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Histórias de pescador

História de: Aldenor Miranda dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/12/2014

Sinopse

Pescador, Aldenor Miranda dos Santos nasceu no Pecém, no dia 15/03/ 1948. Começou a trabalhar ainda menino entregando pão nas casas, mas foi na pesca, na profissão que aprendeu com o pai, que veio a ter a carteira assinada pela primeira vez. Em uma das suas viagens num barco pesqueiro de uma grande empresa, quase se afogou. Anos depois deixou o mar para vender peixes no Pecém. Já casado e com filhos, continuou a arte do pai, com o grupo de dança do coco e o reisado, embalando no canto as próximas gerações.   


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História completa

Meu nome é Aldenor Miranda dos Santos. Eu nasci no Pecém, no dia 15 de março de 1948.

O nome do meu pai é Antônio Miranda dos Santos e da minha mãe é Maria Tabosa de Souza. O meu pai era do Pecém; minha mãe de Paracuru. Outra praia que nós temos aqui, a uns 50 quilômetros do Pecém. A minha mãe sempre foi dona de casa. E o pai sempre pescador. Nós tivemos oito irmãos, oito. Os cinco homens, todos eles eram pescadores e as mulheres só como domésticas mesmo.

A infância na região nessa época era muito difícil. A gente tinha muita fartura, em termos de pesca. Meu pai sempre ia pro mar e trazia muito peixe. Mas o que era difícil mesmo, difícil pra todos nós daqui, era dinheiro. Dinheiro é que não tinha, a gente tinha muita dificuldade de pegar em dinheiro. A gente tinha que comprar muitas coisas em retalhos, porque o dinheiro era tão pouco que a gente tinha que comprar óleo, comprava no retalho. Retalho era quando você vai numa mercearia compra três, quatro colher de óleo. Farinha, hoje é no quilo, antes era no litro, um litro de farinha, meio litro de farinha, um quarto de farinha. Rapadura era o mesmo processo, comprava até um quarto de rapadura. Nós chegava a comprar até fosforo.

O pouco peixe que a gente vendia, era muito peixe, agora o valor do dinheiro é que era pouco. Era pra manter as necessidades da casa. Era muita qualidade de peixe. Era muito cavala, muito serra, muito pargo, muito peixe pequeno, biquara, ariacó, guaiúba, era a variedade de peixes menores que a gente pegava bastante.

Meu pai sempre pescava de terceiro. O cara tinha uma embarcação e ele ia pro mar, o que ele produzisse, era metade dele e a metade pro dono da embarcação, sempre foi assim.

Era jangada de piúba, que essa madeira vinha do Norte, vinha do Pará.

Eu comecei a pescar com o meu pai. Eu tinha 15 anos na época. Porque eu comecei a trabalhar com oito anos numa padaria. E nesse tempo eu já comecei a começar o meu salário, 15 mil réis por dia. Fechava uma conta de 90 mil réis por semana. Eu ajudava a fazer os pães pra assar. E quando era de manhã, eu botava a cesta de pão nas costas e saía despachando nas mercearias. Quando era de tarde era o pão da tarde, fazia esse trabalho todo dia. E nesse movimento dessa padaria eu trabalhei dois anos. Quando eu completei os dez anos, aí abriu aqui uma pesca de lagosta. E foi uma riqueza pra esse lugar, era muita lagosta, mas era muita. E precisava de tirar uma tripa que tinha, na calda da lagosta tem uma tripa e a gente tem que tirar. A gente era uns 12 meninos naquele tempo e a gente tirava a tripa da lagosta. A lagosta ia só a cauda, que a cabeça a gente jogava fora; dava pro pessoal daqui da periferia, para os moradores, vinha muita gente de fora pegar só cabeça de lagosta. Mas as cabeças eram tão grande que a gente só aguentava comer uma, ou até duas. E eu comecei a trabalhar com o meu tio e o meu primo, que eram tipo os gerentes da parte de gelar a lagosta, receber, gelar e levar. Ele também não era o proprietário; o proprietário era o senhor Luiz Ferreira de Souza, ele é que era o dono das embarcações e quem comprava toda essa produção. E eu trabalhava, ganhava cem mil réis por semana, quer dizer que o ganho aumentou mais um pouquinho.

