do humor inato, Victor sempre o carregou no próprio sobrenome. Em seu depoimento, ele conta algumas das muitas trapalhadas da infância – como a vez em que, depois de ter tacado um bloco de areia em um carro do condomínio onde morava, foi se esconder justamente na garagem da “vítima” – e fala da rápida virada que o levou do posto de palhaço de restaurante para o de humorista de um conhecido programa de TV. Hoje, estabelecido com seus shows de stand-up, Victor enfatiza o prazer que sente ao subir no palco e o compromisso que faz questão de honrar a cada apresentação: deixar as pessoas mais felizes.

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História completa

Eu nasci no dia 5 de dezembro de 1988, em São Bernardo do Campo, mas eu só nasci lá. Morei sempre em São Paulo. Minha infância foi muito boa. Eu lembro que a gente morava num conjunto habitacional que tinha um morro e a gente escorregava muito de papelão naquele morro. Era muito legal aquilo. Brincava muito com o meu irmão. No condomínio onde eu morava tinha muito amigo, porque era do A1 ao A19 e do B1 ao B19: eram quase 40 prédios com muitos apartamentos. Então, era muita criança, era muita gente. Estava sempre em construção o condomínio, então, a gente pegava uns blocos de areia e ficava atacando nos carros que estavam passando. Eu lembro de uma história que eu taquei um torrão de areia no carro de um cara e saí correndo. Pô, imagina, eram quase 40 blocos, mais de mil apartamentos. A gente saiu correndo, corremos muito, me escondi numa garagem. E era a garagem do cara! Aí, o cara me pegou no braço e me levou até o meu pai. Meu pai me bateu, eu lembro. Época em que podia bater nas crianças. Eu sempre fui muito palhaço, desde a época de escola, eu gostava de divertir as pessoas. Eu achava engraçado que as pessoas olhassem pra mim, que elas dessem risada. Eu nem pensava em ser comediante antes, mas... Tem uma passagem muito legal na minha vida que foi a que talvez tenha me feito virar humorista. Tinha uma novela na Globo que chamava Kubanacan, e o personagem do Vladimir Brichta fazia um magnata. E, toda vez, ele entrava num prostíbulo na novela, ele dava um chute na porta e entrava uma música. Uma música caribenha. Aí, ele passava a mão no cavanhaque, passava a mão no cabelo, abria os braços, e vinha um monte de mulher abraçando ele. Isso ele sempre fazia na novela, e eu comecei a fazer isso na escola. Eu entrava na sala de aula dando um chute na porta, boom! E as pessoas riam muito com isso. E, ali, eu senti esse gosto, ali eu senti esse bichinho da risada. Pra mim, ali começou a coisa do humor, que eu não queria mais seguir a vida tal correta como ela era. Pra mim, ali o humor já era fundamental. Foi quando eu fui trabalhar de palhaço no Habib’s. E, aí, eu fui fazendo shows, fui trabalhar de Pikachu depois num bufê. E foi quando eu comecei a me interessar pelo stand-up, comecei a assistir. Eu não tinha dinheiro, eu ia a pé para os shows, seis horas andando. Eu ia a pé e voltava a pé. E era muito legal isso. Eu fui um dos poucos comediantes que não quis sair fazendo comédia stand-up. Eu quis assistir primeiro. Fiquei seis meses indo quase todo dia assistir comédia stand-up. Eu fiquei magro, porque eu andava muito, e eu ia anotando tudo o que as pessoas falavam. Até um dia que, num aniversário, eu fui fazer 19 anos, e a Nany People me chamou. Eu fui num show que era com a Nany e eu falei pra Nany: “Eu quero fazer isso o que você faz”. Aí, ela falou: “Então, sobe no palco e vem fazer cinco minutos”, de surpresa. Eu fiz. Estavam nesse show Danilo Gentili, Bruno Motta, Nany People. Esses três começaram a me dar muito apoio. Aí, me inscrevi num concurso na Record por causa do Rica, um produtor que tem aqui em São Paulo, e ele falou: “Cara, vai lá, se inscreve”. Eu falei: “Eu não quero ir, porque é