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História

Histórias cruzadas por 44 anos

História de: Frederico Meyer
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nasceu em Mar da Espanha, MG, em março de 1935. Cinco irmãos. Aos oito anos, muda-se para estudar em Juiz de Fora. Forma-se engenheiro pela UFJF. Entra na Acesita aos 14 anos. Após formar-se, é oficialmente contratado como gerente de Usina. Passa por diversos argos. Fica 44 anos na empresa. Aposenta-se quando a Acesita é privatizada, em 1993. É casado, tem três filhas e seis netos. 

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História completa

P1- Bom, então a gente vai começar a nossa entrevista eu vou pedir pro senhor falar o nome completo o local e data do nascimento.

 

R- Frederico Meyer, nasci em Mar de Espanha em Minas Gerais, no dia 09 de março de 1935.

 

P1- E o nome dos seus pais?

 

R- Raimundo Sotero da Silva Meyer e Iolanda Augusto Cávolo Meyer.

 

P1- E é tudo origem italiana?

 

R- Meu pai vem de uma ascendência alemã. Na realidade nós nem tínhamos nenhuma informação sobre esse ramo da família na Alemanha. Meu tataravô veio da Alemanha e não trouxe assim nenhuma informação. Ele trouxe informação, mas não passou nenhuma informação pra nós a respeito da família. Provavelmente ele deve ter tido algum problema lá e veio pro Brasil. A minha mãe já é de ascendência italiana. Então os dois se encontraram em Mar de Espanha e se casaram. Quer dizer, é uma coincidência muito grande. É um ramo alemão que não é da região lá. Não é comum encontrar pessoas de descendência alemã. Italiano aqui em Minas tem bastante. Então fez a junção. Eu sou o quinto de uma família de seis filhos. Eles tiveram seis filhos, eu sou o quinto, são quatro homens, eu sou o mais novo, dois homens e duas mulheres, a caçula é mulher. Eu nasci em Mar de Espanha, vivi lá até os oito anos, depois vim pra Juiz de Fora. Meu pai é comerciante, e lá ele se fixou, em Juiz de Fora, pra poder os filhos estudarem, que Mar de Espanha não tinha muita muito recurso, uma cidade muito pequena, né? Hoje ela deve estar com dez mil habitantes, talvez nem isso até regrediu um pouco. Juiz de Fora já um centro assim, que ali centraliza muito o comércio e principalmente a parte educacional, numa região da Zona da Mata. Então quase todas as cidades do entorno de Juiz de Fora tem um fluxo de jovens para estudar lá. Que tem a universidade, etc.. Na época não tinha ainda a universidade, mas tinha duas escolas mais importantes, de Engenharia e de Medicina e a terceira de Odontologia. Depois com o passar do tempo que foi feito ali, fundado a universidade.

 

P1 - O quê que o senhor lembra de Mar de Espanha assim, quando o senhor era criança?

 

R A lembrança não é, não tem muita lembrança. A não ser assim que foi uma infância muito boa, porque uma cidade pequena, então a gente tinha muita liberdade pra brincar na rua, etc. Então havia assim, além dessa liberdade, um conhecimento muito grande da população. Cidade pequena, todo mundo se conhece. Tinha assim vizinhos muito atenciosos, uma madrinha, de quem gostava muito. Então eu estava sempre na casa dela e etc.. ajudou muito na criação, que eram seis filhos em casa e etc. Então a lembrança de lá era bem boa, mas nada assim de marcante a não ser isso, de período assim de brincar. Já, depois eu mudei para Juiz de Fora, e Juiz de Fora eu já tive assim a necessidade de ajudar. Naquela época a criação era um pouco diferente de hoje. Então eu com nove anos eu comecei a ajudar meu pai no armazém. Que ele tinha um armazém. Então fazia compras, abria o armazém, fazia limpeza do armazém. Então já tive assim, algumas obrigações a partir de nove anos. Com 14 eu comecei a trabalhar pra poder ajudar nos estudos. Para poder pagar os estudos. Trabalhei nos Correios e Telégrafos até me formar em engenharia. Fiz o ginásio lá em Juiz de Fora, completei o primário em Juiz de Fora no Grupo Escolar Duarte de Abreu. Depois entrei no Ginásio no Colégio São José, fiz até aquela época, era científico, o ginásio científico e entrei na engenharia.  A carreira de engenharia foi mais por um vínculo assim maior com a matemática. Ciências Exatas, eu sempre tive mais inclinação para matemática, então optei por engenharia. Não gostava muito de ciências, essas coisas não. Aí no Correio eu trabalhei, fui mensageiro e depois fui telegrafista. Foi concurso interno e quando eu me formei eu era telegrafista.

 

P1- Passava...

 

P1- Não era, o código pra fazer o concurso tinha que trabalhar com o código Morse mas na realidade já existiam, o que eles chamavam. A máquina, o Teletipo, não é? Que você, era uma máquina de escrever elétrica que você já fazia, enviava as mensagens, ela já saía escrita numa fita gomada, e aquela fita é cortada e colada num papel. O telegrama já saía direto, né? Então era assim para, grande produção, muito serviço, né? Então nos grandes centros, São Paulo, Rio, Juiz de Fora, Belo Horizonte e tal, as grandes cidades já tinham esse recurso.

 

P1- Mas o senhor teve que aprender a fazer o código Morse.

 

R - Tive, porque fui fazer o concurso para telegrafista, tive que ter o conhecimento do código Morse, inclusive fiz prova também sobre o código Morse. 

 

P1- Interessante. E o pai do senhor, os seus pais, eles incentivaram alguma carreira, eles queriam que o senhor ficasse no comércio?

 

R - Não, eles tinham apenas o ensino básico, então não tinham muito como incentivar por talvez até por desconhecimento. Ficavam incentivando que a gente deveria estudar. Gostavam todos que, queriam que a gente seguisse uma carreira e etc. Na realidade as minhas irmãs formaram em, são professoras, tenho um irmão que é contador e um irmão que é médico, ele é médico no Rio de Janeiro e eu formei em engenharia. O curso superior são dois que terminaram. Esse médico, ele é reumatologista, mora no Rio e formou-se também em Juiz de Fora.

 

P1- E Juiz de Fora é pertinho do Rio, né?

 

R- É, há uma influência muito grande da cidade do Rio de Janeiro em Juiz de Fora, porque até 1956, o ano que eu entrei na escola, a única cidade que tinha asfalto ligando ao Rio de Janeiro, em Minas, era Juiz de Fora. Juiz de Fora não tinha asfalto para Belo Horizonte, que era a capital. Então era estrada de terra e etc. O Juscelino Kubitschek entrou, eu entrei na escola no mesmo ano em que ele entrou na presidência da república. Como um ano de governo, no dia 31 de janeiro do ano seguinte, ele inaugurou asfalto para Belo Horizonte já indo pra Brasília, com a construção de Brasília. Quer dizer então, o asfalto passou lá por Juiz de Fora, mas em direção à Brasília, que foi também asfaltada logo para poder, foi inaugurado Brasília em 1961. Então foram cinco anos que teve e tal. Até então em 1956, a única ligação que tinha era de Juiz de Fora com o Rio em asfalto. Minas era a única estrada asfaltada que tinha na época. Então a influência do Rio em Juiz de Fora, é muito grande. Porque as pessoas queriam procurar algum centro mais avançado, tanto em questão médica, de compras, etc, se ligava muito ao Rio de Janeiro.

 

P1 - Futebol.

 

R - Futebol, tanto que em Juiz de Fora dificilmente você encontra torcedores de times de Belo Horizonte. Lá é muito comum assim a pessoa torcer pra time do Rio. Eu era vascaíno, né, meus irmãos eram. Um outro era Flamengo, o meu pai era Fluminense, não sei o quê, tal. Não tinha assim, torcia pro Atlético nem pro Cruzeiro. Agora eu sou cruzeirense porque eu vim pra Belo Horizonte. Depois de me tornar mais mineiro, me embrenhei e tal. 

 

P2 - E no vale do aço tem muito cruzeirense, né?

 

R - Tem muito, o Cruzeiro nos últimos anos ele tem muito título, né? Então começou a, pelo menos jovens, os adolescentes e tal, se entusiasmam muito com os resultados. Time que é campeão e tal.

 

P1 - Qual era perspectiva de quem se formava em engenharia na época?

 

R - Na época já existia assim algumas boas oportunidades, porque exatamente no governo Juscelino, ele deu muito impulso, principalmente estradas, etc., né? Estradas, ele fez a construção de Brasília. Então as obras civis estavam assim muito em expansão. Ele também começou a incentivar a indústria automobilística e tal. Então não havia dificuldade de emprego. Eu inclusive fui convidado para trabalhar em estradas, no DNER e fui convidado pra vim pra Acesita. Eu optei pra vim pra Acesita porque o Jânio Quadros, quando eu me formei, foi exatamente com a saída do Juscelino do governo. E o Jânio Quadros entrou no governo e ele suspendeu as nomeações a nível federal. Então quando eu me apresentei no DNER para trabalhar, as nomeações tinham sido suspensas e etc. Como eu tinha um convite pra ir pra Acesita. Então eu fui pra Acesita. Já estava noivo, com vontade de casar, então eu optei por ir pra Acesita.

 

P1 - Quantos anos o senhor tinha na época?

 

R - Foi em 1961, 26 anos para 27, tinha 26 anos.

 

P1 - E quem que fez o convite pro senhor?

