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Histórias na Vitrola

História de: Luciana Franklin de Andrade Gonçalves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/01/2013

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Eu conheci minhas avós, mas não os meus avôs. Da minha avó paterna, que morreu quando eu tinha oito anos, eu lembro que minha mãe tinha trancado a gente em casa pra ir trabalhar e essa avó tinha ido nos visitar, levar uma vitrola de presente, e ela deu a vitrola pra gente pelo vitrô. Era uma vitrola marrom em que a gente ouvia aquelas historinhas nos discos coloridos. A minha mãe era assistente social e meu pai fazia pesquisa de mercado. Eles gostavam muito de acampar, então a gente viajava muito acampando. Uma das coisas mais marcantes era que eles trabalhavam fora o dia inteiro, então a gente sentia falta. Mas, por outro lado, eles eram bem humorados, tinha os acampamentos, o meu pai gostava de cozinhar. Ele tinha um amigo japonês, um armênio e ele, como carioca, se juntava com os amigos para fazer comidas temáticas; almoços que duravam o dia inteiro. Então a minha família eram os filhos desses amigos. Eu lembro uma vez que esse amigo armênio dele chegou em casa e a comida estava atrasada, como sempre, porque a proposta era ficar junto com as pessoas durante o dia. E nessas uma vez ele chegou em casa e experimentou a comida e falou que estava ótima, mas sem saber ele tinha experimentado a comida do cachorro! Eu tenho um apelido, que é Yu, porque quando eu era pequena tinha uma música do Laércio de Freitas que minha mãe cantava para mim e que ela não sabia direito a letra e ficava cantando “yuyuyu”, e assim ficou. Como há muitas lucianas na minha geração, ficou algo que me diferencia. A região que eu nasci, perto da USP, era periferia quando eu era pequena. Era tudo de terra, uma rua fechada em que a gente brincava muito. A gente fazia guerra de mamona, por exemplo. Com uns anos aconteceu o primeiro assalto, e eu ainda lembro desse primeiro assalto. Então era uma infância com bastante liberdade, muita brincadeira e vivência nas ruas. E a minha casa, que era pequena, tinha um quintal grande com abacateiro, ameixeira, cachorros. Eu morei na mesma rua dos quatorze aos trinto e oito, até sair de casa. A minha mãe ainda mora lá; está lá ainda o abacateiro, a ameixeira, as árvores todas. Meu pai sempre foi muito aventureiro. Ele nos obrigava a tomar banho de água gelada, a ir tomar leite tirado na hora. Lembro uma vez que a gente acampou e encheu muito o camping e resolvemos mudar, então fizemos uma mudança com a barraca armada, mudando de lugar, passando pelas pessoas. Lá na escola de Aplicação da USP, onde eu estudei, tinha algo próximo dessas aventuras. A gente tinha uma competição de tirar o mato do jardim; quem tirasse mais ganhava a competição. Certo dia eu descobri que quem estava sempre em primeiro lugar estava guardando mato velho escondido para aumentar a soma. Lembro de me sentir injustiçada. Uma vez nessa escola também eu fui sorteada para ser noiva da quadrilha da escola, mas acabei chegando atrasada. A noiva não foi, não teve casamento! Eu não lembro de ter um sonho quando eu era pequena. Uma vez a minha tia me perguntou o que eu queria ser e eu falei que queria ser emprega doméstica. Minha mãe achou que era dona de casa o que eu estava falando, mas não, era empregada doméstica. Não imaginava mais nada. Ainda hoje eu não sei qual seria o sonho que eu preciso cumprir pra ser feliz. Meu sonho seria continuar aproveitando a vida e as pessoas.

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