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História

Histórias de um taxista português no Brasil

História de: António Alves da Rocha Guimbra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/07/2003

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História completa

Identificação/Origem

 Meu nome é António Alves da Rocha Guimbra, nascido em 1º de Maio de 1920, em Espinho, Portugal. Meu pai é António da Rocha Guimbra. O meu falecido pai era comerciante em Espinho, teve açougue que lá chama talho, e era negociante de gado, e tinha lavoura... enfim, diversos negócios que ele teve. Os meus avós trabalhavam na lavoura, tinham gado, tinham vacas, cavalos e trabalhavam também com arrastão, tirando sardinha. A praia de Espinho era onde tinha o Brandão Gomes, que exportava para todo mundo. Sardinha Brandão Gomes era a mais famosa do mundo.

 

Família

Minha família era composta por sete irmãos: quatro mulheres e três homens. Pela ordem: Manoel da Rocha Guimbra, que era o mais velho, Maria da Rocha Guimbra... não, aí já confundo, porque ela tinha o nome da minha mãe, que era Alves... Maria, a outra era Rosa da Rocha Guimbra, depois era o José Fernandes Alves Guimbra, depois era Belmira Alves da Rocha Guimbra, depois António da Rocha Guimbra (eu) e Celeste Alves da Rocha Guimbra, que é a mais nova e ainda é viva.

 

Infância

Tenho lembrança que os meus pais iam trabalhar e eu ficava brincando com outras crianças vizinhas até a idade de ir para a escola. Quando tinha seis, sete anos fui para a escola e comecei a minha vida de estudo para não ser analfabeto. Minha casa era uma casa assobradada. Tinha a casa de pasto, para guardar os pastos para o gado, onde tinha currais de porcos, tinha quintal com muita fruta, muito figo, muita maçã, muita laranja, tudo num terreno que lá chamava-se curtinha. Eles falavam quinta, mas quinta é onde tem um terreno maior. Mas curtinha correspondia mais ou menos a 14 mil metros do terreno que tinha entre a lavoura onde se plantava milho, plantava-se trigo, colhia-se batata, nabo, repolho, cebola... E tinha uma outra parte do terreno onde tinha pinheiros e eucaliptos, onde dava um mato que lá chama-se tojo, que a gente com enxada raspava para fazer cama do gado nos currais. Tínhamos bois, tínhamos vacas, tínhamos cavalos, tínhamos dois, três, quatro cachorros em casa. Tínhamos sempre bastante porcos. Três, quatro porcos era para matar quando fosse em outubro e novembro, que era quando começava o frio. Então matava-se esses porcos, de aproximadamente dois anos de vida, de trato em curral, onde o porco chegava a 14, 15, 16 arrobas cada um. E às vezes eu montava neles. Os porcos eram grandes e eu era menino.

 

Pesca de arrastão

Desde que eu tinha mais ou menos cinco ou seis anos de idade eu já estava andando pelo mar, inclusive junto com os meus irmãos e meu pai. Os meus pais tinham arrastão. Para trabalhar com a rede, com as mãos da rede, tem que arrumar 40 homens, entre terra e o mar, pra pôr a rede no mar. E funciona com um barco que carrega um peso muito grande, que tinha cabos emendados um no outro, na corda, Chamamos cabos, a corda, que eram grossos. Então os bois ficavam nove de cada lado puxando a rede porque a rede ia no mar, e era muito comprida. A distância era uns cinco ou seis quilômetros para o mar adentro. A rede era colocada e eles entravam ao longo. Punha primeiro entre uma mão, depois punha o pescado lá no saco, porque pra pescar aquilo, a sardinha, era nas mãos que fazia isso. E o saco vinha atrás, quer dizer... e a sardinha, até chegar na praia, vinha tudo na frente da rede ali, do saco. Quando chegava, a sardinha embocava tudo para dentro do saco. Eu era com idade de seis, sete anos, oito anos, às vezes saco de sardinha, de peixe, da minha altura. Espalhavam assim e vendiam aquilo em lotas... se chamava lotas os lotes de peixes. E vendiam para o povoado, para quem dava mais... Tinha um pessoal que ia comprar, que já carregava em caminhões, carregava em carros de bois, que antigamente tinha mais carros de bois, não tinha quase caminhão. E iam vender para as aldeias fora. Tinha um pregão para a venda. Tinha aquele pessoal que estava habituado, principalmente os chamados labarejos, que são os peixeiros, que eram os pescadores, e eles sabiam e apregoavam: “Um lance. Quem dá mais?”

