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História

Horizontes da psicologia hospitalar

História de: Mayla Cosmo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2018

Sinopse

Mayla Cosmo nasceu em São Paulo no ano de 1974. Ainda na infância, devido à profissão do pai, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, cidade onde viveu até a sua graduação em Psicologia pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). Mayla foi introduzida por uma professora à Psicologia Hospitalar e, depois de fazer um curso de especialização, voltou à São Paulo para fazer o programa de aprimoramento do Incor (Instituto do Coração). Nesta entrevista, Mayla comenta sobre o seu trabalho no hospital, sua relação com os pacientes e suas expectativas para o futuro.

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História completa

P/1 – A primeira pergunta é o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Mayla Cosmo. Nasci em 27 de novembro de 1974, aqui em São Paulo.

 

P/1 – E os seus pais? O nome deles, fazem o quê?

 

R – O meu pai é José Roberto Cosmo, sociólogo, e minha mãe é Ercília Helena Daiane Cosmo, também socióloga.

 

P/1 – Você passou a infância em São Paulo?

 

R – Eu morei no interior de São Paulo, em São Carlos, depois passei um tempo aqui e estou no Rio há dezenove anos.

 

P/1 – Essas mudanças têm a ver com a profissão dos pais?

 

R – Profissão do pai. Meu pai recebeu uma proposta para ir trabalhar no Rio de Janeiro e a família mudou-se.

 

P/1 – Você foi para o Rio com que idade?

 

R – Cinco para seis anos.

 

P/1 – Toda a sua formação educacional foi lá?

 

R – Sim. Primário, ginásio, segundo grau.

 

P/1 – Você estudou em quais escolas? O que você fez no primeiro e segundo grau?

 

R – O primário foi no Colégio Jacobina e o segundo grau foi no Colégio Bahiense.

 

P/1 – Que lembranças você tem e como foi estudar nessas escolas?

 

R – Lembranças positivas, era um tempo muito gostoso. Lembranças boas.

 

P/1 – Você foi para a universidade decidida a fazer Psicologia?

 

R – Psicologia.

 

P/1 – Como é que foi essa decisão?

 

R – É porque eu gosto muito de ler. O meu pai fazia parte do Círculo do Livro e eu sempre queria livros relacionados à Psicologia. Desde a sétima, oitava série eu fui delineando para a Psicologia. Chegou no dia do vestibular e eu fui um pouco na onda da turma. Eu era super nova, tinha de dezesseis para dezessete anos, fui pela turma, pelo grupo de amigos e fiz Medicina, mas longe de mim trabalhar com Medicina. Não passei e fiz um ano de cursinho. Eu sempre quis fazer Psicologia, mas você vai... Influenciado por amigos... Nesse ano eu fiz um teste vocacional, me ajudou a dar esse passo.

 

P/1 – Deu para você corrigir no teste?

 

R – Sim, eu fui fazer psicologia. Eu fiz pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio de Janeiro, foram cinco anos de faculdade.

 

P/1 – Antes de entrar em psicologia você tinha esse gosto, acha que vinha de onde?

 

R – Acho que muito pela minha formação do colégio. O colégio onde eu tive a minha formação de primário e ginasial incentivava muito a leitura, a criatividade, a redação... Líamos, em média, dezesseis livros por ano – é bastante –, literatura dos assuntos mais diversos, desde Machado de Assis, Eça de Queiróz e até Sidney Sheldon.

 

P/1 – Na escola?

 

R – Na escola, no colégio... Os best-sellers e os clássicos. Foi legal, eu vi de tudo. Por conta dessa base... Os meus pais também sempre me incentivaram, sendo da parte de Humanas, de leitura e de discussão. Isso esteve muito presente.

 

P/1 – Você chegou a fazer terapia antes de entrar?

 

R – Eu fiz terapia quando eu era adolescente, porque os meus pais estavam se divorciando; acabaram não se separando. Eu sou a mais velha, que acaba sendo sempre a depositária de tudo. Fiquei super ansiosa, nervosa. Fui fazer terapia eu devia ter uns doze para treze anos, fiquei certo tempo e parei. Na faculdade eu fiz um período.

 

P/1 – Durante o período da faculdade você também fez?

 

R – Foi quase no final da minha formação. Fiz um período de terapia.

 

P/1 – Quando você entrou na faculdade tinha uma ideia bem formada de como era a profissão.

 

R – Um pouco. Eu me surpreendi muito com a psicologia, tinha aquela ideia de que era só coisa clínica, fechada no consultório, depois eu vi outras coisas, outras perspectivas.

 

P/1 – Você tinha essa imagem ainda do divã?

 

R – Sim, demais!

 

P/1 – Você entrou na faculdade... Como foi esse curso da PUC? Professores…

 

R – A gente sempre reclama: "Ah, eu queria que fosse assim…", mas hoje eu vejo como aprendi. Foi uma formação muito voltada… Tinha um resquício, que era um pouco do ginásio e do segundo grau, uma formação voltada para a criatividade. A formação da PUC do Rio dá muito valor à arte, à criatividade e à leitura. Foi como a continuação do que eu experimentava no colégio.

 

P/1 – O curso de psicologia?