Eu comprava minhas roupinhas, calçados. Já comecei a ajudar meu pai e minha mãe, exatamente por causa dessa dificuldade que eu tô falando. Eu já ajudava eles, dava pra mim me vestir, dava pra mim comprar meus calçados e ainda dava pra ajudar eles no que podia.

Na infância é brincadeira de pião, de bila, aquelas bilinha de gude. Surfar no mar com uns pedacinho de tábua... É. Ver o meu pai, no tempo do meu pai, essa brincadeira de coco. Quando era nos domingos era diversão deles, eles se juntavam num canto e iam brincar coco, que é uma dança sapateada. Fica dançando sempre de dois em dois. Eu danço, tiro você, aí você brinca, eu saio, você fica, já tira outro. Nisso, a gente entretinha o domingo e a gente até começou a brincar e a sapatear também, como eu ainda pretendo levar essa brincadeira por muito tempo, porque é uma brincadeira de tradição e a gente não quer deixar cair. A pessoa improvisa o verso na hora. É que nem esses cantador que bate pandeiro na praça, é mais ou menos isso, é uma dança de improviso.

Na adolescência a nossa diversão aqui sempre era brincadeira na rua. Nós chama, o esconde-esconde. Nós fazia aquela roda no meio da rua, noite de lua, os terreiros era tudo bem limpo, que tudo era na areia. A gente brincava de lado direito. Você senta do meu lado, aí senta um homem e uma mulher, um homem e uma mulher. Aí, ficava um lado direito desocupado. Aí, eu dizia “o meu lado direito tá desocupado. Quem é que ocupa?”, eu chamava uma das meninas pra ocupar. Aí, d’aonde ela saía, aí o lado direito daquela pessoa já ficava desocupado, aí ficava, e nisso a gente brincava, vários tipos de brincadeira, exatamente era nossa diversão.

Eu vim namorar eu já tinha mais ou menos 16 anos, mais ou menos. Eu conheci a minha esposa e nós ficamos namorando dez anos. Naquele tempo a coisa era muito sincera, era muito séria. Hoje é uma brincadeira, honra de mulher hoje não tem mais valor, nem a vida da gente não tem mais valor. Porque antes a honra de uma mulher, de uma moça, era uma coisa muito rigorosa. Era muito mais fácil você matar uma pessoa e ser menos perseguido do que você desonrar uma moça e não casasse com ela. Isso, você tinha que fugir do lugar, ir pra muito longe, para que a família nem soubesse. A inocência era tão grande, a gente tudo com dez anos, oito anos, a gente brincava e quando acabava ia todo mundo tomar banho nu num corrente que tinha ali, parecia que ali não tinha ninguém, todo mundo ali era igual, tanto homem quanto mulher, os meninos e as meninas. Ninguém nem se olhava um pro outro.

A nossa casinha era assim: era coberta de palha, parede de barro e o piso também de barro. Era tanto que quando a gente ia varrer de manhãzinha, que a minha mãe era muito zelosa, tinha que aguar o chão primeiro, com uma aguazinha pra não levantar muita poeira, pra poder varrer a casa. Dormia todo mundo na rede. Cada qual na sua rede. Sempre era uma redezinha que chamava redezinha de meio, dificilmente a gente comprava uma rede completa. Arrumava umas cabeceiras, que eram os punhos, e botava um fundo, podia ser até de saco de açúcar, ou de saco de farinha de trigo. É que botava o fundo das redes porque aquele fundo, às vezes, se estragava, mas as cabeceiras ficava boa e você pegava outro saco, colocava e fazia as redezinhas. Eu fiquei nessa casa até os 15 anos. Aí, foi o tempo que eu fui embora para o Mucuripe, pra Fortaleza à procura de uma coisa já bem melhor. Porque o Pecém era um lugar muito atrasado e eu sempre tive uma visão de procurar viver uma vida melhor, sempre eu gostei muito de trabalhar e eu tava vendo que o Pecém aqui não ia me dar muito futuro. Mas de vez em quando, quase todo mês, eu vinha aqui visitar meus pais. Tinha um pessoal que era do Mucuripe que quando ele vinha pescar aqui no Pecém, ele sempre vinha pra minha casa, pra casa do meu pai, ele sempre vinha. E uma dessas vez que eu já tinha essa idade, ele me chamou pra mim: “Rapaz, tu quer ir pescar lá mais nós? Eu te levo”, eu só tinha um ano de pescaria. Eu fui com eles e nessa ida fiquei lá 17 anos.