 

R - Foi o Renato Zaulin Machado. O Renato Zaulin Machado, ele era a assessor do doutor Rossi, que era o diretor industrial, mas ele era, digamos assim, um executivo mesmo da empresa. O doutor Rossi cuidava mais da parte estratégica, assim na parte de produção e etc. E ele, o Renato Zaulin Machado, ele era o executor das coisas. Então todos os problemas assim do cotidiano, administrativos, etc, ele que ajudava a tomadas de decisões. Então eu fiz contato com ele, fui conhecer o doutor Rossi depois já de consolidada a minha entrada na Acesita. O doutor Renato é que introduziu na Acesita. Nessa época eu fui convidado pra trabalhar numa parte de expansão, que a Acesita estava fazendo uma expansão. Foi uma das expansões que a Acesita fez. Na realidade foram pelo menos umas três que eu participei assim, como empregado. Vivi lá dentro no período de expansões. Essa expansão estava chegando ao nível de produção de 120 mil toneladas por ano de aço.  Eu fui trabalhar nas obras civis, mas cheguei lá praticamente ao término das obras civis. Então quando terminaram as obras, em 1962, um ano e meio, dois anos depois, terminaram as obras, a Acesita contratou uma empresa, a Tecnometal. A Tecnometal foi contratada para fazer um serviço de racionalização do trabalho na Acesita. Então eu tinha uma equipe de engenheiros da Acesita, de empregados que foram trabalhar na Tecnometal. E eu fui um dos designados para ir trabalhar com eles. Neste trabalho com a Tecnometal, eu acompanhei durante muito tempo trabalhos na área de laminação de barras. Então depois de um ano e pouco na Tecnometal, houve uma vaga, de um engenheiro que saiu da laminação, então eu fui convidado pelo Evandro Caetano de Lima, que era o superintendente lá na área de laminação, e fui convidado pra trabalhar então na parte barras. Eu falei: "Eu sou engenheiro civil." Ele disse: "não, pelo tempo e contato que eu estou tendo com você aqui e tal você já conhece isso aqui igual os próprios metalurgistas,” etc. Então comecei a trabalhar, trabalhei no Barras Grossas, que é um dos setores na laminação de barras, depois de alguns anos eu fui assessor do chefe do departamento. Tomava conta da parte toda da laminação de barras. Depois eu fui o chefe do departamento de laminação de barras, até 1972 quando eu fui então eu fui convidado para ser chefe de produção, eu fui ser chefe de produção.

 

P1 - Nós já estávamos no doutor?

 

R - Já estava entrando o doutor Amaro Lanari Guatimosim, na realidade esse talvez seja assim, se a gente tivesse que definir a Acesita, houve alguns presidentes muito ativos e tal, mas quase todos eles assim com muito vínculo político. Havia muita inserção do ramo político na escolha de dirigentes e etc. E mais do que isso, também havia uma influência total do Banco do Brasil. A Acesita foi fundada por pessoas que, visionárias, que imaginaram criar assim uma empresa de aços especiais. E o Amynthas Jacques de Moraes possuía uma mina em Itabira, as minas de ferro eram em Itabira. O Percival Farquhar, que era um metalurgista que tinha a idéia de fazer uma empresa de aços especiais e Amynthas Jacques de Moraes, que era irmão de um diretor do Banco do Brasil. Então eles fundaram a Acesita e o Amynthas entrou com as minas de Itabira na sociedade. Mas na realidade o projeto era muito ambicioso, fazer numa região talvez um pouco inóspita para o empreendimento. Por quê? Porque na realidade o que eles contavam era o seguinte, tinha Itabira, eles dispunham então do minério de ferro, de um dos sócios e tinha a estrada de ferro Vitória-Minas, que saía de Itabira e ia até Vitória transportando minério da Vale do Rio Doce.

 

P1 - A Itabira Iron, da época?

 

R - A Itabira Iron na época. Então eles tendo o transporte e tendo muitas terras na região, eles queriam fazer uma empresa então partindo de carvão vegetal. Tinham muitas terras então imaginaram que ali seria o local ideal, porque efetivamente fizeram a compra de terra para o plantio de eucalipto e utilizaram então a estrada de ferro para trazer o minério e escoar a produção. Tinha uma queda d'água razoável lá perto da usina, que era a usina Sá Carvalho, onde eles projetaram uma usina hidrelétrica. Que não tinha energia elétrica na região. Então a Acesita começou a ser montada com base nesse tripé, energia, de Sá Carvalho, o minério de Itabira, o transporte, etc. E o carvão que seria retirado das matas nativas que tinha, depois substituído por eucalipto. E algumas pessoas ajudaram muito nesse empreendimento, o Alderico Rodrigues de Paula, foi um dos precursores disso, ajudou bastante. O Josué Teodoro de Souza, também outro engenheiro que trabalhou muito, etc. e tal. Mas o empreendimento começou a ter muita dificuldade porque a região não tinha pessoas capazes de fazer isso, fazer aço. Então aí começou a dificuldade. Então sempre eles lutaram com muita dificuldade para poder ter um pessoal de nível para trabalhar em aços especiais.

 

P1 - Quê que era essa primeira leva de funcionários, eram caboclos?

 

R - Praticamente para plantio de eucalipto, que aí já mais informações que eu obtive, o plantio de eucalipto eles utilizavam mulheres, homens, pessoas assim que não tinham muita capacidade, até com defeitos físicos e etc., uma oportunidade que eles davam de trabalhar no plantio de eucalipto e na produção de carvão, pessoal sem nenhuma formação. Já para produção de aço no alto-forno, eles tinham que contar com algumas pessoas, então buscaram de outras empresas. Já existia a Belgo-Mineira, então eles conseguiram algumas pessoas, etc, já com um pouco de experiência nesse ramo. E a empresa então começou a utilizar pessoas vindas de outras regiões. E começou a fazer também a formação desse pessoal também lá. Criou uma escola profissional pra poder ensinar as pessoas e etc., em algumas coisas, principalmente nas áreas de manutenção eletricista, mecânica, etc. e tal. Foi mais voltada para esse pessoal aí.  De produção de siderúrgica eles buscaram fora, principalmente da Belgo-Mineira. E para formar o pessoal para ter manutenção, eles começaram então fazendo a Escola de Formação Profissional. Foi um período assim muito difícil e a empresa realmente não conseguiu vingar e tiveram que apelar para recursos de terceiros do Banco do Brasil. Então começaram a pedir empréstimos e etc., esses empréstimos começaram a vencer, eles não tinham como pagar, etc., aí o Banco do Brasil acabou assumindo a empresa. Assumiu e a partir de então exercia-se o poder absoluto, indicação de diretores, tal. E algumas pessoas com alguma visão, outras pessoas, não muita visão. Deu sorte porque o general Macedo Soares foi presidente de Volta Redonda e ele então foi indicado para ser presidente da Acesita. E ele tinha já então conhecimento no ramo siderúrgico. Na época pelo vínculo dele com Volta Redonda e com isso ele deu um impulso maior. Foi o primeiro, digamos assim, impulso na Acesita foi como general Macedo Soares, que conseguiu recursos junto ao Banco do Brasil, etc. Depois o tempo foi passando, mas a empresa passou a ser, digamos assim, totalmente dependente da vontade do Banco do Brasil. Quando governo se dispõe a colocar recursos, etc. e tal. Então foi assim, foram períodos, vários presidentes passaram pela empresa, alguns com maior ou menor contribuição, etc.. Mas até que foi feita uma expansão em 1972. 1971, 1972 que terminou, já colocando a empresa, digamos assim, num patamar maior. Tanto em nível de produção para 240 mil toneladas, como em termos de tecnologia, que eles colocaram lá o LD para produção de aço que era um equipamento mais moderno, etc.. Foi digamos assim uma tentativa de um trampolim para a empresa se firmar no mercado. Mas a Acesita até então nunca chegou a ter assim um nome muito respeitado no mercado. O mercado de aços especiais tinha a Aços Villares, em São Paulo. Tradicional, com muito, não só tradição mas uma empresa muito assim muito organizada com (__) tecnologia, tinha Aço Anhanguera, também uma empresa nova mas com tecnologia bastante moderna. Tinha a Mannesmann aqui em Minas Gerais, que também trabalhava em aços especiais. A Mannesmann tinha uma linha de produção mais voltada para tubos sem costura mas trabalhava em barras também, e a Acesita. Então a Acesita participava mas sempre num mercado um pouco marginal. O grosso da produção era para barras, barras de aços especiais. E uma parte da produção era para chapas para implementos agrícolas e chapas para motores elétricos. Estas instalações na laminação de barras, fruto dessa última expansão, já eram equipamentos mais modernos, etc.. A Acesita estava bem em termos de equipamentos e tecnologia. Na parte de laminação de chapas não, eram equipamentos muito antigos. Era um absurdo assim, a gente dizer, como é que as pessoas tinham condições de trabalhar. A seleção pro pessoal trabalhar em chapas era pelo vigor físico da pessoa, pelo porte. Chegava lá a pessoa, tinha mais de um metro e oitenta, pesava, não sei, mais de quanto, quanto, estava admitido. Tanto que a maior parte das pessoas que trabalharam em chapas eram analfabetos.

 

P1 - Por quê que tinha que ter esse vigor físico?

 

R - Porque o trabalho era extremamente manual, só manual. Era um laminador, um motor que girava dois cilindros, e a matéria–prima era introduzida aquecida, uma que a gente chamava de platina, umas chapas pequenas. Eram aquecidas, e o forno ficava nas costas da pessoa, ele pegava essa coisa aquecida e enfiava na frente no meio do laminador, também a chapa quente. Então ele tinha fogo nas costas e fogo pela frente. E ventiladores enormes do lado pra poder eles suportar aquele calor.

 

P2 - Uma coisa de sessenta graus, né?

 

R - Ah, devia de ser. O aço devia de estar a 1200 graus, então o forno quando abria a porta, vinha aquela chama de mil e não sei quantos graus na pessoa, etc. Então era um trabalho assim, digamos um verdadeiro inferno, né? Então a pessoa trabalhava meia hora e descansava meia hora. Ele só aguentava meia hora. Usava um tamanco de uns dez centímetros de espessura para poder suportar o calor porque a chapa encostava no piso, o piso muito quente. Então aquilo ali é uma condição completamente inóspita de trabalhar.

 

P2 - Essa era a laminação?

 

R - Laminação de chapas manual. Ali a Acesita produzia chapas para disco de arado, que é implemento agrícola e chapas ao silício para motores elétricos. Na realidade era uma produção assim para motores de menor exigência. Os motores de maior exigência, o produto tinha que ser importado, com perdas menores, etc.. Então era um produto assim, quase que marginal. Mas era o único que tinha no Brasil. Então as empresas tinham que apelar e comprar para a Acesita mesmo. Não tinha outra saída. Então até então foi nesse período que realmente apareceu então o Plano de Desenvolvimento Nacional, o PDN, que tinha como base, como filosofia a substituição de importação de todos os produtos que o Brasil importava. Então o Geisel teve esse plano, e a Acesita, por ter essa parte de chapas e ser uma empresa vinculada ao governo, de aços especiais. Então, pelo nome de aços especiais, já trabalhava com aços especiais, ele foi então escolhida para ser a empresa que ia fazer então a produção de aços inoxidáveis planos, né, em chapas. Ela já fazia aços especiais, inoxidáveis, principalmente, em barras, barras. Mas no Brasil, chapas de aço inoxidável era totalmente importado naquele tempo. Para esse projeto então, já de uma envergadura muito grande, houve uma introdução, a mudança da presidência e foi convidado para presidir a Acesita o doutor Amaro Lanari Guatimosim, que era diretor da Belgo-Mineira.

