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História

Honestidade é tudo

História de: Antônio Alves Rolim
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/04/2022

Sinopse

Trabalho na roça desde pequeno. Nadar no rio. A morte do pai e a responsabilidade da família. Seca no sertão do Ceará em 1970. Criação de animais. Eleição para prefeito em Solonópole. Sem auxílio do governo nos períodos de seca. Como lidavam com a seca. Notícias pelo rádio. Alistamento no exército.Servir o Brasil como possibilidade de uma garantia de vida. Vinda para SP. Morando com a irmã em uma comunidade. Mudança pra São Miguel Paulista Trabalho na padaria do português. Cartas com dinheiro para a mãe. Compra de um terreno em São Miguel. Curso de Cozinheiro. Trabalho na Biogalênica pela Ciba-Geigy Cozinha industrial. 2 empregos. Aprender a fazer pão. Primeira ligação telefônica. Precisa mudar o regime. Primeira eleição em 1982. Supletivo. Bar. Compra do terreno no Embu das Artes e troca pela casa no Taboão da Serra. Venda do bar “O Rei do Mocoto". Atendimento ao cliente. Abertura da Casa do Norte. Casamento e filhos. Troca da Caravan pelo Voyage e trabalho no táxi. Troca dos pontos de táxi para Pinheiros. Tentativa de volta para o Ceará. Reflexões acerca da migração nordestina.

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História completa

P/1 - Sr. Antônio, obrigada por estar aqui! Qual é o seu nome completo, que cidade o sr. nasceu e que dia que foi, por favor?

 

R - Eu me chamo Antônio Alves Rolim, nasci em 09/03/1962, na cidade de Solonópole, Ceará.

 

P/1 - O senhor nasceu em hospital ou em casa?

 

R - Em casa.

 

P/1 - Como é que foi, contaram para o senhor?

 

R - A minha mãe contou, foi dificílimo, inclusive na noite que eu nasci, nasceram 9 na comunidade, só sobreviveu eu, morreu 8. A minha mãe era super apavorada, porque uma criança que não tinha muita saúde, mas…que ia morrer também, mas o meu pai sempre falava: não, Deus não quer, ele vai sobreviver. E estou aqui hoje!

 

P/1 - Os outros 8 morreram no parto ou depois?

 

R - Morreram todos, parto e logo em seguida, poucos dias de vida. Todos conhecidos, até tinha parentes próximos. Todos foram em casa também o parto, todos. Inclusive a parteira que cuidou da minha mãe, ela tinha cuidado de 3 ou 4, depois correu para cuidar de outros, foi uma noite muito turbulenta.

 

P/1 - E o pessoal da cidade falava o que sobre isso?

 

R - Os comentários… naquela época não tinha muita gente, eram povoados, a gente morava no sítio, mas aí… segundo a minha mãe, o pessoal contava que era um milagre, tinha aquela história de milagre, como hoje ainda tem, mas é menos, naquela época você acreditava muito. E o meu pai era muito católico, muito religioso, meu pai conhecia a bíblia como ninguém, então ele tinha muita fé.

 

P/1 - E eles escolheram o seu nome por quê?

 

R - Porque é um nome bíblico. Então, em função disso, ele escolheu esse nome.

 

P/1 - Qual é o nome do seu pai, da sua mãe?

 

R - O nome da minha mãe é Josefa Maria Rolim e o do meu pai é Moises de Souza Rolim.

 

P/1 - E a família da sua mãe é de onde, o que eles faziam?

 

R - A família da minha mãe não é da cidade onde eu nasci, é de outra cidade, chama Piquet Carneiro, meu pai que era dessa cidade, então eles casaram… meu pai quando casou com a minha mãe, era viúvo, já tinha casado uma vez, faleceu muito cedo a esposa dele, ficou 6 filhos da primeira família e da segunda família nós somos em 9, 15 o total de irmãos, mas tem 4 falecidos.

 

P/1 - E fazia o que a família do seu pai, da sua mãe?

 

R - Todos agricultor

 

P/1 - E plantava o que?

 

R - Milho, feijão, arroz, tudo que você comia era produzido no sítio. Frutas também tinha muitas. Só que naquela época era tudo muito difícil, porque não tinha ajuda do governo, não tinha auxílio. Por exemplo, meu pai não era aposentado. E havia muita seca, então era sofrido em função disso, tinha anos que você passava dificuldade porque tirava poucos legumes, às vezes, não dava para o ano, então era difícil, mas sobrevivemos, meu pai foi um guerreiro.

 

P/1 - Vocês plantavam para vender ou só para vocês?

 

R - Só para o consumo! A única coisa que se vendia naquela época era o algodão. Inclusive, o algodão era chamado de ouro branco, não sei se você sabe disso, mas no nordeste era chamado de ouro branco, porque tinha muito valor. E quando o inverno era bom, produzia-se muito algodão, você colhia, no final da safra você vendia, aí que você comprava tecido para fazer roupa, era ouro branco, chamava ouro branco, era bem valorizado na época o algodão, era a salvação.

 

P/1 - Você nasceu, já tinha irmãos antes, como que é essa escadinhas?

 

R - Tinha! Posso começar dos primeiros? O primeiro foi a Toninha, o segundo foi o Afonso, terceiro foi o João, quarto Esmeralda, quinto Eleonor, não, quarto a Chichica, eu sou o terceiro, o José que é o segundo e a Mariquinha é a primeira, que é a caçula.

 

P/1 - Quando o senhor nasceu já tinha um monte de gente em casa, então?

 

R - Já tinha!

 

P/1 - Quais são as suas primeiras lembranças da infância?

 

R - Eu lembro bem das… porque naquela época tinha muita liberdade, tomar banho de rio, o pai ensinar a gente a nadar, porque lá todo mundo sabe nadar, porque é até necessário, então a vida da gente era essa, era brincar. Mas trabalhava, ele levava a gente para a roça, mesmo que você não trabalhasse, você ficava lá na sombra, a gente muito pequeno, principalmente eu e o Zé, que era os caçulas, os 2 mais velhos que era o João e o Afonso, já trabalhava com ele, mas a gente ficava lá na cabaça d'água para, tipo, como se diz, pastoreando, a gente muito pequeno, essas são as primeiras lembranças. Depois você já começa trabalhar, cedo, tinha umas enxadas pequenininhas que passava para os menores, que era a gente, já ensinando a trabalhar, então o início da vida foi essa, trabalhar na roça.

 

P/1 - Começava trabalhando com que idade?

 

R - Acho que eu comecei com uns 6 anos, já trabalhava, plantava. Por exemplo, o pai ensinava, o feijão tinha que ser 2 caroços, o milho 4 caroços e assim por diante, ele ensinava. Então os mais velhos ia cavando a cova, fala cavar cova, e os mais novos plantando. Tipo eu, por exemplo, eu ia semeando, e aquele menor que era o Zé e a Mariquinha, que era a caçula, ia enterrando, ele ensinava a quantidade de terra que tinha que colocar, então era isso.

 

7:53 P/1 - E vocês brincavam muito, Sr. Antônio, do que vocês brincavam?

 

R - Era no rio, porque quando o rio estava cheio, era uma maravilha, quando ele estava seco, ficava muitos bancos de areia, então a gente brincava de pular naqueles bancos de areia enorme, que não machuca, a brincadeira era essa. E futebol, o futebol começava cedo também, molecada fazia os campos nos bachis, que onda passa o rio fica muito baixo, não é pântano porque é seco, mas bem plaino, aí era onde a gente brincava, não tem pedra, não machucava, então a brincadeira era essa. Correr, por exemplo, juntava aquele monte de moleque, ver quem corre mais, essas eram as brincadeiras, não tinha… os carrinhos a gente fabricava, tem uma madeira lá que chama pião, então como ele cresce bem redondo, a gente fazia as rodas, era uma madeira bem molinha, então a gente que fazia, o pai ensinava, eu aprendi muito com o meu pai porque ele ensinava. Meu pai mexia com muita madeira, inclusive ele tem até… até esqueci de mostrar para ela, depois vou mandar uma foto, eu tinha 15 anos mais ou menos, quando ele morreu eu tinha 13, aí ele ensinava como é que fazia alguma coisa, eu aprendi assim. E aí quando ele morreu, essa ferramenta eu usei, até ganhei dinheiro, não era muito dinheiro, mas tem obras até hoje lá que eu fiz, tamborete, cruz, quando o cara falece coloca-se uma cruz no local que ele faleceu, fia muitas, até hoje tem, bem trabalhada, então eu usei muito isso, ganhei um dinheirinho, fazia muita coisa. Não tinha muito tempo, eu fazia isso sábado, domingo, depois que o pai morreu então, aí trabalhei muito mesmo, porque aí… o pai ensinava, como os mais velhos saíram muito cedo, sei lá, acho que ele sentia, ele sempre falava, “na minha falta, você é homem, vai ser o dono da casa”, então essa responsabilidade eu peguei muito cedo. A gente que cuidava de tudo, eu e minha mãe. Tinha a Eleonor que era mais velha, a Chichica que era mais velha que eu, mas eu que comandava, porque lá no nordeste é isso, o homem da casa quem manda, tem aquele machismo, hoje mudou muito, mas naquela época era o homem que mandava, então ele ensinava isso. E tanto que quando as minhas irmãs queriam começar a namorar, tinha que falar comigo, leva o rapaz para apresentar pra mim e pra minha mãe. Foi muito engraçado, a caçula, até hoje ela fala que eu não deixei ela casar com o rapaz que ela amava, e muito engraçado quando a gente se encontra, ela até hoje fala isso, a gente dá muita risada. E eu falo, “mas foi para o seu bem”. Realmente o cara não é de bom caráter, esse cara assassinou um rapaz lá e foi embora, hoje ele mora no Pará. Falei: foi por uma boa razão. Mas até hoje tem essa brincadeira, é muito engraçado. E tem um tio da minha mãe, primo legítimo, chamava Toroca, que ele era da idade da minha mãe, então eu comecei a ficar mais com ele, ele ensinar as coisas, tudo que acontecia, “não Toninho, tem que ser assim”, porque a gente tinha 5 pessoas lá e não tinha pai. E naquela época, quando morria alguém, “vocês vão passar fome”, porque era difícil mesmo. Mas graças a Deus… passamos necessidade, mas fome não! Mas trabalhava muito, depois que o pai morreu então, a gente se dedicou mesmo, essas minhas irmãs, tinha uma meio preguiçosa, mas tinha que ir para a roça.

 

P/1 - Seu pai morreu do que?

 

R - Meu pai morreu, na época lá era um nó na tripa, mas isso dá-se o nome de vólvulo do intestino, se fosse hoje não morreria, porque tem cirurgia, mas naquela época. Ele morreu muito rápido, adoeceu à tarde, no dia seguinte, ficou a noite no hospital, numa cidade que chama Senador Pompeu, que é bem distante, era onde tinha médico, na cidadezinha próxima não tinha. Que na verdade na época não era nem cidade, hoje tem hospital, então até chegar lá de carro, aí já chegou tarde, morreu cedo, na madrugada ele já faleceu.

 

P/1 - Ele tinha quantos anos?

 

R - Meu pai morreu tinha 74 anos. Ele morreu 14 de agosto de 1975.

 

13:02 P/1 - Vocês tinham a ideia de estudar?

 

R - Meu pai era fã de estudo e ele era muito sábio, para você ter ideia, naquela época, hoje eu faço essa dificuldade, meu pai falava: filho, no futuro você precisa falar pelo menos 2 línguas, olha só! Hoje, às vezes eu pego pessoas de outros países e eu não falo, eu já entendo alguma coisa, com a convivência. Eu não sei falar, mas entendo até razoável, muitas coisas eu sei me virar. E ele já tinha isso, outra coisa que ele falava, “filho, se um dia você tiver filho, não pense em deixar dinheiro, de educação”. Ele era sábio, ele era fanático… Só que a gente era muito pobre, e naquela época não tinha ônibus para levar para a escola, era tudo a pé, tudo distante. Eu na verdade, enquanto meu pai foi vivo, eu lembro pouco que eu estudei, por exemplo, às vezes estudava 2 dias na semana, a professora chamava até Julia, chamava até tia Julia. “A tia Júlia vai dar aula hoje”, então teve essa dificuldade, que era longe, eu vim estudar um pouco aqui, quando eu vim para cá. Aí depois que ele morreu também, estudei um pouco lá, mas não foi muito não, era trabalhar, por causa dessa dificuldade que era longe a escola, na verdade não era nem todos os dias que ela dava aula, eu lembro muito bem, mas era acho que 2 dias por semana, ou 3, um negócio assim, “a Julia vai dar aula”, aí juntava aquele monte de moleque e ia a pé, para estudar. Era muito difícil as coisas.

 

P/1 - Como era o dia a dia no sítio?

 

R - Acordava sempre cedo, até hoje acorda muito cedo, era por volta de 5h da manhã já estava acordado, aí a mãe já tinha feito a merenda, fala merenda, a merenda lá não é café, de manhã você já come comida, o arroz feito já, ou o mugunzá, que chama mugunzá, aqui chama de canjica, mas lá é mungunzá, aí já tinha, com leite. Meu pai levantava até primeiro que a gente para tirar os leites das vacas, ele tinha um gadinho, e aí comia com mungunzá e rapadura, rapadura também fabricada no sítio, então era tudo natural. Aí merendava e ia para roça cedo, 6h da manhã já estava no caminho da roça. E sempre longe, porque a terra lá é longe, assim, às vezes dependendo da roça que você vai, era bem distante, tem que andar 2, 3km a pé, então ele ia com aquela fileira de moleque, uns na frente correndo, outros atrás. E ele chegava lá, trabalhava até umas 11h, aí vinha para casa, almoçava, aí a tarde novamente voltava. Só voltava de tardezinha, depois que o sol estava quase se escondendo e que a gente voltava para casa. Eu trabalhava muito, puxado, muitas horas de trabalho. E como a escola era difícil, longe, a gente… no início de vida mesmo, a gente estudava pouco, e tinha que aprender alguma coisa, porque era muito difícil, não tinha esse negócio de todo dia, “tal hora tem aula”, não, e era longe.

 

P/1 - Quando vocês chegavam em casa, o que vocês faziam?

 

R - Corria para esse baixio para brincar até escurecer, enquanto tinha dia, estava sempre no baixio. É muito perto de casa, tem até foto da casa lá, ela está assim no morro, aí o rio passa bem próximo mesmo. E tanto que de lá minha mãe gritava, a gente escutava, para voltar para casa, tava na hora de ir para casa.

 

P/1 - E quando vocês chegavam em casa tinha energia elétrica?

 

R - Não, era tudo lamparina, não existia energia elétrica. A energia elétrica chegou lá bem depois, eu já estava aqui. Um projeto que chamava projeto São José, a energia chegou lá no início do primeiro mandato do Fernando Henrique Cardoso, foi quando chegou energia lá. Minha mãe era uma das coordenadoras desse projeto, chamava projeto São José, eu não sei explicar direito, mas eu lembro bem que ele falava, mas eu já estava aqui quando chegou. Quando eu voltei pra passear lá, depois de alguns anos, aí que tinha energia. Mas era lamparina, era o querosene, você comprava com a venda do algodão, comprava querosene para o ano, já sabia mais ou menos quanto gastava, vinha aquelas latas de 18 litros, até tinha foto do jacaré, aí meu pai comprava, eu não lembro assim a quantidade, mas era 3, 4 latas de querosene e aquilo ficava armazenado, olha o perigo, né? Hoje… mas nunca aconteceu nada. Armazenado para o ano.

 

P/1 - Vocês contavam histórias antes de dormir?

 

R - Meu pai era muito contador de histórias, eu não lembro bem das histórias, mas eu lembro bem que ele ficava sempre contando para a gente dormir.

 

P/1 - Era história sobre o que?

 

R - Só de antiguidades, de assombração. Lá tinha muito essas histórias de assombração. E aí, é engraçado que a gente tudo pequeno tinha medo, você deitava na rede e ficava quietinho e dormia rápido, que também estava cansado, mas eu lembro bem, muita história de assombração. Até hoje a gente brinca com essas histórias.

 

P/1 - Tem alguma coisa que você se lembra?

 

R - Lá chama de visagem, alma penada, eles chamam de visagem. Eu lembro bem de uma história que ele contava, que o fulano ia para casa de outro lá, aí encontrava com essa alma penada, uma visagem, e aí essa visagem tentava pegar esse cara e aí ele saia correndo, gritando, eu não lembro dos detalhes, mas as histórias era mais ou menos assim, sempre para assustar. E tinha várias, o cara ia andando, de repente, encontra com a bola de fogo, coisa desse tipo, outros contavam umas que às vezes os cara estava na cruz, de braços abertos, então tudo isso era assustador, tinha muito medo. Essas eram as histórias mais ou menos que eu lembro assim que ele contava, mas ligado à essas história de visagem.

 

P/1 - E teve alguma história que te marcou, alguma coisa que aconteceu como você ou com a sua família?

 

R - Antes da morte do meu pai, ou pós morte dele?

 

P/1 - Antes do senhor vim para cá.