 

R – O curso de psicologia e a faculdade em si. O curso tinha umas matérias específicas, mas lá – eu acho muito legal – temos que fazer créditos em outros departamentos, obrigatórios. Um grande número de créditos, quarenta créditos, que equivalem a dez... Depedendo do número de créditos, de dez a quinze matérias fora do departamento de psicologia, então você acaba tendo contato com outras áreas. Eu fiz nos departamentos de Letras, de História, de Artes, cerâmica. A minha formação foi um pouco diversa, tive contato com várias coisas.

 

P/1 – Você preenche esses quarenta créditos da forma que você bem entender?

 

R – Sim, eu posso fazer Cálculo III, Engenharia. Posso fazer o que eu quiser, do esporte, Educação Física, até Física, Geografia. É bem interessante, enriquece a formação.

 

P/1 – E os professores, teve algum que te marcou mais? Como foi essa relação?

 

R – Teve uma professora, eu até tinha bolsa com ela do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), projeto de pesquisa. Ela que me iniciou um pouco na área da psicologia hospitalar, eu nunca podia imaginar essa possibilidade. Aqui em São Paulo é uma coisa forte, a psicologia hospitalar está enraizada. No Rio, não é assim. Você houve falar, mas depois que está na área. Você começa a pesquisar pessoas e aí descobre. É muito diferente daqui na área da psicologia hospitalar. Eu tinha pouco contato no curso, as matérias não tinham essa ênfase ao hospital, e foi essa professora quem me iniciou, através de um projeto de pesquisa que era com doenças crônicas em crianças. Eu comecei a fazer pesquisa em hospital, conheci instituição e me interessei por essa área.

 

P/1 – Entendi. Ela tinha um trabalho com isso lá?

 

R – Ela tinha, há muito tempo. Ela trabalhou como psicóloga em um hospital de cardiologia infantil no Rio, mas saiu. Fez o mestrado, começou a dar aula e se afastou um pouco. Eu encontrei com ela na metade da minha formação, do segundo para o terceiro ano.

 

P/1 – Você tinha uma perspectiva de trabalhar com a parte clínica, veio a pesquisa…

 

R – Clínica, não vinha outra coisa. Fazendo a pesquisa, conhecendo outras instituições e trabalhos, comecei a seguir a linha Brida.

 

P/1 – Você foi para um trabalho com os hospitais?

 

R – Eu ia a campo, fazia o trabalho com as instituições e com os pacientes internados. Eu fui a diversas instituições, Zona Sul, Zona Norte, Central...

 

P/1 – Várias classes sociais?

 

R – Basicamente, SUS (Sistema Único de Saúde). Um ou outro caso particular, mas os pacientes eram todos de classe popular.

 

P/1 – Todos os hospitais tinham algum serviço de psicologia?

 

R – Não.

 

P/1 – De repente, você chegava e falava: "Eu vim desenvolver um trabalho...”

 

R – Só um hospital tinha um serviço de psicologia, os outros não tinham nada. Antes ficamos um tempo em campo, mandando cartas para as instituições, falando do projeto de pesquisa do CNPq e introduzindo um pouco. O hospital concordava, ou não. Mandamos para vários e poucos aceitaram. Depois, o hospital concordando, eu ia lá no hospital e…

 

P/1 – Ficava quanto tempo? Como era a dinâmica?

 

R – Dependia do meu tempo, eu tinha um prazo para entregar aquelas entrevistas gravadas.

 

P/1 – Você gravava as entrevistas?

 

R – Gravava. Era uma pesquisa qualitativa, aberta, semi-estruturada. Não era aberta... Íamos até o hospital, eu tinha um prazo... Quando eu tinha um tempo livre eu ia mais vezes, durante a semana, mas, em média, eu ia aos hospitais uma vez por semana e passava uma tarde ou um dia neles.

 

P/1 – Cada vez em um hospital?

 

R – É. Teve uma instituição que eu fiquei mais ligada, que tinha um serviço de psicologia.

 

P/1 – Qual era?

 

R – Era o Hospital da Lagoa.

 

P/1 – Como foi chegar? Como você foi recebida? Os hospitais que te aceitaram, está explícito... Como é que foi essa dinâmica interna do hospital, entrar e chegar às pessoas?

 

R – Era um pouco difícil. Eu me sentia protegida por essa professora, porque não era eu que fazia os contatos. Eu ajudava a enviar as cartas, mas era ela que ia e que conversava com o diretor do serviço, com o chefe. Eu era vista como “a estagiária da professora, da Betinha, que está aqui fazendo uma pesquisa." Era difícil você chegar e não conhecer nada, não conhecer ninguém e não tem essa experiência do hospital. No começo, isso me assustava.

 

P/1 – Como foi, de repente, chegar e trabalhar com pessoas… Você não imaginava que ia chegar e trabalhar com situações do gênero, pessoas em situação de doença, ainda mais crianças…

 

R – Crianças…

 

P/1 – Como foi?

