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Histórias do Quilombo do Mandira

História de: Francisco de Sales Coutinho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/02/2013

Sinopse

Francisco conta a origem e a história do Quilombo do Mandira, localizado no município de Cananéia, em São Paulo. Fala sobre a venda dos territórios, consequência das dificuldades que a comunidade enfrentou na década de 1970, e como isso impactou a vida da população. Relembra as festas e tradições e conta como é a vida no Mandira. Relata a história de luta da comunidade em busca da titulação da terra. 

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História completa

Entrevista editada por Danilo Eiji Francisco Sales Coutinho – Chico Mandira Eu conheço um pouco da história da minha família, não cem por cento, mas acredito que oitenta por cento. Aqui no Mandira a gente começa a história a partir 1868. Aqui era uma fazenda de produção de arroz e o dono, Antônio Florenço de Andrade, tinha escravos que trabalhavam para ele. Naquela época ele teve um filho com uma escrava, ao qual foi dado o nome de Francisco Vicente. Na verdade ele tinha três filhos, dois filhos e uma filha, eu acabei de saber isso esses dias, eu sabia só da filha dele, agora, na semana passada, acabamos descobrindo que ele tinha dois filhos. Antônio Florenço faleceu e os filhos quiseram ir embora, então, a história do Mandira conta de 1868 para cá, mas já existia a fazenda do Mandira, a fazenda de arroz. Mandira é o sitio e a comunidade tem o mesmo nome do sítio. Não sabemos o seu significado, a gente nunca descobriu o porquê. Há uma história de Cananéia sobre um dilúvio, dilúvio do Mandira. Em um livro de história sobre Cananéia, de 1615, já cita o dilúvio, então Mandira é um nome muito antigo, e o porquê não tem. Não tenho noção de qual seja a origem do nome. Contam que nesse dilúvio - faz muito tempo que aconteceu - muita água desceu da serra e foi levando tudo para o mar, então ficou conhecido como dilúvio do Mandira, uma cheia muito grande. Naquela época o Antônio teve um filho com uma escrava, e esse filho chamava-se Francisco. Ele tinha mais três filhos, como eu já falei, e naquela época eles queriam ir embora, então a Celestina Benícia de Andrade doou a terra do Mandira para o irmão dela, filho bastardo de Antônio, Francisco, isso em 1868. Então é a partir daí para cá que contamos a história da comunidade. Depois Francisco casou e teve vários filhos; alguns foram embora daqui da comunidade, e aqui ficaram dois filhos de Francisco, um que se chamava João e o outro Antônio. E naquela época também tinha um coronel chamado coronel Cabral que se dizia dono de toda essa área, desde Itapitangui até Guaraqueçaba, até Paraná, inclusive a terra do Mandira onde o Francisco herdou da meia irmã dele. E o João era um negro super inteligente, ele nunca tinha ido à escola, mas aprendeu a ler e a escrever, e se tornou aqui na região um “advogado dos pobres” porque ele era super inteligente, e era vidente também, previa o que poderia acontecer com ele, ou com qualquer pessoa da família. O fato é que ele brigou muitos anos com esse coronel. E para brigar com esse coronel, ele fazia esse caminho que a gente acabou conversando no início, lá no começo da conversa, daqui de Cananéia para Iguape, muitas vezes ele ia de remo daqui até Cananéia, daqui de Iguape, porque não existia estrada. Muitas vezes ele pegava a canoa aqui no Mandira e ia até Cananéia, e daí passava pela Ilha Cumprida, pegava a beira da praia e ia até Iguape, e de lá pegava um barco, na época conhecido como vapor, ia até Santos e São Paulo brigar por causa desse terreno do Mandira. E ele ganhou a questão com esse coronel. Registrou o título da terra em nome dele, em nome do João Vicente - hoje já não é mais no nome dele - registrou no nome de João Vicente Mandira, em 1912. Como ficou só o João e o Antônio aqui, ele registrou no nome dele, só que naquela época o Antônio era um negro muito forte, muito forte mesmo, assim fisicamente, diz que ele carregava uma canoa de três palmos nas costas sozinho! Minha mãe contava que o remo dele, eu não conhecia ele, eu conhecia um dos filhos dele, mas minha mãe contava que o remo dele, ele jogava na beira do barranco e ninguém remava com ele de tão pesado que era, só ele que remava. E ele era um negro muito briguento, vamos dizer assim, ele brigava com o João, e João fazia roça aqui no salto do Mandira, e ele ia lá e colhia o milho, o João ia lá e fazia canoa - porque o sitio era dos dois irmãos, que era mil e duzentos alqueires que eles herdaram - e ele acabava cortando a canoa do irmão dele e levava para casa, então, para parar essa briga, o João falou para o Antônio: “Antônio então você fica com o salto, e eu fico com a parte do Mandira onde a gente mora.” Então foi essa a divisão, e esse João teve vários filhos também, acredito que uns oito. Eu cheguei a conhecer alguns, tinha o Francisco que era meu avô, tinha o Joaquim, tinha Osvaldo, tinha Amâncio, tinha João, tinha Henriqueta, Maria, Teodora, eram vários filhos. Tinha mais algum que agora eu não to lembrando... E eu sou neto do Francisco, e minha mãe é filha do Francisco, um dos filhos de João. Eu nasci na comunidade. Naquela época todo nascimento era de parteira, ninguém procurava médico, na verdade nem tinha mesmo, nem tinha como ir para cidade atrás de médico, então aqui no Mandira tinha três, quatro parteiras na época, então as crianças que nasciam eram tudo em casa com parteiras. De três delas eu ainda lembro, uma morreu faz uns três anos, mais ou menos, a última. Uma era Henriqueta, aquela irmã do meu avô, que era parteira, a outra era Zulmira, e a outra era Martinha, chamava de Martinha, deveria ser Marta, a gente conheceu como Martinha e ela morreu como Martinha. Hoje nós não temos mais parteiras. A Martinha era mãe da mulher do Frederico, um senhor mais velho que tem aqui na comunidade, tem 82 anos. Hoje não tem mais parteira, ninguém. Naquela época elas foram muito perseguidas pela medicina, então chegou uma época que as parteiras não podiam aparecer, vamos dizer assim, eram muito perseguidas pela medicina, e aí acabou que ninguém queria ser mais parteira. Você vê que hoje no próprio Norte, Nordeste, tem muita parteira que até dá aula para o médico e mostra que é parteira. Hoje é muito reconhecida essa profissão no Norte, mas aqui, por causa da dificuldade também deles trazerem alguém para aqui... Existia uma perseguição muito grande em relação às parteiras, o pessoal mesmo recebia notícias, “parteira não”, era proibido a parteira fazer um parto, tem que ir para o médico, tem que ir para cidade, para o hospital, as parteiras estão proibidas de fazer, então por isso que se fala assim que naquela época existia uma certa perseguição dos médicos em relação as parteiras. E ai ninguém mais quis ser parteira. Quando eu era criança, me criei, até mais ou menos sete, oito anos, me criei com meu pai, na casa da minha mãe, até ficar um molequinho. Aí fui morar com minha avó, com o Francisco e minha avó que se chamava Dolores, que é mãe da minha mãe. E naquela época, depois, minha mãe e meu pai foram embora para Biguá, e ai eu fui para lá, morei lá um certo tempo e voltei para casa da minha avó. Logo em seguida, quando eu tinha mais ou menos, dez, onze anos, minha avó morreu. Daí eu fui morar com meu pai, que se chama Benedito Mandira, muito conhecido como Benedito Machado, morava em Iguape e trabalhava no bairro naquela época. Morei até uns doze, treze anos por ai, voltei para casa do meu pai, da minha mãe, e me criei aqui na comunidade. E aqui eu estudava, jogava bola, futebol, com bola de pano, não tinha bola para jogar, como tem hoje a facilidade de ter uma bola, era bola de pano, ou enchia uma meia de pano, de papel, de folha de banana seca, e fazia uma bola. Também tinha o pessoal que brincava muito de peteca, tinha bolinha de gude, tinha as brigas, as brigas de crianças. Eu era muito briguento, quando estava na escola, não dava um doce eu ia brigar, eu ia lá e já “poquete” (dava um cascudo), para ganhar o doce! Então era assim, me lembro muito, muito bem, a primeira vez que eu fui à escola eu estava lá em Biguá, lá perto de Miracatu, minha mãe me colocou na escola, eu, meu irmão