 

Brincadeiras de criança

Ah, o normal era o futebol, que a gente ficava jogando. E lá tinha um próximo de onde eu morava, tinha o largo que era da Prefeitura, que lá chamava Junta da Freguesia. Então nós jogávamos peão, jogava botão, fazia barra... Quando eu era menino eu brincava, eu trepava nas árvores, eu fazia miséria Ia por cima dos telhados... E reclamaram que eu atirei umas pedras, eu mais uns outros, numa casa lá à beira da escola. E eles: “Ah, fazia tudo isso?” Falei pra filha: “Fazia tudo isso”. Não era que eu queria prejudicar, mas às vezes a gente escapava. Às vezes caía uma pedrinha em cima do telhado do vizinho, E vinha reclamar e eu disse: “Oh, não fala não para o meu pai, se não me batem”.

 

Escola

Entrei para a escola com seis para sete anos. A escola era puxada. Eles exigiam muito da gente. Na verdade, eu fiz o quarto ano do grupo, mas eu tinha que saber tudo: geografia, história, matemática... Eu saí com 11 anos da escola. Eu não quis estudar e parei. Eles queriam que eu fosse para um colégio de padre, estudar para ser padre. Eu cheguei a ir em Rezende falar com o Bispo, que era diretor do colégio, amigo do meu falecido pai, que tinha sido colega dele em Vila Nova de Gaia. No início estava já tudo certo para eu ir, já tinha até roupa pronta, tudo... E ele me mandou um livro muito bacana, mas tudo na base da religião.. E então esse senhor veio lá para me levar, e eu disse: “Olha, eu não vou”. Disse ele: “Mas Toninho, mas por que você não vai?” Eu disse: “Olha, eu não vou. Não vou porque...” E ele disse: “Mas qual é o motivo?” “Olha, eu vou falar a verdade. Em primeiro lugar, do jeito que eu li no livro eu vou com muito rigor, e eu não tenho liberdade de nada, eu não posso ir aonde eu quero, não tenho a vida mais livre. Para ser padre, eu tenho que ser um bom padre. E eu tenho certeza de que eu não vou ser um bom padre”. Eu falei assim mesmo. Mas por quê? Porque eu tinha 12 anos, mas já olhava para as meninas... Isso é falar a verdade, hein? Então eu já não vou ser um bom padre. E insistiram, e veio minha mãe e queria que eu fosse de todo jeito. E eu disse: “Eu não vou”.

 

Comércio de gado

Com 12 anos meus pais me puseram para trabalhar na lavoura. E andava com gado, chegávamos a ir às vezes 15 quilômetros, 30 quilômetros a pé buscar gado e levar gado, que eles compravam dos lavradores e depois vendiam para outros lugares, para outros lavradores. Eu ia sozinho e se ia com mais gados iam empregados, ia irmãos, irmã, que era pra tomar conta deles nas feiras. E como tal vendia, e comprava outra vez. Às vezes vendia gado novo que servia para trabalhar, e quando era gado já cansado, magro, a gente trazia de novo aquele gado para engordar em Aveiro. A zona de Aveiro tinha muitas pastagens boas. Íamos a pé, levando o gado a pé. Meu falecido pai ia de galera ou ia a cavalo. Saía mais tarde, porque o cavalo andava mais. Se saía às duas horas ele saía, por exemplo, às cinco, porque durava seis horas pra chegar lá. Seis horas e às vezes mais. Trinta quilômetros a pé. E depois chegava lá, vendia o gado ou não vendia... Se vendia às vezes vinha embora na galera com o meu pai. Se não vendia voltávamos outra vez a pé para casa. Saía, por exemplo, às seis, sete da feira... ia em feiras que se vendia em largos, e a gente voltava a pé, chegava na nossa casa quase meia-noite, às vezes mais. O caminho antigamente era de terra e às vezes chovia, tinha até buracos, atoleiros em que enfiava às vezes o pé, e o pé ia por terra abaixo. Quando eu tinha nove, dez anos é que virou asfalto. Começou o que se chamava caminhonete, aqui é caminhão e lá é camião, não é nhão.