 

P1 - Ah, ele vinha da Belgo.

 

R - Ele foi diretor da Belgo, saiu para presidir a Acesita. E um primo dele, Amaro Lanari Júnior, era presidente da Usiminas. Então ele vem com a incumbência de levar a frente o projeto de expansão da Acesita. Esse aí foi o grande início então do grande projeto de expansão.

 

P1 - Se o senhor fosse descrever o doutor Amaro, como que o senhor descreveria assim, quando ele chegou lá?

 

R - O doutor Amaro já era conhecido assim no ramo siderúrgico, muito respeitado por ser assim uma pessoa de muita disposição para o trabalho e acima de tudo competência. Ele era muito respeitado no meio siderúrgico pela competência dele como engenheiro. Família tradicional no setor. Ele já, ele não foi escolhido senão pela característica dele de competência, grande vigor para o trabalho, muito dedicado ao trabalho. E que vinha também de uma empresa que era respeitada como, do setor siderúrgico, uma das mais bem sucedidas, que era a Belgo-Mineira. Então ele reunia assim, não só conhecimento, como competência e disposição. Foi assim que, ele era uma pessoa assim de um trato bastante educado, etc., mas extremamente rigoroso na cobrança. Ele era realmente uma pessoa muito voltada assim à cobrança. Ele era muito exigente quanto ao desempenho das pessoas. Ele tinha um bom desempenho, então ele queria se projetar assim nas outras pessoas. Mas era uma pessoa assim extremamente compreensiva, ouvia muito. Só trabalhava em equipe. Participava, quer dizer, todo pessoal participava muito. Ele dava muita oportunidade às pessoas exporem suas idéias, etc.. Então, tinha uma capacidade de síntese muito grande. Era capaz de passar uma reunião de horas a fio, deixando que todo mundo falasse, ele só ouvindo e depois ao final ele sintetizava o ponto de vista de cada um e era capaz de tirar dali uma conclusão assim que quase chegava, senão a um consenso, pelo menos do pensamento da maioria. Então ele muito inteligente, uma pessoa assim, e capaz também, que é uma característica boa de um líder é isso, é? É trabalhar em equipe, saber escolher os subordinados. Dar autoridade, dar liberdade aos subordinados, etc.. Tanto que o próprio modelo que ele implantou na Acesita foi um modelo diferenciado do que normalmente era feito. Ele colocou ali os diretores, os diretores não eram executivos na época. Era um colegiado, que ele presidia o colegiado. E os diretores trabalhavam de acordo com sua área de especialidade. Então tinha um diretor técnico administrativo financeiro. E ele coordenava os diretores e criou, abaixo dele, diretamente ligado à presidência, as gerências. Então tinha gerência comercial, gerência da usina siderúrgica, gerência, que depois foi criado, de Planos, gerência de manutenção, etc.. Então os gerentes se reportavam, o gerente de processamento de dados, tal. Os gerentes se reportavam diretamente ao presidente, e os diretores atuavam cada um na sua área administrativa, o técnico, administrativo, financeiro, etc., ele era digamos assim, o cérebro, né, gestor de tudo, bom, vamos para o Projeto.

 

(pausa)

 

P1 - Bom a gente tinha falado, projeto de expansão?

 

R - Podemos falar sobre o projeto de expansão. O projeto da Acesita, na realidade ele tinha uma pessoa muito competente o doutor José Frederico Medrado de Albuquerque, que era o diretor técnico na época e conhecia profundamente a empresa, já tinha sido inclusive, engenheiro da empresa desde que tinha se formado, conhecia muito do ramo siderúrgico, conhecia praticamente o mundo inteiro em termos de siderurgia. Ele viajava muito para o exterior, então conhecia quase todas, usinas siderúrgica do mundo inteiro. Então tinha uma experiência muito grande, mas apesar disso o projeto era de uma envergadura muito grande. A Acesita estava produzindo na época 240 mil toneladas, o projeto previa passar pra 600 mil toneladas. Introduzir tecnologias desconhecidas que seria do aço inoxidável e o silício, poder-se-ia dizer que estaria sendo introduzido, porque o processo utilizado pela Acesita é um processo muito manual. E não seria mais, não teria mais continuidade. Então o processo que seria completamente novo, o que tivesse de mais moderno no mundo. Ele foi então, um convite de selecionar a empresa e ele selecionou então, nos Estados Unidos, a  Armco Steel Corporation, que veio para poder fazer o estudo da engenharia, do layout básico do que seria o plano de expansão da Acesita. Então a Acesita fez um estudo que foi a apresentado ao Consider, que era o órgão do governo que era responsável pelo planejamento de todo o setor siderúrgico no Brasil. E como é que era o mapa do Brasil siderúrgico. A Siderbrás, que era um órgão do Governo congregava as empresas estatais, de planos carbono, que era a Usiminas. Volta Redonda. A Usiminas já estava em operação, era uma empresa muito bem sucedida e etc.. E deveria ser ampliada essa atividade também de planos comuns, onde entrou a Cosipa, que também é uma empresa de grande porte e depois a Açominas. Que foi uma outra empresa em Minas também que viria complementar também dentro do plano de expansão do setor siderúrgico no Brasil. De aços especiais, do governo, tinha então a Acesita. O Consider, ele era responsável por escolher os setores, os produtos e as áreas que iam ser expandidas. E tendo um aval do Consider a empresa então estava apta a receber financiamentos oficiais do governo. Que eram feitos financiamentos feitos através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico.

 

P1 - O BNDES.

 

R - Na época, e depois social também, o BNDES. Então as empresa escolhidas, a Usiminas expandiu-se, Volta Redonda expandiu-se. Foi feita a Cosipa, a Açominas, etc.. E o BNDES entrando, no ramo de aços especiais a Villares também foi, recebeu recursos do governo para expandir. Por quê? Porque paralelamente ao crescimento do setor siderúrgico, eles queriam também criar uma auto-suficiência em termos de tecnologia de processo siderúrgico. A Usiminas, então foi criada uma empresa para fabricação de equipamentos. E para fabricar equipamentos no Brasil, você teria que ter fundições pesadas e etc. e tal. E aí a Villares entrou então com recursos, o governo entrou com recursos financiando a Villares para participar então do esforço que seria na fabricação dos equipamentos pras expansões. Tanto da Acesita como Volta Redonda e das demais empresas, etc.. Bom, o BNDES entrava como agente financiador e aconteceu quando a Acesita teve o projeto dela aprovado, ela fez o estudo básico, né? Apresentou ao Consider e o Consider aprovou. Introduzindo então essas linhas de inoxidável, silício e etc.. Só que da hora que a Acesita iniciou a expansão, o BNDES não quis financiar a Acesita. Porque disse que a Acesita já pertencia ao Banco do Brasil e o Banco do Brasil pertencia ao governo. Então seriam dois órgãos do governo participando do mesmo projeto. Esse aí foi o grande entrave para a Acesita. O projeto, inicialmente tinha sido imaginado que ele custaria 260 e poucos milhões de dólares. E a Acesita não conseguiu os recursos do BNDES. Então o Banco do Brasil fez os primeiros aportes etc. e tal, mas muito a contragosto. Quer dizer, ele foi compelido a entrar no projeto porque era do presidente da República, era um projeto do presidente da república., o Consider já havia aprovado e aí não havia mais reversão.

 

P1 - Era o Geisel nessa época?

 

R - Era o Geisel. Então a Acesita teve que lutar com muita dificuldade para poder levar a frente o projeto dela. Os recursos eram parcos, então logo a Acesita começou a ter dificuldades com os financiamentos, ela então teve que utilizar alguns, financiamentos externos, etc., através do Banco do Brasil servido como avalista etc. e tal. E isso trouxe muita dificuldade, tanto que o projeto em si sofreu algumas mutilações. Não vamos dizer mutilações porque mutilar sempre dá um sentido de falta incontornável às vezes de alguma coisa. Mas o projeto teve que ser sacrificado em alguns pontos cruciais. Uma sinterização que era prevista não foi feita. O pátio de matérias primas para abastecimento do alto-forno não foi feito, foi feito um provisório que ficou definitivo, né?  Na Aciaria um forno elétrico que ia ser colocado de 75 toneladas para produzir aço inoxidável não foi colocado. Tinham dois fornos pequenos lá de cerca de 30 toneladas, esses dois fornos foram mantidos. E foi feito então um AOD pequeno, as corridas então de inoxidável tiveram então que ser limitadas para 30 toneladas ou 35 toneladas e não para 75, que era o conjunto do projeto, só corridas de aço de 75 toneladas. Então isso trouxe algumas dificuldades. Fora isso algumas outras dificuldades pra própria implementação do projeto. Mas de qualquer forma foi, conseguiu-se levar a frente o projeto. A própria Armco, que foi responsável pela elaboração dos estudos iniciais, etc., foi contratada pra nos dar assistência técnica. A Armco fabricava nos Estados Unidos esses aços planos de inoxidáveis e siliciosos. Mas não tinha tecnologia ainda dominada em alguns ramos. Por exemplo, o projeto previa uma laminação de planos de 500 mil toneladas/ano e o equipamento normalmente utilizado para laminação de planos era um laminador semicontínuo, contínuo, que seria de grande tonelagem. Então tiveram que escolher o equipamento que se adequasse ao nível de produção da Acesita e que trabalhasse com aço especial. Então foi imaginado em montar um laminador Steckel, e que no mundo só existiam três. Dos quais, efetivamente em operação só existiam um. Então esse estava na Suécia e nós tivemos que fazer um contrato então com firma sueca para treinar o pessoal lá em (Sua Rama?)______, na Suécia.

 

P1 - Por que os outros não estavam em operação, ainda não tinham acabado?

