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Hoje eles estão no céu

História de: Roselene dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/11/2014

Sinopse

Roselene dos Santos, conhecida por Rosa, nasceu no Guarujá (SP) em 12 de fevereiro de 1966. Morou por muito tempo numa favela situada na Avenida Atlântica no Guarujá. Enfrentou muita enchente e perda dos seus pertences até que, com ajuda de uma OnG americana, conseguiu junto com a sua família construir a sua moradia, num condomínio popular ao lado da lavanderia “Lav Paty”, também criada com apoio de uma rede de instituições, entre elas, o Consulado da Mulher.

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História completa

Meu nome é Roselene dos Santos. Nasci no Guarujá em Doze de fevereiro de 66.


O meu pai era de Sergipe, minha mãe biológica, eu não sei dizer, porque o meu pai pegou a gente e foi embora, a minha mãe que me criou era da Bahia. Ele era carpinteiro naval. Eu comecei a trabalhar com a minha mãe eu já tinha 14 anos. Ela ia fazer faxina, às vezes, ela carregava a gente pra ajudar. Comecei a trabalhar sozinha mesmo de empregada domestica com 17 anos.


Eu saí de casa escondido e fui morar com o meu marido. Ele trabalhava numa lanchonete em Santos, eu atravessava toda vez pra Santos para trabalhar, a gente se conheceu, fui falar com o pai, o pai não permitiu, aí ficou aquele negócio escondido, depois eu cismei que queria morar com ele, peguei as minhas coisas e fui, papai só foi descobrir de noite. Ainda tentou me buscar, mas eu falei que eu não ia.


Fui morar numa casinha numa favela, atrás do Rio Acaraú, na Favela Atlântica. Lá, era muito triste lugar de morar lá, sabe? Porque a gente tinha que conviver com as enchentes, tinha que conviver com os bichos, rato, cobra, jacaré (risos).


Faço crochê, tapete de crochê, jogo de cozinha, jogo de banheiro, tapete… Eu sou curiosa. Eu vejo a pessoa fazendo e fico olhando. Não fui para a escola, nem nada. Compro a revista, eu vou lá e tiro o modelo da revista. Se eu vejo a vizinha com algum tapete diferente: “Me empresta pra mim tirar o modelo?”. Aí eu vou lá e tiro (risos).


Criei os meus filhos sozinha. Mas sempre trabalhei com crochê, lavava roupa também para algumas pessoas. Porque trabalhar fora, com o meu filho [ele tem hidrocefalia], não tinha como mesmo. Escola, ele ia daqui a pouco me chamava: “Teu filho tá tendo crise”, saía daqui correndo, ia lá. Eu lembro que ninguém sabia lidar com aquilo, saía daqui pra ir pra lá, então não tinha mesmo como trabalhar. Aparecia biquinho, eu ia lá trabalhar com faxina e pagava alguém pra olhar ele [o filho].


Um dia passaram fazendo o cadastro na favela, a prioridade era idosos, pessoas com deficiência e gestantes. Então, como eu tinha o meu filho com deficiência, eu entrei nesse meio aí, fui selecionada, pra vim pra cá primeiro. Ajudei na construção desde o chão até o teto (risos). A [ONG] Habitat veio, ajudou a gente, o material foi todo doado por eles, só que assim: “A gente vai doar, vai doar tudo, mas tem como vir uma pessoa da família estar ajudando a levantar!”, porque tinham as pessoas que eles contrataram, mas era pouco, não dava conta e como a gente queria sair logo do local onde a gente tava, eles falaram: “Se vocês quiserem que saia logo, se vocês quiserem ajudar, podem vir”. Eu com meu filho mais velho. Tinham finais de semana que vinha uma turma pra ajudar, que nem veio o pessoal dos Estados Unidos, um pessoal muito bacana que ajudava, doavam as coisas pra gente. Era aquele mutirão no final de semana, eles ficavam ai dois, três dias, reunia com o pessoal e a gente ajudava a construir, a levantar. Tinham umas meninas novas muito bacanas que adoraram meus filhos, quando vinham elas, era presente, era tudo.


Hoje moro num apartamento com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Não é uns cômodos grandes, mas em vista do que a gente morava, é um castelo (risos). Muito bom! Hoje, a gente pode dormir sossegada, dormir tranquila, não tem medo de rato, não tem medo de enchente.


Durante a construção estava o Consulado da Mulher. Eles começaram a conversar com a gente, fizeram tipo uma pesquisa sobre o quê que a gente gostaria de trabalhar. Se fosse construir aquilo que a gente acharia que dava pra se fazer, ai foi-se falado em cozinha, foi-se falado um monte de coisa, pra fazer coisa pra festa, tal… até que a gente chegou na lavanderia, porque eles acharam que a lavanderia dá dinheiro porque a gente não tem nenhuma lavanderia aqui por perto. Só tem lavanderia no [Centro do] Guarujá, então, as pessoas aqui tinham que mandar a roupa lá. Esse negócio de estar levando, a gente resolveu abrir a lavanderia [LavPaty, nome de uma moradora que morreu antes da inauguração] e em cima, a cozinha, que ainda não está funcionando. Tem curso agora, a gente vai aprender a fazer panificação, a gente vai fazer o curso pra gente ver o que vai trabalhar na cozinha. Pra lavanderia também, a gente teve bastante curso. Fomos para muito lugar fazer curso: Sesc, SENAI veio aqui dar aula pra gente, ensinar a passar, ensinar como lavar, como tirar mancha, isso tudo a gente aprendeu com o curso. Não chegamo de cara, entramos e fomos trabalhar não, filha, foi muito curso (risos).


Aprendi tanta coisa com o Consulado. Fizemos cursos, além de lavar, passar, limpar, eu também cuido da contabilidade. A gente tem muito a crescer ainda, porque a gente no final do ano, a gente trabalhou bastante, a gente ganhou bem. O que a gente tá usando no momento pra ganhar freguesia é isso, é panfletar. A gente vai para as barcas, fica lá distribuindo papel e dá certo, viu, que o povo vem aqui e fala: “Peguei papel no Correio” “Peguei papel na barca” “Meu vizinho me deu esse papel, eu vim aqui, como é que funciona?”. Aí a gente explica tudo. A gente tá ganhando bastante freguesia aqui, mas a vontade da gente mesmo é hotel, porque é o que dá mais dinheiro.


O importante pra mim é ver os meus filhos felizes. Em vista do que a gente tinha, a nossa vida melhorou 100%, então, ver a felicidade deles eu acho que é o mais importante.


Eu gostei de conversar, gostei da falar. É bom, de vez em quando, até a gente abrir um pouco (risos). Eu conto pro meus filhos o que já passou. Eu falo pra eles que hoje, eles estão no céu (risos), porque o que os outros passaram, ele não passaram.

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