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História

Histórias de um propagandista

História de: José Manoel Ventura
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/11/2004

Sinopse

José Manuel trabalhou em várias empresas, até ser contratado para trabalhar como propagandista-vendedor na Johnson & Johnson. Nesta entrevista, ele nos conta sobre sua infância e sobre as dificuldades superadas na profissão ao longo de décadas. 

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História completa

 

P/1 - Queremos começar fazendo a sua apresentação. Seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R - Meu nome é José Manuel Ventura. Sou paulistano, nascido na Capital, São Paulo. Nasci em 1° de abril de 1932. 

 

P/1 - Fale-me um pouco dos seus pais, nomes, profissão, origem...

 

R - Meus pais eram portugueses. Meu pai [se] chamava Saul Afonso Ventura, morreu com 82 anos, em 1988. A minha mãe também era portuguesa, morreu com 78 anos, em 1977. E… Eles foram uns pais muito durões. Eu sofri muito com eles, porque eram portugueses daqueles antigos. Só eles tinham razão, os outros estavam todos errados. 

Nem gosto muito de comentar minha vida de criança porque eu passei a viver depois dos 21 anos, quando comecei a namorar. Com vinte e poucos anos comecei a namorar com a minha mulher e comecei a me libertar um pouco, porque até essa idade eu não tenho, nem gosto de comentar. 

Eu sou um homem que não teve infância. Não brinquei de jogar bola, não brinquei de nada porque não me deixavam. Não brinquei de jogar vôlei porque quem praticava esporte, para o meu pai, era vagabundo, não trabalhava. Meu pai só via trabalho, trabalho e trabalho, então, não sei jogar futebol, não sei jogar vôlei. Agora, depois de adulto, é que estou jogando um pouco de pôquer. (risos)

 

P/1 - E ele fazia o quê? 

 

R - Meu pai, ele trabalhou... Quando comecei a me entender por gente, ele trabalhava numa sociedade beneficente portuguesa, chamada Centro Beirão de São Paulo, ele era cobrador. Mas nas horas vagas, o serviço que ele tinha que fazer em um mês ele fazia em quinze dias e depois construía. Ele era pedreiro, mesmo, de profissão. 

Meu pai foi o primeiro homem que entrou no túnel Nove de Julho para começar a construção, para começar a fazer os tapumes. Ele foi o primeiro. Tem uma igreja na Vila Mazzei, meu pai trabalhou lá quando tinha nove anos. Foi o primeiro emprego dele lá, como servente de pedreiro. Diz ele que quando tinha que subir no andaime ele chorava de medo. Dizia ele. 

Meu pai foi isso. Sempre trabalhou como construtor. Depois de 22 anos de trabalho nessa sociedade ele saiu e ficou sempre trabalhando por conta como construtor. Construía, vendia, não tinha construtora. Ele construía casa, vendia, construía pros parentes; recebia, às vezes não recebia. Sei lá, vivia desse jeito.

 

P/1 - Como era a condição econômica dele? Ele sempre teve estabilidade?

 

R - É. Eu... Quanto a parte financeira dos meus pais, que conheci, não foi ruim. Não foram ricos. Se bem que quando ele morreu ele dizia que era rico, mas depois que ele morreu a gente viu que não era tanta riqueza assim. (risos) Ele sempre viveu normal, mas o que tinha de bom na casa de meus pais que eu possa dizer era quanto à alimentação. Tinha de tudo do bom e do melhor. E não se comprava… Usava-se muito azeite estrangeiro, português, espanhol, francês, e meu pai não comprava uma lata. Comprava três, quatro caixas, de 36 latas. E toucinho, quando comprava pra fazer gordura era vinte, quinze quilos. Ele ia ao Mercadão lá, e ele tinha dois ou três açougues. Diziam: "Hoje não está bom, você vai em tal lugar." 

Comida na minha casa tinha às pamparras. Comesse o que quisesse à vontade. E nisso enquanto minha mãe foi viva... Depois que minha mãe morreu meu pai ficou um pouquinho muquirana, mas enquanto minha mãe foi viva, não. E minha mãe cozinhava muito bem. A comida dela era muito gostosa, ela não tinha preguiça. 

A minha mãe, apesar de ser dona de casa, também nunca dependeu de meu pai porque ela vendia verduras, depois vendia roupas; ela comprava uma coisa, vendia outra, estava sempre mascateando. Sempre tinha o dinheirinho dela à parte. 

Ultimamente, eles viveram uns vinte ou trinta anos na Praia Grande, na Vila Caiçara. A minha mãe lá tinha plantas, galinhas e criava; vendia ovos, plantas, vendia verduras, roupas e plantava, tudo isso. 

Minha mãe era sempre assim. E tinha um coração… Minha mãe tinha um gênio irascível, duro de se aturar. Pra aguentar minha mãe... Meu pai foi um herói, porque aguentou minha mãe quase cinquenta anos. Minha mãe era de entortar. Meu pai era meio durão, mas era meio... Era mais na mesquinhez, não gostava muito de tomar banho; minha mãe era muito limpa, mas tinha um gênio terrível. Era uma baixinha triste de aturar, só que tinha um coração do tamanho do mundo. 

Ela não podia ver uma pessoa reclamar que ela já ia pegar as coisas, ia dar. Ela chegava na casa de uma pessoa e via que a pessoa estava precisando; no dia seguinte ela fazia uma sacolada e ia levar lá. Minha mãe era assim. 

Ela gostava de flores, de plantas e flores. Ela ia na sua casa [e] via uma planta que ela não tinha; ela pedia muda. Se o senhor negasse, ela roubava a muda. (risos) Ela dava um jeito, ela roubava. Ela dizia: "Esse pecado eu levo." Agora, o senhor ia na casa da minha mãe, via uma planta: "Ah, eu não tenho..." Leva." Já entregava, dava tudo. Minha mãe, para plantar mudas era um espetáculo. Ela enfiava com um dedo e dizia assim: "________ de Santa Marta, se quiser que cresça, se não quiser que vá pro raio que o parta." (risos) Ficava uma beleza. Minha mulher até hoje fala, não entende como é que minha mãe fazia isso. 

Meu pai não, meu pai era mais sisudo. Minha mãe era... Minha mãe, estando num lugar, ninguém estava triste. E os parentes queriam que minha mãe fosse, porque ela fazia todo mundo rir. Ela brincava, contava piada. Minha mãe morreu com 78 anos e não era velha, porque ela era jovem. Ela tinha as dores dela, andava doente, mas ninguém dizia que ela estava. Tanto que antes de ela morrer ela ainda brincou com o médico. Morreu vinte minutos depois. 

Minha mãe foi sempre assim, mas meu pai não. Meu pai era mais sisudo, mais quietão. Ele trabalhava, mas ele era mais... Agora amor, pra mim, pra meus irmãos - a gente dizia amor como a gente conhece, de compreensão, nós não tivemos. Nem eu nem meus irmãos. Somos em três, vivos. 

Minha mãe tinha mais amor pelos animais, tratava melhor os animais do que os filhos; era coisa dela. Mas ela era uma pessoa assim, se ela chegasse na minha casa e minha mulher se queixasse: "Ah, porque eu estou sem isso", no dia seguinte não vinha um; vinha três, quatro. Ela às vezes discutia com minha mulher por bobagens, coisas sem importância. Ela se arrependia, porque via que não tinha razão pra discutir. No dia seguinte, ela vinha e trazia presente pra minha mulher. (risos) Minha mulher não é de responder, é de ficar quieta, e no dia seguinte ela vinha trazer presente pra minha mulher. 

Minha mãe era doida pra dar presente. Já meu pai era meio durão.

 

P/2 - O senhor sabe por que seus pais vieram para o Brasil?

 

R - Eles vieram pra cá no tempo que português vinha pra cá pra ganhar dinheiro. Meu avô da parte do meu pai veio antes, depois veio a minha avó; meu pai chegou aqui com sete anos. Meu avô veio pra cá pra ganhar dinheiro, ter vida melhor, porque a terra em que eles viviam - pelo que eu sei, pelo que dizem -, até hoje é uma desgraça, não tem condições de melhoria.  

 

P/1 - Seu pai já nasceu aqui em São Paulo?

 

R - Não. Meu pai é português. Ele veio com sete anos de lá. A minha mãe chegou aqui com 21 anos, mas o meu avô, pai dela, já tinha vindo pra cá, tinha mandado vir a minha avó. Morreu com 78, quer dizer, viveu 67 aqui no Brasil. 

Minha mãe foi empregada doméstica de várias famílias, inclusive uma que era muito importante na época: doutor Antônio Tavolaro, que era um advogado, [uma] casa onde trabalhou cerca de oito anos. Depois que casou eles ficaram amigos, minha mãe era comadre da filha dele.

Eu me lembro [que] quando era um garotinho, tinha cinco ou seis anos, ele ia lá com o carro - naquele tempo quem tinha carro era rico mesmo. Ele morava aqui numa travessa da [Avenida] Rebouças, a Rebouças tinha aberto naquele tempo. Ele morava [em um] cantinho ali; hoje nem existe mais o lugar onde ele morava, porque passava um córrego, tinha uma casa, e lá no fundo era o ponto final do bonde Jardim Paulistano. Ele ia lá às vezes pegar a gente, no domingo. 

Meu pai estava trabalhando de cobrador nessa época e ia fazer compras no domingo, então ele punha um bilhete: "Saul, estou na minha casa, vai pra lá." Então a gente ia pra lá, minha mãe ajudava a fazer a comida. A gente brincava lá com a filha dele, com o neto dele, a neta dele, e depois esperava meu pai chegar pra gente almoçar. Depois, à tarde, ele levava a gente pra casa.

A mulher desse doutor Tavolaro, quando ela teve a filha, que foi a única, ela ficou paralítica e só sentava com almofada. Pra ir no carro precisava ir com almofadas especiais. [Ela se] chamava dona Felícia: uma mulher espetacular, linda, uma bondade ao extremo. 

Aí foi que eu comecei a gostar de música lírica e música clássica, porque esse doutor Antônio Tavolaro tinha sido tenor no Municipal de São Paulo. Ele era italiano. Eu não sei se tinha nascido na Itália ou se era brasileiro, filho de italiano, mas ele se considerava italiano. Eu ia pra lá e à tarde juntava ele, o irmão dele, que tocava violino, tinha um outro que tocava sax e tinha um outro que tocava... Não me lembro qual era o outro instrumento. A mulher dele e a filha tocavam piano e o doutor Tavolaro cantava. Então, naqueles fins de domingo, eles faziam aquelas cantorias italianas, ______ me punha no colo dele assim, eu era garotinho, e dizia: "Vai ser cantor de ópera, vai ser cantor do Municipal." (risos) Aí eu comecei a gostar de tudo quanto era música clássica. 

Eu vi tocar piano a seis mãos na época que eu tinha cinco anos. Hoje não se vê isso. A quatro mãos era a toda hora, porque a filha, que era professora de piano, e a mãe tocavam. Tinha o irmão dele que tocava também, então eu vi tocar piano a seis mãos. É a coisa mais difícil que existe. E a gente via isso, né? Aprendi a gostar de música lírica, música clássica, e até hoje adoro isso.

Minha mãe foi empregada, teve outras patroas, a maioria delas foram todas comadres da minha mãe. Minha mãe foi uma mulher de vida. Ela era analfabeta, não sabia escrever nem ler, mas tinha uma boa filosofia de vida e ninguém a embrulhava, ela é que era capaz de embrulhar os outros. E minha mãe tinha uma grande vantagem: se ela falasse uma palavra errada e se eu corrigisse na hora, ela ficava uns cinco ou dez minutos parada, repetindo a palavra certa. Depois ela dizia:  "É isto?" E nunca mais ela falava a palavra errada. Ela tinha essa capacidade. 

Era genial, mas tinha um gênio triste. Tanto que com a minha avó, mãe do meu pai, elas brigaram várias vezes. (risos)

 

P/2 - O senhor conheceu e conviveu com os seus avós dos dois lados?

 

R - O meu avô da parte da minha mãe, não. Ele morreu antes de eu nascer, mas a minha avó da parte da minha mãe eu conheci. Da mãe da minha mãe eu tenho a memória mais gostosa que um neto pode ter de uma avó, porque ela era a avó que a gente gostava e ela gostava de todos os netos. 

Quando a avó Gracinda chegava a gente abusava, fazia tudo que não podia fazer quando ela não estava lá. Porque se minha mãe tentasse bater, meu pai dizia: "Já estão me expulsando de casa, eu vou embora." (risos) Então ficava assim. Minha mãe saía, a deixava conosco: "Olha, vocês não podem judiar da avó porque a avó é velha, então vocês não vão abusar." "Não." Então, a gente perguntava: "Então a senhora faz papas?" Ela fazia aquelas papas portuguesas, aquele fubá com mostarda, que era muito gostoso. Ela dizia: "Faço." Então ela fazia pra gente, a gente brincava com ela. 

Ela morreu com quase oitenta anos. Ela não usava óculos e fazia crochê, sem óculos. Ela comprava as linhas de meada e eu ficava dobrando pra ela, né, ela ficava enrolando (risos) e eu dobrando. Ela pegava os netos pra isso e os netos gostavam de fazer com ela. “Vamos dobrar a linha, vó?" E eu ficava, porque ela era muito legal com a gente. 

Todos os meus primos até hoje falam da avó Gracinda com satisfação e orgulho. E ela tinha uns ditados de vez em quando que... (risos) Uma vez, esse eu nunca vou me esquecer. Uma vez vinha uma moça com um nenê recém-nascido, e ela:  "Deixa ver o teu menino?" E a moça mostrou e ela falou: "Olha que coisa linda, Deus que crie para o céu." "Como a senhora está dizendo que meu filho vai pro céu?" "Não queres que crie para o céu, então que crie pra o diabo." (risos) Ela era muito bacana.