mais velho e minha irmã mais velha, e naquela época a gente saiu para apontar o lápis, me lembro até hoje, era assim, perto da escola tinha um bananal, meu pai trabalhava com bananas, era bananal assim, então o pessoal foi lá apontar o lápis. Estávamos lá, eu e meus irmãos e a molecada toda, mas ai fiquei lá enrolando o tempo de apontar o lápis, e eu enrolando lá, e quando a molecada entrava para escola eu ia para casa, corre, corre, era longe, corri, mas foi a pior viagem que eu fiz, a pior viagem que eu fiz foi ir para casa. Eu cheguei em casa, minha mãe perguntou por que eu tinha ido para lá, falei que eu não queria estudar, e o cipó comeu solto! Apanhei que nem gente grande! Ai no outro dia fui para escola e não queria mais voltar, não quis mais voltar. Depois meu pai voltou para cá e nós viemos trabalhar na roça. Naquele tempo o povo trabalhava na roça, cortava caxeta e palmito. E veio naquela época uma firma aqui para o Mandira, chamava FOSFASA (Fomento Industrial de Fertilizantes S/A), uma fazenda de produção de coco. Eu tinha mais ou menos quinze anos, e naquela época a gente já cortava palmito, não é que nem agora que as crianças ficam vagando na rua até dezesseis, dezessete anos. Hoje dezessete anos é criança, o cara faz tudo que quer e é criança ainda, naquele tempo desde o sete anos a gente enfrentava o “basquete”, como dizia a história, era machado e foice, se preocupava com filho na rua porque tinha que ir trabalhar, não é que ele tinha que ir trabalhar, era o dom de trabalhar, então se trabalhava muito. E eu comecei a trabalhar nessa fazenda, eu e meu primo, nós éramos dois moleques, mas já enfrentávamos machado. Meu encarregado era meu cunhado, e ele não queria que o cara pagasse o mesmo preço dos adultos para a gente, isso porque a gente era criança, mas tudo que eles faziam nós fazíamos também, era derrubado no machado, cortado picareta, derrubar madeiras, tudo que se fazia nós fazíamos. Então já tinha o costume de ir trabalhando, depois nós começamos a ir trabalhar, mas esse trabalho não rendia muita coisa para gente, a gente trabalhava o dia inteiro e só recebia uma mixaria, ai meu cunhado, naquela época não éramos cunhados ainda, éramos só primos, ele falou: ‘’Chiquinho, vamos embora, vamos cortar palmito?’’ Porque cortar palmito dava mais do que trabalhar lá. ‘’Vamos cortar palmito?’’ Ai eu falei: ‘’Vamos. ’’ Pegamos e nos mandamos, aí o cara, o dono da fazenda, ele gostava de nós, a gente era moleque, mas a gente era trabalhador, nós trabalhávamos igual aos outros, ai ele ficou com raiva da gente sair do serviço, e de ir cortar palmito. E nós íamos roubar palmito lá onde era a fazenda do cara! Aí o cara encrespou conosco, porque não podíamos passar para lá, porque não sei o que, não sei o que, mas ele tinha que passar na comunidade para entrar na fazenda, ai meu cunhado, falou para ele: “Olha, nós não passamos para lá para seu sitio, mas você também não passa no nosso sítio, você não passa mais aqui, se você passar aqui vai entrar no facão.” Nós éramos tudo garotão. Meu cunhado era mais velho do que eu, hoje ele tá com cinquenta e nove anos, por ai, sessenta, está perto, naquela época tinha dezenove, vinte anos, e ai ele falou: ‘’Não, não é para você entrar em nossa fazenda, não é para você entrar demais, então você não passa mais aqui no sítio do Mandira, se passar aqui vai entrar no facão!”Foi uma briga, não briga, briga, mas discussão boa, porque o cara era obrigado a passar pelo sítio do Mandira, aí ele teve que ceder, e nós começamos a pegar palmito e trabalhar com caxeta. A fazenda era de Goiás, chamava FOSFASA, o encarregado, dono, ele era de Mato Grosso, era um homem alto, parece que era do Mato Grosso. Eles vieram investir na plantação, plantar coco. Eles traziam um caminhão de coco e a turma comia tudo! Primeiro começaram a trazer coco em pé, assim, muda já pronta, depois começaram a trazer coco assim para brotar aqui, quando começava a brotar o coco, começava a soltar aquela muda, assim, o primeiro “talinho” para a primeira folha, e nós descobrimos que o coco dentro fica macio e doce, cara, aí começamos a quebrar o coco e comer aquela massa que era gostosa! E o cara ficava muito bravo com a gente! Hoje eu sei que as fazendas são tudo mato, não tem nada, acabou em nada. Não foram feitas muitas iniciativas lá na região, a primeira que veio foi a FOSFASA, a primeira firma que eu trabalhei. Depois eu saí também, naquela época da Mendes Junior, quando começou a ampliação, a duplicação da BR 116 na serra, eu fui trabalhar com meu primo, tinha dezessete anos, não era primo, era meio parente assim, nós nos dávamos muito bem, foi criado aqui junto, e começamos a trabalhar para lá. Ficamos lá um pouco também, depois fui plantar palmito aqui na barra do Azeite, no meio do sertão lá. Não deu certo e viemos embora. Nesse tempo nós já éramos jovens, começamos a namorar e tal... daí a gente não queria mais sair. Os planos foram mudando, e aconteceu que eu casei bem novo, casei com dezenove anos, eu e minha esposa tínhamos a mesma idade. Nós cortamos muito palmito. Nós entrávamos nesse fundão de Brotas, ou para cá do lado da vargem e cortávamos. Eu era bom no facão também, cortava bem o palmito, a gente cortava bastante palmito, eram cem dúzias, cento e cinquenta dúzias de palmito. Tinha um cara de Registro que vinha buscar os palmitos, ele vinha aqui comprava nossa carga, pagava e levava palmito para a fábrica de Registro, e depois tinha outro de Juquiá também que pegava aqui, mas geralmente eram os de Registro que vinham pegar. Mas não era fácil não! Depois que a Policia Ambiental começou a vir para cá o negócio ficou feio, ficou feio porque não podia dar moleza, não podia bobear, entrava no mato, cortava palmito, lembro que era em um sítio nosso, no Mandira, mas você não podia aparecer, se os caras viessem e vissem você com palmito te levavam, com palmito e com tudo, então tinha que trabalhar escondido, tinha que entregar esses palmitos para o cara que comprava à noite. O cara chegava duas horas da madrugada na sua casa, buzinava e você jogava o cobertor nas costas - às vezes nem era cobertor- e tinha que ir lá entregar os palmitos. Podia estar chovendo... Não tava na hora que o carro chegasse perdia. Se estava tinha que entregar, era assim. Isso foi muito antes da reserva. Desde quando eu era pequeno. Meu pai também cortou palmito, meu pai caçava muito, era um ótimo caçador, além de pescador. Era um caboclo muito forte, trabalhava o dia inteiro cortando e carregando caxeta. Lá não tinha muita facilidade em comprar as coisas, e ele nem tinha dinheiro, essas coisas de andar calçado era pouco tempo, era muito difícil, meu pai chegava cansado, ai fazia uma taboca, taboca era um pedaço de taquara com pano, colocava querosene dentro, fazia uma rolha de pano para acender para ir pescar. Ai pescava e, na boca da noite, até mais ou menos na hora que a maré enchia, ai matava, era bom de pescar, tinha uma sorte de pescar danada, o homem era triste, e ele matava bastante Tainha, Badra, Parati, essas coisas assim. Trazia. Ele sempre fazia Jacá, aquele cesto que carregava nas costas, e trazia aquilo chapado de peixe. Chegava de madrugada em casa, ai minha mãe ia lá, consertava esses peixes, que às vezes nem jantar tinha jantado, não tinha o que jantar, eles chegavam essa hora da madrugada, minha mãe consertava o peixe, cozinhava, e chamava a gente, cada um comia um bom pirão de caldo de peixe, cozido naquela hora da manhã, da madrugada, e ia dormir de novo, aí acordava para ir para escola. Não era fácil a vida, e o velho era bom! Depois ficou doente. Ele se sentia muito saudável, muito forte, e acabou abusando um pouco da saúde. Primeiro deu água no pulmão dele, teve um pouco internado em Santos, depois ele ficou um pouco mais velho, deu derrame. Morreu ano passado, mas ele era muito forte, muito trabalhador, fazia roça, caçava, para caçar ele era bom! Eu fui muitas vezes com ele, desde pequeno ia pescar, sempre fui. Eu nunca fui trabalhador, mas nunca fui vagabundo, nunca fui preguiçoso, eu sempre fazia, gostava de fazer as coisas, de aprender, e sempre ia pescar com ele. Às vezes íamos para Cananéia, eu e ele, os dois descalços, só às vezes que ele levava sapato, amarrava os cadarços