 

R – Foi muito difícil. Foi o período em que eu procurei a terapia, no final da pesquisa, porque não era fácil. Eu só fazia a entrevista e não tinha um contato posterior. Muitas vezes, eu percebia coisas que emergiam na pesquisa, na entrevista, e que, de repente, eu dizia: "Meu Deus, o que vou fazer agora com tudo isso?" Coisas graves, de mães aflitas... Eu puxando coisas delas e: "O que vou fazer com tudo isso?", porque a mãe está aqui se expondo e não tinha nada para dar continuidade. Por isso até que fiquei mais ligada a esse hospital. Lá tinha esse serviço de psicologia e eu encaminhava, dizia: "Olha, eu fiz uma entrevista e percebi isso. Será que você pode atender?" Eu me sentia muito mal de estar... Tratava de coisas muito graves e sérias ali. O nascimento de um filho, como era a aceitação de pai, de mãe... Foi muito ‘barra’.

 

P/1 – Eram doenças infecciosas?

 

R – Doenças crônicas.

 

P/1 – No hospital que não tinha serviço de psicologia, você levava as coisas para os médicos: "Olha, aquele paciente…"

 

R – Não.

 

P/1 – Não chegava... Era um trabalho que você coletava e acabava ficando em uma dinâmica sua.

 

R – Nesse hospital que tinha o serviço, eu tinha amigas da PUC – era um hospital perto da PUC – lá dentro, que eram estagiárias. Elas sabiam que eu estava ali fazendo entrevistas e eu sabia que podia contar com elas, me davam mais segurança. Quando acabou a pesquisa – foi concluída no ano passado, em julho –, a professora elaborou um roteiro, a conclusão da pesquisa e eu não estava lá, já estava formada. Ela ia mandar para esses hospitais uma devolução do trabalho e da pesquisa, mas essa parte eu não participei. Eu não tinha nem mais bolsa, porque ela acabou em julho do ano passado.

 

P/1 – Você se lembra da sua primeira conversa? O primeiro paciente que você foi conversar, o primeiro familiar?

 

R – Com essa pesquisa ou depois, atendendo?

 

P/1 – Com essa pesquisa, o contato seu com o primeiro paciente em um hospital.

 

R – Foi difícil. Eu não tinha ideia do que era estar em um hospital. Você vai ver algum amigo doente ou família, mas estar ali, lidando com aquilo… Uma coisa falha na formação que eu tive, que foi muito voltada para a clínica... É que é diferente: tem muitas coisas ali mais emergentes, mais sérias, mais várias. Um momento de crise para a pessoa. Muitas vezes, eu não sabia o que fazer com aquilo tudo porque eu não tive aquela formação.

 

P/1 – Você teve que improvisar?

 

R – Improvisar. "Como é?", de repente a mãe chorava. "O que eu vou fazer com tudo que ela está me falando?" Foi muito difícil, mas era uma mãe boa, bem consciente e orientada, então foi uma entrevista muito boa. Foi uma entrevista que, depois, essa professora utilizou em provas, porque tinha um conteúdo muito interessante.

 

P/1 – Tornou-se uma referência?

 

R – É.

 

P/1 – A psicologia tem uma metodologia de abordagem ao paciente, e tal. Como ficou essa questão para você? Porque você não tinha isso e teve que criar.

 

R – Eu não sabia como abordar um paciente em um hospital. Você sabe como abordar um paciente em consultório e mesmo na clínica da faculdade, como é, o que você fala e aborda... Em hospital, eu não tinha essa vivência. A professora nos orientou, conversou e lemos bastante, mas é diferente quando você chega. Ela foi até comigo e me apresentou, mas quando você está lá sozinha é difícil.

 

P/1 – Muda o espaço. Em uma clínica, o paciente vem até você, e lá você tem que conquistá-lo.

 

R – De repente você chega e o paciente não é receptivo. Ouvi muitos “Não quero”, “Não gostaria de participar.” Você tem que saber lidar com isso.

 

P/1 – Tinha uma imagem pré-concebida sobre a psicologia? Essa coisa do louco: “Eu não estou louco...” O que você tinha disso e como é que…

 

R – Um pouco. Tinha, depois de você ouvir: "Você é psicóloga? Como que é, eu tenho alguma coisa? O médico que te mandou aqui? Está acontecendo alguma coisa com o meu filho?" Eu explicava que não, que ia estar lá por causa da pesquisa e da entrevista. Mas tinha um pouco essa ideia.

 

P/1 – E com os médicos?

 

R – Os médicos eram mais distantes. Um ou outro falava, mas eram mais distantes.

 

P/1 – Você conhecia alguma referência da psicologia no Incor (Instituto do Coração)? Como era isso?

 

R – Eu comecei a fazer essa pesquisa e fui me interessando pela área hospitalar. Eu descobri um curso que tinha no Rio, na Santa Casa, de especialização em psicologia hospitalar aplicada à Ginecologia. Era um curso que você podia estar formada ou estudantes a partir do sétimo período. Eu fui fazer esse curso, era um ano e meio a parte teórica, e depois a parte prática com supervisão, na própria Santa Casa. Foi onde eu tive o maior contato com o que é a psicologia hospitalar, o que fazer e as possibilidades de atuação em um hospital: ambulatório, enfermaria... Eu não tinha ideia disso tudo. Grupo, individual, pré-operatório, pós-operatório... Foi aí que eu tive contato mesmo com a psicologia hospitalar.

 

P/1 – Cada setor vive uma angústia ou situação diferente?

