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História

Histórias que não cabem em uma embalagem

História de: Maria Tereza Bezerra de Freitas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/05/2020

Sinopse

Nessa entrevista, Maria Tereza conta como foi crescer no interior de Pernambuco. Compartilha a descoberta de aprender a ler e escrever em São Paulo, como se realizou esta mudança e como passou 30 anos na empresa Rhodia. Relata sobre sua rotina nessa empresa farmacêutica, para além de embalagens, fotografia e poesia. Nos conta também a transição política do governo Collor para Fernando Henrique e como isso afetou as aposentadorias e explica como foi a chegada do maquinário industrial na fábrica.

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História completa

P1 - Bom, D. Tereza. Eu gostaria, para começar, se a senhora pudesse, falar o nome da senhora a data de nascimento, nome dos seus pais, local de nascimento...

R - É, Maria Tereza Bezerra de Freitas. A data de nascimento, né? Eu nasci no dia 3 de setembro de 1931. Pais: Orestes Bezerra Chaves __________________ também, né? Francisca Carvalho de Freitas, cidade de (Condade?) 1904. 11 de maio de 1904. E meu pai é de 1899, 3 de dezembro. 

P2 - A cidade da senhora era qual?

R - Aliança, Pernambuco.

P1 - Em Pernambuco. E como que eram os seus pais, em casa? Como que foi a educação que eles deram para a senhora?

R - Meu pai não queria que o filho pegasse nem uma faca. Mas não tinha disso porque, para isso, eu não obedecia nada. E minha mãe era ocupada. Ela tinha venda, ela tinha muito filho. E meu pai, a vida dele era viajar, nas fazenda, olhando o serviço, olhando o trabalho, né? E eu, o que eu fazia? “Ah, não pegue em faca”. E eu chupo laranja os outros descascando? Quem disse? Pegava em faca, descascava cana, descascava laranja... eu fazia, mexia até com fogão de lenha. Fazia o que eu bem queria. Ninguém podia comigo, porque minha mãe era ocupada, né? Ela: “não pode, não pode,  não pode subir ali, que perigo, essa menina subir ali”, mas ele não estava vendo, ele ia sair e minha mãe também era ocupada, entrava para dentro do sítio. Ela, quando via, eu estava sentada lá em cima dos galho da goiabeira. Subia no pé de mamão, tinha disso não. eu nunca tive medo de nada.

P1 - A senhora lembra de alguma coisa que marcou a infância da senhora? Alguma história?

R - É isso mesmo, a gente andava no sítio, brincar muito. Mas quando chamava a hora de banho para a noite, a gente achava até ruim, porque a brincadeira era o dia inteiro. Não lembrava nem de comer, porque comia era fruta dentro do sítio. Nem lembrava que tinha que almoçar não, viu? Brincava muito. Fazia brincadeira de pular corda, brincadeira de quebra-quebra... E eu entrava no meio, todas brincadeira eu estava dentro. Brincadeira de passar anel, “Vamos jogar de anelzinho”. A brincadeira no interior é assim, né?

P2 - Alguma cantiga, a senhora lembra?

R - Rodinha.

P2 - Rodinha?

R - Ah, brincava de roda, brincava muito. Fazia as rodinha. Tinha até umas prima que ia para lá também, ia brincar muito...lá de fora assim, fazia roda.

P1 - E com quantos anos a senhora foi para a escola?

R - Eu fui para a escola, eu já não era muito pequenininha não, porque foi depois que eu cheguei para aqui, né?

P1 - Ah, a senhora chegou na escola depois que a senhora veio para São Paulo.

R - Ué, aqui foi que eu arrumei, porque para lá não havia. Hoje tem em todo canto essas escola. No meu tempo, não. Não tinha. Nesse tempo que eu vim para aqui eu fui procurar logo saber, né? Aí disseram que o prédio de Santos estava se fazendo, porque o prédio lá era pequeno. Não estava recebendo ninguém porque estava fazendo o prédio novo. Inaugurou em novembro e em março eu entrei na escola. Num prédio novinho, estava tudo novinho, tudo bonitinho. E eu já fui logo para a sala de aula, né? Fui aprender de tudo. O que tinha lá, eu fui aprender. Toquei até piano, né? Piano, acordeon, eu aprendi também. Estudei música.

P2 - O pai da senhora, a senhora lembra dele? Como ele era em casa, como era o jeito dele.

R - Ele era assim meio brabão, meio estúpido, né? Mas ele não viveu, não parava em casa, não. Ele andava muito por dentro das fazenda e chegava em casa só para comer e quase não via nem o que a gente fazia.

P2 - E a decisão de vir para São Paulo....

R - A decisão de vim para São Paulo foi uma casada que veio na frente, né? E depois veio outra, casou também e a gente queria vim.  E eu, e o desespero que me deu que eu queria vim? Só fiquei pensando em estudar. Pensando que eu precisava estudar e precisava trabalhar também, viu? Não podia ficar assim. E eu tinha (aquele aviso?) comigo. Eu tinha que vim e tinha que estudar e aprender de tudo e trabalhar. Porque não podia ficar sem trabalhar não.

P1 - E com quantos anos a senhora chegou em Santos?

R - Sabe que eu nem lembro. Parece que eu tinha 30 anos, ou era vinte e pouco. Nem lembro a data....

P1 - Mas até então a senhora nunca tinha passado pela escola.

R - Não tinha, porque não tinha escola...em Ribeirão Pires, nós ficamos logo em Ribeirão Pires, onde se sabia nem se havia essa escola, né? Nesse tempo era assim, não tinha mesmo. Só era o padre Chico, o Instituto Padre Chico, que era um pouco difícil ali de entrar. Recebia gente de todo o estado. Era difícil.

P1 - O Instituto Padre Chico era em Ribeirão Pires.

R - Não. Era no Ipiranga, em São Paulo, né? E tinha esse do Rio de Janeiro também. Mas quem é que arrumava isso para mim? Ninguém. __________ mesmo eu podia ter ido e ficava internada, né? Mas quem arrumava isso para mim, né? Não tinha quem arrumasse, né? Eu tive que vim, formar nessa escola de Santos...

P1 - Mas quando a senhora veio, os seus pais vieram juntos?

R - Viemos juntos. Depois, meu pai, chamaram ele de novo, minha mãe voltou com os menor. Eu não fui. Eu fiquei com as outra casada aí. Eu disse “não, eu estou esperando a escola. A escola vai ter que terminar o prédio para eu me internar. Eu vou para lá. Eu vou para a escola”.

P1 - Aí a senhora ficou morando na casa de uma irmã.

R - Ficou três casada aqui. E meu pai, chamaram ele de novo, voltou. Até que depois de um ano e pouco ele voltou de novo, né? Tornou a voltar. E até que teve que trabalhar aqui mesmo e ficar aqui e não viajou mais não.

P1 - E como era na escola?

R - A escola?

P1 - Que lembranças a senhora tem da escola?

R - Ah, lembranças de professora preparada, né, que ela dava aula, no primeiro ano tinha uma professora. Quando foi no segundo eu tive que ficar com a mais adiantada, porque era para ter até o terceiro ano que a gente passava para outra. Mas eu tive que ficar com a outra, que dava aula para os mais adiantados, porque tinha muita gente do primeiro ano, né? _____________ficava com a casada, né? E a outra era solteira, (Nazauri?) era solteira. Então eu ficava com ela. Fiquei com ela até fazer o primário completo. Eu tenho até diploma, assim de primário.

P1 - E a senhora tinha amigos, amigas, na escola?

R - Lá não tinha homem. Era só de moça e criança. E era uma turma que tomava conta e tinha a cozinheira, tinha a faxineira. Não tinha homem lá dentro, viu?

P2 - Não tinha homem?

R - Não. Ainda hoje lá não tem homem. Agora, hoje, não tem escola dentro mais. A escola é fora. As meninas fazem o prezinho lá dentro e estuda fora. Que isso que a minha professora batalhou muito para tirar. A escola fechada, achava interessante a escola junto com os outros. Não separado, fechada. Que a nossa (menga?) foi fechada. Ela disse assim: “Vamos acabar com isso, um dia tem que acabar”. E até que hoje, até o voto, acabou com essa história de voto braile, né? É tudo junto, não tem mais nada disso.

P1 - E a senhora gostava de quais matérias? O que a senhora gostava mais de aprender na escola?

R - Eu adorava as histórias. Porque no meu tempo, hoje o primário caiu, não vale mais nada, né? No meu tempo o primário era adiantado, quase a primeira série de hoje. A história, história do Brasil, geografia, ciências, todas essas coisas eu gostava muito.

P1 - Gostava dessa parte que tinha que ler bastante.

R - Ah isso aí eu gostava, muito de ler. Eu lia muito. Eu lia a vida dos mestres das músicas. Porque quando eu comecei a estudar música também, né? O Bach, o Mozart, eu pegava muito livro para ler deles. A vida deles toda.

P1 - E como a senhora aprendeu a ler? Nessa escola, como foi o processo de aprendizado?

R - Ah, eu tenho todos os aparelho aí. Tem uns dadinho que a gente fazia a matemática, para começar a matemática, né? E tem o braile. Aí em baixo dessa mesinha você vê o telefone pelo braile. Agora, eu assino o meu nome a tinta, tudo. Faço número para votar. Eu votava a tinta. Meu nome a tinta que eu faço. Em qualquer lugar, né?

P1 - A senhora assina?

R - Eu assino. Assino cheque, assino tudo, né? Porque a assistente social de lá, ela ensinou. Ela fazia os número e ensinava, né? Então eu fiquei assinando o meu nome a tinta, assino no cheque. E, quando eu votava fazendo número, também fazia o número, fazia o X. Agora eu estou achando melhor o voto de agora.

P2 - A assistente social...?

R - A assistente social (era preparada?) também lá da escola.

P1 - Da própria escola.

R - Da própria escola. Ela também tinha esse curso, né?

P1 - E a senhora nesse período, ia a festas, tinha paquera?

R - Não, nada disso. As festinha, a diretora de lá não tinha nada dessa história de paquera lá dentro, não. Quem quisesse os paquera, que arrumasse fora, quando fosse para casa nas férias. Não, lá era muito exigente. Ela não queria nada dessa história de ninguém, de homem lá dentro não. Não. Então, essa administradora lá, ela tinha tanta confiança em mim, e quando ela saía que tinha algum homem fazendo um trabalho lá no elevador, alguma coisa, ela me chamava “Senta aqui, faz o teu trabalho aqui porque você presta atenção a alguma que venha conversar com esses home que estão aí trabalhando”. Porque ela sabia que eu não era disso, né, essas coisas mesmo, né? Depois eu acabei o primário e fiquei fazendo trabalho e ela entregou até a portaria para mim, o telefone que eu fiquei um tempo atendia telefone, atendia a portaria...

P1 - A senhora ficou trabalhando na própria escola.

R - Não era trabalhando, dando essa ajuda. Que eu fazia trabalho...

P1 - Dando uma força.

R - É. Fazia trabalho, estudava música. Porque quatro anos eu fiz o primário completo, né? Depois não tinha, era meio difícil o ginásio. Ginasial era difícil mesmo.

P1 - Mas, esse colégio era um internato. A senhora morava lá?

R - Era internato, é. Mas nas férias, no mês de julho, saía, ia para casa. No fim do ano também fazia uma festinha, tinha papai noel, fazia aquela festinha e depois a gente ia para casa. Voltava no tempo do começo das aulas de novo.

P1 - E a senhora ficava com saudades de casa quando estava lá?

R - Ficava, mas eu me ocupava muito, né? Eu não parava. Eu tinha a música para estudar, tinha trabalho para fazer, aprendi a fazer tricô, a fazer sacola de macramê, era tapete... aprendi até a forrar botão também naquelas (maquinnha ?) de botão... tinha muito trabalho, né? Eu nunca ficava parada.

P1 - E a aula de música, como é que era?