Ah, o Mucuripe lá pra mim foi muito bom, a pescaria lá era bem melhor, o peixe lá tinha mais valor. Foi chegando o tempo de eu sair das jangadas e ir pra cima dos barcos, barco de pesca. Esses barcos que a gente passava 15, 18, 20, 22, 30, depende da viagem. Foi quando eu fui começar a trabalhar de carteira assinada, mas pelo dono de uma empresa de pesca.

Eu nunca tinha pisado com os meus pés num convés de uma embarcação maior, motorizada. Mas, pelo trabalho do mar eu me garantia, que eu era um cara muito forte, tinha muita força, muita saúde e tal, aquele negócio. Pelo trabalho eu nem estranhei; eu estranhei pra levar o barco, governar, pegar aqui um timão, uma roda que nós chama roda de leme. Aí, tem uma bússola, pra você botar naquele rumo. Daí, eu não sabia aprumar. É que nem uma pessoa quando vai começar a dirigir um carro (risos). Eu fui começando a aprender... Você tem tanta da vontade de fazer aquilo bem feito, que eu me tornei um dos melhores a governar um barco, aprumar, um barco daqueles, no alto mar, do que até os próprios outros que já tinha muito tempo na embarcação.

No barco tinha o que nós chamava o mestre, responsável por aquele barco e por aquela tripulação, do mesmo é jeito é como o motorista de um ônibus hoje, que ele é responsável por aquele ônibus, por aquele veículo, e pela vida de quem vai ali dentro. Você sabe que é ele quem vai pilotando, era como um mestre de barco, ele era responsável pelo barco e pelos tripulantes que estavam dentro dele. Tinha um cozinheiro que ia só pra fazer a comida para os outros tripulantes. E no meio dos outros que ficavam, dos outros seis que ficavam, tinha um que ia gelar toda a produção. Então, se essa que era a parte mais difícil, era você ser o responsável pra gelar toda aquela produção e tinha que ter muita responsabilidade. Quer dizer, você tinha que gelar muito bem gelado porque nós ia passar 18 dias, 20 dias, para que aquela produção não se estragasse. Levava o gelo daqui. Dentro do barco tem o frigorífico. Você vai colocando dentro, vai secando um de gelo e vai colocando a produção. Tem que tirar de um lado e tem que tirar do outro, que é um corredor com esse trabalho. Por quê? Pra não tirar só de um lado, porque aí o barco empinava. Você tinha que controlar o peso do barco, para que ele sempre estivesse com o peso igual. Trabalho pesado. Era tanto que ele tinha até uma porcentagem mais do que os outros.

Eu pescava. Porque eles botavam umas gaiolas, que chama manzuá, e a gente tinha o trabalho de puxar, era um trabalho pesado e arriscado. A gente pescava e quando era tarde, terminava de pescar, a gente descabeçava e ia o trabalho de gelar. A gente trabalhava pescando, naquele movimento. Esse trabalho era como que fosse um trabalho extra. Todo mundo ia tomar banho, ia jantar, ia se deitar após o trabalho, e vamos supor, eu descia para o frigorífico e ia gelar toda aquela produção.

Eu cheguei a pescar até de mestre. Eu fui subindo de cargo, até chegar à posição que pesquei de mestre, vários anos. Pescava lagosta e peixe. Pargo, gaiúba, o serigado.

