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História

Hoje é dia de feira, amanhã de sindicato!

História de: Milton Roberto Perozin
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/11/2021

Sinopse

Infância no sítio em Cedral. A juventude nos bailes rurais e o dia a dia no sítio. A atuação marcante na escola pública de Cedral, com a criação de hortas, trabalhos de aproveitamento de materiais recicláveis, limpeza de quintais e incentivos a criação de animais. A vida como professor. A decisão de se tornar feirante. A mudança para Rio Preto. Casamento com a namorada que lhe deu uma Kombi. A vida do feirante e a organização das feiras livres em Rio Preto. O sucesso na carreira de feirante. A presidência do Sindicato dos Feirantes de São José do Rio Preto. Os desafios da organização das feiras livres. O grande obstáculo da pandemia de Covid-19.

História completa

Meu nome é Milton Roberto Perozin. Sou natural de Cedral, município perto de São José do Rio Preto, cidade vizinha aqui. Nasci no dia 02 de maio de 1965. Meu pai se chama Minervino Perozin, e a minha mãe, Antônia Pontes Perozin. Conheci os meus avós: o pai do meu pai é Antônio Perozin, a mãe do meu pai era Joana Sanitar, a mãe da minha mãe, Ana Funchal Pontes, e o pai da minha mãe, Manoel Pontes Filho. Então, foi unindo os portugueses, italianos, essa mistura, e hoje saímos nós, graças a Deus. E eles eram agricultores. O meu avô veio para a cidade de Cedral, onde tem praça com o nome dele, da família, e os pais da minha mãe vieram pra Uchoa, que é outra cidade vizinha, onde são muito conhecidos também. Eles colhiam café e beneficiavam, porque aqui em Cedral tinha as máquinas que beneficiavam e tudo ia diretamente pra Santos, de onde era exportado. Foi uma época muito boa, porque eles conseguiram se tornar fazendeiros. Meus avós tinham adquirido terras de colonos e passaram a ser fazendeiros.

          Quanto a meu pai, eles também trabalha na lavoura – ele está com 82 anos, parece um moço: anda a cavalo, tira leite, cuida do limão. Meu pai, graças a Deus, parece moço. Vamos pescar juntos, nós somos amigos, nós temos o hábito de pescar aqui na região, no Rio Grande. Mas naquela época, era costume, quando casava um filho, que ele viesse morar com a família. Aí meu avô separou, por exemplo, 10 mil pés de café pro meu pai, uma gleba de terra, e meu pai passou a ser dono daquele pedaço de terra e plantar o café. Aí meu pai construiu uma casa com minha mãe, recém-casados.

          Eu nasci na fazenda. Naquela época tinha as parteiras. (risos) A minha mãe entrou em trabalho de parto - nós somos em quatro irmãos, eu sou o segundo, e os quatro foram as parteiras. E quanto à minha infância, eu olho pra ela com muito orgulho. Fui criado numa casinha humilde, uma casinha confortável, mas humilde, fogão a lenha. Eu estudei durante oito anos, do sítio até Cedral, a pé - tinha aproximadamente oito quilômetros. Levantava sempre às cinco horas da manhã, quatro e meia, e eu e meus irmãos pegávamos uma estradinha e chegávamos até a cidade. E desde criança meu pai sempre nos levou junto ao trabalho. Meu pai era mais jovem, e meu avô um pouquinho mais velho, mas os dois sempre unidos. Aí, o meu pai me colocava na frente da rua de café dele, com uma enxadinha, e meu irmão na frente do nono, que o nono era o mais velho. (risos) Aí a gente ia capinando, aprendendo. Mas a gente fazia do trabalho da roça o lazer, o divertimento. Tinha passarinho, tinha o lagarto, tinha os animaizinhos, e nós íamos passar a ferramenta com os animais; a gente aprendia a tombar a terra, arar a terra, e eu plantei muito milho, amendoim, algodão e café. Então, eu fui sempre envolvido nesse trabalho de lavoura. Sem contar que, no fundo do sítio, até hoje está lá um riozinho que nós preservamos, onde a gente ia à tarde - chegava da roça, e todo mundo ia nadar no riozinho, todo mundo ia se banhar lá, tudo pelado

          Depois, mais crescido, eu pegava o cavalo e ia num baile, naquele mesmo baile que meus pais frequentavam na mocidade. Então, a gente tirava o freio do cavalo, amarrava uma cordinha no pescoço e deixava lá. Tinha o lugar pro cavalo beber água, a gente chegava, dava água pro cavalo, e deixava arrumadinho. Na hora de ir embora, cada um pegava o seu cavalo, apertava a barrigueira e vinha pra casa; mas era uma distância de 15 quilômetros, não era muito perto.

