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Hotel Fazenda

História de: Fábio Augusto Vieira de Almeida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/03/2004

Sinopse

Infância e juventude em Bananal. História da Família. História da Fazenda Boa Vista. Migração dos avós. Introdução do gado de leite na região. Transformação para hotel-fazenda. Atividades do hotel. Características de abastecimento. Exigências dos hóspedes. Reformas. Educação. Atividades de turismo educativo.

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História completa



IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Fábio Augusto Vieira de Almeida. Eu nasci na cidade de Cachoeira Paulista, no Vale, no dia 19 de agosto de 1969.

FAMÍLIA
O nome do meu pai é Francisco de Assis Almeida e o da minha mãe é Cleide Maria Vieira de Almeida. Recordo de todos os meus avós. Por parte de pai é Francisco Ribeiro de Almeida e Eleonor Pires de Almeida. Materno, seria Laurinda Fernandes e Antônio Vieira. Eram, a parte dos dois lados, todos fazendeiros, mineiros. Vieram para a cidade de Cachoeira Paulista, por parte de mãe, e por parte de pai, aqui para esta fazenda. São brasileiros. O bisavô materno era português, os pais da minha avó materna eram portugueses e vieram para o Brasil por volta de 1890, uma coisa assim. Estabeleceram-se em São Paulo, ali na Mooca. Tem muito Fernandes ali, que é por parte da minha avó materna e o meu avô materno - ele sim é de Minas, da região de Heliodora, que é sul de Minas. E os meus avós por parte de pai, uma coisa até engraçada: eles são primos de primeiro grau. O meu bisavô aqui, que comprou esta fazenda em 1920 - por parte de pai -, também era primo da minha bisavó de primeiro grau. Então, a família toda de mineiro. Esta região é dominada por mineiros. Os mineiros vieram para cá por volta de 1920, o pessoal do sul de Minas. Em todo o Vale, a maioria, é descendente de mineiro.

MIGRAÇÃO
Meus avós vieram em busca de terras de fazenda. Já eram fazendeiros na região deles, houve uma venda... A terra aqui na área estava muito barata, oportunidade de negócio, e vieram para cá, vieram com os pais. O meu avô, por exemplo, por parte da minha mãe, veio com os pais dele, com a família - eram muitos irmãos - se estabeleceram aqui. Por parte de mãe, no caso, se estabeleceram de Cachoeira Paulista até São José dos Campos: a família Vieira é muito grande nessa região do Vale do Paraíba.

CIDADES
Bananal Na década de 20, a região sofria com a decadência do café. A terra realmente era muito barata: “Eu sou fazendeiro, eu só sei mexer com isso, lá está barato, então eu vou para lá”. Acredito que os meus avós devem ter pensado dessa forma. E ganhar dinheiro. Meu avô por parte de mãe teve onze filhos. Formou praticamente todos os filhos dele - só dois não são formados. Na época ainda era muito bom; ele mexia com pecuária leiteira. Meu bisavô, na cidade de Bananal, quando comprou essa fazenda, foi um dos introdutores do gado de leite nessa região. Ele que trouxe de Minas, inclusive - trouxe tocado, na época, o gado veio tocado de Minas. O rio Bananal, eles contam que na época... Quem contava para mim era até uma tia, irmã da minha avó, que o rio Bananal... Hoje eu falo muito o seguinte: eu tive um juiz amigo meu que morou aqui na fazenda durante quatro anos, então eu sempre cobrava dele uma maior ação das autoridades aqui da região, no desmatamento que está havendo aqui atrás da fazenda, que é muito grande. Eu quando era criança, esse riozinho que passa hoje, que é minúsculo, a gente tomava banho nele, ele era enorme - e hoje ele não tem mais água. Então eu sempre brincava com ele, cobrava dele: “Vocês têm que tomar alguma providência com esse...”. E o meu bisavô, na época, quando veio com o gado de Minas, ele para atravessar o rio Bananal, que hoje praticamente não tem água, ele teve que dar uma volta muito grande, porque o volume de água era muito grande. Outro dia eu estava escutando uma rádio de Barra Mansa, que em 1870 o café de Bananal era escoado de barcaça pelo rio Bananal, ia até a cidade de Barra Mansa, onde era embarcado via trem, ali - porque na época ainda não havia o trem de Bananal. Meu bisavô andou uns trezentos quilômetros. Muito gado tocado, isso em 1922. Essa fazenda é de 1780. Essa fazenda, nos tempos áureos do café em Bananal, foi uma das mais importantes. Não digo que foi a mais: foi uma das maiores. Ela chegou a ter, em todas as fazendas reunidas da família, ela chegou a ter quase mil escravos. O escravo, na época... A maior riqueza de um fazendeiro eram os seus escravos, o maior bem de um fazendeiro eram os seus escravos. E engraçado, a riqueza da família Almeida, construtores dessa casa aqui, ela aumentou muito foi com a matriarca da família. Tem muitas histórias dela em Bananal, inclusive que ela era analfabeta e desenvolveu um método próprio de escrita. Como ela era analfabeta, ela falou: “Eu tenho muita coisa, eu tenho que desenvolver um método de escrita” - eu acho muito interessante essa parte. E ela desenvolveu esse método e aumentou em muito a fortuna da família dela. O marido dela morreu em 1854, e ela a partir disso aí formou um império. Se não me engano, foi uma das maiores fortunas da cidade de Bananal, nessa época. Então foi uma mulher que o pessoal dá muito valor a ela. Nós estamos tentando resgatar, eu estou tentando resgatar muita coisa da fazenda aqui que foi perdida, a família saiu. Eu estou tentando, mas está muito difícil.

FAMÍLIA
Tenho um irmão. É engenheiro, mora em São Paulo, tem uma empresa lá. Eu trabalhei com ele uns oito meses, na empresa dele, no ano passado. O meu irmão também é nascido lá, em Cachoeira Paulista. Só nascemos lá, na realidade nós fomos criados aqui em Bananal. Eu fui criado aqui nessa fazenda. Meu pai é daqui, meu pai é nascido nessa fazenda aqui, na Boa Vista. Nascido aqui na fazenda, na casa sede. Meu pai tem 45 primos, todos nascidos na fazenda. E foi uma infância muito maravilhosa: tinha primos que vinham de São Paulo, de outros lugares. Com essa fazenda toda, você tinha muita coisa de criança para fazer, muita coisa. Nós tínhamos um açude. Hoje nós não temos mais esse açude. Passávamos o dia inteiro naquele açude. Tinha as pessoas, os primos que vinham de São Paulo e do Rio, e você fazia mil e uma coisas de criança, artes de criança. Foi muito bom. A gente hoje ainda senta - eu vou muito a São Paulo, encontro com eles. E não é nem nostalgia: são aquelas coisas boas da vida da gente que a gente recorda. Os 45 netos nasceram aqui. Meu avô tinha cinco fazendas, uma próxima da outra. Aí, cada um tinha a sua fazenda. Nascia, passava uns três meses aqui, na sede, acabava o período - que eles falavam - da quarentena, e voltava para a sua fazenda. Mas na época de dar à luz, minha avó e as minhas tias, irmãs dela, vinham dar à luz aqui na fazenda. O meu avô era fazendeiro. Gado de leite. Na época, aqui só se produzia leite - o café já tinha acabado. O café acabou na época do Getúlio. Essa fazenda aqui, quando meu bisavô comprou em 1922, ela já não produzia mais café, ela estava abandonada - ele comprou inclusive de um francês -, estava abandonada. Ele criava cavalo, porque na época o quê fazia? Ainda se criava cavalo para vender para o Exército. Porque o Exército brasileiro ainda era a cavalo. Então esse francês criava cavalo para vender para o Exército. E meu bisavô comprou, pediu para tirar... Era muita terra, tudo leite. Foi introduzido aqui na região por volta de 1920: tudo leite. Meu pai também mexeu com leite até poucos anos atrás. O leite ficou muito ruim no Brasil a partir da época Collor, quando começou a abrir. Aí ficou inviável. Hoje, na minha opinião, é totalmente inviável, ainda bem que... Eu faço uma comparação do seguinte: na época do leite, é uma coisa que apaixona a gente, mas eu quando..., eu nem estava na direção da fazenda, mas eu acompanhava muito meu pai, eu brincava com as pessoas o seguinte, fazia a comparação do litro de leite com uma garrafa de cerveja: a gente vende uma garrafa de cerveja aqui, é o valor de um litro de leite, hoje uma garrafa de cerveja aqui, nós vendemos é quatro vezes o valor de um litro de leite. Então eu falei para o meu pai: “Vamos acabar, não tem condição, vamos mexer com outra coisa, não dá mais”. O meu bisavô dividiu a terra. Ele tinha cinco filhos: deu uma fazenda para cada filho. Essa fazenda que nós estamos hoje, ela não ficou com meu avô, ela ficou para uma irmã da minha avó, que na realidade, a minha avó que foi a herdeira, e o meu avô tinha uma outra fazenda, em anexo com essa aqui. Nós já tínhamos uma sede, que por sinal era uma fazenda belíssima, que há uns vinte anos atrás ela foi ao chão. Linda a fazenda, muito parecida com essa aqui. Outro dia tinha até um pessoal que conheceu muito a fazenda até comentando... Eu, como sou muito curioso, gosto muito disso, eu queria tentar resgatar pelo menos a memória dessa fazenda. Acho que nem tem isso. Em Cruzeiro, aqui próximo de Bananal - o acervo de Bananal está até lá em Cruzeiro - e tem um pessoal em Bananal que desenvolve um projeto muito legal, que é a família ali da Fazenda dos Coqueiros, e eu estive conversando com eles esses dias e eles estavam até me falando a respeito desse acervo lá, que ela conseguiu muita coisa da fazenda deles lá. Vou dar um pulo lá, mas ainda não tive tempo de mexer com isso. E minha avó comprou da irmã dela a sede aqui dessa fazenda, que é a Boa Vista, em 1951. E ficou até 1970. Muita gente: as pessoas vinham para cá, porque a infância deles deve ter sido - a minha foi ótima -, a deles eles contam que foi maravilhosa. Então nós somos muito unidos, ainda muito ligados. A gente senta ali num churrasco, alguma coisa, e eles sempre voltam naquela coisa deles de criança. É uma coisa muito interessante para ser ouvida, eu acho, eu me interesso por isso aí, as pessoas se interessam. Acho muito interessante essa parte da história deles. A minha foi muito boa, a deles foi muito rica - a história dos meus tios, nem dos primos do meu pai, dos meus tios.