 

R - Não, eles já tinham estado em operação e tinham sido desativados. Eles eram equipamentos assim que, para um nível de produção limitada. No Japão por exemplo, ele foi rapidamente absorvido porque as grandes usinas lá tinham uma produtividade muito maior. Então ele não competitivo em termos de custos. Esse da (Surarrama?) na Suécia ainda tinha, mas já era de uma geração anterior, o da Acesita já foi concebido assim com alguns avanços tecnológicos, de automações, etc. e tal. Mas de qualquer forma foi um referencial para nós fazermos assistência, tal. Bom, como eu disse a Acesita, o forte da Acesita sempre foi barras, quando o doutor Amaro chegou, nós tivemos então alguns desafios. O quê? Fazer uma expansão de 240 mil toneladas para 600 mil toneladas, 613 que estava lá escrito, 613 mil toneladas. E implantar isso dentro de uma usina pronta. Já existia uma usina, nós tínhamos que fazer uma outra usina dentro daquela usina. Então era um problema físico. Por que como se trabalhar e ao mesmo tempo estar se expandindo. Então era obra para tudo quanto era lado e não podia parar a produção que estava lá. O outro problema, esse financeiro, que tinha que ser equacionado. E um terceiro, um problema tecnológico. Bom, o doutor Albuquerque era responsável então e foi o cérebro na parte de tecnologia, de conduzir o processo e tal. O diretor administrativo, professor Domingos Muchon, que foi o diretor administrativo, que foi responsável por então arranjar as pessoas para poder levar a frente o processo, o projeto, né? Eram os dois realmente e tal. O doutor Orsini era o diretor financeiro mas muito ligado ao doutor Amaro porque as estratégias financeiras quase que transcendiam a função normal de um diretor financeiro. E tinha o vice-presidente, o doutor Jardel, que atuava como auxiliar do doutor Amaro na condução dos negócios. Mas então os dois responsáveis quase que diretamente, que foram assim os dois braços, né, na condução. Um foi o diretor administrativo, o professor Muchon e o doutor Albuquerque. O professor Muchon lamentavelmente já falecido, o doutor Albuquerque eu acho que é uma pessoa como o doutor Amaro, se vocês forem escrever a história da Acesita em dúvida nenhuma eles estão. Porque a visão que eu estou dando é uma visão de gerente. Uma visão de gerente, eu sou olhando os fatos como eu enxergava como gerente e o conhecimento que eu tinha como gerente da usina. Bom, então na parte técnica contratou-se a Armco pra parte de planos etc., só que o suporte, o nível técnico da Acesita deixava muito a desejar. Ela não participava do mercado com um nome respeitado no mercado. Certo que a Acesita sempre participou do mercado de barras, quase que marginalmente. As empresas que tinham muito exigência de qualidade, dificilmente se reportavam à Acesita para comprar aço.

 

P1 - Nessa época, década de 1960?

 

R - Não, não, na época, nós já estávamos falando em 1972, 1973, quando então. Bom, então o primeiro passo para poder ajudar nessa, na melhoria do nível técnico foi contratado uma firma no Japão, a Daido Steel, que era uma empresa controlada pela Nippon Steel, essa empresa veio pra nos dar assistência técnica na Aciaria, a existente na época, antes do processo, do projeto de expansão, iam fazer essa expansão mas eles só iam entrar em operação mais à frente. E essa empresa então veio nos dar assistência na Aciaria e na parte de laminação de barras. Bom, nós então tínhamos um contato com os japoneses e para a expansão nova tinha contato com os americanos. Isso deu alguns problemas, etc., porque havia ciúmes, até de medo. Os japoneses, de que a tecnologia deles poderia fluir para os americanos. Os japoneses eram muito preocupados com isso.

 

P1 - Eles tinham medo dessa...

 

R - Medo de que essa tecnologia pudesse, deles através da Acesita, fluir para a Armco nos Estados Unidos.

 

P2 - Por que eles conviveram, os dois grupos, ao mesmo tempo nessa época? 

 

R - Não, conviviam assim, quer dizer, quem era o pino de ligação eram os empregados da Acesita, porque as duas empresas atuavam na Acesita. Nós mandávamos pessoas pros Estados Unidos para treinar e mandávamos as pessoas pro Japão para treinar. Então essas pessoas conheciam as empresas, então eles tinham receio de que no conhecimento deles virem aqui, eles terem contato e haver alguma transferência de tecnologia. Na realidade não, a Acesita nem cogitava que isso era, queria absorver tecnologia e tal. Foi pra parte de barra, realmente, a assistência dos japoneses foi realmente assim bastante efetiva e muito boa. Até, digamos assim, quase que culturalmente nós absorvemos muito, porque nós mandávamos missões pro Japão, não ia só pessoal de nível universitário, mas ia também de nível operacional. E isso foi interessante para eles conhecerem a cultura do povo japonês, o modo deles trabalharem, com que eles se dedicavam às tarefas, etc. e tal, em termos de organização, de segurança, de limpeza, de produtividade, então, de qualidade. Quer dizer, todos esses fatores, tanto o nosso pessoal administrativo e técnico como operacional teve muita oportunidade, por função disso, eu mesmo fui um dos que foi ao Japão. Fui ao Japão como estagiário. Eu fui já era chefe de produção da usina. Fui lá chefiando uma missão. Trouxe de lá assim uma idéia de ver como que o ciclo de controle de qualidade introduzidos lá, que eram, feitos dentro da empresa da Daido, que funcionava juntando grupo de cinco, seis empregados para desenvolver algum projeto que eles escolhiam, etc.. Então, nós introduzimos na Acesita, hoje é um sucesso na empresa. Depois de muitos anos foi sendo aprimorado. É uma técnica hoje utilizada na Acesita com muito sucesso. E o pessoal operacional da Acesita absorveu muito, tal. E trouxe também muitas vantagens. Eu me recordo que, eu quando eu voltei do Japão, logo depois eu fui promovido a gerente da usina. O doutor Amaro, quando designou, ele falou que o objetivo da Acesita era atender um dos segmentos mais exigentes do mercado. O que existir de mercado exigente no Brasil, esses são os clientes que a Acesita vai ter, tem como objetivo atender. E foi, vou contar uma história então, que essa história é marcante. Só pra vocês sentirem como é que ela é marcante.  A Crupe é uma forjaria que atendia basicamente a Volkswagen que era a fábrica mais importante. E a Crupe era, digamos assim, o bicho-papão do mercado. Quem vendia para a Crupe podia dizer que vendia para o mercado. E foi o gerente comercial foi lá na Crupe e etc.. Então a Crupe atendeu, e ele então comentou conosco, queriam botar um pedido na Acesita, o pedido de um aço 4340 que é um aço ligado, numa bitola de sete polegadas, num quadrado de sete polegadas. E colocou 150 toneladas. “Eu não quero que vocês me dêem o prazo, eu quero, o dia que vocês conseguirem me entregar 150 toneladas desse material, na qualidade que eu exijo, eu então vou colocar outro pedido com vocês”. Nós fomos pra lá pra pelejar para produzir o aço pra eles. (Riso) E foi um sufoco para produzir aquele aço. 

 

P1- Por quê?

 

R- Porque a qualidade realmente, nós não dispúnhamos de qualidade. O material tinha muitos defeitos, principalmente defeitos internos, etc.. E então graças ao esforço do pessoal da Aciaria, começou-se a introduzir a injeção de gás neutro de argônio, que o nitrogênio por baixo da panela. E com isso fazia-se com que as inclusões sobre-nadassem no banho, etc., e algumas outras técnicas de resfriamento do aço, etc., e até exigência também no controle da qualidade. Porquê o controle, se saia algum material com defeito era porque o controle de qualidade não estava sendo. Então foi uma luta muito grande. O certo é que conseguimos mandar, com muito custo, não sei quantos meses nós gastamos para aquilo. E aí veio outro pedido. Nós então tínhamos como objetivo tratar esses clientes como clientes especiais, e esses clientes recebiam dentro da usina, uma ficha vermelha dos pedidos deles. Todos os aços desses clientes eram tratados com uma ficha vermelha, porque todo mundo já sabia. Qualidade rígida, velocidade máxima para atendimento do pedido, etc. e tal. O certo é que três anos depois, eu recebi um telefonema do presidente. Para você ver como é que os processos são demorados. Então o doutor Amaro me telefonou, falou assim: “Frederico, eu estou telefonando, porque eu acho que você vai gostar de ouvir uma coisa, uma visita que eu recebi hoje, uma notícia de uma visita. Esteve comigo aqui, o presidente da Crupe, e ele veio me propor uma coisa que eu acabei não aceitando, ele queria fazer um contrato de exclusividade de fornecimento por parte da Acesita.” Ele queria que nós fôssemos os únicos fornecedores da Acesita. Porque realmente diz ele que o nosso produto hoje, é o produto que mais interessa à Crupe.” Então para vocês verem a dedicação que o pessoal da empresa teve assim. E a partir de então todas essas forjarias, que formava-se um grupo formavam o segmento mais exigente do mercado, eram os cliente da Acesita e nós atendíamos, assim com cem por cento de prazo, de qualidade, etc. e tal.

 

P2- Tinha algum cliente dessa época de aço inox já especificamente?

 

R- Não, o aço inox, aí vou. Acabei barras. Barras, assistência técnica, Japão, etc. e tal, né? Aí a parte de inoxidável. Quando o Consider autorizou o projeto, o Brasil importava totalmente aço inoxidável. Quem importava o aço inoxidável? Então o mercado era dividido em duas partes, os grandes consumidores de aço inoxidável, que eram as fábricas de talheres, de cutelarias, esse importavam diretamente. Iam lá no exterior, selecionavam um cliente, cotavam o  preço, qualidade, etc. e importava, e o segmento de menor demanda em termos quantitativos, era atendido por um segmento chamado Distribuidores de Inoxidável. Eram empresas que tinham sido instaladas, particulares aqui no Brasil, elas importavam aço inoxidável e revendiam no mercado. Então elas atendiam baixas tonelagens. Quem precisava de quilos de aços ou poucas tonelagens que não, digamos, justificaria uma importação, eles compravam desses distribuidores de inoxidável. Devia ter uns quatro ou cinco distribuidores, entre os quais, o maior deles o Amorim, que hoje é uma empresa que a Acesita comprou. Ela pertence a Acesita a Amorim, que é a maior distribuidora de aço inoxidável. Então quando o Consider aprovou o projeto de expansão da Acesita, que a Acesita ia fabricar o aço especial, inoxidável, eles pretenderam, e foram ao governo reclamar. Porque tinha as empresas deles que importavam e distribuíam no mercado, a Acesita ia passar, do governo, ia passar a fábrica, ia quebrar todas as empresas. Então o Consider como a Acesita era do governo e o Consider mandava. Ele limitou o seguinte, a Acesita, quando entrasse em produção, ela até seis toneladas, quem atenderia era o mercado desses distribuidores, e acima de seis toneladas era o único pedido que a Acesita poderia vender diretamente aos clientes. 