 

R – Eu tinha uma ideia geral do que é adoecer, ficar doente... Era muito voltado para a Ginecologia, a mulher, o corpo da mulher, câncer de mama, câncer de útero... Era uma coisa que tem as suas especificidades, coisa de medo... Mulher que faz uma mastectomia, que tira a mama, e o medo de não ser mais mulher. Tem umas coisas específicas, mas uma ansiedade geral de estar hospitalizada, internada ou ter que fazer uma cirurgia.

 

P/1 – O paciente no hospital, há um padrão… Eu li um termo que não sei se é o correto, Biotipologia... Tipos de pacientes relacionados a cada tipo de doença, tipo de setor no hospital...

 

R – Isso depois você pode até utilizar para __________. (riso) Não mostra para ela isso (riso), mas tem a personalidade do câncer. Tem alguns fatores, se você tiver uma personalidade assim, você está mais predisposto a ter o câncer. É lógico, tem a genética, tem o ambiente, tem tudo. Tem também a personalidade tipo A, que é a do coronariopata, pessoas mais agitadas são as que se encaixam no perfil. Hoje esse tipo de coisa não está mais sendo utilizado, porque você vê pessoas que não se encaixam dentro do perfil e, de repente, fica uma coisa muito fechada só esse tipo de pessoas com essas características. A experiência mostra que tem mais coisa.

 

P/1 – Todo o tipo de gente, todo o tipo de resposta.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Esse serviço da Santa Casa era aplicado à Ginecologia, mas tinha um serviço de psicologia estruturado no hospital?

 

R – Pouco. Tinha uma coisa mais voltada à Psiquiatria, um setor onde tinha um psicólogo, mas não era voltada para a psicologia hospitalar. Eu tive pouco contato com a Santa Casa em si. Eu sabia de pessoas, mas eu nunca encontrava, e quando eu ia atrás, cadê? Não estão... Às vezes, também, em jornadas... Você sabia pouco, ouvia pouco. Não era uma coisa integrada.

 

P/1 – Não havia uma junção com as pessoas que estavam trabalhando? Uma organização...

 

R – Não. Minha supervisora – que é a chefe – faz parte da equipe de Ginecologia, mas não é contratada da Santa Casa. Ela não faz parte. O chefe da Ginecologia, doutor Alkindar, convidou essa psicóloga para trabalhar com ele, mas isso não significa que ela tenha algum vínculo empregatício com a instituição.

 

P/1 – Desenvolve o trabalho…

 

R – Não sabemos se, quando ele for embora, ela vai continuar desenvolvendo o trabalho na Santa Casa.

 

P/1 – Lá tem outros programas ou só a ginecologia?

 

R –Tem outros, ligados a pacientes com AIDS, UTI (Unidade de Terapia Intensiva), e o núcleo do psicossomático.

 

P/1 – Você trabalhou só na ginecologia?

 

R – É.

 

P/1 – Quanto tempo você ficou?

 

R – Um ano.

 

P/1 – Como foi depois?

 

R – Eu comecei a ver que era aquilo mesmo o que eu queria dentro da psicologia. Eu queria psicologia hospitalar. Comecei a pesquisar e ouvir falar do __________, do trabalho da psicologia do Incor, através de relatos de amigos que participavam de congressos de psicologia hospitalar. Para mim era: "O que é isso? O que tem no Incor? Que serviço é esse?" Eu comecei a pesquisar mais, conversar com pessoas que estavam ligadas à área, e elas sempre me recomendando São Paulo: “Mayla, vai para São Paulo, aqui no Rio você está perdida." O que eu sempre quis era fazer uma especialização antes de começar a atuar, por conta da falha na minha formação. Eu não queria chegar assim no hospital, achei que não tinha maturidade para chegar e propor um projeto. Eu queria esse tipo de especialização e, no Rio, eu não encontrava.

 

P/1 – Não tinha nenhum sistema de especialização...

 

R – Tem no Pedro Ernesto, o hospital da [universidade] estadual do Rio – inclusive recebe uma bolsa super boa, de 1100 reais. Uma residência de quarenta horas semanais para formados, que nem aqui. Eu fui conhecer o serviço e não gostei. Foi antes de conhecer aqui. Achei o trabalho fraco, não tinha pesquisa, não sei... Não me senti bem ali.

 

P/1 – Mas havia um serviço de psicologia organizado, com uma sala, uma equipe...

 

R – Sim. Meu avô é de São Paulo, eu moro aqui com a minha avó. Ele começou a ter um problema de fígado e veio fazer um transplante no HC (Hospital das Clínicas). No ano passado, eu vim acompanhar o transplante. De vez em quando eu vinha para São Paulo, principalmente em férias, e ficava com eles. Ele vinha muito aqui no Hospital das Clínicas pegar remédios, ver o sangue e tudo isso, e aí tive contato com a psicóloga do instituto do fígado. Eu não sabia que tinha um serviço tão bem estruturado. Pensei que era igual no Rio: você sabe que tem, mas não encontra nada. Eu conversei com ela, falei que estava interessada e que estava na ginecologia. Ela me deu o endereço e disse: "Se informa, porque tem especialização aqui." Isso foi no começo do ano passado. Eu fui no CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e ele falou “a inscrição é só em outubro, mas você liga.” Eu comecei a perturbar: "Olha, me manda o programa para eu poder estudar, o do ano passado." Ele me mandou o programa por fax e eu pude ver o que tinha. Vi o Incor, o Instituto da Criança...