INFÂNCIA
Na época da fazenda nós ajudávamos. Mexia com leite, então a gente ia buscar lata, aquela coisa. Eu adorava isso, eu acordava, vinha passar... Passava minhas férias aqui, acordava às cinco horas da manhã, coisa de sete, oito anos, para mexer com isso. Naquela época, a atividade começava muito cedo, e depois com o hotel - o hotel é a minha grande paixão, eu comecei já com o hotel foi por volta de 75, 76 - mas eu estava com sete, oito anos, nessa época, e comecei a pegar gosto. Aí sim, ajudava. Eu, com doze anos, ajudava muito meu pai, gostava muito de ajudar meu pai na parte de compras, de ficar aqui, atender. Essa parte.

COMÉRCIO
Essa transição foi a seguinte história: esses primos que eram nascidos aqui, eles começaram a vir e trazer um amigo, tal, e começou a fazenda..., entrou em declínio, em termos... Foram divididas as terras, a coisa começou a ficar muito difícil - até a situação do país, em 73, devido à crise - e o meu pai falou com eles: “Então eu vou fazer da seguinte forma” - Francisco, o meu pai - “A gente paga, a gente vem, não vamos deixar de vir aqui, nós somos nascidos e criados aqui, a gente ajuda a você manter o custo da fazenda. A gente sabe que tem um custo, tal, nós vamos pagando”. E com isso eles tiveram a liberdade de trazer amigos, de trazer pessoas da convivência deles. E essas pessoas da convivência dos nossos parentes começaram a trazer outras pessoas também, daquele modo. E surgiu a idéia. Meu pai já tinha a idéia de transformar isso aqui em hotel desde de 60 e alguma coisa, um hotel fazenda. Hotel fazenda, acho que nessa época, no Brasil, praticamente não existia. Mas ele já tinha até essa idéia. Só ficavam meus avós. Nós morávamos todos, meu pai e minha mãe, moravam na cidade, e minha avó, nessa época, morava no Rio de Janeiro - minha avó morou no Rio de Janeiro até 73, por aí. Meu pai vinha aqui todo dia porque mexia com gado, ainda. Meu pai só residia em Bananal, mas a atividade profissional dele era dentro da fazenda. Eles tinham verdadeira paixão nessa casa, e as pessoas falavam: “Não vai dar certo”. Ele falou: “Não, eu vou fazer”. E ele pegou com minha avó - minha avó também era uma pessoa de muito trabalho, gostava muito disso aí, era outra apaixonada pela casa. E a casa, aquele lado da frente da casa - já tinha até inclusive cedido e já tinha até caído um pedaço, muita obra na época já tinha caído. Meu pai inclusive teve até que desmanchar alguns pontos da casa - eu acompanhei isso quando criança também - da casa e até externo, alguma senzala, alguma coisa para poder pegar o material daquilo e colocar dentro da casa. A paixão pela casa foi muito grande nesse período. Eu vivia acompanhando no início do hotel. E o pessoal, inclusive depois que você... Por exemplo, uma coisa é quando você - meu pai até conta isso - uma coisa é quando você está na casa, que você está ali convidado. Quando você já está pagando, já muda tudo: “Eu estou pagando”, aí você já: “Estou pagando, estou te ajudando, não estou aqui de graça, não”, então já muda tudo. Ele começou essa idéia. Em 75 a Globo esteve aqui pela primeira vez. Na época, fez um caso especial aqui que nos ajudou muito financeiramente, foi quando ele fez um volume de dinheiro maior para fazer o primeiro investimento grande no hotel. Daí sim: a partir disso, o hotel foi sempre melhorando, melhorando. Os funcionários eram todos daqui. Nessa época, nós tínhamos muitos colonos - a fazenda ainda tinha muito colono, veio de um período de muita gente - e foi treinando. A minha avó era muito boa nessa parte de cozinha. Meu pai entendia muito dessa parte de construção: ele foi adaptando os quartos que já tinha, fazendo banheiro. As pessoas vinham... Era diferente a filosofia, também, de hotel fazenda, daquela época para hoje. Hoje você pega, constrói uma casa no campo e coloca lá uma placa: “Hotel fazenda”. Na época não, era fazenda, realmente era fazenda. Então as pessoas se sujeitavam até àquilo que tinha. Mas a comida era muito boa, como é ainda hoje, tudo era. Então eles gostavam, tanto que retornaram muito. Nós temos amigos hoje, do começo do hotel, que ficaram amigos vindo no hotel, pessoas que a gente se comunica. O abastecimento do hotel era tranqüilo: muita coisa era produzida aqui ainda, mas a maioria das coisas se comprava ou em Bananal ou em Barra Mansa - essas duas cidades próximas aqui, tem fácil acesso, assim como é hoje. Hoje ficou muito difícil, hoje a mão-de-obra aqui... Umas das coisas que eu tenho mais dificuldade aqui é a mão-de-obra: muito difícil, hoje está todo mundo querendo morar na cidade, tal. Mas o abastecimento, na época, como hoje, era tranqüilo. Meu pai foi ensinando, minha avó foi ensinado, nós tivemos assim... É que esses funcionários antigos praticamente foram criados conosco, eu fui criado aqui com pessoas que trabalham conosco desde menino. Nós, com cinco anos de idade, brincávamos junto. Então você tem aquela relação ainda profissional, mas você, no fundo, tem até uma relação de amizade, de convívio. Há atritos, lógico - qualquer tipo de trabalho você tem atrito - mas conversa... São descendentes desses colonos, são netos. A maioria das pessoas que trabalha comigo aqui no hotel são netos e bisnetos de um senhor que veio com meu avô de Minas Gerais. Eles fincaram raízes, estão todos aí. É uma família que, praticamente toda, trabalha comigo. São todos netos de mineiros, assim como eu.

TRANSPORTE
Nós temos um ônibus aqui que passa em frente à fazenda, que vai para a cidade de Barra Mansa. Nessa época já tinha. Muitos anos, já. Isso aí, desde 50 ou 60 que já tem esse... Antes, meu pai conta que o transporte era no caminhão de leite: todo mundo no caminhão de leite. Ou a cavalo, alguma coisa assim. Mas de 70, final dos anos 70 para cá já melhorou muito essa parte. Esse ônibus saía de Bananal, passava aqui na porta... Passa na porta e vai a Barra Mansa. Hoje nós temos vários horários. Nós estamos a 25 quilômetros de Barra Mansa, é muito próximo: trinta minutos.

CIDADES
Bananal Teve uma vez, há muito tempo atrás, que estavam querendo trocar Bananal por Parati: Bananal ia para o estado do Rio e Parati ia ficar para o estado de São Paulo. Mas é a influência... É como Juiz de Fora: a influência carioca lá é muito grande. Aqui também é muito grande. O pessoal aqui torce mais para o Flamengo do que para o Corinthians.