O pai do meu pai eu conheci bem, fomos muito amigos, só que eu não convivi muito, não tive tanta recordação boa, porque a minha mãe não se dava com eles, então eu não podia estar com eles. Eles quiseram numa ocasião me levar pra casa deles; meu pai me deu uma surra, minha avó foi lá e ameaçou bater no meu pai. A mãe do meu pai era uma portuguesa alta, grande, forte; ela quis me levar pra casa deles, ficar com eles. Se eu tivesse ficado eu tinha ficado muito bem na vida, mas, infelizmente meu pai não deixou.

Eu ia visitá-los escondido, porque minha mãe não admitia. Ela não gostava deles e então achava que eu não tinha que visitar, que eu não devia fazer carinho pra eles, tanto que pela família do meu pai até hoje eu sou o mais querido dos netos de meu pai por causa disso. Porque eles dizem que eu degenerei, porque eu desobedeci meu pai e minha mãe, porque eu achava que não tinha nada que ver com isso. Eles não gostavam deles, eu gostava, por que é que eu tinha que discutir? Não tinha nada que ver com isso. Eles não admitiam isso. Às vezes, se eu ia na venda - era venda que se chamava naquele tempo, não era supermercado; era venda, empório - e era distante de casa, eu passava pela casa da minha avó. Se eu entrasse pra beber um copo d’água minha mãe, quando eu chegava em casa, me batia, e perguntava o que eu tinha ido fazer na casa da minha avó. Minha mãe não admitia isso. Então às vezes minha avó passava: "Olha, vem cá" e me dava as coisas escondido. E eu não podia mostrar que eu tinha ganho da avó, viu? 

A criação de antigamente era muito diferente da de hoje. A de hoje acho que é muito melhor. As crianças sofrem menos. A gente sofria muito mais naquele tempo. 

 

P/2 - Vamos falar um pouquinho de escola, de formação. O senhor começou a estudar onde? Aliás, o bairro que o senhor morava o senhor também não falou, né?

 

R - Eu morava na Vila Izolina. Hoje muita gente fala Vila Izolina Mazzei, mas não, Vila Izolina Mazzei era uma chácara. Eu morava na Vila Izolina. Hoje a rua se chama Rua Coronel Marcílio Franco, há uns três ou quatro anos atrás chamava-se Rua Feital, e quando eu nasci se chamava Rua do Meio, era de número 90. Essa Vila Izolina quase ninguém conhece porque é pequena. Ela fica nesse pedaço de rua que eu falei, ali perto de onde é hoje a indústria do Otto Baumgart, um pouquinho mais para frente. 

Naquele tempo era uma chácara muito grande, de um tal de Luiz Baldeiro - ele fazia baldes, era um alemão. Depois um outro alemão, Otto Baumgart, comprou essa chácara e montou a casa de Vedacit ali. 

Eu vi nascer a Vedacit no Brasil. O Curt Baumgart, corri muito atrás dele para brigar, sabe? (risos) Hoje ele não me conhece, mas nós somos da mesma época. (risos) 

Eu nasci ali, fui criado na mesma casa até a idade em que me casei. Quando me casei fui morar um pouco mais pra cima, numa travessa da [Avenida] Júlio Buono,  um lugar chamado Vila Etti.

E a minha escola, eu comecei... Primeiramente, a minha professora; eu me lembro o nome dela até hoje, se chamava dona Marina Ferreira Lagrotti. Era uma escolinha paga, se chamava Escolinha São Luiz, na Vila Paiva, que fica um pouco pra cima da Vila Guilherme. Da escola a gente via, naquele tempo, as lagoas que tinha ali naquela baixada onde tem o shopping center, tem o Makro. 

Eu comecei a estudar ali, depois eu estudei no… Até hoje existe, Grupo Escolar Toledo Barbosa, que é na esquina da Rua Maria Cândida com Avenida Conceição - antigamente era Estrada da Conceição. Ali eu fiz o meu curso. Entrei em 1942,  direto no segundo ano; me puseram no primeiro, mas eu estava muito adiantado e passei pro segundo. Fiz ali até o quarto ano. 

Depois eu estudei no colégio ali na esquina da Olavo Egydio com a rua... era o Colégio Prudente de Moraes, que era na esquina da [Rua Dr.] Olavo Egydio com a Voluntários da Pátria, onde tinha o ponto final do bonde Olavo Egydio. Depois ele mudou para a Rua Brás de Arzão, hoje está na Rua Dr. César. Eu fiz ali até o curso ginasial. 

Depois eu fui fazer o curso científico no Colégio Alfredo Pucca, ou Instituto de Ciências e Letras, considerado como ginasial. O dono do instituto era o professor doutor Alfredo Pucca, então ele tinha... No Instituto de Ciências e Letras eu fazia o curso ginasial. O Colégio Alfredo Pucca fazia o científico e clássico, que tinha naquele tempo. Quem ia estudar Letras fazia o curso clássico; quem não ia para Letras fazia o curso científico. 

Eu entrei no curso científico, fiz três anos. Era na antiga Rua Beneficência Portuguesa, que é uma travessinha que existe até hoje. Hoje não sei se ela [se] chama Beneficência Portuguesa, mas ela vai da Rua da Conceição, que hoje é Cásper Líbero, até a Brigadeiro Tobias. A Avenida Cásper Líbero [se] chamava naquele tempo Rua da Conceição. 

Na outra esquina de cá tinha antigamente a Rádio Gazeta, PRA-6, que era do Cásper Líbero. Era o jornal A Gazeta, A Gazeta Esportiva e tinha a Rádio Gazeta, que só tocava músicas clássicas. A gente cabulava as aulas pra assistir os programas lá. Era um auditório muito bom e tinha grandes orquestras lá. Armando Bellardi, Antônio Sérgio, todos esses grandes maestros do tempo antigo, eu os vi ali. Eu conversei com eles pessoalmente e fui assistí-los pessoalmente. Tanto que ela se chamava “PRA-6, Emissora da Elite”. Só tocava músicas finas, músicas clássicas, e mesmo os programas de músicas brasileiras eram espetaculares. Tinha esse Antônio Sérgio que era maestro de orquestra; ele tinha um conjunto, o Conjunto Totó, que eram músicos da orquestra que faziam um conjunto para tocar músicas populares brasileiras, então a gente ia pra lá. Cabulava a aula, pulava o muro, que devia ter uns dez metros de altura, pulava para a Brigadeiro Tobias e ia pra lá. 

E não se podia chegar atrasado no programa. Se o programa estava marcado pras oito horas, a Rádio Gazeta começava às oito horas, e se você chegasse lá às 7:59 não entrava mais, porque já estava fechado. O estúdio era rigoroso, então a gente sabia os horários, cabulava aula e ia pra lá assistir. (risos) 

A rua se chamava Beneficência Portuguesa porque o colégio ficava desse lado e desse lado ficava a Beneficência Portuguesa, que era na Brigadeiro Tobias. Aquela ruazinha ali se chamava assim, hoje não sei como se chama.

Terminei o curso no Alfredo Pucca em 51 e fui tentar entrar na faculdade em Campinas, que seria a primeira turma da PUC de Direito. Acontece que eu não consegui e poderia até ter entrado lá, se meu pai tivesse dado um dinheirinho. Naquele tempo não tinha dinheiro pra entrar e meu pai não quis dar, embora tivesse apoio de todo o mundo, porque eu seria o primeiro a entrar. Meu tio queria pagar e meu pai não permitiu, então eu fiquei. 

Fui tentar na São Francisco, mas naquele tempo a São Francisco era elitizada. Tinha cinco bancas examinadoras. Quando você começava a ver a relação dos alunos que iam pras bancas você sabia quem ia ser aprovado e quem não ia, porque tinha determinadas bancas que só entravam as grandes famílias de São Paulo. Esses eram aprovados, os que não tinham pedigree não entravam nunca, então eu desisti. 

Fui tentar fazer a Álvares Penteado, Ciências Contábeis ______. Fiz o curso o tempo todo lá, um ano de cursinho. Quando fui fazer o exame - faltava um exame pra vencer - meu pai chegou pra mim e disse: "Olha, vou pra Santos e você não pode sair porque precisa tomar conta da casa." "Mas eu tenho exame." "Não tem nada que fazer exame, fica aqui." E tinha que fazer, se não apanhava. 

Eu não fui, perdi o exame. No ano seguinte eu comecei a fazer outra vez, me chamaram e [ele] disse: "Olha aqui, se tu quiseres entrar na escola, pode entrar. Agora, não conte comigo, trate de ganhar." Foi quando eu comecei a trabalhar na Anderson Clayton. "Trata de ganhar e pagar o teu estudo." E eu já tinha começado a namorar com a minha patroa, aí comecei a estudar e pensar: "Bom, se eu vou trabalhar e ganhar, o que eu vou ganhar não vai dar pra pagar a faculdade. Não vou ter auxílio nenhum. Vou tratar é de firmar minha vida e juntar dinheiro pra casar." E aí eu parei. 

Quando eu tinha 41 anos, em 1973, eu fui entrar na faculdade para provar pra meus filhos que dava pra estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Eles estavam teimando que não dava. Eu falei: "Dá, e vou provar pra vocês." Fazia 21 anos que eu não estudava, não estava em escola nenhuma. Eu fui prestar exame em junho e ainda falei pra minha mulher: "Eu vou prestar exame só pra ver como é que é. Depois eu me preparo e no fim do ano eu entro na faculdade.” Acontece que eu fui lá, tinha trezentas vagas e 1.600 candidatos e eu entrei em 16° lugar. 

Fui obrigado a fazer o curso e fiz, provei pra meus filhos que dava pra fazer as duas coisas, as três coisas. Por sinal, nessa época eu estava numa situação bem ruim, esquisita pra estudar, porque eu estava cuidando de duas famílias. Um colega que era da Johnson tinha sofrido um grave acidente, tinha perdido a mulher e a irmã e ele ficou internado um ano e meio no Hospital das Clínicas, na ortopedia, e quem tomava conta da família dele era eu. O seu Manuel, que era nosso gerente, recebia o dinheiro, me dava, o que precisava eu fazia, e então eu tomava conta de duas famílias. Ainda estudei, trabalhei, não atrasei um dia com o relatório. E eu não sabia, vim a saber depois, que o supervisor tinha ordem de que se eu atrasasse um relatório, se eu atrasasse alguma tarefa, não era pra me falar nada. Mas eu nunca atrasei nada. 

Uma coisa meu pai deixou de bom pra nós. Não, ele deixou três coisas que são importantes. Primeiro, o trabalho, a gente só sabe enfrentar a vida com trabalho; segundo, honestidade, e terceiro, lealdade. Meu pai sempre dizia: "Fale o que você tem que falar pra todos, mas fale dentro da sua razão. Quando você estiver errado reconheça seu erro. Se você for leal e trabalhar, ninguém nunca vai te ofender em nada." Eu, graças a Deus, tenho seguido esse ritmo, ensinei meus filhos desse jeito.

Muita gente fala que honestidade e lealdade é a mesma coisas. Não é. Um cara pode não ser honesto e ser leal. E pode ser leal e não ser honesto. Lealdade e honestidade, uma completa a outra. Honestidade a gente deve ter de nascença, deve trazer com a gente. Lealdade, a gente deve ser leal para aqueles que também são leais com a gente. Mas se a gente for leal, sempre vai encontrar pessoas leais com a gente também. E eu sempre trilhei isso. 

Honestidade é obrigatória. Acho que pessoa que não é honesta não merece viver. Lealdade, aí você tem que analisar várias coisas pra ser leal ou não. E eu... Agora, assim mesmo, se eu amanhã eu estou aqui e vocês fizerem um negócio que eu não gosto, eu chego pra vocês e falo: "Olha, não está certo.” Vou discutir, vou brigar, vou bater meu pé, mas não é por causa disso que vou deixar de ser honesto com vocês. Não é por isso que vou concordar com a opinião de vocês e acabou. Vou ser leal em dizer pra vocês que não estou de acordo, não aceito, é um direito que me assiste. Sempre fui assim, tanto que o primeiro colega que me apresentou na Johnson, quando recebi meu primeiro salário, disse que eu não ficaria três meses lá. Disse que eu era muito ríspido, que eu falava as coisas como eu sentia e não pedia, que tem certas coisas que... E disse: "Olha, quando eu estiver certo ninguém me tira a razão. Quando eu estiver errado, eu reconheço. Se esse for motivo pra eu não ficar, então não vou ficar mesmo.” Só que eu estou lá há 34 anos. Ouço, falando o que eu tenho que falar, discutindo, eles me aceitaram e eu aceito eles. 

 

P/2 - Antes de entrar no aspecto profissional, queria que o senhor falasse um pouco da sua adolescência, de São Paulo, como era naquele tempo, o que o senhor fazia como adolescente?

R - Como adolescente não fiz muita coisa. O pouco que eu fiz foi quando eu estudava à noite, que a gente aproveitava, que não tinha vigia. Mas São Paulo naquele tempo era bem provinciana, dizem os saudosistas, e sou um deles, que aquele tempo era melhor. Eu não digo isso. Acho que cada época tem seu tempo. Sou saudosista, mas não sou fanático. Digo sempre pra minha mulher e pra meus filhos sobre o que é errado, certo, o relativo, não sei, mas não é que era o melhor. Foi uma época. 

São Paulo era provinciana, tinha bonde. A maioria das ruas não tinha luz, água de poço a gente tirava com sarilho - hoje a turma dá risada, muita gente não sabe nem o que é que é isso. 

Eu, na minha adolescência, participei muito de brincadeiras de estudantes. Quando eu estudava no Colégio Prudente de Moraes, era tão provinciano que, veja, a gente morava num bairro e não podia namorar com a moça de outro bairro. Você chegava lá e tinha a turma pra te bater. (risos) Uma vez um colega nosso começou a namorar com uma moça que estudava conosco, e ele foi pro Tremembé. Chegou lá e levou uma surra tremenda. Chegou no dia seguinte, nós juntamos a nossa turma e fomos bater neles. Eu fui lá também, né? Eu estava no meio. (risos) Meu pai não podia saber disso; se soubesse, pelo amor de Deus. 

