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Histórias de um contador

História de: Antônio Brás Vernucci
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/08/2005

Sinopse

Antônio passou a infância em São José do Rio Preto. Quando adolescente ajudava seu pai, que tinha uma vidraçaria, e por isso conheceu várias cidades ao redor da sua. Formou-se em Economia e Ciências Contábeis e abriu seu escritório de contabilidade. Alguns anos depois, foi chamado para dar aulas de contabilidade no SENAC. Nessa entrevista, realizada em 1995, ele nos conta sua trajetória pessoal e profissional.   

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História completa


P/1 - Bom, eu queria começar com o senhor falando o seu nome completo, local e a data de nascimento do senhor.

R - Antônio Brás Vernucci. Eu nasci na cidade de Socorro, Estado de São Paulo, em sete de outubro de 1925, portanto estarei com setenta anos no próximo dia sete de outubro.

P /1 - O nome dos pais do senhor e onde eles nasceram?

R - Meu pai chamava-se Raphael Vernucci e minha mãe Marianinha Vernucci, ambos italianos, já falecidos. Tiveram aqui no Brasil três filhos, dos quais eu sou o caçula.

P/1 - Qual era a atividade do pai do senhor?

R - Papai era comerciante e mamãe doméstica.

P/2 - Para que cidade eles imigraram em São Paulo, senhor Brás?

R - Diretamente para Socorro, no Estado de São Paulo, e ficaram lá até 1928, quando mudamos para São José do Rio Preto. Eu mudei para Rio Preto com três anos de idade, fiz o curso, naquele tempo o primário, em Rio Preto e o secundário. O curso superior eu fiz em Ribeirão Preto, na Faculdade de Ciências Econômicas, portanto sou economista e bacharel em Ciências Contábeis. Estou às suas ordens.

P/ 1 - Como é que era o dia a dia da casa do senhor em Rio Preto?

R - Uma vida normal. Nós éramos da classe média, tínhamos uma vida razoável, papai trabalhava e nós estudávamos, eu e meus irmãos, uma vida perfeitamente normal.

P/2 - E o seu pai tinha uma loja?

R - Papai em Rio Preto se estabeleceu com comércio de vidros, quadros e imagens religiosas. A firma de meu pai chamava-se Ao Vidraceiro, porque ele colocava vidro nas residências, nas empresas, e isso foi até há pouco tempo, quando ele faleceu. O meu irmão Orlando assumiu o acervo da empresa e continuou, já com outro nome a empresa. Ele tirou Ao Vidraceiro e colocou Casa de Quadros Orlando, que é o nome próprio dele.

P/2 - Quando o senhor era menino, adolescente, o senhor ajudava o seu pai na loja, o senhor ia lá?

R - Ajudava. Aprendi a colocar vidros, então eu tinha imenso prazer de colocar vidros, trabalhar, subir escadas e muitas vezes colocava vidros em outras cidades da região. Eu tinha imenso prazer.

P/1 - Que cidades o senhor conheceu, que o senhor foi trabalhar com o seu pai?

R - Que eu conheci? Ah, eu conheci na época Catanduva, Votuporanga, Fernandópolis, Jales, Tanabi, Mirassol, Cosmorama, Olímpia, Barretos e outras cidades maiores e menores.

P/1 - E como era o dia a dia do senhor como estudante lá em Rio Preto?

R - Eu estudava… Após o primário, eu passei pra fazer o secundário à noite, então eu estudava à noite no curso de comércio e durante o dia eu trabalhava na firma do meu pai.

P/2 - E depois, quando acabou a faculdade?

R - Eu formei-me contador e logo a seguir ingressei na Faculdade de Ciências Econômicas Moura Lacerda de Ribeirão Preto, onde me formei economista.

P/2 - Mas aí o senhor já não trabalhava com o seu pai, era em outra cidade?

R - Na ocasião, quando eu já havia me formado contador, eu abri um escritório de contabilidade. Durante quatro anos eu trabalhei como contador, atendendo diversas empresas e também aqueles que necessitavam de orientação e de uma assistência técnica.

P/2 - E depois de Ribeirão Preto, o senhor voltou para Rio Preto?

R - Eu não me transferi para Ribeirão, continuei em Rio Preto e ia a cada quinze dias, ia assistir às aulas para preencher a necessidade de frequência até me formar.