EDUCAÇÃO
Estudei em Bananal. Eu estudei no Colégio Nogueira Cobra. Depois eu fui para o Visconde de São Laurindo, no segundo grau. Estudei um ano lá, depois eu fui fazer curso técnico na cidade de Barra Mansa. Fiz contabilidade. Era muito boa a escola de Bananal, na época, professores hoje que são amigos. E gostava muito da escola. Nós tínhamos um grupo de amigos - você forma um laço de amizade muito forte, e hoje faz até algum tempo que a gente não se vê, porque um vai embora, outro vai embora também, eu também fiquei alguns anos fora. Mas quando você se encontra parece que volta tudo aquilo de colégio, aquelas coisas. Eu gostei muito da época do colégio. No colégio eu tive uma boa infância, ótimos professores. Hoje eu tenho amigos professores que falam da dificuldade, tal. Acho que na época não tivemos isso, foi muito bom.

CIDADES
Bananal Com a decadência do café, em Bananal acabou tudo. Entrou numa decadência muito grande, inclusive a parte hoteleira. A parte hoteleira de Bananal aqui, acredito eu que o Hotel Boa Vista foi um pioneiros depois, que resgatou tudo isso aí, em 70. Nós tínhamos um hotel famoso que era o Hotel Brasil, que hoje ele, me consta, que ele está desativado. Ficava no centro da cidade, naquela praça. Era do proprietário dessa fazenda - porque todos esses fazendeiros tinham uma casa em Bananal: eles tinham a fazenda, uma sede, e tinham um solar em Bananal. Esse Hotel Brasil é da Boa Vista, ele construiu lá.

INFÂNCIA
Mas o comércio em relação a isso, à minha fase de criança em Bananal, sempre foi - sempre consegui tudo lá em Bananal. Também, criança em Bananal, também não tem grandes coisas assim para você... Do você brincava? Você ia brincar de... Eu brincava muito... Eu morava, eu moro no centro, numa praça ali. A minha infância mesmo, eu passei mais naquela praça. Jogar bola - essas coisas de criança - jogar bola, sair pela cidade afora, esse tipo de coisa de criança, basicamente. Eu tenho uma história muito engraçada, que meus primos até contam isso aí. Uma história de um primo meu - do meu irmão e esse primo, nós três. Em Cachoeira nós ganhamos... Minha avó, mãe da minha mãe, era uma pessoa muito boa, ela gostava de dar dinheiro para a gente. Eu já devia ter uns oito anos, nove anos - essa história eu acho muito legal - e nós três ganhamos a mesma quantia de dinheiro, na época, da minha avó - foi até no Natal em Cachoeira. E eu fui lá e torrei o meu todo, e o meu irmão e o meu primo foram lá e compraram uma espada para brincar, e eu fiquei morrendo de inveja. E viemos para Bananal. E eles estão lá, aquela coisa de criança brincando, eu falei: “Ah não, eu quero uma também”. Meu pai e minha mãe falaram: “Você teve seu dinheiro, não comprou; eles guardaram, compraram. Você não vai ter, não”. Eu saí em Bananal pedindo dinheiro, batia na vizinha dizia: “Não quer me dar um dinheiro, não?”. Saí em Bananal pedindo um real... um da época. Fui pedindo dinheiro - eu tinha uns oito anos de idade - consegui comprar a espada com esse dinheiro. Esse meu primo, hoje, onde ele me encontra, ele fala dessa história. Essa história foi uma coisa de criança, eu fiquei louco, eu falei: “Não, eu tenho que ter uma espada também”. Meu pai e minha mãe não davam também, então eu vou pedir dinheiro. Daí saí para os vizinhos pedindo dinheiro, consegui comprar a espada. Mas é uma coisa... Todo mundo me conhecia. Bananal todo mundo sabe: lá você é filho de alguém. Em Bananal é sempre assim. Hoje ainda, eu estava passando na rua em Bananal, ouvi falar: “Ô, filho de fulano”. Então os mais velhos, é como hoje: eu vejo uma pessoa, sei lá de dez, de quinze anos, eu não sei quem é, mas aí as pessoas falam: “Ah, não esse é filho de fulano?”. Do meu pessoal: “Esse é filho de fulano”, então já sabe. Na época, eu era filho do seu Kiko: “Oh, filho do Kiko. O filho do Kiko está querendo isso”. Assim foi.

ADOLESCÊNCIA
A garotada, naquela época, era futebol, futebol, Copa do Mundo de 70, 78 - era só futebol que nós tínhamos. Depois mais tarde, eu já adolescente, o esporte que eu gostei mais foi vôlei - e futebol também - mas vôlei, fizemos até uma seleção em Bananal.

EDUCAÇÃO
Estudei em Barra Mansa durante dois anos. Ia de ônibus - a prefeitura cedia um ônibus - e nós estudávamos. Tinha o pessoal da faculdade, fazia faculdade, e alguns, o curso técnico. Estudei lá dois anos. Fiz contabilidade. Quis fazer influenciado por amigos. Eu tinha dois amigos: esses dois grandes amigos meus que começaram a fazer também. Um até depois desistiu, foi embora, foi para Minas. O pai era dentista, foi fazer odonto em Minas, em Alfenas. E outro, nós estudamos juntos, fizemos contabilidade juntos. Depois de contabilidade eu fui embora. Depois que eu terminei o curso, eu fui embora de Bananal, ele continuou.

LAZER
Em Bananal tinha boate, muito boa por sinal, vinha muita gente de Barra Mansa, dessa região toda aqui. Aos quinze anos a diversão eram os bailinhos de residência, de todo mundo: cada final de semana era na casa de um amigo. O nosso grupo em Bananal era muito bom. Na época dos meus quinze anos, nós éramos onze meninos e devia ter umas quinze meninas. Então a gente sempre armava um baile na casa de um. Tinha um clube que era muito bom - hoje esse clube já não está tão bom quanto era. E tinha as boates. O clube chamava SAB - Sociedade dos Amigos de Bananal -, onde nós praticávamos, desenvolvíamos o vôlei, o esporte. De dia era o esporte e à noite, os bailes. E os barzinhos também - eu sempre fui muito fã de barzinho, de música. Nós tivemos um barzinho em Bananal chamado Barão, que é até embaixo de um solar lá muito bonito. Esse barzinho, durante muitos anos ele foi muito bom, um agito sabe, daquela moçada ali. E é agitado. Hoje eu não sei se passou a fase ou se as pessoas, os mais novos, comentam que não está legal. Mas na minha fase de adolescente em Bananal foi muito bom. E tinha Barra Mansa. Como estudava em Barra Mansa, fiz muitos amigos lá, e saía muito em Barra Mansa também. Bananal teve cinema até - se não me engano, 84. Eu freqüentei muito o cinema em Bananal, muito. Os filmes chegavam... Levava uma diferença de uns três meses dos grandes centros. Me lembro de um lance que foi o Tubarão, do Spielberg. Se não me engano foi em 78, esse filme. Eu não tinha dez anos - porque a censura do filme era dez anos -, mas eu aprontei um berreiro nesse filme: o pessoal teve que me deixar entrar de qualquer forma. Se não me engano era doze anos, na época, eu tinha uns nove, oito anos também. Mas eu queria assistir porque queria assistir, e o fiscal lá da portaria - porque tinha fiscal na época, você não podia entrar, era até conhecido nosso, era até professor, tudo - mas eu aprontei um berreiro lá: “Tenho que assistir”. Ia lá, voltava, até que uma hora ele falou: “Vamos dar um jeitinho, você entra e pronto, já está lá e acabou”. Mas o cinema de Bananal foi muito bom, foi uma pena ter acabado esses cinemas nessas cidades do interior. Lembro bem: hoje ele é um teatro, no momento está funcionando até como prefeitura, porque a prefeitura está sendo reformada, que é um prédio muito bonito que era a antiga Santa Casa de Bananal de Misericórdia. E hoje ela está sendo reformada, restaurada, então eles transferiram a administração da prefeitura para o cinema, que hoje é um teatro. Mas ele está todo restaurado, está muito bonito por sinal. Assisti muitos lá, esses filmes que chegavam na época de 70 e alguma coisa, até ele fechar. Se não me engano, foi em 82 ou 83. Era muito freqüentado, muito bom. Uma época muito boa.

