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História

Histórias de um mestre-cervejeiro

História de: Manuel Joaquim Leiras Fernandes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2006

Sinopse

Manuel Joaquim relembra sua trajetória dentro da Ambev, contando como foi sua entrada na companhia em 1977 como escrevente apontador, até tornar-se supervisor de processos. Fala sobre seu sonho de trabalhar como cervejeiro, sobre as mudanças que vieram com a fusão da Brahma com a Antártica, sobre os desafios e sobre os momentos marcantes.

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História completa

Identificação

Meu nome é Manuel Joaquim Leiras Fernandes. Nasci em 19 de outubro de 1958, em Barcelos, Portugal.

 

Ingresso na empresa

Ingressei na Companhia há muito tempo atrás em 1977, junho de 1977 pra ser mais preciso. Meu pai já trabalhava na Companhia há muito tempo. Naquela época ainda se trabalhava parentes que é da antiga Brahma. E aí a gente fazia uma provinha de integração na realidade e passei na prova e fui admitido na Companhia. Entrei na filial Rio de Janeiro, que era da Companhia Cervejaria Brahma, na Marquês de Sapucaí. Entrei como escrevente apontador na oficina elétrica. Eu fiquei trabalhando na oficina elétrica dois meses. Como o meu pai também trabalhava na elétrica poderia trabalhar parente, mas não poderia trabalhar na mesma área. Dois meses depois na realidade não era estágio, como é que a gente diz? Experiência. Eram três meses e eu passei pra uma área chamada apropriação e custos ali eu tive uma trajetória fiquei quase dez anos na apropriação e custos passei pra escrevente apontador pra auxiliar de escritório e escriturário. Depois de uns 10 anos, em 1988, praticamente 11 anos, eu passei pra aprendiz de cervejeiro aí fiz um estágio de quatro anos de cervejeiro em 1992 eu fiz um curso de formação em Curitiba e passei a ser cervejeiro e hoje eu sou um supervisor de processos na nova filial Rio. Aí em 1997 a nossa fábrica estava fechando e eu fui transferido pra fábrica de Jacarepaguá em Campo Grande, pra nova filial Rio de Janeiro. Hoje estou na Nova Rio. Eu chamo de Nova Rio, mas é filial Rio de Janeiro. Não existe mais essa função cervejeiro prático. Eu era um cervejeiro prático hoje eu estou como um supervisor fabril. Estou há 29 anos na Companhia. Fiz agora em 20 de junho.

 

O trabalho de cervejeiro

Era excelente o dia a dia. Era um ambiente agradável: primeiro quando a fábrica era pequena, um processo totalmente artesanal, mesmo antes na área numa divisão sem ser da de cervejaria porque o meu sonho sempre foi ser um cervejeiro. O ambiente era acolhedor, você tinha pessoas que você via toda hora, todo dia, você cruzava como era uma fábrica pequena você cruzava várias vezes ao dia com aquelas pessoas, então era um ambiente bem familiar. Como a gente falava antigamente a Brahma era uma mãe pra gente, não era longe disso não, realmente era uma mãe pra gente. E era muito gostoso tanto é que foram 20 anos dentro daquela fábrica até fechar. Dentro da área de cervejaria é totalmente diferente. Hoje eu posso falar que eu sei. Eu trabalhei numa cervejaria e hoje eu trabalho numa indústria de cerveja totalmente diferente. Você tinha a área artesanal onde você lidava e hoje você trabalha numa grande fábrica totalmente automatizada uma das fábricas mais modernas do mundo e é totalmente diferente, você conviveu com o antigo e hoje você convive com o moderno. Eu acho que é um histórico pra se contar, tem muita coisa pra se dizer. Muito interessante de você ter trabalhado do modo antigo de se fazer cerveja e hoje do modo mais moderno e mais nova de se fazer cerveja. Eu não vou contar a trajetória da época de auxiliar de escritório, mas de cervejeiro que é a parte mais interessante, porque se trabalhava com tanques de madeiras, com tanques de ferros. Você tinha que entrar dentro do tanque pra lavar o tanque, puxar fermento com rodo. Hoje não, hoje você tem tanques Outdoor, onde é totalmente automatizado, você não tem contato, você senta na frente de um micro industrial e todo processo é feito pelo computador, quer dizer, você não tem quase contato com o teu produto. É a diferença da automação do artesanal onde você tinha que estar em contato direto com o teu produto e hoje tudo automatizado, quer dizer, você conviveu com o velho e hoje convive com o moderno. Eu acho que eu tenho muita história pra contar nisso aí. Ver o lado bom da evolução de se fazer cerveja desde o processo antigo desde o tanquinho de madeira lá até fermentações abertas até os mais modernos hoje que são em adegas Outdoor, adegas fechadas.