P/1 - E por que é que o senhor escolheu o curso de Economia?

R - Porque lendo os jornais e revistas sobre economia eu me apaixonei pela matéria. Falar sobre finanças, sobre a economia dos Estados, da empresa pública, da empresa privada, isso me entusiasmou e peguei gosto. Até hoje continuo trabalhando na parte de auditoria empresarial, assessoria empresarial, não só na parte econômica como também na parte financeira.

P/2 - Senhor Brás, e quando foi a primeira vez que o senhor ouviu falar sobre o SENAC? Ou o senhor conhecia o trabalho do SENAC?

R - Em 1955, foi a primeira vez que eu li a respeito do SENAC. Procurei ler mais alguma coisa a respeito até que, em 57, pelo Professor Edenyr Machado, Diretor da Escola SENAC "Paiva Meira" de Rio Preto... Ele me convidou para ser Professor na Escola SENAC e isso me apaixonou, porque realmente eu já gostava do SENAC, mesmo distante. Quando lá ingressei eu participei de corpo e alma com os empreendimentos que o SENAC oferecia, não só aos seus funcionários como também a toda coletividade. Eu fiquei no SENAC [por] 22 anos trabalhando com o maior prazer e alegria.

P/2 - Que disciplina o senhor ministrava?

R - Quando ingressei no SENAC comecei com prática de escritório, seria no primeiro grau, depois o SENAC criou o Curso Técnico em Contabilidade, onde passamos a ensinar contabilidade geral, contabilidade comercial, contabilidade pública, contabilidade industrial. Ficamos entrosados realmente, não só com o SENAC como também com as empresas que nos visitavam sempre para conhecer o nosso trabalho.

P/2 - Prática de escritório, o senhor ensinava para alunos de que idade, senhor Brás?

R - Eram alunos de quinze anos de idade mais ou menos, porque o SENAC realmente criou o Escritório-Modelo que veio revolucionar uma época, o ensino de contabilidade, e em Rio Preto. O SENAC de Rio Preto realmente foi a melhor escola em matéria de ensino em Escritório-Modelo.

P/2 - O que era exatamente o Escritório-Modelo?

R - Ela é uma empresa, o escritório de uma empresa comercial dividida. O escritório é dividido em oito setores, desde os livros fiscais num setor, passava pela razão, pelo caixa, pelo sistema de arquivo, pelo diário, e em cada seção permaneciam quatro alunos fazendo rodízio entre si. Na primeira aula o aluno "A" seria o chefe daqueles outros três; na segunda aula, ele passava a ser o terceiro ou quarto, e o quarto passava a ser o primeiro. Havia um revezamento de chefia no trabalho, tudo com documentação, nada de teoria. Cada setor recebia documentos reais, autênticos, iguais aos legais, aos verdadeiros, e eles aprendiam a preencher esses documentos, aprender fazendo, não ouvindo.

O aluno realmente saía satisfeito. Eles não faltavam às aulas, brigavam para não faltar. Quando nós tínhamos, na época de desfiles, um ensaio de desfile que vinha coincidir com o horário da aula de escritório os alunos protestavam, preferiam a aula do que nos deixar para ir aprender a desfilar. Tanto é verdade que o Escritório-Modelo da Escola Técnica de Rio Preto granjeou uma posição esplêndida e nós, como professores do Escritório-Modelo, fomos designados pelo Departamento Nacional a ir até o Rio de Janeiro, no SENAC Nacional, para levar a nossa experiência e [mostrar] como era realizado o nosso trabalho. Levamos, inclusive, o sistema do diário que nós anotávamos, na época, por ficha tríplice. Os diários usados nos escritórios das empresas, a maioria, da média para a baixa eram escritos. No entanto, nós já tínhamos no Escritório-Modelo o diário copiativo: os alunos aprendiam a copiar as fichas tríplices. Levamos isso ao Rio de Janeiro para mostrar, para demonstrar a eficiência do trabalho feito.

P/2 - Senhor Brás, de onde vinham os alunos, como eles eram selecionados para entrar na escola?

