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Histórias do Instituto Lafayette

História de: Maria Elisa Martins da Costa Camara
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/10/2014

Sinopse

Em seu depoimento, Maria Elisa recorda a infância na cidade de Nova Era, MG. Fala da casa onde moravam e dos ensinamentos que aprendeu no Instituto Lafayette, do Rio de Janeiro, onde estudou como aluna do internato. Lembra como conheceu o marido em um baile em Belo Horizonte e como o ajudou a fundar a empresa depois do casamento, quando migraram para São Paulo. Fala dos cursos que fez: Contabilidade e Inglês e dos estudos com Guignard na Escola de Belas Artes. Finalizando falando sobre o trabalho como voluntária na AACD, sobre a viuvez e como a pintura a ajudou a superar a morte de um filho.

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História completa

Meu nome é Maria Elisa Martins da Costa Câmara. Eu nasci em Açu, no Rio Grande do Norte, no dia 1º de janeiro de 1923. Meu pai era engenheiro e trabalhava na Estrada de Ferro Vitória a Minas que era uma companhia que fazia estradas, e começou a fazer lá no Nordeste. Ele foi transferido pra Minas e veio pra São José da Lagoa. O meu pai se formou e foi trabalhar lá no Nordeste, conheceu mamãe e se casou lá. A minha mãe é do Rio Grande do Norte, a família toda dela. Lá do Rio Grande do Norte eu vim com um ano. A Companhia que transferiu, o trabalho dele foi fazer um trecho de estrada em Nova Era. Nós somos cinco filhos. Erámos seis, porque morreu uma criança e agora pouco tempo morreu o meu irmão Adolfo, Adolfo Neves Martins da Costa, ele foi o primeiro presidente da Fiat. Eu sou a mais velha de todas. Eu fui a primeira a nascer.

Minha casa era uma casa muito gostosa, muito boa, sabe, era a casa do padre, o padre tinha muito bom gosto, fez uma casa do jeito que eles faziam naquele tempo. Nossas brincadeiras de infância eram as brincadeiras de todo lugar, roda, brincava de pique. Quando eu fiz dez anos, eu já fui pro colégio. Lá no colégio, eu era jogadora de vôlei, a melhor levantadora que tinha. E eu só pensava em jogar, jogava o dia inteiro, e tinha dois filhos do professor Lafayette que jogavam junto com a gente, um desses dois, eu fiquei namorando um deles. Eu devia ter um 14 anos, pra 15. Eu entrei na escola com sete anos. Foi nesse grupo escolar, que era única escola que eu tinha na cidade: Desembargador Drummond. Depois nós tivemos que mudar para Belo Horizonte, eu estava no Instituto Lafayette estudando no Rio, eu fiz o ginásio no Rio, fui pro Rio e fiz os cinco anos. E quando eu estava terminando o ginásio, mamãe teve uma pneumonia dupla e ficou passando muito mal e teve que se tratar em Belo Horizonte. O médico disse que ia demorar muito o tratamento, levava uns dois anos pra ela fazer um tratamento, papai resolveu mudar pra Belo Horizonte, porque iam ficar três filhos internos no colégio, então mudamos todos pra Belo Horizonte.

O professor Lafayette, ele era uma pessoa muito diferente naquele tempo, hoje que eu fico pensando como eu achava diferente, ele era positivista. Eu ficava o dia inteiro, dormia na escola, amanhecia o dia e a gente acordava 15 pras seis, não tinha negócio de missa nada, missa a gente ia uma vez por semana, porque eu ia à missa todo domingo só pra passear lá na praça, mas a gente ia à missa e chegava lá o padre virava pra lá e celebrava a missinha em latim. Aos domingos ia às vezes na casa das minhas tias ou então qualquer coisa levava pra passar o domingo, mas eu ia, almoçava na casa delas e voltava, sabe, ia de manhã e voltava de tarde, não dormia lá não, eu ficava sempre no colégio. Eu sentia muita falta de mamãe, de papai, das minhas amigas, minhas primas, minhas primas moravam numa dessas casas pertinho lá de casa, então nós estávamos sempre juntas, erámos muito amigas mesmo. No princípio eu sentia mais falta, depois fui me acostumando, depois quando eu arranjei um namorado, acabou, não queria mais nem saber de ir pra lá. Namorado era assim, ele ia jogar junto, eu jogava junto, ele mandava um bilhetinho pra mim, eu mandava um bilhetinho pra ele, e esse era o namoro, não tinha namoro nenhum não, o namoro era isso, eu encontrava e tudo, umas duas vezes nós fomos de ônibus pra jogar em outra cidade, então fomos de ônibus, mas não podia sentar perto, porque era namorado. Eu conheci jogando lá.