 

O Porto

Eu ia ao Porto muitas vezes. Atravessava o Porto e ia até Matozinhos, a pé. Saíamos de Vila Nova de Gaia, entrávamos por baixo da Ponte Dom Luís - tem a ponte de baixo e a ponte de cima, entrava pela ponte de baixo, passava... E ia pela ponte de baixo para não passar pela ponte de cima porque não podia ir descalço, tinha que ir de sapato. De Gaia para o Porto tinha que ir de sapato. Tinha fiscalização. Éramos multados se íamos descalços. Com o sapato, às vezes a gente fazia bolha nos pés, porque a distância é longa. Ficava inchado o pé e a gente tirava os sapatos... estávamos habituados a andar na terra, descalços, na areia... Eu recordo das muitas vezes que fui ao Porto quando criança. Eu ia com o meu falecido pai. Ia no Café Brasileiro, que é encostado com a Estação de São Bento, que era de portugueses que tinham estado aqui e puseram o nome de Café Brasileiro. Era um café e fazia sanduíche, fazia tudo, dava o almoço. E me lembro de ir lá e ir no Rio Alto, que às vezes os fregueses do meu falecido pai esperavam lá no Rio Alto, nos cafés, na Avenida dos Aliados, em frente à Câmara do Porto, em frente à estátua do infante Dom Henrique. Os clientes encontravam-se lá, os compradores de gado. E muitas das vezes também levava o gado à fiança. Se eram conhecidos, o meu pai ia lá para receber capital: “Olha, senhor Álvares, o senhor às tantas horas pode aparecer que nós estamos lá para lhe pagar os bois”.

 

Bois nas ruas

E se podia andar levando bois pelas ruas do Porto. Antigamente passavam cavalos, tinham as carroças... Hoje já não pode, já é proibido. Eu entrava na Rua Santa Catarina, Rua do Loureiro, pela Rua Santo Antônio... A Rua do Loureiro é a que saía ali da Praça da Sé, da Igreja da Sé e da Ponte Dom Luís. Depois entrava na Rua Santo Antônio, subia, ia à Batalha e entrava na Rua Santa Catarina e ia em direção à Constituição, em direção às Antas, onde é o Estádio das Antas, do Futebol Clube do Porto. Íamos para Rezende, íamos para Maia, íamos para a Vila do Conde, que é na direção do Aeroporto.

 

Bebendo vinho

Quando criança eu já tomava vinho na refeição. Tomava, mas limitado, sem exagero. Na hora de comer, se tinha sede, a minha falecida mãe dizia: “Olha, toma um pouquinho de água primeiro para apagar a sede, e depois o vinho é só para empurrar a comida”. O vinho maduro não é na minha região. Na beira-mar era mais o vinho de videira americana, aquela que trepa nas árvores. Ela é doce só na hora em que está madurinha. O vinho maduro a gente comprava de fora. Tinha uma adega próximo de casa, a gente ia lá e trazia sempre uns garrafões de cinco litros para casa. E tomava sempre ao meio-dia e à noite.

 

Refeição dominical

Aos domingos, o meu falecido pai tinha açougue e trazia uns três, quatro quilos de carne e fazia esses picadinhos de carne com batatinha. Nós tínhamos muita galinha, minha mãe matava uma galinha, duas... Aos domingos era sempre isso. Não se comia bacalhau, não se comia peixe, nada. Era tudo à vontade, com essas jarras cheias de vinho, cada um servia o que queria. Na merenda, à tarde geralmente levava-se postas de bacalhau para cada empregado. Contava quantos estavam trabalhando, levava-se um pedaço de bacalhau ou duas sardinhas fritas ou assadas para cada um... Levava-se azeitona portuguesa, daquela que solta o caroço. No meu lugar tem oliveiras, mas elas não dão porque os pássaros comem. Mas já retirado, mais ou menos uns 15 quilômetros em direção à Vila da Feira, de São João da Madeira, era tudo azeitona... No ano passado eu andei por lá mas não tinha nem quem colhesse. Os galhos estavam todos cheios de azeitona E a castanha? A castanha, estava tudo carregadinha de castanha. Coisa linda, linda, linda.

 

O rádio

Naquele tempo da minha infância não tinha rádio. O rádio começou a aparecer lá mais ou menos em 1948, 1949. Na Copa do Brasil, em 1950 eu estava com 30 anos fui na casa de um cunhado, que já morreu, para escutar o rádio. Ele era marceneiro e ele tinha um radiozinho lá. Foi a primeira vez que eu assistia a uma irradiação. Inclusive o rádio dava umas interrupções, ficava zoando e não deu para escutar direito. E na hora que o Uruguai marcou o segundo gol eu ouvi choro e grito no rádio... E fiquei chateado também, porque estava torcendo para o Brasil. Foi triste. E o Brasil estava ganhando de 1 a 0 no início. Depois eles empataram e marcaram o gol da vitória quase no fim do jogo.

