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História

Histórias de carteiro

História de: Carlos André Guimarães Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2013

Sinopse

Carlos André conta vários causos e percalços que passou na função de carteiro na cidade de Laranjal do Jari. Como evitar brigar com clientes e ainda fugir de cachorros são as dicas que este carteiro conta em seu depoimento.

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História completa

Eu nasci a 14 de dezembro de 1974 e trabalho na agência de Laranjal do Jari há 14 anos. Em 1999 eu fiz o concurso. Eu fiz porque estava desempregado e tinha um concurso que na época era os Correios. Eu estava estudando um período ainda, porque tinha que ter o segundo grau completo, eu não tinha nem terminado os estudos, foi o tempo que eu terminei, foi onde me chamaram. Aí eu entrei, não foi assim que eu queria mesmo. Mas agora, sou carteiro e não quero sair não. Não quero ser atendente, quero ser carteiro, que eu gosto de ser carteiro. Das histórias como carteiro tem uma do senhor Raimundo. Na parte baixa da cidade, morava o senhor Raimundo.

Ele comprou um terreno na parte alta, só que ao comprar o terreno, ele construiu a casa dele, mudou e levou o número da casa junto. Aí, quando foi um período ele veio na agência fazer reclamação porque não estava mais recebendo a correspondência dele. Aí, eu disse: “Não, senhor, nós fomos lá na sua residência e o rapaz disse que o senhor mudou”, ele disse: “É, eu mudei, mas eu levei o meu número, está lá na frente da minha casa, você pode ir lá que está o numero, você tem que levar na minha casa” “Não, mas não é assim que funciona. O senhor tem que atualizar o seu endereço e o número vai ser outro lá”, e o senhor ficou bravo aqui com a gente.

Ah, teve outro senhor, que nós fomos entregar uma carta para o filho dele, eles estavam numa construção do telhado, falamos lá o nome do rapaz, por exemplo: “Manuel”, aí o rapaz disse: “Não, não tem nenhum aqui não”, aí o pai dele estava assim no telhado e disse: “Eh, filha da mãe, tu não está vendo que é tu?” (risos), ele ficou bravo, disse: “Ah, estou acostumado com apelido, nem lembrava mais do nome”. Teve outra também que foi numa segunda-feira de manhã, fui na casa do  senhor Lindenberg, entregar um Sedex. Aí chega lá, falamos o nome dele, ele disse: “Não, não é aqui não” “Ah, está”, chegamos na agência, devolvemos o Sedex, quando foi à tarde, apareceu aqui: “Caramba, o Sedex era meu, que eu estava bêbado e não lembrava”, falei: “Agora não tem mais jeito, já foi devolvido”.Teve um rapaz lá embaixo, ele não gosta que chame ele de “Jabuti”, aí o pessoal conhecia: “André, tem uma caixa aqui pra postar, só que nós não queremos ir na agência” “Vocês dão o dinheiro, eu levo, posto pra vocês e faço a entrega depois” “Está bom”. Aí me deram o dinheiro, postei tudo, mas não sabia o que tinha na caixa. Por coincidência, o senhor estava esperando também uma encomenda do Maranhão, da família dele.

Aí eu cheguei, eu entreguei a caixa e ficou só rindo pra lá, alegre, aí foi no outro dia, ele já queria brigar comigo, que eu tinha levado uma casca de jabuti pra ele. Ele odiava que chamasse de jabuti, aí eu levei foi a carcaça do jabuti dentro da caixa. Aí queriam que queriam que eu dissesse quem foi: “Não senhor, é um serviço dos Correios apenas fazer a entrega, agora quem postou eu não sei não. Ele queria me dar dinheiro: “Não, não sei não”. Até hoje, ele quer saber, quando eu passo: “Filha da mãe, tu levou o jabuti pra mim” “Não, eu só entreguei”. Só o endereço dele mesmo, que os amigos dele tinham aprontado com ele mesmo, que ele não gostava de ser chamado de jabuti e não gosta até hoje. Chamar jabuti pra ele, é chamar pra briga.Eu tenho lembrança que eu cai da ponte, cai com linha de papagaio pelo pescoço, já fui pra dentro d’água.  Eu entrei na passarela e tinha umas crianças empinando papagaio e nisso o fio pegou no meu pescoço, eu larguei bicicleta, larguei tudo, fui pra dentro d’água com tudo, com as cartas pra dentro d’água. O único jeito foi levantar e voltar para a agência pra levar as coisas todas molhadas.

