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História

Histórias (reais) de pescador

História de: Lilian
Autor: Lilian
Publicado em: 06/06/2021

Sinopse

Infância dividida entre mata e a praia e entre dias de brincadeiras e estudos. Fala sobre quando decidiu seguir os passos do pai e se tornar pescador. O começo da vida em alto-mar. A importância de manter o respeito para com o meio ambiente. As mudanças na profissão de pescador com a chegada das novas tecnologias.

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História completa

P/1 – Valdinei, nós vamos começar agora a entrevista. Você fala o seu nome completo?

R – Meu nome é Valdinei Januário Gomes.

P/1 – Você nasceu onde?

R – Em Itapemirim.

P/1 – Que estado?

R – Espírito Santo.

P/1 – Que dia e ano você nasceu?

R – Eu nasci no ano de 1973, no dia 21 de outubro.

P/1 – Você podia falar um pouquinho dos seus pais? O nome deles primeiro. (troca de fita)

P/1 – Você ia me falar o nome dos seus pais.

R – O nome do meu pai é Adelso Gomes, e o nome da minha mãe é Luiza Januário Gomes.

P/1 – E seus avós? Você podia falar um pouco deles? Tanto da parte da mãe quanto do pai?

R – Do meu pai eu posso falar bem pouco porque eu não conheci, agora os pais da minha mãe eu já conheci bem. O meu avô, até hoje eu guardo a lembrança que era uma pessoa muito boa, gostava de passar a mão na cabeça da gente. Agora minha avó não, minha avó era mais rígida. Fui criado na roça, daquele lado mais que tinha que ser “sim sim, não não” e se a gente olhasse meio de lado ela já corrigia a gente. Poucas lembranças, mas as lembranças que eu tenho dos meus avós são boas.

P/1 – Você tem alguma ascendência indígena?

R – Sim, eu tenho. Os avós da minha mãe, ela conta a história pra gente, que foram pegos no laço, não é tão longe assim, dá pra ela falar pra gente, que ficava no mato. Então, os avós dela, a avó foi pega no laço.

P/1 – Ela era indígena?

R – Ela era indígena. Eles falam que eu tenho um pouco de índio e um pouco de caboclo, né? Até que meu tio, todo mundo conhece ele como caboclo, porque ele era um caboclo mesmo.

P/1 – E a sua avó foi pega no laço? O que sua mãe dizia?

R – No sentido que naquela época eles eram um pouco, até hoje fala assim no meio, que era um povo retirado, vivia mais em aldeias. Ela fala que o avô dela gostou dela, não tinha como e eles falam que foi assim, foi no laço na maneira de falar. Mas como ela contava que pegou no laço mesmo e viveu muito bem, ela fala que viveu muito bem mesmo.

P/1 – E de tradições indígenas, você acha que ficou alguma coisa pra você, na sua educação, seu jeito de ser?

R – Sim, eu creio muito porque quando eu era mais novo a minha mãe mexia até com artesanato que ela aprendeu com búzio, com conchas, que vem da ascendência dela. Mesmo ela morando em roça, no interior, ela trouxe isso pra gente no dia de hoje. Até quando eu era mais novo eu ajudava ela a fazer o artesanato que ela aprendeu com a ascendência indígena dela.

P/1 – Que tipo de artesanato vocês faziam?

R – Colar, pulseira, pingente, essas coisas. Ela trouxe pra gente, só que vem chegando o tempo moderno e acabou um pouco isso.

P/1 – Fazia de que material?

R – Ela fazia mais com semente, com búzio, com conchas mesmo, mas usava mais semente. Até hoje ela gosta de fazer ainda, com semente de aroeira, pau brasil. Ela já não faz por causa da vista, já está meio cansada, 70 e poucos anos, mas ela gostava de fazer.

P/1 – Seu pai é vivo também?

R – Não, meu pai teve um acidente. Pra surpresa minha eu saí no domingo pro alto do mar, na segunda-feira aconteceu um acidente com ele. O caminhão virou e caiu em cima dele. Pra mim foi uma tragédia muito grande. Ele não é vivo, só a minha mãe, de 70 e poucos anos, mas tem muita saúde mesmo.

P/1 – E faz pouco tempo esse acidente do seu pai?

R – Não. Faz 14 anos agora em maio.

P/1 – E que lembranças você tem dele, desde a sua infância até jovem?

R – Meu pai foi um pouco distante. Devido ao trabalho, ele pescava também, tinha vezes que ele ficava quatro, cinco meses fora de casa. Então, eu tenho muita lembrança, tive uma amizade grande depois que eu me formei, depois de adolescente pra frente que eu comecei a ter contato com ele. Mas antes, como criança, era bem pouco. Na minha educação, eu tinha uma educação muito boa, mas através da minha mãe. E o meu pai foi mais do lado do trabalho, ensinou bons valores, a gente até hoje, graças a Deus, eu tenho isso comigo, de valores. Mas, do lado mais material, o lado emocional ficou mais pro lado da minha mãe.

P/1 – E dela? Que lembranças de infância você tem dela?

R – Boas. Ela sofreu muito com a gente. Como eu falei, meu pai viajava e ficava muito distante, quatro, cinco meses fora. Ia até a divisa do Rio Grande, do Brasil, pescar, então era longe, não poderia vir sempre. Aí, a minha lembrança dela é a melhor possível, ela fez tudo.

P/1 – Quantos irmãos você tem?

R – A gente é em dez irmãos, nove mãe e pai e um só por parte de pai.

P/1 – E quantos homens e quantas mulheres?

R – Cinco homens e cinco mulheres. Acrescentando que tem que quatro gêmeos, veio duas meninas, eu fiquei no meio e depois um casal. E a minha mãe é gêmea também. Quer dizer, na casa tinha seis gêmeos. (troca de fita)

P/1 – Você estava falando da sua mãe, eu ia perguntar pra você como era a rotina de vocês.

R – Bem, a rotina da minha casa, como eu falei que meu pai viajava muito, a rotina sempre era a mesma, ela só trabalhava e tomava conta dos filhos. Como eram muitos, vieram quatro gêmeos, o trabalho era dobrado. Mas a rotina era sempre a mesma, era trabalho, trabalho, e tentar dar o melhor pra gente no sentido de educação, e até mesmo o estudo, naquela época, era mais difícil pra mim, pros meus irmãos mais velhos. E era sempre a mesma coisa, ia pra escola, da escola pra casa, e brincar, brincava muito. Não tinha nenhum brinquedo, mas eu falo que eu era muito feliz porque a gente não tinha brinquedo na minha infância, mas tinha liberdade, poderia fazer de tudo, não era perigoso, todo mundo conhecia todo mundo. Nós tínhamos a sensação de liberdade, só vínhamos pra casa mesmo na hora de almoçar, jantar, tomar banho e dormir.

P/1 – E vocês brincavam como, de que?

R – Olha, eu brincava muito de polícia e ladrão, a gente sempre brincava disso aí, porque não tinha informática, não tinha Playstation, computador. Pique, brincava muito de pique. De roda. Apesar de eu não ser muito velho, mas minha infância foi essa. Brincava muito, como era muita família, a gente brincava dessa maneira, meus colegas. Até hoje os colegas de infância são os mesmos. E a gente brincava assim, era roda, pique, bola, gostava muito de brincar de bola, de esporte. A nossa brincadeira era essa. Televisão era bem pouco, videogame nem sabia o que era isso, mas eram brincadeiras que eu costumo dizer que a gente aprendia a respeitar um ao outro, porque tinha contato, tinha amizade. Até hoje eu sinto falta daqueles colegas de infância. Porque como eu casei e meus colegas também constituíram família, a gente começou a ficar distante, e quando a gente se encontra a gente sempre toca no mesmo assunto: “Pô, naquela época a gente fazia isso, fazia aquilo”. E era bom.

P/1 – Você lembra de algum acontecimento, coisas assim que quando vocês encontram vocês ficam lembrando?

R – Sim.

P/1 – Conta pra gente alguns fatos dessa época.

R – Como eu falei, a gente brincava muito de polícia e ladrão, e como nos fundos da nossa casa era mato, a gente brincava muito ali perto. E um dia a gente pegou um colega, amarramos ele, porque ele tava preso, a gente era polícia e ele era o ladrão. A gente prendeu e amarrou ele só aqui, passamos pela cabeça e fomos embora. E chegou umas dez, onze horas, a mãe dele chegou lá em casa, naquela época não tinha nem...

P/1 – Da noite?

R – Da noite. E dez horas naquela época não tinha nem energia, era super tarde pra gente. “Cadê meu filho?”. Aí que fomos lembrar que ele estava amarrado no mato. Até hoje a gente lembra isso dele [risos]. A gente ri muito. Mas no dia foi sério, a gente ficou preocupado, porque como a gente ia falar onde ele estava [risos]? E ele tava amarrado mesmo.

P/1 – E quando vocês chegaram lá?

R – Quando a gente chegou lá [risos], ele estava super assustado, muito mosquito já tinha mordido ele. Era até um dia frio, no inverno. Depois desse dia a gente não brincou mais não, vou falar a verdade, proibiram a gente de brincar. E a gente lembra isso aí dele. Todos os colegas lembram a mesma coisa. Se for falar o que marcou, isso marcou mesmo.

P/1 – E vocês moravam perto do mar?

R – Não, a gente sempre morou entre o mar e a floresta, que era mata, porque como há 30 anos atrás isso aqui era praticamente rural, e eu sempre morei entre o mar e a floresta. Eu fui agraciado com isso, perto do mar e perto da floresta também. (troca de fita)

P/1 – Você falou que estava lembrando...

R – A gente estava lembrando que naquela época não tinha tanta... Eu creio que naquela época as crianças eram mais felizes, não eram muito individuais porque pra gente ser feliz tem que estar próximo de alguém. Eu, até hoje, eu não gosto muito de celular mesmo, que é a mania mundial, não tem como, eu viajo pra outras cidades, eu esqueço de levar celular, não uso. Como nós éramos privados de muitos dos brinquedos, quando a gente ganhava um era uma alegria, compartilhava com todos. Se a gente ganhasse uma bola, se a mãe não fosse buscar a gente, a gente ficava dia e noite jogando. E não tinha aquele ciúme, “Ah! É minha”. Não, é de todos. Se tivesse um carrinho a gente fazia estrada de areia pra brincar tudo junto. Tinha um carrinho, mas cinco ou seis crianças que brincavam com o mesmo. Hoje eu vejo diferente, eu não sei o que é a educação, como pensar, mas os próprios pais ensinam os filhos a guardar, ter ciúme dos próprios brinquedos. E sendo que eles dão o brinquedo pros filhos brincarem e têm que brincar sozinho porque se o outro botar a mão pode quebrar.

P/1 – Você lembra de algum brinquedo que você ganhou e ficou superfeliz no dia, assim? R – Olha, eu lembro da camisa [risos]! Eu lembro de uma camisa, brinquedo eu não lembro.

P/1 – Um presente, que seja.

R – Eu me lembro de uma camisa do meu irmão. Eu falei no começo que meu pai foi sempre muito distante sobre carinho, né? E eu lembro que ele era flamenguista, só que era flamenguista mesmo, de brigar, e eu lembro que um dia meu irmão me deu uma camisa do Vasco, completamente diferente [risos]. E até hoje eu lembro, não só eu, mas a família toda é Vasco hoje, porque assim, o lado que a gente gosta, porque eu lembro daquela camisa que ele me deu.

P/1 – Seu irmão?

R – Meu irmão. Eu fiquei muito feliz mesmo e até hoje eu lembro dela. Eu fiquei muito feliz pela camisa que ele me deu. De brinquedo não lembro muito não.

P/1 – E Valdinei, quando seu pai viu a camisa falou alguma coisa?

R – Me chamou de bobo. “Larga de ser bobo!”. Apesar que pelo que está aí hoje acho que ele não tava errado não [risos], só perde. Mas ele chamou de bobo porque eu falei: “Se você tivesse me dado uma do Flamengo”. Mas, ele chamou de bobo, isso que ele falou: “Larga de ser bobo, de torcer pra esse time”. Eu ganhei essa camisa e gostei muito, ficou marcado.

P/1 – Valdinei, a sua mãe trabalhava em casa e mais em algum lugar?

R – Ela trabalhava em casa por causa dos filhos, tinha muito filho, mas ela sempre trabalhou na agricultura.

P/1 – Você foi alguma vez à roça com ela?

R – Não, eu fui muitas vezes com meu cunhado já, porque ele trabalhava na roça e eu tinha que levar a marmitex dele, e eu gostava de levar porque sempre sobrava, né? Eu gostava de levar porque eu comia [risos].

P/1 – Ele é marido da sua irmã?

R – É, marido da minha irmã. Até hoje ele gosta de mim como filho, porque eu sempre respeitei ele. E onde ele ia, ele me levava. Aí, eu gostava de levar comida pra ele na roça e ficava olhando ele trabalhar.

P/1 – E dividir um pouquinho.

R – E dividir a marmitex.

P/1 – Valdinei, sua mãe não trabalhava fora, só cuidando de vocês lá. Só não, muita coisa, cuidando de vocês. E o sustento da família, como que era?

R – Olha, o sustento foi o que eu falei, como meu pai ficava muito longe de casa, ela tinha que se virar. A gente, bem de novo, começou a trabalhar, meus irmãos trabalhavam também. Como a família era grande todo mundo ajudava. Eu mesmo, com 12 anos eu já comecei a pescar, só que bem de novinho, nove, dez anos, a gente já ia pra praia, ajudava os pescadores, lavava tábua e conseguia o peixe, vendia e trazia pra casa pra ajudar no dia a dia, até meu pai chegar. Aí ele deixava a gente, naquela época tinha crédito nas vendas, a maioria dos pescadores eram assim, e quando chegava, pagava. E roupa só quando ele chegava mesmo, que aí comprava alguma coisa. Era bem privado das coisas naquela época, bem privado mesmo. Tudo pra gente era mais difícil.

P/1 – Valdinei, conta um pouquinho desse trabalho de ajudar os pescadores na praia.

R – Sim. Até minha mãe não gostava, aliás, nenhuma mãe gostava de ver o filho com nove, dez anos, saía, muitas vezes até falava que ia pra escola e não ia. Porque um amigo do meu pai chegou com um barco aí, o amigo do meu irmão chegou. A gente ia, pedia pra ajudar. Muitas das vezes não deixavam porque a gente era muito novo, mas a gente insistia, insistia. A gente ajudava, lavava uma tábua, pegava um balde de água pra eles, ajudava o que era possível ali, que na nossa idade era bem pouca coisa. E no final, nosso pagamento era um peixe, aqueles que eles não vendiam, não servia para o mercado, eles davam pra gente. A maioria das vezes a gente nem vendia, trazia pra casa porque era o único alimento que a gente ia ter durante o dia, durante a semana.

P/1 – Valdinei, e brincadeiras no mar, você lembra? Uma pessoa que vivia entre a floresta e o mar, tem alguma brincadeira que vocês faziam, alguma coisa que aconteceu e que você lembra também?

R – No mar, sim, eu lembro de muitas, porque desde novo era mar e casa, convivia no meio. Eu lembro que a gente brincava muito de pular dos barcos. Minha mãe não pode saber disso não [risos]. A gente não tinha brinquedo, tudo o que tinha ao nosso redor era brinquedo pra gente. Então, a gente brincava de mergulhar embaixo d’água, vivia de vez em quando ralado porque um agarrado ao outro e areia com a água ralava a gente. Mas a gente sempre brincava, gostava de mergulhar, pegar um ao outro. Quando conseguia uma boia, na borracharia, um colega arranjava uma boia, aí era... Queria ficar o dia todo dentro da água com essa boia. Eu lembro disso tudo, marcou.

P/1 – Por que sua mãe não pode saber?

R – Porque era perigoso. Porque a gente já teve conhecido que morreu assim, né? E era muito perigoso.

P/1 – O mar era bravo.

R – Era muito bravo. E a gente não sabia o perigo que a gente tava correndo, poderia escorregar, bater a cabeça. Muitas das vezes a gente tomava caldo lá, mas tinha mais medo da mãe do que do mar porque se ela soubesse a gente ia apanhar com certeza.

P/1 – Você estava contando que começou ajudando assim e depois você, com 12 anos, já começou a pescar. Por que você começou a pescar?