Nós pescava de linha pra ficar com o peixe pra nós. Esse peixe que nós pescava de linha, nós pescava era pra nós. Não podia pegar era muito porque não podia gastar muito gelo, tinha que pegar só o suficiente pra trazer peixe pra família. E vendia também. A gente trazia até uma certa quantidade, porque, vamos supor, se chama alegria do pescador.

Um dia eu fui fazer o trabalho que eu tinha quase costume de fazer de rotina. Mas, nem nunca percebi que eu tava com outra roupa, uma roupa completamente diferente da que eu fazia isso. Aí, eu pulei [na água], tive dificuldade de amarrar, mas até consegui amarrar. Quando eu fui voltar, aí os bolso aqui encheu d’água, os bolso aqui encheu d’água e onde eu tinha botado a corda, aqui, na cintura, encheu tudo d’água. E o fôlego já tava faltando. Aí, tinha um rapaz que pescava mais eu, ele sempre foi um cara muito ativo também. Ele viu que eu tava com dificuldade. Você acredita que eu comecei a faltar, já, como fosse um motor, já queimando a reserva mesmo. Quando eu cheguei bem pertinho d’água eu digo: “Ô rapaz, eu vou morrer, não tem jeito, não. Como é que pode, rapaz, eu, um cara tão novo, morrer de graça? Eu tô morrendo aqui de graça”. Aí, foi quase perdendo já o sentido. Eu sei que quando eu cheguei em cima, é que nem eu digo, ó, aí eu quase me apaguei, fiquei meio até a reserva mesmo. Ainda botei os braços, assim, de fora. Eu só fiz pegar e ele me puxou. Aí, eu fiquei, eu vinha morto mesmo, eles me puxaram até me ajudaram a subir no barco, nem ânimo de subir no barco eu não tinha mais. Foi o maior perigo que eu passei, eu ia morrendo nessa situação. Não era um acidente, uma coisa assim perigosa, não foi nada disso. Foi apenas isso, que uma coisa que eu tinha costume de fazer e, numa dessas vezes, por causa de uma roupa, eu ia me afogando.

Nós tinha, que nem eu lhe falei, o salário, na carteira e tinha uma produção também, ganhava também uma porcentagem da produção. E quanto mais produzia mais a taxa da produção era maior. Não era a vida que a gente tem hoje que, Graças a Deus, a vida hoje mudou tudo pra melhor. Se a coisa mudou, mudou tudo pra melhor. Mas eu tive que comprar uma casinha, que eu não tinha casa. Antes de eu me casar, nós compramos a nossa casinha, compramos as nossas coisinhas pra botar dentro de casa. Pescando de jangada não dava pra fazer isso.

Tava com dois meses de férias, no período do defeso da lagosta, janeiro e fevereiro, era dois meses que a gente passava sem pescar. Agora é quatro meses, cinco, que fica no período do defeso. E nesse tempo que eu tava, como é que se diz, parado esses dois meses, a minha família morava aqui, eu chamei a mulher pra nós vir pro Pecém. Cheguei aqui e comecei a pescar, mas era tanto do peixe, era tanto do peixe e camarão, peixe e camarão. Que aí eu olhava para o dinheiro que eu fazia aqui, que na época, que já tava bem melhor de quando eu tinha saído. Tava bem melhor. Aí, eu ficava: “Puxa, rapaz, eu acho que o dinheiro que eu ganho em um mês lá, aqui eu tô tirando em uma semana”. Vendia o peixe no Pecém. Já tinha mais vendas, o dinheiro tava mais fácil. Eu pegava muito camarão que tinha um valor maior.