CIDADES
Bananal Em Bananal tinha uma loja, no centro de Bananal - hoje ela virou um bar - mas bem no centro ali, que eu gostava muito de comprar ali. Tinha aquelas coisas de moçada, uma bola disso, tênis para jogar futebol, essas coisas que a gente comprava. Eu acho que criança, criança do interior, nesse meu período aí, a gente comprava muito pouca coisa quando era criança. A gente comprava muito, eram várias lojas. Essas coisas mais sofisticadas, era em Barra Mansa já. Na época começaram a chegar aqueles carrinhos com controle, aquele tipo de coisa, tal, já era tudo Barra Mansa. Ia com meu pai, com a mãe, aprontava um berreiro total, porque queria, porque queria. Era birrento. Tive fama de birrento. Meu irmão era mais tranqüilo, meu irmão era bem mais tranqüilo. É o seguinte: eu sempre fui meio... Meu irmão sempre foi muito cuidadoso com as coisas dele, e eu não: eu era já mais destruidor das coisas. Sou o mais novo, e eu sempre dormi bem mais tarde que o meu irmão, sempre gostei de dormir mais tarde que ele. Meu irmão, eram oito horas da noite - na nossa fase de dez anos, nove anos - já estava dormindo. E a minha mãe sempre conta que ele ganhava, ele era mais cuidadoso, tinha muito mais coisas que eu, e ela contava no aniversário dele, chegava o aniversário dele, dava aquela soneira nele, nove horas da noite estava na cama. Eu pegava os brinquedos dele e no dia seguinte não tinha mais nenhum: eu já tinha destruído tudo naquela noite mesmo. Isso ela sempre cita, ele sempre brinca. E ele não batia em mim porque eu era mais novo que ele, ele tinha dó. Então a gente tem essa passagem na adolescência. Até que foi um dia - eu era mais novo do que ele - mordi ele, aquelas coisas de criança. Até que teve um dia, a minha mãe obrigou ele me morder, daí ele: “Não, mãe não quero”, “Você vai morder ele”. Porque eu vivia mordendo ele, a minha defesa era morder ele. Ela falou: “Não, hoje você vai morder ele, hoje se você não morder o Fábio, você vai apanhar de mim”. Aí ele me deu uma mordida, eu tenho a marca dessa mordida até hoje. Eu nunca mais mordi ele: acabou, solucionou o problema. Mas ele nessa época, até uns treze anos, catorze anos, nós brigávamos muito, como todo adolescente. Nossa diferença de idade é de dois anos e pouquinho, dois anos e alguma coisa. Ele era muito - não era que ele era, hoje eu chego à conclusão que ele não era egoísta, ele era cuidadoso. Como eu não era, então é lógico, ele vai proteger as coisas dele. Então ele tinha um baú antigo que ele guardava as coisas dele, e era tudo trancado. Eu descobri uma maneira com uma chave de fenda de abrir - ele estava para o colégio, nós estudávamos em horário diferente -, de ir lá e abrir o baú dele, brincar. Lógico que aí você já tomava mais cuidado, brincava, tal, na hora que ele chegava eu fechava, estava tudo intacto. Isso aí ele veio descobrir anos mais tarde, mas depois ele foi para São Paulo, morou em São Paulo em 83, 84, eu me recordo, e de lá para cá acho que nós nunca tivemos uma briga. Dos treze, catorze anos [para cá] nós nunca mais soubemos o que é uma briga. Hoje nós nos damos muito bem.

ADOLESCÊNCIA
Minha mãe - tarefa dela ali - ficava em casa, tal, e o meu irmão também. Meu pai só chegava à noite. Meu pai vinha para cá de manhã e só voltava à noite. E nós, aquelas coisas: colégio de manhã - nessa época eram quatro horas de aula ou cinco horas, almoçavam e ia fazer alguma atividade. Depois, já mais adolescente um pouquinho, na fase já de uns nove anos, em Bananal tinha curso de inglês, e nós começamos a freqüentar esse tipo de curso na parte da tarde, alguma coisa mais voltada para isso, para estudo também. Finais de semana vinha para cá, e durante a semana, muitas vezes também vinha para cá. E nas férias era praticamente o tempo inteiro aqui com a minha vó. Mas durante a semana eu vinha muito para cá. Quando meu pai, por exemplo, voltava a Bananal - que muitas vezes ele voltava e eu já tinha terminado a aula - eu vinha para cá. Eu sempre gostei mais disso aqui. Aqui fica a doze quilômetros do centro de Bananal. Era rápido, era quinze minutos de carro. Sempre foi tranqüilo. Eu vinha para brincar. Tinha os filhos dos colonos. Naquela época de menino, aqui, eu praticamente nem na sede eu vinha: eu almoçava na casa de um colono, tomava café na outra. Tinha um colono aqui que eu era muito fã dele, que era um senhor - por sinal ele era muito bravo, mas comigo ele quase que foi um segundo pai. Ele fazia um café que até hoje eu sinto saudade que é, era o café de garapa. Você já ouviu falar em café de garapa? Era um café de caldo de cana. Eu não sei como é que faz, eu nunca descobri - eu tentei aprender como é que faz - e ele tinha aquilo. Então eu pegava o café de garapa dele, que era na parte da tarde, trazia em um bornal... E tinha um outro primo dele que também ficava aqui, que já era um senhor também, que tinha uma broa que era maravilhosa. Então o meu café da tarde estava, eles traziam já para mim, quando eu estava aqui eu sabia. E o almoço, eu almoçava na casa de um colono que hoje ele aposentou, agora há pouco tempo, que os filhos dele - inclusive eu tenho dois filhos dele que trabalham aqui comigo, tem outros que moraram aqui. Então tinha essa coisa, a gente era pajeado. Não tinha o tratamento do filho do patrão. Tinha o tratamento... Isso aí eu agradeço à minha mãe: quando vinha um funcionário que fosse, que me entregasse alguma coisa, era “muito obrigado”. Isso ela ensinou a mim e a meu irmão desde pequeno. Então eu acho que da parte deles também, era a amizade. Lógico, ser filho do patrão influencia um pouquinho, mas era o tratamento que a gente tinha em relação a eles também, que a gente sempre foi muito educado, não exigimos nada. Que a gente estava ali como amigos dos filhos deles, não como filho do patrão. E esse senhor ele fazia tudo, ele tinha uma habilidade manual muito boa. Ele fazia umas espingardinhas - eu tenho uma até hoje guardada na minha casa, que ele fez -, uma espingardinha toda de madeira, toda trabalhada. Me deu: fazia esse me dava. Era o Chico Vidal. Os hóspedes nossos aqui adoravam ele, porque ele tinha uma paciência. Ele que cuidava dos cavalos, depois já, na época do hotel. Então tem até muita foto dele com hóspede, com criança de hóspede. Ele desenvolveu até um banquinho, que ele era daqueles antigos. Então o que é que tinha? As pessoas - eu me lembro disso hoje, isso aí a gente vai falando, vai vindo na cabeça da gente. E ele fez uma espécie de um banco, porque aquele negócio de pudor, então ele não botava a mão em uma senhora, de jeito nenhum, para ajudar a subir no cavalo: ele tinha vergonha. Então, vamos supor, uma moça que viesse aqui, que estava com dificuldade de subir em cavalo, ele não botava a mão nela de forma alguma - hoje em dia você pega e coloca - mas ele não. Daí ele desenvolveu um banco que tinha, que subiam, tinha até corrimão para não precisar botar a mão na pessoa, na senhora que estava subindo no cavalo. E ele com criança: ele era uma pessoa extraordinária com criança. Ele tinha um dom - que eu acho que com criança é dom. Tem umas pessoas que têm mais, tem outras pessoas que têm menos. E ele tinha isso aí: as crianças amavam ele, e eu amava ele também, era uma pessoa... Teve uma influência na fase de criança muito positiva. Meu pai sempre foi muito amigo. E o engraçado que o meu pai com ele, com esse Chico, o meu pai tinha problema de relacionamento com ele. Mas não misturava, porque esse Chico em relação aos filhos dos outros ele era muito bom, mas com os filhos dele... Eu lembro, ele era muito bravo. Ele era muito bravo com os filhos dele. Meu pai uma vez, até uma história triste de um dos filhos desse Chico, que o meu pai chegou a segurar o Chico. O Chico ia matar o filho dele, ia dar uma paulada: amarrou o filho num curral que nós tínhamos - hoje nós não temos mais - e ele era um homem muito nervoso, eu não sei por que era nervoso, tinha muito problema em casa, tal, tinha muitos filhos, deve ser várias coisas. Aqui não, com a gente não, mas com os filhos ele era muito enérgico. E esse dia, meu pai chegou a segurar, ele estava indo para desferir o golpe no filho dele, meu pai segurou ele por trás e falou: “Você não vai fazer isso”. E meu pai, apesar do problema do relacionamento, também tinha muita consideração com ele, porque em relação a nós ele era muito bom, eu nunca tive nenhum problema com ele. A minha mãe também sempre teve uma consideração com ele muito grande devido a isso aí. Então era uma personalidade assim que até hoje eu fico pensando: o que leva um pai a ser como ele era com os filhos..., fora do filhos, com outras crianças, era totalmente diferente. Em relação a nós, filho, sobrinhos aqui na parte da fazenda, ele era muito bom. Acho todo mundo recorda bem dele num lado positivo.