um com outro e jogava nas costas aqui, e só ia calçar na hora que chegava a Cananéia, ia calçar o sapato para ir fazer a compra, amarrava... Às vezes a gente andava a pé daqui a Cananéia, às vezes não, a maioria das vezes. Ali fazia uma compra que pudesse trazer nas costas, amarrava dois sacos brancos com as compras e jogava para trás. E eu era pequeno, naquela época não podia trazer muita coisa. Naquele tempo tinha latas de cinco litros de querosene, então - não podia trazer uma lata de 18 litros - trazia uma lata de cinco litros de querosene no dedo de Cananéia até aqui, chegava aqui morto! Mas tinha que trazer porque era o que a gente usava a noite, então tinha que trazer. Ele trazia a compra e eu trazia a querosene no dedo, tinha uma argolinha assim de metal, eu colocava no dedo e vinha embora. Naquele tempo o que a gente mais precisava era açúcar, sal, querosene... Farinha era difícil comprar, arroz também, comprava, mas era muito difícil comprar. Sabão, que não tinha no sítio, que não dava para fazer, por exemplo, naquele tempo dava para fazer sabão, mas o pessoal não tinha conhecimento para fazer, então tínhamos que comprar sabão. Às vezes comprava café também, dependendo da época do ano porque cada morador aqui do Mandira tinha um cafeeiro pequeno, mas tinha para ter café para tomar, café da lavoura, e era assim. A maioria das coisas era as que a gente não produzia aqui. No Mandira tinha várias famílias, antes do pessoal vender o sítio, todo mundo morava aqui, além dos Mandiranos ainda tinha algumas famílias de fora que os Mandiranos deixavam morar na comunidade, pessoas daqui do rio das Minas, perto do Mandira, eram vizinhos, eram conhecidos e tal. Não tinham muita coisa e queriam vir morar para cá, para facilitar, para ir cortar palmito, cortar caxeta, fazer alguma coisa. Eles acabavam fazendo uma casinha de pau a pique e morando dentro. Mas aqui tinha várias famílias. Tinha a família do meu avô, que era bastante, vários filhos por aí. Tinha a família do Geraldo Mandira, também umas sete, oito famílias, por aí. Tinha a família do João Vicente, que eram todos irmãos. Tinha a família do Joaquim... Eram mais ou menos essas famílias. Todo mundo fazia roça no lugar que queriam, não tinha muita ordem não. A relação entre as famílias era muito boa, melhor do que hoje, a relação familiar era melhor do que hoje. Quando falei para vocês que meu pai pescava bastante, e caçava, na verdade, todos eles caçavam e pescavam aqui da comunidade, então quem pescava um cesto de peixe, por exemplo, dividia com todo mundo, principalmente as famílias mais próximas da casa. Então era dividido, ninguém comprava um quilo de peixe, ou um quilo de carne, matavam um porco do mato, e se tinha dez famílias perto, cortava dez pedaços, pelo menos, para uma comida do dia, dava para todas aquelas famílias comerem. Hoje não, se a pessoa tiver dinheiro ela compra e come, se não tiver não come, porque não tem mais essa coisa de troca. Antes se emprestava muito, se você tinha arroz, e meu arroz não tava maduro, eu ia emprestar seu arroz para mim comer, e quando o meu amadurasse eu pagava para você, e isso para tudo, quando era feijão, milho, farinha. Então tinha essa coisa, no meu modo de ver, melhor do que hoje, porque hoje envolve muita coisa do dinheiro também, e antigamente não tinha dinheiro, e ninguém passava necessidade, não tinha dinheiro, mas tinha o que comer porque quando você não tinha o que eu tinha, te dava, e quando eu não tinha o que você tinha, me dava, então era assim, hoje não, hoje pela questão de ter lucro, se você não comprar, você não come, se eu não comprar também não como. A nossa relação é pior que no passado, não, é porque antigamente não tinha a questão do dinheiro... Eu acredito que as coisas foram mudando por volta da década de sessenta, setenta, porque até na nossa festa, a festa de Santo Antônio, por exemplo, era assim: O pessoal, tanto da comunidade como de outras comunidades, até de Jacupiranga vinha para cá para o Mandira. Eles traziam carne de porco, farinha, traziam feijão, traziam arroz, todo mundo trazia alguma coisa para festa de Santo Antônio. Ali se rezava o terço, que hoje a gente faz ainda, o terço cantado. Ai antigamente tinha um baile, mas depois meu tio proibiu porque estava dando muita confusão, muita briga, e festa de Santo Antônio para brigar... Então foi melhor não ter mais o Fandango. Mas era feito o terço, e depois que acabava o terço, ia a mulherada para a cozinha e faziam uma janta. A janta saía lá para meia noite, onze horas, meia noite, mas era uma janta coletiva! A comida era colocada no meio da casa, colocava uma esteira, forrava o meio da casa, colocava a farinha, cada um tinha uma panela grande com feijão, carne de porco, arroz com carne de porco, o pessoal ia fazia seu prato e comiam todos juntos. Ai chegava de manhã e tinha alvorada, que era outro terço cantado de manhã, saía um café, fazia um biju de arroz, cuscuz de arroz, ninguém comprava, todo mundo trazia, mas chegava a fazer um monte assim, no meio da casa, todo mundo trazia, quando ninguém tem, mas se o que eu tenho, eu ajudo, então cada um trazendo um pouquinho, e de pouquinho em pouquinho vai formando um monte muito grande. Fazia uma série de biju e de cuscuz assim! Todo mundo sentava ali perto daquela esteira, esteira de piri de paina forrado e a turma tomava café. Assim que era a festa, depois começou a mudar, começou a fazer a fogueira, fogueira existia, começou a fazer barraca, vendia umas coisinhas, vendia outra, ai foi mudando, foi mudando, mudando, mudando, até que de uma conta em diante para cá, de 80 para cá, mais ou menos de 80 para cá a festa já não tinha mais a janta nem nada, era uma festa para ganhar dinheiro. Você fazia festa de Santo Antônio e aí você fazia barraca, todo mundo já trabalhava na barraca e comprava refrigerantes, cervejas, pedia bolo para turma e tal, cada um levava um bolo para o Santo Antônio e colocava lá e vendia. Então começou a mudar, mudar, mudar, e hoje é totalmente diferente, você já faz uma festa para ganhar dinheiro, para ter lucro. Antes ninguém vendia nada. Vendia-se broinha. Só as moças que faziam mais isso, vender a broinha para o pessoal do baile, da festa, e ninguém pensava em lucro. Da festa de Santo Antônio só as orações do terço são as mesmas, não muda. Agora, outras coisas mudaram muito, o que faz parte da comunidade, isso mudou muito, por exemplo, os mutirões, mutirão que nós tínhamos, hoje se convida duas, três pessoas para trabalhar para você e a pessoa já chama de mutirão, mas não é mutirão. Aqui nós tínhamos mutirão, a pojuva e o ajutório, são três modalidades diferentes, por exemplo, o mutirão: Se você queria fazer uma roça, convidava trinta, quarenta homens para trabalhar, plantavam arroz, por exemplo. E depois fazia outro mutirão para colheita, daí participavam homens e mulheres. Geralmente o pessoal, o costume era engordar um porco para fazer um mutirão, para fazer a comida, então o mutirão era assim, o dono da roça dava para o pessoal o café, o almoço, um bom café à tarde e a noite, lá pelas dez horas, uma janta. Fora o baile, o fandango. A pojuva era assim: Eu convidava vinte, trinta, quarenta pessoas para ir para trabalhar para mim depois do almoço, o cara ia almoçado, saia almoçado de casa. Trabalhava depois do almoço até seis horas, até a hora que desse para trabalhar. Depois vinha para cá, tomava um café forte e tinha o fandango. No mesmo horário da janta do mutirão era a janta da pojuva, e o baile também. Já o ajutório era diferente, no ajutório convidava dez, doze, quinze pessoas para trabalhar para mim, ou era convidado para trabalhar para outra pessoa. Lá trabalhava, chegava na casa do cara cedo, tomava café, ia para roça. Aí almoçava, o cara dava um almoço, e a tarde dava um café. Não tinha janta nem baile, era o ajutório. Então hoje qualquer trabalhinho o pessoal fala de mutirão, mas não é, é um ajutório. Todos os fandangos, bailes, mutirões, eram a mesma coisa. Ia muita gente! O que me marca daquela época era que se convidava todo mundo para ir para o mutirão, para trabalhar, para dar, para ter o baile à noite. Naquela época o baile era tudo. O pessoal participava para dançar, para ganhar o baile. E naquela época tinha muita