Quando eu conheci meu marido, eu não enxergava nada, eu tinha oito graus de miopia, nem posso dizer que conheci, olhei assim e por acaso quando eu pensei que fosse uma pessoa, quando ele veio me tirar pra dançar, eu vi que era meu marido, o que foi o meu marido, quer dizer, foi tudo assim, de repente, era engraçado, meu cunhado ele é oftalmologista, então ele acha muito engraçado isso, mas ele veio me tirar pra dançar e eu fui dançar com ele. E depois eu fiquei gostando mais dele do que do outro, porque o outro não aparecia em lugar nenhum, então eu comecei a gostar mais desse, que esse aparecia pelo menos. E foi aparecendo, e ele estava no terceiro ano de Engenharia ainda, então ele ia a todo lugar, ia passear na praça toda sexta, todas às 15 de domingo nós íamos passear na praça, era aquela maravilha. Mamãe fazia a gente escrever toda semana pra ela, então eu escrevia, ela também escrevia, mandava retrato. No Lafayette eu fiquei os quatro anos de ginásio. Quando acabou nós mudamos pra Belo Horizonte. Eu tomei o trem lá e vim embora pra Belo Horizonte e lá nós fomos pra nossa casa. Achei o lugar muito bonito, tinha uma vista muito bonita, achava bonita a vista que tinha de lá. Então meus pais escolhiam o colégio também. “Agora vamos ver um colégio pra você, você vai ficar em tal colégio, você vai ficar em tal”, e foi que papai falou: “É melhor você fazer o curso de Contabilidade, porque agora as mulheres estão querendo trabalhar, e pra você é mais interessante”, porque ele perguntou o que eu queria ser, o que eu queria fazer. Mamãe falou assim: “Ah, ela tem muito jeito pra mexer com criança doente, ela tem mania de fazer curativo”, é mesmo, eu gosto, toda vida eu fiz curativo, até hoje eu continuo fazendo curativo, eu gostava mesmo de fazer curativo. Então eu falava: “Uai, eu gosto muito de fazer curativo, eu tenho a impressão que Medicina seria ótimo que eu estudasse”, papai: “Sim minha filha precisa pensar muito”, porque nós tínhamos perdido um irmãozinho com um ano e meio, e ele falou: “Quando o médico acerta com as coisas que ele ensina, é muito bom, mas quando não acerta, é como seu irmãozinho, que você vê, a criança morre e você não pode fazer nada”. Eu desisti de uma vez, não pensei mais em fazer Medicina, porque eu achei horrível quando ele morreu. Papai disse assim: “Não, você vai aprender Contabilidade, que agora as mulheres querem trabalhar, você vai trabalhar comigo”, mas depois não pude trabalhar com ele porque ele também mudou pra Belo Horizonte, e eu fiquei fazendo outras coisas, fazendo um curso atrás do outro. Fiz, o curso de Contabilidade. Quando eu me casei, eu fiquei dois anos a escrita da firma, depois a firma ficou muito grande e não deu pra fazer, e eu também tive seis filhos, um atrás do outro, não dava mais.

O Juscelino convidou o Guignard pra fundar a Escola de Belas Artes em Belo Horizonte, e eu entrei, fui a primeira a entrar, fiz o curso da Escola Belas Artes três anos, eu fiz com o Guignard. Eu gostava, eu sempre estudei, e tinha uma outra professora perto lá de casa que eu estudava com ela, uma alemã, eu estudei com ela desenho. Eu fui fazendo sempre um curso depois de outro, comecei a fazer curso de Inglês, eu fiz o Cambridge, são os dois cursos. Eu fiz o curso completo de Inglês, quando eu terminei o curso completo, eu fiz Letras também com Inglês. Eu só estudava Inglês, eu adorava Inglês, só cantava em Inglês, só falava em Inglês, tinha uns negócios na sola do meu pé que é pra ficar sapateando assim, o tempo todo. Eu sabia essas músicas toda de cor e sei até hoje. Piano, eu sempre toquei piano. Eu aprendia com mamãe, mas eu aprendi mais com vovó, vovó que me ensinou, com sete anos eu já toquei uma música e ela foi e meu deu o piano de presente, o piano está lá em casa até hoje, é um piano alemão que era dela, e ela me deu quando eu fiz sete anos, e está lá o piano. Agora eu falei: “Agora eu quero saber quem que vai estudar piano direito pra poder ganhar esse piano”. Eles todos gostam de música, meus netos, eu tenho um neto que é cantor maravilhoso, o Caetano, ele canta todas as músicas, uma voz muito bonita, ele trabalha numa firma americana de propaganda e ele canta nos sábados e domingos.