COMÉRCIO
Nós sempre tivemos, tivemos muitos funcionários, e como aqui é muito, não é longe, mas também não é próximo da cidade, então nós tivemos que desenvolver várias atividades aqui. Essa parte de lavanderia, se eu tivesse um hotel ou uma pousada na cidade, eu não teria dentro de meu hotel, faria fora. Mas aqui é muito difícil. Então nós temos tudo aqui: a parte de lavanderia, a parte de estocar alimentos também tem que ser. Porque uma pousada dentro da cidade: acabou uma coisa, você corre ali e compra. Aqui não tem como você fazer isso. Então, aqui você tem que ter estoque de praticamente tudo. Eu tentei até terceirizar umas coisas, mas não deu certo. Por exemplo, a parte de cavalo, eu cheguei a terceirizar, mas não deu certo por quê? É aquele ditado: é o olho do dono que faz a coisas funcionar. Então hoje eu retomei, os animais são nossos. Tudo começou a ficar mal atendido. Pensei em terceirizar a cozinha - porque o maior problema nosso aqui do hotel, sem dúvida, é a cozinha. Eu tenho uma dificuldade muito grande de conseguir cozinheiro, muito grande. A nossa atual agora, eu estou treinado, ela nunca trabalhou na área de cozinha, aliás, ela nunca trabalhou na vida e eu vi o potencial dela e falei: “Vou tentar investir nessa menina”. Porque é o seguinte: eu retornei para hotel agora em maio de 2003. E no dia que eu cheguei, eu não sabia, ela era uma funcionária nova, meu sócio é que tinha colocado ela aqui. No dia que eu cheguei ela estava cozinhando. A cozinheira estava de férias e eu achei a comida dela - para a gente, só estávamos eu e mais duas pessoas, o hotel nem estava funcionando, acho que estava até de férias - eu achei a comida dela muito boa. A gente tem aquele feeling e eu falei: “Essa moça tem um tempero bom, e é só questão de ensinar”. Porque o que manda numa pessoa de cozinha é o tempero. É questão de ensinar, daí eu fui conversando com ela, coloquei como ajudante. Ela trabalhou até uns dois meses atrás como ajudante de cozinha e há dois meses atrás eu falei: “Você está preparada?”. Ela falou: “Estou”, “Você quer?”, “Quero”. Aí a gente colocou, e eu acho que está dando certo. Eu tenho recebido muitos elogios em relação à comida. A comida mineira, que nós sempre mantivemos a tradição da minha avó, que era mineira, a comida aqui realmente é elogiada.

FAMÍLIA
Minha avó cozinhava. Meus tios e o meu pai, os primos do meu pai, contam que ela não era uma grande cozinheira. A irmã dela sim, era uma grande cozinheira. Porque na época de meu bisavô, cada um tinha a sua tarefa: a tarefa da minha avó não era cozinha; a da minha tinha era, a irmã dela. O meu bisavô determinava: “Você vai fazer isso, você vai fazer aquilo”. A minha tia quando era... Porque elas trabalhavam desde os nove anos de idade. A minha avó ficou de cuidar de casa, até de área externa, porque a minha avó era apaixonada por hortifrutis. Esses pomares que a gente está vendo aqui, foi ela que fez. E nesta outra fazenda, meu pai conta que ela abastecia a cidade de Barra Mansa com muita verdura. Ela trabalhou muito nessa área, ela gostava muito. A minha avó gostava mais de trabalhar, de produzir as coisas do que ficar como dona de casa, então, esta parte ela desenvolveu muito. Mas sabia também - porque nesta época todo mundo sabia destas coisas - o básico, e alguma coisa dela era muito boa, ela sabia ensinar, ela não fazia no dia-a-dia. Ela com meu pai faziam como eu estou fazendo hoje: vamos ensinar E a pessoa que quer, que é inteligente, ela deslancha. Essa menina, por exemplo: eu tenho trazido alguns livros de receita. Nesta semana eu estive em São Paulo e trouxe três livros. E ela pega - ela é muito boa mesmo - ela lê, faz e fica ótimo. Então está resolvido em relação a isso aí.

COMÉRCIO
Tem que ter tudo. Principalmente a parte de geladeira: você tem que ter uma pessoa te assessorando, te dando manutenção. Você tem um estoque grande, então vai que um equipamento quebre, o prejuízo é muito grande. Por exemplo, nós temos um problema crônico aqui na época de chuva, que é a queda de energia - apesar de em parte isso ter se solucionado um pouco, porque nós tivemos uma fábrica aqui para frente do hotel que o consumo deles é maior que o da cidade de Bananal. Então ele fez um acordo com a Eletro que era: “Eu vou fazer lá a fábrica, só que não pode faltar energia para mim”. Era equipamento importado, de última geração. Em relação a isso, melhorou muito para nós aqui, foi um benefício que nós conseguimos, que foi através disso lá. Mas antes, aqui: chovia, acabava a luz. Mas hoje nós temos o gerador, que compensa esta parte, o gerador dá para tocar a parte de frios estas coisas. Mas realmente, você lidar com alimentação, com estoque é muito complicado. Nós temos dois tipos de hóspedes. Na baixa temporada nós temos mais o carioca e o pessoal da região, Volta Redonda, Resende - que com a fábrica da Volkswagen e da Pegeaut, está crescendo demais, até em termos de poder aquisitivo. Nós estamos recebendo aqui um grupo de franceses da Pegeaut. Têm freqüentado bastante o hotel. Na alta temporada é o paulistano, Campinas, São José dos Campos, que fica um pouco mais longe, fica três horas de viagem. E na baixa temporada, o carioca. Por exemplo, o Rio de Janeiro, muita gente vindo de Macaé - antigamente, não vinha, mas hoje estamos recebendo muita gente de Macaé. Do próprio SESC, tem vindo muita gente com convênios - hoje em dia nós temos que trabalhar com convênios. Os convênios são com o SESC de São Paulo. Eu trabalho com o SESC São José dos Campos, com Paraíso e o de Pompéia, os três que já vieram, estão sempre vindo. Para os convênios, é uma tarifa diferenciada, em torno de 15% de tarifa balcão, dependendo da época. E só trabalhamos em baixa temporada, porque na alta não tem como. O hotel fazenda vive de alta temporada, na baixa é mais complicado. Na alta, eu brinco com os meus parentes: “Olha, na alta temporada eu nem tenho irmão”. Na baixa tudo bem, na alta, eu nem tenho irmão.

FAMÍLIA
Os parentes continuam freqüentando aqui como hóspedes. Lá embaixo é normal. Aqui, por exemplo, nesta casa que nós construímos, a família vem e não paga nada. E lá embaixo, no hotel, é tudo pago, para qualquer membro da família. É porque nesses anos, família muito grande, vem a questão. Aí, nós fizemos o seguinte: aqui em cima fica à disposição da família e lá embaixo... Por exemplo, nós chegamos a fazer um acordo com respeito à alimentação: a família mesmo, que são os proprietários da fazenda junto com o meu pai têm 50% de desconto na alimentação - hospedagem não. Lógico: com o hotel vazio não vai fazer diferença, pode ficar, mas com o hotel numa época que vai fazer diferença é normal. E a alimentação é 50%. E está dando certo, a coisa tem se desenvolvido bem. Meu pai e um dos irmãos dele ficaram com o hotel fazenda. Juntos. Em 73, ele veio embora e ficou até hoje com meu pai. Eram meu pai, esse irmão e minha avó - eles foram sócios. Eu entrei no lugar do meu pai em 91. Meu pai, em 91, teve um problema muito sério de câncer. Ele não conseguiu se recuperar direito, e uma das coisas que eu tive que vir para cá foi isso. Porque eu gostava daqui, meu irmão já tinha formado na faculdade, então eu vim. E fiquei sócio do meu tio e da minha avó desde 91. Agora em 2001, com o falecimento da minha avó, entraram os meus tios na sociedade e agora já está praticamente tudo acertado.

EDUCAÇÃO
Fiz cursinho na cidade de Guaratinguetá. Fiz um ano de biologia marinha, no Rio de Janeiro e não gostei: abandonei o curso. Depois voltei para fazer mais seis meses de cursinho e prestei vestibular em São Paulo, na UNIP [Universidade Paulista]. Prestei lá engenharia civil e passei. Freqüentei lá um ano, um ano e pouquinho. Quando eu estava iniciando o segundo ano eu tive que vir embora, uns quatro meses depois, maio, junho, eu vim embora. Foi 91.