gente! Meu cunhado, meu cunhado era “nó cego” pra danar, esse que mora aqui, João Mariano. Ele tomava umas cachaças e queria brigar com os outros! Às vezes ele combinava com os colegas dele e ia para noite, para entrar na marra no baile, entrar para dançar, não trabalhava, mas queria dançar. E ninguém deixava! Ou às vezes ele participava do mutirão e ia alguém que tinha sido convidado, mas que não tinha ido trabalhar, só ia para se aproveitar do baile. Ele não deixava o cara entrar; era todo mundo, ninguém deixava, não deixava, não deixava, e tinha vezes do cara pagar uma diária para o dono do mutirão para entrar. Então era legal por isso, se o cara não trabalhasse não entrava para dançar, era assim. Às vezes tinha um cara metido, que tinha uma namorada - e a namorada no baile - ele ia à noite porque a namorada já estava no baile, mas ele não entrava, ele tinha que voltar e deixar a mulher lá no baile, os caras que foram dançar com ela! Quantas vezes isso já aconteceu! Carnaval também era muito legal. No carnaval a gente dançava quatro noites de fandango, e era uma brincadeira muito boa, muito sadia, e isso acabou há pouco tempo o carnaval. Tinha o baile à noite, quando era de madrugada, de manhã cedo, quando o galo cantava, o pessoal pegava trigo e já começava a colocar na cabeça das damas, e as damas começavam a colocar na cabeça dos homens, começavam a borrar assim. Ai clareava o dia, era barro, e lodo. Fazia o lodo na panela, e pó de café, a gente fala o bagaço, pegava o café do café que foi feito e já ia guardando lá em um canto em uma lata, que a hora que amanhecesse o dia, aquele que não corresse ficava borrado! E tinha que se borrar, era o dia inteiro assim, a mulher pegava um homem que não tinha sido borrado ainda, nossa, judiavam dele! E o homem era a mesma coisa, pegava uma mulher que não tinha sido borrada à noite, ou ela corria ou caía na garra dos homens, ela ficava feito um porquinho borrado de lodo, e isso era muito gostoso, era uma brincadeira sadia. Essa farra acontecia aqui na comunidade, aqui no rio das Minas, Piranguinha, Taquari, Mandira. A brincadeira era desse jeito. Juntava todo mundo, era fandango, baile, carnaval... Já vinha o pessoal de Estaleiro, perto de Cananéia, pessoal de Pindaúva... A brincadeira era gostosa, era sadia, era muito bom. E tudo fandango! Fandango é uma música, tradição, na verdade, dos caiçaras. Parece que desde o rio para cá, Paraná aqui, tem a tradição do fandango, então era o que dominava nos bailes. As principais festas eram a de Santo Antônio e o Carnaval, só que tinha muito baile, muito fandango, sem ser festa. Nós fazíamos bailes assim: Se juntava, quatro, cinco, dez rapazes, sei lá, e, por exemplo, hoje era sexta feira: ‘’Vamos fazer um baile amanhã?”Todo mundo combinava e já saia convidando todo o resto: “Olha, vai ter um baile!”Outro já ia pedir uma casa do cara, e os caras já faziam uma sala bem grande, para poder dançar mesmo! “Aí fulano, tem baile amanhã!” E hoje já arrumava dinheiro, pegava a bicicleta e ia na vila - naquele tempo ninguém tinha carro, não tinha nada - ia à vila comprava café e farinha de milho - era a mistura que predominava nos bailes - comprava café e farinha de milho, vinha, e fazia o baile. E dançava até de manhã! Isso acontecia direto! A comunidade hoje é pequena, mas antes do pessoal vender, aqui na década de setenta - que o pessoal vendeu! - foi vendida mais ou menos em 74, 74 para 75... Tanto o pessoal daqui da comunidade ia para outras comunidades brincar como o pessoal de fora vinha para cá brincar também, vinha a família toda. Então, desde criança eu via o pessoal vindo lá do Pindaúva para cá, com criançinha de colo, às vezes montado no ombro assim, no ombro do pai, da mãe, e vinha para o baile, vinha dançar! Era assim. Hoje o pessoal tem medo de levar a família no lugar porque o pessoal vai armado, é perigoso, porque isso, porque aquilo... Antigamente não. Antigamente tinha nego valente em todos os lugares, tinha cara que era bom na porrada, mas era na porrada mesmo, aquele que chorava, aquele que aguentasse mais chorava menos, entendeu, era assim. O pessoal contava que quando tinha os caras que eram briguentos, valentes, eles amaravam - eles falavam frauda da camisa - a camisa de botão um com o outro assim; aquilo ali só ia desamarrar na porrada, na hora que rasgasse a camisa de tanta cacetada! Eu nunca participei, mas um dos meus tios já participou, já amarrou a camisa dele com outro cara para e brigaram até... Mas era tudo na cacetada, no braço, até pegar madeira para bater no outro era difícil. Resolvia no pé ou na mão, mas hoje não, hoje você olhou torto para qualquer um... “Ah! está me olhando torto, pá!” Na década de 70 o pessoal resolveu vender o Mandira. E eu já não era novo, já era casado, não, não era casado ainda não, eu casei em 76, mas eu já era rapaz. Nosso pessoal resolveu, nossos tios resolveram vender o Mandira. A gente não sabe o porquê, quer dizer, saber se sabe. Foi uma época muito ruim, de o pessoal querer vender terreno, tinha os caras que vinham comprar, não só aqui no Mandira, mas em vários lugares, então virou uma venda de terra muito louca! E o Mandira entrou nessa loucura de vender suas terras, o pessoal que queria ficar rico, morar na cidade, morar não sei onde. E aí venderam, venderam a parte que ficou para o João - a que eu falei que foi dividido entre os dois irmãos - Os parentes do João venderam para um cara, para um tal de Esplendor Buzaide, venderam as terras que o João na verdade ficou tomando conta, porque o terreno não foi dividido no documento, foi dividido na palavra, assim: “Então Antônio fica para lá, e João para cá.” E essa parte deles mediu 655 alqueires, desses 655 alqueires venderam trezentos e pouco para o cara e deram mais trezentos! Deram para o cara trezentos alqueires! Deram dado! Fizeram inventário e nesse inventário foi dado, e até hoje não foi executado. E o que aconteceu? Os meus tios venderam. Daquela época da parentada do meu avô só tinha a Teodora, a Henriqueta, e a Maria, que eram as mais velhas do Mandira, que também venderam. Meu pai e minha mãe não venderam, mas nós não morávamos aqui, nós morávamos bem lá para cima, perto da casa de pedra, um quilômetro para frente. Porém eles acabaram saindo também; nós não morávamos para lá, mas devido à questão do parque, que foi uma coisa criada na década de 60, entre 68 e 70 foi criado o parque, foi proibido ao pessoal de fazer as atividades de roça, da exploração do palmito, da caxeta, foi tudo proibido, foi criada a Policia Ambiental naquela mesma época, que foi jogada em cima das comunidades... O governo não deu nenhuma alternativa de vida para esse povo, só proibiu, proibiu, proibiu, e ai acredito eu, que isso foi uma das consequências que levou o povo a vender, a venderem os sítios por aqui, não só no Mandira. Não se fazia mais nada aqui, não podia fazer roça, não podia tirar palmito, não podia cortar caxeta, não podia, entendeu, não podia. O parque pegou metade do sítio do Mandira. O parque pegou desde aqui de Cananéia até Iporanga, são sete municípios envolvidos dentro do parque de Jacupiranga. O problema é que o governo não deu alternativa de vida para esse povo, proibiu, proibiu, proibiu, e não deu nada para que o povo pudesse ter. Eu me lembro de que quando foi criado o parque teve um engenheiro que veio medir, medir não, veio cortar onde o governo achou que era, determinar o que era deles. Foi muito ruim, acabou que o pessoal perdeu toda a liberdade de trabalhar, isso porque naquele tempo, como falei, as pessoas caçavam muito, meu pai caçava, meus tios caçavam. Nós andávamos com a espingarda para o meio do caminho, para a estrada, sem medo, porque hoje é proibido ter arma, porque vão matar gente... Naquele tempo não, era para procurar comida para seus filhos comer, a espingarda era para isto, e essa liberdade acabou. A polícia ambiental passou a perseguir todo mundo. Não podia andar com espingarda, não podia caçar, não podia fazer uma roça. Aqui para dar alguma coisa tem que queimar, o cara, o filha da mãe via a fumaça, porque a fumaça sobe, via fumaça e o cara já ia lá na roça procurar quem era o dono e já ia encher o saco, queria multar, ia querer fazer tudo. Com palmito a mesma coisa, o cara