Meu marido eu o conheci numa festa do aniversário da escola onde ele estava estudando, Escola de Engenharia. Tinha uns bailes muito bonitos, eram os melhores bailes que tinha lá na Escola de Engenharia e do Minas Tênis Clube, tinha três bailes que eram muito bons, a gente ia, e como dizia minha amiga: “É bom pra gente arranjar namorado”. Então eu não tinha muita preocupação de arranjar namorado assim não, eu arranjava sempre por acaso, Fui dançar com ele e casei com ele. Quando eu conheci, ele estava no terceiro ano de Engenharia. E casamos. Eu quis fazer a festa lá em casa mesmo, sabe, porque mamãe estava doente na ocasião, e eu queria uma coisa assim, que papai assim: “Se você quer fazer no clube...”, porque nós erámos sócios do Minas Tênis Clube, Minas Tênis Clube naquele tempo, era uma coisa assim, maravilhosa, mas eu achei que era melhor fazer lá em casa, então fizemos a festa. Como a casa era muito grande, tinha duas salas grandes, fizemos, tinha uma mesa de doce, meu casamento foi muito bonito mesmo, tanto o meu como o da minha irmã, sabe, fizemos lá em casa mesmo, e tinha gente que fazia doce, e os doces lá são maravilhosos. Eu vim direto pra São Paulo, isso eu senti muito. Eu não conhecia ninguém aqui, fiquei conhecendo o tio Maurício e tia Neli que eram tios do Luís Álvaro, que era a única casa aonde eu ia, e eu só conhecia eles, a casa tudo muito grande, depois nós fomos conhecendo, depois vieram vários, vieram 15 que estudaram Engenharia, vieram trabalhar nessa fábrica, onde o Luís Álvaro trabalhava, então esses 15 ficaram nossos amigos. Eles vieram e nós reuníamos uma vez por mês, reunia na casa de um, na casa de outro, era assim, ficaram os nossos amigos, mas nós tínhamos amigos, depois fomos fazendo amizades aqui também.

Eu fui morar no centro da cidade, na Alameda Barão de Limeira é que ficava a empresa dele. A gente morava ali e ia a pé, passava na empresa, e depois ia até o Chique, a gente tomava chá no Mappin. Eles fizeram uma fábrica lá em Minas. Mas depois a fábrica lá em Minas não tinha material suficiente pra fazer. O meu marido achava que fizeram de propósito, mas, se foi de propósito ou não foi eles compraram a fábrica e eles compraram e ficaram com a fábrica mas depois veio uma crise muito grande e não sei como eles resolveram a crise não, mas eles. Eu sei que pra nós resolveu porque nós ficamos trabalhando e meus filhos já estavam trabalhando, cada um já tinha as suas coisas. Eram sete sócios. Depois acabou, ninguém ligou muito não, acabou porque como eles venderam muito bem a fábrica lá. Era fábrica de alumínio. O meu irmão, quando ele se formou, ele foi pra Inglaterra pra trabalhar nas fábricas de alumínio.

Eu sempre trabalhei como voluntária. Sempre. Eu trabalhei muitos anos na AACD, muitos anos. Depois eu tive de sair de lá porque eu estava grávida, e meu médico achou que não era bom eu fica vendo tanta criança. O primeiro nasceu nove meses depois que eu me casei. Nove meses e quatro dias depois ele nasceu. O primeiro é Paulo Henrique. Tive seis filhos. Eu morei ali no Itaim. Morei também ali perto do colégio Santa Cruz, porque meus filhos fizeram curso lá no Santa Cruz, e eu morei perto. Eu pintei durante uns tempos, uma vez eu fiquei, tenho uma amiga, a Ana Dandreta, que quando eu perdi meu filho, eu fui fazer um tratamento no Doutor Vicente Dandreta, que é psiquiatra, e a Ana ficou muito minha amiga, e eu fui passar umas férias com ela na casa dela, em Ilhabela, e lá que eu pintei um pouco da Ilha, eu tenho uns quadros que eu fiz lá. Houve uma época que eu fazia muito retrato, todo mundo me pedia pra fazer um retrato, dos meninos, eu fazia, mas eu não sabia fazer direito mais não, nem tinha lugar pra fazer direito. Eu fiquei viúva. Vai fazer oito anos agora, agora dia 22 de outubro, vai fazer oito anos que ele faleceu. Ele teve um câncer de próstata, e não morreu do câncer de próstata. Enfarte, ele teve um enfarte, depois eles socorreram. Agora moro sozinha, mas o outro meu filho, o mais moço de todos, mora no prédio do lado. Tenho oito netos e agora tenho mais um bisneto. Tenho dois bisnetos agora.

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