A gente fazia isso. No colégio Alfredo Pucca eu cabulei muita aula pra ir ouvir música, pra ir... Ali no Bom Retiro (risos) que tinha lá... (risos) Cinema, aprontava em bonde, chocava bonde, não pagava bonde, pegava o bonde aberto pra não pagar. Olhava quantos passageiros tinha no relógio marcado... Olhava onde estava o cobrador - que geralmente era português, quando não era português era preto, né? O cobrador era chamado de condutor, e o que conduzia o bonde era chamado de motorneiro. Não sei por que, mas era assim. A gente olhava onde estava o condutor, via quantos passageiros estavam marcados, o espaço que tinha, sabia o lugar onde tinha que entrar e dizia "já paguei". (risos) Nada ficou provado se tinha ou não pago, né? Era a minha palavra contra a dele, e ele também não cobrava, porque naquele tempo a gente dizia que ele fazia: "Tim-tim, um pra Light e dois pra mim." Todo o oportunista que trabalhou naquele tempo nessa função ganhou muito dinheiro, ficou rico. A Light, coitada, levou um prejuízo...(risos) 

Os bondes eram da Light, naquele tempo, depois veio a CMTC. São Paulo era uma cidade agradável, mais tranquila do que hoje, logicamente. A gente podia andar a qualquer hora da noite, à vontade, que não havia perigo de assalto. O que havia era vigarista, mas o vigarista era um camarada craque, ele era técnico; vinha te cantar e você acabava dando dinheiro pra ele, quer dizer, era um larápio sabido. (risos) Ele te cantava, dizia que tinha que entregar pra Santa Casa, blá, blá, blá. Você entregava o dinheiro pra ele e ficava com um monte de papel na mão. (risos) Mas aí não era roubar, acho que era… Acho que os dois aí tinham culpa, então era isso. 

Mas você podia andar na cidade tranquilo - uma mulher também, ninguém mexia com uma mulher, fosse que hora fosse. Às vezes a gente ficava no bonde olhando, porque quando as mulheres subiam, dava pra ver o tornozelo. (risos) Porque outra coisa não se via, tudo coberto. (risos) 

Era uma cidade gostosa de se viver, alegre dentro de um estilo; não era que nem o carioca, debochado. Ali tinha um ponto famoso, que era a Avenida São João com a Ipiranga. Tinha um bar ali, o Bar do Juca Pato, onde era o Cine Windsor, tinha o Cabaré OK; mais pra baixo, um pouco, tinha o Avenida Danças - até hoje tem, só que naquele tempo era um outro tipo de coisa, então ali vinha os grandes cantores. Tinha o Teatro Cassino Antártica, que era no Vale do Anhangabaú, tinha o Teatro Santana, na Rua 24 de Maio; tinha o Teatro Bela Vista, na Rua Boa Vista. Eu vi Ciro Monteiro, Francisco Alves, Sílvio Caldas... Até junho, quando eu visitava Atibaia, de vez em quando eu encontrava com ele, que dizia: "Oi, meu menino. Como é que você está?" Batia bastante papo com ele, ele me conhecia daquele tempo. 

Quando era mais ou menos uma e meia, íamos pra Canja da Madrugada. Era na 24 de Maio, um barzinho que tinha lá, e a turma dizia que tinha uma canja. Os artistas, o pessoal dizia que tinha um frango que estava lá há muitos anos, pendurado na parede, e quando a gente pedia a canja, o cozinheiro só mergulhava na água fervendo e o frango era o mesmo sempre. (risos) Tinha o Ponto Chic, o primeiro que criou o Bauru; foi criado por um estudante de advocacia que era de Bauru. Ele era pobre, conseguiu entrar na São Francisco, então ele ia lá no Ponto Chic e mandava fazer uma fatia de pão - que na época não era Pullman, era pão de forma - e punha rosbife, uma fatia de queijo, uma de presunto. Essa era a comida dele. Esse advogado morreu há pouco tempo e aí muita gente começou: "Me dá um do Bauru, me dá um do Bauru", porque este era o apelido dele. Ele comia esse sanduíche porque não tinha condições de comer outra coisa. E foi no Ponto Chic que começou. Ele tinha amizade ali e às vezes ele não pagava. (risos) Tem um garçom, não sei se ainda está vivo, atendendo, que era do tempo dele, e contava que muitas das vezes fazia e não cobrava dele porque ele não tinha mesmo dinheiro pra pagar. 

 

P/2 - E o que é água de sarilho, que o senhor disse?

 

R - Sarilho é um tipo de uma manivela, um negócio comprido onde tem um rolo, ali tem a corda, depois desce assim e forma um vão, que nem uma manivela. Você amarra a lata na corda, enfia dentro do poço, a deixa correr no poço e depois puxa a água do poço, que às vezes tinha oito, dez, vinte metros. Na minha casa, quando eu morava na Vila Izolina, eu era encarregado de regar as plantas, e eu tinha que tirar água de um poço de dez metros, carregar no regador e regar. E quando terminava de regar, minha mãe chegava na ponta do canteiro, enfiava o dedo. Se não saísse molhado, regava tudo de novo. (risos) 

 

P/2 - Vamos entrar um pouco na vida profissional então. O senhor começou a trabalhar cedo. Qual foi o primeiro trabalho?

 

R - Se for considerar o não pago, o meu primeiro trabalho foi com o meu pai e minha mãe. Com a idade de cinco anos, naquele tempo não se tinha água encanada em casa, então meu pai enchia um barril desses de cem litros de água, e tinha uma torneira de pau e uma bacia embaixo. Eu lavava a louça ali, depois pegava a bacia quando enchia, jogava a água lá fora e lavava a louça todinha. 

Levantava de manhã cedo, já acendia o fogo. Escolhia o feijão à noite. O fogão era de carvão, era terrível acender aqueles fogões, e aí começou. Depois comecei a tratar das galinhas que tinha sempre em casa, dos cachorros, depois meu pai começou a fazer as construções e eu tinha que carregar os tijolos, catar areia… Tinha uns buracos ali onde hoje é a Vedacit, uns buracões que quando vinha a enxurrada formava areia. Eu ia catar areia com o carrinho e vinha pra cá. E meu pai não reconhecia o trabalho da gente. Dizia que quem trabalhava e vivia às custas de pai e mãe não ganhava nada. E quando me via com o carrinho dizia que eu queria ir ali carregar areia porque eu queria brincar com areia. Eu dizia: "Bacana, brincar com o carrinho e carregá-lo cheio de areia." (risos) Trabalhando o dia inteiro, suando que nem um condenado, correndo do alemão porque o alemão não queria, tinha uma visão: achava que quanto mais areia se tirasse, mais o buraco crescia e mais a rua corria perigo. E ele tinha razão, então ele não admitia. De vez em quando corria atrás da gente, mas eu tinha que catar. 

Depois, nas construções, eu era ajudante para todo o pau, tudo era eu. Tinha um poceiro que fazia os poços pro meu pai e que só trabalhava com a condição de eu ser o ajudante dele. Era trabalhar com o tal de sarilho. Meu pai começou a construir onde foi a chácara do meu avô e o terreno lá era falso, então a gente precisava ir construindo e fazendo a parede do próprio poço. 

A gente trabalhava assim: o sarilho descia, uma lata; eu tinha que encher de tijolo, descia uma tijolo, subia uma de barro, sempre. Eu trabalhava nisso e meu pai não reconhecia, achava que isso não era trabalho. 

Depois, com quatorze anos, fui trabalhar numa confeitaria, também por insistência do meu pai; achou que era o melhor lugar pra eu trabalhar porque lá eles davam almoço e janta. Entrava às sete horas da manhã. Durante a semana, eu levantava às quatro e meia da manhã, acendia o fogão, punha o feijão pra cozinhar, fazia o café, ia tratar das galinhas, dos cachorros, depois tomava banho, me aprontava e ia pra outro serviço. Saía de casa às cinco e meia, e ia pegar o bonde na Olavo Egydio, porque na minha casa não tinha condução. Meu pai me dava, inicialmente era quatrocentos réis, depois o bonde aumentou para quinhentos réis, e me dava dez tostões, que era pra ir e voltar. 

Na Olavo Egydio era ponto final de bonde. Eu não pegava lá, eu descia mais embaixo, na Alfredo Pujol, e pegava o que vinha de cima, de Santana, porque ali já dava pra passar carona. Passava carona, descia no Largo São Bento e ia até à Rua Sebastião Pereira, que era lá na Santa Cecília. Chegava às vezes cedo, ficava sentado lá esperando os dois italianos, Antônio Rosas e Bertini, porque eles é que abriam a confeitaria, eram os donos. 

O primeiro serviço que eu fazia era pegar as pedras de gelo que eram entregues na calçada, e pôr na geladeira pra gelar as bebidas. Depois ia trabalhar o dia inteiro de confeiteiro, fazia as massas, fazia uma porção de coisas. Até hoje sei fazer algumas coisas ainda daquele tempo. 

Esse foi o meu primeiro trabalho. Quando eu saí de lá, com dezessete anos, eu já estava na... No colégio. Inclusive nessa época eu conheci pessoas importantes que iam nessa confeitaria, que era de luxo, a Confeitaria Elite. Vi várias vezes o Leônidas da Silva, a turma toda conversava com ele; conheci naquele tempo uma pessoa que era o representante exclusivo no Brasil da Fiat, porque não havia carros nacionais, era tudo importado. 

Saí com dezessete anos. Infelizmente, nesse país [se] você está em época de serviço militar então você não arruma colocação porque vai servir o Exército, então você não encontra. E naquele tempo era duro porque era a democracia do Getúlio, né? Só se podia dizer amém pra ele, não se podia falar nada. 

Fiquei trabalhando com meu pai mais um tempo. Com 21 anos, falei com meu pai: “Com o senhor não trabalho mais nem um instante. Vou arrumar emprego.” Eu tinha um tio que estava trabalhando na Anderson Clayton e me arrumou lá, aí comecei minha vida profissional. 

Na Anderson Clayton fui trabalhar como auxiliar de escritório, mas graças ao meu gênio saí antes do que devia, porque fui trabalhar [e] prometeram me dar um carro de margarina, que era pra vender margarina, e ganhava-se dinheiro com aquilo. Uma hora eu discuti com um sujeito que estava implantando o sistema IBM - mas não esse de agora, um IBM antigo, que era um trambolho de máquina. Era um negócio pra se organizar, aquilo era um problema... 

 

P/2 - Mas era computador?

 

R - Era, mas não era um computador de agora; eram uns tipos esquisitos, nem dá pra explicar direito. Mas já era coisa moderna, na época, tinha vindo dos Estados Unidos. Eu discuti com o fulano porque ele queria mandar em mim e reagi, tudo porque eu tinha marcado encontro com a namorada. Primeiro dia que eu ia falar com a namorada. (risada) Discutimos, ele era mais forte que eu e eu perdi o lugar, né? Eu discuti porque eles me mudaram de seção e eu assim perdia o carro, aí falei umas verdades e fui demitido. 

Fui trabalhar na Editora Globo, uma grande empresa. Trabalhei muito bem, naquela época o professor doutor Edgar Cavalheiro era o gerente, escritor muito bom. Trabalhei lá quase três anos; saí de lá por causa do canto da cotovia, porque o Mappin me chamou, prometendo um monte de coisas. Depois não cumpriu nada, e um mês depois eu estava na rua, me demitiram.

 

P/1 - Que função o senhor exercia no Mappin?

 

R - Era auxiliar de crediário. Depois saí, fui trabalhar no Sesi [Serviço Social da Indústria] [por] quinze dias. Depois fui trabalhar numa empresa de geladeiras. Comecei como apontador de mão de obra, sem entender nada do negócio.

 

P/2 - O que é apontador de mão de obra?

 

R - Numa indústria, você tem as máquinas e as ordens de serviço. Quando se determina a feitura de uma mesa, por exemplo, se faz uma ordem de serviço, de quantas horas vai levar para ser feita. E tem a ordem de serviço apontando o material que vai levar. Esta ordem de serviço é custo de material. Esta ordem de horas é custo de hora. Somando tudo, no final faz-se o custo e depois se acresce o lucro pra se vender. O custo é isso, e o apontador de mão de obra é aquele que fica na fábrica e vai seguindo. 

Você trabalha na máquina X e está construindo essa parte pra isso. Você construiu, você tem que marcar; isso se chama apontador de mão de obra. Entrei lá sem saber nada disso e me deram um serviço atrasado seis meses, porque tinha um chefe de mecânica lá, um alemão, que não fornecia dados pra ninguém. Tinham saído todos os apontadores de mão de obra. O apelido dele era João Pistola (risos)... E o nome dele era João Pistola. Então me disseram: "Se você conseguir controlar o João Pistola, controla a fábrica inteirinha, porque ele é o líder. Se você não conseguir, vai ser demitido logo.” 

No primeiro dia não veio nada pra mim. [No] segundo dia fui lá pra falar um instantinho com o seu João. "Que cê quer?" Falei: "Eu sou que nem o senhor, trabalhador. Preciso do emprego. Pra continuar no emprego, preciso da sua colaboração. Acho que como nós dois somos trabalhadores, é preciso uma colaboração entre nós. Não quero muito, só quero que o senhor me ponha em dia as mãos de obra. E não precisa nem levar lá, eu venho buscar aqui." "Gostei de você. Você não veio com imposição aqui." 

Quando entrei na oficina mecânica estava assim de colegas que moravam perto da minha casa, que me conheciam. Começavam a me chamar, e pediram: “Vamos ajudar o moço aí.” (risos) O que estava atrasado seis meses aprontei em quatro dias, e depois ficou fácil. 

Depois surgiu lá uma vaga de auxiliar de custo e eu pedi, para ganhar mais, e fui trabalhar de auxiliar de custo na parte de material. Trabalhei, desenvolvi bem o papel, mas depois chegou uma hora que tinha um gerente que era meio parente ou amigo da família Campos Sales, e esse gerente era intocável, não saía. Ele era contador. Todo dia, depois do almoço, saía e ia tomar injeção na farmácia, só que a injeção dele era vermute com rabo de galo, vermute com pinga. Aí vinha que vinha daquele jeito. Ele fumava, a camisa ficava toda suja de cinzas. 