 

Incorporação/Expansão/Fusão

Eu falo que estou hoje na quarta empresa sem sair da mesma empresa porque eu comecei na Companhia e Cervejaria Brahma em 1977. Em 1980 nós passamos para a Brahma e Skol, foi quando nós incorporamos a Skol, depois nós passamos para ser AmBev e hoje nós estamos a InBev, então eu estou na quarta razão social sem nunca ter saído da Companhia. E eu peguei todo esse processo, toda essa trajetória da nossa Companhia, até chegar hoje na grande Companhia que é que é a InBev. Começamos lá na Brahma. Naquela época, a gente não tinha muito contato com esse tipo de coisa. Você está lá está na produção e você não tinha contato, não era aberto como você hoje tem. Você não tinha todas essas informações você recebia a notícia e “Olha, a partir de agora você tem a fusão com a Skol” e aí teve todo aquele processo de incorporação dos processos da Skol Brahma. Quando foi a AmBev, quando entrou o Grupo Garantia em 1999, aí você já teve uma abertura maior, você já teve um nivelamento de todas as coisas e aí ficou bem mais fácil as informações chegavam mais rápido e hoje é o que é a Companhia a gente tem uma gama de informações muito maior, muito maior. Deu pra acompanhar mais a evolução agora do que aquele processo antigo. A princípio, a gente tinha algo assim: quem é Brahma é Brahma e quem é Antarctica é Antarctica e tinha aquela rivalidade muito grande e quando houve a fusão a gente viu que era tudo igual. O que se fazia na Antarctica nada era diferente na Brahma. A princípio no início foi assim: “poxa, o nosso maior rival no país hoje está se unindo a gente”, mas depois passa e a gente viu que nada mudou e continua a mesma coisa que foi eu acho que a gente teve até um benefício maior, a gente ganhou muito com isso.

Nova Rio, Rio de Janeiro

Nós temos só os carros-chefes que é a Skol, a Brahma, a linha Bohemia, perdão, só a Bohemia Pilsen, a Malzbier, o Chopp claro e o Chopp escuro. Então Brahma, Skol, Bohemia, Antarctica e Malzbier e o Chopp claro e o Chopp escuro. A campeã aqui no Rio de Janeiro continua sendo a Skol. É a campeã.

 

Tipos e fabricação de cerveja

As formulações têm pequenas variações pra cada tipo. Eu sou um conhecedor de fermentos porque eu faço os fermentos da Companhia hoje, e tem um fermento para cada tipo de cerveja hoje. Você tem lá a mistura no processo e para cada tipo de cerveja nós temos um fermento, que hoje é o segredo das grandes cervejarias. Então para cada produto que a gente tem um fermento específico. Isso eu posso falar de cadeira porque eu sou o responsável por todos os fermentos lá.

 

Valores

Como é que eu posso dizer a cultura InBev? A gente participa da cultura AmBev, a gente pratica a cultura AmBev. A gente saiu de uma empresa totalmente paternalista, empresa familiar para um grupo hoje globalizado. Então a gente convive com isso o dia-a-dia é uma maneira diferente de ser. Hoje você ter liberdade, entre aspas, esse tipo de coisa, é bem mais fácil se trabalhar do que antigamente você ficar preso a certas regras rígidas, e hoje é totalmente diferente. É bem mais fácil hoje você trabalhar dentro da Companhia. A cultura AmBev ajuda muito a gente trabalhar, é bem mais fácil.

 

Responsabilidade Social

Pela política ambiental, a gente tem que viver em harmonia com a comunidade, tratar nossos efluentes. Sobre isso a gente tem que ter um controle muito grande até mesmo porque hoje o mundo pede isso, você causa um impacto ambiental, você afetar os vizinhos, a comunidade em volta, isso é um agravante. Então a gente tem que ter um controle muito rígido sobre isso. A política de segurança que em primeiro lugar hoje é a segurança, a integridade nossa dos nossos funcionários, tanto nossa como a dos funcionários, o funcionário saiu íntegro de casa ele tem que voltar íntegro pra casa. Então a segurança acima de tudo hoje. Essas são as principais políticas que a gente tem que seguir à risca: primeiro a segurança acima de tudo de todas as pessoas de dentro da nossa fábrica principalmente.