 

R - Antes da morte dele, eu lembro da seca do 70, no Ceará, quase nem pingou, a gente não tirou nada de legumes, eu nasci em 62, eu tinha 8 anos de idade, essa eu lembro bem, porque marcou muito. A gente saia, meu pai a cavalo, meu pai era muito ligado a mim, não sei se era porque eu gostava muito de andar com ele, aonde ele ia ele, me levava, se fosse para a cidade, fosse para qualquer lugar. Então, a seca de 70 marcou muito, porque não tiramos nada. A gente ia buscar um milho, chamava milho da Cobal, era um milho do caroço bem graúdo, a gente ia buscar numa cidade chamada, na verdade era um povoado, hoje é uma cidadezinha, chama Ibicuã, passava o trem cargueiro, e aí meu pai trazia 2 sacos de milho, um de cada lado do animal e eu vinha no meio da cangaia, chama cangaia. Ele a cavalo, tocando aquele… e era milho fedido, rapaz! Aí o que a minha mãe fazia, colocava de molho, a gente moía naquele moinho, aquilo pesa, mas era um monte de moleque. Aí moía aquilo, aí minha mãe fazia o pão e com o leite da vaca, a gente comia aquilo lá. A comida era basicamente isso, porque não tinha o milho, não tinha o arroz, então era basicamente o pão com o leite, ainda bem que tinha um pouco de leite, era a salvação. Então essa seca de 70 marcou muito. Aí engraçado que eu lembro que tinha um senhor vendendo um terreno, no 70, inclusive eles foram embora para o Pará no 70, um terreno grande, um terreno bom, a nossa terra não era muito, porque o meu pai herdou essa terra da primeira mulher que ele casou, dividido por 3 herdeiros. Só que as outras 2 famílias, era bem maior que a do meu pai, para você ter ideia, então eles que comandavam, chamava até de tio Medeiros e tio Afonso, que os dois eram irmãos, que era irmão da falecida, primeira esposa do meu pai. Então eles que comandavam, meu pai aceitava tudo, meu pai era um cara, ele falava que só precisava de 7 palmos de terra, e é a pura verdade. Aí eles comandavam, então a gente sempre tinha menos coisas, menos terra, porque aquilo lá não era dividido, tirava um pedaço para o fulano, um pedaço para o Medeiros que era a maior parte, o tio Afonso e para o meu pai vinha a menor parte. Aí isso aí me marcou muito no 70, que esse senhor estava vendendo o terreno, ele chamava Joaquim do fechado, nunca esqueço. Aí o meu pai parou na casa dele, para descansar um pouco, normalmente se oferecia uma água, um café, e aí o velho Joaquim que estava vendendo o terreno, falou para o meu pai, que tava vendendo o terreno, que ia embora para o Pará, se ele não queria comprar. Aí meu pai falou assim: eu não tenho condições de comprar o terreno. Ele falou: Moisés é 7 mil cruzeiros o terreno. Isso aí me marcou muito, aí o meu pai falou assim: não, mas eu não posso, eu não tenho condição, não tenho esse dinheiro. “Seu Moisés, eu facilito a venda do terreno”. Mas meu pai não fazia dívida. Aí quando a gente saiu, eu falei assim: pai, por que o senhor não dá um jeito e compra esse terreno? “Não filho, pelo amor de Deus, é muito dinheiro”. Aí eu falei assim: "um dia eu vou comprar esse terreno pai”. Esse terreno hoje é meu. Eu vim para cá com o intuito de ganhar dinheiro e comprar esse terreno, esse terreno hoje lá é meu, na verdade não é mais meu porque eu vendi, assim, enquanto eu não receber o dinheiro, eu vendi para receber a metade agora em julho e a outra metade em 2 vezes, são 97 hectares, é um terreno grande, terreno bom. Luís sabe que eu sempre viajei para lá e sempre cuidei, mas na verdade eu nunca tive lucro e que com terra você não perde, mas eu sempre investi, coloquei na mão de pessoas que nunca deu certo, aí por isso que eu fui esse 2 anos para lá, para cuidar um pouco e aí resolvi vender.

 

P/2 - Como que era na casa, todos dormiam em rede? Como era essa casa e a sua mãe?

 

R - Todos em rede, não existia cama, todos em rede. Casa bem grande, inclusive eu trouxe uma foto, depois eu vou mandar para ela, foto da casa, então todos dormiam… a casa lá acho que são 3 quartos grandes, uma sala grande, despensa, cozinha grande, lá chama alpendre, aqui dá-se o nome de área, lá é alpendre, são tudo grande, casa enorme, então todos dormiam na rede, tudo pertinho, tinha os armador. E a minha mãe cuidava da casa, administrava o pouco que tinha, colocar no pilão para a gente compilar o arroz, que era tudo… não tinha máquina naquela época, era tudo socado no pilão, pilava-se o arroz no dia anterior, para no dia seguinte ter aquele arroz pilado, o mungunzá a mesma coisa, ela colocava de molho, a gente soca ele no pilão, ela limpava, e cozinhava sempre para o dia seguinte, então essa era a o obrigação… A mãe fazia isso, cuidava das galinhas, porque tinha muita. Normalmente era o almoço de domingo. Carne só se comia no domingo, matava uma galinha e a minha mãe dividia, era tudo dividido, que era muita gente, não dava para fazer milagre, mas dava para dividir para todo mundo, aquilo ali era uma festa. Então isso era serviço da mãe, cuidar dos porcos, que tinha muito porco também, sítio tem que ter tudo, de tudo um pouco, o pai tinha o cuidado, de ter de tudo. Tinha bode, por exemplo, meu pai sempre gostou de criar bode, de vez em quando matava um, quando tava com para comer, Nunca era vendido, ele nunca vendeu um bicho, por exemplo, “vou vender esse”, não, tudo matava para comer, era o consumo, carne era assim. Mas como era muita gente, matava-se um bode, ele dava 10, 12 quilos, não dava para muita coisa, rapidinho acaba, aí tem que esperar. Mas como bode é uma coisa que aumenta bastante, sempre tinha aquele animal para abater para a gente se alimentar. Então o serviço da minha mãe era esse, cuidar da casa e já era muito serviço; lavar roupa. Naquela época não tinha água encanada, tinha que ir para o açude, tem umas bacias enormes, aí colocava a roupa dentro, ia lá, lavava, torcia lá um pouco, aí chegava e estendia. Tuco na cabeça, era o serviço da mãe, era cuidar da casa, da comida, você chegava, a comida estava pronta. E ela era sozinha, porque todo mundo ia para a roça, as meninas também, não tinha esse negócio de ficar em casa, era todo mundo na roça, ela ficava sozinha, para cuidar da casa, da comida, dos bichos.

 

P/2 - Falavam de política, prefeito, como é que era isso, você lembra disso?

 

R - Eu lembro. O papai falava muito da política, ele era bem politizado. Lembro bem que ele falava muito de Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas, dava uns exemplos… detalhe eu não lembro, mas eu lembro que ele falava muito da política. E aí eu lembro quando surgiu, eu não lembro em que ano, eu era muito menino, o prefeito da cidade que foi eleito, que chamava Edmundo, na cidade de Solonópole. Aí eu lembro bem dessa campanha, porque aí passava aqueles caminhões com um monte de gente, gritando o nome do fulano, chamavam de comício, aí se reunia em algum lugar, “na casa do fulano de tal vai ter um comício, aquilo ali se tornava uma festa pra mim, era uma brincadeira, mas eu não entendia nada. Mas eu lembro bem… uma das primeiras que vem à lembrança. Aí depois vem um prefeito, também dessa cidade, que chamava Azimiro, esse eu lembro bem, aí já lembro mais de detalhes, até eu ia no caminhão, fazia campanha, porque ali os pais falavam, “a gente vai ter que votar, colocava a foto do candidato na porta, então se passasse outro, já sabia que aquela família voltava no fulano de tal, votava em Azimiro, por exemplo. Eu lembro bem do Azimiro, eu não votava, mas a família, quem já votava tinha que votar, então esse detalhe eu já lembro bem. E aí depois veio outros, mas aí eu vim para cá, foi também quando essa cidade virou… hoje onde eu moro já é outra cidade, era um povoado, foi crescendo, aí virou cidade que chama Irapuan Pinheiro. Lembro quando eu estava aqui, foi eleito fulano de tal para cidade de Irapuan Pinheiro, que acho que o primeiro prefeito para a cidade chamava Edinho, esse cara é falecido, foi o primeiro prefeito de lá. Aí depois veio outro, veio uma prefeita que chamava Francisca e aí, esses atuais aí, esse agora eu não lembro.

 

P/1 - Quando tinha essas secas, esse milho vinha do governo?

 

R - Então, boa pergunta. Até hoje, perguntei para algumas pessoas, até uma irmã mais velha que eu tenho lá, ela fez 90 anos agora pouco. Se esse milho era dado ou era comprado, esse detalhe eu não lembro. Eu sei que passava o trem, o trem parava na estação, era um trem cargueiro, e aí tinha um monte de gente, um monte de homem para descarregar aquele trem, e aí eu lembro bem do milho que era colocado no animal que o meu pai levava, um saco de cada lado, que chama caçuá, mas eu não lembro se o meu pai pagava esse milho, ou se era de graça, você entendeu, esse detalhe eu não lembro. Sei que chamava milho da Cobal, o governo que mandava, agora eu não sei se era governo federal ou estadual, mas era mandado pelo governo.

 

P/1 - E quando tinha muita seca você lembra se o governo ajudava com caminhão pipa?

 

R - Não tinha nada de ajuda do governo, não tinha auxílio nenhum. Nessa época o meu pai, por exemplo, não sei porquê, porque idade ele já tinha, mas o meu pai não era aposentado. Não tinha ajuda de governo, tinha que se virar. Água, se cavava cacimba nesse rio que eu estou te falando, e ia aprofundando e tirava água dali. Levava para casa ou no galão, 2 latas de 18 litros, ou no jumento, chamava ancoreta, que era feito de pneu de carro. E aí colocava uma do lado uma do outro do jumento e levava, tirava da cacimba, não tinha água com abundância, era uma cacimba, você ia tirando, ela ia secando, tinha que esperar um pouquinho, a água vinha de novo, não secava totalmente, mas não era aquela água com abundância, até você encher as latas, as ancoretas e levar para casa. Aí nessa época, a minha mãe tinha que se locomover para mais distante, porque aqueles açudes pequenos secavam, que tem um monte de açude em volta de casa, mas são açudes pequenos que se tiver 2 anos de seca, ele não dura um ano ou outro, ele seca. Aí chama até Monte Ararate, essa fazenda lá, tem um açude enorme, aí a minha mãe ia a pé, era longe pra caramba, era não, é longe. Ia a pé lavar aquela roupa, para trazer para casa, porque não tinha água perto, a água perto da cacimba, só dava para beber e cozinhar. Para os bichos também era uma dificuldade, porque aí tinha que cavar uma valeta enorme naquele rio. Eu lembro que juntava aquele monte de homem para cavar e toda semana tinha que ser aprofundado, e a água ia ficando mais escassa. Então chegava no final de dezembro, janeiro, normalmente o inverno lá começa em janeiro, mas nem sempre, as vezes atrasava, aí lembro que naquela época de janeiro tava bem profundo, era um trabalho danado, aquele monte de homem, com um monte de jumento, uns colocando a areia, tirando e colocando para fora, ficava aquele monte de areia lá fora, esse detalhe eu lembro bem, era dificultoso. Aí aqueles bichos vinham beber, cada um tinha que fazer a sua fila, por exemplo, vem os bichos de Medeiros, primeiro ele, sempre primeiro ele, depois o Afonso, nós era sempre o último, porque não podia juntar todos os bichos ali, se não… não comportava, aí o bicho… imagina aquela seca enorme, muito quente, aí o bicho tem sede, chega desesperado para beber, então tinha que ser por ordem, esses detalhes assim marcam bastante, aquelas dificuldades. E fazia muita seca, tinha ano que chovia mais, outro chovia menos, o 70, por exemplo, como eu te falei, não choveu praticamente nada, foi um ano sem chuva, esse foi o mais difícil, porque lá, o nordeste quando chove é muito bom, produz de tudo, mas sem chuva é difícil. E aí tem esses períodos assim. Eu lembro que o meu pai falava que ano par chovia mais e o ano impar… mas você vê que não era bem assim, porque no 70 é para e não pingou, mas sempre tinha aquela esperança no ano par, eu lembro de 74, por exemplo, foi um ano antes de papai morrer, choveu, acho que foi um dos anos que mais choveu no Ceará, para você ter ideia, a cidade de Iguatu foi inundada com a represa do Orós, Orós você já ouviu falar? Um açude enorme foi construído por Juscelino Kubitschek. A represa para você ter ideia, nessa época foi aberta todas as comportas e quase… ela inundou Iguatu, eu lembro do desespero do povo, os comentários, na época era rádio, era noticiado no rádio, não tinha televisão. Eu vim ver televisão nem lembro o ano, mas foi bem depois.

 

P/1 - Vocês tiveram rádio?

 

R - Era rádio, até hoje tem esse rádio lá em casa, aqueles antigos, chamava rádio semp, meio arredondado, então era tudo no rádio, todas as notícias eram no rádio. Por exemplo, a copa de 70, lembro bem, que o meu pai ficava com o ouvido no rádio, a gravação ficou no meu ouvido até hoje, “Pelé, Pelé”, e acabou que o Brasil foi campeão. Eu não entendia muito, tinha 8 anos, mas a gente ficava em volta do pai e ele fazia os comentários do Brasil jogando futebol, tudo no rádio, não tinha televisão.

 

P/1 - Vocês tinham algum time de coração, ídolo?

 

R - Não, não tinha, era só o Pelé. Naquela época o futebol não era tão… pelo menos lá, aqui com certeza era diferente, mas lá a gente não sabia, só era copa do mundo, o Brasil vai jogar, isso eu lembro bem.

 

P/1 - E qual música você ouviam?

 

R - Era o Zé Béttio.

 

P/1 - Quem é esse homem?

 

R - Zé Béttio foi um locutor famoso. E lá pegava muito bem, que essa rádio… não sei se na época, era aqui, mas essa rádio era a 9 de julho, eu não sei se ainda está na 9 de julho, que chamava rádio, tem um nome, rádio Capital, se eu não estou enganado, na época já chamava Rádio Capital. E esse Zé Bettio fazia o programa, meu pai ligava o rádio para tirar o leite das vacas, a gente acordava já com aquela música no ouvido. Era o Zé Béttio, “água nele”, era muito engraçado, isso marcou bastante, era tudo no rádio. De manhã cedo era esse programa e na hora do almoço, quando a gente vinha almoçar, aí tinha moda de viola, que era os violeiros, os repentistas, a gente escutava… meu pai escutava muito aquilo. E tanto que hoje eu gosto muito de viola, acho que por causa disso, meu pai adorava aqueles violeiros tocando viola, tinha uns caras que tocavam muito bem. Eu não entendia bem, mas você via que o cara fazia a música na viola e aí fazia os repentes, aqueles repentes feitos na hora, até hoje tem, hoje é mais raro, mas ainda existe, aqueles repentistas, tem uns famosos, que nem Louro Branco, por exemplo. O Louro Branco  nasceu onde o meu pai nasceu, bem próximo, que chama Jaguaribe, meu pai nasceu em Poeira de Jaguaribe, até hoje eu tinha foto da casa do meu vô, por parte do meu pai, até procurei, mas não encontrei.

 

P/1 - Vocês ouviam notícia do que estava acontecendo no Ceará?

 

R - A Voz do Brasil. Não existia jornal, por exemplo. Eu lembro que era a Voz do Brasil, o pai até colocava a gente para escutar, meu pai escutava todo dia. E tanto que hoje, por exemplo, eu indo para casa, eu ainda coloco, você sabe que é uma das melhores notícias, quase ninguém escuta, mas se você quiser saber se algum deputado está com projeto bom, trabalhando, ou senador, se você escutar a Voz do Brasil, você sabe aquele cara que está com um projeto ali. Meu pai escutava muito, todo dia.

 

P/1 - Você se lembra de alguma notícia, que ficou na sua cabeça, ou que ele falou para você?

 

R - Que marcou mesmo não lembro. Se puxar na memória, talvez.

 

P/1 - Esse programa era como?

 

R - O locutor falava sobre o Brasil inteiro, por exemplo, a fundação de Brasília, aí eu lembro bem, isso já depois, porque eu lembro que o meu pai falava que era no Rio de Janeiro onde ficava o governo, e aí eu lembro que depois ele começou a falar que tinha mudado para Brasília, isso aí me marcou bastante. Como eu falei para você que ele era muito ligado à política, tava sempre tentando saber das coisas, aí eu comecei a lembrar quando ele falava, “o governo federal agora é em Brasília, filho, mudou, construíram uma cidade para o governo”. Falava assim, então isso eu lembro bem, é uma das notícias assim… Depois já se falava mais da cidade, eu lembro de algumas notícias, não assim os detalhes da notícia, mas de falar de Brasília, isso aí marcou bastante. Como ele escutava bastante, aí ele falava, que tinha mudado para Brasília, “Governo Federal mudou para Brasília, filho".

 

P/1 - Antes do senhor mudar para cá, já tinha visto um militar, um policial?

 

R - Eu lembro bem que lá não tinha polícia, por exemplo, nesse povoado tinha um delegado, nomeado por alguém, que eu não lembro quem. Eu lembro que o meu pai falava: filho, o delegado agora… lá não falava povoado, lá fala…sei que ele dava um nomezinho, da vila, sei lá, tipo Betânia, por exemplo, essa Betânia hoje é uma vila que é do município de Irapuan Pinheiro, que na época era tudo muito pequeno, aí nomeava, tinha um delegado para aquela cidade, para aquele povoado. Então Irapuan que hoje é cidade, chamava São Bernardo, tinha o delegado fulano e na Betânia tinha o delegado cicrano, era delegado, só que eu não lembro de ver polícia em volta desse delegado. Eu lembro do delegado, que às vezes ele até passava em casa a cavalo, mais era cavalo, mas eu não lembro se tinha alguém com ele, eu lembro dele só. Quando veio aparecer polícia, isso foi bem depois já, já era mais grandinho, meu pai já tinha morrido, mas antes dele morrer eu lembro só do delegado.

 

P/1 - E ele era respeitado, era temido?

 

R - Respeitadíssimo, o que ele falasse na cidade estava falado.

 

P/1 - Andava armado?

 

R - Andava armado. Ele tinha muito contato com o padre. O padre era fulano de tal do povoado, então ele tinha muito contato, os dois, entre o padre e o delegado, então tinha aquilo, isso eu lembro bem até. O delegado e o padre às vezes até almoçavam junto, por exemplo, na cada do fulano. Mas sempre só.

 

P/1 - Você ficou lá quanto tempo depois que seu pai morreu?

 

R - Eu fiquei lá até os 18, mais 5 anos. Na verdade, eu vim para cá… eu me alistei no exército, tinha vontade danada de servir o exército, porque tinha aquele negócio… eu tinha vontade de servir o exército, aí eu fui dispensado, está escrito, excesso de contingência. Aí eu me alistei, vim para cá, eu vim até com um tio meu, não tinha documento.

 

P/1 - Não tinha RG?

 

R - Não tinha! O RG eu fiz quando eu tirei meu certificado de reservista. Naquela época a gente não tinha não, eu vim pra cá eu não tinha RG, só que eu vim com um tio meu, ele que tinha que assinar, eu lembro bem disso. Eu vim, mas eu fiquei pouco tempo, foi quase um passeio, eu tinha que voltar, eu lembro que minha irmã falava, a Toninha, “você tem que voltar, pegar o certificado de reservista para poder fazer a documentação”. Então naquela época não se fazia, pelo menos lá não se fazia documentação antes de você receber esse certificado.

 

P/1 - Mas o senhor teve que vir para São Paulo fazer isso?

 

R - Não, eu me alistei lá e vim pra cá, minha intenção era ficar, mas a minha irmã falava: "não, você tem que pegar o resultado, o certificado de reservista, fazer RG, tirar carteira profissional”. Aí eu voltei, eu fiquei pouco tempo aqui, foi praticamente um passeio, acho que fiquei 2 meses, eu não lembro, sei que eu fiquei pouco tempo. Aí voltei, peguei o meu certificado, tirei o meu RG, aí vim pra cá, aí eu tinha 18 anos. Então eu fiquei lá sem o meu pai, dos 13 até os 18.