COMÉRCIO
Eu tive alguma experiência porque eu ajudava meu pai de anos atrás, e gostei de ajudar. Minha avó, neste período, também já tinha se afastado - ela continuava como sócia, mas tinha se afastado. Tinha um outro tio meu, mas eu fiquei. No começo, quando você vai arrumar um emprego novo, como todo mundo, eu fiquei temeroso: você não sabe se você tem a capacidade de fazer aquilo ou não, porque uma coisa é você ajudar, outra coisa é você ser o mentor da atividade. É muito diferente. Eu me questionava. Eu falei para mim mesmo: “Será que eu vou ser capaz?”. Porque a minha avó já tinha 82 anos de idade e ela vivia daqui. Então você tinha a responsabilidade de, se um dia você cometesse erros e a coisa viesse a se desfazer, acabar, você estaria prejudicando N pessoas - o meu tio, a minha avó que viviam daqui. E este meu tio é um sócio maravilhoso, mas ele fala: “Está por sua conta”. Ele acha que duas pessoas pensando não dá muito certo, dá conflito de interesse, então ele falou: “O que você fizer está feito, eu vou deixar para você fazer porque o seu pai sempre fez”. Como o meu pai sempre dirigiu com a minha avó, ele ficou coordenando algumas coisas, ele sentiu até com um pouco de medo de fazer, então ele veio me dar esta força. Mas só no começo, que eu fiquei muito temeroso. Também foi um ano muito difícil no Brasil, foi logo após o Collor. Naquele confisco nós tínhamos perdido, como a maioria dos brasileiros, em termos de caixa, nós estávamos muito ruins. Você entra para administrar uma coisa e cadê o dinheiro? Não tem. A despesa está ali. É uma coisa que deixa você com medo. Mas eu acho que eu até me surpreendi depois, porque você vai se desenvolvendo. Eu aprendi na prática, eu já tinha há muito tempo acompanhando, sabia de muita coisa, e alguns cursos eu até fiz, mas os cursos do Sebrae... A gente tinha que ficar muito aqui. Uma das coisas que eu vejo hoje, do hotel, é que ele te prende demais. Qualquer coisa que você pegue te prende. Mas aqui, por exemplo, você pega durante a semana, você está sempre arrumando esta casa, está sempre restaurando - acabei de restaurar agora o quarto do padre, que era onde o capelão da fazenda antiga morava, este quarto era original, o forro era original, mas estava muito ruim. Faz uma semana que nós terminamos de restaurar isso aí. E final de semana é quando você tem movimento, então é uma coisa que te prende demais. Hoje eu chego à conclusão que na época era um desafio, mas com o passar dos anos vai cansando, você vai ficando aqui, preso, preso, preso. Até porque o hóspede do hotel fazenda ele exige o dono, ele quer conversar com o dono. Ele quer ser um pouquinho paparicado pelo dono. Eu acho que essa é uma característica de alguns clientes de hotéis menores em que o dono esta no dia-a-dia e que o hóspede tem a necessidade de conversar. Como eu exerço esta atividade, eu freqüento muito hotel para saber o que está acontecendo, e eu gosto muito de conversar com os proprietários aonde eu vou, até para tirar uma idéia. E o hóspede deste hotel ele sente esta necessidade. E como você tem um contato com eles, você acaba ficando amigo da grande maioria deles - de uns mais, de outros menos. Este período em que eu me afastei do hotel eu tive até muita gente ligando para o meu celular: “Olha Fábio, vamos conversar, mesmo que você não esteja no hotel, vamos lá para a gente conversar”. Eu acho que ele associa o local com a pessoa. Eu fiquei direto de 92 a 2002. Tivemos problemas de família que hoje estão superados - para mim está superado. Então é uma cobrança muito grande, porque a gente quando está de fora de qualquer negócio, você acha aquilo lindo maravilhoso. Acho que as pessoas associam isso: “Nossa Seu negócio é maravilhoso”. Mas você não sabe das dificuldades do trabalho. Então a gente teve muita cobrança, um período de litígio, processos, que foi muito desgastante para a família. Mas foi uma lição: uma lição negativa, de todos os lados. Eu costumo dizer que família não tem lado. Então eu falei o seguinte: “Eu vou me afastar porque vocês acham que tudo aqui é lindo e maravilhoso e é muito fácil, então vocês gerenciam. Está aí”. O hotel já estava montado, do jeito que é hoje. Então eles chegaram à conclusão que não era nada daquilo, que há dificuldades. Mas eu falei: “Não, vocês tomam conta, vocês vão desenvolvendo”. Hoje, pessoas que me acusaram dizem que eu tinha razão. Então acho que é importante esta parte - a pessoa viver na pele as suas dificuldades. Por exemplo, você pega: hoje eu procuro me dar bem com meu atual sócio. Está comigo na gerência, foi um grande amigo meu de criança e adolescência, depois ele se afastou até de nossos amigos em comum por N motivos. Eu até falei: “Olha, a coisa não é bem por aí”. Então, achava que eu estava ganhando muito dinheiro. Se você chega aqui numas férias, num réveillon, num Carnaval, é muita gente. E as pessoas fazem conta do volume do dinheiro que está entrando, elas não fazem do que está saindo. Porque o negócio, você tem custo. Então chegaram à conclusão que a coisa não era aquilo que se pensava, o custo de um hotel fazenda é muito alto. O custo de um hotel não poderia ser alto se você chega e investe tanto, faz tudo lindo, maravilhoso e pronto. Aqui não: porque nossa situação é atípica, porque nós pegamos uma fazenda velha, caindo, que ainda tem muita coisa para ser feita, que é uma fazenda enorme, e começamos devagar: o dinheiro que entra vai colocando. É completamente diferente de você pegar um dinheiro e investir. É só com muitos anos de rentabilidade... Outro dia eu estava até falando para um hóspede que eu estava um pouco cansado da atividade devido ao seguinte: a gente se apaixona pela casa, por aquilo que a gente desenvolve. Então, até em questão financeira - eu gosto muito de viajar, mas daí você fala: “Eu vou fazer uma viagem, mas eu vou fazer uma viagem com este quarto do padre todo detonado? Vou gastar 5 mil reais nesta viagem; com 5 mil reais, eu restauro este quarto”. Daí pronto: você não viaja mais. Um dia desses, eu falei para um amigo meu que faz turismo educacional - ele também está querendo sair um pouco do ramo - mas, ao mesmo tempo, em que a gente fala que está cansado, a gente gosta. Tudo, quase tudo que se compra para o hotel é por conta desse sócio meu, que hoje me ajuda. Ele tem me ajudado muito, porque eu tenho ficado muito em São Paulo para, paralelamente, desenvolver outro negócio. Até com a experiência que eu tenho tido com meu irmão, com essa empresa de engenharia, em São Paulo, conheci muita gente. Por trabalhar em hotel, eu desenvolvi este lado comunicativo, então eu estou desenvolvendo outro negócio. E ele tem me ajudado muito, me dado cobertura. Mas aquilo que a gente estava falando: de vez em quando falta uma coisinha, mas nada que você não possa substituir. Nos hóspedes têm a predominância de casais com filhos até os doze anos, alguns casais sem filhos, menos. Na baixa temporada, muita terceira idade e colégio, e na alta temporada, muita família com filhos. A maioria com filhos, e depois, pai e filho que estão vindo com o pai e netinho. Hoje, de lazer, nós temos quadra poliesportiva, nós temos quadra de tênis, nós temos a parte mesmo de fazenda - que é o leite no curral. Eu tirei isso aí e o pessoal ficou louco e cobrou: “Não, você tem que voltar”. Porque, realmente: você vai numa fazenda e chega lá não tem o leite. Foi uma grande falha minha, pois tem um monte de gente que adora, tem gente que acorda às seis horas e leva o filho para poder tirar leite ali na hora. Você tem a parte de cavalos... Até quem está desenvolvendo essa área, hoje, não sou eu, é o meu primo. Nós estamos colocando aí patos, essas coisas de fazenda que eu não tinha aqui. Uma galinha com ovo caipira, porque tem gente que cobra isso: “Não, eu quero ir lá no galinheiro pegar ovo caipira; quero ver como é que é”. Tem a piscina aquecida, que foi uma ótima coisa que nós fizemos, segura muito o pessoal, o pessoal gosta muito. Você tem hidromassagem, você tem sauna, piscina normal, você tem represa para a pesca. Você tem área de caminhada, salão de jogos - aquilo básico. Hoje em dia, em hotel fazenda você tem que investir muito - eu cheguei a esta conclusão. Mas como a gente está em um a fase de transição... Até falei para o meu sócio: “Minha fase de transição não pode ser muito lenta não, porque senão a gente vai ficando para trás. Hoje está todo mundo investindo”. Hoje o cliente quer qualidade, ele quer atrativo, e a gente tem muito retorno aqui. E se você tirar este quadro aqui e colocar no outro, ele nota; se você fizer uma jardinagem ali no cantinho, ele nota: “Olha como ficou legal isso aqui”. Então um projeto que eu estou desenvolvendo agora é mais na parte de paisagismo. Estamos fazendo manutenção, estamos construindo apartamento - e eu estou lidando com paisagismo, eu contratei uma pessoa da área.