cortava palmito, tinha que correr, se esconder, entregar palmito meia noite, uma hora da manhã. Caçar nem se fale! Então isso fez com que o pessoal desistisse de morar no sitio, e acabou desistindo. Como é que vou ficar em um sitio, no mato, se eu não posso viver do mato? Viver do sítio? Como é que eu vou fazer? Tenho que ir para periferia. Muitos resolveram vender seus terrenos. Venderam. E nós não vendemos. Acho que foi em 70, 72... Eles estavam negociando, ou já tinham vendido a terra, a primeira; tinha o pessoal aqui no “Boacica” que trabalhava com ostras, vendiam ostras para um cara do Rio de Janeiro, ele vinha buscar aqui. E aqui no Mandira ninguém trabalhava com ostras. Até diziam que os caras eram vagabundos que quem trabalhava com ostras, era vagabundo. Um dia veio um japonês morar no Porto Cubatão, e ele chegou aqui no Mandira para comprar ostras desses caras. Meu tio Frederico, esse que mora aqui faz 82 anos, foi o primeiro cara que começou a mariscar ostras aqui no Mandira. Nós morávamos para cima ainda e não tinha outra coisa para fazer. Aí um começou a mariscar e os outros começaram a fazer junto. Meu cunhado também entrou nessa atividade, que já comprava ostras dos outros, trazia, mariscava tal, levava para São Paulo, e até que ele começou a ganhar um dinheiro bom, cara, logo, mas ficou doente também, morreu, e nós começamos. Eu sai daqui, me casei em 76, sai daqui do Mandira, fui trabalhar fora, fui trabalhar de empregado, trabalhei um pouco na Ilha do Cardoso, um pouco em uma fazenda aqui em baixo, depois resolvi vir morar para cá e comecei a trabalhar com ostras. Eu vivo da ostra desde 78, a única saída para nós, para nós permanecermos em cima da terra foi a ostra. Aquela atividade que nós, que muitos deles chamaram no passado, de serviço de vagabundo. Acabou que nós estamos fazendo isso até hoje. Eu trabalhei na duplicação da BR. Fui trabalhar para lá, eu e mais um. Daqui do Mandira foi só nós dois para lá. É uma outra convivência, outro conhecimento, nós nunca tínhamos saído daqui para trabalhar no meio de peão, morar em barraca. Tinha muita gente, praticamente um amontoado em cima do outro, aqueles beliches de madeira. Foi uma experiência não muito boa. Eu acabei conhecendo bastante gente de outros lugares, mas não deu para ganhar dinheiro não, tivemos que voltar para trás de novo, tinha que continuar nessa vida. Mas conseguimos bons colegas. Ainda mais, nós jogávamos bola, e esse rapaz que foi comigo, na época, jogava muito bem. Ai arrumamos uns parceiros, colegas bons, aquele pessoal que já tem certo conhecimento de vida fora, e os caras andavam tudo armado. Diziam que eram gente valente, não sei o quê, mas para nós eram gente finas, eles nos respeitavam e nós os respeitávamos, e eles eram nossos amigos. Um deles tinha um carro, tinha um jipe, tal, eles combinavam um jogo de bola e iam lá na barraca chamar a gente para ir jogar. Eram dois caras. Hoje nem me lembro o nome deles mais, um parece que era Gérson, mais ou menos assim, faz muito tempo, nem me lembro mais os nomes dos caras, mas me lembro de como eles eram nossos amigos; todos os cantos que eles iam jogar bola eles convidavam a gente para ir. Nós morávamos na obra, mas circulava. Chegava final de semana que a gente não ia trabalhar a gente ia jogar bola com os caras. A gente ia bem longe, pegava o carro e ia jogar bola. Nós ficávamos lá acampados trabalhando, depois voltava para descansar, e depois de trinta dias voltava para lá de novo. Depois me casei e fui trabalhar na Ilha do Cardoso. Ficava também uma semana fora, toda semana, saía segunda-feira cedo e voltava sábado à noite. Minha esposa eu conheci aqui na comunidade, ela é minha prima, na verdade, nos criamos juntos, brincando e depois casando! Naquela época eu não tinha casa para morar. Me casei, minha mulher estava grávida do primeiro filho, e eu queria ter uma casa própria, mas fui morar com meu pai. Depois fui morar com meu padrinho, continuava sem casa. Minha sogra queria que eu fosse morar com eles, mas ai fui trabalhar no Cardoso, deixei minha esposa na casa da mãe dela e fui trabalhar lá. Queria ganhar um dinheirinho e até que eu consegui. E antes de eu conseguir comprar a casa, ainda fui trabalhar aqui em outra fazenda. Sai do Cardoso e fui trabalhar com um japonês aqui perto. Trabalhei lá um ano e pouquinho e também ganhei um dinheirinho. Quando voltei, meu tio, um dos que venderam, tinha comprado um lote no Pitangui e queria construir, de madeira, de tábua, bonitinha a casa. Ele era muito meu amigo, se chamava Lúcio Mandira, era muito meu amigo e gostava bastante de mim. Ele falou: “Chico, eu estou indo embora, se você quiser comprar minha casa, eu vendo para você a prestação.” “Quanto você quer?” Ele falou o preço. Naquela época era mil, mil e duzentos, alguma coisa assim, dinheiro antigo. Ai eu vi que dava para pagar porque eu ganhava um salário mínimo e comprava muito pouca coisa, sobravam uns trocos. Comprei a casa dele! Depois que eu comprei a casa dele eu vim morar, voltei a morar aqui no Mandira. E depois, devido à questão do pessoal vender - minha mãe não vendeu - nós tivemos que mudar para cá e eu trouxe todo material, a telha, tabua, madeira da casa, tudo para cá. A primeira casa de tábua daqui, e isso foi em 79 para 80, por ai. Graças a Deus, o cara que comprou todos estes terrenos - era um cara poderoso, parece até que chegou a ser ministro - felizmente nunca conseguiu plantar um pé de banana aqui! Nunca, nunca conseguiu. Não sei o que aconteceu, ele colocou um caseiro e o terreno está ai até hoje, desde 75, do mesmo jeito. Só mudou porque onde era lugar de roça virou tudo capoeira, capoeira de trinta, quarenta anos quase. Felizmente ele não fez nada. Ele tentou fazer um loteamento, aquilo abriu para baixo, ele abriu várias trilhas de marcação para fazer loteamento, daqui no mangue, só que também não deu nada, não deu nada. Acho que foi o poder divino! O cara não conseguiu plantar um pé de banana até hoje! Na comunidade após as vendas ficaram poucas pessoas. Ficou a família do Frederico, Frederico e os filhos, a minha mãe, que na verdade meu pai trabalhava fora, então quem veio para cá primeiro fui eu e um dos meus irmãos. Fomos nós que abrimos essa parte para construir, plantamos alguns pés de bananas. Mas depois ele foi embora para cidade, acabou falecendo. Eu fiquei aqui, e depois de muito tempo que meu pai veio para cá onde a gente mora. Tinha meu tio ali em cima e algumas famílias que não venderam também, mas que acabaram indo embora para o porto. Não venderam para o Esplendor, mas também não quiseram vir morar aqui, então na verdade, ficaram três núcleos de famílias: Do Frederico, da minha mãe e do Cristiano. Eram poucas pessoas, pouquinhas casas, você pode ver que até ali na placa do ITESP (Fundação do Instituto de Terras do Estado de São Paulo) tem dezesseis famílias, mas na época ficou ainda menos, e hoje tem vinte e quatro famílias, os filhos foram crescendo, foram casando, foram construindo, então hoje tem vinte e quatro famílias. Aqui mudou muito com o esvaziamento, o mutirão nunca mais ninguém fez, a não ser um tio que mora para frente da comunidade Mandira, ele fez um mutirão dele, o último mutirão foi colheita de arroz, colher arroz no canivete. E isso faz tempo, faz uns oito para dez anos. Nós fazemos ajutório aqui na comunidade, a gente chama de mutirão vamos fazer mutirão porque a gente até já se acostumou falar mutirão, mas na verdade é ajutório, então a gente se junta para fazer um barraco, roçar, limpar, agora na semana passada mesmo fizemos um mutirão, um ajutório para construir um caminho, uma trilha, fazer uma base de madeira. Isso mudou bastante, e acaba que os nossos jovens de hoje não sabem mais o que é mutirão, mutirão mesmo eles não sabem, não conhecem, pojuva muito menos, e nem ajutório eles sabem, se eu perguntar para o meu filho caçula: “Meu filho sabe o que é ajutório?” Ele: “Não sei.” Vai dizer que não sabe porque não sabe mesmo, mutirão ele sabe, se junta e trabalha, mas na verdade esse mutirão que eles conhecem hoje para nós é o ajutório que tinha antigamente, isso acabou descaracterizando um pouco esse tipo, essas três modalidades de trabalho. Morar fora eu já morei, mas bem longe daqui nunca