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Histórias de um executivo

História de: Gilberto Galan
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2014

Sinopse

Gilberto Galan é um executivo que se aposentou da vida executiva e que leciona aulas de marketing na FGV e ESPM. Em seu depoimento ele recorda a infância em Bauru, na época em que estudava com Pelé. Fala das brincadeiras de infância, dos estudos no Instituto de Educação Ernesto Monte e da vinda para São Paulo para estudar Engenharia. Lembra a vida em república e os primeiros empregos após a formatura. Com larga experiência de vida executiva, conta causos do período em que trabalhou em empresas americanas, entre elas, a Kodak.

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História completa

Meu nome completo é Gilberto Galan. Eu nasci em Bauru, no Estado de São Paulo em 20 de abril de 1950. Meu pai João Galan Rossi, era descendente de italiano, ele chegou até morar na Itália. E minha mãe era de Dois Córregos. Então tive uma infância típica de cidade de interior, brincando na rua, sem problema de trânsito, com muitos amigos, muitas crianças e tal. Entrei com seis anos na escola que ficava na esquina de casa, e lá estudava também o Pelé. O Pelé, ele era e é mais velho do que eu.  Só que ele repetiu tantas vezes, que eu alcancei, eu estudei no quarto ano do primário com ele, foi interessante. Mas a gente jogava bola, então foi interessante isso, mas o Pelé já tinha esse tipo de potencial, ele já era convidado pra jogar no Baquinho. O que foi interessante, quando ele começou a ficar lá com seus 13, 14 anos, alguma coisa desse tipo, porque ele foi pra Copa em 1958, com 17 anos, era um menino. Então, ele saiu de lá mais ou menos com 13, na realidade ele foi treinar no Palmeiras primeiro depois que ele foi treinar no Santos, e eu me lembro que se falava lá, que o pessoal conversava, que “Pô, que negócio, o cara vai jogar em time grande, então fazer teste, e tal”, mas não tinha chuteiras do tamanho dele, então ele foi muito prejudicado nesse treino no Palmeiras porque não tinha chuteiras do tamanho dele. E daí depois voltou pra lá e depois outro profissional que tinha sido jogador de futebol, que eu não me recordo no momento o nome dele, levou-o pro Santos.

 

Meus avós italianos por parte de pai, e minha avó por parte de mãe morreram quando eu era nenenzinho, não tive contato, só com meu avô por parte de minha mãe. A parte, que é mais marcante é parte de meu pai, porque eles vieram lá da região de Udine, da Itália, e migraram em uma época difícil lá na Itália e depois eles voltaram pra Itália, e meu pai já nascido aqui, ele foi pra Itália e depois voltou. E também era uma coisa interessante, porque em Bauru não tinha escola de Odontologia, ele fez Odontologia em Ribeirão Preto. Minha mãe veio de uma família de Dois Córregos, e de muitos filhos, e que naquela época, pela, uma certa ignorância do pai dela que dizia que a mulher fazia até o curso primário e depois ia casar e fim de papo. Tenho mais raízes da parte de meu pai, porque pesquisei o norte da Itália, de onde eles vieram. E o curioso é que o sobrenome meu não é muito usual, Galan, mas na realidade originalmente era Galani, então o “i” se perdeu aí na imigração quando se fazia o registro. Eu tenho um irmão mais velho.

 

Naquela época tinha o ginásio e o científico, pra quem ia fazer Engenharia, eu fiz Engenharia depois, e geralmente as meninas iam fazer o clássico, pra fazer Humanas, então eu fiz nesse mesmo colégio do Estado, Instituto de Educação Ernesto Monte. Foi uma das fases muito boas porque aí já deslocava-se a questão das brincadeiras da rua para as atividades em torno do colégio, já tinha os bailinhos, aquelas coisas, esportes. Então a gente ia toda tarde praticar algum esporte, basquete geralmente, as moças eram vôlei, onde jogava a irmã do Pelé. Eu acho que tinha professores interessantes, mas a maioria tinha limitações e tinha esse ranço autoritário, eu acho que o mais gostoso era o ambiente com os colegas. Então a gente fazia farra, colava, a gente desenvolveu técnicas de colar, nas provas, coisas extremamente criativas, que era de ter que escrever na mão, que é o básico, de fazer uns quase que uns papiros, tudo enroladinhos, enfiava na manga ou então já de véspera deixava na carteira, porque antes tinha o lugar marcado, então você marcava lá ou escrevia na madeira da carteira. Então desenvolvia algumas técnicas, porque era mais difícil você colar do lado, os meninos faziam, meninas não faziam isso de jeito nenhum. Eu não, porque eu era meio perfeccionista e queria realmente tirar boa nota e passar, mas nunca meu pai precisou falar assim: “Não, você precisa estudar e tal, está na hora da prova e você tem que estudar”, não, eu nunca precisei disso, acordava cedo, acordava seis horas da manhã, pra ir à escola, andava dez, 12 quarteirões, ia a pé. Cumpria bem meu dever, mas tinha hora que tinha dificuldade em algumas coisas, porque eram uns absurdos, você tinha que decorar teorema, invés de você raciocinar, o problema é que esses caras não ensinavam você a pensar e raciocinar, eles faziam você decorar o teorema de Pitágoras, por exemplo.