R - O SENAC granjeou uma penetração muito grande junto a sociedade, então todos se interessavam em estudar no SENAC. A maioria procurava o SENAC espontaneamente, ou então o Sindicato do Comércio Varejista indicava candidatos que poderiam ser recrutados pelo SENAC. Nós sempre tivemos uma grande procura de vagas para o estudo.

P/1 - E, senhor Brás, como era o dia a dia da aula? Como os alunos eram avaliados no Escritório-Modelo?

R - A avaliação no Escritório-Modelo era feita permanentemente, porque trabalhando em quatro elementos, um fiscalizava o trabalho do outro. Se houvesse um erro, o próprio colega corrigia e eles entravam em entendimento, portanto não havia possibilidade dos quatro errarem no mesmo tempo. Sempre havia a supervisão do professor, o professor, permanentemente… Não era professor de ficar sentado, era professor de ficar percorrendo setor por setor, conversando um por um com os alunos, demonstrando, ensinando, insistindo para que tudo saísse certo. Só vendo para crer.

P/2 - Senhor Brás, as oito seções da divisão de escritório funcionavam dentro de uma mesma sala?

R - Mesma sala. Tínhamos não só as carteiras próprias com quatro setores, quatro cadeiras, nós tínhamos arquivos onde eram arquivados os documentos, nós tínhamos o kardex que controlava o estoque existente, nós tínhamos todo o mobiliário de um escritório real, máquinas de somar, de calcular, datilografia… Enfim, era um verdadeiro escritório.

P/2 - Senhor Brás, existia em Rio Preto outras escolas comerciais além do SENAC?

R - Existiam mais duas, mas que não adotavam esse sistema de ensino. Só nós, SENAC.

P/2 - E senhor Brás, o senhor falou que o SENAC tinha uma penetração muito grande, mas as famílias que procuravam eram famílias de renda mais elevada ou de renda mais baixa? Qual o tipo de aluno que frequentava?

R - A procura no Escritório-Modelo era geral, não era só de pessoa da renda mais baixa ou da mais alta. É que eles ficavam sabendo da eficiência do ensino e o prazer que o Escritório-Modelo oferecia, eles optavam pelo SENAC. Então eram rapazes de certa posição social que preferiam estudar no SENAC do que estudar em uma escola diferente do SENAC.

P/2 - E quantos anos o senhor ficou como Professor de Prática de Escritório, e depois comercial, de contabilidade?

R - Eu fiquei diversos anos. Acredito que tenha ficado no Escritório-Modelo [por] dez anos, porque logo em seguida, paralelamente, eu também lecionava contabilidade no curso técnico. Então eu preenchia horário no Curso Básico, que é o curso de primeiro grau daquela época, ensinando prática de escritório e logo a seguir lecionava contabilidade no curso técnico.

P/1 - Os alunos dos cursos estudavam à noite? E eles trabalhavam de dia?

R - Era à noite. Trabalhavam de dia e estudavam à noite. Como não teriam tempo pra estudar em casa, sobrava a eles somente o domingo. Nós achávamos que o aluno teria que aprender na sala de aula porque quem trabalha durante o dia todo e estuda à noite não encontra mais folga, não encontra tempo nem para recordar lições, razão pela qual nós fazíamos com que o aluno aprendesse na sala de aula. É onde realmente conseguimos realizar um grande trabalho, com grande êxito, posso lhes garantir.

P/1 - Senhor Brás, e qual era a receptividade dos comerciantes em relação a esse trabalho de educação?

R - Preferencial. Nossos alunos que estavam estudando na Prática de Escritório eram procurados preferencialmente, não só no comércio como nos bancos, estabelecimentos bancários. Eles tinham grande chance de progredir.

P/1 - Acontecia de o aluno estar estudando ainda e já ser procurado?

R - Ah, claro.

P/1 - Começar a trabalhar antes de acabar o curso?

R - Perfeitamente. Quantos já levavam a sua pequena experiência do Escritório-Modelo para o seu trabalho, e traziam também para o Escritório-Modelo novas ideias que eles aprendiam no seu emprego. Havia uma troca de experiências e ideias entre o professor e o aluno.

P/1 - Senhor Brás, o senhor comentou com a gente que era costume fazer toda semana uma visita a uma fábrica, uma empresa. Como eram essas visitas, quem agendava?