 

Jogo de futebol

Com sete anos fui ver o Vasco da Gama jogar com o Futebol Clube do Porto. Fui na feira dos Carvalhos, que era próximo, a quatro quilômetros do Porto, e eu fui junto com um primo meu que já faleceu também. E ele falou: “Toninho, vamos ver o jogo, vem comigo”. E eu fiquei torcendo para o Futebol Clube do Porto desde aquele tempo. O estádio do Futebol Clube do Porto era pequeno. Era o Campo da Constituição. E depois, quando eu vim para cá, eles já estavam fazendo o Campo das Antas, que é já fora do Porto. Naquele jogo com o Vasco da Gama empataram 1 a 1. Depois teve outro jogo, e aí o Porto ganhou de 2 a 1. Quando o Vasco da Gama foi lá jogava Soares dos Reis, jogava Pocas, jogava Vianinha, que era brasileiro, jogava Otávio... Na frente jogava o Valdemar Motta, jogava o Acácio Mesquita, jogava o Pinga... que este Pinga que esteve aí na Portuguesa de Desportos apelidaram ele de Pinga por causa do Pinga de lá. E jogava Pocas, no meio do campo Carlos Pereira, era centro médio, que era da Ilha da Madeira, tinha vindo da Madeira... O Pinga também era Madeirense, ou dos Açores.

 

Vila Nova da Gaia

Vila Nova de Gaia era uma vila que praticamente já podia ser cidade, mas como já estava aderida à cidade do Porto, continuou no mesmo esquema. Tinha muito movimento, muita importação, muita exportação, que entrava lá e saía de lá, que eram os azeites, o vinho do Porto e tudo em geral... os barcos pequenos, em pequena escala, porque o Rio Douro é um rio bom, um rio fundo, mas não dava para vir barcos em grande escala, para entrar dentro do Rio Douro. Era considerada vila, mas era uma cidade já muito boa. A Companhia União Fabril era dentro da estação de Vila Nova de Gaia, nas Devessas. Eu morava em Espinho e todo dia ia e voltava para casa de comboio. Tinha que sair de casa mais ou menos às seis horas para tomar o trem das seis, seis e dez, pra chegar em Vila Nova de Gaia na hora de pegar o serviço.

 

Porto, anos 40

Era uma cidade muito boa, muito bonita, pitoresca, onde a gente podia ir à vontade, passear noite e dia, mas sempre, naquele tempo do Salazar, sempre dois em dois. Não podia andar de quatro em quatro porque não era permitido... Depois das dez horas da noite, era silêncio. A gente não podia andar em turma porque tinha o policiamento de rua, tudo policiado. Em todas as esquinas e quadras tinha um guarda. E se a gente em algum momento começava a cantar, atrapalhando o silêncio da noite, os guardas falavam: “Por favor, não andem em grupo, evitem barulho, já é hora de silêncio”. E a gente: “Pois não, seu guarda, muito obrigado, boa noite”. E eu até gostava daquela maneira porque havia respeito e havia ordem, e a gente podia andar noite e dia e ninguém mexia com a gente. A Rua das Flores, a Rua Loureiro, a Rua Santo Antônio, a Rua Santa Catarina, a Avenida dos Aliados... e a parte da Cordoaria, onde tem o Hospital Santo Antônio, que é próximo do jardim da Cordoaria, que é o maior hospital do Porto... e o Hospital São João, que é para quem vai para o campo da aviação internacional. A Rua Boa Vista era uma avenida muito bonita. Era cheia de árvores, e passava o bonde... aqui chama bonde, lá chamava elétrico, e tudo muito bem, os ornamentos que tinham na avenida eram ótimos, porque as árvores eram muito bem tratadas, muito bem podadas. Da Cordoaria, onde tinha a cadeia, a gente passava e eles ficavam pedindo para a gente mostrar umas moedas. E lá quase não tinha essa coisa de visitar os presos. Tinham muitos que ficavam detidos às vezes meses sem ter visita. Cadeias, celas só de um cada um e não tinha sol, não tinha nada. Quando eles saíam de lá, saíam branquinhos, saíam às vezes até com o corpo encolhido. O castigo lá era bravo. Não é que nem aqui, que eles vão para o futebol à vontade e ficam fazendo esporte. É o grande mercado que tem no Porto. E aqui é a Cordoaria, onde também tinha um grande mercado, mas estão fazendo o metrô e então acabaram com aquele mercado. Era um grande mercado, onde a gente chegou a levar verduras para vender.