Aí, enxugamos e no outro dia, efetuamos as entregas, explicamos o que tinha acontecido e o pessoal recebeu normalmente as faturas.Eu tenho vários apelidos, tem de “Cuiu”, “Finório”, “Espeto”, é tanto apelido que eu já nem ligo. “Carteiro”, são vários apelidos que eu tenho. Como esse de “Cuiu” é desde pequeno, os outros é os amigos lá na bola, tem bate-bola, eles colocam os apelidos. Pelo tempo que eu tenho eu já conheço bastante, e os moradores já me conhecem. Aqui quando chega, só pelo nome, eu já sei quem é, não precisa nem do endereço. Aí com os carteiros novatos tem que ter o endereço, eu já conheço o pessoal. Eu já vou, pego só pelo nome, levo nos endereços muitas vezes, só por conhecer, só por o nome, que o endereço, eu já nem ligo. Tem vez que chegam aqui não sabe nem o endereço dele: “O seu endereço é tal”, assim eu explico pra eles: “Mora em tal lugar”.

Correspondência hoje em dia é só de banco. Difícil aparecer uma de romance mesmo, de amor. É a coisa mais difícil aparecer. Só faturas mesmo! Há 14 anos atrás vinha mais carta social, usava bastante carta social, agora a gente não vê carta social mais, utilizava bastante a carta social. A carta social que é cobrado um centavo, que é manuscrito mesmo, pesa até cinco gramas só. São cinco cartas só por direito que cada pessoa tem por postais. Acabou agora isso. Temos o serviço, mas não utilizam mais não. É outro também que caiu bastante, cartão postal também não tem, hoje é mais pela internet. Acabou o romantismo, não tem mais romantismo pelos Correios.Eu só mesmo ficar como carteiro, mesmo. Eu não tenho passar pra atendente, outra coisa que aqui mesmo não quero, porque pela família, eu ia embora pra Macapá, eu que não quero ir mesmo, que eu gosto da cidade mesmo, quero ficar aqui. Até meu pai disse: “Rapaz, vai embora, rapaz” “Não, eu gosto da cidade. Eu quero ficar aqui em Laranjal mesmo”, eu gosto de ser carteiro.

Tem uma história de um homem, ele trabalha na Câmara Municipal, sempre que ele passa pelo carteiro: “Aí carteiro! Tem correspondência?” “Tem, então leva na minha casa”, filha da mãe, que vem te atrapalhar, ele te para na rua pra ver se vai pegar, ele diz: “Leva na minha casa”, aí da Câmara, ele estava de férias da câmara municipal. Aí ia passando: “Aí, carteiro, tem carta lá pra Câmara?” “Tem” “Então leva lá que eu estou de férias”, filha da mãe atrapalha a gente! E de quando em muito na cidade, o pessoal: “Carteiro, carteiro, carteiro!” “Que é?” “Tem alguma coisa pra mim?” “Não” “Caramba, faz tempo que não chega nada” “Está difícil! Não é assim que funciona não, alguém tem que mandar pra você. Você faz dívida?” “Não!” “Então pronto, que só vem cobrança agora pelos Correios”, é só cobrança, agora é só cobrança. 