R - A música, eu ia estudar o piano. Tinha aquela (história?) certa de eu estudar. Depois tinha uma que __________________________. Ela explicou primeiro, depois eu fiquei estudando. E professora de acordeon, vinha uma de fora. Depois foi embora. Aí eu larguei, sabe? “A minha professora foi embora, não quero mais saber de acordeon não, deixa só no piano”. E o violão era uma que ensinava só por ouvido. Eu disse: “Por ouvido eu não aprendo nada. Tem que ser por música. Se for por música, eu aprendo, mas por ouvido, não. Eu não sou boa de escutar as coisas e tocar. Não”.  Aí, não aprendi violão por causa disso. Porque não tinha uma professora que ensinasse por música.

P1 - Então a senhora toca acordeon e piano.

R - Eu aprendi um pouco de acordeon e piano, mas saí de lá e não desenvolvi mais não. Onde eu vou poder comprar piano, mais? Aí eu larguei o piano, né? Eu aprendi, eu tocava nas festas no fim do ano. Eu tocava, toquei muita música no piano, mas saí ____________ para eu lembrar agora se eu pudesse comprar um piano. [risos]

P1 - E aí, a senhora terminou o primário...?

R - E fiquei mais três anos lá fazendo aquele serviço, né? Fazendo de tudo. Todos os trabalho, eu fazia. Fazendo trabalho e estudando música. Depois eu saí. Quando eu saí, eu fui procurar o cursinho para fazer, né? Fazer o cursinho para andar sozinha e depois fui procurar o Senai. (Um mês e mês?) a professora falou “Você está pronta, pode procurar o Senai”. Então eu fui procurar, lá na Barão de Limeira.

P1- Aí a senhora veio para São Paulo.

R - Era São Paulo que eu ia. Eu morava em Mauá ainda, no bairro São Vicente. Eu ia para São Paulo todo mês. Oh, eu fiz o cursinho de 10 dias. Não, eu fiz inscrição. Eu fiz o cursinho de 10 dias no Senai. 10 dias teve as provinha, né? Nove dias, porque 10 dias foi a provinha que teve, né? Provinha e eu fui bem, diz que fui 94, tinha ido bem no cursinho e depois marcaram o dia para eu ter entrevista. Fui lá ter entrevista com uma psicóloga, depois ela marcou o dia para fazer teste. O teste é feito lá no Senai também, né? Teste de risco, parafuso, pôr na prancheta, tirar, e ela marcando hora para fazer depressa. Depois teve exame médico e fiquei aguardando. Todo mês ia lá. Como eu escolhi a linha, minha linha deu duro para arrumar, né? Eu fiquei dois anos andando para São Paulo. Dois anos eu andei para São Paulo, né? Depois de dois anos completinho mesmo, foi no mês de março, eu cheguei lá e foi até surpresa para mim. Disseram: “Teu serviço está arrumado, é na Rhodia”.

P2 - A senhora já tinha ouvido falar da Rhodia?

R - Tinha, mas eu não conhecia, porque tem teste e tem essa outra, né? Eu não conhecia essa química farmacêutica. Não. No Senai falaram para mim: “Não é atrás do Jumbo não. É uma que fica em frente”. Isso aí não tem o que saber não. Já sei. Santo André eu conheço mesmo, o negócio é lá em Santo André, né? Em frente ao Jumbo, aquele Jumbão, né? A química era e ainda hoje é. É ali mesmo. Saiu a farmacêutica e ficou a _____________ pessoa, né?

P1 - E aí a senhora foi trabalhar na Rhodia. Como foi? Como a senhora chegou lá?

R - Não, ele mandou ligar para acertar o dia que ia apresentar, né? Ia gente do Senai apresentar. Eles têm mais 3 junto. Duas para o cosmético e têm uma junto ___________. Quer dizer que uma ficou na farmacêutica comigo. Porque tinha mais duas que foi para os cosmético, né? Porque tinha cosmético nesse tempo. Nesse tempo era muito movimentado ali, viu? Tinha cosmético, tinha plástico, tinha de tudo ali dentro. Era muito movimento. Tinha até o botão vermelho para a gente apertar quando saísse. Era. Tinha até o botão vermelho. Eu apertei muito o botão vermelho. E dava vermelho, não abria a porta. “Abre minha bolsa aí, para ver o que tem dentro. Pode abrir”. “Pode abrir minha bolsa, à vontade”. [risos] Porque fazia fila, porque o cosmético era muita gente, tinha o plástico, tinha muita gente. Tinha portaria das mulher e dos homem.

P1 - Separado?

R - Era separado, porque era muita gente e os homem tinha a revista deles para lá na outra portaria e a nossa era de baixo do viaduto.

P2 - Tinha que fazer revista?

R - Tinha revista por causa do cosmético. O cosmético tinha muita coisa boa, né? [risos].
E às vezes ao contrário, o botão vermelho dava para quem não tinha e para quem talvez até levasse não dava vermelho. É uma bobeira essa história de botão vermelho, viu? É a maior bobeira. Quantas vezes eu apertava, aquilo berrava. “Ah, agora, vamos entrar lá dentro, abrir a bolsa”.  Anh.

P1 - E a senhora lembra do primeiro dia de trabalho da senhora?

R - Lembro.

P1 - E como foi?

R - O primeiro dia nós fomos no departamento e tinha que fazer o crachazinho para entrar e entrou mais duas de fora. Entrou essas 4 comigo. Depois, quando mandou assim essa fulana e essa que morava aqui. Eu morava aqui e mais duas de fora, né, acharam ruim, que queriam ficar tudo junto. E aí eu comecei a dar risada. Eu não conhecia nenhuma, conheci nessa hora,né?. Tudo lá do Instituto Padre Chico e eu não fui, era estranha para elas. E elas eram tudo colega, queriam ficar tudo junto.

P1 - Na mesma seção?

R - Na mesma seção, mas foi ao contrário.

P1 - Separaram todo mundo?.

R - Ficou só duas. Mas a outra, que ficou comigo, não gostou de nada. Disse: “Ah!” Eu disse: “Para mim, qualquer lado que eu for está bom. Eu não conheço ninguém aqui”.

P1 - Quantos anos a senhora tinha aí, quando a senhora entrou na Rhodia?

R - Sabe que eu não lembro bem? Acho que uns 30 e poucos anos, né?

P1- Foi em 72?

R - 72. Foi em 72.

P1 - E qual seção que era?

R - Chamava BF, que tinha o laboratório, tinha a escolha de ampola, a ampola ia para a embalagem e passava por uma máquina para fazer gravar, né? Aí eu trabalhei muito nessa máquina, pondo uma ampola, também junto com outra. Uma tomava conta da máquina, ela limpava a máquina, arrumava e enquanto isso eu estava pondo a ampola, né, na máquina para gravar. Já saía gravadinho e já ia direto para a linha e o pessoal lá ia embalando.

P1 - Mas o primeiro serviço que a senhora fez na seção?

R - Não. O primeiro serviço foi uma linha de vitaminer. Lembra do vitaminer, aquela vitamina? Na roda, pondo o frasquinho na roda e fazendo as caixinhas. Foi ensinado a fazer logo isso. O primeiro serviço que eu peguei foi o vitaminer. A linha de vitaminer.

P2 - A senhora fazia as caixinhas?

R - Foi ensinado fazer as caixinha e colocar. Nesse dia eu trabalhei muito devagar, né, porque eu estava aprendendo, né? Eu fui aprender o serviço. Agora, depois, nos outros dias, já fui trabalhando mais, as coisas já foram melhorando. Depois fui passando para os gardenal. Os gardenal era uns tubinho, né? Era uns tubinho. Esses tubinho, eu punha na roda. As que trabalhava com a pazinha, de máscara, de luva, a que punha algodão também tinha máscara e luva. Agora, eu e a que punha tampa, ficava sem nada disso. Até o gosto de gardenal vinha na garganta da gente [risos].

P1 - É mesmo?

R - Sentia o gosto de gardenal, aquele amargo, né? O gardenal 50. Olha, eu ficava três meses, dois meses, três meses numa linha. Porque quando acabava o 50 miligramas, a gente _________ o 100. Era entregue 8 operação. E isso ficava. Por isso eu acabei dando conta de tudo até demais. No fim eu trabalhava até com calma, porque dava conta demais. “Oh tem muito, não ponha mais não”. Era caixinha que tinha muito, porque ficava duas pondo na bula e colocando lá, né? “Tem muito, chega”. Você então juntava, né? Juntava assim do lado, juntava numa caixinha e deixava pedir para poder mandar.

P1 - E como eram as suas amigas de trabalho, as chefes?

R - As chefes até que eram muito boa.

P1 - Quem era a sua chefe?

R - Quando eu entrei a encarregada geral era a Ivone. Mas essa, com seis meses que eu estava lá, ela aposentou. Aí, entrou a Nadir. Mas tinha uma supervisora também. Ela era a encarregada geral e tinha a supervisora. A supervisora é que arrumava tudo, mas com ordem dela, né? E tinha o chefe da seção, Dr. Oswaldo, né? Eu fui operária padrão em 82. Mas Seu Oswaldo chamou, perguntou se eu queria ser. Porque eu nunca faltava, nunca atrasava, era assim, né? Quando apitava 7 horas, eu já estava dentro da embalagem, arrumadinha, se trocava, amarrava o lenço. No começo era avental comprido, manga comprida e o lenço na cabeça, aquele lenço branco, né? Depois mudou tudo, quando começou a entrar máquina grande e começou a entrar homem aí começou o uniforme. Fizeram calça comprida ou avental comprido e toca, aquelas touca descartável, né? Mas no começo era avental mesmo.

P2 - Quando entraram os homens mudou tudo?

R - Quando começou, porque antes era só mulher que trabalhava dentro, porque era tudo manual. Era maquininha manual mas, quando começou a chegar aquelas máquina grande, foi chegando máquina, foi chegando máquina grande de plaquinha, depois acabou mesmo os frasco e ficou tudo em plaquinha, né? Até hoje tudo é plaquinha. Mas antes não tinha homem não. Quando eu entrei não havia homem lá dentro. Depois começou a entrar homem por causa das máquina grande que começou a chegar.

P2 - E aí mudou o uniforme?

R - Mudou o uniforme. Ficou tudo usando um uniforme só, né? Tudo igual, aqueles avental comprido, com as calça comprida, sapato fechado, toca. Ficou tudo uma coisa só. As chefes, as encarregadas também, supervisoras, a mesma coisa. Era tudo igual, né, o uniforme.

P2 - E a senhora chegava todo dia pontualmente?

R - Ah, chegava muito cedo porque o ônibus era meio difícil, o ônibus Parque São Vicente. Eu pastei um pouquinho. Eu acordava antes das 5 horas para às 5 e meia estar no ponto, porque eu não queria vir no outro mais tarde para não atrasar. Porque eu tinha que andar ainda, não era assim pertinho em frente a Rhodia, não. Descia na estação e depois quando fechou as porteira, eu descia naquele viaduto e subia aquelas escada. Atravessava por cima do viaduto,  atravessava em frente e ia pela calçada. Foi no tempo que mudou a portaria e ficou tudo uma portaria só. Até chegar à portaria.

P1 - Mas quando a senhora começou a trabalhar na Rhodia, a senhora estava morando com alguma irmã?

R - É estava com irmã. Eu só comprei meu lugar de morar depois que eu aposentei, né? Morava com elas.

P1 - E aí a senhora chegava na Rhodia...

R - Não. Nesse tempo meu pai era vivo, minha mãe era viva. Eles eram vivo. Porque eles duvidavam. Como eu andei dois anos, eles não acreditavam que eu arrumasse trabalho. Ninguém acreditava. Quando eu cheguei, cheguei bem calma, no dia que eu cheguei de São Paulo e disse: “É meu trabalho apareceu, até que enfim”.

P1 - E aí, o que o seu pai falou?

R - ficaram tudo bobo assim. “Apareceu aonde?” “Na Rhodia, mas eu vou conhecer depois”. Depois, quando eu liguei, o do Senai falou  “Você vai se apresentar no dia 23 de março. Vai gente daqui do Senai apresentar vocês.” Aí, foi feito o meu teste, né? No escritório, fez as ficha. Mas teve que levar a gente para escrever as ficha, né? Foi, o meu cunhado foi com o menino dele e foi quem fez a minha ficha. Agora, assinar, eu assinei tudo, né? Ele escreveu a ficha e eu assinei. Depois, fomos na química mesmo, eles deram o papel para tirar chapa de pulmão e depois ir para a teste fazer exame médico, né? Primeiro fomos fazer exame médico, na teste. Era tudo feito na teste.