Ele pedia pros outros fecharem o livro de contabilidade, cada um fazia a bagunça que queria, e [no] meu negócio começou a aparecer bagunça por causa de material.  Eu sabia quanto tinha de material em determinada peça. [Quando] chegava lá, não aparecia a requisição. Eu não fechava a ordem, não dava pra fazer o custo, aí começou a dar rolo. Ele dizia assim: "Faz o seguinte: faz uma devolução para o almoxarifado, e uma requisição e você fecha a ordem." Eu disse: "Eu fecho a ordem, mas vou complicar o almoxarifado, porque estou fazendo uma devolução de coisa que não foi devolvida, que não entrou no almoxarifado. Se ele não tem, como pode mandar pra mim?" E nós começamos a discutir. Aí veio uma auditoria e vieram pegar. "Por que não tá fechando?" “Por isto, isto e isto. O chefe quer que faça isto, e não concordo.” 

Como ele era protegido, sobrou pra mim e pro outro gerente. Fomos os dois pra rua. (risos) Fui trabalhar na Cal-Cimento, também eles prometeram uma coisa e não cumpriram; também discuti, saí de lá.

 

P/1 - A Campos Sales, só pra fechar, ela fabricava geladeiras. Que tipo de marca era?

 

R - Campos Sales, mesmo. Era da família Campos Sales. A... O escritório deles era ali onde é a... Na esquina da São João, onde é hoje a... Aquela casa de pneu, esqueço o nome, ali era da família Campos Sales. Eles fabricavam, foram os primeiros a fabricar aqueles quitinetes - fogão em cima, geladeira embaixo -, que era justamente para os apartamentos pequenos que estavam surgindo naquela época. Isso já era em 1956 - não, em 55. 

Em 56 eu fui para a Codil. A Codil era uma distribuidora de livros também, pertencia ao Edgar Cavalheiro, o escritor, que era o gerente da Globo na época que eu trabalhei na Globo. Ele formou [a empresa] junto com o Caio Prado, que era o filho do dono da Editora Nacional, que era na Rua dos Gusmões, esquina com a Rua Guaianazes. Ali era o prédio. 

O filho, Caio Prado, não queria muito com o batente, então o dono da Nacional, que era o pai dele, chamou o Edgar para formar a empresa, para fazer o filho trabalhar. O Edgar Cavalheiro mandou comunicar que só queria um para informante e esse um era eu, para me encontrarem onde eu estivesse. Eu ia passando na rua, encontrei com uma moça que tinha trabalhado comigo na Globo e que me passou o recado. Falei: “Tá bom, estou desempregado mesmo, vou lá.” 

Isso foi janeiro de 56. Fui à Editora Nacional, falei com ele, me perguntou quanto eu queria ganhar, eu disse. Era pra começar dia vinte e me deu endereço: era na Rua da Consolação, acho que 75 ou 85. Até hoje o prédio está lá. 

Fiquei lá três anos. Saí depois que ele morreu de câncer - infelizmente, no dia em que o Brasil se consagrou pela primeira vez Campeão Mundial. Ele era fanático por futebol, são-paulino doente. Ele morreu na Beneficência Portuguesa e infelizmente não viu. 

Quando ele morreu, pensei: “A Codil acabou, porque aí vai começar os urubus em cima.” Não deu outra. Dali a alguns meses eles começaram a fazer umas exigências bobas, pedi demissão, e quinze dias depois eu estava na Exposição Clipper, na mesma função. Só saí da Exposição Clipper pra vir pra Johnson, onde comecei em 61.

 

P/2 - Como é que o senhor entrou pra Johnson? Anúncio em jornal, indicação?

R - Não, foi indicação de um colega que trabalhava, que era vendedor, um tal de Wilson Rossi. O pai dele morreu o ano passado. Ele era muito amigo da gente, foi à minha casa me visitar à noite, ele, a mulher, os filhos - hoje ele está vivendo com outra mulher - e perguntou quanto era o meu salário. Eu tinha recebido naquela época acho que uns dez mil e poucos cruzeiros, uma mixaria. "Como é que você vive com isso? Respondi que cada um vive com o que tem. E aí fui ao bar comprar algumas coisas para servir pra eles. 

Quando cheguei no bar… [Eu] estava casado há três anos e ele ficou dizendo pra minha mulher que gostaria de me levar para a Johnson, porque lá se ganhava bem melhor, havia muitas facilidades. Mas falou: “Sabe, né, o Zé é estourado, o Zé é loucão, não serve pra isso.” E minha mulher tratou de arrumar as coisas: “Não, mas ele mudou muito!” 

Quando cheguei no dia seguinte, à noite, minha mulher falou que o Rossi tinha deixado uma carta. Olhei a carta, que dizia assim: “Eu já fiz a minha parte, agora faça a sua. Compareça à Rua Quirino de Andrade 193, 2° sobreloja, falar com seu Manuel.” Eu disse: “Ah, que é isso aqui?” Minha mulher falou, pá, pá, pá... Aí eu fui na casa dele e ele disse que tinha conseguido uma entrevista pra mim.

Fui me entrevistar com o seu Manuel, que foi um mito na indústria farmacêutica -  Seu Manuel Gonçalves Sanches. Na Johnson ele trabalhou 36 ou 38 anos. O irmão do seu Gimenez. Ele era um homem espetacular. O que ele entendia... Era uma coisa fabulosa. Até hoje muita gente fala dele. Até hoje eu venero a alma dele. Ele era muito severo, mas muito justo. O que era da pessoa era da pessoa e ninguém tirava. 

Cheguei lá, falei com ele, aí ele marcou entrevista com os supervisores. Fiz as entrevistas. Na última vez que eu fui lá, ele falou: "Ah, não tem vaga. Você aguarda que qualquer coisa nós chamamos você.” 

Cheguei em casa e minha mulher perguntou o que deu. E eu disse que deu o de sempre. Que eu não tinha prática de vendas e não tem vaga. O de sempre. 

Ele me falou isso no dia dez de agosto de 61, mais ou menos. No dia dezoito, vinte, eu cheguei na Exposição e meu chefe me deu um telefone, recado para eu telefonar. Olhei e era 35-7580, falar com o seu Manuel. Pensei: “Não conheço esse telefone, não conheço Manuel nenhum, não sei.” Telefonei dali mesmo e atendeu seu Manuel, pedindo para eu ir lá falar com ele sobre o teste da Johnson. 

Depois do expediente fui lá. Ele me disse: "Quero que o senhor comece dia 1° de setembro." E eu disse: "Seu Manuel, eu não posso. Eu tenho mais de dois anos na empresa, tenho que dar os trinta dias de aviso prévio." "O senhor não disse que seu chefe é seu amigo? Então pede pra ele que ele libera." 

Foi duro chegar no chefe, numa época em que o volume de informações começava a aumentar, o pessoal começava a comprar pro fim do ano, então era época de trabalho muito grande. E também [época] que a gente ganhava mais comissão. Cheguei pro Anderaus ______, que pôs a mão na cabeça: "Não pode”, não sei o que." Falei: "É, Anderaus, eu continuo aqui. Abandono a Johnson e continuo aqui. Só que na Johnson eu vou ganhar... Eu ganho aqui dez, onze, quando recebo muito. Eu vou ganhar lá 34, o mínimo. Você me paga 25?” "Não posso." "Então dá um jeito." 

Ele me liberou no dia 26 de agosto e eu pensei: “Ainda bem, até o dia 1° pego uns dias de férias”, porque ainda não tinha tirado. Então cheguei no seu Manuel, falei que estava liberado e que ia começar no dia 1°. E ele disse: "Então começa amanhã mesmo." Pensei: "Entrei bem." 

Aí fui... (risos) E estou lá até agora. Tive vários supervisores, tive bons e maus - maus não, médios. Maus eu não tive ninguém. Já vi muitos colegas na empresa, já vi muitos que subiram, muitos que saíram, já cooperei pra subida de muitos, e graças a Deus, estou lá até hoje. 

Não reclamo da empresa; tive meus pontos baixos, altos. Não é tudo paraíso, tudo alegria, mas os momentos felizes foram mais do que os momentos tristes. Acho uma grande empresa, quero bem a essa empresa. Gosto daquilo que eu faço. Não estou lamentando que no dia 1° de abril vou ter que sair, porque é o fim de carreira - 65 anos, né? Já estou conformado com isso, mas que eu sinto, sinto, porque é uma empresa que eu gosto. Se perguntar pra mim da empresa, não tenho nada que falar dela de mal. Os pedaços melhores superaram todos eles. A minha mulher, graças a Deus, sempre me apoiou, adora a Johnson, então... Estou lá há 34 anos, não me arrependo. Se precisasse ficar outros 34, eu continuaria. 

 

P/1 - Como é que foi o treinamento e o contato com esse setor novo? O senhor nunca tinha convivido com vendas...

 

R - O meu treinamento foi pouco, foi pequeno. Eu entrei lá dia 1° de setembro e naquele tempo não tinha que nem hoje uma estrutura... Era diferente. A época também era outra. 

Entrei lá no dia 26, 27 de agosto. Ficava o dia inteiro lá lendo pastas de produtos, à noite vinha um supervisor e me tomava os produtos, cada dia tinha dois ou três produtos pra estudar. Acontece que o meu treinamento foi meio a toque de caixa, porque eles tinham que pôr um elemento logo no setor.

Eu devia ter demorado uns vinte dias em treinamento, hoje a turma demora muito mais. Naquele tempo eu devia ter demorado… Não eram vinte dias, uns quinze dias; fiquei uma semana. Depois de uma semana, o supervisor - ele vive até hoje, chama Vander Andrade, que eu chamo até hoje de teacher. É um cara muito legal. Ele saiu comigo e me disse: "Olha, vamos sair." 

Fui trabalhar em São Miguel. O primeiro cliente que eu visitei chamava-se Mário Tsugi - aliás, não era, a empresa era Tsugi e Companhia. Era uma farmácia. Eu me lembro que o que eu vendi naquela época parecia um bruta de um pedido. Vendemos duzentos Rarical, quatrocentos Hydrax, quatrocentos Enterocin com neomicina, cinquenta Vagi-Sulfa. Eu pensei que era um pedidão, mas era coisinha pequena. Só pra começar. 

Ele tinha que ficar comigo uma semana. Hoje a pessoa fica até mais, mas tinha que ficar comigo uma semana. Ficou dois dias e meio. No terceiro dia ele ficou comigo até duas horas, foi quando ele me mandou fazer uma propaganda pra um médico português lá na Vila Esperança. Fiz uma propaganda que foi uma vergonha, foi uma droga, não deu nada. 

Nós subimos, ele ficou resmungando. Chegando no Largo do Rosário, na Penha, ele falou: "Ah, a pasta tá aí, as fichas de médico estão aí, as fichas de farmácia tão aí, a literatura, tudo tá aí, e os médicos tão por aí. Eu tenho que ir embora, porque amanhã tenho que apresentar outro cara do Interior; se vira." E saiu. Pegou o bonde e foi embora. 

Fiquei ali sentado no Largo do Rosário e pensando: "Isso não é pra mim, não vou conseguir. Depois da propaganda que fiz lá, não vou conseguir nada. Eu vou pegar essa pasta, o bonde, vou voltar, entregar pro seu Manuel, agradecer e vou voltar pra Exposição." Porque na Exposição Clipper, naquela ocasião, tinha um regulamento que a pessoa que pedisse a conta nunca mais voltaria a trabalhar na empresa. Se eles demitissem, até podia voltar. É o contrário do que a maioria fazia. E na minha ficha, embora eu tivesse pedido a conta, estava escrito assim, que o chefe de pessoal mostrou: "A hora que quiser voltar terá sempre uma vaga", e assinado Nilo de Carvalho, que era o dono da empresa. Pensei: "Vou voltar pra lá." 

Estava assim, pensando. Nisso passou um camarada - não sei quem era até hoje, só vi a pasta de laboratório. E eu pensei: "Se este cara faz, por que é que eu não posso fazer? Vou em frente." Olhei na frente e tinha um médico chamado doutor Antônio Saratani, esse médico existe até hoje. Entrei lá e ele falou pra mim: "Propaganda?" Eu disse: "É, doutor." "Então entra." Entrei e falei assim: "Doutor, não entendo nada de medicamento. Estou começando agora em laboratório, nunca trabalhei, não sei nada, tá? Eu vou falar, se eu errar o senhor me corrige. Se eu acertar, o senhor não precisa falar nada. Tá bem?" Ele começou a rir e disse: "Bom, vá em frente." 

Quando eu terminei, ele disse: "Olha, isso você não fala que os médicos não gostam. Os homens lá mandam falar isto, mas você não fala. Faz desse jeito. Aí fui num outro, um médico japonês, Edson  _______, [que] até hoje está no mesmo lugar na Penha. Eu não visito mais, mas está lá. Ele tem uma característica: quando se fala com ele, não responde. Só acena a cabeça, pra lá ou pra cá, ou pra assim. Cheguei lá e falei a mesma coisa: "Doutor, estou começando. Não entendo nada, não sei de nada. Se eu errar, por favor me corrija; se eu acertar, por favor não me diga nada." 

Não conhecia o médico, não sabia que ele era desse jeito, comecei a falar. Quando terminou, ele fez assim muitas e muitas vezes. __________ os colegas falaram: “Como é que você conseguiu fazê-lo falar? Ele não fala.” (risos) Eu não sabia. E daí pra frente fui indo, e muitas e muitas vezes. O doutor Saratani foi meu amigo. Muitas vezes eu chegava, estava ele e a mulher dele, e perguntava: "Doutor Saratani, como é que eu faço isso?" 