R - Ah, eu já lhe mostrei até fotografia a respeito. Semanalmente… Às vezes não dava certo, mas preferencialmente semanalmente nós íamos fazer visita às empresas comerciais e indústrias. Marcávamos previamente o horário, o dia disponível da empresa, e lá levávamos os nossos alunos para conhecer a estrutura organizacional da empresa, não só a sua parte contábil como também a sua parte gerencial, onde o aluno trazia uma nova alegria, uma nova experiência.

P/1 - E eles costumavam fazer relatórios depois, de avaliação, como era?

R - Perfeitamente. Não tinha objetivo se o professor não avaliasse até que ponto essa visita foi útil aos alunos. Para isso, o aluno era convidado a fazer uma apreciação da visita feita, e eles relatavam os setores visitados, a forma organizacional, com grande utilidade para eles e para o professor também, porque o professor é um verdadeiro aluno, ele aprende sempre.

P/1- O senhor lembra de algumas empresas que o senhor foi com os alunos?

R - Eu vou citar apenas a Coca-Cola, porque os alunos gostaram demais e tomaram também, beberam Coca-Cola à vontade. Nós fizemos uma visita a Coca-Cola de Rio Preto, cujo gerente nos presenteou com uma boa vontade extraordinária, mostrando toda a fase de produção, mostrando as pesquisas que eles faziam no mercado. Os alunos adoraram toda aquela organização exemplar, como também adoraram as Coca-Colas que foram oferecidas pelo gerente Darci Arantes. Ainda agradeço o que ele fez por nós.

P/1 - O senhor comentou com a gente que era comum a participação em desfiles da escola do SENAC. Eu queria que o senhor falasse para a gente um pouco disso, como eram essas comemorações cívicas?

R - O SENAC participava, desde o começo da sua existência em Rio Preto, de todos os desfiles cívicos promovidos, não só pela Delegacia de Ensino como pela prefeitura. Treinávamos os nossos alunos para que eles galhardamente desfilassem [com] respeito, mostrando o que o SENAC podia fazer por Rio Preto e pelo Brasil.

P/2 - E das Olimpíadas, o senhor lembra?

R - O SENAC de Rio Preto participava em todas as Olimpíadas sob o comando do diretor da época, Professor Otacílio Alves de Almeida. Ele que dirigia a caravana de esportistas de Rio Preto para outros centros do SENAC. E o SENAC de Rio Preto sempre foi muito bem destacado nestas competições.

P/1 - Senhor Brás, mudando um pouquinho, eu queria que o senhor falasse agora do trabalho do senhor como diretor do Grande Hotel São Pedro. Como o senhor foi para lá?

R - Uma bela manhã eu fui convidado pelo diretor Regional da época, Professor Oliver da Cunha, se eu gostaria de assumir a direção da Escola de Hotelaria em Águas de São Pedro. Eu, como gosto de todos os desafios da minha vida, aceitei na mesma hora e lá fui eu para São Pedro, para enfrentar o internato no trabalho entusiástico. [Foi] muito bom para mim, tenho muitas saudades.

P/2 - Há quantos anos o hotel já existia?

R - Eu fui o primeiro diretor.

P/2 - Ah, foi criado junto?

R - É, o SENAC recebeu em comodato do Estado o Grande Hotel de São Pedro. Nesta época resolveu criar, também no Grande Hotel, uma escola de formação profissional para formar garçons, cozinheiros e porteiros de hotel. E eu fui o primeiro diretor. Logo na época que nós assumimos e começamos a reforma do hotel, eu estava lá.

Os senhores não imaginam o trabalho que o SENAC realiza em Águas de São Pedro. Eu gostaria que fizessem uma visita para ver o trabalho dos jovens aprendendo a arte de cozinhar, os garçons aprendendo a servir e os porteiros na recepção. Somente indo lá e vendo vocês poderão avaliar o grande serviço que o SENAC faz em Águas de São Pedro.

P/2 - Senhor Brás, quando foi convidado, o senhor era professor no curso de escritório e de contabilidade. Por que o senhor acha que foi escolhido para esse cargo que, na verdade, era bastante diferente do que o senhor fazia?