Eu já apanhei uma vez também porque tem a história dos Correios que diz que sempre o cliente tem razão, eu estava efetuando entrega, o cliente ia me atropelando, eu fui reclamar, aí eu liguei pra chefia aqui: “O rapaz quer me bater aqui” “Não se preocupa não, deixa ele te bater, se ele te bater, você vem pra cá, que a gente vai dar parte”, aí o rapaz veio, quase me bateu, eu peguei e vim embora, chegou aqui, ele: “Tu já apanhou, deixa isso pra lá agora”, agora eu não deixo mais esse negócio: primeiro, deixa ele te bater, depois vai atrás, não. Eu corro logo. É porque eu fui reclamar que ele ia me atropelando, ia passando com o carro e quase me atropela, aí eu fui reclamar, ele ficou bravo. Por isso que ele me deu uns tapas ainda, foi logo que eu entrei nos Correios, agora eu já corro.

E tem muito negócio de cachorro também, que os moradores, quando a gente chega assim, bate, vem cachorro, eu digo: “Não, o cachorro está ai” “Vem que ele não morde” “Lá em casa também tem um, se a senhora quiser ir lá em casa, também tem um e não morde, é porque a senhora é a dona, mas a gente ele morde” “Não, pode vir, que ele não morde”, tem essa história deles: “Não, pode vir que não morde”, claro ele é o dono, não vai morder, mas nós somos os desconhecidos, ele morde mesmo. Eu já fui mordido umas três vezes por cachorro. Entregando conta de água nesse tempo. Eu fui colocar debaixo da porta, o que eu me abaixei, eu senti já no calcanhar a mordida, mas não tinha jeito, eu invadi a área do cachorro. A outra, eu estava na ponte mesmo, pedalando eu só senti.

Na passagem, ele me mordeu na ponte. E a outra, foi lá embaixo também, ia passando e estava deitado, fui lá cheio de passar em cima dele, no que eu passei, ele me mordeu. Mas também eu jogo muito cachorro na água também. Porque na ponte, a gente não tem pra onde ir, tem que passar para um lado, eu coloco a bicicleta para o lado do rio, no que ele vai passar, só dou um triz e jogo ele na água. O dono quer brigar, eu digo: “Não, o senhor prende seu cachorro”, um dia a gente tem que levar uma. Nós entregamos de bicicleta. Tem uma historia recentemente também com o pessoal do guarda municipal de meio ambiente. Eu fui numa residência na Rua Cultura, efetuar entrega, o cachorro me mordeu.

Eu achei de ir atrás do cachorro, eles queriam me prender, porque disseram que eu ia maltratar o cachorro, eu disse: “E eu?”, disse: “Não, tu vai se lá, o cachorro tu não pode bater” “Agora lascou, você tem que ter mais direito do que o cachorro”, queriam me prender porque eu ia bater no cachorro, o cachorro tinha me mordido”, tem cada uma! Agora eles estão querendo proibir andar de bicicleta na ponte, só que sempre tem exceções.

É porque bate em muita criança, tem outras pessoas que andam de moto por cima de ponte, eles querem proibir, só que como o prefeito falou: “Tem exceções”, e a exceção é o carteiro, porque se for andar a pé por cima da ponte, não consegue andar toda área, é muita coisa, só o período que a gente vai a pé mesmo é o período de conta de energia, que é conta de energia em todas as casas têm, tem que ir andando mesmo, aí não tem como ir de bicicleta.

Tem também a história de uma moça, ela ligou aqui pra mim, disse: “André, chegou uma encomenda pra mim?”, eu disse: “Chegou” “Traz aqui pra mim?” “Trago”, quando foi umas seis horas, eu desci, que eu morava pra lá, eu já aproveitei e fui. Aí, eu bati na porta, ela disse: “Entra”, eu achei de entrar, no que eu entrei, ela estava nua tomando banho, aí ela correu, eu disse: “Não, foi tu que mandou eu entrar”, aí ela disse: “Não, pensei que era o meu namorado”, eu disse: “Agora não tem mais jeito. Só assina aqui pra mim, que eu já estou indo”. Aí eu vejo ela, começo a rir também agora, “Foi tu que mandou eu entrar, não tive culpa. Mas tem isso, é comum aqui na cidade, a gente bater, a pessoa dizer: “Entra!”, digo: “Não senhora, pode vim aqui que eu não vou entrar não”, já peguei uma vez uma nua, corre o risco de novo. É comum isso aqui, mandar entrar na residência.

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