 

Porto, vida noturna

Íamos dançar em casas noturnas, íamos em bailes, e aprendi a dançar muito bem. Eu dançava praticamente todas as danças. Inclusive fiz parte de um conjunto de dança e cheguei a me apresentar no Coliseu do Porto, que o bispo Edir Macedo quis comprar e depois deu pra trás porque lá queriam pôr fogo neles. O Coliseu do Porto é muito bonito. Já é antigo, o Coliseu do Porto deve ter uns 60 anos já, porque foi feito eu devia ter os meus 20 anos. Peguei a inauguração dele. Muito bonito. Assisti muita peça de teatro muito bonita lá.

 

A futura esposa: Madalena

Todo mundo a chamava de Leninha: Leninha, Leninha. Comecei a namorar a minha esposa por intermédio de um colega. Esse colega estava interessado nela. E eu conhecia a irmã mais velha dela, mas a mais nova eu não conhecia. A nova era baixinha, a outra era mais ou menos normal, quase da minha altura, mas forte, e não era tão bonita. Aí, chegou na véspera de Santo Antônio, no dia 12 de junho, eu sabia que ela e as irmãs vinham sempre, tinham aqueles arraiais à noite. Eu, como tal, de fininho fui ter com ela. Cheguei para ela e disse: “Sabe dançar?” E ela disse assim: “Senhor Alves, eu não sei dançar, senhor Alves, eu não sei”. E eu disse: “Não faz mal, eu ensino. Vamos”. E ela foi. E aí eu disse: “Tem compromisso?” “Não, tem um moço aí, o senhor já andou com ele e com os colegas aí, passeando... Mas minha mãe falou para eu despachar e eu despachei ele”. E eu disse: “Mas então sendo assim eu posso acompanhar você até em casa?” E ela: “Ah, pode sim”. Eu vi que ela ficou contente, e disse: “Olha, filha, eu estou gostando da vossa maneira de agir. Se por acaso der certo, os vossos pais não forem contra, quem sabe nós vamos ter um futuro muito feliz, muito glorioso na vida?” Ela sorriu e disse: “Quem sabe?”. Eu gostei. Namoramos dois anos e meio. Ela era muito bacana, mas ela ficava com medo de falar para o pai que ia casar. E eu falava: “Filha, fala para o teu pai. Fala que eu estou a fim, eu já estou chegando aos 30 anos, estou com 29 anos. Eu estou cansado desta vida...”

 

Casamento

Casei-me em 19 de março de 1950. Foi um dia muito bom, muito gostoso, muito bacana. Teve uma festa espetacular, um banquete fantástico na casa do meu sogro, que tinha uma casa muito grande. Teve valsa, teve tudo... Foi muito bom, muito bom mesmo. Fomos de carro, que era retirado mais ou menos 17 quilômetros da Igreja da Sé. Eu mesmo tratei sete carros de praça, todos de amigos meus. Eu não quis casar lá em Espinho, minha terra, nem na terra dela, que era em Anta. Fui casar no Porto, na Igreja da Sé. Tinha muita gente. A igreja não era muito grande, é uma igreja muito antiga. Foi um casamento ótimo, muito bom, mas o meu pai tinha morrido havia sete meses... se fosse com o meu pai vivo tinha sido um casamento fantástico.

 