 

Eu tive uma namorada. E ela depois virou minha mulher atual, ela é lá de Bauru também, mas ela por coincidência veio também pra São Paulo, com a família dela, só que ela veio com a família e eu vim sozinho, então depois de uns anos ela veio cá pra vir estudar também, Psicologia, não tinha em Bauru. Então ela veio desde que a gente começou a namorar para aqueles lados.  Eu vim sozinho, eu estava lá com seus 17 anos, e vim com uma mala enorme, e eu fui morar numa pensão, porque meu irmão já tinha morado numa pensão aqui. Eu fazia cursinho na Poli, na Politécnica, no tempo que era lá na Luz, antes de ir pra USP. Era um cursinho puxado, era muito difícil entrar na faculdade, depois acabei entrando na FEI – Faculdade de Engenharia Industrial, na São Joaquim, que depois mudou-se para São Bernardo do Campo. Depois quando mudou a faculdade pra lá, eu fui morar em São Bernardo do Campo, morei uns bons tempos lá até terminar a faculdade. Uma época eu ia e voltava, ia e voltava. A gente montou uma república. Eu acho que república é uma experiência extraordinária, uma das maiores escola que eu já tive na minha vida foi morar em república, primeiro você tem que morar coletivamente, você tem que ter certa tolerância, segundo, a gente tinha uma prática de que cada mês um era o presidente da república, então ele era responsável por comprar as coisas pra cozinha, a gente contratava uma empregada que fazia cozinha e tal, mas tinha que fazer feira, essas coisas. Então eu aprendi muito, coisas que pra mim é útil hoje, porque eu conheço alimento, eu cozinho, eu costuro, eu faço tudo serviço de casa eu faço, supermercado sou eu que faço até hoje em casa.

 

Acabei tendo meu primeiro emprego numa empresa de parafusos. Foi horrível, era uma fábrica que o controle acionário estava sendo comprado por uma empresa americana, maior empresa americana de parafuso, e estava um processo de transição, e estava muito ruim o ambiente lá, e era também aquele sistema bem autoritário, apesar de ser engenheiro, tinha que bater o ponto. Esse tipo de coisa, lembro quando meu pai morreu, passou o período de luto, no dia seguinte eles descontavam, então era um negócio assim, foi um período difícil. Minha mãe ficou viúva, eu tinha que dar assistência, ela estava em Bauru, depois ela mudou pra Santos. Então foi um período difícil, mas eu acho que foi de grande valor porque tem que ir à luta mesmo, abrir espaço, pegar o emprego que tem, em condições difíceis, mas eu era muito tonto ainda. Isso era no final dos anos 60, começo de 70, mas nessa época eu já tinha feito uns estágios em fundição na metalurgia e eu vi o que era o inferno passar em fundição. Quando eu fui fazer FGV, era extremamente disputado, tinha 15 vagas, uma coisa desse tipo, e eu consegui entrar, e um professor de lá me conseguiu um emprego na construtora Zarvos, mas era pra fazer coisa diferente de Engenharia, começar entrar em marketing, planejamento de vendas, essas coisas, propaganda. Talvez eu tenha sido o primeiro expert de marketing imobiliário do Brasil, você inventava umas técnicas de distribuir folhetos, esse negócio que existe hoje, mas era mais sofisticado. Então eu contratava mocinhas bonitas, desenhava uniformes, fazia folhetos, fazia happenings no plantão e tal, foi uma inovação muito grande, aprendi muito, trabalhei um tempo, depois fui pra uma outra imobiliária, mas essa imobiliária faliu. Eu sempre tive um grande sonho de trabalhar numa empresa americana, desde pequeno eu admirava os Estados Unidos. Quando me chamaram pra trabalhar na Kodak, pra mim foi o paraíso, eu nem acreditava. Eu entrei como gerente de pesquisa de mercado e saí como vice-presidente.

