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História

Histórias de uma menina “aniquilada”

História de: Augusta Isabel de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/03/2020

Sinopse

Dona Augusta Isabel foi uma menina “aniquilada”, ou seja, raquítica. Nasceu gêmea, mas sua irmã morreu com meningite quando elas tinham três anos. Em seu depoimento relembrou a pobreza da família numerosa, a luta do pai para sustentar a família e como sua avó paterna morreu queimada. Relembra como detestava o trabalho na lavoura, como saía escondido do pai para ir à escola e como isso motivou a casar-se muito nova. Narra como o marido, que era muito mais velho, morreu depois de sete anos de casamento deixando-a com cinco filhos para criar. Fala sobre o atual marido, Seu Bené e sobre sua vida após a viuvez do primeiro marido.

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História completa

Lembrei de quando eu ia dormir com a minha avó. Minha avó era velhinha. Ela morava sozinha. Eu tinha medo de ficar no escuro. Lá não tinha luz, minha avó alumiava com a luzinha com óleo que ela punha na lamparina; outra hora com pedaço de candeia, pedaço de pau, que ela acendia o fogo. Acendia aquele pedaço de madeira lá. Eu e minha irmã dormíamos lá no quarto dos fundos de um casarão. E a minha avó dormia no outro quarto. A gente amanhecia o dia com o nariz cheio de cinza, fumaça de querosene, fumaça de óleo. A minha avó tecia e fazia colcha para vender. Ela tinha uns animais, uns carneiros, tinha terra e umas vacas. Minha avó chamava-se Maria da Conceição, mas todo mundo a tratava como Maria Rosário, por causa do marido dela chamado Joaquim Rosário. Ela era mãe do meu pai. E a mãe da minha mãe se chamava Augusta, mas essa eu não conheci não. A gente era pobre, faltava muita coisa em casa. Para você ter uma noção, quando a gente foi criada, lá não tinha luz, as casas não tinham banheiro, tomava banho de bacia. Nem prato a gente tinha. Comia na cuia. Na casa da minha mãe, eram quatro depois de mim. Antes de mim tinha uns seis mais. E ainda tinha uma, que era gêmea comigo, essa morreu com três anos. Minha mãe teve 13 filhos, 12 partos, 13 filhos e um adotivo. Nós dormíamos igual gato, porque dormia quatro numa cama que hoje, se dormir um, já não pode ter outro. Ela mandava a gente ir dormir com a nossa avó porque a nossa avó morava sozinha e ela já era de idade. Mas justamente no dia em que não foi ninguém dormir com a avó, a avó morreu queimada. Ela andava com uma mulambada de panos nas costas, e ela foi para a beira do fogão, pegou fogo lá na roupa dela, ela saiu correndo pela casa afora - ela morava num casarão grande - e foi caindo pedaço de pano queimado pela casa afora. Um tamanco ficou em cima do fogão, outro ficou lá no chão, tinha um pedaço de pano queimado dentro da vasilha de água, porque ela não tinha água encanada, tinha aqueles baldes, e enchia de água. Acho que ela foi pegar água para jogar, caiu pedaço de pano lá na vasilha de água dela. Um neto dela lá, chegou lá, viu que a casa estava aberta, tinha as janelas, dormiu com os janelões abertos. Aí, achou estranho. Era cedinho, o dia estava nem clareado direito, aí ele olhou no buraco da chave, a viu caída embaixo de um monte de pano. Ele voltou, falou com a mãe dele, foi na casa da minha mãe. Quando chegou na casa da minha mãe eu tinha levantado, estava lavando o rosto na bica - porque lá em casa também não tinha água encanada. Minha mãe me chamou. Naquele tempo não era como hoje, que tinha que levar no IML, que tinha que fazer um monte de exame. Fez caixão. Naquele tempo, o povo fazia caixão, ficava batendo a noite inteira, fazendo aquelas marmotas daqueles caixões de tábua, forrava de pano. Até hoje eu lembro do caixão da minha avó, com pano estampado de roxo. Naquele tempo, não tinha telefone, nem estrada direito não tinha. A vida do pessoal da roça já foi muito sofrida. Todo mundo comia junto. A gente sentava na cozinha, cada um com uma cuia na mão. Comia a janta que ela fazia, o almoço lá: feijão, arroz, angu, abóbora. Comia carne só no dia em que matava porco. O dia em que matava frango. Não comprava carne. Só comia quando tinha em casa. Só comprava o sal. Comia tudo colhido na roça. Eu sofri muito limpando arroz no pilão. Cruz credo! Tinha que moer cana para fazer o café. Moía para fazer a garapa, tirar o caldo da cana para fazer o café, para fazer a broa. A vida nossa foi bem sofrida. Limpava o café, colhia, limpava, torrava. Todo mundo cuidava. Todo mundo tinha serviço. Minha mãe punha todo mundo para trabalhar. Começava a trabalhar com uns dez anos. Eu comecei a trabalhar mais velha, porque eu era “aniquilada”. Tanto é que eu nem cresci. Mas a gente ajudava meu pai na lavoura. Desde quando começava a arrumar