R – Porque a necessidade, até mesmo material de escola a gente não tinha, a gente não tinha roupa pra ir pra escola. A gente passou uma fase muito difícil. E a gente não tinha como pensar em estudar dessa maneira, sem material, sem roupa, sem calçado. Até na quarta série eu estudava aqui na minha cidade, tudo bem, todo mundo conhecia todo mundo, não tinha problema. Mas quando acabou a quarta série já não tinha mais escola na minha cidade, tinha que sair pra outra cidade, pro centro do município, lá em Itapemirim. E pra ir pra lá tinha que pegar ônibus, já tinha dificuldade maior. Quando minha mãe conseguiu o passe para eu ir, tudo bem, eu fui, só que não tinha roupa nem pra ir. Eu tava contando ontem pro meu filho, por coincidência, sobre isso. Eu só tinha uma calça, só ela mesmo. E ela arrebentou o botão, eu botei a camisa por cima do botão, esse foi o meu último dia de aula. Eu coloquei minha camisa por cima da calça e fui assim mesmo. Quando cheguei no pátio da escola o fecho ecler relaxou. Aí não tinha como eu nem andar [risos], porque até então, quando saiu o botão– eu tava contando isso pra ele ontem– quando saiu o botão o fecho ecler segurava a calça. Aconteceu comigo [risos], quer dizer...

P/1 – Aí você não podia andar...

R – Não podia porque a calça tava caindo, e era outra cidade, até chegar aqui na minha cidade os meninos já sabiam, porque a maioria deles tinha o mesmo jeito. Aí, eu voltei, sentei, esperei o ônibus chegar, e, até hoje, eu não voltei mais na escola porque não tive como mais, aí falei: “Não tem como”. E ela insistia pra gente ir porque ela sabia que a educação era a melhor coisa. Hoje tem que ter estudo, não adianta, que sem estudo a gente não vai a lugar nenhum, só que não tinha como ela dar pra gente isso aí, foi o último dia meu na escola.

P/1 – Por conta desse acontecimento.

R – Por conta desse acontecimento. Aí fui trabalhar, já pescava, depois comecei a pescar, mas não era profissionalmente porque era muito novo. Aí comecei a trabalhar em mercado, em mercearia, carregava compra. Depois eu virei atendente. Só que como era muito novo não valorizavam, não tinha como, até o lugar era pequeno e aí eu resolvi. (troca de fita)

P/2 – Você pode falar de novo essa transição, quando você resolveu pescar? Essas últimas duas frases?

R – Quando eu decidi ir pro alto-mar de vez, ser profissional, escolhi. Muitas vezes não foi nem escolha, foi necessidade. Porque era a única profissão na nossa época que não precisava de estudo. E como era muito perigoso eu resolvi pescar, não teve jeito.

P/1 – Valdinei, como você aprendeu a pesca?

R – Olha, eu aprendi à força, fui obrigado a aprender, ou aprendia ou aprendia, não tinha escolha. Como eu já vivia muito nas embarcações daquele jeito, já parecia que eu estava me sentindo em casa, só faltava eu ir para alto-mar, porque tudo aquilo que parece que tava no sangue, eu tinha que fazer aquilo ali. Por coincidência, a primeira vez que fui pro alto-mar, eu fui diretamente pra Santa Catarina, tive que pegar uma autorização para viajar e fui direto, a embarcação estava lá e eram 27 homens no barco. Eu, uma criança, um adolescente, e eu sempre falo que a gente vai pro caminho errado se quiser. Nessas 27 pessoas tinham pessoas boas, pessoas evangélicas, mas a maioria não era, a maioria era de pessoas trabalhadoras, mas nas folgas faziam muita coisa errada, tinha muita droga, muita prostituição, e eu fiquei perdido. Chorei muito, chorei muito sozinho, porque eu virei homem obrigado, porque no meio de tanto homem, muito longe, pra mim era outro lado do mundo à distância que era, eu nunca tinha saído da minha cidade, eu fui diretamente pra lá, foi até meu irmão que levou.

P/1 – Ele foi junto?

R – Foi junto.

P/1 – Você tinha quantos anos, Valdinei?

R – Eu tinha 15 pra 16 anos, só que até então eu não tinha saído daqui ainda, sempre trabalhei aqui perto. Chegava, trabalhava de manhã e de tarde eu vinha embora. Mas quando resolvi trabalhar profissionalmente eu tinha 15 ou 16 anos, ia fazer, e eu vi um mundo completamente diferente. Era uma embarcação grande, muitos homens, e eu não sabia onde eu tava. Chorei muito, mas não podia chorar pra ninguém ver, porque tinha que ser homem, né?

P/1 – Você sentia saudades, falta do que principalmente?

R – Eu tinha muita saudade da minha mãe, da minha casa, dos meus irmãos, da minha família. Senti muita saudade mesmo.

P/1 – Valdinei, assim, quando você falou: “Eu ficava lá no barco, eu conhecia tudo”. Conta um pouco o que é um barco, ficar lá dentro, mesmo em terra? Que parecia que estava no sangue. Você consegue falar pra gente?

R – Sim. Quando chegou nessa fase aí, eu já estava indo muito nas embarcações, eu comecei a me identificar com a embarcação. Uma das coisas mais difíceis pra mim foi aprender a dar nós, que era difícil, só que eu convivi, deitava onde os caras deitavam, ficava 10, 12, 15 dias de mar sem tomar banho, e eu deitava ali, eu sentia que já fazia parte daquilo ali, deitava. Pegava o timão, ficava rodando, criança ainda. E ficava imaginando, um dia eu vou ser pescador. Porque, na realidade, o pescador naquela época, ele passava pra gente, criança, uma falsa liberdade, alegria. Porque quando eles chegavam, eles não trabalhavam, trabalhavam no mar, quando chegavam era só farra, só farra. E quando a gente era criança queria brincar ali, farra, gastava, bebia, chegava bêbado. E pra nós aquilo era o nosso mundo. Aí, “Eu quero isso também”. Ia pro bar beber, não tinha ninguém pra falar que não, podia tudo. E eu: “Não, um dia eu vou ser pescador também”.

P/1 – E as famílias deles não moravam no lugar?

R – Sim, moravam, mas eu falo a verdade que era uma época que ensina ou não. O homem da casa era ignorante que não tinha estudo, não tinha uma cultura de educação, achava que tinha que ser tudo na base da força. Eles iam pro bar e pronto, chegavam bêbado, dormiam. No outro dia a mulher tinha que fazer a comida, dar na mão, era o dever de casa da mulher, mulher era obrigada àquilo. E o homem era obrigado a sair, se divertir, aí passava para os filhos a mesma coisa. E a gente aprendeu a ter carinho. Como a gente não tinha carinho dos pais, a gente achava que tinha que ser daquele jeito. Eu lembro quando o meu pai chegava, eu ficava dois, três dias com medo dele, se escondendo, não me aproximava. Primeira coisa, ele chegava muito cabeludo, que não fazia a barba, não cortava cabelo, imagina, três, quatro, cinco meses, e não sabia a reação deles, que era a reação de carinho ou de brigar comigo porque eu fiz alguma coisa, eu aprontei alguma coisa. Aí eu ficava. Quando ia se aproximando dele, já estava há dois, três dias em casa. (troca de fita)

P/1 – Valdinei, a gente tava falando dos pescadores, quando voltavam pra casa. Seu pai falava alguma coisa do mar pra você? Das pescas dele?

R – Sim, falava. Falava muito. Meu pai era muito brincalhão com os outros. Até quando eu fui pra lá mesmo, eles falavam muito dele. Eu até achava estranho porque em casa ele não era, e lá ele era o brincalhão da turma, e todo mundo gostava muito dele, e em casa... Eu até assustei: “Será que é o mesmo que eles estão falando?”. E ele contava muita coisa, como era, como não era lá, como era muito perigoso. Um dia mesmo, como ele trabalhava de cozinheiro num barco ele chegou todo queimado, ele se queimou todo, fez o tratamento pra melhorar porque virou uma panela em cima dele porque o mar estava muito agitado. Mas ele falava dos peixes que matava, matava muito peixe. E gostava de contar história que acontecia lá.

P/1 – Você lembra de alguma que ele te contou?

R – Olha, eu lembro de muitas, mas a maioria das histórias era mais sobre em terra, já tava em terra. Porque no mar mesmo eles não gostavam de falar muito, porque na realidade, no mar só tem duas coisas, pescar e dormir, eram as duas coisas que tinha. Mas as histórias do mar, a maioria das histórias dos pescadores é mais quando ele chega em outro porto, porque daí cada um vai pra um lado, né? Aí sim, aí tem muita história que eles falam.

P/1 – Valdinei, seu pai também pescava ou ele mais cozinhava no mar?

R – Não, a gente tem o cozinheiro, tem o motorista e tem o gelador, mas todos pescam, cada um tem uma função à parte, mas todos pescam. Tem a cozinha, faz a comida, acabou de fazer a comida vai pescar. Olhou o motor, tá tudo bem, tá pescando.

P/1 – Você falou que tem o cozinheiro...

R – Gelador.

P/1 – Gelador?

R – É aquele que gela o peixe, toma conta do peixe. E tem o motorista que toma conta do motor, não é aquele que guia o barco. Motorista que a gente fala é aquele que toma conta das máquinas. Mas todos têm a mesma função que é ser pescador.

P/1 – Aquele que toma conta das máquinas, como ele tem que fazer?

R – Ele tem a manutenção, né? Que nem um mecânico, ele tá o tempo todo alerta porque não pode ter falha, se tiver falha podem acontecer coisas pequenas, como pode acontecer uma tragédia também, que já aconteceu. Uma correia, por exemplo, caiu. O motor que emperra num carro ele tá sempre certo, é uma direção. E lá não, lá o mar tem altos e baixos, então ali tem uma trepidação maior, e acaba caindo a correia, quebrando uma peça, e se o motorista não vê, acaba enchendo a embarcação de água. P/2 – A gente vai precisar voltar. Você pode falar as últimas coisas que você falou? Tranquilo, podemos continuar.

P/1 – Valdinei, você disse que o motor no mar é diferente porque tem muitos altos e baixos, balança o barco, aí você...

R – Isso, porque como o mar muitas vezes está agitado. O mar pra gente é completamente diferente de aqui de terra, a gente olha praquela praia, o mar lindo, calmo, mas no mar chegam ondas de três, quatro metros, naturalmente. E acontece muito problema com motor, afeta toda a embarcação. E se cair uma correia daquela, em alguns minutos o barco está no fundo, a água vem toda pra dentro do barco, porque ela circula, ela entra e sai. E se não deixar ela pra fora, ela só vai entrar. Muitas das vezes a gente estava viajando, quando olhava assim, o barco estava... Aí tinha que sair correndo, tirar água, fechar registro, e tentar tirar água nos baldes pra não deixar o barco afundar. Então, é uma preocupação grande, o motorista é pra isso, pra tomar conta das máquinas. Eu trabalhei muito tempo na cozinha, sou cozinheiro profissional na área do mar, pra mim é a parte mais difícil, pior parte na embarcação é ser cozinheiro.

P/1 – Por quê? Conta aí então como é ser um cozinheiro, o que você tem que fazer?

R – Porque na cozinha a gente lida com várias pessoas. E lá não tem como dizer: “Hoje eu não quero jantar, eu vou fazer um lanche”. Não tem como. “Ah, hoje eu não quero comer peixe, eu quero comer carne”. Não tem como. “Ah, eu quero comer frango”. É o cozinheiro que decide o que vai fazer. Só que nessas vai passando um dia, dois, três, quatro, além de ir acabando a providência que a gente trouxe de terra pro alto-mar, vai ficando escassa aquela comida mais gostosa, a gente tem que remediar, a cabeça da gente também começa a mudar, já começa toda a culpa, ninguém vai chegar pro gelador e falar: “O peixe tá bem gelado?”. O motor: “Você tá olhando o motor?”. Não, mas na cozinha. “A comida tá salgada”, “A comida tá com pouco sal”, “Todo dia é a mesma coisa”. E ali, imagina só, um cozinheiro pra 27 homens em um barco, só ele cozinhando e diversas pessoas com pensamento diferente, com paladar diferente, e muitas das vezes quer falar: “Eu quero isso, quero aquilo”. A não ser o mais perigoso de todos que é a natureza, porque como a gente vai cozinhar com o barco balançando. Já peguei panela de feijão que bateu os feijões tudo no teto, que o barco subiu, quando desceu a panela ficou no ar [risos]. É complicado, é muito complicado. P/1 – E pode queimar, como aconteceu com seu pai. R – Queima. Eu tenho cicatrizes de queimadura aqui, vivia muito queimado. Porque com o balanço, a gente tem que fazer a comida se segurando pra não cair, não virar a panela em cima. Fogão, panela, é tudo amarrado também, tem que estar tudo amarrado pra não virar.

P/1 – A panela amarra como?

R – Tem que amarrar, a gente tem que fazer uma amarraçãozinha de arame, amarra no fogão e passa por cima da tampa pra segurar. E o fogão é sempre parafusado na madeira. Mas assim mesmo acontecem imprevistos, sair aquilo lá.

P/1 – E conta uma comida que você faz e o pessoal gosta bastante?

R – [risos] Modéstia à parte, os próprios colegas meus, os pescadores em geral, falam que eu cozinhava muito bem. Em casa não sou muito de fazer comida não, porque eu cozinhei tanto no mar, mas eu gostava. Eu sempre fiz aquilo que eu gostava, até hoje eu faço aquilo que eu gosto. Eu gostava muito de cozinhar, eu gostava muito de fazer frango assado, eu fui uma das pessoas que renovou lá, e eu faço até hoje sem usar forno, que a maioria dos fogões não tem forno e eu fazia o frango assado.

P/1 – E como você fazia pra ficar assado?

R – Eu temperava ele de um dia pro outro, no outro dia eu ferventava ele inteiro.

P/2 – Desculpa, só porque deu muita interferência do galo, essa história é ótima, você pode recomeçar a partir da história do frango assado? Por favor. Pode ir, é que teve um que foi muito alto.

P/1 – Esse é alto.

P/2 – É. Vamos lá, vamos lá, qualquer coisa a gente volta.

P/1 – Eu perguntei qual a comida melhor que você fazia.

R – É, sempre tem um que a gente...

P/1 – O frango assado, você ia falar.

R – Eu acho assim, eu acho que eu renovei um pouco a cozinha das embarcações. Não é que eu sou o melhor, sempre que a gente faz aquilo que gosta de fazer sai melhor, com certeza. Eu vou dar a receita. Você pode pegar ele normal, um frango, tempera ele todinho com bastante cebola, o segredo é cebola e alho. O tempero que eu sempre usei no alto-mar era cebola e alho, algumas vezes pimenta do reino. Tempera ele de um dia pro outro, no outro dia, ferventa ele bem ferventado. Você pega uma lata de óleo, um litro de óleo, coloca na panela bem quente e bota ele pra fritar. Não se preocupa com o óleo que não vai ter óleo porque como está muito quente e ele tá inteiro, ele vai simplesmente por fora, ele vai ter a aparência que está assado sem óleo nenhum. Aí eu botava no canto, quando o pessoal chegava de manhã. Detalhe, até duas horas da madrugada a gente tá fazendo almoço. Quando amanhece o dia o almoço tá pronto. Tinha vezes que a gente almoçava às sete horas da manhã, seis e meia da manhã o almoço tá pronto. ´

P/1 – Acorda e já...

R – Não, a gente trabalha. Duas, três horas da manhã a gente tá trabalhando no alto-mar. Eles tomam o café, eu já faço o café, e já coloco a comida no fogo, tudo o que tem que fazer. Antes de deitar eu já deixei tudo preparado, arroz lavado, a carne já no tempero, pra quando a gente começar a trabalhar e amanhecer o dia já tá tudo pronto para não atrapalhar a gente na pesca.

P/1 – Conta um dia todo à rotina do barco, por favor. Como que é esse horário? (troca de fita)

P/1 – Conta pra gente essa rotina do barco.

R – A rotina, eu to falando aqui do lado profissional, porque tem muito pescador amador, né? O lado profissional. A rotina do barco é assim: saímos de terra pra fora, fazemos todo planejamento dos dias que a gente vai ficar, claro, sempre sobrando porque a gente não sabe o que vai acontecer lá. Saímos. A gente coloca duas pessoas para tomar conta do barco e os outros vão dormir, descansar. Chegando lá no pesqueiro, a gente vai trocando, a viagem é longa, vai trocando os vigias.