RELAÇÃO COM O COMÉRCIO
Para ser sincero não gosto de comprar roupas, sapato. A minha namorada até fala que eu adoro um supermercado. Eu gosto mais de um mercado do que de loja de roupa. Quem faz a maioria dessas coisas para mim é o meu irmão. Ele adora, e eu nunca fui ligado a esta parte de roupa. Principalmente aqui na fazenda. São Paulo, capital, é diferente. Mas na fazenda, durante a semana, quando a gente está sozinho, você fica muito à vontade, uma bermuda. Uma das coisas que eu adoro aqui é que durante a semana você fica muito à vontade. Agora, comprar presentes: esta parte eu gosto. Eu prefiro até comprar presente para os outros do que para mim. Eu sou até mais presenteado do que dou presentes, principalmente pelo meu irmão.

COMÉRCIO
O índice de inadimplência aqui é mínimo. É uma coisa surpreendente: este ano de 2003 eu estive fora, mas acompanhei: nós não tivemos nem trezentos reais de perda. É uma coisa impressionante, eu fico até ligado em outros comércios e as pessoas reclamam tanto de cheque sem fundos e essas coisas, hoje, no Brasil. Cheque sem fundos, este ano aqui, eu não tive. Teve um probleminha, mas você liga para pessoa e pede para segurar um pouco que ela vai fazer o depósito. Então, não tivemos problema com isso aqui. O que mais mudou no hóspede, de 70 para cá, foram as exigências. Vamos recapitular um pouquinho: a exigência, logo no começo, era uma coisa - porque você tinha uma meia dúzia de hotéis fazendas. Hoje um grupo pode comprar qualquer terreno perto de São Paulo, que é hoje o grande mercado consumidor do Brasil, seja para qualquer lugar do Brasil, é São Paulo. Ele é exigente. Eu tiro meus clientes hoje por mim, não que eu seja muito exigente: eu vou ser exigente num lugar que o preço é uma coisa que você tem que ser exigente. Tem cliente que é complicado, ele liga para o hotel e pesquisa o que você tem. Ele liga para um hotel e pergunta o que tem, e tem dez atrativos; ele liga para o meu e tem cinco atrativos, só que na metade do preço que tem no outro. Ele vem para cá, faz as exigências pensando no outro. Tem pessoas que não têm esta capacidade de saber que um mais barato é inferior a outro mais caro. Então: “Poxa, mas lá no seu vizinho tem isso, tem aquilo, o quarto é melhor acabado”. Tudo bem: no vizinho o preço é o dobro do meu. Eu tenho um outro tipo de cliente... Por exemplo, eu recebo muita criança aqui, então o apartamento de criança é completamente diferente. Tem um hotel ali em Bananal que só recebe crianças acima de treze anos, então é lógico que você vai encontrar no quarto uma coisa de porcelana, o que seja, e aqui no nosso não tem condição. Então, na baixa temporada, nós recebemos muito hoje colégios de São Paulo, do Rio de Janeiro também está vindo. E eu estou tentando desenvolver o Vale do Paraíba e outras regiões que eu acho que não fazem esse tipo de trabalho. É lógico que nós estamos terminando a temporada deles agora - o último grupo foi agora -, esses grupos grandes o preço é pequeno, mas você ganha no volume de pessoas. É beliche nos quartos, uma coisa diferente do normal. E é uma criançada que, choveu, pé de barro na parede. E na semana seguinte é outro grupo. Então o que acontece? A gente dá uma parada a partir desta semana agora para começar a fazer uma checagem em tudo quanto é parte do hotel. Então, se o hóspede vem numa época dessa, é complicado você trabalhar, porque o outro lá não recebe, está recebendo só casalzinho, então ele vem aqui e quer pagar o requinte, conforto - tudo o que lá no outro tem. Esse tipo de coisa acontece muito. Ontem, eu estava reparando neste grupo que estava hospedado no hotel, que a moça estava fazendo a comparação: “Ah, no outro hotel tinha o café da tarde”. Então você tem muito este tipo de coisa. Ela, de repente, nem sabia que o meu preço era menor, mas eu não vou ficar lembrando. Mas este tipo de comparação é normal. Não trabalhei com pessoal especializado. Aqui nesta região não tem. Já pensei em trabalhar, meu sócio até brinca: “É mais fácil lidar com os hóspedes do que com os funcionários”. Porque os nossos hóspedes são tranqüilos, desde que você fale para ele no telefone o que ele vai achar. A minha orientação é que você fale no telefone que é mais fazenda do que hotel. Você tem conforto. Uma coisa que eu prezo é um bom banho, uma ducha com água quente, um banheiro, um apartamento confortável e limpo - isso é fundamental -, uma excelente comida, que é o básico. Então se você fala para ele que você tem isso, que realmente tem: ele chega aqui e tem isso, ele não vai te dar muito problema. Agora, se você fala que tem isso, isso, isso, ele não achar, ele vai te dar problema. Eu tive um caso outro dia de pessoas - eu falo isso para minha gerente e vou cobrar dela muito mais... Nós temos que fazer ou e-mail ou fax. Como nossa linha para acessar e-mail é muito ruim - parece que a gente nem está no eixo Rio - São Paulo - nós tivemos um problema de comunicação, até aniversário. Eu fiquei chateado e tudo... Ele já tinha vindo aqui, ele queria trazer uma tartaruga e dois passarinhos - eu não aceito. Hoje eu aceito cachorro, porque hoje, no Brasil, todo mundo tem cachorro. Então eu cheguei à conclusão de que a gente tem que aceitar, senão a gente vai perder muito cliente. Mas daí eu estava fora e eles aceitaram: “Mas dona Sílvia” - que é minha gerente - “aceitou”. Aí eu falei: “Eu não pego”. Mas antigamente era só eu. Eu estava com aquele caso da Globo e este cliente falou comigo ao telefone. Ele falou: “Mas da outra vez eu estava num quarto menor que era para casal”. Eu falei: “Olha, senhor, se o hotel estiver vazio ou com pouca gente, eu vou colocá-lo num quarto maior. Se tiver só quarto de casal, você vai ter que ficar no de casal”. Ele marcou para chegar num sábado e chegou na sexta-feira. A Globo estava filmando aqui, nós estávamos com o hotel lotado. Nossa, mas deu tanto problema Eu nem sabia, porque eu não estava aqui, no dia seguinte eu cheguei e estava a esposa dele gritando no corredor, queria que devolvesse o dinheiro dela. Então você tem este tipo de coisa. Ela ficou num quarto menor, parece que não dormiu. Mas foi tudo isso falado por telefone, então o que acontece? Resumindo, hoje nós tempos que fazer com o papel na mão, porque fica: você falou, não falou. Então eu falei para minha gerente: “Escreva, envia para a pessoa e dê o de acordo, está de acordo?”. Eu faço isso, quando não sou eu que não cuido desta parte efetivamente. Eu acho que tem que ser dessa forma, é o único tipo de problema que você tem aí. Trabalho com monitores, a gente até estava falando sobre trabalho qualificado, eu trabalho com monitores. Esses são qualificados e vêm de agência do Rio, de São Paulo, de Santos. Agora, minha mão-de-obra mesmo, do dia-a-dia, é daqui, não tem como. Eu já tentei pegar de fora e é difícil. Porque o que acontece? Na baixa temporada, a gente não faz nada; na temporada, a gente contrata uns free-lancers, umas coisas assim e trabalha. O grande problema hoje de um hotel fazenda é mão-de-obra. Eu também vi na empresa de meu irmão lá em São Paulo que mão-de-obra qualificada é complicado. Estou tentando desenvolver um negócio aqui no Vale: turistas de colégio. Na alta temporada, nós não temos problemas de movimento, temos que desenvolver a baixa temporada, na qual é muito bom trabalhar com colégio. A lucratividade, apesar de ser pequena, a quantidade é muito grande, então você ganha. E o colégio, o que faz? Ele chega, almoça e sai, está estudando, aí vai visitar alguma coisa. À noite chega, vai tomar banho, faz a programação dele. É muito fácil de você trabalhar com eles, eu gosto de trabalhar. Eu já perguntei para alguns concorrentes meus, eles também gostam. É uma coisa boa de se trabalhar. Não tem problemas financeiros e é boa de trabalhar, é gostoso de se desenvolver E aqui no Vale eles não saem, são bons colégios, é um lugar de poder aquisitivo relativamente alto, mas eles não saem, eles não desenvolvem este tipo de trabalho que é ficar dois dias num hotel, ir à Companhia Siderúrgica Nacional, na Serra da Bocaina. Eles vêem muito este lado prático da coisa. Hoje eles já estão desenvolvendo o projeto da Volkswagen. Eles vêm aqui estudar o seguinte: eles vão no meio ambiente, eles vão na siderurgia, que é a Companhia Siderúrgica Nacional, eles vão aqui em Resende, na Volkswagen, e esses problemas do Brasil, de água, estas coisas, eles têm vindo aqui na represa do Funil. Tem a fazenda, por exemplo, vem professor de geografia, de literatura e, inclusive professores interessados nesta área mais tecnológica, que é a siderúrgica, porque daí vem o segundo grau - deve ser o primeiro ano, o segundo ano. Até para dar uma noção, quem quer ser engenheiro mecânico vai lá ver a siderúrgica, ou essa parte de água, ou biologia e a parte histórica, que está no currículo deles. Eu gosto muito desta parte, e o Vale do Paraíba é muito mal explorado. Então eu estou tentando, já entrei em contato com algumas agências, principalmente de São José dos Campos, para eles desenvolverem este trabalho. Por que o que está acontecendo? O pessoal de São Paulo está entrando no Vale, e eu falei para eles: “Vocês estão perdendo. Daqui a pouco o pessoal de São Paulo vai entrar no Vale todinho, e um mercado que vocês não estão tendo esta visão, vão perder um mercado que é muito grande”. Porque na alta temporada tem para todo mundo, mas na baixa temporada, que é a dificuldade. Vou às agências e vou nos colégios. Faço direto também, porque tem muito colégio hoje nos procurando, direto, mas de São Paulo, porque ficou caro para sair. Têm três colégios que vinham com agências que não vêm mais. Eles vêm direto, pegam um cartão, eles estão eliminando essa parte. Mas eu acho que é uma perda, porque eu acho legal ter uma agência especializada. Eles dão uma cobertura muito boa, inclusive com a parte de monitores.