O trabalho de capacheiro

O meu primeiro trabalho foi lá em Espinho mesmo e o dono da firma chamava-se Eliedoro. Eu era capacheiro. Capacheiro, tapeceiro, tapeçaria. Capacheiro trabalhava com teares. Aqui se chama tapeceiro, mas lá tapeçaria é a gente que fazia o artigo, que é o tecido. Depois do Exército eu fui fazer a mesma coisa em Vila Nova de Gaia. Foi em 1943, na Companhia União Fabril. Eu trabalhava fazendo tapetes, carpetes e passadeiras... trabalhava mais em passadeiras, que eram essas passadeiras antigas que tinham desenhos de espinha e de quadradinhos, que se punha nos corredores ou nas escadas. A Companhia União Fabril era dentro da estação de Vila Nova de Gaia, nas Devessas. Tínhamos que pegar às sete e meia e saía às cinco e meia. Tinha que sair de casa mais ou menos às seis horas pra tomar o trem e chegar em Vila Nova de Gaia na hora de pegar o serviço. Demorava mais de uma hora para chegar lá. Eu trabalhava de pé e sempre de apoio com a perna esquerda, e a perna direita é que funcionava pra maquineta... chamava maquineta a máquina, Em cima, ela não tinha as carrelhas, tinha umas talinhas e as talinhas tinham uns fios que faziam isto assim. E aquelas talinhas em cima tinha um quadrado, a gente batia e aquelas carrelhazinhas enfiadas nas talas faziam as espinhas ou faziam os desenhos. Passava a trama, o fio, que chamava trama. A trama era tudo igual, era fio normal. Se era, por exemplo, vermelho e verde, eles davam a cor da trama também vermelho e verde. Trabalhei com isso, era isso que eu fazia. Tinha o pessoal mais novo que estava aprendendo, que enchia as lançadeiras para a gente e a gente só estava lá trabalhando. E para enfiar tinha que saber enfiar. Não eram todos que enfiavam, só tinham dois lá que sabiam enfiar. Quando fui pra lá eu estava mais ou menos, mas ainda não estava sabendo bem, porque onde eu tinha trabalhado eu aprendi, mas eu aprendi por mim, porque eles não ensinavam, não. Eles achavam que se ensinasse a todo mundo ia abrir concorrência. Eu aprendi tudo isso. E depois, quando fui para lá, os outros enfiavam no início para mim. Um que era meu amigo, que se chamava Armênio, falou: “Guimbra, você está precisando aprender”. Eu disse assim: “Não, mais ou menos eu sei, mas eu gosto de trabalhar assim, eu vou levar as amostras para casa e em casa eu estudo”. Às vezes fica até às duas, três horas da manhã estudando, vendo os fios, apontando as coisas e anotando num cadernozinho... E chegava lá, pegava e começava a enfiar. O gerente, que fazia a contabilidade, ficou muito contente e disse: “Parabéns, estou vendo que você tem um pouco de cabeça para isso”. Não era qualquer um que sabia enfiar e eu aprendi a fazer tudo isso.

 

Relações de trabalho

Trabalhavam mais ou menos 200 pessoas nessa fábrica. Tinha um ou outro que naturalmente achava que eu estava passando na frente deles, porque eu era muito rápido, era novo, era esperto. Enquanto eles faziam, por exemplo, 50 metros, eu cheguei a fazer 100... Muitos ficavam com dor de cotovelo. Mas tudo bem, eu apaziguava, eu respeitava os mais velhos, eu respeitava muito eles. E às vezes saíamos fora da estação, tinham lá umas lanchonetes, às vezes comia-se um bacalhau... Eu era solteiro e eles eram casados, tinham famílias. E a vida era sempre um pouco dura. E eu era solteiro, não precisava dar nada em casa porque os meus pais não precisavam. Até às dez, dez e meia, ainda tem sol no tempo do verão. Então eu chegava em casa eram seis e meia, mais ou menos. Então, o que eu ia fazer? Chegava, tirava a roupa, tirava a gravata, punha as botinas, botinas brancas, e ia para terra. Calça de trabalho, lavrando a terra, a rancheira, essa rancheira que aqui usam para andar por aí, sabe? Isso é o que a gente usava lá para lidar com o gado, para lidar com a terra, era isso. Eu ia bem vestido ao trabalho. Chegava lá, ia lá no vestiário, tirava a roupa toda, punha lá tudo certinho, tirava as meias e punha uns chinelos, que era no tempo de frio, uns chinelos fechados, com lã por dentro para esquentar o pé. Punha uma calça usada e às vezes só de camiseta, camiseta dessas sem manga ou com manguinha curta. Só de camiseta para ter agilidade, e às vezes era suar todo dia, escorria o suor. Eu tinha sempre lenços, levava lenço para limpar o suor. E era assim o trabalho, trabalho forçado mesmo.

 

Vinda para o Brasil

Eu saí de lá no dia 13 de março de 1951. Saí de Lisboa, do cais de Alcântara, Belém. Eu, minha esposa e a minha mãe. Vendi tudo, as lavouras, vendi tudo. Entreguei as terras a um caseiro. Do Brasil a ideia que eu tinha era só no pensamento, porque tinha dois irmãos já aqui, e eles sempre se correspondiam, a gente escrevia uns para os outros. Eu resolvi vir embora por causa de algumas coisas que estavam se passando no início do meu casamento. Pedi a carta de chamada e vim embora. O bom é que tinha já dois irmãos aqui para darem início da minha vida. Eu imaginava que quando chegasse eles estariam à minha espera no Porto de Santos, e realmente foi isso o que aconteceu. Os dois já faleceram foram buscar eu, minha esposa e minha mãe. E viemos diretamente aqui à Vila Madalena, à Rua Luís Anhaia. Minha esposa e a minha mãe ficaram maravilhadas. Eu queria que minha esposa ficasse lá, que era para ela não sofrer nada aqui. Mas ela quis vir. A minha mãe não vinha. Ela tinha duas irmãs e um irmão e achou que se ficasse lá ia ser empregada deles. Então ela falou: “Eu vou junto, eu quero ficar junto”. Eu aceitei e ela também veio. Minha mãe gostava demais do Brasil. Ela era uma senhora de casa, uma senhora que só administrava.

