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Histórias do Zé Dica

História de: José Rafael Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/03/2020

Sinopse

José Rafael Neto, o Zé da Dica, é um mineiro que conta histórias que parecem saídas de um romance de realismo fantástico. Em seu depoimento relembra as dificuldades do pai para sustentar a grande família. Conta como um dos irmãos morreu queimado na infância e como começou a trabalhar muito cedo para outros fazendeiros para ajudar o pai a sustentar a casa. Fala como começou a beber e as dificuldades que teve para parar. Relembrou o ferimento que teve no calcanhar que se alastrou para a perna, dificultando o seu caminhar. Seu pai era benzedor e seu irmão Miguel também.

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História completa

Meus pais, Valdemar José Ribeiro e Raimunda Margarida Ribeiro, Dona Dica.  Chama Mata o terreno que eles moraram. Papai veio pra cá era um rapazinho pequeno. Ele veio com oito irmãos. Nós somos onze irmãos: Geraldo José Ribeiro, Altair, Osmário, Miguel e eu, Júlia Margarida Ribeiro, Angelina Margarida Ribeiro, Maria Isabel Ribeiro, Marinda. Eu pegava o meu serviço, o outro pegava o servicinho dele e fazia. Meu serviço era montar pé de criação. A gente começava bem pequeno. Com cinco, seis anos a mãe e meu pai já botavam pra trabalhar. As meninas cuidavam dos menores. A minha mãe e o meu pai saiam todo dia pra trabalhar pra fora pra trazer o pão de cada dia. Trabalhavam tirando quadro para os outros, o meu pai roçava pasto, sempre foi de lavoura, saía de madrugada e ia tirar quadro para os outros nas roças. Cada quadrinho eram dois negos que tinha que dar enxadada adoidada o dia inteiro pra acabar com aquele capim. Dos meus irmãos tenho quatro mortos: dois meninos e duas moças. Uma morreu pequena, a outra morreu agora há pouco tempo. Morreram três pequenos. O Altair que era mais velho que eu. Ele morreu queimado. Eles dizem que ele estava sentado em roda de fogo e o fogo pegou na roupa dele. Aí até que eles deixaram pra acudir ele, já tinha tomado tudo. Eu também era pequeno, não tenho recordação, não cheguei a conhecer ele não. A gente jogava a dinheiro. Nós trabalhávamos na semana pra gastar no domingo. Fazia um biscate pra um, outro biscate pra outro, dava pra gente umas pratinhas aí a gente ficava alegre. Vão gastar no domingo aí. Tinha dia que a gente ia pra lá com dois tostões, levava quatro pra casa. E tinha vezes que a gente levava quatro e voltava sem nada (risos). Depois eu fui trabalhar num emprego, ia pra um lado e pra outro, quando eu comecei a namorar eu já tava bem grande, mais de uns 16, 17 anos, por aí. Tinha que namorar escondido dos pais porque se eles vissem, o pai da moça chegava o relho na gente. Papai era benzedeiro dos bons. Saía gente de longe pra vir na casa dele. Sabia benzer chuva, às vezes tinha uma chuva braba lá, ele rezava e a chuva ia chover em outro lugar. Tirava ofendido de cobra, cascavel agarrava a pessoa, pegava e benzia a pessoa lá e tava são. Nós nunca tivemos terra não. Sempre trabalhando para os outros. Eu estudei acho que uns três anos, eu devo ter estudado uns quatro dias. De tarde eu chegava em casa já tinha outro proprietário chamando lá pra me empregar, papai logo mandava eu pro emprego. Ficava às vezes quatro, cinco anos num emprego aí, saía dali, tornava a voltar pra escola, mas um dia ou dois, chegava lá já tinha outro lá, eu ia de volta. Fazia de tudo: tirar de leite, juntar vaca, tratar de vaca, porco, bezerro, levar leite no ponto, trazer, chuva e mais chuva, um pasto que era um puro de perigo, descalço, tinha que trabalhar molhado o dia inteirinho. Almoçava era de tardinha, duas horas da tarde. De noite é que a gente tinha que trocar a roupa, durante o dia não tinha disso não. Trabalhava molhado o dia inteirinho. O meu pai pegava o dinheiro, se o mês ia vencer depois de amanhã, hoje ele ia lá e catava o dinheirinho tudo. Aí chegava lá, esperava o dia amanhecer, a turma já ia cortar o mourão. Lá era meses e mais meses