FAMÍLIA
Meu pai é uma pessoa muito espirituosa. Ele está numa fase complicada agora porque ele vem de uma série de doenças, e toda pessoa fica mais sensível, mas sempre foi um bom pai para mim, para meu irmão. Eu sempre tive mais proximidade com eles, com meus pais, porque eu estive aqui e meu irmão esteve fora este tempo todo. Então, automaticamente, você cria um vínculo maior. Mas eu vejo pelos nossos hóspedes aqui que perguntam: “E seu Kiko?”. Então eu vejo que ele é querido, ele é uma pessoa muito amiga. Ele vem bastante aqui. Ele tem muito problema com este meu sócio, então hoje eu até evito. Falo para ele: “Você vai lá tomar uma cervejinha, mas se você for dar algum palpite, chega lá e fala, e não fala para ninguém, para funcionário nada, porque senão vai chegar...”. E ele com meu sócio, que é sobrinho dele, eles não se dão, então você tem que administrar este negócio também, tem muito tititi, fofoca. Outro dia, num churrasco deles, a gente estava falando numa prima dele que é nascida aqui. Então ele falou: “Kiko, vai lá na Boa Vista, na fazenda, descontraia lá, conversa com os funcionários” - que os antigos ainda gostam muito dele - “se algum funcionário fizer uma reclamação, entra no ouvido e deixa para lá”. Então ele é muito querido. E lá em Bananal também, nascido e criado lá.

COMÉRCIO
Tudo tem a sua hora. Quando eu entrei aqui eu tinha sonho de fazer quadra - o meu pai tinha sonho de fazer quadra, há muito tempo. Tinha sonho de melhorar muito o hotel e via que tinha outras necessidades. A lição que eu aprendi durante todos estes anos, foi justamente isso: é saber a hora de fazer aquilo que deva ser feito. E sempre perguntando, estudando, sabendo a opinião de quem já fez - eu acho isso muito importante, eu nunca vou fazendo as coisas. Um dos atritos que eu tinha com meu pai era isso aí: “Ah, vai inventar isso”, “Inventar não, eu já vi isso, já estudei isso e vou fazer”, “E se não der certo?”, “Se não der certo, não deu certo”. Mas se deu certo ali, porque que a gente não pode desenvolver aqui, inclusive tentando até melhorar? Eu bati de frente com ele muito por causa disso daí: a gente tinha umas brigas assim, mas levava numa boa. Por exemplo, a piscina aquecida, que foi uma grande coisa para o hotel, ele não queria que eu fizesse de jeito nenhum. Eu falei: “Vou fazer”. Já tinha visto aí, já tinha visto, as pessoas perguntavam: “Aqui precisa de uma piscina assim, assim, assado”. Eu falei: “Vou fazer”. Minha gerente até fala - ela já está comigo há muito tempo -: “Foi uma das grandes coisas do hotel que a gente já fez”. Então, é saber a hora de fazer aquilo que deve ser feito, e fazer com seriedade, procurando desenvolver as coisas cada dia melhores para seu cliente. O que você não quer para você, não dê para seu cliente. Eu acho que a grande coisa para o comércio é o seguinte: se isso aqui não serve para mim, também não pode servir para o meu cliente. Isso deve ser o princípio fundamental do comércio. Então, o que eu fiz aqui no hotel: o Fábio, como é o cliente Fábio? Por exemplo, eu fui uma vez num hotel no Rio, ali até do lado do Meridien, eu fiquei hospedado ali. Deu dez horas da manhã, eu fui tomar café, era dez e um - eu me lembro disso porque estava eu e um casal de amigo - , eles fecharam a porta na minha cara, porque era dez e um. Ele falou: “Dez horas: o café está fechando”. Hotel quatro estrelas. Eu imediatamente cheguei aqui e coloquei o café até às onze horas da manhã, e se tiver alguém querendo café, não importa o que seja: você vai servir. Eu não voltei lá, eu não voltaria. O que não quero para mim, não quero para o meu cliente eu. Isso é fundamental, este exemplo que eu te dei agora. Eu viajo muito. Vou nos hotéis e vejo: isso aqui eu não gostei. Eu trouxe esta experiência aqui para o hotel e tem dado certo porque as pessoas retornam muito, você vê se o negócio está dando certo pelo retorno. Ontem o meu gerente estava comentando comigo: “Não. A gente tem que acabar com este negócio de retorno e conseguir novos clientes, porque fica muito retorno, retorno”. E tem outra coisa: o hóspede, depois de muito retorno, fica muito difícil, principalmente aquele que vem todo ano para o seu hotel, está sempre elogiando. Ele leva um casal de amigo dele, uma família, e não quer que tenha problema nenhum. Este tipo de coisa é complicado. E há falhas - com profissional já há falhas, imagina... Agora, nossa parte de garçom, de atendimento sempre foi muito elogiada. Às vezes, falam que eu tenho de contratar garçons profissionais, mas estes meninos que a gente tem - eles chegam com catorze, quinze anos e vou treinando. A maioria deles, que passaram por aqui, são maîtres em São Paulo. Desinibe: porque eles chegam aqui morrendo de vergonha porque são da roça, e depois desinibem. E depois vem um hóspede e fala: “Fábio, vou roubar o seu fulano”, “Se tiver uma proposta melhor do que a minha vai embora, ele tem que viver a vida dele”. Então, tem hoje pessoas que trabalham em São Paulo, muitos, que já passaram pela gente aqui.

AVALIAÇÃO
Olha, eu achava que estava faltando um negócio assim no Vale - ultimamente até que não, o Vale até que tem sido explorado - , mas esta parte de turismo. Comércio, não. Principalmente o fundo do Vale, porque a gente fala aqui que é as Cidades Mortas, estava muito pouco divulgado. Então eu achei muito interessante. Eu acho uma coisa muito interessante, que inclusive tem que ser mais divulgada porque é legal você saber de histórias de pessoas que desenvolveram um trabalho, uma coisa ali que não é nada, e você fazer daquele evento uma coisa que traga benefícios para outras pessoas. Eu gostei muito da entrevista e espero que vocês desenvolvam. Pelo que eu estou vendo parece ser legal, e vocês também estão curtindo.

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