 

P/1 - Quando o senhor se alistou foi em Solonópole?

 

R - Foi em Solonópole.

 

P/1 - Num quartel ali?

 

R - Quartel ali, eu lembro que eu fui jurar o hino da bandeira lá, isso aí eu lembro de mais. Aí foi quando eu vim para cá.

 

P/1 - Por que o senhor quis ser um soldado nessa época?

 

R - O salário, porque lá não existia, que nem eu te falei, eu comecei a usar a ferramenta do meu pai para fazer… eu fiz muita coisa como eu te falei, ganhar um dinheirinho, porque lá não corre dinheiro, não tinha dinheiro, só que nem eu te falava, quando havia inverno, que havia uma boa safra de algodão, você tinha dinheiro, se não…. não corre dinheiro, não tinha de onde vir dinheiro. Foi quando eu comecei a fazer essas coisas e ganhava o meu dinheirinho, ajudava em casa e tanto que esse dinheiro que eu pegava, eu não ficava com um centavo, eu dava tudo na mão da minha mãe, mas ganhava um dinheirinho, tinha muito serviço. Eu fazia… trabalhava na hora do almoço e depois sábado e domingo. Tem uma foto minha trabalhando, depois eu vou mandar para ela, tem uma foto até de 3 tamboretes, fui eu que fiz, tá bem decadentizinho, mas… Como a minha irmã preserva tudo, tudo que a minha mãe deixou, tem muita coisa antiga na casa, coisas bastante antigas, coisas que o meu pai fez, tem um caixão enorme, que era para guardar legumes, muita coisa ainda guardada. Essa ferramenta que o meu pai deixou, ainda tem muita coisa ainda, que eu usei bastante, foi muito bom. Que nem eu te falei, como ele ensinava, então eu tinha noção mais ou menos, e fui aprendendo na marra, como se diz, não teve ninguém para ensinar, aprendi assim na marra, como eu tinha noção de serrar a madeira, eu via o meu pai riscando. Ele deixou tudo, esquadro, plaina, tudo era manual, então você fazia o acabamento na madeira na plaina, tudo manual, serra, tudo manual. Era um puta trabalho, um trabalho pesado.

 

P/1 - Mas a vida de soldado seria uma vida melhor? Mas não era por que você queria estar no exército?

 

R - Não, eu tinha aquela vontade de ir para o exército, porque o meu pai falava muito do exército, servir o exército, eu lembro que ele falava muito disso.

 

P/1 - Servir o Brasil?

 

R - É! Defender a pátria, isso aí eu lembro. E o salário interessava muito. Eu não lembro o salário, mas eu lembro que naquela época, eu lembro até de um primo meu, primo mais distante, ele serviu, inclusive hoje ele é aposentado pelo exército, acho que ele chegou a Tenente, ficou como tenente, é parente da gente. Então em função do salário. Tem um da minha idade, que a gente jogou bola junto, ele está para aposentar também, serviu o exército, esse moleque eu me lembro bem, não lembro agora o nome dele. Então em função disso, ele era um pouquinho mais velho que eu, ele falava, esse finado Toroca também falava muito, que era o primo legítimo da minha mãe, que era vizinho da minha mãe, foi também um cara muito importante pra gente, pra mim, como dono da casa, o finado Toroca foi muito importante na minha vida, ele ensinava muitas coisas para mim, depois que o meu pai morreu, tudo que eu ia fazer, como fazia, ele ajudava muito, ele estava sempre presente, foi uma pessoa que deu muita força pra gente quando o pai morreu.

 

P/1 - Foi ele que falou que seria uma boa ideia vir para São Paulo?

 

R - Foi ele também! Assim, eu via a turma vindo para São Paulo, nem para a minha mãe eu participei, para o finado Toroca eu falei: Toroca eu estou pensando em ir embora para São Paulo. Ele tinha uns irmãos que até hoje mora em Goiás, todo mundo tinha saído, só ficou ele lá, dos irmãos dele, eu lembro bem que só ficou ele lá, ele até falou assim: Toninho, por que você não vai para Goiás? Que a gente tinha esses parentes lá, tudo bem, parente bem próximo, aliás a gente tem bastante parente, tem uma tia minha que mora em Goiás. Aí ele falou assim: por que você não vai para Goiás então? Aí eu falei: puxa, mas é… São Paulo, falava-se muito de São Paulo naquela época. São Paulo, nossa, era tudo. E realmente o nordestino veio para cá, tinha muito emprego. E eu não queria ir para a roça, aliás a minha intenção de vim para cá, era servir a profissão de carpinteiro, como eu já tinha uma grande noção, eu queria seguir a profissão de carpinteiro, mas a vida tomou outros destinos, porque aí eu cheguei aqui, esse meu cunhado trabalhava em uma padaria, cheguei já me arrumou um emprego, tinha muito emprego naquela época, “não, vamos trabalhar comigo lá”. Chamava até Zé Emílio, o português.

 

P/1 - Você veio em que ano e quem te arrumou a viagem, como é que você veio para cá?

 

R - Eu vim em 80. Eu lembro que eu mesmo arrumei a viagem, tinha que ir na cidade comprar a passagem, tudo já foi eu, cidade longe, chama Acopiara, porque na época não tinha ônibus que saia de lá, você tinha que ir para Acopiara, aí tudo já foi eu. Eu fui de pau de arara, comprar a passagem, aí depois, no dia da viagem, eu peguei a malinha e aí fui para Acopiara também de pau de arara, saí de madrugada, 4h da manhã já sai para a cidade, porque era longe, naquela época era tudo estrada de terra, hoje essas ligações estão asfaltadas, mas não faz muito tempo não que foi asfaltada, de Irapuan Pinheiro para Acopiara foi asfaltada deve ter uns 5 anos, era tudo terra, estrada difícil, muita ladeira, muito buraco, então demorava muito.

 

P/1 - Quantos dias de viagem?

 

R - Assim, não demorava o dia, mas demorava 3, 4 horas para você chegar, por isso que tinha que sair de madrugada, porque a estrada tudo era terra.

 

P/1 - Digo de Acopiara para São Paulo, quantos dias eram?

 

R - Eu lembro que eu gastei de ônibus, quebrou no Rio de Janeiro, que o motorista falou que não podia descer ninguém, eu lembro de mais, que o Rio de Janeiro era muito perigoso, aí nós ficamos um dia no Rio de Janeiro, então eu gastei 4 dias na primeira viagem, o ônibus quebrou, uma empresa que chamava, Várzea Alegrense, era um ônibus verde e branco, não existe mais, mas chamava Várzea Alegrense, era um ônibus velho rapaz, caindo aos pedaços, aquilo um barulho, e aí ele acabou quebrando, daí demorou.

 

P/1 - E o senhor se lembra quem viajou com o senhor dentro desse ônibus?

 

R - Eu vim só, aí já não tinha… não lembro de ninguém.

 

P/1 -  Você não conversou com ninguém?

 

R - Não! Muito apreensivo, muito ansioso, medo. Eu lembro que ele parou na serra de Petrópolis, aquela época fazia pelo Rio, motorista parou num abismo lá, era ponto turístico, para mostrar, aquela imagem ficou na minha cabeça, aquele medo, porque era aquele abismo enorme, o ônibus parava para você ver mesmo, descia todo mundo para ver a serra lá embaixo, meu Deus, aquilo lá me deu um medo, essa imagem marcou na minha cabeça. Na viagem as coisas que mais marcou, quando o ônibus quebrou e essa parada que ele deu  para mostrar a serra de Petrópolis, vinha pela serra.

 

P/2 - E chegar em São Paulo, o que você pensou quando você viu São Paulo?

 

R - Eu fiquei desesperado, eu fiquei com muito medo, porque eu desembarquei, na época era na estação da Luz, não tinha rodoviária Tietê. Só que eu achei aquele prédio bonito, tinha uns negócios meio arredondado, vermelhos, eu desembarquei ali. Eu tinha muito medo, aqueles carros fazendo aquelas curvas, eu lembro que o meu cunhado que foi me pegar na rodoviária e aí a gente parou na Luz para pegar o trem, isso eu lembro bem, e aí estava um frio danado, eu digo, “meu Deus do céu”, eu fiquei muito assustado, com aquilo lá. Mas eu sempre fui muito calado, muito reservado, da morte do meu pai eu fiquei muito reservado, hoje eu sou mais falador, converso mais, mas eu era muito reservado, lá mesmo eu não era de conversa, eu era sempre reservado. Então eu sempre com aquilo lá na minha cabeça, meu Deus do céu, onde eu vim parar? Era assustador, mas aí você vai se acostumando com os tombos que você vai sofrendo. E aí esse meu cunhado e minha irmã, me levaram para casa deles, eu fiquei lá um bom tempo, não lembro quantos anos, eu saí de lá para morar sozinho, mas eu fiquei um bom tempo na casa deles.

 

P/2 - Você veio porque você quis, ou o dinheiro fazia diferença? Tinha uma ideia de trazer a família, ajudar a família?

 

R - A ideia era ajudar a família, não trazer, porque a minha mãe nunca quis sair de lá, o meu irmão, o João, quando meu pai morreu, já estava em Brasília. Como meu pai falava muito de Brasília, o João meu irmão foi para Brasília, sofreu pra caramba e os outros 2, os 2 mais velhos já eram casados, já estavam fora, Afonso e a Toninha casaram muito cedo, para você ter uma ideia, o Afonso casou com 18 anos, a Toninha com 19, e aí eles já tinham saído. A ideia era ganhar dinheiro para ajudar a mamãe, houve muitas secas, como eu falei para você, as secas lá são muito difíceis, começou a haver muitas secas, anos que você não tirava quase nada, por exemplo, nesse rio que eu te falei, você fazia aquela cacimba e aguava na lata, para tirar alguma coisa, eu lembro que colocava numa bica de madeira e aí 2.3, a gente muito pequeno, enchia aquela latinha de água e colocava naquela bica e aquela água descia para aguar o arroz, mas pouca coisa, não tirava…Aí a dificuldade foi quem obrigou, preciso ganhar dinheiro para ajudar a mamãe, isso graças a Deus a gente fez, meus irmãos também, não podia ajudar muito, mas sempre ajudaram muito a minha mãe, a gente começou a ajudar. Na padaria esse português me ajudou muito.

 

P/2 - Você chegou foi morar com esse cunhado e que irmã?

 

R - A Toninha era casada com esse meu cunhado.

 

P/2 - Que bairro era? Como é que foi o começo?

 

R - O começo foi aqui no jd. São Luís, em frente ao centro empresarial, era numa favela, minha irmã morava numa favela, comunidade como se diz, aquilo me dava um medo, porque a noite um barulho. Uma coisa que me marcou muito aqui em São Paulo, que naquela época os caras faziam um assobio, a noite, ficava assobiando, isso me marcou muito, era uma favela. Só que o meu cunhado é um cara muito batalhador, ele comprou esse terreno lá em São Miguel, eu não fiquei muito tempo aqui, pouco tempo. Ele comprou esse terreno, eu lembro que a gente foi olhar esse terreno lá quando ele comprou, era tão longe, era muito longe. Mas logo ele construiu 2 cômodos e aí eu fui morar em São Miguel, Itaim Paulista, tudo muito difícil, tudo terra também, para pegar o ônibus você andava a pé, deve dar 1,5km mais ou menos, quando chovia, chovia muito naquela época, a gente saia de casa, colocava 2 sacos plásticos no tênis, chegava no ponto de ônibus tirava, para não sujar, porque era muito barro, a gente fazia isso. E eu trabalhei muito junto com ele, a gente levantava o mesmo horário e trabalhava no mesmo horário, na padaria, chama padaria Bom Dia, até hoje ela existe em São Miguel, na avenida São Miguel, padaria Bom Dia.

 

P/1 - O senhor fazia o que na padaria?

 

R - Eu era balconista. Meu cunhado trabalhava na copa e eu no balcão, mas eu não conhecia nada, quando eu cheguei eu não sabia o que era nada, um misto quente eu não sabia, mas o português, por isso que eu digo, esse cara foi muito importante também na minha vida, porque ele viu que eu tinha vontade, não tinha preguiça. Eu lembro que ele me chamou no escritório, aí ele começou a me chamar de Cearazinho, não me chamava de Toninho, sempre fui pequenininho, naquela época acho que era mais pequeno ainda, que eu era mais magro, pesava 50 e poucos quilos. Aí ele falou assim: olha, eu vou te ensinar. Aí começou a me ensinar, e aí aprendi muito com ele, e foi um cara que reconheceu, o Zé Emílio reconheceu, ele ficava a média de 1 ano, 2 anos numa padaria, aí vendia. Para você ter ideia, aí eu o meu cunhado, o padeiro, o confeiteiro, era 4 pessoas que ele levava junto para outra padaria, e ele chamava um por um no escritório, “Cearazinho eu vendi a padaria, vocês vão pegar aí uns 15, 20 dias de férias, até eu comprar outra e eu vou te dar tanto, esse é os seus direitos, vocês vão no sindicato das panificadoras e vê se vocês tem mais direito”. E a gente ia nós 4, eu lembro, aqui na rua Rocha, não sei se hoje ainda existe o sindicato das panificações, era na rua Rocha, a gente vinha, e ele sempre deu para cada um, 3 vezes o seus direitos. O Sindicato fazia as contas, “olha, esse aqui são os seus direitos”, aí você olha lá, porque ele já sabia, ele somava vezes 3, era impressionante, era um cara que… ficou rico, mas era um cara generoso, coração muito bom, ele e a Dona Célia, a esposa, gente muito boa. Então aprendi muito, ele me ensinou a temperar frango, fazer tempero de frango, naquele época ele vendia muito a costela, o cupim, ensinava como temperava, guardar depois, ele me ensinou a embrulhar naqueles papel, chamava papel celofane, amarrava numa ponta e na outra, colocava naquela máquina, eu que vendia, eu tomava conta desse material, esses produtos chegavam na quinta-feira e eu que ia limpar os frangos, que dá um puta trabalho, limpar ele direitinho, lavar, temperar, guardar. Aí começava a assar na sexta-feira, sexta-feira começava a assar, aí para você vê, eu trabalhava na padaria até às 14h, esse era o meu horário normal, aí saia de lá, colocava outro avental, ia para cozinha da padaria, já espetar os frangos que tinha temperado na quinta e já começar a assar e só ia embora para casa umas 22h, 00h da noite, quando fechava a padaria. 5h da manhã eu estava na padaria de volta.

 

P/1 - Você se lembra do seu primeiro salário, o que você fez com ele?

 

R - A metade eu mandei para a minha mãe, sempre ajudei muito a minha mãe. E aí comecei a juntar um dinheirinho, fiz uma poupança, que o pai também sempre ensinava, “filho você tem que guardar alguma coisa”. Isso ele colocava muito na minha cabeça, por isso que eu digo que ele era muito sábio, “tem que guardar filho”. Foi o que eu passei para os meus filhos, “tem que guardar um pouquinho”.

 

1:05:31 P/1 - Como é que você mandava o dinheiro para a sua mãe?

 

R - Naquela época era por envelope no correio, bicho. Carta, não tinha telefone, sempre escrevia uma carta, uma vez por mês, era tudo escrito a mão, e aí mandava aquele dinheirinho.

 

P/1 - Você escrevia uma mensagem e deixava dinheiro?

 

R - Escrevia uma carta mesmo, como é que se tava e tal, de punho, e aí, “mãe, vai um dinheirinho para a senhora”. Nem ia no nome dela, mas aos cuidados do fulano de tal, porque lá tinha tipo um posto do correio, o cara que cuidava, não era igual hoje, agência do correio, era fulano de tal que tinha esse posto, que recebia, aí do sítio ele avisa e ía alguém da cidade, “fala para a dona Nega que tem uma encomenda para ela aqui”, não mandava por ninguém, ela ia lá retirar, era assim que funcionava. Carneiro não tinha rádio, por exemplo, a rádio era em Iguatu, então essas coisas assim, de notícia, chegou uma carta para o fulano, encomenda, era mandando quando vinha outra pessoa na cidade, um vizinho, que todo mundo conhece todo mundo, “avisa para dona Nega que chegou encomenda para ela”. Que minha mãe tem o apelido de Nega, o nome dela é Josefa, mas tinha o apelido de Nega, só chamava Nega, Nega do Moizeis.

 

1:07:07 P/1 - Ela escrevia de volta para você?

 

R - Escrevia! Sempre tinha a resposta, era esperado a carta, quando a gente pegava aquela carta… uma coisa que se perde, hoje não existe mais, mas naquela época dava aquela emoção escrever. E para a namorada então que você deixou lá, é legal, é emocionante, quando recebia a carta.

 

P/1 - Ela falava de quem, dela, da família?

 

R - Dava notícia dos filhos que ficaram, eu que vim, mas ficou…

 

P/2 - Ela que escrevia?

 

R - Ela que escrevia, minha mãe não era analfabeta, igual meu pai também não era.

 

P/1 - Ela dava notícia de todo mundo?

 

R - Notícia de todo mundo, dos tios, dos irmãos que ficou, época de inverno se estava chovendo ou não. Hoje você tem notícia, se você puxa no google sabe tudo, mas naquela época não, era se desse notícia, você acha que você ia saber se choveu no Ceará? Você não sabia, era por carta, então essa era a notícia. Por isso que eu ficava ansioso para receber… quando era época de inverno então, porque até hoje inverno no Ceará é assim tipo uma benção, quando chove, eu fiquei esse 2 anos lá, por exemplo, pouca coisa mudou, quando dá uma chuva boa, aquilo lá é uma festa, o vizinho vai na casa do outro, rio cheio de água, aquele comentário, então até hoje é uma festa, a chuva traz muita felicidade para quem está lá, para o nordestino. Eu acho que é um dos melhores presentes da natureza aquela chuva maravilhosa, aí você vai pescar. Nesses 2 anos mesmo que eu fiquei lá, pesquei muito, eu levei um tacho daqui, mandei fazer um tacho enorme pra mim fazer peixe na beira do rio, teve um dia lá, isso aí deveria ter sido filmado, porque como tem lá, chama passagem molhada, leva um pouco o leito do rio com cimento, coloca aqueles canos embaixo, aqueles tubos enormes, só que era tanta água, que cobriu aquela ponte, aquela passagem molhada que eles chamam. O que a gente fez, a gente arrumou um monte de pedra, monte de homem, umas pedras grandes, fizemos tipo uma trempe no meio do rio, colocamos aquele tacho, fizemos o fogo em cima das pedras, tudo natural, para eu fazer o peixe. Então eles pescavam, naqueles lances de tarrafa e me trazia o peixe, eu fazia naquele tacho na hora. E aí, o litro de cachaça do lado, lá não existe quase cerveja, existe, existe, mas se toma muita cachaça, cerveja quase ninguém toma, é cachaça com coca-cola. Eu como não gosto de coca, tomava cachaça pura, eu não sou de tomar cachaça, mas uma cachaça nessas brincadeiras é gostoso, eu tomo cachaça também. Ficava o domingo inteiro, até as mulheres iam tomar banho, é muito divertido e bonito, eu fiquei pensando, deveria ter tirado foto, aquele rio cheio de água e quando dá aquele lance de tarraga que traz aquele monte de peixe, é muito gostoso. Então por isso que eu te digo, a chuva no nordeste traz uma alegria tão grande para o nordestino que é inexplicável, é uma riqueza.