concurso, eu nem sei”. “Cara, pagam 500 reais de cachê.” E 500 reais eram o que eu ganhava no mês. Eu falei: “Então eu vou”. Fui, passei da primeira fase, ele falou: “Cara, vai ganhar mais 500 reais”. Passei de novo: “Cara, vai ganhar mais 500 reais”. Quando eu cheguei na final, valia dez mil reais. Comecei a escrever, escrever, cheguei na final: eu ganhei os dez mil reais! Nossa, eu chorava, aquele cheque gigante, sabe? A plateia: “Ele merece”. Parecia que eu tinha ganhado um micro-ondas no Sílvio Santos, sabe? E a galera e eu comemorávamos, e foi muito legal. Depois, teve uma superfinal que valia mais dez mil reais e mais uma moto. Entrei e ganhei de novo. Aí, poxa, eu corria, parecia o Pelé dando um soco no ar! E, dali, as coisas começaram a acontecer muito rápido pra mim, numa velocidade que me assustou. Porque eu saí dali, o Comédia em Pé, que foi o primeiro grupo de comédia do país, me chamou, me levou para o Rio de Janeiro e eu comecei a fazer stand-up. E a comédia na minha vida foi mudada através da minha vida. Foi tudo muito rápido. Eu estava aqui em São Paulo, com 19 anos, eu conheci a Aline, minha ex-esposa agora. E veio o primeiro soco que eu tomei, né? Poom! “Tô grávida.” Daí: “Quer vir morar no Rio de Janeiro comigo?”. E, aí, veio a Serena. E, um dia, eu cheguei ao teatro, contei da Serena, contei que estava muito caro. Porque na época eu falava que era muito caro ter um filho, que eu fui comprar um carrinho de bebê normal, perguntei: “Quanto está o carrinho?”. Ela falou: “Dois mil reais”. “Mas está com o IPVA pago já? Dois mil reais?” E eu contei isso no teatro. Tinha um diretor na plateia chamado Calvito Leal, e o Calvito, através do Cláudio Torres Gonzaga, que é o meu mestre em stand-up, é o cara que me ajudou no Comédia em Pé. O Calvito estava fazendo um documentário na Globo sobre pais anônimos e pais famosos, e ele falou: “Pô, você não quer ser um pai anônimo com a gente?”. “Vambora!” Aí, fui e gravei um quadro no Fantástico com ele. O Calvito Leal virou o diretor de Fátima Bernardes, estavam montando um programa, e a Fátima falou: “Eu preciso de um comediante”. O Calvito falou: “Eu tenho um pra te mostrar”. E mostrou um vídeo meu pra ela. Ela falou: “É esse cara que eu quero”. Pior escolha da vida de Fátima Bernardes no programa (risos). Aí, me contrataram. Então, do Habib’s até a Fátima Bernardes foi um período de seis meses a um ano, foi tudo muito rápido. De palhaço do Habib’s ao repórter da maior jornalista do Brasil! Na minha vida, todo dia é uma emoção diferente, porque ainda sinto aquele frio na barriga, porque eu quero entrar no palco, eu quero que as pessoas deem muita risada! O meu objetivo na vida é este: que as pessoas sejam muito felizes. Eu queria muito fazer uma faculdade de Psicologia pra ajudar... Mas não tenho tempo, porque a minha forma de Psicologia é outra. Eu quero estar no palco. O palco me cura de qualquer dor ou tristeza. Eu acho que tem muita gente boa escrevendo humor, mas eu acho que tem alguma coisa interna que desperta em você, porque o humor, ele não é fácil. Você tem que querer fazer, você tem que estar disposto. O humor é compromisso. O humor é despertar o sentimento de alegria em outra pessoa, isso é humor, é por isso que você conta uma piada. Você não conta uma piada pra alguém porque você quer contar piada, você conta uma piada porque você quer que aquela pessoa dê risada. Eu acho que é essa a missão do comediante: fazer o outro rir, mesmo quando você não está feliz, por isso que você é um comediante. Acho que é essa a fórmula do sucesso, é esquecer todos os problemas e naquele momento você estar ali. Então, eu acho que a comédia é isso, você nasce comediante, você não vira comediante. Você não se descobre comediante, você é comediante e ponto final.

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