P/1 – Vocês saem geralmente de dia ou de noite?

R – Geralmente a gente sai na parte da noite, a gente viaja três, quatro dias pra ir no alto-mar adentro, que cada vez tá ficando mais longe, né? Aí a gente vai, chegando lá, três horas da manhã, a gente chama todo mundo, o café tá pronto, o cozinheiro já fez o café.

P/1 – O pessoal tá dormindo?

R – Estão dormindo. Às três horas levanta, aí vamos trabalhar à noite ainda. Passa o dia trabalhando. Chega sete, oito, o mais tardar nove horas, vai almoçar. Almoça e trabalha até dez, onze horas. Se tiver pouca pescaria assim, porque o sol tá muito quente, amarra um pouquinho até duas horas. Aí começa, aí trabalha até onze, meia noite de novo, trabalha muito, trabalha muito mesmo, aí vai descansar. Nem todos vão descansar, tem aqueles que vão tomar conta, 24 horas tem que ter o pessoal acordado.

P/1 – Pra prestar atenção no quê?

R – Prestar atenção em navios, embarcações grandes que podem vir na direção da gente. O motor, que a gente tem que ficar olhando que pode arrebentar e jogar água pra dentro se tiver todo mundo dormindo... E tudo isso. Outra embarcação muitas vezes chama a gente no rádio, a gente tá sempre alerta. Aí terminou o horário dele, chama o outro. Aí vamos trabalhar, chama todo mundo. Tem 10, 20 minutos pra gente tomar café, toma café da tarde, aí trabalha de novo. Chega quatro horas, de repente já está jantando. Acabou de jantar, vai todo mundo. Agora só pra dormir de novo que vai descansar, de dez, onze horas da noite.

P/1 – Dorme quantas horas?

R – Olha, em média dorme de três a quatro horas por dia. Dependendo do lugar a gente dorme até mais, porque em muitas vezes, como a gente já tem experiência, sabe do melhor horário do peixe pegar, aí a gente tem que economizar a isca porque se despeja a isca num momento que tem pouco, quando chegar num horário que está melhor a gente não vai ter pra trabalhar, então, aí dá aquela descansada. Não que a gente quer descansar, porque é obrigado, pra manter o mantimento. Óleo, a gente não anda muito, porque pode gastar o combustível, aí a gente dá aquela parada. Mas a média de um pescador em alto-mar, profissional, ele dorme mais ou menos três horas, quatro horas, de 24 horas.

P/1 – Você falou que pode vir embarcação grande. Que tamanho é esse barco que você costumava trabalhar?

R – Esse que eu comecei era um barco de ferro, ele tinha quase 30 metros, eram 27 homens. Eu trabalhei lá cinco anos e achei que ficava muito longe de casa, era em Santa Catarina, o porto dele era lá, a gente chegava lá, levava de dois a três meses fora de casa, era a média, passava quatro, cinco meses. E muitas vezes dava um problema e a gente vinha com um mês, um mês e meio, mas a média era três meses. Aí como eu achei muito longe, eu tava jovem, já estava namorando, já ficava muito longe de casa, aí eu resolvi vir pra cá. Aqui a gente trabalhou em um barco de sete homens, já é um barco menor, é um barco de 13 a 14 metros, mas levava uma média de um mês, 40 dias fora de casa.

P/1 – Você já pegou barco a vela ou só a motor?

R – Não, a vela era na época que eu era criança que eu vi, mas eu tinha muito medo e eu era muito pequeno ainda.

P/1 – Você nunca trabalhou em um barco a vela?

R – Não, barco a vela não cheguei a trabalhar, não.

P/1 – Por que você tinha medo do barco a vela?

R – Porque eu era muito pequeno, olhava e pensava que não tinha como ficar nesse barco, não tinha tabagem, não tinha motor, não tinha nada. Era tudo mais perigoso e os adultos achavam que era pra homem, e eu concordo com eles, tem que ser muito homem [risos]. E como a gente era novo eles não deixavam.

P/1 – Seu pai trabalhou em barco a vela?

R – Trabalhou, meu pai trabalhou muito tempo em um barco a vela. Meu irmão trabalhou em barco a vela.

P/1 – Barco a vela vai a quanto de distância?

R – Olha, a 200 milhas náuticas, 100 milhas náuticas. Porque antes, quando era o barco a vela, o pesqueiro não era tão longe. Hoje a gente anda 600 milhas náuticas pra ir atrás do peixe, do pesqueiro, o ponto. Mas com o barco a vela não precisava ir tão longe, andava 100 milhas, até 200 milhas era o máximo que eles iam, porque dependia muito do vento pra ela se mover, eles não iam tão longe.

P/1 – Valdinei, o que aconteceu, na sua opinião, pra precisar ir tão longe pra pegar peixe? Pra chegar no pesqueiro?

R – Eu creio muito na poluição dos mares, das costas, e devido a demanda do pescado. E cada vez as pessoas estão indo mais longe pra buscar eles porque perto já não tem mais. Cresceu muito a demanda de 20, 30 anos atrás pra hoje. Hoje tem exportação, a maioria dos nossos pescados é exportado, vai pra outros países, principalmente a pescaria que eu pescava que era o atum. O atum há tempos atrás era só japonês que comia, era cultura japonesa comer o atum. Hoje os brasileiros já estão mais no peixe cru e eles só dão em águas profundas. Aí vem também o petróleo, foram expandindo mais as plataformas, colocando cada vez mais longe. Aqueles peixes da costa foram sumindo também, eu creio que devido a isso também, poluição, aumento de embarcações, tudo foi trazendo para que o peixe ficasse mais escasso na nossa costa. (troca de fita)

P/1 – Eu estava te perguntando, você começou a falar do dia a dia...

P/2 – O que era mesmo a última coisa?

R – Era do dia a dia, do motor, cozinheiro. Não foi isso não?

P/2 – Não, você falou do petróleo!

R – Ah, isso!

P/2 – Que tem que ir mais longe, e você falou do atum, da demanda do atum e estava falando do petróleo.

P/1 – Isso que eu queria te perguntar agora. A gente fala, quem não vive aqui no cotidiano, “Ah, o petróleo poluiu”. Você tem como descrever um pouco pra gente essa mudança? Sabe, do dia a dia mesmo, como isso foi acontecendo. Se você, que ia pro mar, se dava pra notar isso?

R – Sim. É porque na realidade eu nunca fui contra, eu sou um pescador que nunca fui contra a exploração das riquezas brasileiras no sentido de: “Ah, vai atrapalhar o pescador”. Não vai. Eu gostaria de haver um respeito. Claro que onde que mexe com petróleo, com coisa química, muitas das vezes pode ir para o mar que contamina aquela área sim. Mas através dessas plataformas também o peixe veio pra costa brasileira, porque antes disso era difícil a gente conhecer o atum, ter lugares para pescar especificamente. Porque plataforma em alto-mar, se a gente olhar de cima é um ponto de luz na água, se a gente meditar certinho, e o peixe, em geral, a luz chama a atenção deles e eles encostavam na plataforma. O que eu acho que não é muito bom, claro, existem coisas químicas, tem com certeza, um vazamento de óleo mesmo vai matar o peixe, vai. Mas o respeito maior é porque quando as plataformas vieram, os meus pais já pescavam naquela área, e muitas vezes eles querem proibir. Aí sim, eu acho que atrapalha o lado do pescador. Proibir, “Ah, o pescador não pode pescar em tal área”. Como que um pescador, que deixa sua família em casa, deixa seu conforto do lar que eu tenho certeza que é bem mais confortável que lá, bota sua vida em risco, porque é perigoso, e não pode trabalhar em certa área? Claro, tem que existir uma certa segurança, sim tem. Só que aconteceu comigo mesmo, de embarcação tomando conta de plataforma jogar em cima da gente, eles sendo uma embarcação de ferro jogar em cima da embarcação de madeira. E com certeza eles andam bem mais rápido do que a gente, e a gente viu muito sufoco. Por quê? Eu acho, acho não, tenho certeza, falta um pouco de respeito. Ali há famílias também, esse lado atrapalha. Não falo só da poluição que atrapalha, atrapalha muito, mas além da gente correr um risco muito grande, não precisa eles inventarem um risco maior pra gente, como aconteceu que a gente teve que sair correndo, pedir “Pelo amor de Deus” pra eles pararem porque, com certeza, é um gigante em cima de uma coisa pequena. Eles têm navio, os rebocadores que tomam conta lá da área. “Ah, é área proibida”, porque muitas vezes tem lugar ali que não é brasileiro, é de fora. E lá, como tem terrorismo, não sei, o que eles pensam desse jeito, acham que pode acontecer aqui e usar. Só que, pô, a gente não tem nada com isso [risos]. Eles estão pescando, estão trabalhando. E a dificuldade que a gente tem, não adianta, tem que ir mais longe, tem que ir muito mais longe pra buscar o pescado. A gente não tem Natal, Sexta-feira Santa, Páscoa. Lá a gente trabalha. É de domingo a domingo, Sábado de Aleluia, Sexta-feira Santa, é Natal, Ano Novo. E ninguém quer isso, com certeza. A gente vai. Eu já passei Natal e Ano Novo viajando, até chegar no pesqueiro ainda.

P/1 – Mas Valdinei, você disse que eles não querem que se aproximem da plataforma. Quando vieram esses navios maiores pra cima, por que não podia passar de tal área ou trânsito normal?

R – Não, é porque não poderia passar, me aproximar muito da área deles. Porque a gente aprendeu, a gente também respeita, a gente como pescador tem uma embarcação menor e respeita os grandes, com certeza. Porque muitas das vezes não vê. Na frente, eu vou contar pra vocês que aconteceu um acidente grave comigo por causa disso. Mas a gente sabe o respeito. Só que eles sabem também que chegou num lugar e não pode, eles vão chegar: “Olha, não pode trabalhar aqui, porque tem um perigo aí embaixo, perigo de explosão”. A gente não é tão tolo o bastante pra continuar ali, porque são centenas de embarcações, você avisa dez, mas vai ter uma que vai estar desavisada e vai chegar ali. Aí você vai falar: “Ah, porque eu avisei os outros dez, aquele outro veio e tá sabendo”, “Não”. Foi o que aconteceu com a gente, a gente não sabia, chegou lá, ele veio pra cima com tudo, a gente não tinha mais como sair da frente, fizemos sinal pra parar que estava saindo. Chegaram a cinco metros da embarcação, e cinco metros um barco muito grande, é pouquíssima coisa. Aí, a gente já tava pedindo a Deus pra tomar conta da gente.

P/1 – E como foi? Foi esse acidente?

R – Não, não. O acidente meu foi outra coisa, a gente tava viajando em alto-mar.

P/1 – Depois você vai contar, né?

R – Isso. E ali eu vi também, eles não respeitaram.

P/1 – Valdinei, isso que eu queria só entender um pouquinho. Quando você vai se aproximando é a forma que eles têm de mandar vocês se afastarem é com a embarcação?

R – É.

P/1 – Não é um outro jeito?

R – Não. Muitas das vezes eles chamam no rádio, na comunicação, mas muitas das vezes eles estão em um canal e a gente tá em outro. O próprio pescador tem isso: “Ah, eles me chamam no canal 16”. Muitas vezes a pessoa tá lá no 20, e não ouve. E eles acham que está...

P/1 – A forma deles não deixarem aproximar é por meio da embarcação?

R – É por meio da embarcação. É o único meio. Se não for por rádio, é por outra embarcação. Só que as embarcações deles são bem maiores.

P/1 – Eles vão pra cima.

R – Vão pra cima pra tentar inibir a gente. Muitas das vezes, não estou falando contra eles, porque muitas das vezes a gente interpreta de uma maneira bruta deles, e muitas vezes eles acham que desse jeito eles vão inibir a gente. E colocam a vida dos pescadores em risco porque se deu um problema de repente, naquela embarcação, no motor naquele momento, eles vão passar por cima, não vão ter como parar. Aí é muito perigoso.

P/1 – Já houve uma tentativa de conversa sobre isso? Pra mudar esse jeito?

R – Eles já tentaram. A própria Capitania, Marinha do Brasil já tentou resolver, só que eles dão distância, no mínimo 500 metros. Nem todos lugares, tem lugares que nem pode. Só que eles têm que entender que o peixe que vem perto da luz, ele tá próximo da plataforma, a 500 metros não tem nada, a gente tem que chegar a 50 metros, a 20 metros para encontrar eles. Ele não vai até a embarcação, o peixe não sai de onde ele está pra ir até lá, a gente tem que ir até ele. E essa distância que já foi discutida, de 500 metros, é impossível o pescador trazer o pescado, não tem como.

P/1 – Agora Valdinei você falou, essa parte é pra gente entender bem, que após a plataforma os peixes se aproximaram mais da... (troca de fita)

P/1 – Deixa ver se eu entendi bem...

R – Um peixe do alto-mar.

P/1 – Qual é o peixe de alto-mar?

R – O atum que a gente conhece muito, ele é do alto-mar. O próprio dourado, ele vem do alto-mar pra terra, são peixes assim. A maior força é o atum, é a cavala, que a gente fala, que se aproximaram mais. Quanto mais longe, ele tem, só que a gente não acha. E se tiver uma plataforma a cinco mil metros de profundidade a gente vai lá. A gente viaja, muitas das vezes, dez dias e dez noites para chegar em um barranco que tem lá na Trindade, todo mundo já ouviu falar da Trindade aqui, ela fica há 1.200 quilômetros da costa de Vitória, é a costa mais próxima. Mas uma embarcação normal anda 10, 15 quilômetros por hora. Você imagina andar 1.200 quilômetros? Aí fica longe.

P/1 – Eu não entendo nada disso, por isso que eu estou insistindo. Assim, antes você diz que os peixes ficavam mais próximos da costa. Que tipo de peixe?

R – São os peixes que os pescadores com barco a vela poderiam matar, são os pargos, os chernes, os badejos, que a gente fala. O próprio dourado mesmo que vem do alto-mar pra terra, como tem aquelas luzes lá fora, nas plataformas, eles já não vêm pra cá, eles ficam lá mesmo. Aí o pescador tem que ir até lá porque ele se aproximava mais da costa. Esses peixes, com certeza hoje, um barco a vela não pega mais. Por quê? Porque eles se afastaram, eles acharam outro ponto luminoso lá. E a própria contaminação do solo também acaba afastando eles, eles vão procurar águas profundas, e o pescador tem que se adaptar. Antes, um barco de 12, 13 metros era ideal, hoje as embarcações da gente aqui é de 17, 18 metros.

P/1 – Por que tem que ser maior?

R – Pra carregar mais material e levar mais dias de mar. Leva até meses em alto-mar.

P/1 – Se eu entendi, os que vinham mais perto ficaram mais longe. E os que eram de água mais profunda...

R – Estão ficando lá mesmo, só que a gente tem que ir até eles. Porque se as plataformas não estivessem lá, eles iam se aproximar mais um pouco, só que como tem lá, eles param e ficam lá mesmo. Pra que eu vou lá? Porque o ponto luminoso gera uma reação, o peixinho pequeno encosta naquela luz, o maior vem e pega o pequeno. A ideia que a gente tem é essa, porque o pequenininho viu aquela luz, chegou ali. O maior vê que o pequeno vem, então vem aquela reação que vem crescendo, até chegar onde a gente quer. Por isso acontece isso. E antes, como só tinha costa, eles vinham pra costa, as luzes da praia traziam eles pra praia. Hoje não, hoje lá fora tem lugares. A Bacia de Campos mesmo, se a gente olhar é uma cidade no alto-mar, de tanta luz. E acabou ficando mais escasso, porque acabou dividindo um peixe, fica um pouco aqui, um pouco lá, que é muita plataforma que tem, eles ficaram divididos, não juntaram em um lugar só. Aí fica mais escasso, o barco tem que andar mais, tem que ter mais material, mais combustível pra andar, né? Pega um pouco aqui, um pouco ali e assim vai indo. P/1 – Valdinei, depois a gente vai entrar um pouco na parte sua, tudo o que aconteceu desde essa época pra cá. Só você falando agora desse ambiente, falamos das plataformas de petróleo. E da floresta, o que você acha que aconteceu que vocês tinham muita mata e agora não? R – Onde que eu moro mesmo, o quintal da minha casa era uma mata. Era uma mata fechada que a dez metros da minha casa poderia entrar que era mata. Não sei se foi falta de controle ambiental, eu sei que foram destruindo, a busca pela areia, porque descobriram que baixa uma areia, começaram a arrancar a areia e destruíram as matas. De onde eu estou falando aqui, a dez metros que eu tô era mata fechada. No começo eu falei que a gente brincava, quando era criança, esquecemos até um colega meu lá, era pertinho de casa, só que era mata fechada. A gente via vários tipos de animais, até a gente mesmo caçava ali, e hoje a gente olha e simplesmente não tem nada.