 

P/1 - Quando você chegou aqui você sentia saudade de lá?

 

R - Muita! Eu pensei até que eu não ia ficar, eu sentia muita saudade de lá, queria voltar, “mas eu não posso voltar, tenho que ajudar a mamãe”. Então saudade era grande, mas a gente… aí você vai ficando e você vai acostumando, graças a Deus, você vai aprendendo as coisas, os caminhos vão se abrindo.

 

P/2 - Tinha nesse começo dos anos 80, quando você chegou em São Paulo, tinha inflação, você ouvia notícias?

 

R - Ouvia! Eu lembro que falava assim: ele corrói o seu dinheiro, meu cunhado era mais… meu cunhado é falecido hoje, mas foi um cara muito importante na minha vida, eu sempre falo que eles foram os meus segundos pais, ele falava: Toninho, você precisa comprar um terreno. Outra coisa que ele falava: você tem que ser registrado, para você se aposentar no futuro, como eu vim da roça, não tinha noção disso, mas ele já tinha, como era mais velho, já tinha morado no Paraná, então era um cara de cabeça mais aberta,  ele me encaminhou muito, ele tinha esse cuidado de aplicar esse dinheiro, mas tinha inflação, eu lembro que ele falava assim: desse dinheiro você não pode mexer nele, você tem que colocar mais se não a inflação come, eu lembro desse cuidado que ele tinha, o Pinheiro era cuidadoso, uma cara que tinha pouco estudo, mas muito inteligente, me ensinou muitos caminhos. E eu comprei terreno aqui, por causa dele, “você precisa comprar um terreno”.

 

P/2 - Lá em São Miguel tinha gente de paróquia, de movimento de moradia, de construir casa para as pessoas, você lembra disso?

 

R - Eu lembro que tinha esse movimento, mas muito assim… a gente não participava, não sei por que, também a gente trabalhava muito. Quando ele comprou esse terreno, a gente trabalhava na semana e no dia que folgava para construir, ele até sofreu um acidente, chegou a quebrar uma perna, o fêmur, sofreu pra caramba, ficou um ano… Mas eu lembro desse movimentos, já existia esses movimentos, mas muito pouca coisa, eu não lembro de muita gente que conseguiu alguma coisa. Eu lembro lá, até hoje chama parque Santa Amélia, eu lembro que no fundo, quando a gente chegou lá era uma fazenda, tinha gado, lembro demais. E depois, com o tempo aquilo lá foi loteado, acho que não foi bem loteado, porque foram obras desse CDHU, obras do governo do estado, então não sei, o governo deve ter indenizado e desapropriou, porque hoje, quando eu olho para aquilo lá, dá até saudade, que você via muito gado pastando. O terreno dele fazia fundo para a fazenda, para você ter ideia, então tinha muito gado. Não demorou muito, eu lembro que quando a gente chegou lá, eu diria que talvez uns 2 anos, aquilo lá… o governo deve ter indenizado e começou a fazer essas obras. Então alguém, mas pouca gente, vem gente de outros lugares, então o meu cunhado não participou disso, que ele já tinha o terreno, e eu lembro que ele falava que quem já tem o terreno não pode participar, isso que ele falava, você tem o seu terreno você já não pode participar desse movimento, mas existia já, que está lá até hoje, chama Costa Norte, onde tem esse monte de prédio CDHU. Porque me dá saudade, quando eu vejo que era uma fazenda o fundo do terreno do meu cunhado, até hoje está lá, minha irmã cuida, no fundo dela tinha gado, aí hoje tem os prédios, são prédios acho que de 4, 5 andares. Foi loteado toda essa fazenda, que era pra esse movimento, isso eu lembro bem.

 

P/1 - O senhor ficou quantos anos trabalhando com o português nas padarias?

 

R - Exatamente eu não vou lembrar, mas eu acho que fiquei uns 7 anos mais ou menos. Ele pagou um curso pra mim, por isso que eu digo, ele foi muito importante, ele me ensinava mesmo, ele viu que eu tinha vontade de aprender a cozinha, e aí ele pagou um curso para mim, inclusive na Haddock Lobo, eu nunca esqueço daquela cozinha, quando eu cheguei ali era coisa do outro mundo, 2 professores, quem pagou esse curso foi o José Emílio, foi o meu primeiro curso que eu fiz, mas eu continuei trabalhando com ele. Aí surgiu uma oportunidade melhor, olha para você ver como que é as coisas, ele investiu em mim, e aí foi quando eu parei de trabalhar com ele e fui trabalhar na Ciba-Geigy, que hoje chama Novartis, eles estavam abrindo uma unidade no Taboão da Serra, é por isso que eu fui parar lá. E aí surgiu no jornal aquele monte de vagas, como eu já tinha o curso de cozinheiros, eu tinha esse curso, curso básico, não foi um curso muito extenso, mas foi um basicão. Aí eu digo, eu vou participar, uma empresa multinacional, aí eu fui, naquela época era tão fácil que no mesmo dia eu dei entrevista, pegaram os meus documentos. E aí eu fiquei todo sem jeito, porque eu pensei que era uma coisa mais demorada, aí eu tive que chegar para o português e falar que eu ia. Vou só te contar do salário. Aí fui aprovado.

 

P/1 - Foi trabalhar do que?

 

R - Cozinheiro, na CIBA, não é CIBA, a matriz é em Santo Amaro, ali pertinho do Borba Gato e lá já ia chamar Biogalênica, CIBA Biogalênica, que hoje é Novartis, foi vendida para a Novartis. Aí eu digo, tenho que falar para o português, eu já tremia de falar com ele, mas aí eu falei para ele, a gente trabalhando na parte da manhã, “olha, no final do expediente, eu preciso falar com o senhor”. Ele, “tudo bem Cearazinho”. Aí ele me chamou no escritório, quando eu terminei o meu expediente, e aí falei para ele, “Zé Emílio, eu sinto muito, mas eu vou ter que pedir minhas contas, vou ter que ir embora.” Ele falou, “Cearazinho você vai voltar para o Ceará?” “Não, eu vou trabalhar numa empresa, é uma oportunidade que eu não posso dispensar”. Aí ele foi e falou assim… Isso está na minha carteira registrado, por isso que eu não me esqueço. “Zé Emílio, eu fui chamado para trabalhar em uma empresa, na unidade do Taboão da Serra e o salário é muito bom, vou ter que te deixar”. Eu nunca esqueço, a pergunta que ele fez foi, “Cearazinho, quando você vai ganhar lá?” Tá na minha carteira para quem quiser ver, “625 mil cruzeiros”, era um salário, e de segunda a sexta. Sabe o que ele falou para mim, não ficou com raiva não, bateu no meu ombro, “Cearazinho, você merece, eu não posso pagar esse salário, mas você merece”. E aí eu fui! Ficamos amigos depois, eu tive contato com ele. Foi quando eu vim para o Taboão, através desse emprego. E aí vem a história, como era de segunda a sexta, o que eu fiz? Foi onde eu comecei ter 2 empregos. Na verdade, na padaria eu sempre tive 2 empregos. Eu não conclui, na padaria, olha só, por isso que eu sempre ensinei para os meus filhos, você não ter preguiça. Ele comprou uma padaria na Av. Nordestino em São Miguel, bem próximo do centro de São Miguel, bem próximo de onde hoje existe os bombeiros, naquela época eu não lembro de bombeiro, mas hoje tem um grande posto. Ele comprou uma padaria, e aí ele mudou o meu horário de trabalho, eu ia trabalhar com o gerente a tarde, entrava às 14h e saía 23h, quando a padaria fechava. Aí o que eu fiz? Vou aprender fazer pão, fiz amizade com o padeiro, chamava Manoel, não sei se esse cara é vivo hoje, eu tinha vontade de encontrar, ele até tinha um defeito na perna, uma paralisia infantil, aí fiz amizade com ele, um cara muito gente boa, sorridente, ele só olhava para você sorrindo, aí falei: Manoel, eu quero aprender a fazer pão. O pão da noite é mais fácil de fazer… aquela época era o pãozinho francês, a bengala e a paulistinha, era 3 tipos de pão, e o pão sovado, fazia a noite também, era 4 tipos de pão. E aí eu fechava a padaria, comecei a dormir na padaria, dormir não, ajudar ele, eu só ia dormir depois das 5h da manhã. E ele me ensinou, aí eu aprendi, aí ele brincava comigo, “Cearazinho, um dia eu vou dar o cano, que você já pode fazer o pão da noite”. Falei, “pelo amor de Deus”, eu tinha maior medo, “eu não consigo”. “Você consegue, vou fazer isso, dá um tempo”. E aí ele começou, me passava tudo. E eu comecei a ter prática, porque para tirar aquilo do forno, tem que ter uma prática danada, são 2 bengalas enormes, você faz 2, aí dá uma entortadinha, você puxa, e ele vem caindo no cesto, quando ele está bem douradinho, a coisa mais linda, eu achava aquilo ali o máximo. Aí quando foi um dia, o sobrinho dele estava aniversariando, mas ele me avisou, “Toninho, hoje eu vou dar o cano, você vai fazer o pão”. Aquilo ali eu fiquei com muito medo, porque o pão, é um segredo, não é tão fácil assim, ele não pode pegar vento, você tem que puxar aquelas cortinas, depende, se tiver muito calor você abre as cortinas, se tá muito frio você tem que fechar. É um segredo danado, mas eu já tinha toda a manha. E a padaria era bem preparada, tudo novo, era uma padaria nova, tudo muito bonito. Aí ele deu o cano e ele não veio, mas eu sabia. Aí fiz tudo, e rezando a Deus, que desse tudo certo, porque acontece às vezes, quando a temperatura muda muito de repente, o pão sente, muito melindroso, mas aí deu tudo certo, eu rezando para dar tudo certo, e deu, graças a Deus. Eu fiquei todo orgulhoso.

 

P/1 - Você viu vendendo o pão?

 

R - Escuta só, aí quando o português chegou, o Zé Emílio chegou, o Manoel não estava, aí ele já procurava, porque sempre eles trocavam uma ideia, aquela correria, mas alguém fazendo o café, outros já preparando para levar o pão. E aí o pão saiu a coisa mais linda do mundo, foi uma benção de Deus. “Cadê o Manoel?” Eu fui e falei assim: Manoel não veio hoje não. “Quem fez o pão, como assim?”. Ele ficou todo apavorado. “Fui eu!” O português não sabia que eu estava fazendo isso. “Não acredito! É impossível, você fez?” “Eu que fiz!” Aí foi aquela alegria, vendeu muito bem, naquela época padaria vendia muito, porque quase tudo era comprado na padaria, não tinha mercado grande, então o açúcar, o café, a manteiga, o leite, o pão, fazia fila, você é muito garoto, não lembra disso, antigamente fazia fila, o leite, cansamos de vender 150 caixas, eu corria no telefone para pedir leite. E no dia que eu fui, que eu nunca tinha feito uma ligação na minha vida. Sim, mais só para resumir o pão, no final da tarde, quando encerrou o expediente que chegou o gerente, eu já tinha que estar trocado, porque ele não deixou eu ir embora, porque sempre eu ia embora pra casa, tomar um banho, dormir um pouquinho. Aí ele me chamou no escritório, foi aquele parabéns, me deu um aumento, aí onde ele ia, me levava, fui na casa dele muitas vezes, tinha um casal de filhos lindíssimos, me chamava de filhão, às vezes, “você tem que ajudar, você tem que aprender”.

 

P/1 - E essa história do telefone, conta?

 

R - Faltou leite na padaria, tava acabando, antes de acabar… O português era muito inteligente, ele tinha visão de movimento, “Toninho…” Me deu um monte de ficha, nunca tinha… via aquele negócio lá, mas não sabia para que servia, eu via uma fila de gente, mas eu nunca tinha ligado. E como eu era muito reservado, eu nunca perguntei para o meu cunhado, porque isso foi logo no início da minha carreira com ele. Ele falou assim: Toninho vai lá na padaria…”, me deu uns números escritos bem grandes, um papel desse tamanho, uns números bem grandes. “Vai lá no orelhão e liga para Agulhas Negras”. Até hoje deve existir esse leite, Agulhas Negras, porque o leite mais vendido era o leito Paulista, aquele de saquinho, em segundo lugar vinha o agulhas negras. Só que o paulista só entregava de manhã, se ligasse para lá eles não entregavam mais não, Agulhas Negras entregava. “Vai lá no orelhão e faz uma ligação para Agulhas Negras”, me deu o número. “E pede mais 20 caixas de leite”, nunca esqueço. Eu corri pra lá, cheguei lá aquela fila de gente, tinha umas 4 pessoas na minha frente, que que eu fiz? Eu vou ficar olhando como é que faz, cada um que colocava aquela ficha lá, eu com umas 10 fichas na mão, cada um que colocava a ficha, eu ficava de olho, não era digitar, naquela época era o dedo, não era igual hoje, hoje nem existe mais, depois foi modernizando, mas naquela época você colocava o dedo e ia até lá, cada buraquinho lá… E eu torcendo, foi fazendo fila atrás de mim, eu com vergonha, e se eu errar, mas aí o último eu prestei mais atenção ainda, bicho, o coração tava aqui, com medo de não dar certo, mas tremia para colocar a ficha, coloquei a ficha, fazia aquele barulho quando caia, só que aí você tinha ir colocando mais ficha, dependendo, eu esqueci, uma não deu pra mim terminar de falar, caiu a ficha, eu não tinha colocado a outra, imediatamente reiniciei tudo, aí coloquei outra, eu vi que fazia um barulho, aí fui fazendo e colocando, não gastei todas as fichas, mas… Esse Zé Emílio ele tinha muita amizade, acredito que era um português do dono do Agulhas Negras, ele tinha muita amizade, eu lembro disso, que eles tinham encontro às vezes e eu estava junto, “Esse é o dono do Agulhas Negras”, eu lembro que ele falava. Ele tinha muita amizade, deveria ser parente, sei lá, ou amigos mesmo. Aí fiquei feliz da vida, aprendi ligar do orelhão.

 

P/1 - Ninguém que tava atrás na fila brigou com o senhor?

 

R - Na hora eu lembro que todo mundo ficou meio assim, porque demorava, você errar. Mas aquilo ali foi uma benção de Deus, também eu era muito ansioso, era não, sou até hoje, eu sou muito observador, se o cara tiver fazendo uma coisa eu estou de olho, pra mim aprender a fazer, então isso me ajudou, me ajudou muito, isso foi marcante demais, aquele sufoco… O óleo que era vendido para fazer os produtos da padaria, você ia num… inclusive lá perto do orelhão tinha tipo uma mercearia e era vendido nuns tonéis grandes, acho que de 80, 100 litros, tinha uma torneira, e aí eu lembro que eu ia com o tambor, acho que deveria ser uns 20 litros, essa coisas pequenas eu que comprava para o português, eu ia pegar nesse lugar, nem pagava, “o Zé Emílio mandou pegar isso e isso”, essas coisas mais básicas, era pegado nesse lugar, o fermento flash, até hoje quando eu vejo aquele nome eu lembro. Às vezes eu corria lá, pegava 4, 5 pacotes, então essas coisinhas aí… eu gostava daquilo, ter que sair para fazer alguma coisa, porque via o movimento, via gente, coisas diferentes, você ia aprendendo, na marra, mas você ia aprendendo.

 

P/2 - Toninho, nessa mesma época que você estava na padaria, aqui em São Paulo tinha greve de operários, tinha diretas já, teve várias coisas acontecendo em São Paulo, você lembra de falar que a ditadura ia acabar, que ia ter presidente?

 

R - Das Diretas Já eu lembro bem.

 

P/2 - Como isso chegava em você? Como a notícia chegava? Com quem você conversava?

 

R - Muito com o português, que era difícil o dia que a gente não terminava o expediente, ele gostava de tomar cerveja e ele me levava, num fusquinha vermelho, quem tinha um carro naquela época… eu lembro que depois ele comprou esse carro da fiat, esse 147, logo que lançaram, eu lembro bem que o Zé Emílio teve um, então ele me levava. Ele chegava na padaria, em outra padaria, todo mundo conhecia, muita amizade, das Diretas Já eu lembro bem eles conversando, falando das Diretas Já, que tinha que acontecer, precisava, então esse negócio marcou muito, a conversa entre eles, eu ficava escutando aquilo, mas o que que é isso, aí eu lembro que eles falavam, tem que tirar o governo tal, tem que mudar esse regime. Isso me marcou entre eles conversando, só que eu não participava da conversa, eu só escutava, porque eu chegava ali, eu tomava um guaraná, nunca esqueço, guaraná Antárctica, ele pedia a cerveja para ele e um guaraná para mim, o guaraná Antárctica marcou também na minha vida, tanto que eu não gosto de refrigerantes, mas se eu for tomar um refrigerante eu peço uma guaraná Antárctica. Então eu ficava escutando isso, de longe, não participava, nunca fui chamado para o assunto, eu era muito jovem, acho que eu devo ser pequenininho, sempre ali, estava do lado, mas não participava, lembro eles conversando que tinha que mudar o regime, “precisa acontecer essas Diretas Já”, então esse assunto era badalado entre eles, entre os portugueses.

 

P/2 - Nesse período você já tinha todos os seus documentos? Você chegou a votar para presidente? 

 

R - Eu lembro, que o meu primeiro voto eu saí daqui para votar lá no Ceará, esse foi o meu primeiro voto, que na época era papel, fazia-se um X, no quadradinho tal, fulano de tal, isso eu lembro. Agora aqui em São Paulo.

 

P/2 - Mas lá em que ano que foi, você lembra?

 

R - Eu acho que foi em 1982, se eu não estou enganado, o meu primeiro voto foi em 82, teria que puxar na minha memória, mas eu sei que eu votei lá.

 

P/2 - E era importante, fizeram você pegar o ônibus e ir até lá?

 

R - Isso era importante, e tanto que eu saí daqui para votar lá, isso era importantíssimo, você votar, isso eu lembro.

 

P/2 - Mas era importante para você? O pessoal de lá queria que você fosse?