 

P/1 – O sistema de aprimoramento é geral, de todo o complexo?

 

R – É. Tem do Instituto Central do HC... Eu vi o do Incor, achei interessante, guardei e comecei a pesquisar. Eu conversei com a minha professora, e ela falou: "Mayla, vai para São Paulo. O trabalho do Incor é muito bom." Depois, me deu coisas para eu ler e tomei essa decisão. Vim e fiz a prova, morrendo de medo, achei: "Não vão me aceitar, eu sou do Rio. Paulista não gosta de carioca..."

 

P/1 – Tinha muita gente?

 

R – Acho que umas cinquenta pessoas.

 

P/1 – As vagas são quantas?

 

R – Dez por ano, para o Incor. Eu olhei aquele programa, milhões de livros, e falei: "Que tempo eu vou ter para estudar isso?" O que acho que me deu uma base foi a minha experiência na ginecologia, de supervisão. No Rio, eu não tinha nenhuma possibilidade. Eu estava voltada para vir para São Paulo, então me fechei para o Rio. Eu fiz aqui e na Escola Paulista de Medicina. Quando eu vi a possibilidade de vir para São Paulo, eu vim ver onde que oferecia...

 

P/1 – Como foi? Você fez um mapeamento?

 

R – Fiz, pela Internet. Fui catando...

 

P/1 – Quais as conclusões que você chegou?

 

R – Eu optei. Eu não tinha tempo de ficar vindo... Era outubro, novembro. Eu estudava no Rio, estava me formando, trabalhava, dava aula de inglês... Não podia faltar e vir aqui toda semana fazer prova. Eu selecionei Clínicas – aqui, o Incor – e a Paulista de Medicina.

 

P/1 – O que te chamou atenção no programa do Incor?

 

R – Foi o trabalho desenvolvido. Eu li a linha edital do aprimoramento... A literatura me chamou a atenção, era bem maior que a dos outros. Lendo o edital, eu vi que era um trabalho bem fundamentado teoricamente. Quando eu vi as possibilidades de atuação aqui, eu falei: “Nossa, que interessante.” Isso que me chamou a atenção no Incor, o que eu poderia estar desenvolvendo aqui e a estrutura do serviço.

 

P/1 – E na Escola Paulista de Medicina ?

 

R – Eu passei para a segunda fase. A entrevista foi um dia depois daqui, mas eu não gostei, porque não era psicologia hospitalar. Era uma coisa mais voltada para a Psiquiatria, e não era assim que eu estava querendo. Além do mais, eram dois anos sem bolsa. Eu apostei tudo no Incor, e passei.

 

P/1 – Você fez a entrevista com quem? Com a Bellkiss?

 

R – Com a Bellkiss, nessa sala. Estava a Bellkiss, a Elenita, a Glória, a Francine e a Elaine, que são as diretoras e as chefes. 

 

P/1 – Elas todas na sala, e você no meio...

 

R – Eu trouxe o currículo e vêm as perguntas: “Fala disso, fala daquilo.” Coisas mais pessoais, informação acadêmica... Engraçado, eu saí daqui pensando: “Aqui é meu lugar.” Passei e estou aqui.

 

P/1 – Você passou e começou a trabalhar?

 

R – Eu soube antes do Natal que eu tinha passado. Foi a Bellkiss que me contou, na véspera, acho que era dia 23.

 

P/1 – Que presentão.

 

R – Em janeiro é que saiu no Diário Oficial, com colocação, o que tinha que fazer... Foi aí que eu comecei a me organizar, porque eu trabalhava, tive que pedir demissão... Em janeiro e fevereiro fiquei arrumando as coisas – porque é uma mudança –, e em março eu vim para cá.

 

P/1 – Você foi trabalhar onde? Quem te acompanhou e te introduziu?

 

R – Quando eu comecei, fiquei na equipe da Cardiologia Geral – porque passávamos por três equipes de três meses e meio. Eu fui para Cardiologia Geral e transplante, quem me acompanhou foi a contratada da área, a Juliana. Eu fazia supervisão com a Elaine. É difícil sair da faculdade e entrar em um lugar já sendo psicóloga, é diferente de ser estagiária. Essa mudança é difícil e, para mim, foi ainda mais difícil sair do Rio de Janeiro, vir pra São Paulo... Eu estava receosa e com muito medo, mas chegando aqui vi que eu tinha um suporte de todo o serviço, que não estava sozinha e que tinha uma supervisão séria. Eu não faço o que eu quero, tem toda uma hierarquia: a Juliana, a Elaine... Até a Bellkiss.

 

P/1 – Qual era o trabalho efetivo que você fazia? Foi direto atender paciente?

 

R – Tivemos um mês e meio de aulas de Cardiologia, Didática, Metodologia de Pesquisa e Sistema de Atenção à Saúde, e as aulas específicas de Cardiologia, Fisiologia e tal. Depois dessas aulas começamos a atender mesmo, mais ou menos no meio de maio.

 

P/1 – Esse trabalho é com transplantes...

 

R – Cardiopatias gerais.

 

P/1 – Cardiopatias gerais e transplante é uma unidade?

 

R – São duas áreas diferentes, que tem só uma psicóloga.

 

P/1- Como foi esse trabalho? Como são os pacientes?