P2 - Tudo na teste?

R - Era tudo na teste, era. Exame médico. Depois quando tirou a chapa, nós fomos buscar a chapa e levar lá para ir fazer exame médico. O exame foi bom, o médico só conversou. Eu não sei das outras, mas o meu ele só conversou. Depois fomos levar no departamento, eu assinei lá uns papéis mais e ele falou no dia 3 de abril, estava no fim de março, ia ser semana santa, dia 3 de abril que vocês vão começar.

P1 - E aí a senhora começou?

R - Comecei dia 3 de abril. Mas o começo depois das 9 porque até que chega no departamento ia fazer crachá e depois fui na enfermaria da chefe porque tinha também uma encarregada na enfermaria, mandou subir para dar roupa, ensinou a amarrar o lenço. Até eu chegar na seção, quando eu cheguei ela se apresentou, a chefe geral “Eu sou Ivone, eu que tomo conta aqui de vocês” e mandou para as mesas, né? Para as linhas.

P1 - E como a senhora foi recebida pelas outras colegas de trabalho?

R - Elas foram conhecendo devagar, sabendo como é que conversava. Aí a encarregada da mesa foi quem “A senhora não sabe como é que conversa. Eles conversam do mesmo jeito que conversa com todo mundo. Aqui não tem nada diferente não, você se acostuma a não fazer nada diferente. É tudo igual. Pode acostumar.”

P1 - E aí a senhora começou primeiro preenchendo ampola?

P2 - No vitaminer?

R - Não, no vitaminer. Foi no vitaminer.

P1 - E depois no gardenal...

R - Depois ia para outra mesa. Sempre trocava. Tinha o ___________ que era em frasquinho, tinha amplicitil, tinha neosine, tudo comprimido, né? Tudo em roda.

P1 - Eram comprimidos?

R - Era tudo comprimido feito manual, né? Era tudo manual. Tinha também xarope. E aí, em xarope a gente ia fazer caixinha. Era meio corrido, né? A caixinha também. E a embalagem de ampola também. Depois a ampola foi sendo gravada num laboratório mesmo aí a gente subia só para embalar. Aí era meio corrido, né, a embalagem de ampola.

P1 - Como era esse trabalho de embalar?

R - Embalar era assim: ficava, dependendo do serviço, duas pondo bula e fechando. Ficava fazendo as caixinha, sempre eu costumava ficar fazendo as caixinhas e jogando. “Ai está faltando”. Está faltando? Aí começava a tocar, fazer o serviço mais depressa. “Chega está demais.” “Aí, você não está pedindo, está dizendo que não tem?” [risos] “Ai, estou pondo de lado, senão cai no chão.” “Então não faça escândalo.” [risos] Porque eu já estava muito prática, menina. Olha, teve uma mulher da limpeza que passou para a embalagem, essa mulher ficou até com raiva de mim, por causa das minhas __________ mesmo. Porque estava naquela vitamina de criança, que eu esqueço o nome.... (Leovitan?) estava embalando (Leovitan?) e tinha aquela produção certa, que uma punha em cima e eu fazia as caixinha lá em cima, né? Aí, disse assim: “Ai que beleza a Tereza chegou, porque a Izabel não está dando conta.” Ela ouviu isso e não gostou, né? Não gostou. (fim do lado A) Eu não mandei ninguém falar isso. E não fui eu que falei. A i que beleza que eu tinha chegado porque ia dar conta do Leovitan. E a Izabel, que era da limpeza, se fazia limpeza não tinha prática com caixinha para fazer, né?. E eu estava com muita prática porque fazia demais.

P1 - Ela ficou enciumada?

R - Ficou. Ela não gostou não. Eu disse “Eu não tenho culpa não.” Os colegas falaram porque quis, né, eu não mandei ninguém falar. Aí, a encarregada da mesa pôs ela para fazer outro serviço, né? E eu fiquei fazendo as caixinhas, porque tem aquelas quantidade, aquela _____________ aí dava conta direitinho, porque é produção. Agora, tinha umas que essa no fim, o fim delas era ser mandada embora. Elas tocava demais, demais, só faltava morrer e depois ficava cansada. Quando inventaram um fumador lá dentro, porque antes não tinha, não tinha lugar de fumar, aí “Ah, eu vou lá no banheiro”, inventava de fumador e demorava até a hora do lanche para ficar sossegada porque a produção estava dada, né? Mas deixa elas que pensava que não tinha gente para estar olhando isso. Tinha a supervisora para olhar isso. Quando essa que estava bem com esse mal costume de sair para ir fumar à vontade, ficar à vontade, quando via, era chamada e ia ser mandada embora, né?. Porque não era, era  para trabalhar tudo normal. Na hora do lanche tinha, quando tinha o refeitório, quando não tinha o refeitório tinha o vestiário, tinha o lanche. Não era para ninguém trabalhar para se matar não, viu? Era para trabalhar tudo no normal, na hora do lanche ia tomar lanche. Mas, quando elas começava a tocar, tocar e pôr a bula dentro e jogar para lá era mais fácil até do que fazer caixinha. Tocava demais, demais e eu só faltava me matar. Eu disse “Olha, cadê a Gessi?” “Foi para o banheiro.” Isso ela ia fumar e saía dali ia tomar o lanche, como pensava ela que isso não estava sendo olhado. Estava sendo sim. Para isso tinha a supervisora, tinha tudo para olhar.

P1 - Como era esse horário do intervalo, almoço?

R - O almoço era uma hora de almoço. Uma hora. E o lanche era 15 minutos se elas direitinho não falhasse, ninguém saísse fora de hora, ninguém fizesse nada errado. Depois tiraram para 10, porque estavam fazendo coisa errada. Muita gente às vezes ia embora porque não seguia o regulamento, né? Porque se tem 15 minutos de lanche, por que não dava? Quando começou o refeitório, eu parei de ir no refeitório porque ali juntava os homem de ___________e _______ homem também e as mulheres fumava demais e eu não aguentava muito fumo, Deus me livre. Até o cabelo da gente pegava fumo. Eu disse “Não, o que eu vou fazer lá? Eu não tomo lanche não, basta almoçar e acabou.” Eu não ia tomar lanche.

P1 - E o almoço, a senhora comia onde?

R - Bem, no começo

P1 - Não tinha refeitório.

R - No começo não tinha. O restaurante, a gente ia para teste. Eu ia também. Porque eu procurava o mensalista que era um pouquinho mais caro, mas era melhor. O outro eu não conseguia comer. Não era muito bom. Hoje está tudo um só, né? Hoje não existe separação. Depois de Santo Amaro é tudo junto aí na teste fizeram um grandão. Era 3 restaurantes que tinha na teste. Tinha mensalista, tinha dos horista, porque tinha negócio de horista lá. Em Santo Amaro não tem isso, é tudo uma coisa só, né? Aquilo mudou tudo na química também. É tudo um restaurante só. E tinha o da diretoria, dos chefes. Agora, diz que não. Agora,  fizeram um grandão, bem grande e só está um só. Não tem nada de separação não. Até o presidente da Rhodia, quando vai lá na Rhodia de Santo Amaro, ele entra na fila do restaurante e almoça lá dentro junto com todo mundo. É. Não tem disso. Por isso é que agora na teste não tem mais, na química não tem mais, em Rhodia nenhuma tem separação mais não.

P2 - E a senhora foi operária padrão em 82?

R - Fui. Ele me chamou, o dr. Oswaldo e me perguntou se eu queria ser. Contou como é que era e tudo e se eu queria. “Não me importo não.” “Então vai lá na assistente social.” Aí elas ficaram contentes, “ai que beleza, você vai ser também. De tarde vai ter reunião.” Sou eu e outra. De mulher só tinha eu e outra. O resto tudo era homem, né? Bastante homem. E quando começou o voto, puseram o nome e começou o voto, né? Quando começaram a votar, muitas se enganou com o meu nome, porque via todo mundo chamando Tereza e estava Maria Tereza no papel, né? Elas disse “olha, eu não votei em você porque não sabia que você era Maria Tereza.” Eu fiquei no terceiro lugar. Era para ter ficado até no segundo, né? Mas como elas disse que muitas se enganaram porque eu só chamava Tereza lá dentro.

P1 - Ah, é que lá estava escrito Maria Tereza?

R - É, no papel estava escrito Maria Tereza. E quando foi depois, que eu ganhei, teve entrevista com a assistente social, depois marcou o dia e teve também um julgamento. Esse julgamento foi gozado. Era 5 homens, né, numa sala, para cada um fazer uma pergunta e a gente responder. Ia um de cada vez. Um de cada vez que entrava. E as assistentes social falava “Não é para sair contando quem entrar primeiro.” Eu disse “Não me interessa saber, eu quero saber quando eu entrar ser surpresa para mim, eu não quero saber.” Quando entrava lá dentro tinha 5 homens. Cada um fazia  uma pergunta para a gente e a gente tinha que responder àquela pergunta, né?

P2 - Que tipo de pergunta que era?

R - Perguntava as coisa de trabalho e um perguntou assim: “Para melhorar o mundo, como tem que fazer?” Eu disse “Ah, eu acho que os homens fazendo uma forcinha, mas acho que só o poder de Deus, né?” “Mas e os homens querendo?” “Ah, eles querendo fazer uma forcinha, mas em primeiro lugar está o poder dele, né, para melhorar o mundo.” Mas esse _____________________. Se fosse hoje que podia falar assim, né? [risos]. Naquele tempo estava bom, tinha trabalho. Em 82 estava ruim como está hoje? Fábricas se acabando e tudo. Não estava, não era? Tinha muito trabalho ainda.

P2 - É verdade.

R - Em 82 não estava como está hoje.

P1 - E quais...

R - Não foi em 82 não, foi em 81. Agora que eu lembro. Foi em 81 que eu fui e até passei uma semana no Rio de Janeiro na casa de uma prima e quando cheguei de férias estava se preparando isso ____________e estavam me esperando. Foi. Foi isso mesmo, 81.
Em 82 houve uma visita lá para a família, para quem quisesse visitar. A gente trabalhou dois sábado. Foi sábado de visita. O pessoal, quem quisesse conhecer a Rhodia. Não podia entrar com máquina, nem ninguém entrar lá dentro da embalagem. Via pelos vidro, né?
Então, eu disse “Eu vou fazer hora extra, porque o pessoal lá de casa querem me ver trabalhando.” Aí, eu fui fazer hora extra. Quando foi no outro sábado não era hora extra não. Era para compensar o outro dia que ia ser parado. Trabalhamos o dia inteiro, né? Mas foi visita naquele dia e no outro sábado também. Nem parava tudo para almoçar. Saía um pouco, depois saía outro. Nem parava todo o trabalho porque era visita o dia inteiro. Visita o dia inteiro. O pessoal olhando por fora, né? Pelos vidros. Ninguém tinha o direito de entrar nas embalagem não.

P2 - E a sua família foi?

R - Minha família foi. Só uma que estava  de dieta e tinha ganhado neném não pôde ir. Mas todas foram. Minha mãe, meu irmão levou minha mãe. Meu pai não quis ir, né? Mas minha mãe foi.

P1 - E como era a sua vida fora da Rhodia? A senhora tinha amigas da Rhodia?

R - Tinha. Tinha sim. Eu fui até em chá de cozinha, em casamentos, elas convidaram, eu assinava lista lá dentro.

P1 - E...

R - Era... [pausa]

P1 - Agora deu um silêncio. E o salário, como é que era Dona Tereza, a senhora lembra?

R - O salário daquele tempo, você sabe, era cruzeiro, né? Era uma coisa, porque quando eu entrei logo, as coisas não aumentavam assim, muito. Era cruzeiro. Estava no cruzeiro. Eu comecei ganhando, primeiro os ganhos eram pouquinho, né, depois com três meses, me igualaram igual às outras. Porque tinha um salário de menor. Às menor tinha que trabalhar dois anos para poder igualar com as maior, né? Mas menor de 16 anos, 17. Até 17 que era menor, né? Até 17 anos. Depois, não quiseram mais menor. Quando começou a chegar as máquinas, não quiseram mais receber menor, né? Só queriam maior. Aí começou a entrar gente de toda idade. Mas o salário, três meses eu fiquei ganhando igual às outra, né? E não era tão mal não, porque naquele tempo, ficou ruim, um pouquinho no plano Collor. No plano Collor. No plano de Sarney, né? Foi o pior plano que houve, apareceu.