 

Eu fui sondado pra morar fora, eu fui até procurar casa nos Estados Unidos, era pra passar a temporada, e depois ser presidente de alguma filial da Kodak em algum lugar do mundo. Mas tinha minha mulher, ela tinha a carreira dela, nesse meio tempo tinha um conflito, mas a gente já tinha ido ver casa e tal. Mas teve uma outra crise econômica, e andaram cortando despesas nos Estados Unidos e eu falei: “Fico por aqui mesmo”. Mas se tivesse isso teria mudado a minha carreira, porque eu teria sido expatriado porque você vai pro lugar e você não volta mais. Então, eu ia ser presidente da Kodak Uruguaia... Depois do Peru, depois do México, depois voltar para o Brasil como presidente da empresa aqui, é uma carreira mais ou menos estabelecida, mas você não pode pular fora. Você falou, eu vou sair, vou sair. Então, eu não sei se foi bom ou mal, mas, foi interrompido isso. Mas eu visitei muito o mundo inteiro.

 

Na Embraer, quando eu participei ela já tinha sido privatizada e eu peguei um período que ela estava ainda meio mal, e meu trabalho foi fazer torna-la a queridinha do Brasil. Foi a favorita.  E ficou realmente um ícone nacional e essa foi a ideia mesmo, e participei de muitas coisas foras, entre lançamentos, conferências de imprensa em Washington, em Paris, todo lugar, porque tinha um circuito dos shows aéreos, essas coisas, então foi uma experiência interessante trabalhar com uma empresa brasileira.

 

A Kodak foi a primeira empresa a ser recebida pelo Collor depois que ele foi eleito. E eu fui com o embaixador dos Estados Unidos e o presidente da Kodak, nós fomos recebidos pelo Collor, foi até um episódio desagradável porque ele estava tão inflado, falando das elites e não sei o quê e o embaixador dos Estados Unidos estava com uma carta do presidente dos Estados Unidos, cumprimentando e desejando sucesso e tal. É um protocolo que existe no mundo político, diplomático. E normalmente é uma praxe também tirar fotos lá no local. Tem o fotógrafo oficial da presidência e esse cara era meu amigo pessoal, o fotógrafo do Collor. É tanto que eu tenho foto com outros presidentes, com o Figueiredo, com o Sarney e o Collor não deixou tirar fotografia e se recusou de receber a carta do presidente dos Estados Unidos. Eu tenho o costume, ao longo da minha carreira, eu levo o presidente mundial dessa empresa, empresas americanas, multinacionais para conhecer o presidente da república. E quanto mais cedo você fizer isso, mais sucesso você tem. Porque você se posiciona logo. No Collor foi o caso dele, foi a primeira empresa e ponto. Quando foi eleito o Lula, foi a mesma coisa. E eu já estava no Citibank, era vice presidente do Citibank. E eu também consegui que o presidente mundial do banco fosse atendido pelo Lula, antes dele tomar posse, entre a eleição e a posse, lá na Granja do Torto.

 

Na época da Rio 92, a primeira conferência de meio ambiente, no Rio eu fazia muito relacionamento com o Itamaraty e eu ofereci pra Kodak fazer a foto oficial dos chefes dos Estados. Então foi uma operação de uns seis meses mais ou menos, contratei o melhor fotógrafo do Brasil na época e a gente ficou vendo posição do sol, o lugar e tal. Daí eu fiquei responsável por tudo, até fazer o que eles chamam de praticável, que é uma arquibancada, e eu fiz aquilo, contratei os caras pra bater um prego lá, com as plaquinhas onde cada um ia ficar e tal, pra os 114 chefes do Estado. Mas foi interessante, deu certo, entreguei uma cópia pra cada chefe de Estado.

Eu estou aposentado da vida executiva, quer dizer, eu parei minha vida executiva, minha última empresa foi o Citibank, e eu tenho uma empresa de consultoria, mas eu trabalho mais em casa, e tenho uma rotina diferente. Sou professor universitário na ESPM, sou professor convidado na FGV, e umas associações e dou treinamento pro pessoal. E hoje eu tenho me dedicado bastante a ajudar os novos profissionais gratuitamente, toda semana. Essa semana eu tive dois cafés, ou almoço com profissionais ou que estão numa fase mais difícil de transição de carreira ou desempregado ou querendo mudar. Então eles recorrem muito a mim, então isso eu faço gratuitamente, não tenho nenhum interesse, mas passar o conhecimento adianta, eu acho que mais do que ganhar dinheiro ou ter prestígio ou coisa assim. Às vezes um conselho muda a sua vida, eu acho importante ser procurado por esses jovens, um pouco mais jovens que eu, e que tem alguns dilemas profissionais na vida.

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