Depois eu fiquei sabendo que esse doutor Saratani tinha sido chefe de propaganda de laboratório quando estava estudando. Uma vez eu tinha que fazer uma palestra sobre um produto e estava aquela dificuldade pra achar as coisas. “Doutor Saratani, me dá uma colher de chá. Como é que eu faço isso?” Ele me deu orientação e foi a melhor palestra que eu fiz dentro da empresa. 

Eu tenho motivos gratificantes, coisas que a gente passou na profissão que hoje a gente conta… Muita gente dá risada, mas que se analisarem bem não é pra dar risada, é pra mostrar como a gente se dedicava, o quanto era naquele tempo diferente de hoje. Não se tinha carro, a condução não era que nem hoje. Hoje você está no Itaim, pra você ir pra Santo Amaro você tem uma condução, pra você ir pro Ipiranga você tem uma condução. Naquele tempo, não. Você tinha que ir pro Itaim, então você tinha que ir até o Anhangabaú, de lá ia a pé até a Praça da Sé pra pegar ônibus pro Ipiranga, pra Penha, porque era tudo assim. 

São Paulo em 61 ainda era meio provinciana: não existia a Radial Leste, não existiam as marginais, não existia a [Avenida] Juscelino Kubitschek, nada disso. Era uma cidade em desenvolvimento, mas ainda muito acanhada. E a gente tinha que apanhar por causa disso. Então você tinha que andar de bonde, de ônibus, aqueles ônibus horríveis; pequenos, sacolejantes, você andava espremido até pior que sardinha em lata. Hoje eu vejo o pessoal reclamar da condução, mas eles não sabem o que é condução pesada. 

Hoje a gente reclama do trânsito, né? Naquele tempo o trânsito era mais leve. Em compensação também a gente sofria, então era diferente o tempo. Mesmo na empresa, a mentalidade era outra. Jamais uma pessoa poderia trabalhar com o carro, mesmo que tivesse. Era proibido, tinha que trabalhar de condução. Eu, como trabalhava em periferia, ia três vezes por semana na empresa, mas os outros tinham que ir lá de manhã e na hora do almoço e à tarde. Você nunca poderia trabalhar no setor em que você morasse. A mentalidade era que, nesse caso, você poderia encostar o corpo. 

Escolaridade era o que menos se exigia pra se trabalhar nesse ramo. Durante muito tempo eu fui a pessoa de maior escolaridade da equipe. E minha escolaridade era apenas o curso científico feito em 1951, não era escolaridade. Hoje não. Hoje pra se entrar na Johnson precisa ter faculdade, estão exigindo inglês; dentro de pouco tempo estarão exigindo informática, com certeza. É uma época diferente. Não que naquela época estivessem errados, nem hoje estejam certos, é que cada época é diferente. 

Eu já presenciei quatro décadas dentro da Johnson: 61, 70, 80 e agora 90. Nos anos 60 havia uma ideia, nos anos 70 era outra, quer dizer, cada década foi melhorando. Uns acham que para melhor, outros para pior. Em certos aspectos piorou, mas na maioria das coisas melhorou. Quando entrei na empresa televisão, pelo amor de Deus, era coisa raríssima, era preto e branco; tinha lugar que era ruim de se ver televisão. Carro, quem tinha eram poucos, as empresas não davam carro pra funcionário trabalhar. Hoje, a Johnson dá carro pra gente e ainda quando a gente vai comprar, compra barato. Quer dizer, mudou tudo. Mudou dentro da Johnson, as melhorias foram muito grandes. Até o desenvolvimento pessoal na Johnson, pode-se dizer que de uns dez anos pra cá avançou demais. E pelo que eles estão investindo, acredito que quando chegar o ano 2000 a Johnson possivelmente deverá ser o primeiro laboratório do mundo e a melhor equipe. Porque eles estão investindo não só na parte material, mas no pessoal, o que é importante.

 

P/1 - Como era o material de publicidade naquele período? O que o senhor recebia?

 

R - Nós recebíamos o que chamávamos de literatura, amostras, documentação científica, quase igual a hoje. Só que pra cada produto tinha uma literatura. Isso com o tempo foi abolindo, tinha-se bastante trabalhos científicos como se tem hoje. 

A propaganda em si não mudou muito a forma, mudou muito a aplicação. Em si continua quase como naquele tempo, mas modernizou. Naquele tempo nós tínhamos literatura de produto, falávamos toda a vida. Hoje o médico não permite que se fale tanto, ele não tem condições de atender. Não que o médico seja mais, seja pior ou melhor do que... É que a vida hoje é muito corrida. Naquele tempo era mais calma. Não se tinha... Pra começar, médicos eram todos de consultório, ou de Centro de Saúde do Estado, Centros de Puericultura do Estado. A prefeitura estava começando naquele tempo, não tinha quase, e hospitais, a maioria… Os maiores, e alguns hospitais de bairro. 

Trabalhei em Guarulhos, não tinha hospital. Tinha um Pronto Socorro da prefeitura. Hoje [em] Guarulhos, fora os que fecharam, tem cinco hospitais. Não se tinha médicos de consorciados. Não existia essas empresas como Unimed, Amico, disso não existia nada. Era completamente diferente. 

Os médicos não atendiam melhor, é que eles tinham mais tempo, mais condições. Também hoje tem muito aventureiro no laboratório. Naquele tempo, quem ia fazer isso geralmente gostava do serviço. Hoje tem muitos que estão fazendo escadinha.

Naquele tempo, o material era literatura. Rarical, por exemplo, tinha uma literatura de três, quatro páginas. Dizia que o Rarical era citrato de cálcio ferroso, ferro e cálcio numa só molécula. Evitava problema, tinha menos efeitos colaterais, ele supria a falta de vitaminas, o ferro e cálcio não produzia diarreia como os demais - a gente falava tudo isso. Chegava na Vagi-Sulfa, era três sulfas, mais a ureia, pós-epsiotomia, que é o corte que a mulher recebe quando faz o parto, acima da vagina… Abaixo da vagina, pra abrir mais, pra fazer sair a criança, pra ferida de útero, colo de útero etc - hoje até mudaram alguns termos que usavam naquele tempo por atualização. Então fazia-se ________ de Gentersal, que era para monilíase, à base de Violeta Genciana; era vermelha, de vez em quando manchava, hoje se tem outros produtos melhores. Aí começaram a vir os anovulatórios, teve a época dos... E vai assim. 

Os antibióticos, começamos há pouco tempo. Nós não tínhamos, mas nós passamos por várias fases. As literaturas eram essas. E tinha as documentações científicas, que tem até hoje. São trabalhos feitos quando o produto está sendo feito, trabalhos feitos em grandes hospitais. Hoje já tem muita coisa feita no Brasil, mas naquele tempo era nos hospitais internacionais, americanos, europeus etc. Trazia-se aqueles trabalhos mostrando o que o produto fazia ou não fazia, e hoje tem-se a mesma coisa. 

A gente deixava a literatura com o médico. Hoje só se deixa com o médico a documentação científica. A literatura foi substituída pelo tal de binder ou alguns laboratórios chamam de audiovisual, que é aquilo que eu falei que é uma pasta - se vocês quiserem eu depois pego no carro e mostro um pra vocês. Tem vários produtos, você vai descrevendo os produtos e mostrando pro médico. Se você tiver algum trabalho científico - hoje nós temos um pro ginecologista -, entrega pra eles o resumo do trabalho. Caso o senhor queira o trabalho integral, solicita e nós trazemos. 

Nós hoje somos prestadores de serviços a médicos. Tinha os brindes, a Johnson não tinha muitos, mas tinha de vez em quando chaveiro. Hoje já tem mais brindes, brindes melhores. 

A propaganda era essa, não houve muita diferença. O que houve foi talvez uma redução do tempo do médico atender a gente, por motivos justificáveis. O que houve talvez foi uma progressão maior nos propagandistas de hoje; eles têm mais chance de aprender um pouco mais. A Johnson, naquela ocasião, sempre se destacava por ser o celeiro de propaganda. Uma pessoa que trabalhava um ano lá, se saísse, arrumava emprego em qualquer laboratório sem fazer teste nenhum porque aguentou a Johnson - era a expressão que tinha. E nós éramos os que mais estudávamos, as nossas reuniões eram as mais... A Johnson sempre primou muito pelo homem que tem, fazendo tudo para que fôssemos os melhores. Ainda continuamos.

 

P/1 - Toda essa literatura era decorada? Como o senhor fazia para entender os mecanismos tão...

 

R - Não. A gente recebia a literatura e fazia um treinamento como se faz até hoje, que chama-se Virada de Plano - naquele tempo chamava outro nome, não me lembro agora. Sei que quando a gente ia virar o plano... O plano é o seguinte: naquele tempo era mensal, hoje o plano é trimestral, quadrimestral. Quando a gente muda, então, nesse mês nós estamos... Só que naquele tempo - hoje está diferente também - a gente trabalhava com todas as especialidades. 

Quando entrei havia duas forças de venda. Uma chamava-se PGO, trabalhava pediatria e ginecologia. E a outra era Clínica Médica, que trabalhava com o resto dos médicos. Tudo quanto era médico era nós, inclusive GO a gente visitava com os produtos de Clínica Médica. Então os setores eram divididos em dois. 

Todos os setores tinham dois, um fazia PGO e outro fazia o Clínico. O Clínico Médico, tinha uma parte que ele fazia, só ele visitava os médicos, e depois ele vinha fazer a cobertura onde eu trabalhava. O rapaz trabalhava com a ginecologia e pediatria, e o de ginecologia e pediatria fazia a cobertura do Clínico com os produtos dele. A gente trabalhava assim, então a gente ia fazer treinamento, treinava e ia pegar a literatura. Hoje não se faz, mas naquele tempo se marcava pra treinamento, a gente pegava a literatura e pegava os pontos principais a destacar. A gente pegava, estudava, chegava no dia e ia... Se a gente não fizesse uma boa prática, treinamento, a gente voltava a fazer treinamento até ficar bom. 

 

P/1 - E quem avaliava? 

 

R - Eram os supervisores e o gerente. E independente disso tinha o seguinte: a gente formava reunião, reunião era o grupo inteiro, então o senhor ia ser médico, ela ia ser propagandista, ela como minha colega - naquele tempo não tinha mulheres na propaganda, hoje já tem bastante. Mas suponhamos [que] ela, como minha colega, tivesse que me analisar. 

Começava desde a arrumação da pasta. Outro ia analisar a postura diante do médico. Tinha que ser outro para analisar a dicção, outro para analisar o trabalho com a literatura ou com o material. E era um negócio. Eu não podia nunca elogiar a quem eu estivesse analisando. Tinha que meter o pau. Agora, ensinar como fazia também não tinha que ensinar. O negócio era guerra. E guerra é guerra. 

Hoje, não. Hoje a pessoa faz a propaganda: “Olha, foi bem.” Às vezes não foi, mas a gente diz que foi bem. Podia melhorar nisso, fazer assim, fazer isso, fazer aquilo. Faz as reuniões, as práticas, a gente faz isso. 

 

P/1 - Ainda tem as avaliações?

 

R - Tem, mas é muito diferente. Hoje a própria pessoa acaba de fazer a prática, o supervisor chega: "E o que você achou da sua propaganda?" A própria vai se analisar depois, o que fez papel de médico analisa. E depois ele pergunta a duas ou três pessoas o que acharam, e explicam por que. 

Hoje é orientação, naquele tempo não era orientação. Era a época. E época é época. A gente estudava. Até hoje o material vem, a gente recebe o Plano de Propaganda antes da reunião. A gente estuda aquele plano, vê o que tem nele, vê as estratégias dentro do Plano de Propaganda. É um tipo de caderno, é um livro; ali o gerente de produto, hoje gerente de especialidade, quer que a gente destaque, do binder, qual é a estratégia praquele produto. “O produto está colocado em tal lugar, queremos aumentar para este e pra isto nós vamos tentar fazer isto.” Então a gente tem uma orientação, depois a gente decora aquilo e vai fazer a propaganda. 

 

P/1 - O ponto, que se chama ponto de venda, são esses pontos a destacar? 

 

R - Não, isso é foco. O ponto de venda hoje pra nós quase não existe porque era aonde a gente ia vender. Isso aí é foco de venda, foco de propaganda. Antigamente seria, hoje não. Hoje é foco de venda. Mas ponto de venda sempre significou o local onde a gente ia vender. O foco de venda, hoje, é o foco de promoção. 

Hoje nós não vendemos. É tudo vendido por distribuidores, então a gente só faz propaganda. Aliás hoje, na companhia, pelo sistema que eles mudaram agora, tem vendedor, mas só para atender distribuidores, farmácias; direto a gente não vende.

No tempo que eu entrei a gente vendia. Eu tinha cerca de... Na época que entrei no setor, eu fazia desde Vila Formosa até Jundiapeba, entrando bem em Guarulhos. Eu fazia, eu tinha 110 médicos e 110 farmácias. Isso eu fazia em trinta dias. É que naquele tempo a gente jogava às vezes conforme a farmácia, e em vez de visitar em trinta, a gente visitava de sessenta em sessenta. Vendia a quantia pra sessenta dias. Mas eram sistemas que hoje não dariam certo pelo tamanho da cidade, pelo crescimento do número de médicos, pelo aumento de pontos de promoção que a gente tem que fazer, é completamente diferente. 

Hoje a gente sabe o que deve destacar na literatura porque a gente já conhece o produto, tem os pontos, mas antes vem o programa - chamaria programa, mas é o Plano de Vendas, Plano de Propaganda. É um caderno grosso, não estou com ele mas na próxima vez posso até mostrar. Ele vem… Ele explica pra gente o que a gente quer e a gente vai e faz. Se ainda a gente acha que tem que fazer alguma coisa, a gente manda um memorando: “Se fizesse assim e tal…” E eles entram em acordo ou não entram. Agora os pontos a destacar é desse jeito que surgem. E a gente tem treinamento. 