P1 - O do Sarney?

R - É. Porque, um, que o Seu Oswaldo foi embora. Entrou um tal de Hermelindo, que é um lixo, não valem nada. Eu vou logo dizendo assim porque não valia mesmo. Foi logo se apaixonando por uma funcionária loura e desquitou até da mulher e foi morar com essa funcionária, né? E oh, já peguei o respeito dele. Era muito desrespeito à Rhodia. Já entrou um chefe sujo, né? Já sujou um pouquinho a Rhodia. E aí, quando começou o plano Sarney, ficamos tudo com o salário parado, né? E isso, quando foi no mês de julho, aí o sindicato esteve lá, convidou para fazer greve. Ninguém aceitou, né? Foi no mês de julho, chamou a supervisora de mesa e deu aumento. E ficou o resto tudo quietinho, né, ninguém falou nada. Quando foi em novembro, ele chamou a supervisora de mesa e as faxineira e as _____________ de ordem. Deu aumento. Aí a Nadir falou “Ué”, foram tudo queixar, “Que negócio é esse? E o aumento da gente?” A Nadir disse “Vamos chamar ele aqui na embalagem e parar todo o serviço e todo mundo falar com ele, que não é só umas que precisam de aumento não. Todo mundo quer aumento. Quem dá a produção? É nós que trabalha na produção, as operadora, né?” Aí ele fez farrinha “Ah, vocês estão ganhando bem, vocês não são faxineira. Vocês me fizeram perder minha novela. Disse “É?”, quando foi na sexta-feira, se animou um grupo, tanto da química, de baixo, como a embalagem, “Vamos todo mundo para o sindicato, minha gente. Hoje tem assembleia, hoje o negócio vai dar ruim mesmo”. Quando o sindicato convidou para fazer greve, todo mundo levantou a mão. Na segunda-feira, eu fui chegando lá, o homem que me atravessou, quando eu ia chegando lá disse “Olha, as faixa está lá e todo mundo do lado de fora e o sindicato está aí.” Eu disse “Eu já sabia que isso ia acontecer.” Ficou 23 dias, no mês de dezembro, em greve. Por causa do chefe sem-vergonha que tinha lá, né? Dá aumento para uns e outros não?, ele não podia fazer. Aí a encarregada falou “Nem nós tivemos o aumento que elas tiveram, por que elas ter mais aumento?” Por que elas também não gostaram, né? _________ não se incomodou não, com a greve não. 23 dias foi que, na véspera de natal, foi que decidiu, ele deu um aumento que combinou e depois eles pagava tudo e depois ficava descontando, né? Ele pagou tudo para a gente. Foi receber o 13º e recebeu tudo.

P1 - Mas descontados os dias da greve?

R - Ah, pagou tudo mas depois ficou descontando devagar, né? É, pagava mas, depois, descontava. Veio descontando devagarinho da gente, né?

P2 - A greve, eles não deram o aumento?

R - Deu.

P2 - Deu?

R - Deu o aumento, só que não foi do jeito que o sindicato pedia, né? Mas teve o aumento. [pausa]

P1 - Mas aí, descontaram os dias parados depois?

R - Não, descontaram por mês, de pouquinho. Não. Todo mês descontava aquela quantiazinha, né? Não era de uma vez não. Era descontado devagar.

P1 - E a Rhodia tinha algum tipo de benefício, ajudava os funcionários, por exemplo, a comprar casa?

R - Não. Tinha um negócio lá de uma Associação Credi Rhodia que a pessoa fazia empréstimo e ia fazendo. Muitos fazia, comprava as coisa, comprava terreno com esse negócio desse empréstimo. Era esse Credi Rhodia, né?, que a gente descontava todo mês, pagava um pouquinho. E a pessoa fazia empréstimo, ficava descontando. Não ajudava em nada não, viu? [risos]  Não. Uma coisa que ajudava era só os remédios que a gente ia no médico, pegava a receita e pagava a metade, né? Era só a ajuda que tinha. Tinha outra ajuda não. E isso, só para quem trabalhava. Quem tinha filho, quem tinha mulher, não tinha direito não. Era só para quem trabalhava. Para eles, mas para a família, não.

P2 - E o sindicato ajudava bastante?

R - O sindicato ajudava em que? Ah, bem, quando entrou essa chapa que está ainda hoje é, né?, porque quando estava a outra chapa, eles ia de vez em quando fazer uma reunião lá dentro, mas eles não era nem a favor de quem trabalhava, dos trabalhador. Agora, essa chapa, é chapa 1, né?, quando entrou a 1, aí as coisa melhorou para a gente. Porque lá tinha supervisora que se as menina não desse produção, elas deixava até de castigo, né? Saía 11 e 5, tinha que dar produção. Depois que a chapa 1 entrou, as coisas mudaram. Não tinha esse direito, né? Não havia esse direito. Qualquer coisa que levasse no sindicato, eles soltava os folhetinho. O Ênio era aposentado. Era um chefe dos comprimido, aposentado. Então, tinha um que trabalhava nos comprimido, desmaiou. Pediu para trocar de seção. Ele mandou o homem embora, né? Ele, o que fez? Foi no sindicato. Aí, o sindicato ia nas portaria, soltando aqueles folhetinho, falando: por que o Ênio fez isso? Não pode mandar o homem embora porque ele desmaiou, não estava se dando numa seção, tinha que trocar ele da seção. Só sei que o Ênio estava aposentado e nisso foi mandado embora, né?

P1 - Quando não dava a produção, deixava de castigo?

R - É, andou uma supervisora fazendo isso, né?

P1 - É mesmo?

R - Era. No começo mas quando entrou a chapa 1, ninguém podia fazer mais isso não. Até o restaurante, quando entrou um mensalista e o horista lá dentro da química, a assistente social falou “Não, é só para mensalista. Horista não pode entrar.” Agora, mensalista entrava no horista. Eu disse “Mas as roupa não são igual? Ninguém aqui é mais de que outro.” “Não pode.” As menina iam para a teste, saía correndo e ia para a teste. Até que um dia uma encarregada da rouparia falou com a assistente social “Ela não podia ficar aí para almoçar, ir para a teste correndo”, falou para mim, né? “É, pode ficar, se outro acompanhar ela, pode ficar.” Depois, um dia, teve uma que conversou com gente do sindicato que trabalhava lá dentro e levou isso ao conhecimento do sindicato, né?, que estava sendo separada, que as meninas que trabalhavam dentro da embalagem não podiam almoçar no restaurante que era mensalista. Ele acabou com tudo. Ficou tudo uma coisa só. A gente almoçava onde bem queria.

P1 - Aí, juntou tudo?

R - Juntou tudo. Não tinha essa história de não poder entrar porque é mensalista. Não. acabou com tudo.

P2 - Tinha muita ciumeira entre mensalista e diarista?  Como é que era isso?

R - Não, porque a gente ganhava por hora, né? Agora, acho que não tem mais em Rhodia nenhuma isso aí. Acho que está ganhando assim, direto por dia mesmo, né? A gente ganhava por hora. E a mensalista, ela marcava cartão também, né? Também marcava, viu? Tinha mensalista. Depois, com o tempo, deixaram de marcar. Mas, no começo, todo mensalista marcavam cartão também.  E a gente marcava cartão. Eu não marcava. E o crachá tinha uma diferençazinha. Mas a roupa era a mesma, era tudo igual. Tinha adiantamento do jeito que a gente tinha, não tinha nada diferente, né? Então, eu sei que em Santo Amaro mudou tudo. Quando foi o laboratório de Santo Amaro, ficou tudo diferente. Não tem nada de separação.

P1 - E quais outros produtos que a senhora trabalhou, além do vitaminer, do gardenal?

R - Eu estou falando, né?, o Lepetil, amplicitil, neosine, tinha outro de alergia, ele é o fenergan. O fenergan, remédio de alergia. Muitos produto que eu trabalhei.

P2 - E tinha diferença para a senhora, qual era mais fácil, mais rápido?

R - Não, dava tudo numa coisa só, né? Tudo numa coisa só. Depois que chegou a roda, a máquina mesmo que enchia, e era uma roda assim, como um disco, né?

P1 - Espera aí, deixa eu entender. Antes enchia manualmente?

R - Era manual, depois chegou a máquina, né? Essa máquina...

P1 - De ampola?

R - Não. De ampola não. De frasquinho de encher.

P1 - Entendi.

R - É.  Aí, tinha uma roda grande, depois, a encarregada mesmo, a Nadir, ela me chamou e foi ensinar. Pegavam as caixa de frascos, punham junto para eu ir pondo e arrumando, arrumando, arrumando e enchia, né? Aquela roda ia lá para a máquina. De lá elas pegavam, iam pondo algodão até chegar a máquina de algodão. Até que chegou máquina para tudo, né? Mas o começo era manual. Elas tampavam manual e punha algodão com a pinça, né?

P1 - Com a pinça?

R - É, com a pinça punha os algodão.

P1 - Ah, pegando o algodão com a pinça e colocavam?

R - Era, colocava o algodão no frasquinho. E descia, ia descendo e outras ia tapando. Depois, foi chegando máquina para tudo. Para tampar... as máquinas foram chegando devagar.

P1 - E, quando chegaram as máquinas, como é que a senhora trabalhava?  O que a senhora fazia?

R - Trabalhava. Não faltava. Tinha trabalho manual ainda. Nunca faltou manual não. Agora, em Santo Amaro, é que diz que tudo era feito por máquina. Mas também, quando quebra a máquina, às vezes ainda vai na mão, né? Santo Amaro estava sendo tudo na máquina, né? Até ampola estava sendo embalada na máquina, lá em Santo Amaro estava sendo assim, né? Acabou todo serviço manual. Mas acontece, que se quebrar também as máquina, né?, vão fazer na mão, né?

P1 - Mas, por exemplo, quando chegou as máquinas, essa coisa de pegar a pinça, colocar o algodão...

R - Não, isso aí é o algodão. Isso aí fazia até na roda manual. O algodão, não era pegar com a mão, não. tinha que ser com a pinça.

P1 - Com a pinça. Isso que eu falei. Pegava com a pinça, pegava o algodão...

R - Punha o algodão. E aí a outra ia e tampava. Desde a roda manual que os algodão não ia na mão, né?

P1 - Não, eu sei. Pegavam com a pinça.

R - Com a pinça, é?

P1 - E isso continuou depois. Na máquina.

R - Na máquina também continuou. Enquanto estava sendo manual nós pegávamos com a pinça. E as que punha o comprimido no frasquinho, elas usavam máscaras, as luvas, aquelas luvas cirúrgica, né?, usavam luvas, máscaras...

P2 - A senhora falou das regras, como eram as regras para o trabalho?

R - A regra de começar a trabalhar?

P2 - É. O que podia e o que não podia fazer ali?

R - A gente chegava, às 7 horas tinha que estar todo mundo dentro da embalagem. Começava o trabalho. Quando apitava 7 horas começava tudo. Nem refeitório tinha lá dentro. Então, fazia assim: paravam cada um em uma mesa, duas mesas e ia para o vestiário, né? Quem queria tomar lanche ia. Parando uma mesa cada vez. Era assim.

P2 - Isso no meio da manhã, mais ou menos.

R - No meio da manhã. As mulher não fumavam lá dentro, no começo não, hein? Quando era hora do almoço elas saíam com o cigarro delas e ia lá para fora da Rhodia, né? , para fumar. Não tinha lugar para elas fumarem e não podia fumar em todo canto. Lá dentro, não. E quando era de tarde, também era a mesma coisa. Quem queria tomar lanche, ia assim, ia parando as mesa, ia no refeitório e tomava seu lanche, né? E a hora do almoço era 11 horas, que era a hora da parada, e meio dia começar.

P1 - E quais foram as principais mudanças que a senhora sentiu quando foram entrando as máquinas?