 

R – Dentro da Cardiologia é uma área mais delicada, transplante é uma coisa mais grave. As questões dos pacientes são delicadas. Você está lidando com a morte, a espera de um coração, família super ansiosa... Foi um período difícil. Eram uns pacientes complicados, graves, mas eu acho que a supervisão ajudou muito. O que fazer, o que falar...

 

P/1 – Como vocês lidam com isso? Porque o paciente está lidando com a morte, mas vocês também estão.

 

R – É difícil. Até apresentamos seminários em grupo, um por mês, sobre morte. Como a equipe, a família e o paciente lidam com a morte.

 

P/1 – Só para os psicólogos?

 

R – É, só para os psicólogos daqui. Isso faz parte do aprimoramento, conta nota... É difícil porque é a morte do paciente, mas às vezes você também pensa na sua própria morte, principalmente quando ele é jovem, quando há alguma identificação com o paciente. É muito difícil, porque às vezes a gente fica impotente, o que é que vai fazer... O cara está morrendo.

 

P/1 – O que você pode dizer?

 

R – Como você vai agir, o que você pode fazer... O cara deve ter outras prioridades do que ficar falando sobre isso. Não é assim... Procuramos resgatar um pouco da vida que ainda há no paciente. Eu atendi um senhor que estava esperando um transplante e acabou morrendo aqui no hospital porque o coração não chegou. Ele ficou internado muito tempo, foi difícil.

 

P/1 – Tem a angústia da espera...

 

R – Ele veio de Brasília querendo o coração. Para ter o coração alguém precisa morrer, então você deseja a morte do outro. Isso também deixa o paciente culpado: "Não morreu ninguém este fim de semana?" Às vezes você também acaba pensando isso. Não chega coração... É uma coisa um pouco mórbida. Às vezes, eu chegava na porta da UTI e voltava. Não tinha estrutura no dia para encarar aquele paciente, aquela família. É importante você saber o seu limite.

 

P/1 – Como que você estabelece isso?

 

R – Isso é muito pessoal. Cada um sabe até onde pode chegar. Às vezes você acaba se envolvendo muito com um paciente e precisa se distanciar um pouco para dar conta do caso, senão não consegue. Eu sei o meu limite. O dia que eu não estou bem e que vejo que o atendimento não vai ser bom, eu nem vou. Eu preciso estar inteira para o meu paciente.

 

P/1 – Você estabelece uma troca com os companheiros, colegas de trabalho?

 

R – Em supervisão e com minhas amigas. Eu não estou fazendo terapia aqui em São Paulo, coisa que minha supervisora falou que eu preciso fazer, porque é muito difícil; eu me envolvo mesmo. Tem pessoas que conseguem manter certa distância; eu, não. Sou muito afetiva. Eu não fiz porque eu não sei quanto tempo eu vou ficar aqui em São Paulo. Foi difícil largar a terapia no Rio, então iniciar um novo processo para depois ter que abandonar é difícil também. Não dá, também, porque eu fico aqui até às seis e meia ou sete horas, então eu troco com minhas amigas. Falo, choro...

 

P/1 – Você trabalhou com transplantes...

 

R – Na Cardiopatia geral, e agora no ambulatório do pronto-socorro. No ambulatório é mais trabalho, mas é outra dinâmica, é uma coisa rápida. O paciente chegou e a equipe tem que ser rápida...

 

P/1 – Tudo muito ágil...

 

R – Às vezes você faz um único atendimento, então tem que ver um monte de coisas. Não pode ficar uma coisa aberta de "amanhã eu volto." Você não sabe se quando você chegar o paciente vai estar lá. Às vezes ele vai para outro hospital, ou para cirurgia. Geralmente, é um atendimento diferente. Você tem que ser mais incisiva e investigar mais. No pronto-socorro eu vejo de tudo, o que é legal; eu não fico restrita a uma só área.

 

P/1 – Tem desde pessoas com casos graves até uma hipocondria simples?

 

R – Tem aquelas pessoas que chegam alienadas, não tem nada no coração, mas perdeu o filho, brigou com o marido... Chegam aqui muito ansiosas, com falta de ar, mas sem nenhuma afecção cardiológica. Eu vejo criança, adulto, idoso, válvula, coronariopata, tudo. O ambulatório é mais calmo, porque eu trabalho com agendamento; os pacientes agendam uma hora. Está mais perto da clínica. O ambulatório é em consultório, aqui em baixo, uma sala fechada.

 

P/1 – Tem uma espécie de triagem?

 

R – Eu só faço a triagem, não dou seguimento.

 

P/1 – No pronto-socorro você tem que atender muitos pacientes, e no trabalho, de forma geral, você pensa no clínico, no consultório, onde tem uma continuidade. Você faz uma sessão, depois outra, e o paciente pode ficar com você durante anos. No hospital não é isso. Como é essa questão do tempo?

 

R – Quando eu estava no transplante, eu sabia que o paciente ficava internado muito tempo. Existe uma previsão de alta, o médico comenta, você participa de reuniões médicas... Tem uma alta programada, então você sabe onde focar o atendimento. Existem algumas questões, você vai e trabalha aquilo; você sabe que tem começo, meio e fim. No pronto-socorro, não. Às vezes chego de manhã e pergunto para o médico: “O que vai acontecer com tal paciente?” “Não sei, depois que chegar o exame eu vejo.” Quando eu chego à tarde, o paciente não está mais lá: ou subiu, ou foi para a enfermaria, ou para um hospital auxiliar. Por isso que o tempo lá é precioso. Em uma entrevista, você tem que ver determinadas questões: aderência ao tratamento, histórico da doença, perspectivas... Tudo rápido.