 

R - Para o povo mais velho, minha mãe, tipo a minha irmã que era mais velha. Eu não tinha muita noção, acontece Luís, que o cara que nasce na roça é muito desinformado, como meu pai morreu cedo, se o meu pai não tivesse morrido cedo, eu tenho certeza que seria diferente, mas lá você vai muito por o que o seu tio fala, que o mais velho fala, eu não tinha muita noção da coisa, porque para começar eu era quase analfabeto, não tinha conhecimento, por isso que eu te digo, eu vim estudar um pouco mais aqui, mas era quase analfabeto, mal sabia escrever o nome, então você não tinha muita noção, você ia pelo o que os outros falavam. Por isso que eu lembro bem da mudança, eu lembro bem o que os portugueses falavam, “precisa mudar esse regime”, essa palavra eu lembro bem, era muito escutado entre eles, “mudar esse regime”. Mas eu não tinha muita noção, porque era quase analfabeto.

 

P/2 - Você fez esse curso que o Zé Emílio te pagou e o que mais você estudou aqui em São Paulo?

 

R - Porque esse meu cunhado e a minha irmã mais velha, falava que eu precisava estudar. E o Zé Emílio também falava. Eu tinha uma inteligência boa, principalmente na matemática, chegou a ter casos na padaria… como eu falei, o cara comprava muita coisa, o pão, o açúcar, o café, o leite, danone para criança, vendia muito danone naquela época em padaria, o cara levava da padaria, padaria era quase um supermercado, o óleo, tudo que você imaginar do basicão a padaria vendia. Então eu lembro de uma cena lá em São Miguel, porque quando o cara comprava tudo essas coisas, no final da conta eu já estava somado na cabeça o valor, a gente gritava, “vai pagar tanto”, você nem escrevia, gritava, o português estava lá, era tudo no grito, a padaria era uma gritaria. O copeiro, por exemplo, lá da copa, meu cunhado tinha uma voz bem grave, ele gritava, “vai pagar tanto”. Que dizer, quando vai pagar tanto, o português já estava de olho naquele cara que estava dando as contas para vim para o caixa, o português era esperto, por isso que esses caras são muito inteligentes, ele tinha… o copeiro estava vendendo lá umas coisas, ele já estava de olho. Normalmente eram 1 copeiro e 2 balconistas, então ele já estava de olho. E aconteceu alguma vezes que eu falava assim: vai pagar tanto, e o cliente desconfiar, que não dava tanto. Aí o português… levava aquele monte de coisa e fazia a conta, eu nunca errei, nem por 1 centavo, eu tinha uma inteligência, na matemática, até hoje os meninos fala lá, eles me chama, “Toninho, puxa no seu computador”, então eu tenho essa facilidade para matemática. Aí o português falava, “Toninho você precisa estudar”. Esse meu cunhado e essa minha irmã, falava a mesma coisa, “você precisa estudar”. Aí foi quando eu comecei a estudar, a gente estudava, inclusive para você ter ideia, naquela época era uma professora… eu não lembro, eu vou até perguntar para a minha irmã, se a gente pagava, sei que era numa casa, meu cunhado também estudou com essa professora muito ótima por sinal, uma bela professora, aprendi muito, foi quando eu estudei.

 

P/2 - O nome dela?

 

P/1 - Era só ela, não era uma escola?

 

R - Não, era na casa dela. Vou ver se eu lembro o nome dela, foi muito importante na minha vida, não vou lembrar agora, quando você quer… Mas eu e o meu cunhado e mais alguns ali, era quem formava aquela sala de aula para ela dar aula.

 

P/1 - Vocês conseguiam se diplomar?

 

R - Ela dava o diploma.

 

P/1 - Ela ensinava  o que para você, que matérias?

 

R - Ensinava todas as matérias, matemática, português, história, era uma professora que dava todas as aulas, geografia, então foi com ela que eu aprendi alguma coisa.

 

P/2 - À noite?

 

R - À noite. Trabalhava na padaria até as 14h, ia para casa, descansava um pouquinho, começava às 19h, ia até as 23h. Era bem puxado, mas era…

 

P/2 - Era um diploma de supletivo, mobral?

 

R - Isso, exatamente isso, como supletivo.

 

P/1 - Você gostava dela, você concordava com o que ela falava?

 

R - Ah sim! Tô tentando lembrar o nome dela… eu vou lembrar depois

 

P/1 - Quando o senhor chegou aqui em São Paulo como era a clientela, era muito diferente do senhor?

 

R - Clientela da padaria? Eu achava muito diferente, porque a gente vem de outro estado. Eu achava o pessoal já mais bem vestido do que eu. Quando eu cheguei aqui, pegava um ônibus, por exemplo, eu achava o povo muito diferente, um pessoal na verdade mais bonito. Porque a gente, eu tinha aquele tênis, chamava conga… vai ganhando um dinheirinho, porque eu não tinha condição, minha salvação foi ter trazido uma rede do Ceará que era o meu cobertor, a gente era muito pobre, minha irmã tinha 3 filhos, não podia fazer muita coisa, só o meu cunhado trabalhava, então a gente tinha uma dificuldade, foi melhorando conforme foi melhorando o meu salário, do meu cunhado também, meu cunhado começou a ser mais bem pago, que ele era um cara muito trabalhador, e muito inteligente, uma sabedoria, o cara, tinha que tirar o chapéu para ele. A gente foi começando a melhorar o salário, ele também, mesmo ele já tinha um salário bem melhor do que o meu, mas sempre o português reconhecia, porque ele levava a gente e reconhecia que a gente trabalhava bem e era honesto, porque honestidade é tudo, isso o pai ensinou para a gente. Relembrando uma cena lá de trás, eu lembro quando a gente era moleque, que a gente estava na roça, o meu irmão mais velho foi na roça do tio Medeiros, que era um tio bem ranzinza, e pegou uma melancia, e aí ele chegou, na nossa roça não tinha melancia, eu lembro, meu pai foi e falou assim, meu irmão é Afonso, mas chama de Neto, que é Afonso Rodrigues Neto, “onde ele tinha pego aquela melancia?” Aí ele ficou meio assim, o meu pai olhava sério, naquela época não precisava bater não, nunca vi meu pai bater em nenhum dos meus irmãos, ele só olhava sério, “foi na roça do tio Medeiros”. O que ele fez? Colocou a melancia no ombro dele, “você vai devolver, colocar lá onde ela estava”. E aí saiu o Afonso, o João, eu e o Zé, 4 homens, tudo fileirinha, e o meu pai conversando, “olha, a gente não tem, mas a gente vai ter, isso daqui não é nosso, tem que devolver, você nunca pode pegar nada de ninguém”. Isso marcou muito. Aí ele devolveu lá na rama, a melancia. Então isso eu aprendi, por isso que o Português confiava muito na gente, porque a gente não pegava nada, nunca peguei nada, os caras percebem quando você… E a gente tinha aquele prazer de trabalhar, da padaria crescer, ele sempre dobrava o movimento, ele comprava por um preço, sempre ganhou muito dinheiro, por isso que ele recompensava a gente, ele tinha essa visão, um cara super inteligente, por isso que ficou rico. E dividia aquilo com a gente. Então eu tinha um prazer de trabalhar para ele.

 

P/1 - Nessa época que você chegou, você ia para o centro de São Paulo? Como que era o centro nessa época?

 

R - Nessa época eu não ia para o centro, eu vim para o centro quando ele comprou uma padaria ali na praça Pérola Bayton, hoje não existe mais a padaria, eu passo lá toda hora eu olho, seu eu passar qualquer dia, qualquer horário, onde era a padaria. Então ele comprou uma padaria na Praça Pérola Bayton, foi quando eu comecei andar no centro e adorar, hoje eu sinto saudade, porque o centro era gostoso de passear, era muito limpo, não tinha tanta gente na rua. A Praça da Sé, por exemplo, só tinha aqueles engraxates, eu sempre andei de social, então você parava ali para engraxar o sapato, aqueles caras contavam aquelas histórias, você fazia um círculo de amizades ali, isso eu sinto saudade do centro. Você sabe que não faz muito tempo, eu passando na rua Direita e olhando para aqueles prédios, e aí me deu saudade daquela época, porque era um lugar tranquilo, nós ficamos no centro ali, trabalhamos 2 anos e pouquinho, então passei a conviver muito no centro, como eu tinha um colega que trabalhava na padaria, fiz muita amizade com ele, ele morava no centro, numa pensão na Rio Branco, eu ia muito para lá, e a gente começou a andar muito por ali, muito jovem, era tudo muito bonito. Então foi quando eu comecei no centro, nessa altura aí eu já devia ter os meus 22 anos, 23 anos, por aí.

 

P/1 - Era muito movimentado?

 

R - Bem movimentado, muita gente a pé, bem frequentado, as praças… Você chegava na Praça da Sé nessa época, ela era bem lotada, era muita gente, tinha aquele pessoal que ficava fazendo aqueles malabarismos, um outro fazendo outra coisa, às vezes tinha aqueles caras que cantava, muito disso, hoje você não vê mais, porque já está invadida por morador de rua, que é uma pena, essa gente não tem culpa, eu acho, poder público que deveria tomar outras… mas eu acho que não é feita muita coisa em função disso, por isso que os caras moram, já pensou morar na Praça da Sé? Por isso que tem aquele cheiro, por isso que eu digo, dá saudade. E assistia à missa aos domingos, às vezes na Catedral da Sé, era um glamour, muito bonito, era gostoso o centro. Às vezes eu comento isso com os colegas, com as pessoas, o centro da cidade dá saudade, vive tão abandonado.

 

P/1 - Você chegou a ver alguma passeata ali no centro?

 

R - Passeata eu não me lembro de nenhuma.

 

P/1 - Comício?

 

R - Não, eu lembro de um comício no Vale do Anhangabaú, até lembro o primeiro personagem que eu vi que me identificou assim, você vai começando… foi o Suplicy, eu lembro do Suplicy falando nesse Comício, o que ele falava eu não lembro, mas eu lembro do Suplicy. Aliás um dos caras que eu votei muito, Suplicy saia candidato, eu vou votar no Suplicy, porque o Suplicy é quase uma marca, eu acho, para a política brasileira, um poço de honestidade, e tanto que você vê, ele é sempre jogado para escanteio, eu acho, é o meu pensamento, deveria ser um cara mais valorizado, lembrar mais do Suplicy. Eu lembro de um comício dele, sabe aonde? Na praça do Campo Limpo, ele foi candidato a prefeito, não lembro o ano, mas eu lembro de um comício na Praça do Campo Limpo, ele deve lembrar. Eu lembro até que ele falou que gostaria de namorar todas as mulheres, eu lembro mais ou menos isso, ele falando isso, ele era muito dinâmico, hoje ele é mais quieto, acho que em função da idade, mas nessa época ele era bem mais novo.

 

P/1 - Empolgava?

R - Empolgava ver o Suplicy falar. Eu lembro que nesse comício na Praça do Campo Limpo, praça super lotada, mas eu me lembro bem do comício, me lembro bem dele falar isso, eu estava muito próximo, que formava aquela… era um caminhão, aquelas grades abaixadas na época, eu lembro que estava baixada as grades, e ele falando, gesticulando, isso me marcou bem, aquele comício, ele era candidato a prefeito, só não lembro o ano.

 

P/1 - Era PT, as bandeiras vermelhas?

 

R - Era PT já.

 

P/1 - Você foi trabalhar nesse restaurante em Taboão da Serra…

 

R - Eu fui trabalhar no restaurante da firma, o restaurante era da própria empresa, eu só saí de lá porque ia terceirizar, mas eu trabalhei, seu eu não estou engando, 8 anos e 8 meses na CIBA, na Biogalenica, que era filial da CIBA.

 

P/1 - Como cozinheiro?

 

R - Como cozinheiro.

 

P/1 - O senhor cozinhava o que, como eram os pratos?

 

R - Era só 3 tipos de opção de mistura. Por exemplo, o quarto do boi vinha inteiro, aí tinha o cara que desossava, separava as peças, tirava o coxão duro, “vamos fazer bife a rolê", maminha, “vamos fazer a carne assada de panela”, contrafilé, “vai fazer o bife”, eu nunca esqueço, escalopinho que eles chamavam. Então os pratos era mais ou menos esses, naquela época era um basicão, todo dia tinha 3 tipos de mistura diferente, aí ia ter o frango, filé de frango, frango assado e assim era tocado, salada, tinha o pessoal que fazia vários tipos de salada, salada tinha 3, 4 tipos sempre, todos os dias. Então foi aí que eu comecei a gostar da cozinha, aí eu fiz outros cursos. E a Ciba também, todo ano, pagava um curso de reciclagem, empresa muito boa, foi onde eu comecei a ganhar um salário melhor, eu tinha mais tempo… Aquela foto do meu primeiro bar, foi que eu digo, eu vou comprar um bar, então eu saia da Ciba às 14h e aí ia para o bar e comecei a ganhar dinheiro, porque naquela época o bar dava muito dinheiro, você vendia uma cerveja, ganhava mais que o dobro, um litro de cachaça, você fazia 4, 5 litros de cachaça, tudo se ganhava mais, porque o aluguel era barato, a água era barata, a luz era barata. E naquela época, tinha uma coisa muito boa, que as empresas ajudavam, por exemplo, a Skol dava um promoção de cerveja, o vendedor ia lá no teu bar, se você comprar 10 caixas, você ganhava 5 de bônus, então você pagava 10, o lucro era fabuloso. Só que tem um detalhe, meu amigo, eu trabalhei viu, porque aí começou a entrar muito dinheiro e eu ganhava bem na CIBA, eu digo, agora eu vou comprar a minha casa, vou comprar uma casa agora, se Deus quiser. Meu plano era comprar em Taboão, mas aí surgiu um terreno muito bom no Embu, comprei esse terreno, no Embu das Artes, paguei à vista. E aí comprei material, sobrou dinheiro para comprar material, comprei para construir, era um terreno de 10X25, muito plano, um lugar bom, vou construir, o projeto era esse, comprei 2000 blocos, caminhão de areia, muito ferro, cimento. Aí eu tinha um cliente, que frequentava o meu bar, fiz muita amizade com ele, um cara muito gente boa, não lembro o nome dele agora, que foi dono da minha casa, Jailson o nome dele, aí ele ficou sabendo que eu tinha comprado esse terreno, vizinho à sogra dele, os irmãos da mulher dele, aí ele falou assim: “Toninho, você não quer trocar esse terreno na minha casa? Na mesma rua que eu tinha o bar, que eu moro até hoje, ele tinha 2 cômodos, já todo rebocado por dentro, todo acabadinho. Aí eu falei: “não porra, não tenho condição, eu já tinha gasto todo meu dinheiro, com a compra do terreno e muito material, porta, comprei muita coisa”. Aí ele falou assim: “não rapaz, nós fazemos negócios”. Porque ele já tinha ido olhar o terreno, na verdade ele já conhecia, mas quando viu aquele monte de material, eu já tinha cavado os alicerces, esse vizinho meu que faleceu, ele era mestre de obras, foi quem fez o desenho pra mim, negócio bem legal. Aí o cara ficou louco, começou a encher meu saco, “mas eu não tenho dinheiro”.”Eu faço qualquer negócio com você, eu dou prazo”. Quando foi um dia ele veio para o bar, nunca esqueço, uma sexta-feira, um movimento no bar, eu tinha um grande movimento. Naquela época, no bairro que eu moro até hoje, tinha dois bares, que é esse meu, e o bar do Sr. Henrique que existe até hoje, ele está bem velhinho, mas até hoje ele tem o bar, a gente era muito conhecido. Aí uma sexta-feira ele chegou no bar, era umas 16h, começou tomar uma cerveja e tal, foi enrolado, foi em casa que era perto, voltou, o bar já estava mais vazio, já era umas 21h. Aí daqui a pouco foi começando a ficar vazio, ele pediu uma cerveja, aí puxou o negócio de novo, falei: “rapaz, mas que negócio você faz comigo? Qual o valor da sua casa hoje? Eu sei quanto o meu terreno vale, o material que eu comprei. Qual o valor da sua casa hoje?” Aí ele foi e falou assim: “olha, vou falar o negócio pra gente fazer, você me volta 11 mil cruzeiros”. “Não, você é louco!” 11 mil cruzeiros era dinheiro e eu não tinha. Aí ele falou: “te dou um prazo de 45 dias para você pagar esse dinheiro”. Aí eu na hora, tenho férias vencidas, a empresa faz empréstimo, e eu tenho o bar. Aí eu falei: “eu dou 10 mil cruzeiros”. “Toninho, saí de casa com as minhas contas feitas, com menos eu não dou, se você não quiser, mas eu estou te dando uma chance de você morar aqui.” Para eu não pagar aluguel, eu tinha feito um mezanino no bar, o bar era alto, morava dentro. Fiz um negócio bem legal, tinha banheiro, tinha tudo, o bar não era tão pequeno, aí eu morava dentro do bar, para juntar dinheiro.

 

P/2 - Mas e a casa lá do Embu?

 

R - Aí nós vamos chegar lá já. Não era casa, eu comprei esse terreno para fazer a casa. Aí eu fui e falei assim: “tá feito!” Eu não tinha um centavo, fiz o negócio para pagar em 45 dias sem um centavo, só que eu tinha muita mercadoria no bar e vendia muito. E eu tinha férias vencidas e se eu precisasse, a empresa naquela época facilitava um empréstimo, você levantava uma grana e pagava… eles facilitavam. “E minha a casa, tá feito!” Isso era uma sexta-feira, sábado eu não podia e nem ele, ele trabalhava na prefeitura de Taboão da Serra, ele era guarda, não podia, estava de plantão, para segunda-feira a gente fazer o contrato, aí fechamos o negócio, segunda-feira fechamos o contrato, tá feito até hoje em casa, imobiliária Tropical, não tinha escritura na época, depois eu que tirei a escritura, aí fechamos o contrato. Aí que eu trabalhava, cansei de dormir em cima da mesa de sinuca com a panela de pressão ligada pra eu fazer caldo de mocotó, sarapatel. Eu vendia de tudo, era um bar que domingo ficava assim, sábado e domingo. Aí comecei juntar dinheiro num saco, debaixo do colchão, naquela época não colocava no banco. Eu trabalhava, fui lá e pedi minhas férias, Sr. Paulo, era meu chefe, falei para ele o que tinha acontecido, “não Toninho, se você precisar a gente dá um jeito de levantar um dinheiro”, “ Se eu precisar, se até lá eu não fizer os 11 mil cruzeiros, contando com as férias”. Aí meu amigo, aí que eu trabalhava, cansei de 3, 4 horas da manhã estar fazendo comida para vender no domingo, sábado. E aí, 35 dias, eu não contava o dinheiro, só jogava no saco, aí eu comecei a vender a mercadoria, como eu tinha muita, cerveja, pinga eu tinha demais, começava e não comprava, ia comprando conforme eu precisava, só juntando, só vendendo. Aí com 35 dias, um dia à noite eu fechei o bar, era meia noite, eu vou contar o dinheiro, já tinha os 35, contando com as férias. Fiz as contas das férias, fui contar o dinheiro, somando dava os 11 mil cruzeiros. Aí chamei ele no dia seguinte, eu chegava cedo, para acertar. Aí fui lá na imobiliária de novo, foi feito tudo na imobiliária, o cara ficou contando o dinheiro um tempão, que era muitas notas, aí contou, conferiu, cara foi testemunha, esse cara virou muito meu amigo, depois ele que mexeu para tirar a escritura, que era o corretor, esse cara é falecido também, aí paguei lá, já fui dormir em casa, porque ele já estava tudo no jeito, a sogra tinha uma casa lá, para ele construir e até hoje ele mora lá, família mora lá. Paguei ele e comecei, eu fiquei nesse bar 5 anos, aí depois eu vendi, porque você cansa muito. Eu tive vários, aí foi quando eu abri a casa do norte no Taboão, descansei. Nessa época, quando eu vendi, eu já logo em seguida arrumei um casamento, que eu já tinha casa, papai falava, “quem casa, quer casa fio”, então eu tinha isso comigo. Quando eu casei com a  minha mulher, a gente já tinha essa casa, eu já tinha essa casa, depois, hoje, minha casa é até uma casa boa, graças a Deus, uma casa confortável, mas foi depois que eu casei com a minha mulher, que aí ele veio a somar, graças a Deus.