P/1 – Por que destruíram essa mata? Você falou de areia.

R – É porque teve a exploração de areia. Exploraram o lugar, acharam que era mais importante do que a mata, e destruíram a floresta, a mata para simplesmente explorar a areia.

P/1 – E levavam pra onde essa areia?

R – Olha, essa areia, em todo lugar do Espírito Santo acho que ela... Até hoje tem essa exploração. Aqui não, porque acabou, se a gente abrir a janela vai ver simplesmente lagoas, que foram feitas, buracos que foram deixados, somente a destruição.

P/1 – Tinha empresas fazendo isso?

R – Olha, ter tinha, mas agora não sei se era legalizado ou não, porque eu não sei como era esse lado aí, eu sei que destruíram tudo.

P/1 – Areia para construção?

R – Para construção. Era o meio da gente brincar, era um lugar bom, era um ambiente saudável, que os meus filhos mesmo, eu tenho um filho de 14 e um de 12, eles não conheceram isso.

P/1 – E quando eles exploraram essa areia empregaram pessoas aqui? Ou melhor, seria uma forma de produção do lugar?

R – Olha, se empregaram ou não, eu não sei nem se era legalizado, sobre isso eu não sei, não posso nem falar.

P/1 – As pessoas que você conhecia não trabalhavam?

R – Que eu conhecia não.

P/1 – E turismo aqui? Você acha que de um tempo pra cá aumentou ou não, como é essa parte do turismo?

R – Eu nasci aqui, tenho 39 anos, estou no mesmo lugar, vi desde pequeno o lugar crescer. Eles não investiram quase nada em turismo. Eles fizeram algo na praia que eles falavam que era pra ajudar os pescadores, mas os próprios pescadores viram que não era nada daquilo que eles falavam que iam ajudar. Simplesmente eles pioraram. Os pescadores acabaram saindo daqui e indo pra outros portos porque eles destruíram a praia, o único lugar turístico que tinha era nossa praia, se vocês forem lá hoje ela é ruim.

P/1 – O que eles fizeram?

R – Eles simplesmente colocaram pedras na praia, uma praia linda no Espírito Santo, eu conheci bem poucas praias como ela, não tinha pedra nenhuma, você poderia ficar à vontade, uma praia linda, e fizeram tipo píer, cercaram em nome dos pescadores, que iria melhorar pras embarcações. Uma parte, onde ficavam os barcos, secou, e a parte que tá fora do píer foi destruída, o mar destruiu porque o mar avançou. Eu não tenho estudo, sou um pescador, se falar da pesca eu sei, só que até mesmo eu que não tenho estudo vi que era errado. E os turistas acabaram fugindo. Você não vai a uma praia com a sua família onde só tem pedra e é perigoso você mergulhar, um lugar é lama, o outro está superagitado, aí eles acabaram...

P/1 – Quem fez isso? Essa iniciativa foi de quem?

R – Olha, foi das administrações anteriores, não sei quem foi, não sei qual órgão que liberou, mas até eu que não tenho estudo vi que estava errado, imagina uma pessoa que tenha estudo, engenheiro.

P/1 – E disseram que era pra ajudar...

R – Pro bem estar dos pescadores.

P/1 – Pra que serve?

R – Eles acharam que fechando o píer o mar ia ficar manso, para encostar mais embarcação. Só que ficou tão manso que secou, o mar secou. As embarcações maiores não entram mais no nosso porto, porque não tem água pra ele circular. Aí eles viram que foi completamente errado. Até a gestão agora, que ganhou, prometeu que ia resolver esse problema, que é um problema muito grande. Eu acho que não é fácil resolver, então a promessa é de resolver, mas do jeito que está acabou turismo, não tem como investir no turismo. A própria pesca aqui não investe mais, porque as embarcações estão saindo daqui, indo pra Guarapari, que é o lugar mais próximo, ou Rio de Janeiro, para escoar sua produção, para carregar e descarregar, sendo que aqui, um tempo atrás, era o maior porto pesqueiro do Espírito Santo, a Praia de Itaipava.

P/1 – Até quando, mais ou menos, escoava aqui a produção?

R – Isso aí tem uns dez anos, cinco anos mais ou menos, era aqui. Aí eles mexeram. Eu mesmo, eu falava pros meus colegas: “Rapaz, isso aí não é certo, não vai dar certo. Você vai pegar uma praia que a natureza fez, você vai mudar o curso”. E realmente não deu. Eu queria que desse certo, torci pra dar, mas, lamentavelmente, não deu. Aí o turismo acabou ficando de lado. Porque realmente eu não vou pegar a minha família e trazer pra um lugar... O lugar é ótimo pra viver, muito bom, quem quiser passar férias aqui eu falo que é bom, só que em outras praias, a nossa praia mesmo não dá.

P/1 – Você fala “Nossa praia”, vocês chamam como a praia?

R – Nossa praia aqui, a Praia de Itaipava. Aqui é onde que eu nasci e cresci, brinquei muito, me diverti muito.

P/1 – Valdinei, você falando de escoar produção. Quando você começou a pescar e pra agora, conta um pouco pra quem vocês vendiam e vendem o peixe. Estou falando dos pescadores daqui.

R – Aqui, a gente costumava vender somente pras pessoas daqui do lugar, era aqui e Piúma, encostado aqui, né? Lá em Piúma, uma vez acontecia um cara do Rio ligar: “Preciso de um peixe”. Eles vinham buscar o nosso pescado aqui. A renda, tudo ficava aqui pro município, pro lugar. Só que como fizeram isso e não tem como chegar, não tem um porto, a gente não tem porto de cais, tivemos que fugir, os pescadores fugiram. A renda, carregar supermercado, são de lá. Postos de combustível são de lá. Gelo é de lá. Tudo o que faz fica lá em outra cidade, Rio de Janeiro, a gente chega muito em Niterói, chega em Guarapari, chega em Santa Catarina, na época do pescado de dourado ninguém chega aqui mais. Algumas embarcações pequenas que chegam aqui, mas a maior parte, eu falo pra você que 90% do pescado, não está mais no estado, tá fora, porque, lamentavelmente, eu mesmo, a gente fica aí agora, na média de 40, 50 dias fora de casa, porque não tem um ponto aqui pra gente chegar. E como fica longe pra gente estar sempre em casa, a gente faz uma média desses dias, aí vem pra descansar.

P/1 – Mas pra vender o peixe.

R- Não, a gente não vende mais peixe aqui em Itaipava. A maioria dos barcos, os grandes principalmente, não vendem mais aqui.

P/1 – Aqui no estado, se vende é em Guarapari?

R – É, mas é bem pouco. A maioria vai pro Rio de Janeiro.

P/1 – Entendi. E vende direto pra quem?

R – Atravessador.

P/1 – Sempre?

R – Sempre.

P/1 – Foi assim sempre?

R – Sempre foi assim. Só que antes a gente tinha um contato maior com o atravessador porque era do lugar, hoje, na maioria das vezes, a gente nem conhece, né? Chega, liga, “Tô precisando do seu peixe”, vem na embarcação. O atravessador que... O que faz ficar mais caro o produto, até a mesa do consumidor, é o atravessador. A gente poderia vender diretamente pra restaurante, as próprias peixarias, mas não, a gente passa pro atravessador e o atravessador que vai fazer isso.

P/1 – Valdinei, com toda essa experiência, você tem alguma ideia, vocês pescadores, como poderiam resolver essa parte da venda? Aqui eu entendi que é difícil chegar, mas onde vocês estão vendendo o peixe, tem alguma forma que poderia melhorar essa parte da venda?

R – Sim. Eu sempre tive cabeça aberta pra esse lado. Eu conversei com um colega meu de Minas, eles falaram, há muito tempo atrás, que eles plantavam goiaba, pegavam essa goiaba, passavam pro atravessador e o atravessador ia até a fábrica. Então eles vendiam muito barato e saía caro. Aí ele me deu uma ideia: “Por que você não faz isso com o pescado? O que nós fizemos? Nós fizemos uma cooperativa de verdade, que se interessa no produtor, e leva diretamente”. E muitas vezes essa cooperativa faz os próprios produtos, os derivados. Ali mesmo, dos próprios produtores, as famílias dos produtores fizeram isso e vendiam diretamente. Só que pra isso tem que ter pessoas de confiança. Eu, como sou muito amigo do comandante da embarcação que eu trabalho, a gente é amigo de infância, eu falei isso pra ele. Ele falou assim: “Ó, não dá certo”.

P/1 – Por quê?

R – “Não dá certo”, “Por que não dá certo?”, “Porque nem todo mundo é confiável”. Com essa mente a gente passa pra outros atravessadores, os atravessadores que ganham. Porque se tivesse uma cooperativa forte, diretamente, a gente chega com o pescado, chega com cinco mil quilos de peixe, a própria cooperativa, se fosse diretamente às peixarias, aos restaurantes, e levassem, com certeza iria sair um preço melhor pra gente, e um preço melhor para o consumidor. Aí ele simplesmente falou que não dava certo. E, lamentavelmente, é o pensamento da maioria, que eles acham que eles mesmos fazendo isso, acertando: “Eu vendo o peixe por tanto”, o atravessador “Boto tanto”, “Então tá bom”. Eles acham que é mais confiável fazer isso do que deixar na mão de outros. E a gente tem uma, tipo cooperativa, como diz o nome dos pescadores? Tipo uma cooperativa.

P/1 – Associação?

R – Associação de pescadores.

P/1 – Tem aqui.

R – Tem. Só que...

P/1 – Me conta dessa associação.

R – Olha, até agora não vi ideia nenhuma para melhorar pro pescador, na verdade é isso, eu não vi mudar nada a favor do pescador. Como é associação poderia ver esse lado, eles irem diretamente aos consumidores vender, ter umas ideias novas pro pescador. E eu não vi isso até hoje, tem muitos anos e eu não vi isso.

P/1 – Há quanto tempo tem essa associação aqui?

R – Olha, eu creio que tem uns 15 anos.

P/1 – Como ela foi formada?

R – No começo foi formada por “pescadores”. Só que na verdade quem manda não é pescador, eu não vejo pescador na direção, não vejo um filho de pescador trabalhando lá dentro pra saber: “Pô, pai, como é que foi lá no mar?”, pra passar, não tem, não tem. Os interesses mudaram, entraram outros interesses e o pescador ficou de lado. Realmente, hoje, tem mais de dois anos que não vou lá. Pra eu ir ao dentista lá, tinha dentista, eu tenho que pagar o tratamento do dente do meu filho, se bota um aparelho eu tenho que pagar, tem que marcar horário, de repente leva dois meses pra ser atendido quando é pra gente. O próprio pescador não tinha um horário, só que muitas vezes, se chegassem três, quatro, já não tinha mais vaga, tinha que deixar pra outro dia.

P/1 – Quando ela foi formada você participou de algum jeito?

R – Não, porque a maioria das vezes que tinha reunião a gente estava em alto-mar, eu mesmo não participei não. E muitas vezes quando tinha reunião o pescador não sabia.

P/1 – Quem chamava?

R – A maioria era dono de barco, era o mestre de barco que já era junto do próprio dono, interesses, o mesmo interesse. Quando um pescador fosse falar, porque a gente tava numa época que o pescador era meio ignorante: “Fica quieto aí, você não sabe de nada”. Hoje não, hoje mudou muito isto, mas ainda tem esse preconceito. Como a maioria dos pescadores não tem estudo, eles acham que os pescadores não sabem de nada. P/1 – O que mudou? Hoje é diferente. R – Hoje o pescador está procurando mais o seu direito. Antes, eu lembro que muitas das vezes, isso não é longe, foi agora há pouco tempo, eles mandaram o pescador embora da embarcação: “Ó, vai lá pegar os seus direitos, você não tem direitos mesmo”. E ficava por isso mesmo, porque nós éramos tão ignorantes que não procurávamos nosso direito. E agora não, hoje eles estão vendo: “Eu tenho direito, como que eu não tenho direito? Trabalhei com você dez anos, trabalhei cinco anos” e não tinha direito nenhum. Várias vezes aconteceu comigo, até mesmo de procurar os direitos, eu não procurava com medo de ter represálias no sentido “Eu não vou ter mais vaga, não vou poder trabalhar mais em outro barco, porque eles vão falar de mim”. A gente ficava assim: “É verdade mesmo”. Procurava testemunhas, os próprios pescadores não iam com medo, porque o dono do barco lá falava: “Você não vai não”. Ou chegava um dia de audiência, o cara ia pro mar e a gente era obrigado a ir, não poderia ficar. Aí era tudo mais difícil.

P/1 – O que você acha que aconteceu que agora o pessoal está mais consciente?

R – Porque está mudando, tá chegando pra gente mais dos nossos direitos. Antes ninguém tinha carteira assinada, eu tenho esse documento tem mais de 20 anos...

P/2 – Mostra próximo do seu rosto, que está cortando aqui na câmera.

R – É muito velho [risos]. Esse documento eu tenho há mais de 20 anos. A minha carteira está assinada tem dois anos.

P/1 – Que documento é esse?

R – Esse aqui é tipo uma habilitação, a mesma coisa que o motorista tem que ter a habilitação para dirigir, o pescador profissional tem que ter habilitação pra estar em alto-mar. Pra ele navegar em alto-mar ele tem que ter esse documento aqui, está na lei da Marinha, pra gente andar certinho tem que ter esse documento. Eu tenho há mais de 20 anos, só que a minha carteira de trabalho mesmo tem dois anos.

P/1 – Essa que está aí qual é?

R – Essa é outra, é a mesma, é porque essa aqui é de motorista, essa daqui já encerrou porque é de muito tempo, muitos anos, e eles acharam melhor fazer outra, aí eles fizeram outra aqui, é a mesma carteira só que mais nova. E a gente não tinha garantia nenhuma.

P/1 – Que idade você tinha aí?

R – Aqui eu tinha 16 anos.

P/1 – Habilitava você a fazer o quê nessa época?

R – Para eu viajar, poder ir a alto-mar. Eu tenho essa daqui, tem a etiqueta que eu sou aprendiz de pesca, isso é uma provisória, essa é hoje. Porque como eu era novinho, eu era de menor, eles colocaram aqui “Aprendiz de pesca”. Eu não era profissional até os 18 anos. Quando eu inteirei 18 anos que me deram como pescador profissional. Então esse documento prova que muitos anos atrás a gente já tinha esse documento, que a Marinha dava, só que a gente nem ouvia falar em carteira de trabalho.

P/2 – Você pode repetir essa última coisa, que você não ouvia falar de carteira de trabalho?

R – Esse é o documento da gente que a Marinha dá quando a gente é um pescador profissional, a gente é profissional. Só que a gente nem imaginava ouvir falar de carteira de trabalho, de direito, a gente não sabia dos nossos direitos.

P/1 – Agora, quem que está trazendo essas informações?

R – Porque hoje a informática, a própria televisão está nos ensinando a procurar nossos direitos. É o que eu falo, a associação dos pescadores já era pra ter corrido atrás há muito tempo, só que como as próprias, quem paga é o pescador, mas vem da mão do dono do barco, inteira o mês, eles vão lá, pagam e descontam da gente. Então quem era próximo lá da associação eram os próprios donos dos barcos, e não interessava a nenhum assinar a carteira, a gente continuava a ser clandestino. Qual é o interesse de uma empresa em assinar a carteira? Hoje não, hoje eles já sabem, se acontecer algo vai pegar pra eles, mas antes não, antes não tinha ninguém pra falar. A minha carteira de trabalho era pra ser da mesma idade, e tem dois anos que está assinada.

P/1 – Dois anos?

R – É. Quer dizer, eles vieram agora vendo. E por que antes as pessoas que estavam interessadas em ajudar os pescadores eram associações de pescadores que era pra ver isso? Eu vi que era interesse entre eles.

P/1 – E a colônia de pescadores?

R – A colônia de pescadores é pouco divulgada aqui pra gente, quase ninguém fala disso.