 

P2- Eles comprariam importados, esses pequenos?

 

R- Os pequenos não, eles comprariam da Acesita, esses distribuidores comprariam da Acesita e seriam, continuariam distribuindo, só que não importariam mais, quem seria o fornecedor desses distribuidores, seria Acesita. Então a Acesita não teria acesso ao pequeno cliente. Eles intermediariam essa venda e provavelmente é o segmento que mais lucro dá. Porque nas grandes tonelagens você tem, se ele tem condições de comprar no exterior. A Acesita tinha que respeitar no máximo o preço do mercado externo, porque senão eles iam lá e importavam, está certo. É bem verdade que havia restrições de importação, o governo não deixava importar mas de qualquer forma, do ponto de vista inteiramente teórico seria assim. Então foi a primeira limitação. Quer dizer, a Acesita ia fabricar aços especiais de inoxidável, mas não teria acesso ao pequeno mercado. O pequeno mercado seria atendido pelos distribuidores. Ficou claro, deu pra entender, né? Bom, como é que foi então feito o plano de expansão. O plano de expansão, começaram as obras e etc.. E A estratégia utilizada pela Acesita foi iniciar a expansão pela linha final. Laminador de aço inoxidável e de silício no final ele que lamina a chapa final, na bobina. Começou-se a dar preferência o máximo de enfoque possível na montagem desse equipamento. Então os galpões, os equipamentos, etc., etc.. Por quê? Como as outras unidades, eram unidades assim muito mais pesadas, tanto em termos de equipamento e provavelmente prazo de implantação. A Acesita objetiva já duas coisas, primeiro ela ganhar tecnologia, já, de operação dos equipamentos acabadores. E segundo, o Brasil já começar, ao invés de importar produtos acabados já começaria a importar um produto intermediário, semi-acabado. Então esse laminador entrou em operação em 1978, fim de 1978, comecinho de 1979. As primeiras unidades a entrar em operação foram esses laminadores de inoxidável. E a Acesita passou então a importar o que nós chamados de bobina laminada quente. A bobina laminada quente é a última etapa antes desse acabamento de do laminador e a frio. Já ia diretamente para o cozimento, decapagem e dali para laminação final. Esse foi o equipamento que entrou em funcionamento em primeiro lugar. A junção então seria feito posteriormente com a entrada dos outros equipamentos. A Aciaria ficou pronta em primeiro lugar. E o Steckel, acabou sendo o gargalo, o que seria o elo de ligação da Aciaria, onde se fabrica o aço e a placa. Para fazer a bobina quente que seria então passada para a parte de laminação a frio. O Steckel ficou por último, houve um problema, além de atraso, por ele ser o equipamento mais pesado, houve um problema de recalque muito grande na estrutura do prédio. Quando ele foi feito, o prédio, o edifício foi montado, ele começou a ter recalques, ele começou a afundar então. Os fornos que foram montados, as fundações começaram a afundar. Então tiveram que parar a montagem e teve que fazer uma consolidação do terreno. Foi trazido inclusive, a Usiminas emprestou muito material pra Acesita. E nós colocamos uma carga muito grande em toda área. Houve um recalque então que seria o definitivo, quando ele se estabilizou, quer dizer, que chegou no final, parou, quer dizer, não está recalcando mais, refez-se então a parte que teria que ser refeita, de enchimento das coisas, onde os galpões foram reposicionados para nivelar, etc. e tal. E retomou-se então o ritmo normalmente da expansão.

 

P1- Esse recalque, deixa eu entender, quê que vocês...?

 

R- O terreno, foram feitas estacas, igual um prédio. Você fez estacas etc. e tal. E foi então, foram feitas as bases e a montagem do galpão, só que depois que colocou a placa, provavelmente houve o recalque, eles não tinham alcançado ainda a camada sólida definitiva, o terreno mais rígido. E com isso houve o recalque e eles não saberiam explicar a razão, porque as estacas tinham acusado o que se chama de mega, quer dizer, ela não recebia mais nenhuma deformação, ela não descia mais, ela não conseguia ser mais cavada, e depois que colocou-se peso, provavelmente a estrutura pesava muito mais que o esforço para fincar as estacas. Então o peso foi maior e ela então atingiu a camada menos densa até que foi depois, com peso maior se consolidou. Com isso houve um atraso, a Aciaria entrou em operação com a AOD para fabricação de aço inoxidável, entrou o LD, produção de aços comuns, etc., e o lingotamento contínuo. E ficou faltando o Steckel, então algumas placas dessa foram mandadas para o exterior, para laminar em bobina, para fazer o papel de Steckel, e voltava para laminar a frio aqui na Acesita. Então substitui-se o Steckel por uma operação no exterior de envio das placas para laminação e o retorno pra cá. Mas houve alguns outros desafios. Por exemplo, a Acesita teve que cancelar a construção de um forno elétrico de 75 toneladas, ao cancelar esse forno de 75 toneladas, ela passou a utilizar dois fornos de cerca de 30 toneladas cada, que já estavam em operação. E Esses fornos eram os fornos que fabricavam aços ligados para barras, aço alto carbono para chapas, e o LD só fabricava baixa liga e silício, etc. Quando foram escolhidas a tecnologia, etc.,verificou-se o seguinte, os fornos elétricos vão ser destinados pra inoxidável. Então a Acesita vai ter que fabricar os outros aços no LD, ela vai ter que descobrir isso aí. Então, japonês foi o grande, a grande ajuda que nós tivemos no Japão. Então uma missão foi ao Japão, o José Carlos Xavier foi ao Japão e que foi responsável por absorver essa tecnologia de processo que propiciou então a Acesita abrir mão dos fornos elétricos para aço inoxidável e ela fabricar todos os outros aços então diretamente no LD. Outros desafios, né? Nós tínhamos um alto-forno pequeno de 200 toneladas por dia. Foi montado um forno para 900 toneladas por dia. Quer dizer, com quatro vezes e meia aquilo que a gente estava acostumado trabalhar. Então nesse particular é que entra realmente o trabalho de preparo da equipe. A Acesita então se preocupou muito com isso. Além da assistência técnica e da formação de pessoal, ela fez convênios com a UFMG e com a Católica e contratou inclusive assessores, o Professor Vicente Falconi e Rubens Silveira passaram a trabalhar diretamente ligados à diretoria para formação do primeiro núcleo de pessoal especializado no curso de mestrado. A Acesita contratou um curso de mestrado para formar o pessoal. Por quê formar um pessoal? Formar um pessoal de melhor nível, que não só iria ajudar a absorver essas tecnologias, como também seria responsável por implementá-las a partir do momento que nós não tivéssemos mais assistência técnica. Então, preocupou-se não só em formar-se o pessoal operacional, mas também,o pessoal de nível universitário. Nesse particular, interessante citar, porque como todos os setores siderúrgico estava em expansão, Usiminas, etc., era uma dificuldade tremenda conseguir esse pessoal. Então a Acesita já começava a pagar o estudante de engenharia no terceiro ano. Era bolsista da Acesita no terceiro ano pra ele quando formar-se ter um contrato de ir trabalhar na Acesita. Então foi assim uma luta muito grande. E Acesita teve naturalmente paralelamente a isso, fazer o plano de expansão da cidade, construção de casas, etc., para poder receber um afluxo muito grande de pessoal de nível técnico. 

 

(pausa)

 

P1- Mas o senhor está falando desse contexto dos empréstimos meio que indiretos?

 

R- Uma das fontes de recurso para financiamento da expansão foi exatamente a compra dessas bobinas de aço, quando começamos a laminar a frio, o laminador de inoxidável, a Acesita começou a importar bobinas laminadas a quente. E os fornecedores dessas bobinas nos davam prazo para pagamento, bem elásticos. Dois anos, três anos, etc.. A Acesita comprava para pagar em dois anos, três anos, vendia no mercado com prazo de pagamento de 30, 60 dias. E era o suporte que ela possuía para poder colocar no plano de expansão. O dinheiro do Banco do Brasil era muito escasso, né? E o projeto, na realidade a Armco imaginou que o projeto deveria ficar em 200 e poucos milhões de dólares. Depois de muito trabalhar, foi feito uma revisão e o projeto passou para 600 milhões de dólares. E ao final, quando ficou pronto o que poder-se-ia dizer assim a parte substancial do projeto, a Acesita com o serviço da dívida etc. já estava devendo cerca de 900 milhões. Então era praticamente impossível de obter-se isso daí.  Agora se se comprar, esse por exemplo, Villares tinha conseguido um financiamento no BNDES, na época que nesse período aí a inflação, acho que deve ter chegado a 40, 50 por cento ao mês, a Villares o financiamento dela é de 24 por cento de juros ao ano fixo. A inflação era de 40, 50 por cento ao mês. Então você vê que era uma certa transferência de recursos do governo para empresa privada e tal. Quem obteve, como a Usiminas também teve, Volta Redonda, todas obtiveram através do BNDES e tal. A Acesita por não ter conseguido entrar no BNDES, ela teve uma situação dela, financeira, extremamente agravada, não é? Por problema de não obter esse financiamento que teria o aval do governo e a vantagem deter juros assim bastante...

 

P2- Amigáveis.

 

P1- Tranquilos.

 

R- Subsidiados, né? Bom então voltamos a parte social.

 

P1- De Timóteo o senhor ia falar, da expansão, do escritório do senhor, o senhor contou uma coisa interessante a hora que estava desligado, que eu queria que o senhor, a expansão e o escritório.