 

P/1 - O senhor reformou a casa?

 

R - Reformei, aumentei, hoje é uma casa boa, com 3 quartos, 2 banheiros, tudo fui eu que fiz.

 

P/1 - Mora até hoje lá?

 

R - Moro até hoje.

 

P/1 - Qual é o nome do bar?

 

R - O bar era o Rei do Mocotó, era escrito bem grande. Hoje tem essa faixas bonitas, aquela época era escrito na parede, o cara vinha, escrevia, até hoje tem a parede lá, não está escrito mais, porque colocaram azulejo, mas naquela época era só rebocado, o cara fez um acabamento, aí fez um quadrado grande, “O Rei do Mocotó”. E ficou famoso, rapaz, vinha gente de longe tomar caldo de mocotó, que essa receita eu tenho ela até hoje, eu vendia muito, o pessoal ficava na balada, aí quando amanhecia o dia, eu abria cedo, sexta, sábado e domingo, eu passei a trabalhar à noite na firma, fiz várias horários depois, negócio foi… então eu abria cedo, sábado, domingo. O pessoal saia da balada, passa lá, “vamos tomar um caldo no Rei do Mocotó”, vendia muito, ganhava muito dinheiro com o bar, 5 anos, eu vendi porque não aguentava mais e não queria sair da empresa. “Vou descansar, porque é muito cansativo, sábado, domingo e feriado”. Esse bar durante 5 anos eu fechei ele uma vez, coloquei uma plaquinha ainda, “fechado por luto”, mas era mentira, não tinha morrido ninguém, para eu descansar, que eu tinha ido numa festa de aniversário do meu tio, de 50 anos de casado em Itu, uma festa bonita, rapaz, inesquecível. “Tem que ir nessa festa”, aí mandei fazer uma plaquinha e coloquei, “fechado por luto”. No dia seguinte, todo mundo, os amigos, aqueles clientes, quem tinha morrido e tal, tive que matar um tio meu (risos), mas era de mentirinha, no fundo, eu rezava pedindo perdão. Mas é porque você tinha um respeito pelo cliente, hoje eu vejo, o cara trata o cliente como se ele… quando eu chego num local que o cara não me dá atenção, que seja numa loja, eu dou as costas, esses dias mesmo acontecia, eu ia comprar uma água, eu tava com o táxi não lembro onde, fui comprar uma água, o cara… parece que tá lá, não tá nem aí para você, eu saio, porque acho que o cliente em primeiro lugar. Esse português tinha isso, o cliente em primeiro lugar, o cliente sempre tem razão, então ele tinha essas palavras, respeito pelo cliente é o que falta, às vezes abre um negócio lá, “não deu certo”, tem que ter respeito pelo cliente, você tem que ter, cativar o cliente. Que nem eu te falei, ele falando da feijoada, eu tive um bar que eu fazia feijoada, o pai dele foi almoçar comigo um dia, foi uma honra, foi pessoas aqui de Pinheiros, poderia almoçar em qualquer outro lugar, pode pagar em qualquer outro lugar e foram comigo, ali da Pedroso de Morais teve um casal que levou 2 filhas, o cara é um dos sócios do Habib's, o cara poderia almoçar em qualquer lugar, poderia comer feijoada no Bolinha, melhor feijoada do Brasil. Ele foi lá por quê? O respeito, a amizade. E esse pessoal que trabalhava comigo, inclusive, eu vou reabrir a feijoada, se Deus quiser, já até mandei fazer a faixa, o projeto era colocar hoje, não sei se vai dar tempo, “em breve, Vera e Toninho retornaram com a feijoada”. Então eu sempre treinava as meninas, sempre trabalhei com moças, “o primeiro passo, o cliente pisou na sua calçada, você vai lá e recebe ele”. Ele se sente acolhido, ele tem aquela… Isso graças a Deus eu aprendi com esse português.

 

P/1 - E como é ser dono de bar, é uma dor de cabeça? Você passou por alguma coisa que te marcou nesses estabelecimentos?

 

R - Assalto! Isso marcou, esse primeiro bar que eu comprei, eu sofri um assalto, eu acho que não tinha nem 30 dias que eu estava lá, era um domingo, o bar estava lotado, chegou dois caras, uma arma desse tamanho, nem sei que arma que era, eu sei que era uma arma grande, não era um revólver, por exemplo, porque revólver é menor, era uma arma grande. Chegou, já anunciou o assalto, duas portas de aço, e aí um numa porta, outro na outra, só tinha aquela viguinha no meio, “ninguém se mexe, é um assalto”. Aí eu gelei, eu estava dentro do bar, dentro do balcão e aí um ficou com a arma em punho, assim, porque não era uma arma pequena, não era com a mão, era com as duas mãos, e fazia assim. E o outro fazia a limpeza, catando todo mundo. O pessoal estava jogando apostado na sinuca, porque tinha uma sinuca no meio do bar e jogava-se muito apostado naquela época, e o dinheiro era em cima da mesa, o dinheiro era assim na tabela, “dinheiro casado” como eles dizem, e era o jogo alto, eu lembro que era um jogo alto. E aí foi catando o dinheiro de todo mundo, olhando carteira, naquela época não tinha celular, ainda bem. E aí fez a limpa e comigo eles não mexeram, eu lembro que o assaltante que estava recolhendo o dinheiro de todo mundo, quando ele recolheu, eu pensei “agora é minha vez”, ele foi até mim,  apontou o dedo assim, “com você não vai acontecer nada, mas fica quietinho”. Como se diz assim, não fala para ninguém, não denuncia, eu já entendi a mensagem. E aí essa marcou muito, eu fiquei com muito medo de continuar, porque eu estava iniciando a carreira de bar, então isso foi um dos momentos bem difíceis, mas nesse bar, durante cinco anos foi só esse assalto. Eu tive outros comércios, mas também, nunca mexeram comigo, graças a Deus.

 

P/1 - Mas você fez muito amigo, muita gente você conheceu?

R - Fiz muitos amigos, eu mexendo com essas fotos ontem à noite, por algum momento saiu lágrima dos meus olhos, um amigo que eu perdi, ele era cliente e amigo, esse aí foi doloroso, ele trabalhava na Camargo Corrêa, foi assassinado, dentro do caminhão, aí ontem eu estava vendo a lembrancinha dele. Fiz muitas amizades, graças a Deus, eu sou de fazer amizades, porque o papai falava, “é melhor amigo na praça que dinheiro no caixa”. Então eu sou de fazer amizade, é claro que a gente não consegue agradar todo mundo, porque nem Jesus Cristo agradou, mas pelo menos eu tenho uma boa amizade, tenho muitos amigos, o pessoal me respeita muito. Tem esse time de futebol, eu sou um dos líderes junto com Joãozinho, a gente tem um círculo de amizades, inclusive esse rapaz que vai casar hoje é do time também, eu tenho um círculo de amizades muito bom. Eu gosto de bar até hoje, eu sempre gostei, eu tenho esse táxi há 27 anos, mas eu sempre tive bar, o Luís é testemunha, eu tive lanchonete, tive essas duas Casas do Norte, eu adoro bar, porque o bar eu sempre falo para minha mulher, no bar acontece tudo, você sabe de tudo, eu falo para ela, às vezes ela fica brava comigo. Por exemplo, eu sou mais comprar um bar e reformar do que a minha casa, meus filhos mesmo fala, meu filho fala, meu filho é muito correto, muito sério, aí às vezes a mãe reclama para ele, pintar a casa, eu estou há dois anos enrolando e não pinto a casa, a minha mulher está brava, disse que desse ano não passa, aí o meu filho fala, “mãe, deixa ele comprar um bar que ele arruma”. Então eu sou muito disso, eu adoro bar, sou de ir no bar, eu tenho dois bares que eu frequento, eu falo para minha mulher, às vezes eu ligo para ela, estou em tal lugar, no bar de fulano de tal, porque são meus amigos e eles têm muito respeito por mim, são pessoas mais jovens, então pergunta muito. E às vezes eu dou bronca, “não é assim que se trabalha”. Tem um baiano, chama até Tico, eu dou até risada com ele, que ele só dá risada comigo, às vezes eu dou uma bronca assim meio séria, e ele só dá risada, que ele me respeita, questão de amizade também. Então eu vou muito nesses bares, porque eu adoro bar, no bar você aprende muito, você vê muitas histórias, então eu aprendi muito com bar, tem o lado ruim? Tem, como todo lugar. Perigoso? Mas se você souber fazer amizade, que nem eu te falei, todos esses meus bares que eu tive, houve alguns assaltos, que nem no Campo Limpo, houve uns três assaltos, e nunca levaram nada do bar, do caixa, então quer dizer é uma benção, sei lá, o cara quer o dinheiro do cliente. Naquela época que tinha maquininha, no Campo Limpo uma vez, logo cedo, eu abria cedo, ía eu e minha mulher, eu fazia o café de um funcionário que eu já levava de casa, que morava na minha rua. E eu fazia o café, sempre eu que fazia o café nesses bares que eu tive, tive um aqui no Taboão da Serra também, pertinho da Câmara Municipal, na Doutor José Maciel, então eu passava, fazia o café, deixava ela e o funcionário e vou para o táxi, à noite eu passava e fechava. Então, assim, dinheiro meu nunca levaram, então é uma benção. Eu sou protegido, graças a Deus. No Campo Limpo uma vez, eu tava fazendo o café, o cara chegou cedinho, 2 caras, “é um assalto, todo mundo para cozinha”. Aí levaram só o dinheiro das maquininhas, não mexeram no caixa, não levaram nada, então comigo assim, sofri alguns assaltos, mas nunca roubaram nada meu, do bar, sempre os clientes, quando tinha maquininha, dinheiro de maquininha.

 

P/2 - Como é que foi os namoros aqui em São Paulo, e que ano que você casou e teve seus filhos?

 

R -  Eu acho que a gente não chegou lá, mas foi assim, eu tive a Cleide, tem a foto aí, ela é filha de um primeiro relacionamento, que eu não cheguei a casar, que é Ana, o nome da mãe da minha filha. Eu já morava sozinho, ela na casa dela e eu na minha, eu ia na casa dela, ela ia na minha, a gente não era junto, aí veio a Cleide, desse relacionamento, mas a Cleide com um ano de idade, inclusive tem a foto dela. Eu conversava com a Ana, a gente vai conviver, o nosso relacionamento vai durar até nossa filha fazer 1 ano, então era preparado, ela não acreditava muito, mas eu sabia, porque a Ana era uma pessoa, a gente percebe quando não dá para conviver, porque eu tenho um modo de pensar, ela tinha outro, ela é muito estourada, muito ignorante, e eu sou da paz, você pode até pensar que eu sou meio estourado e tudo, mas eu sou da paz. Às vezes, a minha mulher fala meio alto, “calma”! Essa semana mesmo aconteceu, acho que foi na quinta-feira, porque eu desliguei lá o negócio do fone dela e coloquei o meu celular e coloquei aquele negócio lá do fone no sofá, ela ficou brava, chegou, “mas você desligou o meu negócio não sei o quê”. “Poxa, calma meu, eu nem sabia que isso daí…” Sabe, quando você desliga pensando que não tem  utilidade nenhuma? Então foi engraçado. Eu sou estourado, a gente tem hora… casal é assim. Então, a Ana era pior do que você imagina, ela era terrível. Uma vez aconteceu, pouca gente sabe dessa história, mas tem que ficar gravado, eu saí da casa dela, de dentro do banheiro, ela com a faca na mão, na porta, ela é uma paraibana, e falando, “eu sou paraibana”. Sabe que o paraibano tem disso, principalmente a mulher, mulher paraibana, eu convivi de amizades, a mulher paraibana realmente… E ela com a faca na mão, eu sempre tive umas facas grandes, de açougue, eu falei não dá. Então eu preparei ela para com um ano de idade… “esse ano a gente vai fazer aniversário da Cleide…” Inclusive tá foto dela aí, com bolinho de 1 ano, “e a partir dessa data, a gente não tem mais nada”. E realmente não teve. Eu rezava para que ela arrumasse um marido, um namorado, porque ela me encheu o saco. Porque aí eu já comecei a namorar com a Vera, que é a mãe do meu filho Rodolfo, eu não quero mais, porque eu não queria mesmo, estava decidido. E aí eu fui morar em pensão, até em Santo Amaro, eu fui morar na Barão do Rio Branco. Eu lembro que eu cheguei lá uma sexta-feira… ás vezes eu atropelo as coisas, eu sou desse jeito mesmo, mas para ir lembrando, depois vocês puxa. Eu lembro na Barão do Rio Branco, quando eu cheguei lá uma sexta-feira com uma malinha, desorientado, meio perdido, você vai morar com um monte de gente que você não conhece, pensão, vocês já moraram em pensão? Não? Graças a Deus, porque aquilo não é vida. E aí rapaz, isso à noite, era um bando de pernambucano, é uma bebedeira, eu nunca fui de beber, hoje eu bebo mais do que quando eu era jovem, gosto de tomar minha cachaça, gosta de tomar minha cerveja, mas com limites. Às vezes você passa do limite, é normal de qualquer ser humano, mas eu tento não passar dos limites, eu me controlo mais ou menos. E aquela bebedeira, eu nessa época, eu fui pai aos 25 anos, a Cleide, então eu tinha 26 anos. Aquilo ali, poxa, era cachaça, era aquele barulho, som ligado alto, era uma confusão. E aí eu fui para o meu quarto, eu e mais duas pessoas, só que… A dona da pensão apresentava, aquelas duas pessoas para você, fulano agora vai morar com você, era um quarto para três pessoas, então beliche, foi a pior moradia que eu morei. Aí rapaz, aquilo ali o negócio foi engrossando, o pessoal foi ficando bêbado, e eu não dormia, aí eu digo, “meu Deus do céu, não dá para ficar aqui não”. Rapaz, teve uma briga na madrugada, devia ser por volta de uma hora da manhã, 2 horas, só via barulho de garrafa, mesa, foi um inferno aquilo lá, um filme de terror. Eu fiquei super apavorado, porque não tinha por onde sair, era talvez o segundo andar, só tinha o corredor de entrada e saída, a briga era no saguão da pensão. Rapaz, fiquei super apavorado. Resumindo, a polícia chegou, e aí esses dois caras correram para dentro do quarto lá e fecharam a porta, eu fiquei lá super apavorado, eles também, mas eles estavam meio alterados também, porque eles estavam na bebedeira. Eu sem conhecer ninguém, aí a polícia chegou, arrombou o quarto, não arrombou, porque a gente abria. Eu não abri não, eles que abriram, chegaram batendo porta por porta. E aí já prendendo todo mundo, todo mundo preso, porque aí tinha um cara morto lá, os dois esfaqueados, você é doido.

 

P/1 - Você foi no meio?

 

R -  Aí eu fui no meio para delegacia. Uma sexta-feira, que sufoco! Eu e mais um monte de gente, até você provar que você… eu, coitado, os dois caras também não tinham nada a ver. Mas aí foi uma confusão, saí de lá de madrugada, depois teve que ir na delegacia mais algumas vezes, você é chamado, mas graças a Deus nunca aconteceu nada demais. Aí Resumindo isso, eu peguei a minha malinha e fui para uma outra pensão, não na Barão do Rio Branco, não lembro agora o nome da ruazinha, mais um pouco depois, era mais organizada, menos gente, mas eu fiquei pouco tempo. Digo, vou alugar um espaço, foi quando eu aluguei mais de dois comodozinhos e fui viver a minha vida.

 

P/1 - Aí você se casou depois?

 

R -  Aí eu me casei aos 29 anos, eu casei em 91, Rodolfo é de 92. Quando eu casei, logo em seguida, a Vera ficou grávida, eu até não queria de início, vamos dar um tempo e tal, porque você casa, você tem que se planejar para ter um filho, mas foi muito rápido. A Vera toda… então tivemos um filho muito rápido, graças a Deus, foi muito bom, hoje ela fala assim, “tivemos o nosso filho na hora certa”. “Olha, você foi inteligente”. Porque por mim, hoje talvez ele tivesse com 25 vai, e graças a Deus se formou, casou, hoje só está nós dois, eu brinco com ela que a gente não pode se separar, ela não pode me deixar. Às vezes eu apronto, às vezes eu chego de madrugada do bar, eu gosto de jogar sinuca. Um dia desses aconteceu isso, e ela foi até dormir em outro quarto, nunca tinha acontecido isso, eu achei aquilo um absurdo, acordei de madrugada, a mulher não estava na cama, meu Deus, o que aconteceu? A primeira coisa que eu fiz, vou no guarda-roupa, se ela levou as roupas, tô ferrado! Aí estava tudo do mesmo jeitinho, tem três quartos, os três quartos tem cama, digo, ela deve estar em outro lá, embora ela não foi, fui dormir. Acordei de manhã, eu com uma cara de cínico, fazendo aquela média, e ela muito brava, aí eu falei assim: “olha, nunca mais faça isso, porque você me deu um susto danado”. Eu falei: “se você for embora, você fala para onde você vai, que eu vou com você, eu não vou ficar nessa casa desse tamanho sozinha”. Então a gente leva mais ou menos assim e vamos vivendo. Hoje está uma vida maravilhosa, porque a gente já não tem mais tanta aquela responsabilidade, tem responsabilidade, mas é diferente quando você tem filho pequeno para educar, então é diferente.