R - Porque no SENAC todo elemento tem que ser polivalente, nenhum de nós para. Todos nós aceitamos um desafio e não há dificuldade quando o elemento tem boa vontade e deseja progredir. Eu estive na Cidade do México durante trinta dias, fui enviado pela direção regional de São Paulo para estar lá num estágio em turismo e hotelaria e administração financeira. Passei uma semana em cada setor, de manhã, à tarde e à noite, estudando o funcionamento da Escola de Hotelaria do México, a Escola de Turismo e a Escola de Administração Financeira. Trocamos experiências, eu levei a experiência do SENAC de São Pedro para lá; levamos slides, levamos o nosso trabalho e foi gratificante, porque também recebemos muita orientação nesses setores da nossa atividade.

P/2 - E quanto tempo o senhor ficou na Escola de Hotelaria?

R - Praticamente um ano. Foi quando eu fui enviado para Rio Preto pelo Presidente do SENAC, senhor Papa Júnior, onde eu assumi o cargo de assistente de direção da Escola SENAC "Paiva Meira" de Rio Preto.

P/1 - Senhor Brás, voltando um pouco ao Grande Hotel, como eram selecionados os alunos? De onde que eles vinham, eles vinham de todo o Estado de São Paulo? Lá era só um estágio?

R - Para ser sincero - a gente tem que ser sincero na vida -, eu encontrei muita dificuldade com os alunos que foram enviados para a Escola de Hotelaria, mas por ser a primeira turma. Eu não estou culpando ninguém, não estou acusando, apenas tive um trabalho imenso. Uma grande parte dos alunos enviados não tinham a mínima vocação para exercer as funções de cozinheiro ou de garçom ou de recepcionista. Foram enviados alguns até porque precisavam ter uma casa onde haveria fartura de alimento, um tratamento de dentes, um médico; eles foram e nos deram muito trabalho. Mesmo assim, grande parte destes que foram passaram a gostar da profissão, foram estimulados a gostar e realmente a grande maioria saiu da Escola do SENAC de Hotelaria, como bons profissionais, bons garçons, bons cozinheiros, excelentes recepcionistas.

P/1 - E como eram contratados os professores para esses cursos de garçom, de recepcionista?

R - Geralmente o maître do Grande Hotel, naquela época, era contratado para ser o mestre dos garçons. O mestre cozinheiro, o chefe de cozinha do Grande Hotel, é que dava as aulas práticas de cozinha porque paralelamente esses alunos tinham aulas de teoria sobre cozinha, sobre alimentos, e também aulas teóricas do curso de garçom, que vinha complementar a sua formação profissional.

P/1 - E, na época, quem eram os hóspedes do Grande Hotel Águas de São Pedro?

R - Eu acho que, como até hoje, o Grande Hotel recebe um número muito grande de hóspedes, não só de São Paulo, como do Rio de Janeiro e outros estados. Atualmente acredito [que] é flutuante essa demanda de hospedagem, porque faz tempo que eu não tenho ido a São Pedro, nada posso afirmar.

P/2 - Senhor Brás, depois o senhor voltou para Rio Preto como assistente de...

R - De direção.

P/2 - ... de direção. O senhor continuou então muitos anos ainda na escola?

R - Logo em seguida eu fui efetivado como diretor porque o Professor Otacílio Alves de Almeida, que era diretor, foi eleito deputado federal. Passei a ser seu substituto e posteriormente [fui] efetivado como diretor do SENAC de Rio Preto.

P/1 - O senhor participou da construção da atual sede do SENAC?

R - Do prédio?

P/1 - É.

R - Ah, eu já lecionava no SENAC, num casarão alugado, em péssimas condições. Foi quando o prefeito Alberto Andaló doou um terreno ao SENAC em ótimo ponto da cidade. E o SENAC, como sempre fez, construiu um magnífico edifício-escola e está lá até hoje funcionando.

P/2 - Senhor Brás, enquanto o senhor era diretor, além do Ginásio Comercial e do curso técnico funcionavam outros cursos também?

R - No tempo que tínhamos o curso técnico de Contabilidade funcionava em Rio Preto curso técnico de Secretariado, curso técnico de Enfermagem, cursos de três anos, curso técnico de Administração de Empresa. Meus amigos, nós formávamos realmente o técnico básico com três anos de curso. Infelizmente, hoje os cursos se transformaram numa rapidez relâmpago; o curso voa, mas não fica base nenhuma.