R - Vai entrando devagar. Foi tudo começando devagar. Você vê que a máquina de frasquinho não deu diferença porque eu fiquei na roda, do mesmo jeito, colocando os frasco. Depois, foi chegando máquina mais para tapar, porque as menina não agüentava mais, machucava muito a mão para tampar muito depressa, né? A máquina era corrida. Foi chegando máquina de tampar, máquina de pôr algodão, depois, de rótulo. Ficou junto. A máquina de rotular já ia para outra levava para... eu fiquei trabalhando nessa de rótulo também. Eu punha na roda de rotular. Sei que tudo ia arrumando. Dava um jeito e ia arrumando trabalho, né? Eu não ficava sem trabalho.

P1 - E tinha baile, promovido pela Rhodia, festas?

R - Não tinha. Não tinha nada. Depois, para o fim, começaram a fazer um churrasco no fim do ano. No fim do ano fazia um churrasquinho, né? Mas não tinha nada pela Rhodia não. Tinha um clube, quem quisesse ir para o clube, tinha de tudo, ficava sócia, né? Mas, a Rhodia, infelizmente não dava nada não. Ainda hoje parece que é assim. Eu não sei se continua dando a cesta de natal. Que quando veio Santo Amaro, o laboratório que comprou dava cesta de natal, né? Aí, eu ainda cheguei a ganhar uma, que estava no fim já. Ainda cheguei a ganhar...

P1 - uma cesta?

R - ganhei uma cesta ainda. Porque não dava, viu? Quando nós fizemos 70 anos teve uma festinha no clube, que a gente ganhamos uma caixa de muita coisa, né? Não. caixa, não. uma sacola. Uma bolsa de viagem, cheia de coisa, né, de tudo. Quando nós fizemos 70 anos. Teve festinha no clube.

P1 - E a senhora era sócia do clube da Rhodia?

R - Eu fiquei sócia sim.

P1 - Ficou?

R - Fiquei.

P1 - E como era? A senhora freqüentava?

R - Não, quase nem ia. Fui uma vez na sauna... mas em piscina nunca fui porque era uma piscina tão cheia de gente...que eu fui não. Quando tinha festinha, assim... uma vez eu fui a uma festa das crianças, de papai noel. Eu fui assistir à festinha. Mas não ia muito não.

P1 - E quanto tempo a senhora ficou na embalagem?

R - 20 anos.

P1 - 20 anos e sempre na embalagem e mudava de acordo com o remédio que estava ...

R - É. Uma hora saía de uma mesa, ia para outra. Até no fim quando começou as máquina de plaquinha, que amassava muito, isso era um serviço também que eu fazia. Desmanchar com a pinça, tirar aquelas plaquinha que estava amassada, aquilo ia juntando para eles lavar, para reformar, né? Ia ser lavado tudo e reformado.

P1 - E lá no serviço, não podia conversar?

R - A conversa era pouca, viu?

P1 - Tipo assim, quando você estava fazendo embalagem?

R - Sim. A conversa era muito pouca porque, se visse uma supervisora, a gente tinha que dar o sinal. Não se podia conversar na mesa não, por causa das produções. Quer dizer, se conversasse muito, não dava produção, né? Se ela chegasse de surpresa, “Olha a conversa”. Quando a gente fizesse assim “Hummmmm “é que aí vem uma supervisora, viu? [risos] Não pode conversar. A gente conversava assim, mas quando não tinha supervisora. Quando a gente via que vinha uma, um sinalzinho porque não podia conversar não, viu?

P2 - As supervisoras, todas elas, eram bravas?

R - Não. Porque elas diziam “Não pode conversar”, né?, na mesa. Não pode, porque senão esquecia a produção, não dava produção. [risos] A produção tinha que sair certinha. Não podia atrasar a produção. E conversando perde. Se tiver numa conversa muito animada, a gente amolecia a mão mesmo, né? [risos] Isso é verdade, né? Conversa demais... mas sempre uma junto da outra, se conversava assim, não deixava de conversar, né? Porque a supervisora não podia nos ver junto também não. Independente da seção separada, ela não ficava muito em cima. Porque depois, ficou muita seção separada. As gotas, depois que chegou a enchida por máquina e o trabalho a ser manual na mesa, era 30 moça na mesa, né? Uma colocava cânula, tem a história das cânula também, né? Duas ou três fazendo caixinha lá em cima. Eu fiquei muito nas cânula também.

P1 - Onde?

R - Cânula. Sabe conta-gota?

P1 - Sei.

R - Eu punha cânula e passava para outro lado da ______________separação da linha, das correia, né, que corria, elétrica. Passava para o outro lado, elas punha borracha e fechava, né? Era assim. Cada um fazia um serviço para não falhar, né? Uma punham bula, punha para cá. Ficava em duas, às vezes até em três para pôr cânula. Depois, passava para o outro lado e ficava umas três também pondo as borrachinhas. Era bem corrida essa mesa. Bem corrida mesmo. Mas depois que caiu tudo sendo de máquina, houve até coisa mais grave. Porque  às vezes falha, faltava bula. A máquina também (passava o gato?) da máquina, né? [risos]

P2 - Passava o gato da máquina?

R - O gato da máquina também passava. Eu desmanchei tanto trabalho feito de máquina.

P1 - É mesmo?

R - É. A gente ia desmanchar tudo, abrir os trabalho da máquina que deu errado. É mais fácil do que os manual.

P1 - Tinha que ficar consertando?

R - É.

P1 - Mas a senhora lembra assim de algum caso pitoresco, engraçado? Como eram várias divisões de trabalho, não dava algum chabu?

R - Não dava não.

P1 - Não dava?

R - Não.

P2 - Mas tinha as traquinagens, não tinha?

R - Sim, tinha.

P2 - Uma menina que não gostava da que trabalhava na frente?

R - Sim, tinha sempre um espírito de porco, mas esse espírito de porco, sempre. Às vezes, quando vinha a hora de mandar embora, sempre o nome ia ficando gravado. Na hora de mandar embora, ia mesmo, né?  Agora, aquela que sempre andava direito até o fim, sempre se saía, no fim saía aposentada ou, então, pedia para ser mandada embora. Porque, no começo não tinha casada. Quando elas queria casar, tinha que ir embora, né?

P1 - Precisava ir embora.

R - Ir embora para poder casar.

P1 - Mas tinha o caso de umas que eram casadas e não falavam, não tinha?

R - Tinha. Muitas casou escondido. Só que elas perdiam, porque não ganhavam a lista, não ganhavam nada, né? Fim da fita RHF 009 (Fita 1) Mas tinha muitas casada escondida lá dentro. Ninguém sabia.

P2 - Mas depois acabou isso, né?

R - Acabou. Quando acabou foi que ia descobrir. “Ah, eu era casada há muito tempo!” “Ah, eu era casada há muito tempo!” [risos] É, quando acabou isso. Aí, ninguém negava mais, né? É. [risos] É, que a Rhodia é muito exigente. Olha, eu saí muito em filme, fotografia, foi muitas para a França, né?, muita fotografia minha naquelas máquina, naquelas roda grande, eu saí muito. E quando foi...

P1 - Fotografavam assim?

R - Era assim. Eu saí muito e não ficava no Brasil. Ia para a França, né? A Rhodia era muito exigente porque nada era mostrado no Brasil não, o trabalho deles mostrado no Brasil não.

P1 - O trabalho que a senhora fazia aqui era exposto lá na França?

R - Não, tirava fotografia assim, do trabalho.

P1 - Eu sei, tirava fotografia mas para ir para a França.

R - Tudo para a França. É, porque o Brasil não via, né?

P1 - O próprio Brasil não via o trabalho do Brasil.

R - Não, não via. Você vê como a França é exigente, né? Não via mesmo. E quando, um dia, foram filmar, essa máquina, né?, que eu falei, eu não estava não. Então, tinha a supervisora que era meio escurinha, e tinha umas escurinha, né? Pois foi tirada todas as mais escura. Ficou só as mais clara. Porque tinha que ir para a França, né?

P1 - Olha só.

R - É. A frança não trabalha com gente.... lá a Rhodia deve ser tudo com gente clara, né, escuro não entra.

P1 - Que coisa.

R - É. Francês  é muito exigente. Não tem lugar mais exigente. Porque todas as fábricas, o pessoal entra, né, não tem nada que entre. A Rhodia não entrava gente fácil assim não. Entrar na embalagem, ninguém entrava, de fora não. ______________________o pessoal vendo pelos vidros. E avisaram, com máquina fotográfica não é para entrar ninguém.

P2 - A senhora pegou chefia francesa lá, não?

R - Não. Entrava muito francês lá, o presidente, mas os chefe, não tinha francês não.

P1 - Não tinha francês?

R - Não.

P1 - E desse tempo que a senhora entrou, quer dizer, de 72 a 92 a senhora sentiu que a coisa foi sendo facilitada, foi sendo mais fácil ou mais difícil trabalhar com o tempo lá na Rhodia?

R - Eu não estranhava nada, né, qualquer serviço que eu fosse fazer. Eu não estranhava. Para mim, o que eu achei mais difícil foi quando eu entrei lá. “Será que eu vou dar conta?”  Mas, depois, conforme os dia foram passando, a gente vai acostumando, né?

P1 - Mas eu digo assim, em relação a salário, a exigência de trabalho, chefia?

R - Não, pela exigência, eu sabia porque, quando eu fiz o cursinho no Senai, eles falaram que a gente, para ser trabalhador certo tem que chegar na hora certa, não falhar, fazer tudo para não incomodar ninguém. É verdade, o banheiro era pertinho, tinha um banheiro só, não tinha _____ ninguém. Se saísse eu ia só, os corredor a gente sabia andar só, não incomodava. E a pessoa tinha que chegar na hora certa, não pode estar atrasando, nem ficar saindo. Eu não ficava mesmo. Eu saía nas hora que tem que sair. Precisasse de ir na enfermaria, ia. Precisava até de passar em médico, passava. Depois, voltar para a seção. Agora, no fim, eu estava mais no fim, quando eu fiquei com o tendão ruim, que eu tirei chapa e o médico falou “Ih, isso aí só operando, está inflamado”, forçava muito a mão.

P1 - O tendão ficou ruim por conta do trabalho?

R - Foi. Foi por conta do trabalho. Aí, deram férias para mim. Eu fui no médico particular, o médico particular da clínica Luiz Pinto Flávio e ele disse “Olha, eu conheço o (Gezenei?). O (Gezenei?) era o médico-chefe lá, eu vou mandar uma carta para ele. Ele disse “Olha a Sancil, que era a nossa assistência de lá, né, no Hospital Santo André não tem especialista de mão não. E em hospital nenhum da Sancil não tem”. Eu disse “Então o senhor dá uma carta, porque o senhora pode fazer a minha operação”. O Dr. (Gezenei?) _______________ jeito é isso e a Sancil ajuda a pagar. Eles podia também fazer pelo INPS, mas só fazer no papel como _______________trabalho da fábrica foi feito. O Dr. Francisco fez, bateu, a enfermeira bateu, o Dr. Francisco assinou. Foi para o médico-chefe assinar, depois levei no INPS, assinou tudo e levei na clínica, fiz tudo lá na clínica.

P1 - Fez o tratamento lá?

R - Operou. Operou mesmo. Ainda tenho a marquinha aqui.

P1 - Então a senhora teve que tirar uma licença do trabalho?

R - Fiquei 27 dias. Porque o médico não deu antes, porque disse que tinha que fazer fisioterapia, fazer tudo. E disse “Olha, trabalhar sim, não para se matar”. Ele falou mais assim.

P1 - A senhora continuou trabalhando depois que descobriu que estava __________?

R - Não, eu não podia. Senti até o osso sair do lugar. A mão doía demais. Ficava trabalhando com uma mão só. Até que eu falei para o médico. “Deram férias?” “Deram”. “E agora para anular as férias, você gastou o dinheiro?” Eu disse “Não, o dinheiro está no banco do mesmo jeito. Pode pegar e anular as férias que eu prefiro até operar logo”. Porque doía demais minha mão. Aí eu aproveitei e fiquei só 27 dias, nem um mês completo. Ela pagaram, né, os 27 dias do INPS, fiquei no INPS. 15 dias a Rhodia dava, né, depois o resto era no INPS.