 

R- Havia a usina sendo feita dentro da própria já existente. O meu escritório por exemplo, era um escritório naquela época, um escritório de madeira. Na época ainda da fundação da Acesita, o escritório central da empresa era de madeira. E a Aciaria ia ser, uma parte da Aciaria ia ser montada em cima desse escritório. Foi por onde a Acesita fez o atual escritório central e teve que trabalhar rapidamente, porque só quando tivéssemos condições de mudar dali, que nós poderíamos liberar a área lá para poder ser demolida e etc.. Assim como houve também, o escritório, haviam outras áreas também tomadas. Ali onde hoje é o Steckel, existia um acampamento de umas 600 casas de madeira, onde os operários moravam. Essas casas chamavam-se NEU, Núcleo de Expansão da Usina. Uma das expansões que a Acesita fez, ela precisou de trazer empreiteiras, etc., e essas empreiteiras então construíram umas casas de madeira pequenas e nessas casas os empregados das empreiteiras ficaram morando. Quando terminou a expansão foram para lá os empregados da Acesita que não tinham moradias e acabou sendo uma vila. “Onde é que você mora”, “Eu moro no NEU”. Era uma disputa tremenda porque na cidade não existia nada a não ser a Acesita. Então as casas, que fornecia as casas. Eu vou abrir um parênteses, depois pra estender nisso daí. Bom, esse núcleo de expansão da usina. É onde está hoje o Steckel. Então a Acesita desenvolveu um projeto junto com a Cohab, né? Que na época construía casas populares e fez um bairro popular, que é o Primavera, em várias etapas. Na realidade foram quatro ou cinco etapas, que foram feitas, de várias casas. E foi então transferindo o pessoal pra lá pra poder ir liberando a área para expansão. Falando de Timóteo, quer dizer, a Acesita quando implantou isso lá que eu falei com vocês, tinha sido escolhido na região, mas não existia nada, então além de fazer a usina siderúrgica, ela teve que construir uma cidade. Construiu as casas, construiu um hospital, construiu um armazém, construiu um posto de gasolina. Então tudo na cidade foi feito pela Acesita. A sede município chamado de Timóteo. Na época, na realidade Timóteo não era município, o município era Coronel Fabriciano. Coronel Fabriciano tinha dois distritos, um chamava-se Timóteo e o outro se chamava Ipatinga. Ipatinga é onde foi a Usiminas e a Acesita foi pra Timóteo. Então em 1967, salvo engano, foi então emancipado. Foram emancipados os dois municípios. Criado o município de Timóteo, criado o município de Ipatinga. Então ficaram três municípios. Hoje já cidades completamente independentes também de recursos, etc.. Mas a Acesita foi então a sede que seria o distrito de Timóteo não tinha praticamente nada. Era pequeno, tanto que era distrito, não uma cidade, do município. A cidade que a Acesita construiu não. A cidade tinha água tratada feito pela Acesita, luz elétrica da Acesita vindo de Sá Carvalho, uma rede de telefonia da própria empresa, hospital, farmácia, e tudo. Então, sem nem precisar de dinheiro pra viver, não se precisava de dinheiro. Você saía, ia no armazém e comprava para descontar no salário,  você ia na gasolina comprava a gasolina para descontar no salário. Ia no hospital se gastasse lá alguma coisa, descontava, não. Então você não precisava de dinheiro para nada. Tinha uma loja com roupas e aviamentos da Acesita, você chegava lá, assinava e descontava na folha de pagamento, então você não precisava, era tudo descontado em folha. Essa situação perdurou durante muito tempo, durante a expansão acentuou-se mais, porque aí a Acesita teve que construir bairros. Aí construiu bairros para atender um pessoal de nível melhor, um pessoal de nível operacional, como esse que eu estou citando e nível médio também. Então hoje tem lá quatro ou cinco bairros que foram feitos pela Acesita. E a Acesita iniciou depois a venda disso pros empregados. A Acesita começou essas casas pros empregados, etc. E no final praticamente todos os imóveis já pertenciam a terceiros. Fez-se loteamentos também, vendia lotes com preços assim extremamente atrativos. Você cativava o empregado e motivava a construir a sua própria casa. O bairro Serenata, que é um dos melhores bairros que tem lá em Timóteo. Na região de Acesita, foi construído só através desses incentivos, lotes baratos, etc.. E foram dados o máximo possível de apoio. Inclusive alguns projetos a Acesita pagava o projeto pra pessoa, etc. e tal, pra poder ajudar.

 

P1- O senhor sabe por quê do nome Serenata?

 

R- Confesso que não sei. Mas pelo menos a avenida principal deram o nome de Ari Barroso. E tem uma outra rua que tem Lamartine Babo, tal. Então por ser isso daí, provavelmente o nome de compositores famosos, o bairro acabou por extensão. Mas foram feitas todas essas infra-estruturas e tal. Na época final da expansão já não suportava. Por exemplo, a Acesita tinha uma rede telefônica na cidade. Na região lá era o seguinte, a Usiminas tinha uma rede telefônica dela. Ipatinga tinha uma rede telefônica dela. Quando Timóteo emancipou-se, colocou uma rede telefônica, uma empresa telefônica na cidade. A Acesita tinha dela pra poder comunicar-se com os empregados. E Coronel Fabriciano também tinha a dela. Então tinha cinco empresas de telefonia ali você não falava com nenhuma delas e não falava pra fora. Então quando a gente queria por exemplo, fazer um interurbano, tinha que sair da Acesita. Eu fui várias vezes a Nova Era pedir interurbano. Estrada de terra, chegava lá e pedia, ficava lá e a telefonista não dava garantia senão daí a cinco horas de prazo, mais ou menos. Então você ficava o dia inteiro lá em Nova Era para poder fazer uma ligação. 

 

P1- Tinha um escritório no Rio também?

 

R- Tinha um escritório no Rio, por rádio. Era por rádio. Então a Acesita tinha um rádio, passava rádio pra lá e tal. Os pedidos de compra, essas coisas eram tudo por rádio. Então na época da chuva, até 1967, quando foi, acho que 1967, que entrou o asfalto de Monlevade até Timóteo. Até então era estrada de terra e era um sufoco. Se chovia, a gente praticamente não saía. Até o abastecimento das coisas, até o armazém passava aperto lá, e passava aperto porque não tinha o abastecimento lá. Isso foi até 1967 foi bastante crítico. Mas já quando foi na época da expansão mesmo, a Acesita, já tinha colocado à venda os imóveis, etc., e eu já na época de gerente da usina, foi colocada a empresa a Telemig entrou lá com a rede e tal. Nós tiramos os telefones e ficou por último a água. Nós doamos todas as instalações da rede da cidade para poder entrar a Copasa, então a prefeitura recebeu uma doação da Acesita para contratar  a Copasa e nós entregamos  todas as instalações existentes, etc.. Então saímos gradualmente. A última coisa foi o hospital que ficou. O armazém, a companhia fez a venda quase que simbólica para levar supermercado pra lá pra cidade, etc. e tal. Então ela fez com que a cidade assumisse a sua condição de independência. O município cuidando de si. Muito bem, então passamos do social. Agora voltamos então para...

 

P2- A gente estava lá na montagem do Steckel, que ruiu.

 

R- Aí o Steckel não ruiu não, ele afundou. Houve um recalque bastante grande e tal. Até que em 1980 o Steckel então entrou em operação. A partir daí nós suspendemos a remessa de placas que iam pro exterior pra laminar. E fizemos então o link, quer dizer, aí estavam com toda linha ligada, de produção. Havia naturalmente alguns desafios porque o lingotamento contínuo da Aciaria, ele não só lingotava carbono, como lingotava inoxidável, como lingotava silício. A cada troca disso era um sufoco lá na Aciaria. Porque cada aço tem um, você tinha que ter um molde diferente, etc. e tal, porque senão você poderia ter contaminação no aço, etc.. Então somente no futuro, mais na frente com a entrada do segundo lingotamento contínuo, é que as coisas começaram a entrar assim nos eixos. Inicialmente tivemos muitos problemas de qualidade, os produtos, principalmente inoxidável. Tivemos muitas dificuldades, mas essas dificuldades foram sanadas graças à assistência técnica externa e já assim com um trabalho bastante bom do pessoal de metalurgia já, com um nível bom, de mestrado que servia de suporte, o pessoal técnico. Então mandar o pessoal pro exterior pra treinar, um pessoal bom sendo formado internamente, etc., foi assim um suporte extremamente interessante. Pro Steckel particularmente e por ser um equipamento assim bastante sofisticado, que pra época. Hoje ele já foi até mais modernizado, já sofreu expansões. Nós possuíamos lá, também por parte da Acesita um curso médio por parte da Acesita, um curso médio de Técnico em metalurgia, equivalente ao científico. Então nós formávamos muito o pessoal de nível médio lá nesse curso e para o Steckel, todos os operadores já, nós colocamos o pessoal de nível médio metalurgista. Eles foram mandados pra Suécia para poder treinar para operar o equipamento, voltaram da Suécia, quando estiveram lá, eles operaram os equipamentos. Os operários de lá, entregavam pro nosso pessoal, ele já estavam com prática suficiente para operar, de forma que quando o Steckel entrou em operação, ele foi uma entrada em operação assim bastante tranquila em termos assim de absorção de tecnologia. O pessoal estava bastante apto a fazer isso daí. Só que ali tinha, além do inoxidável, o grande problema era o silício de grão orientado que é um aço muito especial em termos assim de ter forno especial, a temperatura dele é altíssima para laminação e tudo, ele requer duas passagens pelo forno, com pré-desbaste, etc., então era uma tecnologia bastante sofisticada que exigia campanhas grandes, você tinha que fazer uma tonelagem muito grande desse material para depois então parar, você não podia, igual a um inoxidável, você não podia fazer uma corrida e depois então fazer outros aços, etc., Quando você começava a produzir o aço de grão orientado você tinha que fazer uma campanha grande, etc.. Então um aço realmente de grande impacto assim tecnológico muito grande. Mas com isso conseguiu-se assim a expansão. O inoxidável foi assim muito bom em termos de absorção pelo mercado, tanto que rapidamente o primeiro laminador ficou lotado. Os dois laminadores a frio. Um de inoxidável e um de silício, eles têm, eles são praticamente idênticos. A diferença, principalmente na refrigeração, no sistema de refrigeração dos cilindros, etc. e tal. Mas o silício não ocupava totalmente o laminador, então passou-se a utilizar o laminador e silício para ajudar no inoxidável. Então uma parte do inoxidável ia lá, passava uma vez no laminador de silício, com uma forma de ajudar para que a laminação de inoxidável desse vazão aos pedidos, etc.. Em 1983 começou-se a montagem do terceiro laminador de inoxidável. Já tinha sido comprado, mas não tinha recurso, em 1983 então é que montou-se, ele deve ter entrado em operação por volta de 1985. Acho que é isso. Agora não sei se realmente...

 

P1- Não a gente, tem mais algumas coisas, você quer perguntar alguma coisa Tati?

 

R- Não sei se foi assim, toquei muito amplo,

 

P1- Não, não, foi uma visão maravilhosa. Na verdade a gente fala que o entrevistado é que conduz a entrevista, a gente está aqui só pra pontuar algumas coisas. Quando o senhor vai pra gerente da usina, né, assim quais que eram as suas...