P/1 – No papel existe.

R – Existe.

P/1 – O que é essa colônia?

R – Pra falar a verdade eu nem sei explicar pra que é essa colônia, é tão pouco divulgada. Porque antes era na própria casa de um senhor que fazia isso, hoje eu não sei como é que é, porque a colônia também era pra ajudar os pescadores, mas era pouco divulgado. É o que eu falei, o pescador era um pouco ignorante sobre isto, não sabe um documento, nem sabia como fazer. Trabalhava sem esse documento aqui, tem pescador hoje que não tem esse documento ainda.

P/1 – Valdinei, além dessa parte da cooperativa que é uma ideia importante pra vender o produto, o que mais você acha que seria bom acontecer na pesca aqui no município, pra melhorar a situação dos pescadores? O que precisaria ser feito, até pelos próprios pescadores?

R – Conscientização. Tem que se conscientizar que aqui é o lugar da gente, é o lugar que a gente poderia investir mais. Eu acho que faltou um pouco de investimento. A nossa praia era uma praia linda! Poxa, quem conheceu ela antes, era muito bonita, e se acomodaram, deixaram. Eu creio que aqui não era pra fazer porto, eu sempre falei isso, era pra tirar daqui porque tem outras praias que poderiam fazer porto e não fizeram, não se interessaram. Se tivesse um porto aqui, com certeza todos os pescadores estariam aqui.

P/1 – Aqui onde? Você diz que a praia de vocês não é pra porto.

R – Realmente, essa praia aqui eu sempre considerei pro lado do turismo, da natureza. Mas tinha a Praia do Martim, a Praia da Gamboa, que eram praias em que poderia fazer e não iria atrapalhar em nada aqui.

P/1 – O que ajudaria ter um porto?

R – Ajudaria muito.

P/1 – No que?

R – Primeira coisa, a pior coisa do pescador hoje é ficar longe da família. Muito difícil. E naquela época, como a gente era mais bruto, eu mesmo que achava que era normal, natural, o meu pai ser daquele jeito, queria tanto ficar próximo deles, porque tinha medo. Mas hoje a gente vai vendo nossos filhos, a gente começou a olhar mais esse lado. Tem um colega meu que a filha tá com um mês de nascida, ele chegou ontem e já vai hoje, eles só liberaram ele lá do Rio pra ele vir ver a filha dele hoje. Quer dizer, quando ele voltar a filha dele vai estar com dois, três meses. Ele vai ficar 15 dias em casa e vai de novo, quando chegar vai estar com cinco meses. Se tivesse um porto aqui estava acompanhando junto, estava aquele carinho maior junto. Escola. Hoje, tudo o que acontece na escola eu procuro ir, minha esposa é muito difícil, eu vou. Tem um esporte, eu vou, acompanho. “Não, eu vou”. Eu assino: “Ah, pai, tem que assinar”. Eles vêm pra mim. Eu tenho uma menina de 12 e um filho de 14, eu não vi crescer, eu não vi, e agora eu tô vendo, que eu estou em casa. Eu vi o tanto que eles cresceram. E tudo aquilo que meu pai não me deu eu tento dar pra eles. Por quê? Porque é longe. A gente também não pode cobrar dos pais, porque eu sei que eles estão lá, é longe pra eles.

P/1 – Valdinei, tem o tempo que fica em alto-mar, mas esse outro período fica no porto trabalhando? Por que tem que ficar lá no porto?

R – Porque fica longe pra gente vir em casa, a despesa da gente. É sempre um carro que leva a gente pro Rio. São 800 reais pra ir e 800 pra vir, é um mil e 600, e a gente vai ficar lá dois, três dias pra ajeitar, descarregar, carregar, ver algum conserto, e não compensa vir em casa.

P/1 – Quem tem seu próprio barco também fica?

R – Fica também. Porque sai muito caro pra vir pra cá, vir e voltar. Tudo é mais caro, aí eles preferem ficar lá, inteirar os 40, 50 dias, aí vem, fica de dez a 15 dias em casa. Isso eu tô falando o máximo, tem gente que fica cinco, seis, sete dias, uma semana, tá voltando. Aí é difícil, né?

P/1 – Valdinei, agora vamos falar um pouquinho da sua história de pescador mesmo. A gente falou de várias coisas. Agora assim, desde quando você aprendeu a pescar e outras coisas que você aprendeu também, essa tua especialidade de cozinhar, até hoje. Quem te ensinou a pescar do jeito que você sabe hoje?

R – É o que eu falei, parece que está no sangue, né? Porque não tem estudo, não tem nada. A gente chegava lá e eles diziam: “Ó, você vai fazer isso, isso e isso”. A gente fazia. Muitas das vezes não era o certo, eles estavam mandando a gente fazer coisa errada pra gente aprender na base da força, quando o outro: “Tá errado, não era isso!”. (troca de fita)

P/1 – Valdinei, então, conta pra gente como você aprendeu a pescar do jeito que você sabe hoje.

R – Sim. Como eu fui muito novo, eu tinha que aprender tudo a base da força mesmo, e eu sempre observava eles. Tem certas partes que a gente não faz. Por exemplo, um peixe, quando a gente tá chegando lá, a pessoa nova não pode puxar o peixe, eles não dão porque é um produto ali, né? Se a gente perder ele, e tem que ter experiência, porque pode estourar o nylon, pode abrir um anzol, pode laçar a mão da gente. Eu tenho cicatrizes que laçou a minha mão, anzol já enfiou em mim. Eu tenho no meu corpo. Então, é tudo que uma pessoa nova não pode fazer, só depois que vai passando os dias, dá uma viagem, dá outra. E o pior de tudo é o enjoo. Tem vezes que a gente fica dez dias só vomitando, sem comer nada. E não pode vir embora, fica desidratado.

P/1 – Mas isso mais no começo?

R – No começo, no começo, sempre as primeiras vezes que a gente vai, quando a gente é novo que vai acontece isso. Com todo mundo. O mais difícil é isso, enjoar, fica muito enjoado, bebe água do mar pra ver se melhora, é tudo o que eles falam que é bom. E a gente fazia a mesma coisa e ensinamos os outros também. Então, a gente fica observando como empatar ou amarrar um anzol, tem que amarrar bem feito porque o peixe pode bater e o anzol sair. Como olhar o nylon e ver que ele tá bom. E os nós, que pra mim sempre foram muito difíceis.

P/1 – Que nó é esse que você fala?

R – A gente dá muito nó, usa muito nó, a gente tem os nomes, o nó de (_____), é o nó que a gente mais usa porque a gente amarra o barco em um outro, aí tem que dar um nó rápido e fácil de desamarrar. O nó que não desamarra e fácil quando a gente vai precisar desamarrar ele. Tem nó que não pode desamarrar mais, tem um nó que fica ali só pra gente cortar, então tem que dar rápido e não pode soltar. Então tudo a gente tem que aprender os nós. (troca de fita)

R – (______) a lidar com o risco. Várias vezes que eu morri quase, tem histórias mesmo. Vocês estão fazendo entrevista com a pessoa que está aqui porque tinha que estar mesmo, mas eu tenho documento, tenho laudo, tenho cicatrizes no meu corpo que aconteceu.

P/1 – Valdinei, a gente vai chegar nesse momento do acidente, ou de outros que você teve, mas eu ia te perguntar se teve alguém, uma pessoa, que mais ensinou você a fazer esses nós.

R – Sim. Meu irmão.

P/1 – Como ele chama?

R – Foi o Paulinho. Teve muita paciência comigo. Eu era MUITO teimoso.

P/1 – Teimoso?

R – Eu era muito teimoso, eu achava que sabia tudo, queria fazer tudo, e não sabia nada, nada. Porque é o que eu falei, eu vivia lá na amarração então eu achava que eu sabia, ouvia o pessoal. Aí quando eu fui e vi que não era nada daquilo e queria fazer tudo, ele teve muita paciência comigo. Até hoje. Até hoje tem muita paciência comigo. Ele mora em Santa Catarina, ele tá até com a embarcação lá, e ele me ajudou muito mesmo. Não foi esse que me deu a camisa do Vasco, não [risos]. Mas esse teve muita paciência. É mais velho do que eu, até hoje tem muita paciência ainda.

P/1 – Foi com ele que você foi na primeira viagem?

R – Primeira vez que eu fui, fui com ele.

P/1 – E tudo isso, fazer esses nós, essa parte de puxar o peixe...

R – Isso, ele falava como era “Faz assim, faz assado, o comandante gosta desse jeito”. Eu queria fazer do meu, né? “Não rapaz, esse lado”, “Não, pode ser melhor, mas tem que ser do jeito dele”.

P/1 – Como assim? Conta uma coisa que você queria fazer do seu jeito e tinha que ser do dele.

R – É porque a gente vai aprendendo várias coisas, vários nós, como eu falei. E tem vários detalhes, vários segredos. Amarrar o anzol, ele me ensinou que o comandante de lá, eu lembro, gostava de amarrar um paninho, um tecido, na pata pra não escorregar, e era melhor mesmo, porque aí travava entre o metal que era o anzol, o arame e o nylon. E aí segurava e era mais difícil estourar. E eu, como fazia sem aquilo ali, achava que não, era bobeira. “Isso é besteira, é bobeira”, “Não, eu quero assim”. Aí ele teimava: “Não, você tem que fazer desse jeito”. Só que eu não sabia como botava tecido [risos]. O problema não era fazer o que ele queria, era fazer, tinha que pegar, colocar um pedacinho de paninho qualquer, fio, enrolar, e eu não sabia, só que, para eu não dar o braço a torcer: “Nada, rapaz, assim mesmo”, “Ê rapaz, faz desse jeito aí, porque se acontecer qualquer coisa ele vai falar que foi isso”. E eu continuava. Chegou um dia, eu falei: “Rapaz, faz pra mim”. Aí, como ele tinha muita paciência e me ensinou, ele pegava dez anzóis e fazia em todos eles e deixava, pegava lá e já deixava.

P/1 – Valdinei, você sempre pescava com linha.

R – Com linha.

P/1 – Como é essa divisão de quem fica com o peixe? E você que ficava na cozinha ficava mais tempo ocupado na cozinha.

R – Não, a gente nunca teve a porcentagem de quem matasse mais ou menos, nunca foi assim. Sempre foi dividido por parte. Tem a comissão do dono da embarcação, hoje é 40% do dono. A gente tira toda a despesa. A gente vai pro alto-mar, vamos lá, que faz 15 mil de despesa, vou dar um exemplo. E a gente fez 50 mil com a pescaria, porque chega a esse ponto, tem vezes que faz bem menos, mas tô botando assim pra dar uma ideia. Tirou 15 mil da despesa, ficou 35, tira 40% para o dono da embarcação. Agora vamos dividir o outro para nós em parte. Aí, para nós, o que sobrou reparte. O comandante, que a gente fala, o mestre, ganha uma média de quatro partes, é uma média, quatro, três e meia, mas na maioria são quatro partes.

P/1 – Ele não, aquele que não é o dono do barco.

R – Que não é o dono, o comandante que foi pro alto-mar com a gente, que pescou. Aí ele ganhou quatro partes do que sobrou, já não sobrou muito. Aí tem uma parte e meia para o gelador, para o motorista e para o cozinheiro.

P/1 – Uma parte e meia?

R – Uma parte e meia.

P/1 – Vocês ganham meia parte a mais que os outros...

R – Isso. E quem trabalha no convés é aquele que só trabalha... Mas todo mundo trabalha no convés, só que não tem compromisso com nada, não tem compromisso com gelo, não tem compromisso com motor e nem com cozinha. Eles não têm compromisso com nada. Eu sou cozinheiro, eu sou obrigado a fazer a comida, sou obrigado. O motorista é obrigado a dar toda a manutenção para o motor, e o gelador é obrigado a gelar o produto que a gente mata. E o cara que a gente fala do convés é aquele que não tem compromisso, só tem compromisso de pescar, aí ele ganha uma parte.

P/1 – Agora você também, quem cuida do gelo, do motor e da cozinha também pesca?

R – Pesca normalmente. Na maioria das vezes são os melhores pescadores.

P/1 – Por quê?

R – São os que matam mais peixes, são os que têm cargo. Porque como no cargo ganha mais um pouco, o comandante, vendo aquilo lá, pra ajudar: “Puxa, você pesca bem, mas você ganha menos do que o outro que pesca mal, mas o outro tem cargo”. Aí, a maioria dos que pegam mais peixe tem cargo. Eu, principalmente, eu gosto muito de pescar. A maioria das vezes eu pescava com a linha na mão e ia mexer na panela [risos].

P/1 – Como isso [risos]?

R – A maioria das vezes queimava a comida porque eu tava pescando, o peixe batia e eu largava tudo [risos]. E o peixe aqui, aí eu passava pra outra pessoa, a outra pessoa trabalhava para eu acabar de fazer, mas até então minha linha estava na água.

P/1 – Conta um pouco esse momento de a linha tá lá, já entendi, põe no anzol, e depois, como é essa relação com o peixe?

R – A gente faz isso hoje. Hoje, como essas barcas são muito longe, a gente trabalha com sardinha viva, aí a sardinha a gente leva viva de terra. A gente pega a sardinha, tem as pessoas que cercam na costa do Rio, a própria embarcação minha está lá em Angra agora, estão lá em Angra dos Reis. [pausa telefone]

R – A gente pega muita sardinha ali em Angra dos Reis, Búzios, Arraial do Cabo. Porque aí, como a pescaria tá perto lá, fica mais perto também pra ficar lá. É o que eu falei, o porto fica mais próximo, tudo é mais próximo lá. E aqui não tem condições nenhuma. Aí, a gente leva ela viva pro alto-mar, a gente joga 20 sardinhas pela água, solta no mar, e bota uma no anzol, iscado no meio delas. O peixe vem e pega a solta, a gente tem que enganar ele, e ele vai e pega na que está com anzol também. É uma isca que a gente arma, isso é tudo manobra do pescador. Aí a gente jogou ela, a gente anda 100, 200 metros a embarcação, a sardinha está aqui, a gente larga linha, vai largando e o barco vai andando, daqui a 200 metros ele para.

P/1 – Tem que ficar longe.

R – Longe pra não assustar o peixe. Aí eles vão lá e pegam.

P/1 – E aí? A linha tá lá longe.

R – A linha tá pra lá, e a gente tá com a linha na mão, um cesto, uns 500 metros de linha dentro do cesto, porque quando ele bate ele corre muito, muito bravo, muito agitado. A gente já ficou dez horas com um peixe, trabalhando, os homens todinhos da embarcação cansaram, a mão toda doída, tá ele. Ele tá no habitat natural dele que é o mar, a gente tem que tirar ele pra fora. E tinha vez, essa vez o peixe foi embora, saiu, estourou o nylon.

P/1 – Depois de quantas horas?

R – Dez horas. E sabendo que o peso tava muito bom em terra. Porque a maioria desses peixes que demoram muito tempo são peixes de 100, 120, 130 quilos. E eles são muuuito bravos, e como a gente bota um aparelho fino, porque tá difícil de pegar, a gente vai só diminuindo o aparelho, vai diminuindo o tamanho do anzol, o nylon é mais fino, a gente tem que ter cuidado. Aí o que acontece? Muitas vezes ainda perde ele.

P/1 – Você diz que está tendo de por tudo menor e mais fino, por quê?

R – Porque cada vez o anzol menor é mais fácil pegar ele, engana mais ele.

P/1 – Mas por que agora tem que ser assim?

R – Porque quando a gente tem muito peixe na área a gente bota um aparelho mais grosso que a gente embarca mais rápido, pra adiantar, aí bateu, a gente faz força e bota pra dentro. Mas quando tá muito escasso, tem que colocar um aparelho menor pra enganar ele. Tem vezes que ele come as 20 soltas e não come a que está no anzol. Ele vê o aparelho.

P/1 – Que aparelho é esse?

R – Aparelho é o que a gente fala, é o nylon, cada pescador tem um cesto, coloca ali uma caixa ou um cesto, é mais cesto porque é mais prático. Bota ali, cada um com o seu e a gente larga a linha pra água.

P/1 – Aparelho é a linha?

R – Nosso aparelho é a linha.

P/1 – A linha e o anzol.