 

P/1 – Uma questão metodológica que é política, também. Essa questão do multiprofissionalismo: como é que funciona no Incor? Qual a sua experiência na relação com médicos e com a equipe?

 

R – Tem uma equipe, mas, às vezes, você acaba trabalhando isoladamente e não tendo um trabalho tão integrado por conta da instituição... Do tempo, mesmo. Não é todo mundo que tem tempo para sentar, conversar, fazer uma reunião toda semana. Eu procuro muito os médicos para contar o que eu acho importante; não só o psicológico, também coisas mais graves. Eu procuro a assistente social, o residente, o assistente... Mas é um pouco difícil, não é um trabalho tão integrado.

 

P/1 – Você já participou de reuniões multiprofissionais?

 

R – Sempre participo. Não no pronto-socorro, porque a dinâmica é diferente, mas eu participava da reunião do transplante e da visita médica. A psicóloga contratada, que é a Juliana, participa. Às vezes ela coloca alguma coisa, os médicos perguntam...

 

P/1 – No instituto do transplante, isso é muito forte? Essa questão do multiprofissional.

 

R – Por um lado, sim. Porque precisa mesmo, uma avaliação psicológica, social, médica e tudo, mas é uma idéia nova.

 

P/1 – Os colegas seus do Rio, como que eles viram você nessa área? Como os profissionais da psicologia e os médicos... Como fica essa relação?

 

R – Muitas vezes, psicólogos – ou mesmo não psicólogos – dizem: "Mayra, o que você está fazendo em um hospital de cardiologia? Você é psicóloga hospitalar? O que você faz, terapia com o doente?" Muitos não sabem o que uma psicóloga pode fazer em um hospital. Mesmo em um seminário que a gente apresentou... A formação médica era muito boa para o corpo, para o físico e para tudo aquilo que você pode ver. Muitas vezes o médico não sabe como uma psicóloga e como a psicologia pode ajudar. Muitas vezes, também, o psicólogo não sabe o que oferecer, porque tem os moldes clínicos da faculdade. É difícil. Aqui no Incor é mais fácil, porque tem um serviço há 25 anos, e querendo os médicos ou não, tem a psicologia aqui em cada área. A Bellkiss é uma pessoa super forte, todo mundo conhece. Os assistentes, que são os médicos supervisores, sabem que aqui tem a psicologia, os residentes também sabem... Aqui é mais fácil, mas eu acho que lá fora não é.

 

P/1 – Disso decorre outra pergunta. Quais são suas perspectivas? O que você pretende?

 

R – Não sei. Eu estou aprendendo muito, às vezes me surpreendo com o que eu aprendo aqui, eu nem imagino o que é isso... Em termos de trabalho e de leitura eu estou vendo muita coisa aqui e acho que, de alguma maneira, isso vai estar me ajudando para alguma coisa – não sei para quê. Eu não sei se eu quero voltar para o Rio logo, no ano que vem, quando acabar. Não sei se eu quero ficar aqui, se vai ter alguma coisa, é meio difícil, é concurso... Aqui, no próprio Incor, é concurso quando abrem vagas, ou nos outros hospitais... Todo mundo sabe que tem psicologia hospitalar aqui em São Paulo. No Rio, isso que eu estou fazendo é uma coisa nova. Não tem ninguém que fez esse curso aqui. O Incor é um hospital de referência, você chega lá fora: “Está no Incor, é?” Não importa o que você faça, estar no Incor dá um currículo ótimo. Eu não sei o que eu pretendo, mas pretendo continuar na área de psicologia hospitalar. Os meus pais até brincam comigo: “Mayla, vai dar aula de inglês que você ganha muito mais.” A visão do Rio ainda é muito fechada, não sabe bem o que pedir de um psicólogo hospitalar. Eu tenho certeza que quando eu voltar para o Rio ou vou ter muita facilidade por conta da experiência que eu tive aqui, ou muita dificuldade, porque eu vou estar com outras expectativas.

 

P/1 – Vontade que tenha um serviço pronto...

 

R – Vontade de fazer um pouquinho do que eu aprendi aqui. Lógico que nunca vai ficar igual, aqui são 25 anos de história, outra estrutura e outro hospital, mas eu pretendo continuar nessa área.

 

P/1 – Você acha fundamental esse sistema de aprimoramento?