fui, meu máximo foi Pariquera-açu, morei um pouco ali para trabalhar em chácara, outro tipo de trabalho que é totalmente diferente do que a gente faz aqui. Na época eu ainda era solteiro, depois casei e fui começar a trabalhar aqui no “Boacica”, com o japonês, trabalhei um ano e pouco e depois voltei e não saí mais, e pretendo não sair. Porém, já viajei bastante mesmo. Depois que o pessoal do Mandira vendeu as terras e que começamos a trabalhar com ostra, teve uma mudança radical por aqui. Nós pegávamos ostra do mangue, trazia para casa, quebrava uma por uma, tirava da concha, e vendia ela embalada, em pacotinhos de oitocentas, novecentas gramas, com a ostra já limpa. Fizemos esse trabalho de 78 até praticamente 2000, até 97, 98. Em 93 o pessoal da USP (Universidade de São Paulo) veio aqui para o Mandira. Um tio meu, Fernando Cristino, que já faleceu, veio para fazer um trabalho aqui na comunidade e esse rapaz, professor Antônio Diegues - que é da USP e é natural de Iguape, ele é para nós, assim, foi o nosso, não é pai porque não é, mas quase que pai - trouxe a ideia de fazer um trabalho aqui na comunidade, com os membros da comunidade. Ele e um cara da fundação florestal chamado Renato Salles, esses dois rapazes, eles tiveram uma consideração muito grande pela comunidade, um projeto que permitiu a comunidade mudar de vida. A fundação na época contratou um técnico, um oceanólogo que tinha feito um trabalho no sul, e ele conversou com o Fernando Cristino dizendo que ele tinha intenção de trabalhar com a ostra, fazer um trabalho com a ostra, e que sabia que nós trabalhávamos com ela. Meu tio me chamou e falou para mim sobre essa conversa. “Ah, tio, vamos experimentar, vamos ver o que é isso.” E ele falou: “Eu fiz um trabalho no sul com guarda de mexilhão, pegava mexilhão da pedra, pé na perna, colocava água na corda para crescer e tal, e foi muito bom, é uma experiência nova que eu aprendi, e eu queria fazer isso com a ostra para ver se isso dava certo.” O pessoal da comunidade falava não, já trabalhava com ostra há muito tempo, desde setenta e pouco até hoje, diziam que já sabiam mexer com o bichinho... Eu falei: ‘’Não, não. Eu vou fazer esse experimento. ’’Chamei um técnico do instituto de pesca, ele viu a área para mim daqui perto, e a gente implantou o primeiro viveiro de engorda de ostra. Quando tirei a ostra e coloquei no viveiro eles começaram a acompanhar, e a ostra começou a crescer, o pessoal da comunidade começou a ver que elas estavam crescendo, então se animaram, se animaram para fazer a criação das ostras, a engorda de ostras. Começamos a fazer, e até ai nós vendíamos ostras. Eu vendia junto com meu irmão, Nilson, que mora aqui do lado. Nós vendíamos ostra em dúzia e vendia ostra mariscada. Naquela época nós vendíamos a dúzia de ostras a quarenta centavos, um pacotinho desses de ostras, de novecentas gramas limpas, nós vendíamos a sessenta centavos. Era muito pouco. Mas começamos a trabalhar com a questão da engorda da ostra. Tinha um rapaz que vinha pegar ostra nossa em dúzias e levava para o litoral; aos poucos começaram a pedir mais ostras de viveiro porque a durabilidade dela fora da água é maior do que a do mangue, para o mercado a ostra de viveiro era um produto melhor. Com o crescimento da demanda o pessoal de fora começou a vir aqui para a comunidade, vinham aqui no Mandira para ver o sistema que estava fazendo de engorda. Com isso, então, começamos a nos organizar a nível municipal para mudar a nossa forma de trabalhar, porque até então nós já éramos um povo que trabalhava com ostra há muitos anos, mas trabalhava com medo, trabalhava com medo da polícia ambiental. Quando a policia chegava ali naquele lugar, que nós escutávamos barulho do carro, a gente se jogava, jogava as crianças no mato quando as crianças estavam trabalhando comigo, quando estavam de férias, quando estava no final de semana, quando não tinha aula, ai eu jogava as crianças no meio do mangue, do mato, virava a canoa, corria de medo da policia ambiental, era uma tristeza só. A polícia ambiental vinha aqui, corria atrás da gente, e a gente tinha medo de ser pego. Eu fui pego uma vez com ostra, fui multado, tive que fazer atestado de pobreza, e tive que recorrer para não pagar porque eu não tinha com o que pagar a multa. Então era toda uma coisa ruim para nós. Mas começamos a nos organizar a nível municipal para mudar nosso jeito de trabalho, até porque aqui em Cananéia quem trabalhava com ostra era considerado um miserável, além de nós, porque antes nosso povo também falava que era coisa de vagabundo, porque trabalhava no mangue, no lodo fedido, naquele lodo do mangue que tem aquele cheiro forte. Para quem não conhece, aquilo ali é sujeira, mas na verdade é onde se cria alga, microalga para alimentação dos peixes, do camarão, do mundo, se não fossem os manguezais, da água dos manguezais... Então nós éramos considerados pessoas miseráveis aqui em Cananéia, e éramos discriminados por isso, e acabávamos aceitando isso, achando que nós éramos mesmo pessoas miseráveis. Eu principalmente tinha vontade de mudar isso, e com essa proposta do pessoal da fundação, nós começamos a trabalhar e conseguimos mudar. Criamos primeiro uma associação em 95, começamos a se organizar em 93, 94, 95, e criamos a associação porque veio um recurso da Finlândia, o professor Diegues conseguiu para nós um recurso da Finlândia. Com o recurso nós compramos um barco e esse barco ficou em nome da NUPAUBE (Núcleo de apoio às pesquisas sobre populações humanas em áreas úmidas brasileiras), que é um núcleo ligado a USP, nem sei como que é a sigla completa, mas também não importa. Continuando, ai veio a NUPAUBE e houve a necessidade de nós criarmos uma associação, até os técnicos falavam, ele mesmo, professor Diegues falava. Nós criarmos uma associação porque ai o recurso que viesse vinha em nome da associação, então não precisava passar para mão de terceiros. Em 97, devido à demanda, muita gente veio nos procurar aqui na comunidade, querendo implantar seus viveiros nas suas comunidades. Houve necessidade de criarmos a cooperativa. Na época até foi citado criar uma microempresa ou uma cooperativa, e nós não sabíamos nada, nós não entendíamos o que era uma cooperativa e muito menos o que era uma microempresa. Depois que os caras, os técnicos, começaram a falar, microempresa funciona desse jeito, pode ser um dono, dois donos, três donos, tal, e vocês pegam a ostra dos caras e vendem. “E como é uma cooperativa?” “Ah, em uma cooperativa quem é sócio é dono, então tem obrigações, deveres e tal. E é dono, é sócio, e tem obrigações com todo. Falamos então em criar uma cooperativa porque pelo menos quem é sócio é dono da cooperativa, e passa a ter obrigações e deveres também. Nós criamos a cooperativa em 97, e criando a cooperativa começamos a nos valorizar com esse nosso produto, valorizar o produto, valorizar nosso trabalho, nós ganhamos auto-estima. Antes nós tínhamos vergonha de trabalhar com ostras, quando alguém vinha na minha casa para conversar, a gente tava mariscando as ostras, a gente deixava a ostra e corria. Tirar foto principalmente! Ninguém, até hoje ninguém tem foto nossa antiga de trabalho com ostra na casa da gente, porque naquela época a gente não queria aparecer, não queríamos aparecer como tiradores de ostra. Criando a cooperativa passamos a valorizar nosso produto, a nós mesmos. O resultado disso é que em 97 nós vendíamos um pacote, um quilo, um pacote de ostras por sessenta centavos, e uma dúzia de ostras por quarenta centavos. Nós passamos a vender através da corporativa em torno de trezentos por cento a cima daquele valor que nós vendíamos. Então nós passamos a valorizar nosso produto e se valorizar. Isso trouxe uma grande, além da auto-estima, vamos supor, uma valorização do trabalho, e o povo de fora via nosso trabalho como uma coisa que podia dar certo, podia, tinha que ser valorizado. Assim nós ganhamos nosso primeiro prêmio, prêmio Eco 99, em 99, pela Shell e também através da fundação Margareth, que era uma ONG; ela acabou conseguindo patrocínio da Shell para nos ajudar aqui e eles ganharam um prêmio, ganharam um troféu. Era um prêmio importante sobre a questão ambiental e socioeconômica da comunidade. Foi um prêmio importante. Não sei se foi antes ou depois, mas foi feito um projeto do PDA para ampliar o estudo técnico aqui na comunidade e tal, e esse projeto trouxe uma viagem, a primeira viagem, no Brasil mesmo, mas para um mandirano sair daqui da comunidade e ir conhecer outro estado, acho que nunca ninguém tinha saído, nem São Paulo nunca tinha ido. Imagina ir para outro estado? E ai ninguém queria ir e eu falei: ‘’Eu vou nessa desgraça, eu vou!’’ E minha esposa chegou: ‘’Você vai Chico, Chiquinho?’’ ‘’Eu vou, ninguém quer ir eu vou. ’’ Era um encontro nacional de vários projetos PDA no Brasil, lá em Santarém no Pará, ai eu falei: ‘’Eu vou.” Tinha uma moça da Fundação Florestal que falou: ‘’Chico você vai? ’’ ‘’Eu vou.” ‘’Então eu vou te ajudar, vou te deixar na porta do avião.” E eu: ‘’Tudo bem, porque eu não conheço nada, é a primeira vez que eu to saindo de Cananéia.’’ Peguei e fui, fui lá, cheguei e falei para ela, o nome dela era Vanda, eu falei: “Vanda, já tem a passagem de ida e volta? Porque tenho que ir e voltar!”“ Esta aqui a passagem de ida e volta!”Peguei e fui, entrei lá, peguei minha passagem, passei no Check-in e fui lá para dentro daquele galpão grande, não conhecia nada. Eu peguei o vôo e fui pro Pará, ai do Pará peguei outro vôo e fui para Santarém. Foi minha primeira viagem, até tem uma história com relação a isso, porque eu não sabia nada, nem abrir a mesinha ali, eu não sabia destrancar. Eu fui igual a macaco, igual papagaio. E para acabar de desgraçar - eu nunca tinha andando de avião - do meu lado foi um casal de gringo para o Pará, de São Paulo para o Pará. E ai eu de olho neles, tudo que eles faziam eu fazia ali também, para dizer que eu sabia também. Essa foi a minha primeira viagem para fora daqui de Cananéia. Nossa, na hora que subiu o avião esfriou tudo, eu queria sumir, mas ai depois foi tranquilo. E o encontro foi muito bom, participaram várias comunidades indígenas, todos os projetos PDA do Brasil estavam lá, de outros lugares, de outros estados. Foi um encontro muito importante onde acabei aprendendo, conhecendo pessoas de outros estados que eu nem sabia. E aí abriu a porteira, comecei a ir para vários lugares aqui no Brasil, conheci outras experiências. Depois tive a minha primeira experiência fora do Brasil também. Então, bom, a primeira dessas coisas boas que aconteceu foi em 99, ou antes, acho que em 95, 94, foi em 94. O pessoal estava trabalhando aqui conosco em 93, 94. Tinham os ambientalistas, lá no Varadouro um casal de mico leão dourado que agora mudaram o nome do bichinho, nem é mico leão dourado, é mico leão da cara preta, da cara amarela, da cara verde, sei lá, e aí eles queriam fazer uma estação ecológica dentro de Itapitangui até Guaraqueçaba. O Renato estava em São Paulo, estava acompanhando porque a Fundação é ligada à Secretaria de Meio Ambiente do Estado, ele estava acompanhando todo o processo e aí ele veio e falou para nós: “Está acontecendo isso, isso, isso e vocês não vão poder morar aqui se acontecer, se for criado uma estação ecológica o povo dessa região vai ter que ir tudo embora, aqui vai ficar para estudo, só para estudo, não vai poder morar ninguém.” Eu falei: “Mas o que nós fazemos?” Meu tio e tal: “O que nós podemos fazer?” Ele voltou e depois, logo em seguida, não se passaram nem quinze dias, falou: “Olha, eu tenho uma ideia de vocês criarem aqui uma reserva extrativista.” E eu falei: “Mas o que é isso? O que é essa reserva?” “Olha, é uma reserva assim, assim, assado.” E disse: “Bom pessoal, então a única coisa que a gente tem que fazer é pedir a criação da reserva.” Em 95 mandamos um abaixo assinado para Brasília pedindo a criação de uma reserva extrativista aqui no Mandira, para garantir à população um pedaço de terra para o pessoal poder morar. Naquela época o diretor do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) falou que estava tudo ok, que ia sair a reserva e tal. Aí foi embora, passou quinze dias, e mandou uma carta dizendo que o IBAMA não podia criar essa reserva porque eles não tinham dinheiro para as desapropriações - porque como foi vendida, a terra, então nós queríamos uma parte de terra firme e a parte de mangue para garantir ao pessoal lugar para morar e trabalhar também. Recebemos essa notícia, aí o Secretário de Meio Ambiente, na época o Fábio Feldman, fez uma proposta também de ser criado uma reserva estadual. Então criamos uma reserva estadual porque aí o Estado garante que ele tem dinheiro para fazer isso. Mandamos outro abaixo assinado para o Estado e também não teve resultado, e depois em 2000, ou um pouco depois, recebemos uma carta do IBAMA dizendo que ia sair a reserva extrativista do Mandira. Foi decretado e assinado um decreto da reserva em 2002! Foi um ano bom para nós o ano de 2002. Em 2002 foi assinado o decreto da reserva extrativista do Mandira, em 2002 fomos reconhecidos como comunidade quilombola, e em 2002 ganhamos um prêmio internacional. Foi um ano que acho que tão cedo eu não esqueço. Foi um ano bom, um ano dez para nós aqui do Mandira, e esse prêmio também. Até foi um dia engraçado: Eu estava indo para a Amazônia, indo lá para Manaus, eu com a Vanda da Fundação Florestal. Nós íamos passando assim naquele painel que anuncia os vôos e tinha um vôo para África do Sul, e naquela época a ONU (Organização das Nações Unidas) tinha mandado um edital para o Brasil, para vários lugares do mundo e para o Brasil também, para mandar uma experiência de trabalho envolvendo meio ambiente e comunidade. Na hora a Vanda falou: “Chico, vamos para África do Sul, para Joanesburgo?” Falei: “Vamos.” Falei brincando com ela e ela brincando comigo. “Você vai mesmo?” “Vou.” “Então vou escrever o nosso projeto da ostra e vamos mandar pra ONU e nós vamos ganhar.” “Pode escrever que a gente vai.” Nós no trajeto indo lá para Manaus, e você quer saber que ela escreveu, mandou e nós ganhamos?! Ganhamos dentre 427 projetos do mundo inteiro em nível de Equador. Nós ficamos entre os 27 melhores projetos do mundo voltado a questão ambiental e socioeconômica. Aqui do Brasil tiveram quatro projetos selecionados para o prêmio, e que na verdade ganhou o prêmio também foram três projetos da Amazônia, foi o sabonete de resina de madeira que eles fazem lá na Amazônia, couro vegetal e um trabalho de fibra de coco, e o nosso aqui da ostra. Eu falo isso com bastante orgulho: Fui o primeiro mandirano a sair fora do Brasil e ir para Joanesburgo, pra África do Sul. Conheci outra experiência, conheci gente da África também, foi assim, uma experiência muito dez, cara, muito bom! Nosso trabalho, graças a Deus, ficou conhecido no mundo inteiro. Hoje vem gente de vários países nos visitar, temos até um intercâmbio com a Itália para trazer turista para cá, e já estive uma vez na Itália e meu sobrinho também. Neiva já esteve no Chile, não sei se no Chile ou no México. Eu já fui convidado para participar da Copa, que foi em Copenhagen, eu estive lá em Copenhagen no ano passado também, então quer dizer, são experiências para mim muito boas, foram coisas da vida. Muitas vezes você vê que nossa história ela vem cheia de altos e baixos, de muita dificuldade, muito trabalho, conquista e reconhecimento, alegria, às vezes choro, e a gente vem assim, e cada vez mais, graças a Deus, estamos tendo muito mais alegria do que tristeza para o nosso desenvolvimento aqui da comunidade. Hoje nós temos um trabalho muito bom na comunidade, somos reconhecidos. Estamos tentando hoje, o INCRA está trabalhando na questão da titulação da terra que nós não temos, somos reconhecidos, mas não temos a titulação da terra, então assim, tem muita comunidade que é muito maior do que a nossa, tem muito mais gente, com outro tipo de desenvolvimento que não tem o que nós temos, eles não conseguem se organizar para chegar aonde nós chegamos, claro que precisa melhorar ainda, nós estamos dando os primeiros passos. Aqui no Mandira, acho que como em todas as comunidades, nós começamos esse trabalho com os quilombos no ano 2000, em 2000 porque a gente sabia, desde que eu nasci eu sabia que nós éramos uma comunidade afrodescendente, assim, quer dizer, descendentes de negros, nem afrodescendente, a gente nem sabia o que era isso, o que era afrodescendente, e nem o que era quilombo, quilombo a