R – A linha e o anzol. Aí, tipo assim, eu estou com um aparelho mais grosso, o rapaz tá com um aparelho mais fino, tá batendo mais no dele. Aí já muda também. “Ah, o peixe tá batendo direto”, vou botar mais grosso, porque vou puxar mais rápido e vou largar de novo. Porque o aparelho mais grosso é mais resistente, é mais forte, vai vir mais rápido o peixe. Aí a gente tem que ter toda essa manha, todo essa malícia.

P/1 – Você leva vários tipos, então?

R – Vários tipos de linha. Eu mesmo trabalhava com cinco, seis diferentes. Porque não vai fazer na hora que o peixe está pegando não. A gente já tá pronto, só muda de lugar.

P/1 – E como é que enrola isso?

R – Aí a gente vai tendo a prática, a gente vai aprendendo.

P/1 – Ela fica enrolada em algum lugar?

R – Não, a gente só enrola ela, ela tem que estar livre pra sair.

P/1 – E não embaraça tudo?

R – Tem vezes que embaraça porque é muito rápido. Dá nó, laça a mão da gente, corta a mão da gente, é por isso que eles falam, quando a pessoa é nova a gente não deixa. Eu tenho cicatriz que laçou e que cortou.

P/1 – Por que aí o peixe puxa?

R – Ele puxa muito, aí a gente pede a Deus pra estourar, “Estoura logo!”. Porque dá um nó, como aperta muito, a minha cicatriz, ó, arrastou isso daqui. A gente sente isso queimando e... Aí as outras pessoas, quando o aparelho é muito grosso, que é forte, os outros companheiros já pegam na frente e seguram.

P/1 – Pra não machucar mais ainda.

R – Pra não machucar mais ainda a gente tira. Já teve pessoas que vieram embora pra terra. Eu tenho cicatriz aqui que o anzol entrou assim, que ele saiu do peixe, a velocidade que ele saiu ele veio, entrou aqui dentro. Eu tenho que estourou aqui o anzol, que ficou aqui.

P/1 – Quando estoura é porque o peixe larga e ele volta.

R – Larga. Porque muitas vezes rasga da boca dele.

P/1 – Esses peixes maiores, que peixes são?

R – É mais o atum. A gente trabalha mais na área do atum, do dourado, que é um peixe mais conhecido.

P/1 – Quando você vai puxar a linha não machuca muito a mão?

R – Machuca. Mas como a gente tá acostumado, aquilo ali vai, chega um certo tempo que a mão fica muito grossa. Aí pra gente já é natural, não tem problema, não machuca tanto como se eu for agora. Eu tô um tempo parado, se eu for agora, não vou poder nem fechar ela depois, vai continuar aberta, não consegue fazer assim.

P/1 – Por que corta mesmo?

R – Porque corta, dá calo, corta a mão de sangrar. Depois a gente vai acostumando, a pele toda sai quando a mão tá lisa. Se vocês pegarem um pescador que está vindo agora a mão é muito grossa, muito áspera. Não conseguimos tirar identidade, a maioria dos pescadores não consegue tirar, tem que ficar um bom tempo em casa porque não tem digital, porque come digital. Aí, a maioria deles, hoje não, hoje a maioria trabalha com luva, aí já é mais sensível, protege mais um pouco da mão.

P/1 – Quem deu essa ideia de luva?

R – Olha, no começo a gente achava que era bobeira, pescador tinha que sentir dor. “Ah, luva, luva”. E achava caro. “Ah, onde a gente vai conseguir luva?”. Hoje não, a gente vai aprendendo um com o outro: “Ó, trabalhar com luva é bom”, “Ó, o cesto é melhor do que a caixa, a caixa escorrega”, “Ó, o monofio, ele mola menos do que o nylon”. Então, tudo a gente vai.

P/1 – Monofio, o que é isso?

R – Monofio, é essa cordinha de varal, a cordinha que a gente usa pra pendurar roupa, isso é o monofio. E o nylon é outro. Aí a gente aprendeu que cozinhar o nylon no fogo, na água, é melhor. E realmente. Então a gente vai pegando experiência, um vai dando ideia. A gente aprende, assim mesmo a gente vai ensinando. Antes a gente pintava o nylon e botava corante no nylon.

P/1 – Pra quê?

R – Pra ele ficar colorido, ficava vermelho.

P/1- O que isso?

R – A água, né? Porque a água do mar muda de cor, está verde, está meio escura, meio clara, tá mais azul. Aí, o pescador botou na cabeça que mudar a cor do nylon vai enganar mais o peixe.

P/1 – Mas aí tinha que ficar bem parecido com a cor do mar?

R – É, tinha que ficar mais ou menos. Cor verde. Aí, a gente usava o suco natural, o tang, o próprio corante dele penetrava na água e depois não saía mais. O nylon ficava uma borracha, ele batia e esticava, a pessoa via mais a força dele com a gente. Aí a gente foi aprendendo, foi aperfeiçoando. Aí, hoje tá bem melhor, usa luva. A maioria dos barcos hoje tem televisão.

P/1 – E a tecnologia agora?

R – A tecnologia ajudou muito.

P/1 – No que?

R – Antes, a gente, eu peguei essa época, até uma sonda era de papel. A gente não sabia quantos metros tinha.

P/1 – A sonda podia ser de papel?

R – É uma máquina que tinha que estava, tipo, registrando as ondas do mar. Aí, quando passava no fundo tava liso, passava no meio de pedra, ele ia subindo. Aí, mas não é todo mundo que sabia mexer. Antes dessa sonda de papel era sabão, até a história, os portugueses usavam sabão, amarravam uma corda no sabão, jogava pro fundo. Se viesse como lama era lama, se viesse cascalhozinho pegado era pedra. Aí, veio pra essas sondas, agora já é digital, agora já aparece tudo, o fundo do mar, já vê os peixes, a altura que está o peixe.

P/1 – Mas os barcos têm isso?

R – Hoje têm.

P/1 – Mas que aparelho é esse que aparece tudo isso?

R – A gente fala que é tipo um sonar, é um radar. O radar hoje, a maioria dos radares não tem ainda, mas essa sonda já tem, essa sonda é de fundo do mar, a gente sabe o que tem no fundo, quando metros estão, 600, mil metros de profundidade. Aí, veio navegador que hoje ajuda MUITO. A gente não tinha nada, muitas vezes a gente tinha que navegar pelas estrelas, pelo sol, pela lua. Bússola, só tinha uma bússola, muitas vezes a bússola estava errada. Quantas vezes a gente veio viajando pra Itaipava e parava lá em Marataízes, parava lá em Guarapari. Hoje não, hoje o navegador daqui a gente sabe lá no Rio Grande, a gente vai direto, já dá o rumo direto.

P/1 – Rio Grande que você fala é qual Rio Grande?

R – Rio Grande do Sul, lá na divisa. A gente trabalha lá perto do Uruguai. Aí nós vamos gastar 200 horas daqui a tal lugar, já dá o horário.

P/1 – Esse navegador seria tipo um GPS?

R – Um GPS, o próprio GPS.

P/1 – E ele alcança assim, tão distante?

R – Alcança. Ele alcança, até fora do Brasil, eu acho, que ele alcança a distância.

P/1 – E esses aparelhos não estão deixando o pescador sem conhecer a natureza?

R – Olha, com certeza sim, porque antes a gente olhava muito o tempo, maré, hoje tá, você quer saber do tempo tem rádio que passa, todo dia tá passando sobre o tempo.

P/1 – Rádio, televisão, essas coisas?

R – É, comunicação, as rádios comunicam: “Olha, tá vindo uma tempestade”. E antes não, antes de vir o pescador sabia: “Ó, vai vir um mau tempo aí”. Dois, três dias depois vinha o mau tempo. Hoje ele não se preocupa com isso, né? Hoje...“Ó, tá vento sul, vento norte”. Hoje em dia não tem essa preocupação porque diariamente a gente tem essa informação.

P/1 – Pra você isso é bom ou ruim?

R – Foi bom, foi muito bom, porque vai se adaptando, a gente vai se adaptando a isso aí.

P/1 – Bom no que, Valdinei, que foi melhor?

R – No sentido de segurança. Hoje, é mais difícil acontecer um acidente. Antes acontecia muito. Eu tenho várias pessoas, conhecidos, que desapareceram. Vestígio de nada. Eu lembro, eu era criança, eu tenho até hoje esses colegas meus, os pais deles sumiram, sumiram, ninguém sabe nada. Aí, tinha um tal do navio, levou pra um outro país, vinham aquelas histórias, né? Menos que morreu. E até hoje fica aquela coisa no ar, onde eles estão?

P/1 – Você acha que é por conta de não ter essa...

R – Essa informação. Porque tudo o que acontece hoje a gente já é avisado. Quando aconteceu comigo o acidente...

P/1 – Agora conta as suas histórias.

R – Quando aconteceu o acidente comigo, na mesma noite, na mesma madrugada, a minha esposa soube. Já passaram informação pra terra. Se fosse há 15 anos atrás todo mundo teria morrido.

P/1 – Valdinei, antes desse último acidente você teve algum susto no mar, alguma história assim?

R – Muitas!

P/1 – Então conta a mais marcante, antes desse último.

R – Eu aconselho o meu filho a nunca ir pro mar, eu botei na cabeça dele que mar não. Eu sei que tem muitas coisas perigosas, mas menos o mar. Eu aconselho a ele, e eu creio que ele vai me ouvir, porque não é fácil, é difícil. Um certo dia a nossa embarcação deu problema. Minha mãe não sabe disso não, né [risos]. Deu problema, a gente ficou à deriva em alto-mar, e por sorte a gente veio caindo e encontramos uma boia cega, a gente fala, é uma boia que os rebocadores amarram nela pra passar a noite, enquanto a plataforma não chama eles, eles ficam amarrados ali. E por sorte, a gente veio à deriva e muito rebocador, navio, passando, e naquela época tinha pouca informação, não tinha informação como tem hoje, não tinha rádio pra comunicar pra longe. E a gente viu, estava escurecendo e a gente viu ela, a gente caiu pro lado dela. O colega meu hoje, ele morreu, morreu muito novo, ele falou: “Tem uma boia ali! Se o barco cair um pouco pra lá a gente vai tentar laçar”. E a gente começou a, é uma coisa de filme, a gente laçou essa boia.

P/1 – Mas como é que vocês fizeram pro barco ir mais...

R – Não sei, ele foi indo, eu creio em Deus, eu creio muito n’Ele, eu acho que foi Ele que jogou a gente. E a gente só tinha uma chance e ele conseguiu laçar, foi marcante. Até então ficamos tranquilos “Pô, estou quebrado, mas estou amarrado”. Aí, o pior estava pra vir.

P/1 – Como é que laçou? Com o quê que laça?

R – A gente pegou uma corda que tem, que a gente ancora o barco profundo, a certa profundidade a gente ancora ele, a gente larga o ferro. A gente desamarrou e preparou um laço, quando passou perto ele jogou, e foi a única chance. Mas o pior estava pra vir. A gente amarrou ali, aí escureceu, muita chuva, tinha muita chuva, ventando, aí vem um rebocador na nossa direção, e vai bater, vai bater, eram onze horas da noite. Ele, vai bater, vai bater, e realmente, ele veio na nossa direção e bateu, só que bateu na boia, e eles têm aparelho, não sei. Eles bateram na boia, a boia afastou com ele, que era muito grande, de ferro, afastou e jogou o barco junto, e ele passou por onde a gente tava. E todo mundo esperando já pra no mínimo pular na água porque se ele bate... Aí eu falei, eu, como era jovem ainda, eu não cria muito nisso, mas eu sempre tinha o temor, né? Sempre acreditei em Deus, eu disse: “Não deixa bater aí não, eu sou novo ainda”. E bateu na boia, ele veio na nossa direção, bateu na boia e afastou o barco. Lá na frente, ele sentiu que bateu em algo, mas também não voltou. Eles pararam e depois seguiram. P/1 – Não enxerga? R – Porque à noite é muito difícil, muito. Outra vez, a gente empurrou, deu problema em outra embarcação nossa, a gente ficou empurrando o navio com a mão pra não quebrar, a embarcação quebrando, pra sair fora dele, que ele estava ancorado, esse já é um navio da própria plataforma mesmo que a gente veio, e a gente tinha que empurrar com um pau pra sair da frente dele, do lado que tava quebrando.

P/1 – E conseguiram sair?

R – Aí conseguimos. É tudo na base de, tipo assim, se não sair, morre. Uma vez, aqui em Arraial do Cabo, a gente tava pegando a isca, a gente pegou a onda, ali é muito agitado. A gente pegou uma onda ali que a gente viu o barco virar, por pouco, ele saiu todo de fora da água, a parte debaixo dele, e depois ele voltou. Passei também um sufoco muito grande. A gente pegou várias tempestades.

P/1 – E nessa hora que faz isso, vocês lá dentro...

R – A gente vai junto com o balanço. Eu fui lavar uma vez a vasilha de água, eu caí na água e ninguém viu.

P/1 – E aí?

R – Aí que [risos] tive que gritar: “Me pega aqui! Me pega!”

P/1 – Por que não tem como ficar nadando lá?

R – Não tem pra onde ir, né? Só tem mar. A gente saber nadar ajuda, mas não tem, nadar pra onde? É só água e céu. Você olha prum lado vê água, um infinito de água.

P/1 – E como é que fez pra você, essa vez que você caiu na água?

R – Eu achei uma mangueira, que a gente tem a mangueira do motor que joga água pra fora, eu segurei nela. Aí, o cara ia saindo, eu segurei, eu fui que nem um gato naquele dia, porque hoje eu não consigo não [risos]. Subi rapidinho. Quando eles olharam: “Você tava onde, ué?”, “Eu tô morrendo” [risos]. Na hora eles riram assim, mas foi muito preocupante.

P/1 – Você subiu sozinho?

R – Subi sozinho nesse dia. Outra vez, eu bicheirei um peixe, quando eu bicheirei, ele me jogou pra água.

P/1 – Como é que é?

R – A gente estava puxando um peixe, aí a gente passou um gancho pra jogar pra cima, pescador sabe disso. Quando eu fui jogar o barco deu um balanço ao contrário, aí eu peguei e fui junto [risos], caí por cima do peixe, só sei que...

P/1 – Aí eles te trouxeram de volta.

R – Só que estava todo mundo olhando.

P/1 – Depois que você pega um peixe pra dentro o que você tem que fazer?

R – A gente pega ele e tem que matar ele. A gente firma a física na cabeça dele.

P/1 – Uma o quê?

R – Uma física, tipo um punhal, pra matar ele. Porque ele se bate muito, claro que, da água, tirou ele dali e botou no seco, né? Aí já mata rapidinho, pega, mata ele, aí já vai botar pro gelo.

P/1 – Valdinei, como é essa relação do pescador com o peixe? A gente fica imaginando, mas tem histórias sobre isso ou não?

R – Tem, tem. A gente tem um respeito muito grande. Claro que a nossa profissão é pescador, a gente vive do pescado, tem que matar, só que a gente, primeira coisa, a gente não abusa do peixe. Tipo assim, a gente chega e mata, a gente enrola ele porque tem carinho com ele, pelo produto que é, porque como é exportação tem que ter o maior carinho. Tem o maior cuidado pra ele, a gente respeita mesmo que está morto ali, a gente tem aquele respeito de cuidado, sabe que era uma vida, mas a gente...

P/2 – Agora esses últimos entrou. Você pode recomeçar da coisa do respeito pelo peixe? Por favor.

P/1 – Eu perguntei pra você como é a relação do pescador com o peixe, se existe alguma coisa assim.