P1 - E aí a senhora operou?

R - Operei na clínica, Pinto Fláquer, é especialista de mão. Operação muito bem feita, né, porque a Sancil não tinha nada que prestasse não. Operava, com 15 dias mandava a pessoa para dentro da fábrica, né? A mão até inflamada ainda, como vi uma fazer isso. E disse “Não, assim eu não quero”.

P1 - Mas aí a senhora operou, teve que fazer fisioterapia?

R - Fisioterapia, depois, quando foi no dia eu voltei no médico, ele disse “Está bom, o dia de você começar a trabalhar já era hoje, mas eu justifico e segunda-feira você começa”. Comecei e disse “Olha, não adianta mandar eu correr, que eu não corro, viu?” Três meses depois eu tirei férias, três meses. Depois de três meses eu comecei a fazer a mesma coisa, a correr o serviço, né, mas antes, não. Não adianta querer “Ai, mas precisa de estojo”. “Não adianta eu vou trabalhar normal. Não vou me matar não. você pensa que eu vou me matar. Vou não boba, eu vejo tanta gente morrer aí dentro fazendo suas moleza aí? Não me mato nada.” Depois de três meses eu fiquei com a mão do mesmo jeito e aí comecei a fazer a mesma coisa, né?

P1 - E de todas essas passagens que a senhora teve, qual foi o serviço que a senhora mais gostou de fazer?

R - Sabe que eu não sei nem dizer, sabe? Eu só sei que eu gostava de todos, né, porque já estava acostumada. Quando eu saí, eu até senti. Eu até senti saudade do serviço, viu? Quando eu saí, eu até senti saudade. No fim, assim, teve uma repórter lá dentro, mas no fim, já estava quase mudando tudo para Santo Amaro. Só tinha o produto ginecológico para tampar, tinha piplan que era um remédio que a gente embalava também a mão, né? Eu sei que ela falou com a Nadir que queria pôr na revistinha da Rhodia. A Nadir falou “Você não se importa?” Eu disse, “Não”. Aí, ela foi lá um dia entrevistar. Ainda tem até a revistinha aí ainda.

P1 - Ah, quero ver depois.

R - Quer, né? Eu tenho essa revistinha. Aí ela foi, entrevistou, depois foi um dia tirar fotografia. Mas eu estava na mesa de Fenergan em bisnaga, né? Tirou fotografia e saiu na revistinha da Rhodia. Revistinha da cooperativa.

P1 - A senhora estava embalando Fenergan?

R - É, o fenergan.

P1 - Ah, quero ver depois.

R - A mesa estava cheia de gente, viu? Tinha bastante gente na mesa. Aí, quando começou a tirar fotografia, começamos a dar risadas, eu saí até dando risada na fotografia. [risos] eu saí dando risada. Eu sei que mandei até para Recife. Meu irmão mandou. Toda a família de longe queria a revista, queria me ver e eles me deram um pacote bem grande, né? Me deram um pacote grande de revistas e eu saí dando para todo mundo. E fiquei com uma. Ainda hoje eu tenho uma aí.

P1 - Ah, eu vou querer ver depois.

P2 - E a senhora saiu em que época nessa revista?

R - da Rhodia?

P2 - É.

R - Foi em 92.

P2 - Em 92?

R - A aposentadoria foi em 92, que saiu minha aposentadoria. Porque quando o Collor entrou atrasou tudo, não foi? Não ficou tudo fracassado? Pois a minha aposentadoria eu pus o papel e só saiu com nove meses, porque a Rhodia trabalhou muito né?

P1 - E por que a senhora aposentou? Por que chegou uma idade e teve que aposentar?

R - É. Cheguei na idade de aposentar.

P1 - Quantos anos que é para aposentar?

R - 60.

P1- Aí a senhora teve que se aposentar por idade?

R - Foi. Se eu não tivesse em idade de aposentar, eu tinha que trabalhar mais cinco, né, porque aposentou todos agora, porque o Fernando Henrique tirou a insalubridade, viu? Mas, aposentou bastante com 25 anos, agora na Rhodia, o ano passado. Bastante se aposentou com medo com essa história de tirar a aposentadoria do pessoal. E deixar só por idade, né? 35 anos de trabalho e 60 anos para os homens e 55  para as mulher, né? Mas ainda está nisso, ele ainda está querendo fazer essa reforma ainda, mas agora entrou uma bancada nova da oposição, eu acho que não vai ficar não, viu? Porque é muita coisa a pessoa trabalhar 35 anos e se não tiver 60 anos não aposenta, né? Isso aí é muito triste. Eu acho que se ano que vem, como falaram, ele pode fazer uma reforma esse ano, mas não vai adiantar não. Ano que vem vão mexer com tudo de novo, que os velho saiu tudo, nenhum foi eleito, né, os deputado mais velho que era tudo do lado mais dele. Entrou muita gente da oposição, do PT, outros partido ligado com o PT. Tudo é gente que é a favor dos trabalhador, né? Entrou gente até do sindicato para ser deputado federal, agora. Esse ano que vem vai entrar a bancada nova. Não vão aceitar isso. Olha, o marido dessa mulher que estava aqui, ele aposentou na Pirelli. Ele morreu, ia fazer 54 anos, estava aposentado. Se fosse esperar, ele tinha morrido sem aposentar, né? 

P1 - É mesmo.

R - Tem que aposentar com os ano de trabalho, não esperar. Com 35, não, tem que esperar ainda,  fazer 60 o homem. Você já pensou? Não pode.

P1 - É uma loucura.

R - É uma coisa errada. Agora, ele não pensa. E ele chegou ainda. Esse homem... não sei, né? Não sei o que o povo pensa, deixar esse homem lá em cima ainda, né? Porque o homem se aposentar antes dos 50 anos é vagabundo. Lembra que ele falou isso? Depois fica remendando a história, remendando a história, remendando.... e ele se aposentou dando aula, se aposentou com menos do que isso. E então?

P1 - E a senhora chegou a se aposentar pelo Instituto de Previdência da Rhodia?

R - Aposentei pela Rhodia integralmente. Minha aposentadoria é integral.

P1 - A senhora recebe integral o seu salário?

R - Integral, é. Agora, nosso salário está fracassado porque ele não dá aumento. Quando chega o tempo, ele não quer dar aumento que preste para a gente. Fernando Henrique estragou até a aposentadoria da gente. O salário mínimo ia completar os 130,00 e os outros tudo tiveram menos. Eu tive só 23 de aumento só. Não tem, a gente não tem aumento. O homem acabou com a nossa aposentadoria.

P1 - E a senhora se aposentou, saiu da Rhodia e o que a senhora foi fazer?

R - Aí eu fui cuidar em arrumar, pegava o dinheiro. O fundo eu fui aplicando. Nesse tempo estava dando mais aplicação, né?

P1 - A senhora estava morando com uma irmã, ainda?

R - Estava. Estava dando, a aplicação dava mais dinheiro, né? Diário, né? Cinco dias da semana, um cruzeiro todo dia, né? Dava bem aplicação. Eu apliquei quinze mil do fundo, ficou na Caixa mesmo, né? O Itaú não gostou, que o Itaú é que é da Rhodia, né? Mas a Caixa prendeu lá, abriu uma conta para a gente no fundão e deixou, né? [risos] Aí, a moça falou: “Não é puxando a sardinha não, mas a Caixa dá tem mais juros e é melhor do que em todos os banco”. Com dois meses, eu fui tirar para comprar aqui, tinha vinte e três milhões, mesmo, viu? Eu tirei, disse que era para fazer doc para o Itaú, eles fizeram e eu só não acabei de pagar aqui porque esse dono que me vendeu foi um sujo, digo logo assim. Deixou um bagaço, não tinha nada inteiro. A pia estava podre, quebrada, entupida. O lavatório aí, estava todo quebrado, tive que trocar. A parede toda cheia de pregos. Arrancando preguinho, arrancando preguinho, tive que mandar pintar, o homem passou a manhã toda tapando buraquinhos, sujam as paredes. Olha, não ficou nada perfeito, só o vidro e o piso. Eu tive que pagar tudo isso, comprar tinta, fazer crediário, comprar pedra, comprar gabinete, comprar lavatório. Diz que era o apartamento mais arrumado que tinha nesse prédio era esse, quando ele recebeu. Mas deixou no bagaço. Então, eu tive que trocar tudo. Até chave estava estragada, eu troquei as chaves, trocou tudo. Então, esse dinheiro, eu se tivesse aplicando, se não tivesse gastando com nada, se tivesse deixado inteirinho, eu tinha acabado de pagar na Caixa, viu? Não tinha dívida na Caixa hoje. Que ele refinanciou. Minha prestação aqui é mais cara de que todos desse prédio. Porque ele refinanciou. Refinanciou e só viveu quatros anos. Eu tenho seis já aqui. E ele só viveu quatro anos. Eu disse “esse ano eu vou lá na assistência judiciária, vê se (ela fala?)” Porque eu já escrevi para o Itamar ”. Eles “Ah, eu mandei para a Caixa”. Ela manda me chamar, “eu não tenho jeito, não tem jeito, o Seu Antônio tem que fazer o papel”. O seu Antônio não faz nada. Porque o Seu Antônio trabalha numa fábrica muito exigente, o dono né? Ele já falou que vendeu o apartamento e que não tem nada a ver com o apartamento mais, né? Se vier pedido da Caixa de papel para isso e papel para isso, ele vai ser mandado embora.  Eu não quero que ele seja mandado embora, não, eu não quero fazer mal para ninguém. Seu Antônio não faz nada. Agora, eu escrevi para o Itamar. “Ah, mandei para a Caixa”. Ah, Fernando Henrique? “Ah, a Caixa vai resolver, eu mandei para a Caixa.” Aí meu irmão falou “ah, tirou o corpo fora, né?” Para quem ele não resolve?

P2 - A senhora mandou carta para o presidente?

R - Mandei, ele mandou um telegrama para mim que mandou para a Caixa para resolver. Caixa não resolve nada. Ele tinha que chegar lá e dizer, “Abaixa a prestação. Não aumenta muito a prestação porque ela é aposentada”, né? Porque, na Caixa, não tiram o nome do homem, né? Não tira. Fica o nome dele na Caixa, né?

P1 - Está financiado _________________________

R - É. Fica, só se a gente refinanciar. E refinanciar não é interessante porque a prestação aumenta mais ainda. A maioria aqui, só essa que saiu daqui, que o marido foi do começo, ela ficou viúva, ela ganhou quitada, né, que estava no nome dele. E essa outra também, que entrou logo no começo, também foi do comecinho, estava no nome do marido dela. Mas o resto, tudo é no nome dos outro que está pagando e ninguém vai refinanciar não. Que ninguém é bobo, né? Porque é nosso. É nosso o apartamento. Vai no cartório, faz o contrato muito bem feito. Agora, se a gente pudesse quitar... eu já comprei carnê do baú, eu estou pagando. [risos] Estou fazendo tudo para ver se qualquer coisa eu ganho. Tem os sorteio...

P1 - Para ver _________ quitar

R - Se eu arrumando dez mil, diz que tem o desconto e quitar, né?

P1 - De que a senhora sente mais falta, se é que a senhora sente alguma falta, desde que a senhora saiu da Rhodia?

R - Não, até acostumei já, viu? Depois de seis anos já, né?

P1 - Mas logo que a senhora saiu, a senhora sentiu falta?

R - Aí eu sentia. Sentia falta, eu amanhecia o dia, acordava naquela hora. Nossa, eu senti muito quando eu saí, logo. Mas, agora, eu não estou sentindo mais não, eu já acostumei.

P1 - E como é o cotidiano da senhora, o que a senhora faz hoje?

R - Ah, hoje eu amanheço o dia, eu conservo o apartamento limpinho, conservo, passar pano, limpo os vidros, conservo limpinho para não me dar trabalho, eu ligo o rádio quando é de tarde e de noite tem a televisão para assistir o jornal, as coisas. Fico assim. Quando vem umas aqui, quando vou receber, porque meu sobrinho fala “Ah, tia, não recebe sozinha não”, porque já foi hein? Me puseram ____________geral do comércio. Agora, é outro nome, agora, esse banco da Senador fláquer. É noroeste agora.
Sabe que em dezembro eu fiquei sem dinheiro?

