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Hugueta: regente da sua história

História de: Hugueta Sendacz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2019

Sinopse

Foi com menos de dois anos que Hugueta Sendacz chegou ao Brasil, com os pais. Veio da distante Polônia para ser criada num país com menos antissemitismo. Desde então nunca morou em outro lugar: sempre o Bom Retiro. O pai era boneteiro, a mãe soprano, ambos de esquerda e desligados da religião. Sofreram todas as dores que a Segunda Guerra pôde provocar em famílias judias. Considera-se privilegiada pela formação que teve - familiar, cultural, musical. Estudou ballet no Municipal, quase tornou-se bailarina. Passou nove anos no conservatório, tornou-se pianista; bem adiante, regente. Participou da fundação da denominada Casa do Povo, assim como criou - ou recriou - um Coral especializado em música iídiche. Acha que tirou a sorte grande no casamento; ao lado de filhos, netos e bisnetos, sonha, aos 92 anos, com um mundo que tenha mais paz e menos desigualdades.

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História completa

Corro por um quintal bem grande, e esse quintal era de uma casa onde eu morava. Na verdade, de uma casa onde meus pais alugavam um quarto, recém chegados da Europa. Eu devia ter menos de dois anos de idade e essa é a primeira imagem que me vem à memória, da infância. Fazia pouco tempo que meu pai desembarcara em Santos, com mulher, um bebê e oito dólares no bolso. O trem os trouxera até a Estação da Luz; abrigaram-se nessa pensão no Bom Retiro. Desse bairro eles nunca saíram. Tampouco eu.


Meu pai era boneteiro - produzia bonés. Foi trabalhar em uma fábrica de bonés. Logo conseguiu montar a própria. Que depois virou confecção - roupas, não é? Ainda imagens da infância: uma casa propriamente dita - quando eles puderam alugar - e os cinco anos de idade passados na cama, com sarampo, chorando por não poder ir à festinha do meu aniversário. E mais: uma outra casa, maior, que chamavam porta e janela - um janelão na sala, que dava direto para a rua.


Na época certa, fui para a escola. E, à tarde, íamos - eu e os coleguinhas - para o Jardim da Luz. Sozinhos. Apenas alguém nos atravessava, que passava bonde. Lembro dos livros de história que alguém do governo distribuía; provavelmente onde se originou o meu gosto pela leitura. Por que meus pais emigraram? E por que o Brasil? Bom, primeiro pelos efeitos da crise de 1929, e depois pelo antissemitismo em ascensão na Polônia, de onde vieram. E o Brasil especificamente, pela propaganda segundo a qual aqui “crescia dinheiro em árvores”.

 

Tinham a imagem de que aqui eles iriam poder. E depois, eles queriam que a filha deles crescesse em um país onde não houvesse esse antissemitismo.


Um período que me marcou demais - eu tinha 13 anos - foi o da Segunda Guerra Mundial. Foi um sofrimento que atingiu a todos nós, mas especialmente aos meus pais. Afinal, a família deles quase toda na Europa; já eu, saí de lá bebê. Meus pais sempre foram muito politizados, então compreendiam perfeitamente o que estava acontecendo, só não tinham, ainda, noção exata do horror. Minha mãe se correspondia com muitos deles, escrevia muitas cartas e, de repente, a comunicação se interrompeu. Irmãos e irmãs de minha mãe, assim como tios, sobrinhos, primos - quase 200 pessoas no total - ninguém sobreviveu; não se sabe quantos morreram em campos de concentração e quantos por inanição. Da parte do meu pai, ele já tinha uma irmã aqui no Brasil e conseguiu trazer a caçula. Os outros todos morreram por causa da guerra.


Meus pais eram de esquerda. E não eram ligados à religião - sinagoga só para comparecer a casamentos. E lá na Polônia já frequentavam uma entidade de jovens de esquerda onde eles, inclusive, se conheceram. E, curiosamente, eu repeti a história deles: conheci meu marido em uma entidade escolhida por meus pais justamente por se ajustar às ideias deles e que eu frequentava desde os meus cinco, seis anos. Essa entidade era a denominada Juventud Club, que depois se transformou no Centro Cultura e Progresso. Ali estavam contemplados o pensamento político deles, a visão de mundo e as práticas artístico-culturais com que se identificavam. Havia palestras, um Coral, um grupo de teatro amador, com participação ativa dos meus pais: ele dava plantão na biblioteca, ela era soprano, integrou o coro, e representava…


(...) minha mãe era uma soprano, foi solista do coro a vida inteira, era a primeira dama do teatro, fazia musical, comédia, drama, peças em um ato, era sempre a atriz principal.


Quando, mais adiante, criaram o Departamento da Juventude - meu futuro marido foi um dos fundadores - eu, com 17 anos, iniciei propriamente a minha atividade social. Agora, paralelamente estudando no Colégio Stafford, que me deu uma base excepcional.


(...) e também, concomitantemente, comecei a fazer fisio-conservatório, dramática musical, que eu fiz piano, comecei com sete anos, fiquei nove anos no conservatório.


Fiz ballet no Teatro Municipal e, no último ano do conservatório, queriam que eu fosse para  o corpo de baile. Meu pai não concordou; não sem antes terminar o conservatório. E aí abortou a minha carreira de bailarina. Só que passei um período assim meio que perdida: formei-me, não quis fazer faculdade, fui trabalhar em escritório e depois ajudar o meu pai. Só voltei à música muito depois.


Terminada a guerra e reveladas ao mundo as atrocidades, surgiu a ideia de se fazer, em memória das gerações de judeus exterminadas, um monumento vivo. Surgiu o Instituto Cultural Israelita-Brasileiro, conhecido como Casa do Povo. E para divulgar e preservar a cultura, a literatura, a poesia, a música, tudo o que foi criado por essa gente toda, para que não se perca totalmente, que não vire fumaça, como as pessoas viraram.

 

Desde 1935 - ainda no tempo do Juventud Club - havia o Coral Scheifer, que resistiu até 1970. E em 1988 resolveu-se fundar um outro Coral, algo diferenciado, que cantasse na língua iídiche, exclusivamente. E nesse novo Coral, com integrantes do antigo Coral em seu renascimento, a gente não tinha dinheiro para contratar um regente. Então, eu comecei marcando o tempo. Depois, por imprevistos, acabei funcionando como regente. Senti então que era hora de buscar formação acadêmica para tanto.


Falando agora do plano pessoal, devo fazer justiça ao meu falecido marido - uma pessoa especial, de grande valor, inteligente, culto, tolerante. Além disso, excelente orador, poeta, autodidata e que, como pai, educava conversando. Ele escrevia em iídiche. Ele sabia muito bem português, mas escrevia em iídicheCuriosamente, já nasceu tio - deu-me, com o casamento, 18 sobrinhos; como eu fui filha única…


Com 92 anos de idade, eu não tenho mais tantos sonhos. Sonho, sim, com um mundo de paz, um mundo de direitos iguais para todo mundo. Eu tenho esperança de que haja mais paz local e mundial.


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