P/2 - Senhor Brás, quando o SENAC extinguiu os cursos, os ginásios comerciais?

R - Foi depois, na gestão do Presidente José Papa Júnior, que tinha como diretor Amin Aur, que eles transformaram o SENAC, eliminando os cursos de longa duração para cursos mais rápidos de formação acelerada.

P/1 - Teve uma repercussão em Rio Preto?

R - Ah, em Rio Preto houve repercussão. Houve protestos, houve manifestação, não só do Sindicato do Comércio Varejista, da Associação Comercial, como dos jornais, também do povo em geral. Ninguém esqueceu até hoje o drama do fechamento dos cursos profissionalizantes do SENAC.

P/2 - Nessa época o senhor ainda estava como diretor?

R - É, como diretor eu peguei no final também do meu mandato, mas começou no tempo do Professor Otacílio Alves de Almeida.

P/2 - O senhor lembra quando o senhor recebeu a notícia que realmente ia ser fechado?

R - Lembro. 70, não, 69. Em 1969 foi a última turma de Contabilidade. Em 1970 já não tinha mais cursos técnicos; podemos ter hoje o curso técnico de Contabilidade, mas de duração rápida, de um ano, de um ano e meio, mas de três anos não temos.

P/2 - E o senhor que dirigiu, vamos dizer, a implantação desse novo modelo de cursos?

R - Não, foi o Professor Otacílio. Quando eu entrei já estava funcionando.

P/2 - Não, eu estou dizendo quando o SENAC extinguiu esses cursos de longa duração e implantou esses cursos mais rápidos?

R - O diretor era o Professor Otacílio Alves de Almeida.

P/1 - O senhor era muito querido pra essa última turma?

R - A última turma, como em geral todas as turmas de Contabilidade do SENAC, eu posso falar porque eu conheço o problema. Os alunos eram de origem humilde, eram pobres, e hoje estão afortunadamente em boas condições de vida, porque o SENAC deu o sustentáculo para eles. Ainda pouco, confraternizando com os meus colegas, ex-alunos, hoje meus colegas, eles me fizeram uma homenagem que eu transfiro para os meus companheiros de ensino, os meus colegas de magistério. Eles conseguiram que a prefeitura de Rio Preto denominasse uma praça pública com o meu nome, em homenagem ao meu trabalho de professor, e foi uma festa de confraternização maravilhosa. Hoje temos em Rio Preto uma Praça Professor Antônio Brás Vernucci. Muito obrigado.

P/1 - O senhor lembra de alguns desses alunos? O que eles foram fazer depois? O senhor pode citar alguns deles?

R - Todos eles. Eu não conheço realmente um que não esteja em condições excelentes, porque se eu souber eu vou procurá-lo para ajudar. Eu não admito que aconteça alguma coisa com eles sem que eu saiba, porque eles fazem parte da minha vida - não só essa turma de 69, mas todos eles que foram meus alunos. A maioria são proprietários de escritórios de contabilidade. Outros se formaram em Direito, outros... Temos até um juiz no meio, formou-se no SENAC de Rio Preto, pobrezinho. Formou-se contador, começou a estudar, formou-se advogado e hoje é juiz de direito. A maioria ou são contabilistas com escritório próprio ou trabalham em empresas de renome, empresas grandes, não só de Rio Preto como em todo Estado de São Paulo e no Brasil. Eu conheço alunos meus que estão em Goiás como empresários, eles estão otimamente bem, financeiramente falando.

P/2 - Senhor Brás, até que ano o senhor ficou no SENAC em Rio Preto?

R - Eu me aposentei em 79, mas continuo trabalhando, porque como autônomo trabalho em assessoria e consultoria empresarial. Estou sendo sempre aguardado pelas empresas, não só comerciais como industriais da região de Rio Preto.

P/2 - Que cargo o senhor tinha quando se aposentou do SENAC?

R - Assessor. É o último cargo que o SENAC estabelece na carreira funcional. Eu fui aposentado ocupando o cargo de assessor. Agradeço muito àqueles que lembraram do meu nome para me promover a esse cargo. Muito obrigado.

P/2 - Assessor vem depois de diretor?