Os camarão, às vezes, eu juntava e ia vender no Mucuri, botava numa caixinha de isopor. Aí, eu olhava e digo: “Rapaz, eu não vou voltar agora a pescar, não”. Aí foi o que eu fiz, combinei com a minha mulher, minha mulher não queria de jeito nenhum, rapaz, ela achou muito ruim. Aí, eu fiquei, fui na firma dizer que não ia mais. Ele disse: “Rapaz, mas você vai sair?”. Eu digo: “Vou, pra ficar no Pecém” “Mas do Pecém tu já veio” “Não, mas o Pecém agora tá diferente, tá bem diferente. E pela minha sinceridade que eu tive para com o patrão, que eu nunca fui homem de greve, sou contra a greve de todo jeito, ele mandou que me dessem os meus direitos. Aí, eu fui.

Eu conheci aqui a minha esposa, eu trabalhava exatamente aqui no lagosta, como eu te falei, quando eu tinha dez anos, acho que mais novo ainda, quando eu tinha essa idade eu comecei a trabalhar. Nós morava ali pertinho um do outro, nós morava vizinho, nessa mesma rua aqui, nós morava ali vizinho. A gente foi convivendo, foi convivendo, a gente era muito amigo um do outro, ia até junto pras brincadeiras, pra algumas festas, eu não dançava ainda mais a gente já ia. A gente teve uma convivência tão bonita no início que a gente era como que fosse já um casal de namorados. Aí, foi o tempo, ela foi embora pra Fortaleza, eu fiquei por aqui e depois eu fui. E lá a gente encontrou novamente, que eu sabia aonde ela ia morar. E ficamos convivendo do mesmo jeito e essa convivência aturou dez anos. Aturou dez anos, a gente sempre esteve juntos, sempre muito amigos e com muito respeito um com o outro, aí, a gente chegou a casar. Os filhos nasceu dois filhos lá, meu filho mais velho, que morreu, aquele do retrato, e a minha filha mais velha, ela não tá aqui.

Existia escola. Naquele tempo era tão rigoroso as escolas, as pessoas tinham que aprender mesmo. Eu aprendi [assinar o nome] pra eu tirar a minha carteira de identidade, eu não queria levar o carimbo de analfabeto, até nisso eu tive a curiosidade. Eu ficava de noite, tipo assim, desenhando o meu nome, alguém fez o meu nome e eu tava só desenhando, desenhando, até que cheguei a botar na cabeça que o meu nome era aquele e comecei a fazer e já dava pra fazer lá. Até que eu aprendi quando eu tirei a minha primeira carteira de identidade com 18 anos, aí eu já escrevia o meu nome. Muito ruim, mas eu escrevia (risos).

Já depois de bem adulto, teve aqui uma escola do Mobral na época, que era escola para os adultos à noite e eu ia. Eu ia, mas eu já ia sabendo de muita coisa. Eu pegava muito aquelas revistas, fotonovela, naquela época, tinha o nome e tinha a figura. Só que eu conhecia todas as letras, eu só não sabia era juntar, juntar as letras.

Eu comecei a vender peixe aqui para um senhor, fui ficando e vendendo peixe. Fui ficando, fui ficando, até que eu parei de pescar definitivo. Aí, parei de pescar e fiquei nessas vendas de peixe. Eu toda vida fui até mais jeitoso pra vender, o pessoal gostava do meu trabalho, como eu lhe falei. Aí, fiquei. Até que esse outro também desistiu, porque ele pegou uma doença e chegou até a falecer... Aí, eu passei pra uma outra pessoa, continuei do mesmo jeito. Aí, ele foi embora do Pecém pra Fortaleza e eu passei pra essa venda que eu tava agora. E eu entrei aí no dia primeiro de maio de 2000. Eu fiquei, essa eu tinha, eles me pagavam uma mixaria. Eu comecei a cortar peixe pros restaurantes, que era fazer filé de peixe, fazer posta de peixe. Eu fui ficando, fui ficando, fui ficando e nesse ficado aí eu tinha um salariozinho pequeno, mas tinha.

Quando eu completei 60 anos botei os papéis da aposentadoria e, graças a Deus, não tive dificuldade. Só que a minha esposa aqui se aposentou-se primeiro de que eu, porque o direito dá a 55. É como que fosse assim, eu sou o pescador e ela é como que fosse pescadora, mas o nome que a gente faz a carteira, os documentos, é como marisqueira. A palavra nos papéis chama marisqueira, essas marisqueira que pesca os mariscos, essas coisas de marisco. Cuida da comida daquele pescador, que é o marido, então, se tudo isso, o direito que a gente tem passa também pra esposa.