cortando mourão de candeia. Ficava lá direto. Quando o dia vinha clareando, cada um com um machado na mão cortando mourão de candeia, outro juntando pra amontoar aquilo tudo num lugar. Nós fomos pra Ibitipoca na casa de um cunhado do meu pai. A gente tinha que travessar no ribeirão e lá tinha uma laje de pedra que atravessa o ribeirão de um lado pra outro, e pra baixo tem um funil que a água bate e vai rodando assim. Me espetou uma pedra no calcanhar. Estava descalço, naquela época a gente não andava calçado não. Passei a mão, tirei aquela pedrinha, atirei para o chão e vim embora. Isso foi domingo. Na quarta já não conseguia andar direito. Meu pai afiou um canivete e foi cortar aquele lugar onde espetou aquela pedra. Eu não tinha inchação no pé, não tinha nada. Tava só aquele buraco da pedra. Só a dor onde a pedra fincou. Ele só passou o canivete assim e tirou aquela pelinha e saiu um óleo amarelinho. Ali naquele lugar já não doeu, mas um calor foi subindo e veio pra perna arriba. Aí lá embaixo parou, começou doendo no quadril, a perna já foi encolhendo e eu fiquei lá paralítico, fiquei seis meses em cima de uma cama. Aí todo lugar que ele ia buscar remédio, os curandeiros achavam que era feitiço de uma madrinha minha. Ele benzeu, mas a benzeção dele não funcionou não. Aquele osso parece que foi enfraquecendo, foi dando aquele pus dentro do osso e o osso foi enfraquecendo, e eu andando e fazendo aqueles buracos no osso e vazando na pele pra fora. Aí ia saindo aqueles pedaços de osso furadinho. A perna doía dia e noite, até aquela carne ir dissolvendo e botar aquele pus pra fora com roxo e com tudo. Eu consegui andar escorado com um pau. Estive internado 90 dias na Santa Casa. Aí tomando aquelas injeções, passando aqueles remédios, secou aquele pus. Quando fez oito dias que eu cheguei em casa, aquilo voltou tudo de novo. Aquela fresta abriu tudo de novo, saindo aqueles pedaços de osso, aquele pus que saia, e aquilo ia pingando de lado. Saindo aqueles pedaços, aquelas lasquinhas de osso. E eu estava trabalhando, de um lado e para o outro. Aí eu já não estava andando escorado mais não, aí eu já estava andando igual eu ando agora. O último pedaço de osso que saiu foi um dente de panela. O dente de panela tem três dentes. A fresta era pequena e ele era grossinho, aí veio, aquelas três raízes dele não saia. Peguei naquela pontinha de osso assim, puxei aquilo com tudo. Fui arrancando pé, a carne, com osso, com sangue, saiu aquela sangueira, mas arranquei ele. Sarou. A perna sarou a fístula. Nunca mais purgou. A purgação era aquele dente de panela que tinha dentro do osso. Agora onde já se viu, espetada de uma pedra virar dente? Tenta entender, se eu pisei foi numa pedra, como é que depois pode sair aquele dente de panela de dentro da perna? A perna já tinha encolhido, ela continuou encolhida. Só sarou a fístula. Tem vezes que a perna dói aí eu lembro de todo o trajeto que eu passei na vida. Eu pensei que nunca mais eu ia poder andar pra lado nenhum. É uma macumba muito forte. Porque essa que botava essa porcaria em mim era a minha madrinha. Eu estive morando com eles cinco anos e tantos, quase sete anos. Eu fui empregado deles. Eu fiquei sabendo porque aí depois todo mundo que ia buscar remédio pra mim, eles falavam que era ela. Quando eu vi a Quita, meu anjo de guarda se deu com o anjo de guarda dela. E ela ficou assim meio cabreira comigo, eu falei "ah, é essa aí". Aí eu conversei, fui conversando com ela, nós fomos uns 10 anos namorando. Aí depois perdi a vergonha, comecei a ir na casa dela a hora que eu queria, tornava a vir embora, ela morava lá em cima mesmo. A família dela também não queria que ela me namorasse de jeito nenhum, só porque eu bebia pinga. "Vai namorar um cachaceiro, não vai dar certo”. O Miguel ele não trabalha só com o espírito do papai não. Ele trabalha com o espírito do Valtinho, um daqui da Laranjeira também, o maior benzedor, aprendeu com os pais todos lá de Barbacena. Faz a reza e chama os guias.

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