 

Triste travessia

A viagem durou 14 dias e meu filho morreu no outro dia que eu cheguei. O menino tinha seis, sete meses. Mas são coisas da vida, a gente se conformou e temos que partir para outra. Ele ficou doente no navio. Veio muito bem até o Equador. Depois, como o calor era demais, as águas eram ruins e ele não mamava no peito da mãe porque a mãe não tinha alimento suficiente para alimentar o menino. E ele por causa das águas deu bronquite pneumonal nele, desidratação, ficou fraco... Foi ao médico, mas não adiantou. No outro dia de manhã, às cinco horas da manhã mais ou menos, ele morreu.

 

Primeiro emprego no Brasil

Ficamos morando na casa do meu irmão mais ou menos meio ano. Depois eu fui trabalhar na Ford e morar na Vila Prudente. Na Ford trabalhava na seção de peças. Foi o primeiro trabalho que eu tive aqui. Fiquei pouco tempo, mais ou menos uns 15, 16 meses. Aí eu pedi demissão para vir trabalhar com os doces. Mas no início era para eu começar a trabalhar com os doces, já estava tudo preparado, mas o outro irmão que me mandou vir não me deixou ir trabalhar com ele. Falou que seria mal para mim, que não ia dar certo, não sei o quê... Como era irmão mais velho, era rígido... Depois comecei a trabalhar com a venda de doces na fábrica Bela Vista, que era no Canindé. Tínhamos caminhão próprio, chegava lá, carregávamos e corríamos a cidade toda. Pinheiros, Santo Amaro, Aeroporto, fazíamos a Mooca, fazíamos Belenzinho... Cada dia nós tínhamos um setor e fazíamos aquelas coisas já com freguesia própria. Tinha maria-mole, tinha a paçoquinha Amor, tinha o ABC, que era abóbora e coco... Vendia bolacha, vendia dropes, vendia balas, vendia pastilhas, vendíamos lá muitas coisas. Vendia Sonrisal, chocolate, bolacha Aymoré... todas as qualidades de bolacha. A gente carregava o carro e ia despachar. Este foi o trabalho depois que eu saí da Ford. Eu saí de lá para entrar no comércio e poder, enfim, começar a ganhar mais.

 

O bairro da Vila Madalena

A Vila Madalena não tinha asfalto, não tinha nada. Quando chovia, a Rua Aspicuelta fazia valas, da Fradique Coutinho vinham enxurradas de lá de cima, que vinha do lado da Harmonia, do lado da Girassol. Tinha tipo de um riacho que recebia as águas. Da Harmonia, que é alto, aquela baixada, vinha e atravessava no meio da quadra, entre Harmonia, a Girassol e a Fidalga. As águas faziam valas que engoliam uma pessoa. Chegaram a andar com barcos aqui na Rua Pinheiros, ia nadar ali na Rua Pinheiros, quando dava essas enchentes. Os carros não passavam, ficava tudo cheio de água. E a Vila Madalena era isso, antigamente. Tinha aquelas casinhas antigas que agora estão querendo derrubar. Mas era uma vida bonita. Mesmo nesses dias agora de São João, de Santo Antônio, aquilo era só festa. A Luís Anhaia era toda enfeitada com bandeirinhas... todo mundo à noite vinha para a rua dançar... Juntavam-se todos, era uma festa em cada rua. A primeira rua que foi asfaltada foi a Simão Álvares, um asfalto meio ruim, com a chuva ele ficava tudo mole, com o calor ele ficava derretendo. Depois, mais ou menos em 1957, 58, foi quando asfaltaram a Mourato Coelho.