P1 - É mesmo?

R - Fiquei. Porque uma cara, eles pediram para atravessar. Quando chegou na porta do banco eu disse “Pronto, obrigado, viu, não precisa mais”. Porque o segurança não gosta que entre ninguém. Eu não sei o que estava acontecendo nesse dia, que a segurança viu essa mulher me acompanhar até na caixa e esse cara que me pagou contando dinheiro bem alto, assim, contando, contando, contando. Coisa que ele nunca fez na vida, né? Contava baixinho e depois me dava, né? Mas esse dia, não sei, podia ser até alguma coisa dele essa mulher. Quando ele pôs o dinheiro na minha mão, eu disse “Oh, só esse?” Tinha 13º e tudo, né?

P1 - A senhora falou só esse?

R - Falei, ele ficou calado lá dentro e a mulher “E é seu o dinheiro mesmo?” Depois eu me sentei lá para esperar as menina, minhas irmãs, ele chegou perto de mim, uns 10 minutos depois e disse “A mulher pegou, uns 800, puxou da mão e tirou”.  Eu disse “Ou, que moleza é essa também?” E as minhas irmãs chegaram e disseram “também, e não teve coragem de perguntar nem quem era?” eu disse, “Olha, não conheço essa mulher, cadê o segurança daqui?” No outro dia eu fui lá falar com o gerente. Ah, mas ele se defendeu. Ele me mandou ir na delegacia. Até me arrependi, fazer ocorrência, nem o delegado falou comigo, que ele primeiro se defendeu. Quando eu cheguei no INPS que eu falei, que eu queria que pusesse na minha conta no Itaú, fez carta dentro do Itaú, mas cadê que puseram? Não puseram nada. Aí, o INPS disse “Oh, ele tinha o direito de dar, viu? Porque tirou de dentro do banco, no caixa. Ela pegou da mão dele assim. Ele tinha o direito de dar.” Mas aí, o gerente falou “Ah, arruma advogado, é fácil, processo. Eu arrumo esse advogado aqui.” Eu disse “Não, pode ficar sossegado, não vou arrumar nada. Não vou poder com banco mesmo.” Ele está acreditando no que ele fala, então deixa lá. Deixa que eu fico sem o meu dinheiro mesmo.

P1 - Ele tirou o dinheiro?

R - Ela tirou da mão dele.

P1 - Ela tirou da mão dele?

R - Da mão dele, foi.

P1 - Que loucura. 

R - Foi, fiquei sem 13º, sem pagamento, sem nada. Sorte que eu tinha uma poupancinha e me arrumei com a minha poupança. E o Itaú fala que eu precisando eles põem o dinheiro que depois eu pago. Mas eu peguei a minha poupança, né?

P1 - Se virou com ela mesmo?

R - É. Me virei com a minha poupança. Aí, o meu sobrinho veio aqui cedo, “você não recebe sozinha não, viu? Tem que vir uma no dia de receber.” Agora estão vindo, né?

P1 - Vai uma irmã no dia de receber?

R - Vai junto. E agora, as minhas irmãs, sempre vem uma, vem duas, no dia de receber e depois eu vou no supermercado e faço a minha despesa. Mas não recebe sozinha não, porque ninguém gosta de receber só. Até essa viúva aí chama uma pessoa para ir com ela, uma família, uma pessoa para ir com ela, porque não gosta de receber só. “Não, não recebe só não, que não é bom.”

P1 - Voltando um pouco atrás, desde esse tempo que a senhora começou a me contar a história, que a senhora veio de Pernambuco para Santos, de Santos para São Paulo, para a Rhodia, tem alguma coisa que a senhora faria diferente, que a senhora se arrepende? Ou se arrepende de alguma coisa que fez na vida?

R - Não. eu acho que tudo o que eu fiz foi bom.

P1 - Se a senhora pudesse mudar alguma coisa nessa trajetória de vida, a senhora mudaria?

R - Não. eu acho que tudo foi bom, porque eu vim, _______________ sempre ele passava uma semana viajando, né? Era uma semana de viagem. Era Ribeirão Pires que nós morava. Quando eu cheguei, eu fui atrás de procurar escola. Sem a escola não podia arrumar nada, né? Fui para a escola. Depois da escola, chegou o tempo de sair tinha de sair mesmo, saí, fui para São Paulo, para a empresa. Fiquei indo lá na imprensa para fazer esse cursinho de andar em São Paulo. Fiz em São Paulo mesmo. Depois eles ligaram para mim “Olha, as Clínicas estão dando estágio, faz tão depressa esse curso”. Fui para o Hospital das Clínica mesmo. Fui lá com as professora de estágio. E fui mesmo, um mês e meio elas falou que estava bem, eu já podia andar para todo lugar que eu quisesse andar.

P2 - Tinha um curso para ensinar a andar em São Paulo?

R - É. Andar em São Paulo e em todo lugar, que eu ando só, né?

P1 - E como era esse curso?

R - Um cursinho com a bengala, né? Elas fazem, tampa a vista e fazem esse curso para poder ensinar, né? Elas saem na rua, pedem para atravessar a rua, as professora, né?  Depois elas pode ensinar. Elas pode porque primeiro elas fazem.

P1 - Elas ensinam as (manhas?) assim, de como atravessar?

R - De como atravessar, não atravesse, pede a uma pessoa. Procura segurar no braço da pessoa, né?

P1 - E para se direcionar, assim, saber o lugar certo?

R - Eu só saio com endereço certo para onde eu vou. Eu não vou.

P1 - Vai perguntando.

R - Pergunta, é. Tem lugar que a gente até aprende. Eu vou aqui no bairro jardins, na Clínica Ana Rosa, eu já estou tão acostumada, em frente aquele colégio atravesso, depois atravesso em frente a Ana Rosa e até nem pergunto muito mais.

P1 - Já sabe.

R - Já. Muito acostumada a andar aqui em Santo André. Agora, quando tem os encontro de carismático, né, do grupo de oração, a Duque de Caxias, eu já fui duas vezes lá passar o dia lá na Duque de Caxias que tem gente de São Bernardo, de todo lugar, né?, esses grupo de oração dos carismático. E no ________ Daniel também já passei dia, dois dia que eu passo lá também.

P1 - Da renovação carismática?

R - Da renovação carismática, é. E eu vou em São Bernardo, também. Porque têm de tarde e tem de noite na terça-feira. E de tarde é na segunda, que tem de tarde. E quando eu posso eu vou na segunda de tarde. Das duas às quatro.  Porque aqui, na Carijós, o padre e a comunidade não aceita, né? Toda igreja tem, menos nessa igreja aqui.

P1 - Desde pequena a senhora tem formação religiosa?

R - desde pequena. A fotografia da primeira comunhão, eu estava com 13 anos.

P1 - Bonita, eu vi aqui em cima.

R - Usava tudo assim, grinalda, vestido comprido.

P1 - Bonita a roupa.

R - É. Teve catecismo e tudo e fiz primeira comunhão.

P1 - E alguma formação política assim?

R - Política, eu tenho o meu partido sim. Eu tenho. Eu assisto horário político. Eu sou do PT. Eu voto no Pt. Minha folha foi toda de gente do PT. Só 13. Agora é que eu vou votar diferente porque, infelizmente, só ficou dois que eu não tinha vontade. [risos] Eu não queria nenhum dos dois, mas em toda miséria em voto no Mário Covas. Não quero Maluf. Não voto em Maluf. Agora, diz que foram preso uns estudantes porque estavam fazendo muita crítica de Maluf, né?, porque a juventude não gosta do Maluf, minha gente. A juventude não quer saber do Maluf. É o PT. A juventude está tudo para o lado do PT. Mas o PT vai votar tudo em Mário Covas, né? PT e muitos partido vai votar em Mário Covas. Eu acho que o Mário covas vai ganhar.

P1 - Dona Tereza, deixa eu perguntar para a senhora, qual é o seu maior sonho?

R - Meu sonho é quitar isso aqui, acabar de pagar, viu? Para pintar, olha está precisando, fora. Isso dá para roubar. É um caso sério. Teve um que roubou, roubou, acabou, __________________ na Eletropaulo, 28 mil, deixou tudo no escuro. [risos] A gente teve que reunir, pagar a água senão eles iam cortar a água....

P1 - Roubou, o quê, o síndico roubou?

R - Sim, fez casa para ele, fez toda a vida dele lá fora. Entra outra analfabeta aí, que é quase alfabetizada, fica aí meio combinando com meia dúzia de gente e aumentando o condomínio. Eu fui lá no Procon, na assistência judiciária, conversei com a advogada. Não posso com uma coisa dessa. Olha, um prédio maltratado, porque minha parede está descascada ali porque fizeram reforma fora. Você fazer uma reforma bem feita aqui dentro, é caro o que eu vou pagar. Para segurar a tinta, a parede do quarto está estragada. Mas tem que ser uma pintura bem feita, um trabalho bem feito aí dentro para segurar, porque fora precisa pintura, né? Esse prédio está aí tudo sem pintar. Os outro estão tudo pintado bonitinho, os condomínios daí, os primeiro por aí, está tudo bonitinho, né?, mas esses aqui não, são os que não são pintado ainda. Cadê? 76. Eu fui lá, levei o que eu pago de prestação, levei quanto eu ganho e falei “Veja só, se eu posso com uma coisa dessa. Eu não posso.” Ela não quer saber se a gente passa necessidade ou não passa. Se não for trabalhar _________________ necessidade. De jeito nenhum. Um já roubou. Um paga a dívida dele, paga a dívida dele, paga a dívida da Eletropaulo, foi pagar em 10 meses, pagou conta de água que o cara deixou devendo. A gente teve que pagar senão cortava a água do prédio. Até agora não entrou ninguém que prestasse para ser síndico, né? Inventaram uma história de comissão, “Vamos fazer cota”. Essa porta de alumínio.
Deixaram o carro lá fora?

P1 – Deixamos.

R - Podia ter deixado na minha garagem aqui dentro. Ter falado comigo e ter deixado aqui na minha garagem. Apesar que lá não tem perigo. Ele está ali na porta, a gente está vendo, né?

P1 - Está, não tem problema?

R - É, não tem perigo, mas não tinha nada se entrasse na minha garagem, não. eu tenho a garagem desocupada. Mas inventaram os crachá e disseram, “Entrem com seus crachá”. E mandaram os guarda pirraçar até quem mora aqui dentro. Não é todo mundo que obedece não, né? Tem um daqui do 31 que é um cara doido do jeito que é. Falou assim, “Não abre não?”[risos] O guarda disse “Não”. “Não abre?” “Não.” [risos] Aí, meteu o carro em cima da porta, passou por cima, amassou. Aí vem um, metido a comissão “Poxa, você vai pagar a porta, você fez aquilo lá. Vou guinchar seu...”  “Guinche. Quero ver, duvido você guinchar meu carro, porque você não é mais do que eu. (Fim do lado A) Você paga prestação do jeito que eu pago. Você é igual a mim, aqui viu? Guinche meu carro.”  Aí eles trouxe polícia, tinha posto polícia de bico aqui. Ele disse, “Não. Vocês não. Não estão em função, não pega meu documento. Tem que chamar a viatura.”  Aí veio a viatura fazer a ocorrência. Ele disse para a polícia “Você o que acha? Eu moro aqui dentro esses ano todo, agora o guarda quer prender, não entra porque eu não estou com crachá para ele ver. Não está vendo a minha cara, não sabe que eu sou daqui?” A polícia falou “Está certo, tem razão o Rocha”. Aí fez a ocorrência e disse, “Agora vocês se vire, o condomínio é de vocês mesmo”.  Foi embora, né? No outro dia ele falou com a síndica e a síndica “É, tem razão, né?” Porque não pode mandar o guarda pirraçar para a pessoa que mora dentro, né?

P1 - Claro.

R - É. Pode dizer assim “Ponha o crachá visível, ponha o crachá”. Agora, está aí à porta. Arrumou, mas ela não está bem garantida não. De vez em quando estão arrumando. Só gastaram com porta atoa. Pintasse os prédio, deixasse os prédio arrumado.