 

Momentos marcantes

O mais marcante foi quando eu consegui passar para o aprendizado de cervejeiro. Era um sonho que eu tinha: eu estou trabalhando numa cervejaria, eu sou formado em administração, mas meu sonho se eu estou trabalhando numa cervejaria eu tenho que aprender a fazer o nosso produto. E quando eu consegui, praticamente 11 anos depois, eu acho que foi o momento mais marcante da minha história dentro da Companhia eu ter conseguido ido pra aprendizado e ter seguido todo o aprendizado de cervejeiro ter me formado em cervejaria e ser o que eu sou hoje. Tudo o que hoje eu sou eu agradeço a Companhia e a Companhia me deu essa oportunidade de ser o que eu sou hoje. Ela conseguiu fazer, quer dizer, eu também junto com ela, fazer com que eu seja um excelente cervejeiro eu me considero um excelente cervejeiro tanto é que eu estou esse tempo todo na Companhia, mas o momento mais marcante foi quando eu consegui passar a ser um aprendiz de cervejeiro e a ser um cervejeiro dentro da Companhia. Isso foi em 1988 quando eu comecei no aprendizado e me formei em 1992.

 

Mestre-cervejeiro

Nós temos dois tipos de cervejeiro: tem os cervejeiros práticos que é o meu caso. Hoje não existe, hoje é feito por Vassouras, mas antigamente era feito pela própria Companhia. Nós temos um centro de formação profissional em Curitiba, ele foi extinto em 1994, mas antes era feito em agora é feito em Vassouras, uma sociedade da Companhia com o Senai forma os técnicos em cervejaria, mas eu ainda formei em Curitiba era um centro de formação profissional na unidade Curitiba. Toda mudança é complicada, esses são os grandes desafios e o desafio é meu hoje principalmente é ter uma formação de sucessores. Eu fico muito preocupado como eu estou muito tempo me dediquei muito eu quero formar um sucessor que esteja, que leve, eu gosto muito do que eu faço, tanto é que eu fiquei esses anos todos. Eu gosto muito do que eu faço e o meu grande desafio hoje é formar um sucessor que dê continuidade ao que eu veio fazendo dentro da Companhia. No aprendizado, a gente tinha vários turnos então trabalhava de manhã, de tarde, à noite, de madrugada, então a gente revezava, foram quatro anos de estágio porque o estágio de cervejeiro antigamente eram de quatro a cinco anos e você tinha que começar desde o recebimento de matéria-prima até o final. Então você praticava na fábrica toda porque depois você ia ser o responsável pela fábrica, era assim que funcionava.

 

Cerveja Skol/ Guaraná Antarctica e Maradona

As propagandas da Skol são muito interessantes. Elas são todas elas muito divertidas. A da Copa foi bem interessante, a com o Maradona e o Guaraná Antarctica. Foi fantástico, foi bem tirado. Foi bem elaborado, marcou muito essa.

 

Importância dos depoimentos

Eu já fiquei muito emocionado quando foi do Projeto Reconhecer, marcou muito eu já tinha recebido a minha medalhinha de 25 anos e entrei de novo no Programa Reconhecer e de novo a gente ganha pelo tempo de casa eu sei que tem umas fotos nossas num mural em São Paulo e com mais esta iniciativa eu acho que só vem a reconhecer o nosso trabalho e tudo o que a gente fez pela Companhia e continua fazendo. Eu acho que é um reconhecimento e eu me sinto muito grato por isso. Muito reconhecido até.

 

“Fantasmas na fábrica”

Na Marquês de Sapucaí havia histórias de fantasmas que se via fantasmas. E eu estava de madrugada lavando o tanque e eram uns cinco andares só de tanques e você ficava praticamente sozinho e os caminhos eram de ferros, estrados. E você via os outros andares e eu estava dentro do tanque lavando e escutava passos. Eu enfiava a cabeça e o meu maior medo era que alguém viesse e fechasse o tanque e deixasse a gente preso. Faziam muita molecagem, ainda mais eu aprendiz. Eu botava a cabeça e “quem é que está aí?” Eu me arrepio. “Quem é que está aí?” (risos). Eu não via ninguém e eu entrava pra dentro do tanque e de novo passos pra cima do ferro e aquilo foi a noite inteira. E aí de manhã eu comentei: “Pô, tu não sabe cara? É uma história de um velho cervejeiro que morava aqui que ele passeia de madrugada.” Aí que... E pra lavar tanque de novo sozinho de madrugada? Sozinho eu não queria mais. (risos)

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