Eu sempre digo pra muita gente que duas coisas boas que Deus fez na minha vida foi o casamento que eu fiz, uma família que eu tenho hoje, e ter parado de pescar novo ainda, mais ou menos com 40 e poucos anos, que eu vejo gente se matando, com 70 ainda tá entrando no mar. Então, isso foi uma coisa muito boa que Deus fez comigo, ter parado de pescar, ter arrumado esse trabalho de ficar tratando peixe e até o dia de eu me aposentar, que foi o que melhorou mais. Hoje, graças a Deus, pelo menos pra comer isso dá bastante. E até que chegou o dia de eu me afastar também do trabalho, não parei de trabalhar totalmente porque eu não quero parar de trabalhar, eu só não quero agora é ter compromisso com o trabalho, ter que dar plantão no trabalho, entrar de seis, sair de 12; entrar de uma, sair de cinco, isso eu não quero. Mas, fazer trabalho voluntário, eu tô é aqui pra fazer ainda.

A mudança que houve é o seguinte: que nem eu lhe falei no começo, todo mundo aqui vivia da pesca. Agora, chegou o porto, essas obras do porto, todo esse empreendimento. O que acontece? Aí começou os filhos dos pescadores, invés de serem pescadores, que nem eu fui, aí começou foi procurar emprego. Começou foi procurar emprego, começaram a sair de dentro do mar e ir pras empresas. Eu sei que hoje, tem cada filho de pescador que tem qualificação, uns é motorista de carreta; outros é operador de máquinas; outros trabalham como operador de guindastes; outros trabalham como estivador, na estiva, trabalham de estivador no porto; mestres de obras; outros é encanador; outros é eletricistas. Eu quero é dizer que melhorou cem por cento da vida que a gente vivia antes.

É melhor porque, que nem eu lhe falei. Hoje eu tenho meu filho, vamos supor, é empregado. As minhas filhas, os esposos dela tudo são empregados, quer dizer, pra mim é melhor. Eu me aposentei, a minha esposa se aposentou, e a gente tem uma casinha, casa própria. Entonce isso, pra mim já foi uma grande melhora. Eu acho que nem no tempo que eu era novo eu não tô tendo a vida que eu tô tendo hoje, entendeu? A gente, só de saber que chegou o mês e a gente vai ali, recebe um dinheirinho, ela recebe um dinheirinho e a gente não tem negócio de ser corrido de casa que a gente já mora numa casinha da gente mesmo, e os filhos também tudo agasalhado nas suas casinhas, os maridos com os empregos, entonce é isso.

Esse grupo de coco é que nem eu falei, o meu pai já brincava nesse grupo de coco, é muito antigo. Eu gosto muito aí, começou, eu frequentando, andando junto com eles, aí vem vindo, de geração em geração. Então, se hoje eu tenho uma parte dos meus primos, meus irmãos, meus netos, já brincam junto comigo, vão pros cantos. Passa até uma semana, passa uma semana aí fora, que nós vamos pro SESC. Passa uma semana lá fazendo essas apresentações.

Ema coisa de tradição é o reisado. É quando chega o mês de fevereiro, quando vai chegando dia cinco, dia seis de fevereiro, a gente sai. O nosso reisado o que é? É andar cantando nas portas, a gente fica cantando nas portas. É mais ou menos umas oito pessoas, entre tocador e cantador. Mas que acompanha muita gente.

Eu achei bonito. Foi muito bacana ter encontrado vocês aqui pra pegar aqui a minha história. A minha maneira de viver, a minha maneira como eu vivo até hoje, como eu comecei, toda aquela origem, o perigo que eu passei. Que é um momento que eu não vou esquecer nunca. E tudo isso, só de vocês estarem aqui, também, me ouvindo, ouvindo a minha história, eu também fico feliz com isso.

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