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Histórias do início do Jari

História de: Benedito Augusto da Gama
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2013

Sinopse

Benedito Augusto Gama recorda em seu depoimento sobre sua infância em Almeirim, Pará.  Lembra das histórias que escutou sobre o Coronel José Júlio, um dos primeiros proprietários de terras e extrativista da região. Aos 10 anos começou a trabalhar com o pai no castanhal e na seringa. Recorda como era a cidade de Laranjal do Jari e como a região se desenvolveu ao longo dos anos. 

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História completa

Nasci na cidade de Olho D’Água, que chama-se Monte Dourado agora. O primeiro engenheiro que veio para trabalhar era Doutor Dourado, diretor da Jari e engenheiro, que veio fazer o trabalho da empresa. Eu nasci no dia 3 de setembro de 1921. O nome do meu pai é Otávio Augusto da Gama, da minha mãe Maria Florípedes da Gama. O meu pai era de Gurupá e minha mãe era de Parnaíba, ela nasceu e se criou em Parnaíba. Eles casaram em 1910. Eles vieram para cá em 1928, quando teve uma Revolta do Zé Cezário. 

 


O Zé Cezário era oficial do Exército e então contava aqui que o Coronel José Júlio maltratava o pessoal. Ele como oficial do Exército e veio para cá. Mas quem maltratava o pessoal era o cunhado dele, Seu Duca. O Coronel José Júlio era cearense, nascido num lugar chamado Sobral, e veio para cá para o Jari em 1900, trabalhar aqui no Jari, que era tudo arrendado, não tinha dono.  Aqui era arrendado para cortar seringa, tirar castanha e outros produtos, era o que tinha na região. As famílias tiravam a castanha e tirava a seringa, faziam roça, lavoura.  Era arrendado do Pará, que o governador do Pará era o Barata. Aqui não era Amapá. Isso aqui era estado, em 43 que o Getúlio Vargas nomeou o Capitão Jari, que ele veio pra cá como governador, foi em 1928.  Zé Cesário não era do Exército.  Ele trouxe 30 soldados do Exército para trabalhar no Iratapuru como seringueiro, mas ele não veio fazer isso.  Ele deixou a esposa dele em Arumanduba, e ela mandava comprar carne de gado do Seu Duca, que era cunhado do Coronel do Exército, ele mandava pirarucu para ela. Ele veio fazer, libertar o povo.

 


Meu pai cortava seringa e tirava castanha, que era a produção daqui, depois que foi balata, foi ouro, foi maçaranduba.  Eu nasci e me criei aqui do Olho D’Água.  O meu pai trabalhava em lavoura também, cortava seringa e tirava castanha, no tempo do Coronel José Júlio.  O Coronel José Júlio chegou aqui, ele trabalhou como seringueiro na Braga e lá na Boca do Caracurú. Depois ele foi trabalhar lá no Jarilândia. O velho morreu e ele se ajuntou-se com a mulher do velho.

 


Eles iam comprar mercadorias para comprarem uma lancha chamada tapuia, eles vinham vender mercadoria para os arrendatários aqui no Jari. Era o coronel que fazia isso porque a mulher, a companheira dele, que era mulher desse camarada que morreu lá em Jarilândia.  Era bem de vida. Eles compraram uma lancha e compraram mercadoria e vieram residir aqui. Depois eles foram vendendo para o Coronel José Júlio as posses.  Hoje não pode mais vender, porque as prefeituras não vendem mais. Tem muita gente hoje que ainda tem muito terreno porque comprou naquele tempo. Meu pai não chegou a comprar terra, porque ele não tinha condição. Ele não sabia ler. Não tinha escola aqui no Jari. Aqui no território, eu vou lhe dizer, naquele tempo só Capitão Janary que fez escolas.  Foi a primeira fez que teve escola.  Eu nunca fui à escola, mas eu aprendi a ler porque a minha mãe sabia bem ler. Ela aprendeu a ler lá em Parnaíba. Naquele tempo tinha aquelas mulheres que sabiam bem ler, o camarada dizia: “Dona, a senhora pode ensinar meu filho?”, ela dizia: “Eu posso”, “Eu lhe dou um salariozinho, quanto à senhora quer por mês?”, ela dizia: “Eu quero tanto”, “ Está aqui”. Quando a família da minha mãe chegou aqui, ela casou logo, porque o avô dela morreu e a mãe dela foi buscar ela em Parnaíba. Com dois anos ela casou. Ela teve 12 filhos e morreram dois. Ela ensinou todos que quisessem ler, a gente ia trabalhar, quando chegava ia estudar com ela lá em casa, ela ensinava.