R – Existe, existe sim. A gente respeita muito, a gente nunca mata mais do que a gente pode trazer. A gente, tem peixes pequenos que muitas vezes a gente pega e solta, dependendo do peixe, se não é muito pro comércio, a gente solta porque a gente sabe que vai dar mais. A gente tenta não jogar muito lixo na água porque sabe que tem outros peixes que podem comer. A gente tem aquele respeito de não, vou falar assim, não xingar, maltratar: “Ninguém tá vendo mesmo”, chutar. Não, é tudo com respeito. Aquilo que não é pra comércio a gente não mata. Tipo o golfinho, que a gente tem muito na nossa área que a gente pesca, a gente tenta não matar. Baleia, fica perto do barco. Até jogar pedra de brincadeira a gente não faz pra não assustar ele. Porque muitas vezes eles atrapalham, tem baleia que assusta os outros peixes pequenos, a gente tá lá querendo pegar e está lá assustando. A gente tem que sair, dar um tempo, porque a gente sabe que ele está no lugar dele, a gente está trabalhando ali, né? A gente dá uma volta, deixa o barco lá longe, aí ele vem pro nosso barco, a gente volta onde tá o peixe [risos]. Mas jamais vai tentar matar ele, porque a gente matando, a gente tem todo aquele respeito. Passarinho, pássaro marítimo, a gente joga sardinha viva, ele vai lá e pega. Aí não tem como o peixe pegar, ele vem no anzol, a gente pega, aí a maioria das pessoas não solta, porque ele também tem que comer. Só que dá raiva, a gente fica irado, mas respeita a natureza, a gente tem todo aquele respeito: “Não mata não, rapaz. Vamos tirar aí, vamos tentar”, “Ah, não dá pra tirar”. A própria Marinha deu um curso pra gente, a gente cortar o nylon bem perto do anzol porque já viram ninhos que tinham anzol ali. Tentaram soltar, não morreu. Muitas vezes a gente tenta arrancar o anzol, o anzol tá lá dentro, machuca, então é melhor cortar e deixar. Então, há um respeito, o pescador respeita muito a natureza. Nem todos, se eu falar que todos fazem isso eu estou mentindo, mas a maioria respeita muito. Não tenta jogar óleo dentro do mar, bota num galão, fecha. Tenta fazer isso aí pra amenizar um pouco, né? Acima de tudo, a gente aprendeu a respeitar muito o mar. O mar tem que ter um respeito não só do... [Pausa].

P/2 – Vamos retomar a partir dessa coisa do respeito pelo.

R – Respeito do mar. Quando a gente tem muito tempo a gente sabe que não é bom sair, a gente respeita quando tem momento que não tem como a gente trabalhar, a gente olha assim: “Hoje a gente tem que respeitar”. Porque a gente já viu muitos casos que a gente não respeitou e aconteceu o pior. Quebrar barco, jogar a gente na água, então tem todo o respeito. Muitas das vezes a gente trabalha dez barcos em um lugar só, tem nove barrado e um trabalhando. Aí acontece algo, a gente fala: “Vem uma água”. Um tenta avisar o outro: “Vamos amarrar e descansa um pouquinho, rapaz. Claro que a gente não tem nada com a vida de vocês, cada um sabe o que tem que fazer, o compromisso que tem, mas dá uma respeitada, dá uma amarradinha aí, vai acalmar daqui a pouco”. Aí, muitas vezes eles ouvem e a gente respeita.

P/2 – Por favor, eu ia pedir só alguma introdução, tipo “A gente tem muito respeito pelo mar”, foi justamente nessa hora que o cachorro latiu. E depois você não falou mais do mar, só falou assim “A gente tem que respeitar”, só pra gente saber que você está falando sobre respeito ao mar.

R – Tá. O mar impõe respeito, a gente tem que respeitar ele porque como a gente vive do mar, a gente sabe até quando ele suporta a gente, a gente tem que ter essa consciência. “O mar está agitado, mas vai acalmar”. Não, vai acalmar, então espera acalmar. Porque tem que existir um respeito grande. Eu já vi cenas que, aterrorizador mesmo, que a gente olha assim, só a gente vendo lá, acontecendo com a gente pra gente acreditar que ele passa por cima da gente. Estourar ondas que passam por cima. Então a gente tem que ter o respeito, se ele quiser, porque a gente fala que a gente é uma caixa de fósforo em cima do mar, aquela embarcação pra ele. A gente procura respeitar ele, e ele acaba...

P/1 – Você já teve caso da onda passar por cima?

R – Muitas das vezes, muitas. Eu mesmo não poder nem fazer comida. “Ó, deixa tudo fechado, trancado porque o mar hoje não está pra peixe”.

P/1 – E vocês ficam dentro da...

R – Dentro da embarcação.

P/1 – Da casa?

R – Dentro da casa.

P/1 – Todo mundo.

R – Todo mundo. Bem quietinho, pedindo a Deus que acalme. Muitas das vezes, eu deitado na minha cama, no meu beliche, de ficar pé e cabeça molhados, não ter nada enxuto, a gente vir, estourar a porta, bagunçar mesmo.

P/1 – E dá medo?

R – Muito. Esse medo eu tento passar pro meu filho [risos]. Eu já chorei muitas das vezes.

P/1 – Ele quer ir pro mar? R – Não. Ele não quer, não.

P/1 – Nunca teve vontade?

R – Teve. Teve, mas aí... Ele era mais novo, agora ele tá pra fazer 15 anos. Quando ele era mais novo ele gostava muito de ir pra praia, a mesma coisa que eu falava que a gente fazia, a gente falava maré, ajudava os caras a lavar tábua, ia lá na rua: “Vou comprar um cigarro pra você”, ia lá na rua comprar, pra fazer uma média. Ele chegou um tempo que estava fazendo, mas já não era mais porque precisava, já era mais por esporte mesmo, não é como acontecia na minha época, né? Graças a Deus que não. Mas eu falei: “Para com isso, nem isso você vai fazer mais”.

P/1 - Valdinei, que relação os jovens, além do seu filho, têm com os pescadores?

R – Do meu lugar a maioria tem muito, porque a maioria se não tem um pai tem um irmão, se não tiver um irmão tem um tio que pesca.

P/1 – E como é essa relação? ~

R – É uma relação boa, de respeito. Eu acho que eles respeitam muito o pescador. Eu acho bonito neles porque a maioria dos pescadores hoje, eu falo mesmo, não são como o meu pai antigamente. Quando eu comecei a pescar, que eu falei que eu fui pra Santa Catarina, que tinha muito homem, eu pedi licença a um senhor, e ele disse que licença não era pra pescador. Eu lembro dessa frase. Ele falou assim: “Que licença, rapaz, você tem que chegar, empurrar e passar”. Eu fiquei assim: “Será que eu aprendi errado?”.

P/1 – E hoje é diferente?

R – Hoje é diferente, hoje não. Hoje é “Licença”, “Por favor”, “Obrigado”.

P/1 – Em geral.

R – Em geral. Nem todos porque, até um doutor hoje não é desse jeito, né? O próprio doutor hoje nem sabe falar obrigado, né? Tô falando assim, mas a maioria hoje aprendeu “Obrigado”.

P/2 – Desculpa, você pode retomar a partir de como é hoje em dia? Tá bom? Por favor.

R – Tá. Eu tava falando que hoje mudou muito sobre a educação. Antes, pedir obrigado pra eles era uma coisa. Eu falar pra vocês que antes a gente não podia passar um protetor solar, que era coisa de “marica”. E eu aprendi que era mesmo! Homem de verdade, não é discriminando não, era a própria educação nossa. “Não faz isso”, “Pra que isso?”. Hoje nenhum pescador, a maioria vai com protetor solar, leva mais de um. Porque tem que usar, tem que usar. Antes a gente olhava pro pescador, você via o pescador todo caído, acabado, porque o mar traz isso pra gente, é maresia, é sol, é vento, é chuva. Mas hoje tem uma preocupação maior, passa um óleo no rosto, dá uma limpeza, tem que ter um protetor solar. E quando eu comecei, se eu fizesse isso aí eu tinha que vir embora, eles davam outro nome pra mim [risos]. E esse negócio de educação, licença, não eram todos, mas a maioria era desse jeito. Isso aí não existe. E graças a Deus que foi mudando. E esses foram ficando. Também, eu não culpo eles, porque a própria educação trazia isso. Hoje não, hoje eu peço “Obrigado, por favor”, é normal pra nós. A gente pede um aparelho no barco, “Obrigado”. A gente sabe que tem que ser assim.

P/1 – E os jovens que você tava falando...

R – E os jovens hoje estão a mesma coisa, eles estão aprendendo desse jeito, a respeitar mais. Do mesmo jeito que eu aprendi com meus pais, eu tinha muitos colegas que eram desse jeito ainda, eram meio brutos. Até hoje tem muitos deles que não sabem nem conversar, chegar, que é tudo na base da ignorância ainda. E os jovens hoje aprenderam que não é daquele jeito de antes, pode ser diferente. Eu aprendi que não precisa ser do jeito do meu pai, não precisa ser do jeito dos amigos dos meus pais, dos meus tios, pode ser mais devagar. Não é que eles eram ruins, eles aprenderam daquele jeito. Então é...

P/1 – Você diz que prefere que seu filho não vá pro mar. E os outros pescadores, os jovens, como é que está essa história?

R – O pensamento deles, dos pais deles, está a mesma coisa. Muitas das vezes os pais ainda levam pro mar, por quê? Sabem que hoje é difícil, drogas, violência e muitos não querem estudar. Então, pra ele... Porque como fica muito longe, muito fora, com certeza, ele não vai estar de olho no filho o tempo todo. E muitas das vezes ainda alguns levam mais com essa preocupação, não como profissão, mas com a preocupação em deixar eles aqui. Não quer ir pra escola, tá querendo o quê? Não tá trabalhando. Aí já está com outro pensamento, já não é com a preocupação financeira, é uma preocupação de tirar o filho dele do mau caminho e estar junto com eles. Hoje se eu estivesse de pescar direto, se tivesse que levar meu filho, eu levava pra ficar junto comigo. Teve um menino que foi pro mar com 12 anos trabalhando com a gente. Eu falei com o pai dele mil vezes: “Cara, não faz isso”. Mas ele: “Valdinei, ele não quer estudar, não tem jeito, toda escola que ele vai ele arruma problema. Então é melhor eu de olho nele.” E hoje ele é um garoto muito bom, já é adulto, já tem 18 pra 19 anos, casou, é um excelente homem, virou um homem digno. Nem todos acontece isso, mas deu certo. 

P/1 – Mas ele continua pescador?

R – Ele continua pescando com o pai, até hoje.

P/1 – A maioria dos pescadores como você, dessa sua geração, esperam mais o que do filho? Que seja pescador como ele ou não?

R – Não. Hoje eu tenho certeza, com todos que eu converso, meus colegas de trabalho, não querem que o filho seja pescador. Hoje a gente pensa no nosso filho ser doutor. Eu tenho sonhos pro meu filho. Esse dia mesmo ele falou: “Pai, eu quero ser médico”. Eu sei que é difícil, mas pelo menos o pensamento dele tá bem longe do meu. Pelo menos o pensamento dele não bate nem perto do meu pra ser pescador [risos]. A única coisa que eu pensava era em ser pescador. Não me arrependo, gosto muito do que eu faço. Eu tenho uma sensação de liberdade muito grande quando eu estou no alto-mar, tenho muita saudade do mar, perigoso demais, mas eu não quero isso pra ninguém. Não porque é ruim, não discriminando a profissão, jamais! Tudo o que eu tenho eu agradeço, primeiramente a Deus, e a minha profissão de pescador. É honrosa? É. É digna? É. Só que a cultura é diferente. Apesar que está mudando, né? Sobre direitos, sobre... Hoje estão sendo mais cautelosos sobre o perigo do alto-mar. Só que só você pensar de ficar muito tempo fora de casa já dá pra gente pensar muito antes de escolher essa profissão.

P/1 – A maioria dos pescadores, você acha que também não quer que os filhos...

R – Não. A maioria dos pescadores tem o mesmo pensamento que o meu. Não quer, não deseja isso pro filho. Porque só quem trabalha profissionalmente sabe que é difícil. muito difícil. Eu falo que é mais difícil psicologicamente do que do lado do físico. É uma luta psicológica. Um dos meus melhores amigos eu não me dei muito bem pescando. As pessoas falam que muda. Lá no alto-mar é um Big Brother, você quer conhecer a pessoa bota lá! Se a pessoa ficar 15 dias com homens, só ali, aquela mesma conversa, aquela mesma coisa. É tudo mais difícil. Hoje não, hoje a gente toma banho lá em dois, três dias a gente toma um banho. Antes levava dez, 15 dias sem tomar banho! Não tomava, não tinha como tomar banho. Botar uma roupa melhor, jamais. Tinha vez que a gente pegava uma calça, a gente brincava, deixava assim, ficava em pé de tanto sal [risos]. Quanta vezes eu fui dormir, passava a mão assim, era sal puro. Por quê? Porque o vento, água, e não tinha uma água pra gente lavar o rosto.

P/1 – Valdinei, eu fico pensando. Eu queria que você falasse, e aí se os filhos não continuam essa profissão ela vai acabar.

R – O meu medo é esse. O meu medo muito grande. Porque hoje, eu sempre falo, porque hoje também surgiu no nosso lugar mais emprego, a Petrobrás cresceu muito aqui. Todo mundo pensa em fazer curso pra trabalhar e não pescar. A minha preocupação maior, eu tenho essa preocupação. Porque antes, todo jovem da minha cidade, de cem, 90 falavam em pescar, hoje, de cem, não tem cinco que falam de pescar. Quer dizer, não tem, eu não lembro. Eu acho que as autoridades têm que investir um pouco.

P/1 – O que poderia ser feito pra pesca continuar? Ou é a pesca artesanal que vai acabar e a outra não.

R – Eu creio que a artesanal já acabou bastante. Eu falo por mim mesmo. Crédito, eu não consigo abrir crédito nenhum em banco, em lugar nenhum porque eu era pescador, não tinha referência nenhuma de documento. Qual é a minha prova que eu vou pagar? Qual o meu comprovante de renda? Não tem.

P/1 – Em que as autoridades poderiam ajudar nisso?

R – Poderiam investir mais, não em dono de embarcação, porque eles investem, dão empréstimo. Eu mesmo já vi divulgação que eles estavam fazendo empréstimo pra pescador comprar sua embarcação. Mas o pescador não é o verdadeiro pescador, vai lá dono de barco, tem barco. “Tenho um barco, quero fazer outro”. Você vai lá no banco e tira esse empréstimo, o governo dá esse empréstimo. Mas se eu, pescador, for lá não existe esse empréstimo. Eu vou emprestar 2 mil, 3 mil. Você vai fazer o que com isso? [risos]. Você vai pagar uma televisão, geladeira. Eu estou falando de empréstimo. Mas como eu vou provar minha renda, se eu não tenho? Eu acho que o governo, em geral, eles poderiam olhar esse lado. É profissional? Eu mostrei meu documento, mais de 20 anos, será que eu vou precisar aposentar pra valer alguma coisa? Eu não pago INSS, a empresa que eu trabalhava, as embarcações, muitas das vezes era uma embarcação de uma pessoa só, só tinha aquilo ali. E naquela época, como eu falei, que a nossa mente estava tampada, não tinha direito. Eu achava que esse documento era meu direito. Será que o governo vai ver isso aí quando eu for aposentar? Então eu gostaria que investisse mais no pescador. Poxa, abrisse uma carta de crédito para O pescador. Abre carta de crédito, mas a gente tem que ter comprovante de renda, tem que ter isso, tem que ter aquilo, e dificulta. (troca de fita)

P/1 – Valdinei, você falou que teve um último acidente. Como que foi?

R – Sim. A minha embarcação estava no estaleiro, reformando. Eu fui na Capitania de Vitória, fiz um curso lá, e para eu esperar o resultado ia levar três meses. E a minha embarcação estava no estaleiro. Eu peguei uma embarcação da mesma empresa, que já tinha trabalhado também, e pedi para eu dar uma viagem lá até a minha estar pronta, porque ia demorar um pouco. E como eu tinha feito essa prova, se eu passasse eu ia ficar três meses parado.

P/1 – Quantos meses?

R – Três meses. Fazendo o curso. Eu fiz a prova, se eu fosse selecionado. Aí, eu deduzi assim: “Poxa, se, de repente, eu passar, eu vou ficar três meses em casa”. Eu nunca fiquei tanto tempo em casa, três meses, desde que eu comecei a pescar! Eu falei assim: “Eu vou dar uma viagem nessa embarcação e quando chegar eu venho embora”. Tudo bem. Aí, eu peguei aqui de manhã, saí de van e fui pro Rio, abastecemos o barco, fui pra Baía de Guanabara, ficamos lá dois dias atrás de sardinha.

P/1 – Você como mestre do barco?