 

P/1 - Tem 2 filhos?

 

R -  Dois filhos. Tem a Cleide desse relacionamento, que tem 34 anos hoje e o Rodolfo tem 29, que é filho da Vera. Ela nasceu em 87 e o Rodolfo nasceu em 91, que eu casei 90, não, Rodolfo nasceu 92. Eu casei 27 de junho de 1991, o Rodolfo nasceu primeiro de junho de 92.

 

P/1 - Como é que você virou taxista, como é que foi isso?

 

R -  Então, vou te contar, virei taxista quando abri essa Casa do Norte em São Miguel, nós até estava vendo a data do curso que eu fiz, essa noite. Ontem eu  fiquei até meia-noite vendo documentos, vendo muita coisa, fotos, ela trouxe essas caixas que chama organizadora, uma caixa desse tamanho cheia. Não dá para ver tudo, também na história não dá, vamos selecionar alguma coisa, quando eu era moleque e depois dos filhos, do casamento que eu trouxe o álbum, ele até que… as três fotos do álbum, ela que, “essa aqui tá legal e tal”. Tem umas com os pais dela, com a minha mãe, uma com meu irmão, então é isso. Aí sim, abri essa Casa do Norte em São Miguel, na década de 90 também, foi logo que o Rodolfo nasceu.  Rodolfo era pequeno. Lá eu abri de sócio, eu nunca tinha tido sócio, lá eu tive. Abri com um concunhado meu, chama Claudemir. Lugar muito bom, um movimento muito bom, eu que sempre cozinhava, sempre cozinhei. Casa do Norte você tem que ter tudo, porque é onde vai o nordestino mesmo, aquele cara que quer comer à tripa assada, ele quer comer o sarapatel, comida pesada, a buchada, a carne seca, o Jabá. Então tinha de tudo, eu fazia. Meu cunhado era mais na parte de compras, de organização, porque ele nunca tinha tido esse tipo de negócio, ele tinha saído de uma empresa, e aí a gente acabou arrumando essa sociedade, e foi bom, igual casamento, bom enquanto durou. Porque depois, quando o cara  não nasce para o comércio, não dá, ele começou a ficar enjoado de trabalhar sábado e domingo. Por exemplo, nós folgava, eu trabalhava um sábado e um domingo, folgava um, ele folgava outro, na sequência, um sim, um não, só que o seguinte, eu sou muito pontual, eu aprendi com português, ele falava assim: “Toninho, a padaria abre 5 horas, então 5:05 não é mais 5 horas”. Ele era corretíssimo, então eu aprendi isso. Por exemplo, domingo nós abria lá 7 horas, então às 7 horas vai ter que estar aberto, meu cunhado era sossegado, abria às vezes 9, 10 horas, “não dá, nós temos horário”, tem que ser cumprido. Porque o cliente acostuma, por isso que eu digo, o respeito pelo cliente é pouca gente que tem, é por isso que muitos negócios não dão certo. Eu não tenho medo de abrir em lugar nenhum, qualquer lugar eu faço uma clientela. Hoje eu encontro pessoas que perguntam, “e a feijoada, você não vai voltar?” “Nós vamos voltar!” Quero ver se agora em maio, se tudo correr bem, Deus abençoar, vamos ver se vai dar certo, preciso dar uma reformadinha, mas já está encaminhado. Porque é o respeito pelo cliente, eu tenho um carinho, se você ver eu trabalhando, quando tenho tempo, vou na mesa perguntar se tá tudo bem, se falta alguma coisa. Por exemplo, você pediu uma feijoada, voltou um pouco de comida, eu vou ter que ir na mesa perguntar porque que você não comeu, “aconteceu alguma coisa, não tá boa, faltou alguma coisa?” Você entendeu? Então eu tenho disso, esse carinho pelo cliente. Uma vez aconteceu uma cena assim, que foi muito engraçado, mas por exemplo, você está sentado lá comendo e tal e eu chegar por trás assim e começar a fazer uma massagem, “pô meu, relaxa, essa massagem aqui está incluso no preço”. Eu tenho disso, então eu sou assim, minha mulher fala que eu sou muito dado, mas não é, é o meu jeito de ser no comércio, eu sou muito prestativo, com o táxi eu também sou assim, eu abro a porta, eu quero ajudar, então é assim. Voltando ao assunto do táxi, foi quando esse meu concunhado, falou assim: “vamos vender a Casa do Norte, eu falei: “corretíssimo, vamos vender!” Na época eu poderia até fazer um esforço e comprar a parte, mas o que que eu pensei, é família, aí vão falar assim, “o cara se aproveitou”. Não, pensei comigo, “vamos vender. Nós divide, cada um segue seu rumo”. Aí ele foi e falou “Toninho, você não quer trabalhar com táxi”. “Táxi? Eu nunca trabalhei com táxi”. Ele falou assim: “mas eu tenho um primo meu, que tem dois alvará, e ele passa um para mim e um para você”. Naquela época era baratinho. Rapaz, eu pensei mil vezes. Eu tinha, tava até vendo as fotos ontem, uma Caravan, na época era um carrão, vidro elétrico, direção hidráulica, era um carrão, tem até uma foto do meu filho sentado no capô dela. Aí eu digo, “eu vendo a Caravan, compro um carro de táxi, emplaco, tá certo”. Fiz isso, vendemos a casa do Norte. Aí eu fui na feira, na época tinha uma feira ali perto da Penha, chamava a Hipermercado Paes Mendonça, hoje não é mais, hoje acho que é do Extra, sei lá, mas chamava Paes Mendonça, todo domingo tinha uma feira grande, aí fui com a Caravan para trocar num carro para emplacar o alvará, que o alvará tava depositado. Aí deu facíl, rapaz, tinha um Voyage azul metálico, lindo, aí o cara interessou na Caravan, sabe um negócio casado? O cara tinha comércio, olha só! A Caravan, para quem tinha comércio, uma mão na roda. Foi duas palavras ali, rapidinho nós fizemos negócio, eu até peguei um pouquinho de volta de dinheiro, não lembro o valor. Aí emplaquei o alvará no Voyage, foi quando eu comecei.

 

P/1 - Que ano que foi?

 

R -  Foi em 94, porque ainda não era real, era URV, depois que converteram, foi um negócio meio complicado, quando eu entrei na praça… o Real entrou quando? Em 95 ou em 96?

 

P/2 - Foi 94.

 

R -  Então, eu entrei em 94, era URV, eu sei que logo em seguida virou real, isso eu lembro bem, que era meio complicado a conversão, aí logo em seguida virou real. Foi em 94 que eu comecei. E aí meu jovem, eu não tinha ponto, era rodando na rua. “Rapaz, isso não é vida.” Eu lembro que um dia eu rodei ali no Brás o dia todinho eu fiz uma corrida de seis reais. Mas também eu não sabia, era totalmente leigo no assunto, totalmente perdido, não conhecia a cidade, era no guia. Só que naquela época você fazia um curso, você fazia até uma prova para você aprender a ler o guia. Por isso que eu sou bom no guia hoje, eu tenho meu guia no porta-malas do meu carro, ontem mesmo eu usei ele. Se ele me ligar, por exemplo, “Toninho eu preciso ir à rua tal tal, tal hora”. Eu não uso GPS, se eu não conhecer, que eu conheço muito, eu uso o guia, eu vou lá no guia, porque o guia você estudando, você aprende, GPS você não aprende. Você viu o que um cara fez ontem no túnel, porque o GPS mandou ele entrar no túnel, entrou com um caminhão dessa altura que não cabe no túnel, é burrice meu amigo, porque a máquina deixa você mais burro, se você não souber usar ela, a tecnologia é boa, mas se você souber usar, se você não souber usar vai te deixar… olha o que o cara fez, causou um puta problema para cidade, eu não sei se você ficou sabendo disso? Então eu olho no guia e tenho uma puta facilidade para olhar, então você aprendia. Só que pra mim…me perdi muito, sabe? Então eu digo, isso não é vida para mim. Aí escuta só, eu estou no táxi hoje por causa da dona Vera, eu chamo ela de dona Vera, minha esposa. Aí comecei, sei que eu trabalhei três meses na rua, só que como eu tinha um bom currículo de cozinheiro, comecei a mandar currículo, aí a GR me chamou, a GR é uma grande, não sei se você sabe, mas no ramo de cozinhas terceirizadas, eu acho que ela é primeiro lugar se eu não estou enganado, aí me chamou, para trabalhar na Nitro Química, aí eu fui lá, fiz o teste, passei. Aí o que eu fiz, eu fiquei com o táxi fazendo bico, que eu saía 3 horas da tarde, fazia um bico, batendo lata, até foi bom porque aprendi muito também. E trabalhando na GR. Aí quando foi um sábado eu passei Itaquera, “vou vender essa porcaria dessa alvará, vou ficar só na firma”. Só que estava tudo pago, carro pago. Passei em Itaquera, final da tarde, um monte de amigos lá, tudo conhecido, falei com Fulano lá, “compro, sim eu compro, o carro é meu”. Falei, “tá vendido!” Aí cheguei em casa e falei para mulher. Só que eu tinha emprego. “Você tá ficando louco? Não, você vai vender o alvará, o carro, sem necessidade. Você tá empregado”. Olha como a minha mulher tinha razão. Eu estava desmotivado, porque eu digo, “não, isso não é serviço para mim”, eu tava acostumado com cozinha, cozinha eu gosto de cozinhar, adoro a loucura de uma cozinha, aquele “pega para capar”, como se diz. “Você não vai vender!” “Mas já está vendido!” “Você não recebeu nada, não está vendido”. Desse jeito! “Você está empregado, o carro fica como um bico, para a gente passear, quando você fizer alguma coisa tá feito, não precisa você vender o alvará”. Esse alvará, ele tinha um ponto lá no Pari, no Hospital Nossa Senhora do Pari, na rua Ramara com a Rua Vautier, lá é só fraturas. Aí eu falei: “sabe que você tem razão, mas eu já fiz negócio”. “Não tem esse negócio de negócio, você não recebeu nada”. Isso no domingo, fui na casa do cara, que eu sabia onde ele morava, em Itaquera, “rapaz é o seguinte: a mulher não deixou vender”. “Mas que homem é você?” Aquela brincadeira, que a gente era tudo amigo. “Rapaz, minha mulher tem razão, eu não devo nada do carro, eu não devo nada de alvará, estou empregado, fazer um bico”. “Não Toninho, tudo bem!” Aí passou, fiquei com carro, aí o que eu comecei a fazer, eu saía da empresa e vinha para o Pari, alí é um ponto sensacional, maravilhoso, não parava, porque lá, como é só fratura, o cara vai sair com o braço engessado, a perna engessada, o cara vai usar o táxi, naquela época era só táxi. E aí comecei, vim e fazia muito dinheiro, das 3 horas da tarde trabalhava até às 7, 8 horas da noite. Comecei a ganhar muito dinheiro, táxi dava dinheiro. Aí fiquei mais três meses na firma, tinha seis meses. Só que o pessoal me adorava, que eu desenrolo bem na cozinha, aí cheguei para chefe e falei assim: “eu quero as minhas contas, eu vou embora!” “Como vai embora? De jeito nenhum!” Me levou lá para escritório para falar com subchefe dela lá, aí eu falei “eu comprei um táxi já tem algum tempo, tô com ponto muito bom, eu vou sair um pouco da profissão”. Eles não queriam de jeito nenhum, mas era decisão minha acertar as minhas contas, e aí eu fui para o táxi, sempre sai cedo de casa, e aí comecei a ganhar dinheiro, ganhava bem mesmo. E fiquei lá. Sim, só que aí venceu o prazo para gente ficar em São Miguel, minha casa estava aqui em Taboão, “vamos voltar para Taboão? Vamos”. Foi quando surgiu esse ponto onde a gente está hoje, estava sendo fundado, esse meu concunhado era um dos fundadores junto com o Enercino, com Inésio, o seu Cândido, que é falecido. Chamou para nós trocar os pontos, nós troca, naquela época, era ir na prefeitura, tudo mais fácil, hoje é uma burocracia, “não pode, isso não pode”, se é bom para as duas partes, porque não fazer? Aí fomos na prefeitura, inclusive na época era aqui na Herman Júnior. Eu nunca esqueço, na mesa lá, nós todos sentados, toda documentação, era um cabecinha branca, que eu não me lembro o nome, ficou muitos anos na prefeitura, nós já conhecia ele, falou assim: “quanto está rolando de dinheiro nesse negócio? Porque você trocar um ponto no Pari, num hospital, por um ponto que está sendo fundado”. Aí eu falei assim, “simplesmente para facilitar a minha vida, cruzar a cidade todos os dias não dá”.

 

P/1 - O ponto era onde que você ia?

 

R -  Meu ponto fica na Rua dos Pinheiros com a Antônio Bicudo, do lado direito, onde ele mora, na Capitão Prudente. Aí eu pedi para que transferisse para o lado esquerdo, para não atrapalhar ninguém, porque tem três faixas, dava um puta trabalho. Aí a prefeitura, depois de um ano que eu pedi, fizeram, aí estamos há 7 anos do lado esquerdo, Aí isso foi feito, e aí me dei bem graças a Deus, ele também ficou lá não sei quantos anos, porque ele morava na zona leste e eu morava aqui, pô! Porque eu já tinha pesquisado, eu pesquisei na Henrique Schaumann, ali onde era o Credicard, tinha um cara da zona leste que trocava comigo e um do Conjunto São Luiz, na Juscelino Kubitschek, também trocava comigo, que morava em Guaianazes, tudo na zona leste, e eu para cá, todo mundo trocava. Só que eu optei por aqui, por duas razões, por ser meu concunhado, e outra, porque você já está mais perto para cruzar a ponte, porque o grande problema da cidade é cruzar as pontes, você vai cruzar qualquer ponte é um trânsito danado. E aí, graças a Deus, tô aí até hoje, me dei bem. Só que aí eu sempre em bar, aí eu comprava lanchonete, minha mulher toma de conta e eu também, sempre tive um serviço paralelo, minha mulher é uma guerreira, se vamos comprar um bar, ela topa na hora. Inclusive essa feijoada, ela que tá me enchendo o saco, eu estou enrolando um pouco, ele que tá enchendo o saco pra gente fazer, porque ela gosta também. Graças a Deus, ela é uma boa profissional. E tem um detalhe, ela tem um respeito, a turma chama ela, como eu chamo ela de dona Vera, todos os clientes chama de dona Vera, e ela sabe coordenar o negócio. Eu sou mais da cozinha, eu sou mais aquele de fazer o social, ela não, ela é administrar, ela faz isso daí.

 

P/1 - Você passou alguma coisa que te marcou esses anos todos no táxi?

 

R - Eu passei momentos muito bons, que aprendi muito. E também… assim, eu sou um homem abençoado por Deus, porque todos esses anos, já 27 anos, não dá 27 que foi 94, tá vendo, dá 27 anos, está fazendo 27 anos. Então, assalto, eu só sofri um assalto, eu sou privilegiado graças a Deus, porque todos esses anos… Passei momentos difíceis, ter que abandonar o carro, já fiz isso algumas vezes, eu acho que eu fiz isso três vezes, se eu não estou enganado, eu fiz uma lá na Avenida do Estado, fiz a outra na Zona Norte, lá na Júlio Bondo, não, acho que foi duas vezes que eu abandonei o meu carro, foi duas vezes só e sofri um assalto, então foi esses 3 momentos assim, mais tenso. E também, uma vez eu peguei um casal, tinha um rapaz, e ele tem problema mental, esse aí foi uma situação difícil, ele tentou me dar uma gravata, e eu quase bati o carro, isso aí foi duro.

 

P/1 - Algum passageiro que te marcou?

 

R -  Um cara sensacional, que me marcou muito foi o Raí, que eu carreguei, o Raí eu tive oportunidade, dele falar dos projetos dele, ele tem um projeto que eu não lembro o nome agora, mas eu sei que é na Zona Norte, até cheguei ir lá, Gol de Letra, então isso marcou muito, de um cara generoso, de coração bom, de falar da família e desse projeto dele, isso aí me marcou bastante mesmo, e ter a sua oportunidade… Carreguei outras pessoas, que nem aquela atriz que ela fez a Tieta, como é que chama ela? Fez a Tieta na novela, você sabe que ela é amiga da Sara Silveira, famosa ela… Betty Faria, carreguei já a Betty Faria também e aquele Caco Gabus Mendes também, gente boa também, cara bom.