 

R- As minhas atribuições? Na realidade eu fui quase, digamos assim, quase que eu era o gerente de maior responsabilidade física. Porque sob a minha gerência tinha parte de desenvolvimento de pessoal, de relações com a comunidade. Então eu que me relacionava com o prefeito, com o sindicato, etc.. A parte de desenvolvimento pessoal era subordinada a minha gerência, a parte operacional da usina também ficava diretamente na minha gerência e a parte de manutenção. Quando foi criada, quando iria fazer a expansão, para a parte de inoxidável e de silício foi feita uma nova gerência. Então xará, gerência de planos. Ela pegava a laminações a frio de silício e inoxidável. Então a minha gerência ia até o Steckel. Em termos de produção ela ia até o Steckel, até a laminação de bobinas a quente. E na parte de barras ia até o acabamento final. Não só tal. Então toda produção de gusa de aço e de laminação de barras, na laminação de planos até a bobina quente era comigo, na minha gerência, operacionalmente. E a parte de laminação a frio e a com outra gerência. Então eu tinha lá na usina um gerente, depois foi criado um gerente de manutenção. Manutenção dava muito trabalho. Então como a manutenção atingia também a parte de planos, foi criada essa gerência. Então, foi criado um gerente, ele prestava serviço à minha gerência, que era a gerência da usina siderúrgica, e a gerência de planos também. Então tinha lá gerente da usina siderúrgica, era eu, um gerente de manutenção, um gerente de planos, um gerente de processamento de dados, computador, lá, a parte de processamento de dados era com outra gerência. A parte de desenvolvimento pessoal eu tinha abaixo de mim um segundo nível de superintendentes. Então tem o superintendente de produção, tinham um superintendente de manutenção, que acabou passando depois para a gerência de manutenção e tinha um e superintendente de relações industriais. Esse que era.

 

P1 - O senhor comentou que a Acesita funcionava quase que marginal no mercado, a produção e tudo, que isso aí vai galgando aos poucos. Como é que o senhor acha que assim, que ela conquista o mercado efetivamente?

 

R - Eu te falei. Foi a partir de 1973, 1974 nós começamos a nos impor no mercado. Foi nessa época que a "Crupe" esteve lá. Em 1975 a "Crupe" veio nos propor ao doutor Amaro, de 1975, 1976 veio nos propor ao doutor Amaro. Então a partir desse período, 1974, 1975, a Acesita realmente passou a ser uma empresa respeitada no mercado como uma produtora de aços especiais realmente. Até então atendia muito mercado marginal.

 

P2 - Mas tinha algum cliente de inox, especificamente, que se pensava em atingir? 

 

R - Bom, nessa época não se produzia o inoxidável. Só em barras. O mercado de barras de inoxidável, ele é muito limitado. Um mercado extremamente pequeno. E a grande maioria dos consumidores comprava da Villares. A Villares era tida como uma empresa de aços especiais, e estava em São Paulo, que é o maior mercado consumidor, e fora disso ela fabricava muito aço, ferramentas, ela tinha uma linha de produção muito mais sofisticada em termos de aços especiais. E aí se inseriu o inoxidável em barras, que era um mercado muito pequeno. O grande mercado mesmo de inoxidável, é chapas. E esse mercado só tem a Acesita aqui na América Latina, então agora...

 

P1 - É, acho que a gente tem que tirar algumas dúvidas assim. É essa questão do mercado é uma. Uma outra coisa é que algumas pessoas falam que em 1965 começam algumas tentativas para começar a fabricar inoxidável. Mas seria esse de barras. Que é pra esse mercado menor.

 

R - Barras. Isso aí não havia uma demanda justificada assim tão grande. Fabricou-se alguns aços inoxidáveis. Fabricava-se alguns tipos de aço inoxidável, laminava-se em baixo, mas para um tipo de mercado muito restrito. Não chegava a despertar na empresa um interesse por se um mercado muito interessante e não atendido plenamente. E se a Acesita entrasse, ela ia fazer assim uma diferença substancial na época. Não teve assim muita... 

 

P1 - A diferença vem com planos.

 

R - Ah, com planos, sem dúvida. Com planos tanto de silício, quanto de inoxidável. Por quê silício? Conforme eu te falei, na época que a Acesita fabricava silício, ela fabricava um chapa de silício para motores de pequeno porte, etc, que é uma laminação manual e com resultado extremamente precário em termos qualitativos tanto em termos de defeitos superficiais, quanto em termos de tolerância dimensional das chapas, etc. Então não tinha como oferecer um produto de qualidade num equipamento extremamente rude, elementar. Ele era um cilindro com comando manual, etc. As espessuras saíam muito inconstantes. Quando a Acesita entrou no mercado de silício, já produzindo através no Steckel laminação a frio. Já podia não só atender o mercado para motores de menor exigência como os motores também de grande exigência. Com menores perdas, herméticas etc. Com isso, todo o mercado brasileiro passou a ser plenamente atendido pela Acesita e nada de importação. Com a entrada do grão orientado também, que é um dos segmentos que a Acesita passou a atender, atendia a fabricação de transformadores. Então o estanho de transformadores de grande porte, a Acesita também passou a atender. Com a entrada da Acesita na parte plana de inoxidáveis e silícios, o Brasil passou praticamente a não depender mais de importação de estanho. Isso aí foi plenamente satisfeita. E o objetivo que o governo tinha colocado para a situação foi plenamente atendido. Num determinado período, quando eu fui diretor, havia uma discussão plenamente, porque o Banco do Brasil não ficava satisfeito com o desempenho da Acesita. Porque a empresa devia milhões. Um artífice significativo que poderia ser disposto da Acesita, eram as minas de carvão. E a Vale do Rio Doce já estava vislumbrando, porque a Mina que eles tinham no Cauê já estava chegando ao final. Então a Vale do Rio Doce pertencia ao governo ainda. Então a Vale do Rio Doce começou a nível governamental a fazer pressões para que a Acesita transferisse as Minas para ela. E isso foi bom para o Banco do Brasil, porque o Banco do Brasil aceitou essa imposição e vendeu as minas de Itabira pra Vale do Rio Doce, na época por 50 milhões de dólares. 

 

P1 - Fez caixa então.

 

R - Fez caixa e entrou pro Banco do Brasil com o pagamento da dívida. Diminuiu aí a dívida.

 

P1 - E daí de onde passou a vir a matéria-prima para a Acesita?  

 

R - Aí nós passamos a comprar o minério.

 

P1 - Da Vale?

 

R - Não necessariamente. A Vale queria impor isso, porque a estrada de ferro era dela. 

 

P1 - Que levava a produção para Vitória.

 

R - Para Vitória. Então, nós comprávamos. Mas na realidade, se nós tínhamos que comprar, nós queríamos comprar o minério de outras fontes, porque aí nós podíamos escolher. E o melhor minério que tem é aqui da Mutuca, que tem em Belo Horizonte, por quê? Porque a carga ideal no alto-forno, seria a carga de sinter e minério que são as duas matérias-primas mais interessantes. Não é interessante você colocar o minério direto no alto-forno, não é uma boa carga. Mas nós tivemos que colocar no início. Mas o que nós comprávamos, nós comprávamos da Mutuca, porque era um minério de melhor qualidade. Mas depois nós fizemos contrato com a própria Vale do Rio Doce e passamos a comprar pelotas dela. A Vale do Rio Doce tem pelotas lá no Espírito Santo. Ela tem uma pelotização lá.

 

P1 - Uma usina de pelotização.

 

R - Isto. Então, o retorno dos vagões que vinham de Vitória vazios, traziam pelotas e descarregava na usina. Então nós passamos a utilizar no alto-forno uma parte da carga de minério, e um pouco de pelotas da Vale do Rio Doce. Isso aí foi uma jogada que a Acesita teve que fazer para contornar a situação de não ter mais a mina de minério. Mas na época que nós tínhamos lá, a gente utilizava o minério lá no alto-forno. Mas não era bom com o alto-forno daqui.

 

P1 - Já que a gente está falando um pouco dessa logística, como é que saía a produção lá da Acesita? Era pela estrada de ferro, caminhões....

 

R - Não. Era praticamente só via rodoviária. Praticamente. Porque a Vale do Rio Doce, a característica da Vale é um pouco complicada, porque a Vale do Rio Doce é de bitola estreita. É de um metro. E a rede ferroviária federal que vai pra São Paulo, que abastece, que vai para o resto do Brasil é bitola larga, um metro e 40. Então a carga que saía da Acesita de vagão, tinha que chegar e fazer um transbordo. Tinha que chegar num lugar, pegar a carga de um vagão e passar para outro vagão. Isso demorava. O prazo de entrega realmente era muito grande. A gente tinha prazos de entrega mais rígidos e então o cliente fazia questão. Agora pra exportação pra Vitória, por exemplo, descia tudo de rede ferroviária.

 

P1 - Pra Vitória Minas?

 

R - Pra Vitória Minas. É a gente fazia exportação. Quando a Acesita exportava ia tudo por Vitória.

 

P1 - E qual que era o mercado de exportação? Quem que comprava?

 

R - Comprava a Europa de uma maneira geral, Estados Unidos. A gente exportava alguma coisa para os Estados Unidos, para a França para a Inglaterra, mas a nosso exportação nunca foi muito significativa. E para outros países menos desenvolvido, para a África. Esses mercados não eram muitos. A gente não tinha um mercado exportador muito grande.

 

P2 - Eu vou perguntar sobre uma coisa que a gente, eu tenho visto e até hoje a gente não sabe bem pra que serve bem, porque, a fábrica de oxigênio.

 

R - Ah sim, a fábrica de oxigênio. Tenho um fato interessante, passei um aperto danado por causa desse negócio. (risos)

 

P1 - Por quê? (risos)

 

R - O oxigênio, ele é utilizado no LD. 

 

P2 - Que é o forno elétrico?

 

R - Não. O forno elétrico usa eletrodo e energia elétrica. Funde a carga. Geralmente carga sólida: sucata, gusa sólido, ligas metálicas, etc. Tudo quanto é carga sólida. Você põe aí no forno e os eletrodos passam a corrente elétrica, formam um arco e funde a carga. Temperatura altíssima do eletrodo. O gusa. Se produz o gusa no alto-forno. Você conheceu o alto-forno?