 


Eu comecei a trabalhar aos dez anos. A gente cortava seringa e tirava castanha, de inverno era castanha, de verão era seringa. A senhora ia lá no Maranhão, no Ceará, e trazia um bocado de gente. Aquele pessoal que a senhora trazia quem governava era a senhora. Ela batia, fazia isso, fazia aquilo, tudo quanto é do povo, porque daqui ele não saía sem a senhora mandar, era isso que acontecia, que o pessoal conta isso. Então aquele pessoal que eu trazia, ia no Ceará, em Pernambuco, tudo aquele pessoal quem governava era eu.
Vinham os trabalhadores, o pessoal ia buscar lá no Maranhão, no Ceará, para trabalhar na terra onde ele estava trabalhando. O José Cezário veio libertar por causa disso. O Seu Duca foi preso, morreu e o Coronel Júlio chegou. O Daniel Ludwig chegou no dia 1º de janeiro de 1967. Ele andou e achou que a terra mais rica para trabalhar foi aqui, foi aqui no estado. Ele chegou aqui, veio visitar tudo, que ele era o homem mais rico que tinha dentro do estado. Ele era o petroleiro número 1, todo o petróleo ele comprava, para só ele coisar o petróleo. Ele acabou a produção. Não comprou as castanhas, não comprou mais a borracha, não comprou mais a maçaranduba, não comprou mais a balata, não comprou mais nada. O trabalho dele era só fazer plantio, era gamelina, pinho e eucalipto, era fazer desmatação. 

 


Eu trabalhei até com 25 anos com meu pai. Depois ele foi embora para Porto de Moz e eu fiquei aqui, na terra do Ludwig, cortando seringa, cortando maçaranduba, tirando castanha, balata, tudo eu fazia.  O Coronel José Júlio vendeu a terra em 1948, por dez milhão. Ele vendeu para empresa Jari. Primeiro quem comprou aqui depois do Coronel José Júlio foi a empresa Jari, o português. Eram cinco sócios portugueses. Agora, tinha um brasileiro que não podia ser só português, era estrangeiro: era Seu Airo, Seu Almeida, o Nilton Fonseca, Seu Martim e Seu Teixeira e o Capitão Crispim, que era cearense. É, era cinco portugueses e um brasileiro que era a sociedade, era uma empresa. A gente foi trabalhar mesmo, porque deu mais dinheiro.

 


Sobre a minha esposa, eu morava aqui no Olho D’Água, ela morava lá num lugar chamado Arapiranga. Depois eu fui trabalhar para lá na casa da Caracuru.  Nós ficamos noivo em janeiro, no dia 11 de junho nós casamos. A gente estava naquele tempo em que visitava as casas. Uma pessoa ia nas casas das pessoas. Eu, por exemplo, morava aqui, o fulano morava aqui, eu ia lá na casa dele conversar tudo direitinho como eu vivia como ele vivia, na hora que eu precisasse dele eu ia lá com ele para ele me ajudar. Isso hoje em dia mudou. Minha avó era casada com um tio dela, porque eles nasceram e se criaram na Prainha, de Prainha a gente vai para Monte Alegre, de Monte Alegre a gente vai para Além Terra, de Além Terra para Santarém. Eu com idade de dez anos, eu tenho a lembrança de tudo, tudo. Com 92 anos de idade, que eu vou completar 92 anos agora no dia 3 de setembro. 

 


Eu lembro de dez anos, que eu cortava seringa, tirava castanha, fazia lavoura para nós sobreviver. Era porque naquele tempo o camarada trabalhava. Ele não comprava arroz, ele não comprava milho, ele não comprava feijão porque tudo ele plantava. Tudo a gente plantava e tinha os legumes para comer. Era arroz, era feijão, o açúcar era um açúcar que a gente chamava açúcar da baia. O açúcar não é açúcar refinado era o açúcar batido e feito aquelas coisas. A roupa vinha para os comércios. O comércio vinha de Belém naquele tempo. Hoje a roupa já vem tudo pronta da fábrica, naquele tempo tudo era em peça.Quando eu me casei eu morava lá no Arapiranga, num lugar chamado Escueira, depois eu vim para cá, trabalhar aqui no Olho D’Água, aonde eu nasci e me criei. Eu vim cortar seringa e tirar castanha. A gente mudava de lugar porque às vezes o patrão ia embora e a gente procurava outro. Tinha o patrão aqui da Boca do Jari até na Cachoeira tudo era cheio de patrão. O patrão trabalhava e arrumava o freguês e, quando ele não era daqui, não nasceu e se criou-se aqui, ele ia embora. Na Cachoeira tinha Armando Barreto, tinha o finado Periguá, tinha o Gaspar, na Padaria era Seu Eugenio Paiva, era o Miguel Gadeia, Olho D’Água era Manuel Marcelino, no Caracurú era João Tavares, José Tavares, era lá no Paraguai, no Paraguai era o coisa, Moura Serra no Bom Jardim, Marapi, o Antônio Olímpio. Eles vinham, por exemplo, daqui do município do Pará, porque o Ceará era um lugar seco. O Ceará passou três anos que não caiu um pingo d’água. Uma velha veio para cá, o nome dela era Dondora, parente do finado Pontes, e disse que teve no Ceará, teve três anos que não caiu um pingo de chuva.