a terra para plantar o milho. Eu também ia para a roça, mas eu não gostava de ir. E nem aguentava muito. Eu ia para fazer número, porque chegava lá eu morcegava bem. (risos) A escola era de manhã, eu levantava cedinho para sair escondido do meu pai, porque ele falava: “Hoje não vai à escola, não. Hoje nós vamos capinar milho”. Aí eu vazava. Quando era de noite, eu ficava escondendo do meu pai, de medo dele me bater. Mas ele não batia, não, só ameaçava. “Amanhã você vai ver se você não vai para a roça”. Ele falava comigo: “Amanhã você vai, sim”. No outro dia, eu saía cedinho de novo, escondia dele. Quando eu entrei na escola eu tinha sete anos. Nós andávamos distância longe. Não tinha merenda na escola, a gente passava uma fome! Quando chegava da escola, a gente comia alguma coisa e ia trabalhar. Ia buscar uma lenha ou limpar um café ou varrer ou cascar um milho. A gente tinha obrigação. Todo mundo tinha. A gente não tinha muito tempo de brincar, não. Às vezes a gente brincava, quando as meninas brincavam de pular corda, brincava de rolar na areia, nem boneca a gente tinha não. Brincava de rolar na areia lá, brincava na areia, de pular corda. Fazia roda e ficava lá cantando: “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...”. Era pobre, mas a gente era feliz. O mundo que a gente conhecia era aquele. A gente não conhecia outros mundos. As minhas irmãs mais velhas do que eu casaram, todas elas, com 17 anos. Minha mãe era muito brava. A gente arrumava uns namorados, ela não aceitava, arrumava outro, não aceitava. Só sei que eu casei com ele, não era minha intenção de casar com ele, não. Queria casar com outro, mas minha mãe não deixava. Mas ele gostava muito de mim, pois é com esse que eu vou casar. Ele é velho, mas, pelo menos, eu não vou bater enxada para o resto da vida sofrida, de ir para a roça bater enxada. A gente viveu, graças a Deus, sete anos, até bem. Eu fugi, acompanhei ele, mas a gente casou logo uns três dias depois. Fugi com ele. Ele era doido por mim. Tinha 17 anos e meio. Fui para a casa dele. Ele morava lá no casarão, no Palmonal. Ele não tinha dinheiro, mas tinha condição de tratar de mim sem precisar de eu ir para a roça. Se eu casasse com um rapaz que me levasse para a roça, para ajudar a bater enxada, eu acho que eu o largava no mesmo dia. Eu queria era sair daquela vida de bater enxada. Eu gostava dele, mas não era aquela paixão. Ele era mais velho, não podia mais casar em comunhão de bens, aí nós casamos com regime de separação parcial de bens. A partir daquele dia, as coisas que ele comprou, aí eu tinha direito. Aí depois, quando ele morreu, eu mandei inventariar as terras, a parte que me tocava eu já mandei colocar no nome das meninas. Só reservei a casa. Eu tinha as filhas. Tenho as filhas, que eram filhas dele. Quando eu engravidava, que chegava a época de ganhar, eu ia lá para a cidade, para a maternidade. Com ele eu tive cinco: quatro meninas e um menino. Se eu, hoje, voltasse àquele tempo, acho que casava com ele de novo. Ainda mais se eu voltasse àquela vida sofrida que eu tinha! Minha mãe não quis deixar eu morar lá, só com as minhas crianças, porque lá era meio deserto, onde ficava, e minhas crianças eram todas pequenas, tanto fez até me levar lá para a casa dela. Aí foi difícil. Com cinco crianças pequenas, morar com pai e mãe, e os irmãos! Eu comecei a namorar, aí que o bicho pegou! Nossa Senhora! Aí a minha mãe ficou brava: “Mulher viúva não namora”. “Que não namora o quê? Eu estou nova, com 25 anos. Agora que eu vou viver a minha vida, que não vivi quando era mais nova”. O único namorado, quando eu fiquei viúva, que eu arrumei, foi o Bené. Namorei mais ninguém, não. Uns oito meses depois comecei a namorar. Até que as crianças se deram bem com o Bené. Ele não os maltratou, não. Daí, eu e o Benevides fomos morar juntos lá no Palmonal. Falavam que eu era viúva, cheia de filho, que o Bené era um bobo de apanhar mulher viúva. Quando surgiu uma vaga aqui na escola, fiquei sabendo, fui lá e conversei com a inspetora e comecei a trabalhar. Benevides achou ruim quando eu comecei a trabalhar, ele não queria de jeito nenhum. Porque eu tinha a pensão de viúva. Tenho até hoje a pensão do outro marido. Mas a pensão é um salário-mínimo, tem que fazer mais alguma coisa. Nunca precisei do dinheiro do Bené para comprar nada, não. Eu sempre me virei. Quando ele começou a ter mais dinheiro, ele logo comprou uma casa lá em Lima Duarte. Depois ele vendeu lá e aí comprou as partes das minhas filhas, pagou direitinho. As terras lá no Palmonão eram das minhas filhas, ele comprou, pagou. Eu não sou apegada às coisas materiais. Não adianta ser apegada, a gente vai morrer e vai ficar tudo por aí, mesmo.

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