R – Não, eu tava como camarada mesmo, no convés. Porque eu só fui lá pra dar uma viagem mesmo. E conseguimos. Abastecemos o barco, a isca, e saí de tarde. Aí passamos ali em Copacabana, e de tardezinha eu liguei pra casa, eu disse: “A gente tá saindo pra alto-mar agora, só daqui uns dez dias a gente vai começar a entrar em contato”. Conversei com meus filhos, com a minha esposa e fui. Quando chegou no caminho, a gente estava indo, aí me chamaram que era a minha vigia de leme, que era para eu levar o barco. Aí, eu virei e falei assim: “Mas é eu e quem?”. O comandante disse: “É você sozinho mesmo, a gente leva em um”, “Só eu?”, “É”, “Tá bom”. Eu levei, quando chegou meia-noite eu fui e chamei meu companheiro. “Ó, agora você vai estar de leme, vai dirigir o barco, e eu vou deitar um pouquinho, descansar, porque amanhã cedo a gente vai começar a trabalhar”. Ele levantou. Falei: “Tudo bem?”. Ele virou pra mim: “Tá tudo bem?”, “Tá tudo bem”. Eu olhei ao redor, estava tudo certinho, porque a gente tem que entregar tudo certo. Quando chegou uma hora da manhã aconteceu o acidente. Um rebocador que dá suporte pra plataforma bateu na embarcação. Ela passou por cima da embarcação.

P/1 – Nossaaa!

R – Esse menino que tava no leme, eu fui o último a conversar com ele, ele morreu na hora. Só que foi lá no alto-mar, nós estávamos a 60 milhas, o lugar mais próximo era Copacabana ali, boca da barra do Rio. Uma hora da manhã ela bateu, eu acordei assustado, não levantei porque caiu tudo em cima de mim, e eu fiquei preso nos escombros. E, pra melhorar, o barco vai e afunda comigo preso. Uma hora da manhã, era sábado pra domingo de carnaval. E vocês imaginam no Rio. Foi no ano retrasado, fez dois anos agora no dia seis de março. Na minha vida foi um, mudou radicalmente tudo, minha vida mudou completamente. Quando eu fiquei preso nos escombros, até aí eu quebrei três costelas, trincou minha coluna, me fez vários cortes, eu tenho cicatrizes. Até aí eu achei que ainda não era o pior, mas aí o barco vai e afunda comigo preso.

P/1 – E os outros?

R – Os outros quatro, nós estávamos em seis, os outros quatro tiveram ferimentos leves.

P/1 – Eles pularam na água?

R – Eles pularam, voltaram. Na realidade eles ficaram porque a embarcação não afundou completamente, do meio pra trás ela afundou, e o meio pra cima, como tinha muito gelo, porque nós estávamos saindo pra alto-mar, ela boiou, ela ficou na superfície. Aí, eles correram pra onde estava seco, mas eles não lembraram de mim, nem do outro, porque foi muito rápido, de madrugada, uma hora da manhã. Eu tô falando uma hora da manhã porque no relato da própria embarcação, que bateu na gente, falou o horário. E não lembravam de ninguém, então eu fiquei preso. Os meus órgãos, meu pulmão já não poderia respirar, entrou água, juntou sangue, e o ar que quando eu puxava não vinha pra dentro do pulmão, ficava pra fora. Aí, o médico falou um nome lá, até estranho, e eu não consegui respirar. E embaixo d’água. E foi o único momento, que antes de afundar eu gritei socorro. Não tinha como ninguém responder, porque eles também estavam preocupados com a vida deles. Aí, na terceira vez afundou e não tinha mais como abrir a boca. A única coisa que eu lembro que eu pensei: “Não deixa eu morrer aqui não, porque eu tenho meu filho, meu filho tem 12, minha filha tem 10 anos, deixa eu ver eles mais uma vez”. Aí, do nada, levantou a parte que estava em cima de mim. O barco não levantou, só levantou a parte que estava me prendendo. Eu tenho essa parte minha toda com cicatriz, levantou.

P/1 – A água levantou?

R – A própria madeira que estava em cima de mim levantou, quando levantou eu mesmo não acreditei, eu já não podia respirar mais, eu estava vendo que estava morrendo mesmo. Aí, eu consegui botar a cabeça do lado de fora, o que eu puxei. Até então eu não sabia porque doía muito. O ar que eu puxava ia pro pulmão, mas não ia tudo porque estava, ele não conseguia fazer assim pra bombear o ar. Aí eu saí me arrastando, eu lembro que eles olharam assim pra mim: “O que é isso?”. Eu falei: “Cara, eu to morrendo”. E caí no seco. Aí eu vi só quatro pessoas, eu me mantive calmo e falei: “Tá faltando um”. E eles: “Como?”, “Tá faltando um, tá faltando um”. Aí, foram onde ele estava, lá no leme lá, estava caído, já estava morto. Aí eu fiquei, resumindo, como a plataforma estava mais perto do que a terra, a embarcação voltou, conseguiram me pegar, me botaram pra esse rebocador, ele me levou pra alto-mar, para mais longe, porque estava mais perto do que ir pra terra. E de lá me subiram pra plataforma, fiquei lá. No outro dia me trouxeram pro Rio, já foi um helicóptero da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) me buscar, cheguei lá, a UTI móvel me levou e aí eu fiquei 16 dias no CTI (Centro de Terapia Intensiva), bem mal. Depois de 16 dias me deram alta da CTI pro quarto. Aí, desse dia pra cá eu, hoje, meu documento ainda está ali, 20 e poucos anos de pesca, eu não consigo botar o pé na água do mar. Quando eu chego na praia parece que tem uma barreira que não deixa eu encostar. Eu estava falando antes da matéria que o meu sonho é voltar a pescar, só que parece que fica distante, porque quando eu chego até a praia, eu não sei. Eu tenho psicólogo, psiquiatra, fala que é uma coisa do trauma. Vejo a cena, frequentemente vejo a mesma cena. Vejo eu tentando socorrer, eu todo quebrado, eu tentava socorrer ele. Porque até então todo mundo achava que ele só estava desmaiado, ninguém sabia que ele estava morto. E eu também não sabia, chamava ele. Quando a gente pegou essa habilitação, eles dão curso pra gente de primeiros socorros. Eu tentei fazer, eu não podia me mexer e tentava fazer nele. E não conseguia também porque não podia, mas batia no peito dele. Desse dia pra cá, eu não consegui mais molhar meu pé na água, encostar meu pé na água do mar. É uma cena forte. Tudo o que eu passei no mar, eu gostava muito, pra mim, minha vida é o mar. Eu não mudei minha profissão, minha profissão é pescador, eu mudei só o que eu faço, mas eu não quero tirar do meu documento como pescador, eu tenho orgulho de ser pescador. Eu tinha e tenho orgulho de dizer, muitas das vezes, quando aqui era lugar turístico, vinham muitas pessoas de Minas, a maioria dos meus colegas tinha vergonha de dizer que era pescador, porque pescador era discriminado um tempo atrás. A gente sabe que pescador era aquela pessoa bem sofrida, né? Qual é a menina que queria namorar um pescador? A não ser que era aventura, que muitas vezes a gente fala pescador como aventura. E eu tinha orgulho em falar: “Eu sou pescador”. E tenho orgulho de ser. Não tenho muita coisa, mas o que eu tenho é da pesca. Hoje eu não me vejo falar que, quando eles falam: “Você é o que?”. Eu falo assim: “Eu sou pescador”, “Mas você trabalha com outra coisa”. Eu falo: “Mas eu sou pescador [risos]. Não trabalho com nada, eu sou pescador”. E quando alguém pergunta sobre minha profissão, mesmo quando eu vou fazer algo, como eu falei, muitas vezes o pescador não tem todo aquele documento, aquela moral de pegar um empréstimo, uma coisa. Eles tentam mudar porque agora, com a indenização que eu recebi desse acidente eu montei uma loja de ração, um pet shop. “Não, usa esse...”. Eu não uso, eu não consigo, porque o meu documento é de pescador. Tá até em nome da minha mulher isso daí, esse documento vem tudo no nome dela, porque eu não quis mudar o meu porque eu tenho orgulho.

P/2 – Desculpa, você pode só recomeçar: “Eu tenho orgulho de ser pescador, eu apresento esse documento”. Só esses últimos cinco segundos.

R – Tá. Porque quando eu vou no banco eles me perguntam: “Como está sua loja?”, “Eu não tenho loja, eu sou pescador”. Os meus documentos. “Mas é tudo mais difícil pra você tirar como pescador”. Realmente é difícil, se a gente chegar no banco e falar que é pescador pra fazer o consórcio de uma moto eles vão pedir tanta coisa, tanto avalista, que a gente vai acabar desistindo. Muitas vezes meus colegas têm a metade do dinheiro pra comprar uma moto, a outra metade financiar, tem que ter cinco avalistas. E hoje, eu não, minha esposa, que tá no nome dela, ela foi tirar o carro e não precisou de ninguém, só porque tem o nome da loja. Pra mim é discriminação isso aí, se eu falasse que era pra mim, com certeza não ia sair. Mas, o lado bom é que a gente faz com amor, com carinho. A gente que pesca, nem todos, mas em geral é uma profissão digna, é uma profissão honrosa, vive bem. A gente mudou aquele conceito que pescador era coitadinho. Apesar de eu não ser novo [risos], não estou assim, mas hoje tem muitos meninos novos que são pescadores que não parecem ser pescadores. A gente tem aquele pescador como um pessoal acabado, do mar, do sol, do tempo. E o que eu tenho a dizer sobre a pesca é que... [emocionado]. Eu tenho orgulho de falar que eu sou pescador, sabe?

P/1 – Parabéns! Você tem seu barco?

R – [Emocionado] Não. Eu não tenho barco, eu já fui comandante da embarcação, mas eu bati de frente com o dono porque... [risos]. Desculpa chorar, mas é, eu pensei: “Poxa, eu vou ser comandante”. Eu achava que eu tinha um dom, porque eu tinha, só que eu discuti, bati de frente porque ele falou uma frase e eu não gostei, ele falou: “Ah rapaz, você pensa muito nos outros, você manda dinheiro pro pessoal lá em terra, em casa, mandou muito dinheiro, e se você for fazer vontade deles toda vez você vai mandar muito”.

P/1 – Pra família?

R – Pra família. Porque a gente tem uma cota, né? A gente, o pescador tem um vale, e o vale é o vale, não é o salário, né? Só que eu penso muito na família em casa, como eu tenho família, eu pensava assim: “Poxa, eu tô comendo bem aqui na embarcação, e lá como é que tá?”. Aí, eu não gostei dessa frase que ele falou, que eu tava muito preocupado com as famílias dos outros, que assim não dava certo. Eu falei: “Então, você é dono do barco, toma a chave, eu sou preocupado porque eu também sou pescador. Não é porque eu sou comandante do barco agora que eu mudei, que eu vou puxar pro seu lado, tenho que puxar pro lado das minhas raízes, o que eu sou. Aqui a gente come bem, você, com certeza come bem, e lá, como é que eles estão? Porque eu sei que é difícil, eu sei que a única renda é aqui, e se não tiver renda aqui como é que vai ter lá?”. Eu entreguei a chave e resolvi trabalhar de camarada que se preocupava menos, mas eu trabalho há muito tempo com a mesma pessoa, nós somos amigos. Eu me acho um grande profissional no sentido, a gente é amigo, mas eu sei que eu sou empregado, e aí vai estar tudo bem, tudo certo, porque quando a gente acha que a gente sabe muito e esquece de fazer aquilo que as pessoas pedem, eu acho que não é um bom profissional. Muitas vezes a gente tem que esquecer. Até hoje eu vivo aprendendo, eu aprendo a cada dia, aprendo com todo mundo, aprendo a respeitar o meu limite. Eu não quero que seja mais, como o comandante da minha embarcação é meu amigo, é mais novo do que eu, mas por causa disso eu jamais vou falar: “Não, é do meu jeito”. Não, eu trabalho há dez anos com a mesma pessoa, respeito ele, eu acho que eu sou profissional, por isso eu acho que eu tenho orgulho porque faço o que eu gosto, fazia e faço aquilo que eu gosto. No momento não estou fazendo, mas espero fazer ainda e é isso aí.

P/1 – Qual o seu sonho?

R – Olha, quando eu comecei a pescar, trabalhar profissionalmente, eu tinha 16 anos e eu tinha um sonho. A gente tem sempre que ter um sonho. Eu tinha um sonho, uma coisa, eu falei uma vez, eu gosto de falar isso aí, eu sinto que é uma coisa minha, eu era novinho e entrei em muita coisa errada. Coisa errada que eu falo, como era novo, lugar de porto, bastante longe, novinho. É prostituição, experimentei drogas, não vou falar que não, pra mim foi a pior fase da minha vida, não demais, assim, só curiosidade mesmo, não tenho vergonha de falar. Curiosidade, não foi nada demais. É a única cena que não gosto de lembrar porque, como era novo, o mundo completamente diferente do meu, eu lembro uma cena que eu tava numa fase que eu fui pra farra e fiquei uns dois dias na farra. E quando eu cheguei no alto-mar, eu tava conversando com um amigo meu e eu falei que eu tinha um sonho. Ele me ouviu. Eu falei: “Eu tenho um sonho. Meu sonho é ter uma família, ter uma esposa, uma casa e o filho, gostaria de ter filhos. Meu sonho é esse”. E atrás de mim tinha uma pessoa, que ele já tinha sido preso, que ele tinha matado, ele já foi traficante. Ele falava que quando o barco parava lá ele ia pro morro, ele era do morro do Rio, e ele falou pra mim que ele era tipo soldado, ele era segurança do tráfico. Mas ele fez uma amizade tão grande comigo, que se eu soubesse que ele estava atrás de mim eu não tinha falado aquilo jamais, que eu tinha que dar uma de forte, como eu falei, a gente tinha que ser forte. E quando veio aquilo de mim, que meu sonho era esse, era um sonho simples da maioria das pessoas. Ele virou pra trás e falou: “Eu sei, você vai conseguir o que você tem”. Eu tinha 16 anos, hoje eu tenho 39 e eu não esqueci dessa frase. “Você vai conseguir porque você é uma pessoa boa. Você merece”. Poxa, eu fico brincando que eu falei assim, eu tenho uma família, tenho um casal de filhos lindos, tenho uma esposa maravilhosa.

P/1 – Qual o nome deles?

R – O nome da minha filha é Rebeca. O nome do meu filho é Lucas Mileno.

P/1 – Da sua esposa?

R – Da minha esposa é Regiane. Tenho uma família linda, tenho uma casa. Eu só reclamo que podia ter falado mais coisa que eu queria [risos]. Se eu soubesse que ia acontecer isso na minha vida, se eu soubesse que ele tava atrás de mim e que eu ia ter isso, eu falei: “Poxa, eu queria ter um avião” [risos]. Não, mas tudo aquilo que eu falei, mas aquele dia eu senti que era de dentro, era do coração mesmo, porque eu tava indo num caminho que não era minha cultura, eu vi que eu tava indo por um caminho completamente errado. Falei: “Não, para aí, minha vida é ter família”. Foi aí que eu pedi a Deus, eu falei ali, falando com o meu amigo, eu estava desabafando. E graças a Deus, hoje eu tenho a minha família, tenho um carro, não é (_____), mas eu tenho. Quer dizer, tudo aquilo que eu pedi a Deus, aquele sonho meu, eu tenho. Tenho sonhos? Tenho. Eu tenho sonho de ver meus filhos formados. Tenho um sonho de... Eu não tenho muito a pedir mais, não, falar a verdade. Eu não tenho muita coisa, não, mas o que eu tenho, sou feliz, muito feliz. Muitas vezes a gente passa por dificuldade. Passa por problema? Passa. Mas o que aconteceu comigo, qualquer outra coisa que vir, vai ser coisa mínima pra mim. Quando a gente chega num ponto que a gente não tem o ar pra respirar, eu acho que, a gente respira naturalmente, né? A gente não pede a Deus, a gente tá respirando, mas é uma coisa que jamais você vai pedir, “Me dá o ar pra respirar, estou respirando”, mas quando vê faltar, era a coisa mais importante pra mim, naquele momento, era o ar para eu respirar, que eu estava embaixo d’água. E hoje tenho tudo, tenho meus filhos comigo, tenho a profissão, que eu sou pescador [risos]. E sou muito feliz, feliz mesmo porque Deus tá me dando a oportunidade de contar essa história. Meu sonho é esse, ver meus filhos bem, formados e poder passear com a minha filha sempre que dá.

P/1 – Está ótimo, muito obrigada, viu Valdinei? Foi um privilégio ouvir sua história. Parabéns!

R – Obrigado.

P/2 – Muito bom, ótimo.

R – Muito bom, mesmo!

 

- - - FIM DA ENTREVISTA - - -

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