R - O assessor é um cargo de carreira, o diretor é um cargo de confiança, nomeado pelo presidente, pelo diretor, pelo diretor regional. O diretor regional do SENAC nomeia os diretores com o presidente da Federação do Comércio estando de acordo, então há um interesse entre eles.

P/1 - Senhor Brás, hoje em dia, depois que o senhor saiu do SENAC, o que o senhor foi fazer na vida profissional?

R - Eu estou trabalhando, como eu disse, na consultoria e assessoria empresarial. É um trabalho importante. As empresas hoje, que o mundo está em mudança... Tudo muda rapidamente. Quem não acompanhar as mudanças e ficar parado será atropelado, portanto eu tenho me preparado sempre, constantemente em assessorar e oferecer orientação às empresas, para que elas possam caminhar com segurança na vida em mudança que o mundo passa, e o Brasil mais ainda.

P/2 - E como o senhor vê hoje o SENAC em Rio Preto? O senhor tem ainda contato?

R - Não tenho tido contato. Você sabe, os antigos funcionários todos saíram, são todos novos. Eu não os conheço, não procuraram me conhecer, então infelizmente não tenho procurado entrar em contato direto. Vamos ver se oportunamente nós teremos essa oportunidade.

P/2 - E, senhor Brás, mudando um pouco de assunto, em que ano o senhor se casou? Quando o senhor foi para o hotel o senhor era casado?

R - É, eu era casado.

P/2 - O senhor já era casado?

R - Já tinha minha senhora, já tinha dois filhos e fui para o Hotel. Não mudei com a família, eu iria mudar posteriormente até arranjar uma casa. Eu fiquei lá praticamente um ano, quase um ano morando no próprio hotel e a minha família continuou em Rio Preto, até minha volta.

P/1 - Bom, a gente está meio encaminhando para o final. O que o senhor, hoje, gosta de fazer nas horas de lazer?

R - Eu tenho uma propriedade agrícola a cem quilômetros de Rio Preto. [No] fim de semana eu vou para lá, se der tempo eu vou pescar um pouco, caso contrário eu vou dirigir o que realmente é meu e precisa da minha orientação. Antigamente eu tinha a lavoura de café, infelizmente o mercado não favoreceu, os insumos estão muito caros. Deixei a lavoura de café e parti para o gado. Nós fornecemos o leite para as usinas e fazemos engorda de bois para a venda, só.

P/1 - É o senhor quem dirige pessoalmente a fazenda?

R - Eu conto com a grande colaboração do meu filho Marco Antônio, que é engenheiro agrônomo. É ele que manda realmente, eu apenas obedeço, obrigado.

P/1 - Senhor Brás, e com quem o senhor mora hoje, atualmente?
R - Eu moro com a minha esposa e meu filho Marco, que é solteiro ainda. A minha filha é casada e mora na mesma Rio Preto, mas em outro bairro.

P/2 - Eles fizeram algum curso do SENAC? Seus filhos?

R - O meu filho fez o curso de datilografia. Como ele sempre gostou da agricultura devido a propriedade agrícola que eu tenho, ele partiu não para a contabilidade, como o pai, mas para agronomia e se formou, felizmente.

P/1 - O senhor gostaria que ele seguisse a carreira como o senhor?

R - Não. Eu acho que cada um deve fazer o que realmente deseja, o que realmente preenche a sua existência. Cada um deve fazer aquilo que realmente gosta, quer e faz.

P/1 - Senhor Brás, a gente está terminando. Eu gostaria de fazer mais uma pergunta para o senhor: o que o senhor achou de ter dado essa entrevista para a gente falando da sua experiência profissional, da sua experiência pessoal e do SENAC?

R - Eu estou ainda com a voz embargada, estou trêmulo porque a surpresa foi tão grande. Eu recebi esse convite como uma recordação da minha vida no SENAC, eu refleti [sobre] tudo o que eu fiz no SENAC antes de vir aqui. Quero agradecer vocês, agradecer o diretor regional do SENAC, Professor Salgado, que lembrou do meu nome e mandou me convidar para vir fazer o meu depoimento. Agradeço não só vocêm Cláudia, como todos da equipe do Museu da Pessoa. Agradeço todos que colaboraram para que eu conseguisse falar nesse momento. Muito obrigado.

P/2 - Obrigado.

P/1 - Obrigado, a gente é que agradece.

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