Nós estivemos... Na semana passada eu estava em Atibaia, nós tivemos um treinamento. Hoje a Johnson trabalha por especialidade, então eu sou Força de Venda 1. Visito clínicos e ginecologistas, somente. Tenho outro colega que era da Cilag - hoje é Johnson-Cilag, tudo junto - ele é Força 2. Ele visita clínicos, não de consultório; os de consultório sou só eu que visito, ele visita pediatria e ortopedia. Tem a Força de Venda 3, que visita dermatologia, gastro, neuro e otorrino. O número de médicos é menor, ele entrevista mais e o setor dele é bem maior. E tem Força 4, aqueles que estão no interior, que visitam tudo, menos os médicos da Força 3. 

 

P/1 - Todos os médicos são visitados ou vocês selecionam um grupo, como é?

 

R - Não. No setor, hoje em dia a gente visita quase todos. Alguns que a gente acha que não tem interesse... Mas o número é muito pequeno. A gente no setor está abrangendo todos os médicos. Dentro da minha especialidade eu visito, se eu deixar de visitar é coisa de um ou meio por cento. 

Alguns médicos não têm interesse, porque às vezes eles não têm nem função de médico, têm função burocrática. Não vão pegar num lápis e receitar. E um médico que não receita pra nós não interessa. Nós queremos colher é a receita, nossa obrigação é colher receita pra vender na farmácia. São poucos; o resto, a maioria, a gente procura visitar todos. Às vezes o setor, muito grande, não comporta a gente visitar, aí temos que selecionar um pouco. Se bem que o setor que eu estou atualmente dá pra correr bem. 

 

P/1 - Qual era o tamanho da equipe quando o senhor começou e como é hoje? 

 

R - Hoje, aqui em São Paulo, eu não sei bem o número de elementos que temos na Capital. Acho que aqui, juntando as três forças, estamos com setenta, oitenta. Naquele tempo estávamos com 35, 32, talvez nem isso, mas dava pra visitar muito bem.

 

P/1 - E a marca? A marca era Johnson? Agora o que se anuncia é Janssen Cilag? 

 

R - Não é bem marca. O negócio é que o Laboratório Johnson trabalhava como Johnson & Johnson. Acontece que um laboratório tem sempre que lançar produtos e a Johnson entrou num acordo com a Janssen, que era um laboratório que existia na Bélgica, mas que não propagava nada. Ela só sintetizava os produtos e entregava os sais para comércio. Era de um médico chamado - era não, é de um médico chamado doutor Paul Janssen. 

Vendo os produtos que ela tinha, a Johnson... Acontece o seguinte: o laboratório lá não ia se sustentar sozinho, precisava de dólares, e a Johnson precisava de produtos. Houve um acordo e ele ficou sendo subsidiária da Johnson. Durante muito tempo nós trabalhamos com os produtos deles como Johnson & Johnson. Então Haloperidol, outros que já saíram do mercado, foram deles, nós trabalhamos com eles. Depois ele começou a crescer também e exigiu que se trabalhasse com o nome dele, então criou-se o Laboratório Janssen. Como a Johnson tinha a Cilag, que já tinha comprado - a Cilag era suíça, quando entrei lá já tinham feito o negócio, já tinha comprado. 

Quando o governo tinha apertado muito o negócio de preços, a gente tinha que garantir mercado [com] quase exclusividade pra gente, então a Johnson criou a tal de co-marketing, que existia nos Estados Unidos e aqui também. É o seguinte: nós lançávamos um produto e a Cilag lançava igual, com nome diferente. Com isso, nós entrávamos no mercado com dois produtos. Se um do outro laboratório pensasse em lançar um produto com o mesmo sal, ele ia pensar duas ou três vezes. Bom, a Johnson tem dois produtos _____, então ela vai pegar. A gente pegava a parte do mercado maior e a intenção era essa. 

O comarketing teve seu efeito, foi muito bom, mas atualmente já não estava tendo vantagem. A gente já tinha até falado, sugerido; agora eles fizeram o seguinte, eles modificaram. Hoje o trabalho tem que ser por especialidade, porque você não pode chegar e atingir todas as especialidades num homem só. Não é possível, então, mudou-se. E pra mudar isso, juntou-se as duas forças: ficou Janssen-Cilag. Nós trabalhamos duas forças, com a mesma função, com o mesmo objetivo, pra conseguirmos mais coisas, pra melhorar. 

As duas sempre foram da Johnson, são duas empresas do Grupo Johnson. Agora continuamos com duas empresas, mas trabalhamos como Janssen-Cilag, e os médicos acharam ótimo. E a gente, por enquanto, continua com dois produtos iguais, a mesma coisa. Acredito que futuramente deve-se dar prioridade a uma marca - isso é opinião minha, não sei se vai ser isso. Futuramente, eu acredito, algumas marcas vão desaparecer e vai ficar aquela que está mais forte. Suponhamos que se Sporanox fica mais forte que Itranax, logicamente, com o tempo, Itranax desaparece. Depende. Se eles começarem a fazer promoção só de Sporanox, o Itranax vai cair na... E se começarmos a pegar o mercado que tem Itranax, porque ele vende, então nós estamos ganhando. 

Vai ser isso futuramente, eu penso assim. Talvez eu nem chegue a ver isso porque tenho pouco tempo mais de empresa, mas acredito que vá ser isso. Quer dizer, eu posso ver, mas não dentro da empresa, né?

 

P/1 - É complicado trabalhar com o co-marketing? Como é, o mesmo propagandista chegava e...

 

R - Não, não. A Cilag trabalhava com um e nós trabalhávamos com outro. Se nós lançássemos, como nós lançamos, o Sporanox, nós trabalhávamos com o Sporanox. Eles trabalhavam com o Itranax. O mesmo médico recebia os dois, mas um como Cilag e outro como Janssen. 

 

(pausa)

 

P/1 - Bom, vamos retomar, eu queria que o senhor dissesse: houve competição entre as duas equipes, Janssen-Cilag? Em que nível chegou essa briga? 

 

R - Chegou. Isso dependia muito das pessoas, mas houve. Houve competição, muita guerrinha, mas eu sempre trabalhei pensando em Johnson. 

Eu trabalhava em Guarulhos, trabalho em Guarulhos há onze anos. Quando eu entrei em Guarulhos tinha um outro elemento, depois veio esse outro elemento que é o Rubens, por sinal um grande sujeito, e eu falei pra ele:  “No fim, vai cair tudo na mesma caixa. Vamos trabalhar como os homens pedem e não vamos brigar. Você consegue o teu, eu consigo o meu.” 

Trabalhamos na maior harmonia, sempre. Tanto que quando foi pra fazer a divisão, a junção, nós já tínhamos resolvido. Um ficava com a Força 1, outro com a Força 2. Às vezes o médico dizia que o Rubens tinha estado lá com o Itranax, Sporanox. E eu dizia: "Doutor, receita um Sporanox e um Itranax." O Rubens dizia a mesma coisa e a gente ia tocando. 

O médico se divertia até com isso. Eu tinha médico no setor que trocava até os nossos nomes. Até hoje a gente brinca assim. E eu, também de brincadeira, trocava o nome dos médicos. Tanto que um colega novo que fez visita junto comigo, disse: "Esse aí não é o doutor Carmo." E eu disse: "Eu também não sou o Rubens. (risos) Eu e o médico nos matamos de rir. (risos) São fatos pitorescos que acontecem no setor. 

 

P/1 - Lembre mais alguns, você deve ter muitos fatos engraçados.

 

R - É, tem… Tem um que é meio pornográfico. Fui visitar um médico muitos anos atrás, na Vila Esperança, um baiano chamado Eustáquio. Médico fabuloso, de Posto de Puericultura e não queria trabalhar noutro lugar. Um dia chegou uma mulher de idade com uma criança pequena. O médico examinou e disse: "Ói, minha filha, você leva isso aqui, põe no ânus da criança de seis em seis horas." A mulher ficou parada assim e disse: "Doutor, no anos, mas ele só vai fazer anos no ano que vem..." (risos) "Não, minha filha, vai na enfermeira que ela te explica." Aí a enfermeira repetiu a mesma coisa, né, e a velha também. Então ele disse de uma vez põe no... (risadas) E ela disse: "Também não precisa ficar bravo desse jeito!" (risos) 

Tem muitos fatos engraçados, e tristes também. Tive um colega que estava conversando com a gente assim, normal; saí e quando cheguei estava morto. Tem... Eu cheguei também uma vez pra visitar um médico em Guaianazes. Eu sabia onde era a casa dele e ele me pediu pra arrumar um remédio; eu disse que no dia seguinte deixaria com a senhora dele, que era alta, bonita, loira; carioca, muito expansiva. Cheguei na casa dela e ela me convidou pra entrar, tomar suco de laranja. Depois de uns três dias passei no consultório dele e o homem estava chorando. Era um turcão, Farad, e ele me disse: "Minha mulher morreu." "Levei um choque tão grande e disse: "O que foi?" Ele disse: "Não sei." Ela tinha uma forte dor de cabeça, ele a levou pro hospital e chegou lá não deu tempo, faleceu. Deixou duas crianças pequenas. Acabou meu dia. 

A gente acaba ficando amigo. Depois de muitos anos, fui trabalhar no setor de Santana e ele era médico do Parque da Aeronáutica. Fui lá visitá-lo. Tinha um outro, um garotão turcão grande; ele disse que era o filho dele, que na época era pequeno. Ele me apresentou: "Esse aqui foi o primeiro amigo que o pai desabafou quando a mãe morreu." São coisas que gravam.  

No ano passado fiquei cinco meses afastado porque tive que usar safena. Começou no dia 19 de março, terminou... Só voltei a trabalhar em três de agosto. Uma fase triste que passei, mas ao mesmo tempo serviu pra uma coisa: eu vi o quanto eu era querido e quantos amigos tinha, porque eu não sabia. Tinha médico que telefonava pra minha casa todos os dias. Tinha médico que eu visitei há 34 anos, ele telefonava pra casa, minha mulher atendia, e depois telefonava pro hospital todos os dias. Quando eu estava na UTI, ele falava pra minha mulher: "Cuida bem do meu amigo Ventura, porque ele é amigo de 33 anos." Minha mulher não conhece esse médico. Cria um laço com os médicos, né? 

Comecei a trabalhar no dia três de agosto. Voltei na reunião. Na segunda-feira seguinte eu fui… Essa médica depois ficou doente, pegou tuberculose, mas agora já está... Fui ao Centro de Saúde falar com essa ginecologista e [quando] passei na sala tinha as atendentes. Quando me viram fizeram uma festa, mas disseram que não iam avisar a doutora, que perguntava por mim todos os dias. Saiu a paciente, ela ficou escrevendo. Eu disse: "Bom dia", ela respondeu mas continuou escrevendo, sem olhar. Eu fiquei parado. Quando ela olhou pra mim, ela quase derrubou aquela mesinha; me abraçou, me beijou. "Que alegria de te ver." 

Ainda hoje encontrei esse senhor, fui na Pfizer visitar lá o médico. [Quando] cheguei na portaria, tem lá o senhor Antônio, um preto que faz fichas pra gente entrar. Ele me disse: "Ganhei o dia, eu estou vendo o senhor de volta." Cheguei em casa, minha mulher perguntou como foi o dia. Respondi: "Só choro." 

Fui visitar o médico da Pfizer, esse médico todo o mundo diz que é meio chato, meio grosseiro. Na hora que cheguei, abri a porta, ele me disse: "Senhor Ventura, o senhor estava, está e continua nas minhas orações diárias." 

São essas as recompensas que a gente recebe. Colegas vinham em casa. Minha mulher toma um produto que é da Bayer, durante o tempo que eu estive hospitalizado as amostras não faltou uma vez. O rapaz vinha, trazia, outro trazia; o rapaz que arruma nem conhece minha mulher, mas ele arrumava e mandava os outros levarem porque ele mora longe, trabalha em Guarulhos e mora na Vila Mariana, não dá pra ir na minha casa. 

O que eu tive de médicos que eu não visitava mais e que telefonaram pra eu ir lá... Tinha um médico que quando eu voltei me telefonou e disse: "Olha, eu sei que você não visita mais pediatra, mas eu quero que você venha no meu consultório pra me visitar." Um dia fui lá, o consultório estava cheio, tinha umas quinze pacientes. Quando a enfermeira falou, ele veio e falou: "Minhas amigas, vocês podem me xingar, mas agora vou ficar com meu amigo Ventura meia hora."

Na minha profissão eu tive momentos de tristeza, muitos momentos de alegria, que foram bem maiores. E o que consegui dessa profissão foi uma coisa muito boa: conhecimento, que você não perde nunca. O que a Johnson me deu de cursos, estudos, conhecimentos, são coisas que eu posso sair… Quando for agora, em abril de 97, a Johnson não fica com eles, vão comigo. São minhas. 

Na profissão, nós aprendemos a ver a vida de outro modo, um prisma completamente diferente, porque a gente trabalha com tudo. A gente vê coisas que... Chega num certo ponto que a gente cria uma casca, pra nós parece tudo natural. Eu trabalhei quatro anos fazendo só psiquiatria, a degradação humana que a gente via. Aí a gente vê a tristeza; na hora a gente até dá risada do que acontece. Aí quando você fica matutando, pensando, lembrando, você pensa: "O que eu vi." 

A gente fica dando mais valor pra vida, acha que a vida da gente é uma beleza. Com todos os problemas que tem, todos os problemas, toda a doença, com todas as brigas, com tudo o que a gente quer ganhar e não ganha, a gente analisa e vê que a vida da gente é uma maravilha, graças a Deus. 

 

P/1 - O senhor falou de momentos engraçados. Houve dificuldades com médicos, há os que rejeitam...

 

R - Há sempre. Tem médicos que não gostam de propaganda e aí a gente não propaga. O fato mais pitoresco que aconteceu comigo, uns anos atrás… Havia uma novela na TV que se chamava Uma Rosa com Amor e a Johnson resolveu - era perto do Dia das Mães -, resolveu dar de presente uma rosa de prata, muito bonita, que a gente dava para os médicos darem pras esposas e pras mães. A minha mulher tinha essa rosa até bem pouco tempo, não sei se ainda tem em casa. 