 

Eles matavam o gado e pelava o couro para comer. É um lugar pobre, Maranhão é lugar pobre, tudo era pobre porque não tinha de que viver.  Eles procuravam lugar melhor para sobreviver. O Acre, Rio Branco, Rio Machado, Rio Madeira, Porto Velho. A borracha dava lá cinquenta centavos. Aqui era o mesmo preço, cinquenta centavos o quilo. Depois da guerra de 40 que passou para 11 reais o quilo em todo o Brasil. Soldado da borracha começou porque em 40 foi o tempo da guerra da Alemanha. A guerra da Alemanha passou cinco anos, começou em 40 e terminou em 45. Quando terminou a guerra da Alemanha, só no derradeiro dia morreu 15 milhão de habitante, 25 nação brigando só contra uma nação. Porque o Hitler queria ser, disse: “Eu manobro o mundo inteiro, nem que seja um dia”, ele falava, passava na coisa, no Fantástico: “Eu governo o Brasil, a nação todinha, nem que seja um dia”, passou cinco anos, com cinco anos ele desapareceu, cinco anos, no derradeiro dia que venceram, 25 nações foram para lá e venceram mesmo.  Eu me lembro sim, que eu cortava seringa, foi no tempo que a borracha deu dinheiro, foi em 40. Foi no ano que a borracha deu dinheiro, em 40. Porque eles precisavam da borracha para forrar os navios, que naquele tempo era navio de ferro, o Coronel José Júlio tinha seis navios, tudo de ferro. Forrava o casco do navio por baixo tudo com a borracha.

 


Eu nasci aqui, me criei aqui. Eu saí um tempo, eu fui no Porto de Moz. Eu conheço essa daqui até Santarém, porque todo ano a gente saldava, a gente pegava o dinheiro e ia passear. Mas chegava em Porto de Moz o negócio, a cidade era pobrezinha. A produção era só farinha de milho e arroz, mas eu não fiquei lá, vim de novo para trabalhar para cá no Jari de novo.O primeiro governador que teve foi o Capitão Janary. Depois do Capitão Janary foi o irmão dele, no território. Depois foi o Barcelos, que era comandante, o Waldez Góes, depois do Waldez Góes foi esse outro que está agora, filho do Capim. A primeira eleição que eu votei foi em 47, primeira eleição que teve. Não era prefeito, era interventor. Naquele tempo governador e presidente era nomeado, não era votado. Naquele tempo o Presidente Getúlio Vargas, ganhou a primeira vez, passou quatro anos, voltou de novo, voltou quatro anos. Ele governou o Brasil, ele governou o Brasil 16 anos. 49 já foi, porque o prefeito naquele tempo passava cinco anos no. O Getúlio Vargas mataram ele, Getúlio Vargas não morreu, as Forças Armadas matou ele. O Padre Adolfo disse, que o Getúlio Vargas não se matou. Mataram ele porque ele ia governar o Brasil de novo. Ele disse diante do meu pai. 


Nunca trabalhei dentro da fábrica do Jari ou do plantio, porque naquele tempo a pessoa, quando ela chegou, só empregava de 40 anos para frente, se tivesse 50 anos ou 55 anos ela não empregava para não indenizar. Quanto foi, um milhão de trabalhador que dispensou, ficou com 450 funcionários só. 


Laranjal do Jari naquele tempo que começou, era muito bom, tinha muito comércio, muito isso, muito aquilo, depois foi caindo, porque a condição não tem mais. Naquele tempo vinha barco cheio de mercadoria de Belém para vender aqui, agora não vem mais. Aqui o camarada tinha o telefone, o camarada queria falar, ligava o telefone daqui e falava para onde ele queria, como nós tem o telefone aqui também. Esse meu filho que mora no Suriname é pastor e o outro que mora em Tabatinga é pastor. O outro é gerente da empresa do Joana que vende combustível. Todos os meus filhos são evangélicos. Ganhei tudinho para Jesus, marido, filho, meus filhos tem dois pastor, um diácono, as filhas também tudo são crente, graças a Deus. Eu estou com 40 anos que eu sou crente. Quarenta anos, a Jari está aqui com 46 anos, a Jari está com 46 anos, eu estou com 40 anos.  Pois é, estamos com 60 e poucos anos de casado.  Agora mora nessa casa só eu e ele, pai e espírito santo, os filhos tudo casaram, foram embora. Filha, mora uma filha bem nessa casa branca. A vida está equilibrada.  

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