 

P/2 - Você voltou para o Ceará e depois voltou para cá…

 

R - Então, olha para você ver como é as coisas, eu falei no início daquele terreno que eu escutei a história e acabei comprando, que era o meu sonho, comprar e voltar para o Ceará. Isso foi feito, graças a Deus eu consegui, minha mulher sempre me apoiou em tudo. Aí eu comprei esse terreno, não lembro o ano, mas faz uns 25 anos que eu comprei, sempre na mão dos outros, mas o meu projeto foi ir sempre para o Ceará, quando meu filho tinha uns 13 anos mais ou menos, eu arrumei tudo para ir, minha casa já estava alugada, de boca, sempre os meus negócio é de boca, que acreditar em mim, acreditou. Aí o meu filho entrou em desespero, um dia à noite lá, acho que era a noitinha já, não sei que horas, eu já cheguei com a proposta da casa alugada, e a gente ir para o Ceará. Ele adorou o Ceará quando era pequeno, que a gente fez alguns passeios, mas com essa idade, já tem a namoradinha, aí ele enlouqueceu, não queria ir de jeito nenhum. Aí eu entrei em desespero, mas o projeto era esse e tal, sentei ele no sofá, aí falei, “tá bom filho, então o pai não vai, você vai estudar, se preparar, quando você estiver formado, eu vou embora para o Ceará”. Então isso foi feito, ele foi estudar, inclusive, logo depois, uns dias depois, ele falou assim, “pai, é o seguinte, porque quando você aposentar eu não trabalhar com o seu táxi?” Aí eu peguei nos dois braços dele, sentei ele no sofá, “não, você não vai trabalhar com meu táxi, você vai estudar, porque você pode ter um emprego melhor do que o meu, não é discriminando o meu emprego, mas no meu emprego você tem que trabalhar 12, 15 horas, às vezes 18 horas, depende da situação, você tem que trabalhar 18 horas, depende do cliente”. Por exemplo, sábado 11 horas da noite, eu estava em Pinheiros, mas um cliente bom você não pode deixar, por isso que eu digo, é o respeito ao cliente, porque que o cliente vai me chamar, porque sabe se ele me chamar, só se eu morrer, mas eu vou ter que atendê-la. Aí eu falei, “você não vai trabalhar com o táxi por essa razão, táxi é isso, isso e isso. Você vai estudar, se preparar, você pode trabalhar de segunda a sexta, um serviço mais leve, um serviço menos arriscado”. E graças a Deus meu filho me ouviu. Vamos chegar onde eu digo, vamos para o Ceará, meu filho se formou, aí dona Vera topa, “vamos para o Ceará!” Arrumamos as coisas, troquei esse bar que eu tinha num carro, um corsinha, não lembro o ano, mas bem arrumado, peguei o resto em dinheiro, dei uma arrumada, uma revisão geral no carro, aluguei a minha casa, e aí vamos para o Ceará eu e dona Vera, coloquei tudo que cabia dentro de um Corsa, que não cabe muita coisa, deixei só o banco da frente para ela, enchi esse carro, uma televisão, roupa, essas coisas mais… foi cheio, só tinha eu e ela na frente. Foi uma viagem maravilhosa, aquele sonho de tantos anos eu realizar, deixando para trás os meus filhos, eu tenho um neto com 10 anos, mas no dia eu não estava com saudade deles, eu estava focado em ir para o Ceará. E aí fomos, três dias de viagem, não passei de 100, super tranquilo, uma das noites dormimos lá… uma cidade na Bahia, tem um escritor famoso, eu até conheci algumas coisas, Euclides da Cunha, chegamos lá cedo, vamos ficar por aqui mesmo e ficamos lá. E aí, para não encompridar muita a história, que ela é longa, cheguei lá, o meu terreno é muito bom, comecei a trabalhar igual um louco, comprei umas vacas, comecei a tirar um leite, fiz muita coisa no terreno, todo dia tinha trabalho. Só que hoje é muito difícil você achar mão de obra, ninguém quer trabalhar, lá é uma dificuldade, para o cara trabalhar você tem que marcar com ele antes, foi moleque com 22 anos, 25 anos trabalhar comigo e eu com 60 anos, deu meio dia dispensar, que o cara não paga a comida, imagina o cinquenta reais por dia, que você pode até pensar que não, mas lá é bem pago um dia de serviço, porque não é só os 50, você tem que dar a merenda de manhã, que não é uma merenda, tem que ser carne com arroz feijão, o almoço, à tarde um café, então não sai barato, para o cara não produzir, sem contar que eu sempre falo, acho que não tem lugar nenhum no mundo que tem uma carga horária tão pequena como o Ceará, porque o cara chega na sua casa 7 horas, vai almoçar, como se diz, porque a merenda lá é quase um almoço, aí começa a trabalhar 8 horas, por exemplo, que nem minha roça você vai a pé, você gastar uns 15, 20 minutos, você vai começar a trabalhar 8:30, 11 horas, vem para casa, chega umas 11:30, almoça, retorna uma da tarde, chega na roça 1:30, 4 horas para. Me diga qual lugar do mundo tem uma carga horária tão pequena? Não existe, porra, eu falava para os caras, “não existe em lugar nenhum do mundo, isso não é carga horária”. Aí isso daí me deixava muito nervoso. Sim, aí a dona Vera, minha mulher nasceu no Paraná, veio para cá, acho que com 5 anos de idade, para São Paulo, aí eu percebia que ela não se adaptava, aí começamos a ter problemas. Puta que pariu! Quando foi um dia ela falou: “eu quero ver gente, não aguento mais”. Porque sítio, você dorme cedo. Minha mulher é muito elétrica, é festeira, adora festa, se ela pudesse, ia numa festa todo dia. Aí eu falei assim: “vai para lá então”, ela veio para cá, ficou acho que um mês, dois meses, eu não lembro, ela lembra melhor que eu, para matar a saudade dos filhos e tal e eu fiquei lá, ela retornou, aí eu comecei a perceber, ela chegou para mim, falou: “não dá, a gente vai ter que ir embora”. Só que eu já tinha feito um investimento “e agora, o que eu vou fazer?”. Ela veio para cá, “vai de novo”. Eu fiquei seis meses lá sozinho, cozinhando, veio duas irmãs para São Paulo, 40 dias eu fiquei totalmente só, depois a minha irmã voltou, mas mora na casa dela, cada um tem sua vida. Eu fiquei naquele casarão, depois você vai ver a foto do casarão, sozinho, só pensando, chegava do trabalho, começava a pensar, “o que que eu fiz da minha vida? É um sonho, mas um sonho que eu não estou feliz, minha mulher está lá, meus filhos estão lá, meu neto está lá”. Começou a me dar saudade, “vou ter que ir embora”. Aí comecei a organizar, arrumei um rapaz para arrendar o terreno com tudo que eu tinha dentro, por cinco anos, fizemos a documentação, e resolvi vim embora, deixei tudo para trás. Tive até prejuízo, mas prejuízo, como papai falava, você recupera, você não recupera sua vida. Ele gostava de falar, “filho, se você nascesse e se criasse, nunca perdesse um centavo, todo mundo era rico. Então dinheiro vai, dinheiro vem. Dinheiro é isso”. Ele falava, “dinheiro só serve para duas coisas, para gastar e passar troco”. E é verdade, você pensando bem, dinheiro é para seu bem estar, usufruir dele.

 

P/1 - Você teve quantos irmãos?

 

R - Nós somos em 15. 6 da primeira família e 9 da segunda.

 

P/1 -  Eles todos saíram do Ceará, foram para outros lugares?

 

R -  A primeira família, dos seis, ninguém! E da segunda família, 2 também nunca saíram, 7 saíram, dois ficaram lá, estão lá até hoje, que são duas irmãs.

 

P/1 - E os 7 foram para que estados?

 

R - Eu tive um irmão que foi para Rondônia, essa minha irmã foi para o Paraná, esse meu irmão teve em Brasília alguns anos, depois esse pessoal voltou todo para São Paulo, tanto João, como Afonso, como o Neto. Esses que moraram fora, vieram para São Paulo, o restante também tudo em São Paulo.

 

P/1 - Vocês se encontraram em São Paulo depois?

 

R -  É! Fomos nos encontrando aqui.

 

P/1 - Como é que foi se encontrar?

 

R -  É muito gostoso, irmão, aquele círculo de amizade, muito próximo, que a gente teve uma educação assim, de um ajudar o outro, até hoje, graças a Deus, nossos irmãos sempre foram muito unidos. Tem divergências? Tem! Mas de chegar em um acordo e resolver, que nem agora, a gente dividiu o terreno que a minha mãe deixou, não tivemos problemas, teve um boato que ia ter confusão e tal, mas graças a Deus, foi resolvido, eu acho que de uma maneira que agradou. Nós somos em nove, ficou para quatro, os outros venderam as partes, então alguém vai ter que abrir mão de alguma coisa, porque se você for levar a ferro e fogo como é que você vai dividir um negócio? 54 hectares de terra para ficar todo mundo igual, alguém tem que perder alguma coisa, às vezes você perde aqui, ganha ali, mas graças a Deus chegamos num acordo, deu tudo certo! A gente quando estava todo mundo aqui, tem dois que aposentam que agora estão morando lá, aposentaram aqui, mas quando estava todo mundo aqui, toda sexta-feira Santa, a gente almoçava todo mundo junto, pelo menos uma vez por ano, e de vez enquanto se encontrava, mas a sexta-feira santa era sagrada, “vamos fazer o almoço esse ano na casa do Toninho”, então vai todo mundo, então foi sempre disso, graças a Deus, a gente teve essa participação de dividir.

 

P/1 - O que você acha dessa necessidade de cada um ir para um lado?

 

R - Eu acho difícil, que nem eu te falei, na seca de 70, meu irmão já foi trabalhar fora, porque tinha aquela frente de trabalho, que era longe, só vinha a cada 15 dias, então você já começa a sentir, quando saíram então, esses mais velhos, aí você sente, “puxa, porque tem que sair?” Você vê a situação, porque o que obriga realmente é a dificuldade financeira. Hoje está melhor, tem muitos projetos bons de governos, foi melhorando ao longo… Mas naquela época não tinha nada, ninguém ajudava com nada, você entendeu? Então era muito difícil! Hoje não, eu vejo lá, eu tenho primos que nunca vieram para cá, graças a Deus, fizeram a vida deles lá, tem muita ajuda, projetos do governo que às vezes é até perdoado, você levanta uma grana, às vezes paga com a metade, para você investir no seu terreno. Então isso mudou muito, ao longo do tempo, mas na minha época, o cara saia, porque saía. Que nem esse meu irmão Afonso, um cara super trabalhador, trabalhava muito na roça, mas aí vem aquela seca, o cara não consegue tirar nada, aí fica aquela dificuldade, é muito difícil, por não ter essa ajuda. Hoje já existem muitos açudes do governo que foram feitos, eu lembro quando o açude da Betânia foi feito, meu pai falava na época, era um projeto de 48, “ filho, aqui vai ser um açude, esse projeto é de 48”. Foi sair tem o que, uns 10 anos? Então hoje está melhor, tem muitos açudes, perto mesmo desse meu sítio lá, aliás favoreceu também, é um açude do governo, é um grande açude, porque tem água, tem tudo. Então essa dificuldades dos irmãos saírem, que nem eu tive que sair, vai ficando, aí depois os outros vieram, e todo mundo se ajudou, que nem a caçula, foi a última a vir. A gente sempre ajudava um ao outro, você vai chegar, vai chegar o teu irmão, um vai comprar a cama, o outro vai comprar o fogão, e assim foi feito, um ajudar o outro. Essa minha irmã foi a base de tudo, à irmã mais velha, ela era base, vinha para casa dela, ficava ali um mês, ou dois, até arrumar as coisas, alugava um quartinho e ali você vai começar a sua vida. Essa irmã mais velha foi a base de todos, ajudou todo mundo, ela tem um coração gigantesco, uma pessoa maravilhosa.

 

P/1 - Então vocês foram uma geração que infelizmente tiveram que se separar por um tempo?

 

R - Tivemos que separar por um bom tempo, foi assim, um para um lado, outro para o outro. E quando Afonso tava em Rondônia, eu lembro assim, muita saudade, aquilo que eu te falei, ia carta, imagina uma carta de Rondônia chegar no Ceará, às vezes era 40 dias depois que ele escreveu, 30 dias, às vezes minha mãe, “nossa, quanto tempo!”. Era assim que funcionava. O João em Brasília era meio desligadão, eu não lembro se o João escreveu alguma carta, você acredita? Eu não lembro, do Afonso eu lembro, da Toninha que morava no Paraná, eu lembro. Mas o João já era mais desligadão, o jeito dele, cada um tem a sua maneira.

 

P/1 - Como é que era encontrar nordestino em São Paulo quando você chegou?

 

R - Era uma festa! São Miguel, por exemplo, porque eu me identifiquei com São Miguel muito, porque tinha muito nordestino - tinha não, tem - acho que é um dos redutos que mais tem nordestino é São Miguel, então tem aquela praça do Forró, aquilo ali era encontro, tinha shows. Não sei se hoje existe, acho que hoje não existe mais, mas tinha show, vinha aqueles sanfoneiros, vinha aqueles repentistas, aqueles do pandeiro, faz aquele repente na hora, era divertido, “você é de tal lugar e tal?” Às vezes encontrava cara da mesma cidade, a praça do nordestino ali, era um reduto assim muito legal, que você ia para se encontrar mesmo com os nordestinos. E aquelas comidas típicas, bem parecidas, pessoas do Norte que fazia, era uma festa, era gostoso, você se sentia mais acolhido, porque querendo ou não vocês estão num estado que você vem para construir, como se diz, você vinha para somar, então isso marcou bastante.

 

P/2 - Ninguém falava que era difícil a vida aqui?

 

R - Ah, falava. Tinha pessoas que voltavam, porque era sofrido também. Eu graças a Deus tive tudo, tive apoio da minha irmã e tal. Teve uma padaria na Lapa, imagina… as condições naquela época também eram difíceis, tinha que ir para tal lugar, depois Parque Dom Pedro, depois do Parque Dom Pedro pegar um buzão, não tinha essa facilidade que tem hoje de metrô, essas regiões, hoje tem metrô que vai até Guaianazes, tem o trem que é bem melhor também, os trens hoje são maravilhosos, naquela época era uma batedeira. Então, cheguei a dormir no fundo da padaria, por isso que eu digo, aquela rede onde eu ia levava, porque era o meu cobertor, dormia lá no fundo da padaria, um colchãozinho veio, dessa finura, um frio danado, me enrolava na rede. Mas para fazer alguma coisa também, porque eu tinha apoio, ali você economizar o aluguel, você comia na padaria, economizava a comida, então tudo isso te ajudava. E tinha muito disso, não só eu, peão que ia para obra, teve amigos meus que chegou a trabalhar em obra, que veio na minha época, outros foram para São Bernardo, tudo meio parente, que a família lá é grande, então se debandou. Da minha época, que eu vim, veio muita gente, veio esse meu primo, que hoje mora em Perus, viemos na época, mas ficou longe, é difícil a gente se ver.

 

P/1 - Vocês sentiam que vocês viviam num regime militar, numa ditadura?

 

R - Isso a gente sabia, tinha um pouco de medo, tinha que andar normalmente com o último holerite, a carteira de trabalho assinada. Eu lembro uma vez que eu fui confundido lá em São Miguel, eu cheguei ir para o fundo da viatura, ainda era na época dos militares, quem me tirou lá de dentro, foi o motorista de ônibus. Como eu pegava o ônibus no final, todo santo dia o mesmo horário, o cara me conhecia. Naquela época.. você vai ver na minha foto, meu cabelo era comprido, então usou cabelo comprido já viu, então eu fui confundido, “foi o Lourinho”. Meu cabelo era meio loiro, “foi o loirinho”, já me algemaram e colocaram dentro da viatura, sem pedir documento e eu estava com documento, chegaram a me algemar e colocaram naquela viatura, que era aquelas barconas lá, Veronez. Eu super assustado, com medo na verdade, o motorista do ônibus viu tudo aquilo lá, porque eu estava no ponto de ônibus, foi a minha salvação. Aí o motorista do ônibus chegou lá, “não, esse rapaz aqui não, ele pega ônibus todo dia, trabalha na padaria”. Até hoje tem a padaria lá, que é pertinho desses bombeiros que eu te falei, “trabalha na padaria, esse aqui, pega o documento dele para você ver”. Ele me defendeu, nunca esqueço disso! Aí eles pediram documentos, eu estava com a carteira de trabalho e o último holerite, o último holerite você não se separava, isso eu lembro bem, que tinha que andar, porque se você fosse pego por aí, você ia para o pau.

 

P/1 - O que ia acontecer com você se você fosse para a cadeia você achava?

 

R - Você achava que ia morrer, a gente tinha medo, você ir para cadeia capaz de você morrer lá, isso a gente sentia, você é doido, falar em cadeia, tinha pavor, você entra lá e não sai mais pô, então você tinha esse receio, da minha época que eu era jovem, você tinha esse medo, então essa é a marca que ficou, eu acho assim, aquele medo, se for para cadeia você não volta mais, porque você ouvia falar histórias, muito jovem, mas você tinha aquelas histórias, você não lembra os detalhes, mas você lembra, porra! Chegou lá meu amigo, vão torturar você, eu lembro desse negócios ainda, que você lembrava, tinha as histórias, você tinha esse certo medo.

 

P/1 - Mesmo que você não tivesse feito nada?

 

R -  Mesmo que você não tivesse feito nada, que nem no dia eu fiquei.. depois eu saí, o cara, o motorista, praticamente, foi quase ele que me puxou, como se diz, porque aí foram ver os meus documentos, eu não tinha palavras, eu fiquei assustado, esse motorista que me deu apoio. O ônibus ia sair logo em seguida, eu lembro que chegou no terminal, “você tá bem e tal”. Eu tava bem, mas eu fui para casa com um medo, olhando para um lado, olhando para outro, para mim tudo ia me pegar, você entendeu, porque foi uma cena, que se ele não tivesse ali, eu ia sofrer para caramba. Pensou, solto no fundo de uma viatura daquela, o que os caras iam fazer, eu sei lá onde eu ia parar, até explicar que eu não fiz nada, porque não pediram nada, pô! Essa cena aí, me marcou muito.

 

P/1 - Foi a única vez que a polícia fez isso com você.

 

R - Não! De “dar geral” assim na rua aconteceu bastante.

 

P/1 - Outras vezes?

 

R - Outras vezes. Mas aí pediu documento… A vez que eu tive mais medo foi essa, das outras vezes não aconteceu assim, com educação, documente e tal, você mostrava holerite. O holerite era um dos melhores documentos que existia, último holerite, você não separava, recebia um, já deixava aquele velho em casa, só andava com o novo.

 

P/2 - Esse controle era pra que, para saber se era vadiagem?

 

R - Isso! Exatamente! E quem usava cabelo… que eu usava cabelo grande, eu tenho uma foto aí, que não é tão grande, mas que está batendo mais ou menos aqui, mas eu usava mais longo, aí já era suspeito, já tinha um certo… você já era meio suspeito.

 

P/1 - Não podia andar de noite na rua, se não era vadio, tinha essas coisas?

 

R - Então, por isso que a gente tinha medo. Eu cheguei a frequentar baile, mas era bem assim, você tinha que ter um certo cuidado, tinha que estar sempre num grupo de 2 ou 3, até 4 seria melhor, sempre junto, fazia aquele círculo de amizade. Eu lembro que eu frequentei o Paganini, lá na Penha, que é na Amador Bueno da Veiga, era muito conhecido o Paganini, fala-se o salão de bairro Paganini, todo mundo conhecia, então era um lugar que a gente também se encontrava com os amigos, então tá sempre junto, pegar o ônibus junto, tinha um certo cuidado, só não é bom, falava isso, só não é bom, tem que estar com alguém, então tinha isso, isso eu lembro.

 

P/1 - O medo era de assalto ou da Polícia?

 

R - Tanto de assalto como da Polícia também, você tinha medo de ser pego, de ser confundido, sempre tinha essa, você pode ser confundido com bandido, sabe? Porque eu passei pela experiência de não ser perguntando nada, simplesmente ser jogado lá, então você tinha esse certo medo. Eu lembro que falava, “é perigoso você ser confundido, anda 2, 3, é melhor”. Então isso tinha, tinha esse negócio.

 

P/1 - O que você achou de contar a sua história?

 

R - Eu achei bom! Quando ele me convidou, eu fiquei assim, “poxa vida!”. Tem muitas coisas que eu falei aqui que nem os meus filhos sabem. Então isso é bom porque fica… eles vão saber o que eu passei, que eu sofri para educá-los, então isso é… foi bom! Eu gostei, ficar na história para eles, saber o que eu passei, que filhos é bom, mas dá trabalho. Então foi bom, adorei! Espero que eu tenha contribuído!

 

P/1 - Brigado, Toninho! Foi uma honra, um prazer estar com o senhor.

 

R - Brigado.

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