Tinha um médico, era ele e o filho dele. O filho dele atendia que era uma maravilha, ele passava pela gente com um ar de superioridade, nem olhava. Fui com a rosa lá e disse: "Doutor, o Dia das Mães está chegando e eu lhe dou uma rosa com amor. Vou deixar duas: uma pra senhora sua esposa, outra pra senhora sua mãe. Mas seu pai não atende propaganda, pra ele não vou entregar." Tudo bem. 

Eram três médicos: o pai, o filho e um outro que era primo, não sei, e trabalhava ao lado. A gente falava com o filho dele, que chegava mais cedo, e depois ficava esperando o outro. E era na casa do pai, o pai acho que morava no fundo. 

O filho foi lá e entregou a rosa pra mãe dele. O médico perguntou quem estava entregando a rosa de prata. Falei: "Sou eu." "E a minha, o senhor não vai entregar?" E eu disse: "O senhor atende propaganda? O senhor nem nos conhece. O senhor olha por cima, o senhor fica parecendo que é o rei da Dinamarca. O senhor não tem direito. Eu dou isso pros médicos que nos atendem e receitam os nossos produtos." "Mas eu receito o produto de vocês." Eu digo: "Eu não sei. Se o senhor não atende propaganda... Qual é o meu produto? O senhor não sabe qual é o meu produto!" "Ah, eu olho o do meu filho." Eu digo: "Não interessa, o senhor não vai ganhar."  Ele ficou meio sem graça, o filho dele lá no canto da sala dando risada. 

Passou. No mês seguinte, eu fui falar com o filho dele e a porta dele estava aberta: "Entra, vem falar comigo." (risos) Começou a atender. 

Uma vez um médico também quis me esnobar e eu disse: "Doutor, eu o respeito como médico e exijo que o senhor me respeite como profissional da propaganda que eu sou. O senhor não quer propaganda, é um direito que lhe assiste. Não quer atender, eu vou embora, mas não precisa me maltratar. Se for pra maltratar, eu também sei dar coice. E olha, sou filho de português." E hoje somos grandes amigos, por sinal. 

Existe muita coisa que a gente não lembra. Eu cheguei de carro de boi num consultório médico. Naquele tempo eu fazia o setor que ia de Vila Formosa até Jundiapeba; eu fazia Arujá, Itaquaquecetuba e Santa Isabel num dia. Pegava o trem na Roosevelt, descia em Itaquá, aí subia, falava com o médico no Centro de Saúde que era perto, no topo, lá em cima, aí visitava as farmácias. Nesse período o ônibus que ia pra Arujá passava por Itaquá, passava ali mais ou menos no horário que eu estava livre. Ia até Arujá, visitava a farmácia e ficava esperando o ônibus que vinha aqui de São Paulo da Pássaro Marrom, que ia até Santa Isabel. Ele passava mais ou menos a uma hora. Eu pegava o ônibus ia até Santa Isabel - não ia nem pela Dutra naquele tempo; tinha a Dutra, mas aquele ônibus fazia um caminho por dentro. Depois das visitas em Santa Isabel eu voltava pra São Paulo. 

Acontece que um dia, não sei o que houve, se meu relógio estava errado, se o trem estava errado; [quando] eu cheguei o trem tinha ido embora. Aí fui ver, o ônibus pra Arujá só saía às dez horas. Eram sete da manhã, não era possível esperar. Aí peguei um ônibus que ia pra Mogi, desci em Monte Belo e dali até o centro da cidade de Itaquá dá mais ou menos uns três quilômetros. Um dia de calor, aquele solão, de calor forte, e eu saí carregando pacote de um lado - eu ia levar umas amostras pro … E no outro aquele malão pesado, a Catarina. Aí passou um carro de boi e o homem falou: "Moço, não é confortável, mas se quiser aproveitar..." Quando ele falou ‘aproveitar’ eu já estava em cima. E lá fui eu com o carrinho de boi. 

Quando cheguei em frente do Centro de Saúde, o médico que estava na porta - esse médico visito até hoje, outro dia a gente estava comentando isso - o médico rolou no chão de rir, né? Quem não tem cão caça com gato! Perdi o trem, vinha vindo a pé, ele me ofereceu; vamos né? O resto do trabalho fiz de carona com o médico, que tinha um AeroWillys; [me] levou nas farmácias de Itaquá, me ajudou a vender: "Pode comprar que também vou receitar” e aí me deixou na farmácia de Arujá. 

Tive que esperar duas horas porque o ônibus só passava aquele horário. (risos) Adiantei demais, aí tive que esperar sentado na farmácia - não tinha outra coisa que fazer - esperando pra ir pra Santa Isabel. 

Já andei de carro de leite...

 

P/1 - Como funcionavam os pedidos pra farmácia? O senhor fazia o pedido...

 

R - Quando entrei, tínhamos três tipos de clientes. O cliente A, só nós vendíamos e a Johnson entregava. Eram os melhores, de maior potencial, pagavam melhor. Nós vendíamos grandes quantidades, cobrávamos a duplicata e a Johnson entregava. 

Tinha os clientes B, que eram um pouco abaixo, mas eram clientes bons, que pagavam, então nós vendíamos, a distribuidora entregava e cobrava. Ela não podia vender produto e pra ela não vender, ________. Nós, naquele tempo, trabalhávamos com bonificações. A distribuidora não podia dar bonificações aos clientes B, então a gente tinha sempre os clientes B, que eram maioria, A e B, e tinha os clientes C, que ali todo mundo podia vender.  Só que eram os clientes de menor potencial, então a gente não ligava, deixava que a distribuidora vendesse, cobrasse etc. 

A distribuidora vendia nos Bs e Cs, e cobrava - quer dizer, cobrava os Bs e vendia nos Cs. Hoje é diferente. Hoje tem outros esquemas: tem os clientes Bs, os Cs, mas é outra a organização. Agora, com essas mudanças, nem sei como é que ficou, porque hoje a maioria é tudo por distribuidores. 

Naquele tempo a Johnson tinha entregas, hoje não tem mais. Hoje a entrega dele é simplesmente de fábrica pra distribuidor. E até dois anos atrás a gente ainda vendia, tinha alguns clientes A; hoje não tem mais cliente pra visitar. Farmácia a gente pode entrar pra fazer uma pesquisa, mas vender, é tudo por distribuição. Que... Pra empresa é melhor, e pra nós também. 

Nós temos que tratar de conseguir o receituário. Nós somos propagandistas porque nós vendemos a ideia pro médico. É que nem vocês aqui. Se vocês vão apresentar um programa pra um político, por exemplo, vocês têm que vender a ideia [de] que vocês são os melhores a fazer a propaganda dele, que vocês têm o melhor estúdio, não é isso que vão vender? Ele compra e ele vem. Se não for o melhor, ele não compra mais. E nós fazemos isso no médico. Por que é o melhor, o que ele faz, quais a diferenças com os outros [remédios]; o médico experimenta, gostou e passa a receitar. A receita vai cair na farmácia. A farmácia compra dos distribuidores e eles da empresa. Esse é o mecanismo.

 

P/1 - Voltando um pouco à família: os seus filhos, que carreira seguiram e como viram a sua profissão? Como foi esse contato da família com a Johnson?

 

R - Olha, esse contato sempre foi bom. Minha mulher até hoje é johnsiana até debaixo d água. Sei que quando chegar em 97, ela vai sentir mais do que eu sair da empresa. Ela adora. 

Meus filhos também sempre se deram bem. O meu filho mais velho seguiu a carreira de professor de educação física, embora não exerça, porque ser professor nesse País não tem vantagem nenhuma. O meu mais novo formou-se engenheiro de produção elétrica, mas depois ele ainda estava na faculdade e em fevereiro de 86 entrou no Itaú, como estagiário; em junho ele se formou, o Itaú o efetivou e durante o período do estágio ele entrou na informática, formou-se analista de sistema pelo próprio Itaú. Lá está hoje como analista de sistema. 

Não sei, ele não fala muito, mas tem um cargozinho de chefia lá. Não sei o que ele faz, mas está bem, graças a Deus. Ganha bem, tem carro, passeia, gosta de pescar, fez paraquedismo, agora mergulho. Domingo ele chegou, foi pescar lá no Paraguai. Mas é um camarada muito comedido, sabe guardar o que tem, mora comigo até hoje. Ele é engenheiro, mas não exerce a função. Acredito que sua formação ajudou na informática. Ele está bem. 

O outro agora está com esse negocinho de buffet, também está indo. Não tá lá muito bem. Deu-me uma netinha agora, ela tem seis meses. É a primeira que nós temos e é a xodó da família.

 

P/2 - Só uma curiosidade: quando começaram a vender os anticoncepcionais como foi a aceitação dos médicos?

 

R - Olhe, quando nós começamos já tinha alguns laboratórios que vendiam, mas nós trouxemos novidades. A Johnson sempre foi pioneira. Novidades no tipo de sal. Tinha produtos que hoje não existem mais. 

Eu me lembro que tinha o Midi Johnson, que hoje é da Bristol; eles lançaram um produto chamado Sequence, que era o primeiro anovulatório sequencial que saiu. E nós combatemos o Sequence. O nosso não era sequencial. Sequencial porque era tomado mais dias, e era dividido em fases. O nosso não era. Era estrógeno e progesterona do início ao fim. Eram 21 dias de tratamento. 

Combatemos, brigamos. Nosso produto chamava Novulon e conseguimos pôr o Novulon lá em cima. Fomos os primeiros. Batemos até o Organon, porque naquele tempo tinha o Lyndiol. Aí lançou o Novulon de um miligrama, que era a menor dosagem. Depois foi a de meio miligrama. 

Um belo dia, aparecem pra nós: "Agora vamos lançar o Novulon S, sequencial." Aí a turma caiu de cara. E agora? Metemos o pau no sequencial e agora vamos fazer? (risos) Mas fizemos e acabou sendo o produto que mais se vendia na época.

Aí está a maleabilidade da nossa profissão. Hoje o que dizemos que não serve, amanhã lançamos igual e vamos lá,  fazê-los entender. 

E eu ganhei uma máquina de lavar roupa graças ao Novulon. (risos) Prêmio de vendas. Seis meses de vendas de Novulon e Ascaridil. 

 

P/1 - O prêmio vinha em função de quê? 

 

R - Tinha uma cota, quem vendesse mais. Naquela época os setores eram dois, em geral atendidos por dois, e tinha o setor que era de um só. Era meu caso, que eu fazia periferia. Fazia Osasco. E eu competia com mais 21 no Brasil inteiro. No primeiro mês de vendas, que era a soma em cruzeiros da venda de Ascaridil e de Novulon, no primeiro mês o rapaz lá de Manaus me vende nada mais nada menos que quinhentos mil unidades de Ascaridil adulto e quinhentas mil unidades de Ascaridil pediátrico. 

Como é que vou fazer pra combater um camarada desses? Eu tinha que ganhar a máquina. Minha mulher não tinha... 

Era meta de seis meses. Ele vendeu isso no primeiro mês, quer dizer, isso não era a meta. Só que como era a soma de cruzeiros, eu pensei: "Peraí, ele vendeu lá Ascaridil, mas no volume ele não vai vender. O Novulon custava 2,50 e o Ascaridil, um custava oitenta centavos e o outro, cinquenta centavos. E pensei: “Eu vou é tratar de vender Novulon.”

Comecei, mas eu precisava vender também Ascaridil. Aí entra o conhecimento que a gente tem do setor, entra a manha da gente. Eu cheguei no Sandu, que existia naquele tempo, era Serviço de Assistência Domiciliar Urgente. Só que eles tinham ambulatório e o domiciliar quase não assistia mesmo, era tudo ali. Cheguei lá e tinha um médico veterano, já velho; ele tinha um consultório em Pinheiros, mas ali ele ficava. Fzia plantão pros outros médicos, que não queriam sair do Sandu porque não queriam perder as vantagens que tinham, mas não podiam ir lá porque tinham outras coisas. Ele ganhava do Sandu e de outros médicos para quem ele trabalhava. 

Era um velho que gostava de piada pornográfica, então toda vez que eu ia lá levava uma piada pra ele. E um dia cheguei e disse: "Doutor Lazzarini, preciso de um favor do senhor. Eu tenho que ganhar essa máquina de lavar roupa. Tem um concurso assim, assim, assim. E eu preciso vender Ascaridil. O senhor está aqui todo o dia. Se o senhor me receitar Ascaridil todo o dia e eu ganhar a máquina de lavar roupa, o senhor ganha dois litros de uísque." "Pra escolher?" "Pra escolher." "Pode deixar." Falei: "Fala com o doutor Barbante", que hoje é até diretor do São Camilo, acho que é ainda. Mas esse doutor Barbante era intragável. "O senhor tem muita amizade com o doutor Barbante, fala com ele que ele ganha mais um litro." "Posso falar?" “Pode.” 

Eu vendia na farmácia em frente, uma semana era quinhentos Ascaridil adulto, outra semana quinhentos de Ascaridil pediátrico, outra semana era mil, e eu vendendo os Novulon, né? Quando chegou o fim de junho, a máquina veio pra mim. E essa máquina ficou dezessete anos em casa. Ela só saiu pra entrar essa nova; era uma Bendix Economatic, a mais moderna que existia, mas não centrifugava. Nunca foi um técnico na minha casa pra ver aquela máquina. Aí comprei a tal de Brastemp e aquela acabei dando pra um camarada que acabou passando lá de carroça. (risos)

 

P/1 - Então quer dizer que Novulon foi o produto que o senhor mais vendeu?

 

R - Não foi o que eu mais vendi, vendi outros, mas vendi bem. Rarical, eu ganhei outros prêmios. Esse foi um prêmio que gravou por causa da situação, que logo de cara o colega no primeiro mês vendeu quinhentos mil, você fica apavorado. Dei gravata, mas isso não é pela empresa, porque ela não permite isso.

 

P/1 - Qual foi o produto mais difícil de vender?