          E na escola, eu sempre gostei de fazer algo diferente. Eu estudava na escola pública, uma escola que me acolhia de braços abertos. Mas eu percebia que em volta da escola não tinha um pé de planta, não tinha uma fruta, não tinha nada, só tinha mato. E eu tive uma aula chamada Educação para o Trabalho, com um professor que se chamava João Louco. E eu olhava assim pro ‘seu’ João Louco com umas ideias, né? Falei: "’Seu’ João, vamos fazer uma horta aqui nessa escola?" E nessa aula, nós ensinamos os alunos a conhecer o que é uma horta, o que é uma planta, de onde vêm os alimentos. Em prazo de 15 dias, começou a primeira colheitinha, que era o rabanete. Aí eu coloquei rabanete com a rúcula do lado, alface, almeirão, couve, couve-flor, beterraba. Resultado: fizemos uma horta que era a coisa mais linda de se olhar, tudo natural, e a molecadinha pegou gosto. Fizemos também a campanha do ferro velho, para limpar quintais sujos e vender os ferros e vidros para fábricas e comércios que aproveitavam esse material.

          Mas na vida, chega uma hora em que você quer ser uma coisa, você põe na cabeça que quer ser professor, eu achava importante. Eu me formei, dei aula por um tempo - participava daquele famoso projeto Ipê, que tinha na TV, que passava no sábado. Mas depois, o nosso país não tinha nível de educação, em que um moço de 18, 19 anos, começando uma profissão de professor, ia um dia ter um carro novo, ter uma família, ter a chance de você crescer. Então, como eu sempre via o lado do comércio, um lado promissor, eu fui obrigado a escolher o lado do comércio. Aí eu já fui pra feira, trabalhar como feirante. Na época, eu tinha conhecimento já de Rio Preto, e fui dar uma volta na feira; andei trazendo uns produtos do sítio pra cá também, umas laranjas, uns limões, e vi aí a oportunidade de trabalho. Falei: “Ah, é aqui que eu vou me encaixar”. Então, eu saí do sítio e vim direto pra feira de Rio Preto. Eu montei a feira, e em 15 dias de trabalho, o que eu ganhei na feira deu pra eu alugar uma casinha aqui em Rio Preto, quase mobiliá-la com uma caminha, um fogãozinho, um negocinho, uma cama de solteiro. E a minha mulher - a gente namorava ainda, e ela era gerente de um grupo forte aqui, o Tarraf -, vendo que eu estava envolvido com a feira, acreditou em mim. Ela comprou uma perua Kombi e me deu. “Oh, Milton, essa Kombi aqui vai te ajudar?” Eu falei: “Muito!” Com essa perua Kombi, meu amigo, no outro dia eu fui pra Cedral, enchi de mandioca, pepino, laranja e vim pra Rio Preto. Eu tanto vendi na minha banca, quanto pros feirantes. Aí os feirantes viam a qualidade do produto: “Miltão, me traz dez caixas de mandioca, eu quero 20 caixas”. Foi uma loucura! A perua ficou pequena em dois dias, tinha que dar três viagens com a perua, correr e buscar uma pros feirantes, duas pros feirantes, depois uma pra mim. Então, naquele mês de trabalho eu percebi que meu salário na feira equivalia a um salário e meio da minha esposa, que era gerente de um grupo desses daí. Ela ficou abismada de ver e falou: “Não tô acreditando que você está ganhando tanto dinheiro assim, com essa perua, nessa feira”.

          É que eu sempre prezo pelo profissionalismo. Eu tinha um pensamento diferenciado, uma visão diferenciada dos demais, e coloquei em prática minhas ideias, e o pessoal da categoria apostou comigo e me apoiou. A gente teve a eleição, a mídia divulgou, e nós fizemos grandes parcerias com o Poder Público - hoje andam juntos, o Poder Público, o sindicato e o feirante. Aí eu virei o presidente do sindicato.

          Eu me orgulho muito por esse lado afetivo que o prefeito nos dá, sabe? A feira livre de São José do Rio Preto, quando termina uma feira, ela é lavada; eles passam colhendo todo o resíduo, varrendo, ensacando, passa o caminhão, depois vêm lavando a rua da feira. Toda a rua da feira, quando termina a feira, é lavada e entregue ao munícipe melhor do que nós chegamos de madrugada pra trabalhar. E nós temos oito monitores que funcionam como se fossem fiscais de postura. Eles passam lá marcando uma falta do feirante, olhando se o feirante está trabalhando certinho, adequado.

          Mas hoje está muito fácil. Estamos terminando agora uma revisão na lei, pois estamos sempre modificando, sempre adequando. Nós não bobeamos: o sindicato, a prefeitura junto, a gente não vacila. Nós temos um secretário de agricultura muito bom, chama Pedro Pezzuto. E na pandemia, fechou o comércio, fechou tudo, e aí nós fomos buscando alternativa: “Olha, vamos fazer o seguinte: vamos colocar uma banca a cinco metros da outra de distância, vamos isolar com uma zebra em volta, um metro, com a fita zebrada em volta da banca, pra que a pessoa não se aproxime do feirante, não bote a mão no produto. Vamos fazer a banca de pastel pra não comer lá na hora, fazer um delivery. Foi um desafio; nós não sabíamos com o que nós estávamos lidando. Então, esse trabalho nós executamos com muita fé, com muito amor. Foi um trabalho, assim, que nós sabíamos do risco, mas sabíamos também da importância.

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