gente só ouvia falar do Quilombo dos Palmares, lá onde Zumbi morreu, mas aqui nós éramos uma comunidade negra, uma comunidade de pretos, era assim, e nós éramos muito tachados, havia uma discriminação muito forte, até por uma questão de organização. Se o povo precisava sair daqui da comunidade, geralmente partia em um grupo grande, iam dez, quinze pessoas para ir fazer compras, para ir trabalhar, ia trabalhar todo mundo junto, e o líder, porque sempre tinha um líder. O irmão do meu avô era um líder muito forte aqui da comunidade e quando ele falava que era pra voltar, todo mundo ia para aqueles lados e tal, e até tinha um dizer que o pessoal falava que quando alguém batia na cara de mandirano doía na cara de todos eles. Eles eram bem unidos, hoje não, hoje se alguém der um tapa na cara de um mandirano, o outro mandirano vai lá e soca aquele que apanhou também! Mas antigamente era diferente, tinha briga até, quem não tem uma discussão, mas não era uma coisa assim de marcar, de mágoa, essas coisas, então era tudo assim. Depois que o pessoal vendeu e foi embora, nós ficamos aqui, veio um padre na comunidade fazer uma missa e ele já conhecia um pouco do trabalho de Ivaporunduva - acho que Ivaporunduva foi a única comunidade que já tem um bom tempo de luta sobre o que é quilombo, título da terra, até que graças a Deus, ano passado conseguiram o título da terra, então hoje é a única comunidade que tem o título da terra definitivo, os outros, em algumas comunidades tem algum trecho, alguma parte que é titulada, mas não é o território como um todo como em Ivaporunduva - Devido à questão de Ivaporunduva e das irmãs trabalharem com Ivaporunduva, esse padre veio um dia e falou para nós que nós éramos uma comunidade quilombola, comunidade negra, comunidade afrodescendente e o pessoal ficou muito puto da vida com ele, muito bravo mesmo, assim, porque estava chamando nós de preto, de negro. Só depois que começou a cair a ficha, do que ele estava querendo dizer para nós, o que ele estava falando para nós, e aí o pessoal de Eldorado começou a conversar com a comunidade, ainda meio tímida. A gente até escuta falar que alguns querem estudar, querem sair, ter uma experiência fora, porque também faz parte, é uma coisa que eu acho que faz parte da vida, assim como eu saí e voltei, todo mundo tem direito de sair e voltar, eu acho que é isso. Tanto os jovens quanto os mais velhos estão ligados na questão das coisas da comunidade, hoje nós até temos aqui uma oração do terço cantado, o da festa, e hoje temos um livro, e acho que vai sair agora em agosto um DVD do terço cantado, que fizemos com a Verbo Filmes de São Paulo, e assim, todo mundo ajudou, o mais velho, o mais novo que sabe ler um pouco, todos acabaram ajudando na gravação, foi muito legal. Havia dois projetos, na verdade, nós tínhamos um projeto aqui que é ruim até de falar, mas aconteceu. Tinha um projeto de fazer um livro, era um projeto no valor de dez mil reais do ProAC (Programa de Ação Cultural) e o proponente era a Associação, mas o coordenador era o meu irmão e ele cresceu o olho nesse dinheiro. Acabou que era para fazer o livro e o DVD, que na época dava para fazer. Ele fez o livro, gastou dois mil e poucos no livro do terço, nós o ajudamos na elaboração do trabalho, até porque eu tenho, meu tio antes de falecer ele escreveu as orações, orações que ninguém tinha escrito, nunca ninguém escreveu, era tudo oral, tudo oral, ninguém sabia, ninguém colocou no papel. Quando meu tio colocou no papel as orações ficou mais fácil, então, na verdade, as letras do livro que foram feitas foi tirado do livro que o meu tio escreveu, no caso, inclusive está comigo esse livro que ele escreveu. E aí foi uma coisa triste, sabe, para nós, para a comunidade, até hoje não foi prestado conta, não sei se o ProAC não vai cobrar a Associação um dia. Geralmente eles dão o dinheiro para fazer alguma coisa, então quem recebe o recurso parece que tem que devolver trinta por cento do montante para eles doarem para as escolas, e parece que isso não foi dado. Aí eu queria fazer o DVD, queria porque queria, e aí escrevemos outro projeto ano passado, mas eles não aceitaram porque já estava no final do ano e aí esse projeto voltou depois para a mão deles através do IDESC (Instituto de Desenvolvimento Sócio Cultural), uma ONG, e conseguimos recurso, foi pago esse Verbo Filmes e nós conseguimos gravar. Acho que agora até o final do mês de agosto a gente vai estar com esse CD na mão, esse DVD, então foi uma coisa boa para a comunidade também. Atualmente, temos duas questões em relação à terra. Nós temos a reserva extrativista que só é área de mangue, então já temos a concessão de uso, que é exclusivo da comunidade, da Associação. Claro, a gente tem deveres a cumprir dentro desse trabalho. E nós temos a terra do quilombo a qual ainda não temos o título da terra. O título da terra muda muito na vida da comunidade, por quê? Porque nesse caso não tem herança. Se você é reconhecido como quilombola ou você recebe o título da terra ela não vai para Chiquinho, para Chico, não é Chico quem recebe, é a Associação, então todos aqueles que são associados são donos da terra, ninguém vai poder vender e todo mundo vai poder morar ali para o resto da vida, então quer dizer, nunca mais ninguém vai poder vender um pedaço de terra, um lote de terra sequer, isso vai garantir para filhos e netos, bisnetos e tataranetos. Quando o meu tataravô, sei lá, recebeu a herança, a terra, ele deixou para os filhos, os filhos deixaram pros filhos, os filhos deixaram para os filhos e chegou até nós. Quando os meus tios venderam eu já era rapaz de 15, 16 anos, então eles não pensaram no futuro de quem iria vir. Se nós recebermos o título da terra ela será uma garantia para que, não sei, daqui a mil anos quando vierem herdeiros, vierem mandiraninhos ao mundo, eles terão a garantia de que a terra vai estar aqui, que ela não vai acabar, vai acabar se nós vendermos. Recebermos o título da terra é uma garantia para os futuros que virão. Hoje nós estamos vivendo um momento meio crítico, nós estamos com uma experiência negativa aqui para caramba, porque o pessoal vendeu, o pessoal vendeu suas terras na década de setenta porque o Mandira não dava mais nada, era uma coisa negativa. Depois de mais de trinta anos de venda, eles estão achando que eles têm direito de voltar pra cá, então eles entraram na justiça contra nós, e já vieram, já entraram aqui desrespeitando a Associação, desrespeitando quem mora aqui, fizeram um barraco aqui dentro do território do Mandira, o cara que comprou ele já foi lá e queimou o barraco dos caras, semana passada mesmo eu tive que ir lá no Fórum porque eles me puseram lá no Fórum para eu dar uma explicação para ele de uma coisa que ele já sabe, eles já estiveram lá em São Paulo falando com o pessoal do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), com o pessoal do Itesp (Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo) para querer entrar aqui no Mandira, e os caras falando para eles que eles não podem entrar porque a Constituição dá direito para quem mora em cima da terra, eles só podem entrar aqui se a Associação autorizar, se ela quiser, através de documentos, então a Associação faz um documento, registra, eles assinam e aí eles podem entrar, só que o que eles fizeram aqui dentro eles não podem vender, tem que deixar para a Associação. Eles sabem de tudo só que eles ficam querendo brigar com a gente de qualquer maneira para querer entrar. Estiveram aqui na minha casa no dia 19 e fui ao Fórum, aí falei para o Promotor, o Promotor também não entendia muito da lei dos quilombos, aí eu falei para ele, até falei para ele: “Oh, se o senhor quiser a gente traz a nossa advogada aqui e conversa.” A advogada com o Promotor vão se entender porque eles falam em língua técnica de uma coisa que eu não sei falar, eu sei falar o be-a-bá mal e mal. De qualquer maneira, eu falei para ele que a lei do quilombo é assim, assim, assado e eles têm que respeitar, eles não podem invadir, não podem entrar, a não ser que a Associação autorize, dê um aval para alguns deles ou para todos eles, do contrário eles não podem entrar dentro do território quilombola.

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