P1 - Claro.

R - É. Porque os outro, está tudo com a mesma porta. A porta era de controle, mudou a porta de pedestre para o outro lado, ficou mais difícil para mim. Eu disse “Eu não passo por ali. está mais complicado para mim. Eu vou, passar aí, se não tiver guarda nessa hora, eu tenho o meu controle, eu abro. Mas eu não passo naquela de pedestre, do outro lado não.”

P1 - A senhora tocou nesse assunto, me lembra uma coisa que eu esqueci de perguntar da Rhodia. A senhora entrou, arrumou  emprego porque a Rhodia tinha vagas para deficientes visuais?

R - Não. O Senai tinha curso preparado. Eles entravam, viam o serviço, trabalhava lá dentro. Com ordem do convênio, o convênio deu ordem para eles.

P1 - Eles tinham um convênio com a Rhodia.

R - Não. Convênio do Estado, né?, deu ordem para esse Senai entrar nas fábrica.

P1 - Ah, entendi.

R - Se tivesse serviço que dá para fazer, eles pediam vaga. Isso foi ordem do convênio, né?

P1 - Mas era uma lei, então?

R - Era lei. Era. Era lei do Estado mesmo, estadual. Porque o Senai entrava e via o serviço, até trabalhava. Passou a tarde trabalhando na Rhodia, lá. Eles passaram lá e pediram vaga. Pediram que quando tivesse vaga era para falar, né? Então, avisaram. Quando avisaram, eles lembrou de mim, porque eu estava esperando há dois anos, né?, serviço nessa linha.

P1 - Aí, a Rhodia abriu duas vagas.

R - Deu duas. Mas tinha o cosmético e arrumou mais duas, né? Então, entrou em quatro.

P1 - E para a divisão farmacêutica foi a senhora e mais uma?

R - Uma, que morava aqui.

P1 - Quem era, a senhora lembra?

R - Essa Rosalina, essa casou. Só trabalhou só um ano. Ela casou. Colega do Instituto Padre Chico, porque lá tinha homem. Só que não era junto. No dia de festa se juntava e ela arrumou lá esse casamento. Sei que ela já era noiva e disse “Vou trabalhar só um ano, ano que vem eu vou sair para me casar.”

P1 - Ah, casou e saiu.

R - Saiu, é?

P1 - E a Rhodia tinha assim alguma adaptação, como era? O banheiro era igual, tinha banheiro diferente, como era?

R - Não, o banheiro era a mesma coisa, era igualzinho. Era a mesma coisa.

P1 - Não tinha nada adaptado para quem tinha deficiência visual?

R - Não, tudo a mesma coisa. Porque o banheiro a gente usa, o banheiro de casa, é a mesma coisa, né? Então o banheiro é assim, saía no corredor, andou um pedacinho estava no banheiro grande, né?, cheio de box. Não tinha atrapalhação nenhuma, era um corredor e tudo dentro, né?

P2 - E o preconceito, Dona Tereza, algum?

R - Não... Não tinha não... Porque não andava na ruazinha, para restaurante, para assim, porque a chefia não queria, né? Porque entrava caminhão, entrava muito carro. E elas não aceitava que a gente andasse só para ir no banco, para ir na enfermaria. Não houve a ordem da chefia não, para isso. Tinha que ser com uma pessoa. Tinha que ir com uma pessoa. Porque entrava muito caminhão, muito carro, né? Eles não queria que andasse só dentro daquela ruazinha dentro da Rhodia, né?

P1 - E tinha funcionário com algum outro tipo de deficiência, sem ser visual?

R - Não. Quando eu entrei, tinha um que era mudo, né? Mas era no almoxarifado. Na Valisére tinha duas muda que trabalhava, né?...

P1 - Sei.

R - Costurava. Elas trabalhavam na costura. Mas lá na Rhodia, não tinha.

P2 - A senhora comentou do tendão, era um problema comum. As várias embaladoras tiveram isso.

R - Teve sim.  Teve sim, outras teve também, que operou. Mas operou no Hospital Santo André. O meu foi difícil, porque com 15 dias manda para lá para dentro, a gente vai fazer fisioterapia lá para dentro. Tudo é feito lá dentro mesmo na enfermaria. Não é como o meu. O meu ficou muito bem feito, né? Quando eu entrei lá, estava boa. E muitas entravam com a mão até inflamada, ia para a enfermaria fazer curativo.

P1 - Porque é um trabalho repetitivo, né?

R - É forçado.

P1 - Forçava muito a mão.

R - Forçava muito. Eu pegava de monte de caixinha assim, para dar conta. Tinha serviço que era _________________ não tive tempo nem de respirar fundo, viu?

P1 - Você perde até as contas de quantas processava por dia?

R - Não sabe, a gente não dá conta.

P1 - Não dá para saber?

R - Não dá para saber. Porque, quando a minha mãe... olha estava tudo mal acostumado ali, ________________ reserva e as encarregada de mesa eram mal acostumada. Quando foi de tarde, minha mãe estava internada no Hospital Brasil, estava bem mal, né? Foi três hora, eu disse “Oh que vontade de ligar para o Hospital Brasil”. Aí, falaram, uma que estava em cima, estava na ginecológica, né?, fazendo caixinha lá que era corrida essa linha.

P1 - Como  era essa caixinha do...

R - Já era maior. Porque elas punha bula, descia para elas pôr o aplicador.

P1 - Tinha que pôr o aplicador na caixinha?

R - Na caixinha. A bula, o aplicador, tudo lá. Descia mais para baixo para colocar o aplicador e outras punha na caixa. No começo era pacote, depois acabou o pacote e punha na caixa. E fazia caixinha, fazia caixinha, era muito corrido, né? Eu disse “Oh, que vontade de ligar para o Hospital Brasil, saber da minha mãe, como é que está”. Aí, uma respondeu, que estava na máquina em cima, falou “Ah, nem monitora de mesa, nem reserva, está”. Eu disse, “Émuita moleza aqui, viu?” quer dizer que eu não podia sair, porque não tinha nenhuma. De tarde, foram me buscar, que ela tinha falecido, né?

P1 - Foram buscar a senhora na Rhodia?

R - Não, na saída já. Na saída.

P1 - E a senhora queria sair de manhã, mas não podia?

R - Não, eu queria ligar, às três horas, que foi a hora que ela faleceu, o desespero lá, porque ela estava em quarto particular, estava quase toda a família lá, né? E, ficaram ligando para um e para outro. Mas para mim, quer dizer que não ligaram, porque iam me buscar mesmo, né? Quando foram, eu disse, “Para que não me avisaram mais cedo, não ligaram para mim?” E eu, três hora, parece que eu senti o desespero que estava lá, uma chorava, outra saía. O desespero que estava lá no quarto que estavam com ela, eu disse, “Oh que vontade de ligar para o Hospital Brasil”, mas não tem nem reserva nem chefe de mesa. Ia tudo fumar, né?, ia dar total, ia fumar, ficava bem sossegada, né?

P1 - E aí a senhora não pôde ligar?

R - Não pude.

P1 - Tem  alguma coisa assim que a gente tenha conversado, ou que a gente não tocou no assunto e que a senhora gostaria de lembrar, sobre esse tempo da Rhodia?

R - Não. Tinha também a Semana da Cipat, né? A Cipa começava e tinha palestra. Todo ano tinha palestra de alguma coisa. Era de álcool, de fumo, sempre tinha palestra. Tinha lembrancinha. Aí começaram a fazer comédia. E se quisesse fazer poesia, podia. Eu disse assim “Ah, eu vou fazer poesia”. Dois anos eu fiz poesia. E outros que fizeram lá, fizeram como historinha, não foi poesia mesmo e na hora ficaram nervoso. Quer dizer que dois ano eu tirei primeiro lugar. Ganhei um cartão de prata no último ano.

P1 - No concurso promovido pela Cipat?

R - Pela Cipat, foi. Ganhei um cartão de prata e ganhei uma bandeijinha lá de outra coisa e um relojinho paraguaio, que eu tirei primeiro lugar, né? O cartão de prata era para quem saísse em primeiro lugar. Na poesia eu tirei primeiro lugar e ganhei. Eu tenho o cartão de prata aí.

P1 - E a senhora tem guardada essa poesia?

R - Tenho. Não a poesia, não guardei não.

P1 - Mas o cartão de prata, guardou, né?

R - De prata, eu tenho.

P2 - Mas a senhora sabe a poesia de cor, não sabe?

R - Sei nada, eu não sei se eu tenho o papel aí. Eu ainda vou procurar para copiar essa poesia, viu?

P1 - Ah, vê se a senhora acha.

P2 - Nem um refrãozinho a senhora não lembra, nada? Nem um trechinho?

R - Aquele operário, quantos anos trabalhou. É um operário desiludido, porque depois que ele se acidentou, ele ficou desiludido da vida, né? Essa poesia era bonita, né?

P1 - O título era “O operário desiludido”?

R - Desiludido. O nome da poesia ficou isso.

P1 - Mas não lembra nem um trechinho?

R -  É aquele operário, quantos anos trabalhou. Eu vou procurar ainda.

P1 - Ah, continua falando, que eu acho que a senhora está lembrando.

R - É. Eu vou procurar, que depois eu copio de novo, passo a limpo. Porque eu já lembrei, eu vou procurar esse papel, se eu ainda tenho esse papel na minhas gaveta, que eu tenho muito papel aí. Eu vou procurar esse papel dessa poesia para copiar, para ter ela.

P1 - Dois anos seguidos a senhora

R - Dois anos eu fiz poesia.

P1 - E o outro ano, qual era a poesia da senhora?

R - O valor da vida. Que a gente deve ter cuidado, não deixar, não trabalhar de todo jeito, ter muito cuidado, ter muita atenção no trabalho para não se machucar, que tudo a gente nada quer perder do nosso órgão, né? Nada, que tudo faz falta. Então, isso, o valor da vida, eles falaram isso aí é o valor da vida, né? Era só assim, dando valor para os órgão que a gente tem, que a gente não quer machucar nada nem perder, né? E ficou uma poesia bonita também, né? ... era, pegava a poesia e trocava só as letra, né, as palavra, né? E lá, eles que fazia, eles fazia como historinha. E no fim, eles lia depressa. Quando foi o outro “Ah, eu sempre perco de você”. eu disse, “Você lê muito depressa. Lê devagar. Mas deixa, que ele não fazia poesia. Ele fazia historinha. ______________uma japonesa que estava fazendo estágio, ela fez uma mas não era poesia, era história também, né? Poesia era só a minha, que eu tirava das poesia, mesmo.

P1 - A senhora lia poesia

R - E a gente ia trocando as palavra, né? Trocando as palavra, né? Pondo para negócio de acidente, os cuidado, os cuidado que a gente tem que ter, até em atravessar a rua, em tudo, em tudo. Fazia como a poesia, né? Era poesia, poesia de proteção, né? Da Cipa. Esse dia da festinha que faziam, faziam comédia, se machucava, outro ia para a enfermaria, vinha todo remendado, depois caía no chão, ficava lá. Era uma comédia mesmo, essa poesia. Depois fazia aqueles coralzinho, cantava, né? Cantava também, fazia coral de cantar. Tudo musiquinha de acidente, né?

P1 - Sei.

R - Tudo de acidente. Mas fazia. A tarde todinha ninguém trabalhava mais. Só era a festinha que a gente fazia. E tinha muita palestra neste dia. De álcool, de tudo sempre tinha palestra, participavam de palestra.

P1 - Sobre acidente de trabalho?

R - Sobre acidente de trabalho, para a pessoa se proteger, né?

P1 - E para encerrar, assim, o que a senhora achou de ter dado esse depoimento para a gente?

R - É bom a gente lembrar, né, do passado, né? O passado, é muito bom lembrar.

P1 - Bom, eu gostei muito do depoimento, eu gostaria de agradecer a senhora. Foi uma experiência super boa ter conversado com a senhora. Obrigada.

P2 - É, obrigado.

R - Também agradeço a visita, obrigado também. Agora, depois eu vou pegar a revistinha, você vê e revistinha. Vou pegar.

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