 

R – Fundamental. É imprescindível, eu acho, por conta da nossa formação acadêmica. Eu vejo amigas minhas do Rio... Um grupinho da pesquisa começou a se interessar por psicologia hospitalar, fizeram o curso comigo na Santa Casa, entraram em algumas clínicas e hoje, trocando algumas coisas, percebo o quanto estão perdidas. Se você entra sozinha propondo um trabalho, é difícil. A gente não tem cacife para isso. Se você entra em um lugar onde já tem uma psicóloga e uma supervisora que te oriente, é mais fácil. O aprimoramento é essencial, porque você estará fazendo isso. Além da teoria, você tem uma prática, supervisão, seminário, estudo de caso. Você estará se aperfeiçoando. Eu vejo que... Mesmo um trabalho que eu fiz na Santa Casa, que foi escolhido para o prêmio, agora, do congresso, está na lista da categoria Júnior – um trabalho que eu fiz sobre a retirada de útero no pré-operatório. Relendo o trabalho, me deu vontade de mudá-lo todo. Eu mudei algumas coisas da teoria, não da pesquisa, porque eu vejo que eu estou com outro olhar que o aprimoramento me propiciou. Um olhar muito mais maduro e crítico.

 

P/1 – Como é essa história da pesquisa? Você desenvolve uma pesquisa aqui, também?

 

R – É. O trabalho final, uma monografia.

 

P/1 – Que está girando em volta de quê?

 

R – A minha? É sobre mulher, eu gosto de mulher. Ginecologista, né? Eu estou fazendo um trabalho sobre expectativa de vida em mulheres cardiopatas após a menopausa.

 

P/1 – Como é que está sendo?

 

R – Ainda não está muito delimitado. Eu estou lendo e pesquisando bibliografia. Vi que eu vou trabalhar com entrevistas, que eu acho muito mais rico...

 

P/1 – É mais rico trabalhar com entrevistas?

 

R – É, semiestruturadas. Eu acho muito rico.   

 

P/1 – O que é uma entrevista semiestruturada?

 

R – A partir do levantamento biográfico, você estará identificando algumas questões e coisas importantes para serem perguntadas. Você monta o roteirinho com alguns tópicos. Não é com um questionário de sim ou não, mas também não é uma coisa totalmente aberta. É “semidirigida”.

 

P/1 – Mais ou menos o que a gente faz, um jornalismo... E esses prêmios?

 

R – São do Congresso – que estou indo hoje – Brasileiro de Psicologia Hospitalar. Dentro do congresso tem o prêmio da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar de incentivo à pesquisa em hospital. Tem a categoria sênior para quem está formado há algum tempo e a categoria júnior para recém-formados. Eu mandei o trabalho, sem o nome e a instituição, para uma banca examinadora. Ele foi julgado, recebeu uma nota e foi para as finalistas. Primeiro, segundo ou terceiro lugar, eu vou ver na hora.

 

P/1 – Premiação é legal porque é o reconhecimento do trabalho.

 

R – Eu já preparei slides... Essa oportunidade... Se eu estivesse no Rio, era um trabalho que se perderia. Era um trabalho para a conclusão do curso da faculdade, aliada à minha experiência na Santa Casa, em que eu fiz um trabalho conjunto.  Se eu estivesse no Rio, isso nunca ia passar pela cabeça: mandar o meu trabalho para um concurso, para esse congresso...

 

P/1 – De qualquer forma há, no Brasil, uma organização de classe... Quem trabalha com isso está se reunindo?

 

R – Há, mas no Rio as pessoas não se mostram. Eu estava com contato de pessoas da área e eu não via nada. Eu falava: “Cadê o povo do Rio, que não publica?" São Paulo é muito mais participativo, Belo Horizonte também. O povo se mostra e você sabe as referências. No Rio, eu não sei. Se eu voltar para o Rio, quais são as minhas referências? Vamos ver.

 

P/1 – Vou te fazer a última pergunta. O que você faz de lazer?

 

R – Lazer? Em São Paulo, não estou tendo muito. Eu estou investindo no aprimoramento, eu vim aqui para isso.

 

P/1 – Absorve bastante...

 

R – No Rio eu fazia outras coisas. Eu fazia cursos, dava aula, ia para a praia, subia montanha. Aqui, não. Às vezes, final de semana – quando eu não vou para o Rio –, eu fico: “Meu Deus, eu tenho que fazer isso.” Eu tenho seminário, trabalho de casa... Eu não estou tendo muito tempo, mas uma coisa que eu não abro mão é de leitura. Eu leio muito, e não só coisas relacionadas à área. Esse ano, as minhas irmãs – eu sou a mais velha – falam: “Você está uma nerd”, porque muda. Eu vou no shopping e o primeiro lugar que eu procuro é uma livraria.

 

P/1 – Não tem nenhuma psicóloga entre as suas irmãs?

 

R – Uma é pedagoga, e a mais nova quer fazer psicologia. Ela tem quinze anos. Esse ano a parte de lazer está um pouco comprometida, mas não me arrependo. Eu quero sugar o máximo daqui, porque aqui tem muito a oferecer.

 

P/1 – E mestrado?

 

R – Pretendo. Era um dos meus projetos para o Rio no ano que vem, mas em que tempo eu vou fazer o projeto de mestrado? Em que tempo eu vou para o Rio de Janeiro... Pensar em alguma coisa?

 

P/1 – Você mantém contato com aquela sua professora?

 

R – Sim, mas ela é só da graduação. Ser ex-aluna da PUC conta, mas é difícil. Tem que fazer a prova, escrever um projeto... Eu nem sei se o pessoal do serviço me liberaria e se eu teria tempo e disponibilidade para fazer tudo isso.

 

P/1 – É um trabalho longo.

 

R – São pacientes, supervisão... Agora que os seminários acabaram, estudo de caso, que é difícil.

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