 

Motorista de praça

Trabalhando eu comprei um carro de praça na Xavier de Toledo. Aí eu comecei outra rota, né? Meus irmãos tinham carro de praça. Eu queria ganhar dinheiro, eu queria despontar, eu queria ir pra frente. Sempre tive uma vida boa lá, trabalhando, mas dinheiro no bolso não era muito. Mas sempre tinha dinheiro para as minhas extravagâncias, e para andar, passear, ir para um lado e para o outro. Não era aquele super-rico, mas era uma vida normal, boa, como eu estou tendo agora. Eu não sou rico, mas estou mais ou menos com uma vida bacana. O primeiro passageiro que eu peguei não foi com o meu carro, foi com o carro desse meu irmão que me mandou vir. E fazia lotação do Largo de Pinheiros à Xavier de Toledo. Eu comecei e logo comprei o meu carro. A primeira corrida que eu fiz foi no centro. O passageiro chegou e falou: “Senhor, dá pra me levar assim, assim...” Eu acho que foi ali, Praça da Sé, por ali, corrida pequena. E eu disse: “Pois não, senhor. O senhor conhece bem o itinerário melhor para o senhor?” Ele disse: “Pois não, pode seguir”. E eles entravam no carro, que antigamente a gente dava a mão para o passageiro. Antigamente descia um pegava o outro. Até brigavam uns com os outros. Nenhum outro taxista chegou a encrencar comigo e eu não enguiçava com ninguém. Eu procurava ganhar o meu dinheiro. Eu trazia o meu carro sempre arrumadinho, bem tratado, eu também sempre bem vestido. A gente usava gravata naquele tempo, camisa muito bem passada, que a minha falecida esposa tratava, eu mandava sempre duas, três calças por semana eu mandava para o tintureiro, que tinha um tintureiro encostado na minha casa, e eu andava sempre com o sapato engraxadinho.

 

Confissões passageiras

Tinha passageiros que contavam certas coisas. Às vezes até problemas entre a mulher e ele... E eu falava: “Há relacionamento sério entre vocês no que diz respeito à vida em si? Há respeito mútuo entre os dois? Se há isso, o casal tem que tolerar”. Eles às vezes até admiravam minha maneira de ser. Tem que tolerar, porque o senhor às vezes tem um pensamento, mas às vezes a outra pessoa tem um pensamento até bom. Eu dava conselho, falava. Porque eu sempre tive essa maneira de ser assim. Tinham pessoas que eram espetaculares. Esses Villas Boas. Quantas vezes eu peguei eles? Jornalistas, essas coisas. Eram pessoas fantásticas. Entravam no carro: “Como está?” Era a mesma coisa que estivesse em minha casa. E eles ficavam até admirados da minha maneira: “O senhor gosta desse tipo de trabalho?”, falavam para mim. Eu gosto.

 

Filhos

O filho estudava no Machado de Assis que agora não tem mais, em Pinheiros. O Machado de Assis era aqui onde era a antiga hípica, ali encostado. Era uma escola particular. Eu pagava escola. E a filha também sempre paguei escola para ela, sempre pago. O filho só não paguei no colegial, que ele se formou aqui no Maximiliano. Só para o filho, mas para a filha paguei sempre. Nenhum filho quis ser motorista de táxi. Os dois são formados, estão lá trabalhando de motorista porque não arrumam mais emprego com 43 anos de idade. E ele era formado, perdeu o emprego, foi professor, trabalhou na CESP, parece que 14 anos. O meu filho é esperto, tanto que ele hoje está com restaurante no Parque Dom Pedro. É formado em economia e administração de empresas. E a filha se formou advogada no Mackenzie, mas trabalha no Fórum.

 

Time de futebol

Eu joguei futebol na segunda divisão, em Portugal, no Esporte Clube de Espinho. Aqui torcia para Portuguesa de Desportos e fui conselheiro do clube, no tempo do Teixeira Duarte. Eu me lembro do tempo em que a Portuguesa era quase a Seleção Brasileira... O time chegou a ir na Europa e ganhar os jogos todos, de ponta a ponta. Ganhava de seis, de sete, de oito... E inclusive chegaram a perguntar porque a Portuguesa não era campeã. Mas aqui os juízes sempre roubaram, roubavam a Portuguesa.

 

Sonho e desejo

As coisas do passado são passado, quer dizer, não voltam mais. Sobre o presente a gente tem que ter calma e decidir presentemente. Agora, do futuro, não tenho previsão. Tenho que levar a minha vida calma, do jeito que eu gosto. Não quero interferir na vida de meus filhos. Eu deixo eles à vontade e eles é que decidem. Eu às vezes pergunto, não interfiro: “Vocês são pessoas estudadas, formadas, já têm bastante idade pra executar. Espero que não façam bobagens. Façam sempre as coisas certas, sérias e nada de querer prejudicar os outros e nem prejudicar vocês”.

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