 

R - Olha, honestamente, não acho que tem produto difícil de vender. Eu sempre primei por uma coisa: o produto é pra ser lançado, vamos lançar. Vamos vender. Teve produto que foi fabuloso, naquele tempo a gente fazia colocação pronta-entrega. Ganhei prêmios tremendos porque eu… Por exemplo, eu ganhei um rádio que foi por uma colocação de um produto - rádio não, o freezer que eu tenho. Não o freezer propriamente, mas foi uma troca que eu fiz com o meu filho. 

Acontece que tinha um concurso lá: quem colocasse no lançamento mais unidades de Nizoral creme... Em primeiro lugar teria que ser o primeiro na equipe, ganhava um freezer. Se minha equipe fosse a segunda, ganharia uma televisão. E o terceiro, um aparelho de som. Eu fui o primeiro da equipe estourado e primeiro da região inteira, só que minha equipe ficou em terceiro lugar, então ganhei um aparelho de som. Eu já tinha um, aí meu filho ficou com o som e comprou um freezer pra mim. Naquele tempo ele levou vantagem, porque o som era mais caro que o freezer

Tem outros. Agora, por exemplo, a minha equipe… Até o ano passado a equipe era muito boa, ganhava tudo quanto era prêmio. Ganhei bicicleta mountain bike, vendi porque não sei andar! Ganhei muita coisa, inclusive tenho dois CDs desses portáteis - um ganhei porque a equipe estava muito boa, aliás eu estava afastado, mas eles disseram que eu tinha direito. Meu setor não deixou de cobrir as cotas, né? Então tenho esses rádios Cassio que é AM, FM, CD, com duplo deck e simples deck

Tem dinheiro que ganhei da Johnson. Quando eu fiz 25 anos eu ganhei, além de... Porque na empresa existe um regulamento que quando a gente faz 25 anos recebe o equivalente a mil dólares em espécie. Eles dão o valor, a gente vai numa loja, compra o que quer, manda as notas pra eles; eles pagam e mandam entregar na casa da gente. Então quando fiz 25 anos, além dos mil dólares, o presidente, que naquela época era o Mário Ferreira, quis realizar um sonho que eu tivesse. Então me deu uma viagem de avião, porque eu nunca tinha andado de avião, quando eu tive o primeiro enfarto. Fui pro Rio, fiquei um fim de semana no Copacabana Palace com tudo pago, fui em shows, passeios, tudo. Apresentei a conta, três mil e poucos cruzados, e eles ainda me perguntaram se era só isso! (risos) 

Também quando fiz trinta anos ganhei 1.500 dólares. Deu pra mim pintar a minha casa, eles pagaram. Comprei uma geladeira que dei pro meu filho que casou, ainda comprei um micro-ondas pra minha mulher. Muita coisa que tem lá em casa [é] graças a Johnson, mamãe Johnson.

 

P/2 - Bom, o senhor falou muito dos momentos bons. Quais foram os mais difíceis na empresa? 

 

R - O mais difícil foi em 66. Um problema que houve... Naquele tempo, os laboratórios aumentavam os preços e nas farmácias tinha um livro com todos os produtos. Esse livro era de venda exclusiva da Drogasil. As farmácias eram obrigadas a ter esse livro com os preços. Quando os laboratórios aumentavam, a Drogasil fornecia a lista e vendia. E em toda a farmácia tinha um camarada que tinha uma boa letra, pra viver apagando e pondo os preços novos. Naquele tempo, só aumentava de três em três ou de quatro em quatro meses. E não era pouco, cerca de trinta por cento. 

Teve um ano que a Drogasil exigiu que a Johnson desse um determinado desconto pra ela fazer as listas e mandar pras farmácias. A Johnson não deu e os dois entraram em briga. A Drogasil não lançou as listas, ninguém podia comprar porque não tinha preço e a Johnson parou as vendas. 

Ficamos três meses sem vender, só que nós ganhávamos por comissão. Tínhamos um mínimo garantido e o resto era tudo à base de comissão. E o nosso salário foi lá pra baixo. Foi um Deus nos acuda, inclusive muita gente saiu da Johnson; eu fui dos poucos que ficaram. Chegou um dia lá que fiquei tão bravo, queria saber quem ia pagar meu aluguel; me levaram pro Bradesco, me abriram um crédito. Em maio começamos a vender, aí o salário estourou lá em cima. Valeu pelos três meses que ficamos sem vender. Vendemos muito porque estava tudo vazio, mas passamos um pedaço triste. 

 

P/1 - Quando acaba a venda, é só propaganda, aí fica um fixo?

 

R - Não. Depois disso, mais pra frente um pouco, a Johnson passou a dar um salário fixo pra nós e os prêmios em dinheiro, espécie, nas vendas. Agora estamos só com propaganda; embora nossos setores tenham uma cota a vender e os distribuidores vendem, têm que apresentar os mapas, dizendo quanto foi vendido. A gente agora tem um prêmio quase fixo, porque tem as variações, mas é um prêmio que a gente tem, e tem o salário, que é fixo. Agora eles acabaram de apresentar nessa reunião o plano de carreira, então existem quatro faixas - uma não está ainda efetivada. Então existe o principiante, o representante, o pleno, sênior e tem o executivo, ainda em estudos. Dentro dessas faixas tem faixas de salários diferentes. 

Naquele tempo, éramos comissionados. O mínimo da gente era uma porcaria. Na minha carteira, na Revolução de 64, entrei no escritório e estava cheio de militares da Aeronáutica. Tinham acusado o vizinho de terrorista, me barraram na entrada; falei que trabalhava lá, pediram documentos, mostrei a carteira e: "O senhor ganha só isso?" Disse: "Isso é o que está na carteira, ganho mais por causa da comissão." Ele disse: "É, você está ganhando pouco, hein?" (risos) Comissionados, hoje, na indústria farmacêutica são muito poucos. A maioria é fixo e prêmios. 

Outra coisa também é que a empresa é muito humana. Quando a gente está em situação difícil e precisa deles eles vêm. Se você pedir dinheiro emprestado não tem, mas pra doença da família eles estão ali pro que der e vier. Eu tive essa prova no ano passado. Não foi brincadeira, foi 36 milhões uma cirurgia. Eles bancaram e eu não paguei nada. 

 

P/2 - A própria empresa cobriu sua cirurgia? Onde o senhor foi atendido? 

 

R - No Incor. Então, tem isso. Ela é muito humana nessa parte, e tem uma assistência pra gente. Uma vez minha mulher ficou internada, cheguei e perguntaram o que eu estava fazendo lá. Eu não ia ficar lá, ela estava na UTI, eu não podia fazer nada. Quando ela saiu do hospital, perguntaram quantos dias eu não iria trabalhar. Eu disse: "Venho trabalhar, a mãe de minha mulher está lá com ela." "Não, fique lá. Precisa de alguma coisa, precisa de dinheiro?" Então acho que isso também. 

Sempre digo pros colegas novos: "Acho que o salário é muito importante, é o principal, mas tem outras coisas que fazem outro salário. O carro que a gente tem pra trabalhar, trabalha com o seu carro, tudo o que acontece no carro eles pagam. Depois de quatro anos eles trocam de carro e a gente tem o direito de comprar o carro. Eu, por exemplo, que tive uma batida, vou comprar com trinta por cento do valor de mercado, não de desconto. Tanto que fulano que comprou carro agora 91 pagou 1.400 reais. Isso é coisa que entra no salário. Você vai almoçar, o almoço é por conta da empresa: nove reais por dia. 

A empresa é muito boa. O que a diferencia das outras é a assistência que eles dão externa, fora do salário. Eles têm um credo lá, não sei se posso dizer aqui; é muito bom e eles seguem aquilo à risca. Se a pessoa trabalha dentro do que eles querem, a empresa reconhece; se a pessoa não trabalham, também não fica. Eu acho que tem que ser assim. 

 

P/2 - Como pergunta de conclusão, eu ia perguntar se valeu a pena, mas o senhor já respondeu isso.

 

R - Muitos me perguntam se a Johnson é uma boa empresa e eu respondo que sou suspeito pra falar. Se estou há 34 anos lá... Pra mim, posso dizer que não é uma boa empresa, é uma excelente empresa. Parte de tudo o que eu tenho... 

O seu Manuel, meu gerente, me dizia: "Você não deve nada, porque se eles te deram, você deu o teu trabalho." Tá, concordo, mas talvez se eu tivesse entrado noutra empresa eu não estaria na situação que eu estou. Eu admiro a empresa, gosto da empresa, e se teve épocas que certos homens estragaram a empresa, hoje não tem mais. Mas isso toda empresa tem. 

A empresa tem defeito? Sim e muitos, mas as qualidades valem mais. É uma empresa que procura estar sempre acima de tudo. Às vezes, os salários não são os ideais para os funcionários, mas se analisarmos junto com as outras, ela está entre as quatro ou cinco que estão pagando. Está no meio. 

Ideal, salário bom ninguém ganha. Você não está contente com o que você ganha, por mais que você ganhe. Você também não. A gente tem é que analisar o mercado e as outras coisas que entram por fora. Eu acho que a assistência social, o apoio moral - meu pai morreu e foi a minha equipe inteirinha no enterro. Ninguém tinha obrigação. 

 

P/1 - Só pra concluir, existe um remédio que o senhor se lembre, dos mais antigos, que o senhor pudesse fazer a propaganda aqui pra gente? 

 

R - Mais antigo? Tem vários. Tem uns que existem até hoje, né? 

Ah, fazer assim sem material é meio esquisito. Se tivesse algum material... Um produto que eu sempre gostei de trabalhar, saiu do mercado e voltou, é a Vagi-Sulfa. É um produto que é três sulfas e a ureia, cada sulfa agindo num PH diferente, mais a ureia como desodorizante; ela também serve para remover os tecidos necrosados, ao mesmo tempo que facilita a granulação e diminui o tempo de cicatrização da ferida. 

Posologia? A gente pergunta: "Doutor, qual é a que o senhor usa?” “Essa posologia é um pouco complicada. Primeiro começa com um aplicador durante três dias, depois diminui pra meio, depois passa pra 1/4 e assim por diante." "Ah, eu uso dez dias, com aplicador." "A posologia é sua." "Ah, eu uso doze dias." "Ótimo." Tem outro que diz: "Ah, eu uso de dez a quinze dias." "Ah, a posologia é sua." (risos) 

Rarical eu apresentei muito. Produtos que já saíram de linha, como Nactisol, Megabil, Gentersal Monicin. Monicin a gente falava que era para combater a monilíase e atingia... Como é que era? Atingia o núcleo do fungo e assim por diante. Tem vários tipos. 

Mas o que mais me gravou foi quando eu fui pra fazer teste da primeira vez. Eu nunca tinha trabalhado, mas também eles me deram três literaturas pra estudar: uma de Grifulvin, que não existe mais, depois uma de Pré-Gel, que era um creme anticoncepcional, também não existe mais, e a Vagi-Sulfa. E eu estudei, estudei, e aí o tal de Pré-Gel tinha um sal que... Era difícil. Eu fiquei a noite inteira. Minha mulher ficava lendo e dizia: “Tá errado, tá errado”, até eu conseguir falar o sal. Eu fui lá durante o dia e seu Manuel me pediu que eu falasse da Vagi-Sulfa, eu falei; Grifulvim, também falei, e agora o Pré-Gel. Pensei: "Pronto, agora estou na rua", não vou nem entrar. (risos) Bem, Pré-Gel é ácido bórico e paradisssssss... Simplesmente o nome do sal era paradisibutilfenóxipolietoxietanol! (risos) E aí quando comecei no paradiss... "Pode falar só polietoxietanol." Eu falei: "Agora é que você vem falar isso? Por que não falou antes?" (risos) 

Uma vez tinha um fulano lá que nós vendíamos, e naquele tempo era assim: saíamos sábado, uma equipe saía pra vender, outra ficava em reunião. E o seu Manuel tinha a mania de pegar as fichas de médicos, farmácias da gente e: "Quanto você vai vender?" "Vou vender tanto.” E ele olhava... Então, suponhamos: "Vou vender quatrocentos mil cruzeiros", daquele tempo. "Se vender 480 ganha um champanhe, se vender 410 perde o champanhe. Paga pra mim." E eu andei... Com essa brincadeira, tem um ano lá que eu estourei doze champanhes à custa dele, eu e um outro colega. 

Tinha um colega lá que: "Quanto você vai vender?" "Ah, vou vender hoje trezentos mil cruzeiros." Chegava no fim do dia, nada. "Que foi?" "Sabes, seu Manuel, aconteceu isso, aconteceu aquilo, mas o guia da minha mulher falou que amanhã eu vendo seiscentos." "Tá bom." Chegava no dia seguinte, nada, e assim por diante. "Só uma coisa: o guia da sua mulher não falou que você tava demitido?" "Não, não falou." "Então ele errou, porque você tá demitido." (risos) Nunca me esqueci disso. Seu Manuel tinha dessas coisas.

Tem fatos assim bacanas. Eu conheci muito lugar por causa da Johnson. Que nem minha mulher falou: a gente já foi em tanto restaurante, tanta coisa boa, graças à Johnson. Então a gente... Muita gente fala: "Você deu 34 anos da sua vida." Dei, mas a vida é uma troca. Quando a troca compensa é bom, pior quando a gente dá e não recebe nada. 

Hoje posso dizer que sou feliz. Pela família que eu tenho, pelo emprego que eu tenho e por tudo o que eu tenho. E porque Deus me ajudou muito na vida. 

 

P/1 - Então, tá bom. Se o senhor quiser completar com mais alguma coisa...

 

R - Não, só queria completar o seguinte: eu quero que essa empresa cada vez vá mais pra frente. Só isto, nada mais eu tenho. E quando vocês precisarem de mim estou à disposição. Eu vou ver se tenho alguma fotografia lá, ou eu venho trazer aqui ou envio pra vocês, como vocês quiserem. Eu não sei se vou ser convocado outra vez...

 

P/1 - Tá bom. A gente conversa aqui fora e acerta isso. Obrigado.


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