 

P1 - O alto, né? Conheci.

 

R – Eu peguei aqui as fotografias. Esse aqui, eu fiz 25 anos. Quando eu fui sair de gerente da usina, eu vim pra Belo Horizonte, então a minha esposa, para eu guardar de lembrança, ela mandou montar um álbum de fotografia da usina para mim. E me deu de presente.

 

P1 - Que coisa linda!

 

R - E depois quando eu fiz 25 anos de casa, ela pegou os recortes que eu ia guardando de jornais, as fotografias e pôs aqui.

 

P1 - Olha que ótimo! Para gente é maravilhoso!

 

R - Então eu não sei. Essas fotos provavelmente você têm lá. Mas eu vou mostrar. Aliás, tem uma foto aqui que é linda. É maravilhosa essa foto. Deixa pra quando nós pararmos de gravar.

 

P1 - É, aí a gente vê o álbum inteiro.

 

R - Olha essa foto do alto-forno.

 

P2 - E passava embaixo dele.

 

R - Essa é típica. O gusa é produzido aqui no alto-forno. Esse é o alto-forno maior que é de mil novecentos e ___________, etc. É o gusa sai daqui líquido. Está vendo o vermelho aqui? Então, esse gusa vai pra Aciaria no LD. E esse aqui é o forno elétrico. Você tá vendo os eletrodos aqui, a carga, funde a carga e aqui está saindo o aço inoxidável produzido aqui. Esse aqui é o conversor AOD que refina o inoxidável, esse aqui é laminação de barras, deixa eu ver aqui onde é que está o LD...  

 

P1 - Acho que o senhor está bem com a mão aqui... Não é?

 

R - No LD, você joga o gusa e o gusa ele tem em torno de quatro por cento de carbono. Tá aqui, espera aí, tem que olhar assim. Você põe o gusa aqui dentro. Isso aqui é igualzinho um vaso. Ele gira em torno do eixo. Você põe o gusa e depois ele volta pra posição. E aí desce uma lança, e essa lança injeta oxigênio lá dentro. O gusa tem muito carbono, e o aço normalmente, o aço se classifica assim: aço baixo, médio e alto carbono. O baixo carbono, digamos, 0,2 a 0,4, o 0,4 a 0,7 médio carbono e o 0,7 e acima alto carbono. E os aços ligados além do carbono nessa faixa, então você tem cromo, tem níquel. Você põe as ligas, entendeu? Você põe as ligas também. Então aí você faz um aço ligado, um aço carbono. Quando você injeta o oxigênio, oxigênio combina com o carbono do aço, do gusa e forma o gás carbônico. E aí ele sai, e o gusa então vai reduzindo o teor de carbono, até ele virar aço. Dentro da composição que você quer. Você acompanha isso através de análise química e ajusta a análise de acordo com o tipo de aço que você quer. Então a fábrica de oxigênio é pra gerar o oxigênio para o convertedor LD. Em geral é a maior aplicação dele. Dessa fábrica de oxigênio, nós só tínhamos um LD de 30 toneladas e montamos um LD de 75 toneladas. Nós já tínhamos uma fábrica pequena e quando foi feita uma expansão para um LD de 75 toneladas, foi feita uma nova fábrica de oxigênio. E essa fábrica de oxigênio entrou em operação. E quando ela entrou em operação, está se usando uns cento de dez decibéis de barulho. 

 

P1 - A fábrica de oxigênio?!

 

R - É. A nova. E ela ficava do lado da rua, na divisa do terreno a Acesita com a rua. Na saída da portaria da usina. Então atravessava a rua e tinha uma porção de casas. Era um bairro da Vila dos Técnicos ali. Um barulho ensurdecedor! E a partir do momento que você ligou, não tem como desligar a fábrica. Primeiro porque você precisava de oxigênio para a usina, e segundo que quando você desativa a fábrica, primeiro que nós não sabíamos como é que ia tirar o ruído, e segundo se você desativa a fábrica, você tem que descongelar a coluna dela e depois iniciar a operação. Então a parada da fábrica gasta-se uns três dias pra voltar normalmente a operação. E como é que vai parar? Não vai parar, né? Porque nós estávamos ansiosos para começar a produção de aço, ficou pronta a expansão, e agora entra a fábrica com esse barulhão? Que coisa. Então nós tivemos que fazer o seguinte: com aqueles vizinhos das fábricas mais próximas, nós tínhamos alguns apartamentos desocupados que nós estávamos fazendo lá construções do ___________. Então nós oferecemos os apartamentos para essas pessoas mudarem para os apartamentos e largarem as casas. E fomos construir outras casas. Construímos outras casas lá no bairro Timirim. Pra trocar essas pessoas. Então trocamos as casas. E isso já deu um processo demorado.

 

P1 - E o barulho?

 

R - E o barulho tá lá. O barulho nós chamamos então. Foi um erro da Acesita de não ter especificado nível máximo de ruído. Porque se nós estivéssemos especificado fábrica e tal.. assim mas no máximo o nível tal...

 

P1 - Era japonesa?

 

R - Era Hitachi, se não me engano era Hitachi. É, é japonesa. Aí enclausurou-se o compressor que dava barulho. Fez-se uma casa em volta dele, com as paredes tratadas acusticamente. E ele ficou enclausurado. Não acabamos com o barulho. Nós simplesmente abafamos o ruído. Construiu-se em volta dele uma casa e com material protetor contra ruído. Hoje é um ruído razoável. Mas várias vezes à noite, duas horas da manhã, três horas da manhã, o telefone tocava lá em casa e ninguém falava nada. Só punham o telefone assim para poder me acordar. Você não acordou a gente? Não deixa a gente dormir, então fica aí. Acho que eles faziam rodízio e toda noite, duas, três vezes por noite eles telefone ligavam lá pra casa.

 

P1 - Duas, três vezes por noite?

 

R - Por noite, para me acordar. Eu era o gerente da usina, eu que tinha que responder. E os mais próximos ali nós conseguimos assim. Os mais distantes dali eles sofreram muito. Realmente foi um sacrifício.

 

P2 - E quanto tempo depois ficou pronta a casa do...

 

R - Ah, deve ter dado assim um três ou quatro meses. Foi assim um período longo. Quer dizer, trabalhou-se intensamente, contratou-se uma firma rapidamente especializada nisso. E eles chegaram lá e... Não foi só uma obra não, foram várias obras. Todos os pontos de ruído foram enclausurados. Esqueci de fazer uma menção de um projeto muito interessante que a Acesita desenvolveu nisso tudo aí. Porque quando decidiu-se fazer um corte nos investimentos porque não haveria os recursos necessários para toda a expansão, uma das unidades que foram cortadas foi a sinterização.

 

P1 - Sinterização.

 

R - Sinterização. A sinterização é um processo de aglomeração dos finos de minério. Porque o minério quando sai da mina, ele sai em pedras brutas. Você brita pra ter uma granulometria adequada para utilizar no alto-forno. E no britar ele gera muito fino. Esse fino não tinha praticamente muita utilização. Até que foram desenvolvidos dois processos básicos que estão: um é a Sinterização. O uso do fino desse minério, e o fino do carvão de coqui ou de carvão vegetal, que no caso da Acesita utilizava carvão vegetal. Você faz a combustão desse carvão ele queima, ao queimar ele eleva a temperatura e funde o minério. Foram blocos. O fino se funde e forma então um aglomerado de finos. Tá certo? Então ele fica uma matéria solidificada, com junção de vários grãos de finos. Ele não é uniforme. Não tem assim uma dimensão uniforme, uma forma definida. Agora, a pelota, não. Você faz a pelota antes e cozinha a pelota. Funde a pelota e ela fica redondinha. Isso é melhor porque ela tem uma carga uniforme. Se você imaginar as bolinhas de gude empilhadas, ela tem uma forma ela tem os vazios por onde passa o gás para a redução dela no alto-forno. Então ela tem uma forma definida. A pelota é muito mais eficaz pra ser reduzido do que o sinter, o sinter ainda dificulta a passagem do gás para trabalhar no alto-forno. Então a Acesita queira utilizar sinterização para carga no alto-forno. Como não teve recurso para fazer a Sinterização, nós compramos pelotas da Vale do Rio Doce. E o que fazer com o fino do Carvão Vegetal. Porque quando você produz o carvão, igualmente, você põe a lenha dentro do forno, faz o carvão, sai o carvão com uma granulometria adequada para você utilizar no alto-forno e abaixo de 12 milímetros, é uma menção razoavelmente pequena, nós descartávamos porque não tinha o que fazer com aquilo. A Sinterização iria utilizar esse fino. Como não teve utilização, a Acesita então contratou essa própria Armco. A Armco era utilizada nos Estados Unidos. Ela dispunha de um processo de injeção de fino no alto-forno. Você pega esse fino de carvão e através... porque o alto-forno, embaixo do alto-forno você injeta ar nele, ar quente. Então ela punha esse fino dentro do ar e injetava dentro do forno. Quando ele injeta, ele queima lá dentro. Então, esse carvão queimado através da ventaneira é carvão granulado que você economiza pelo toco. Então você injetando na ventaneira você economiza carvão granulado. Acesita então o quê que fez? Fez um contrato com a Armco a injetar carvão vegetal nos alto-fornos, para aproveitar esse fino. E o governo brasileiro não aceitou a imposição da Armco de, porque o governo brasileiro, queria que a Acesita ao desenvolver esse projeto aqui, a Acesita disponibilizasse da tecnologia para vender para terceiros. E a Armco não concordava. A tecnologia é dela, e ela desenvolveria para o carvão vegetal, mas o direito sobre a tecnologia seria dela. Então ela é que cobraria royalties se fosse vender para terceiros. E o governo brasileiro não concordou. Então a Acesita não foi autorizada pelo governo brasileiro a assinar o contrato. O que aconteceu? Então do Dr. Amaro, criou um grupo de engenheiros, na parte de engenharia, para poder desenvolver a injeção de finos com os recursos da Acesita. E é um dos projetos mais bem desenvolvidos pela Acesita.

 

P2 - Chama-se Injeção de Finos?

 

R - Injeção de finos no alto-forno. Ele foi originariamente imaginado para injetar dez por cento da carga de carvão que era granulado, injetar finos pela ventaneira. E na época que eu saí da gerência da usina nós já estávamos em torno 25 por cento, e depois eu tive notícia de que a Acesita já está próximo de 40, 50 por cento de injeção de finos. Quer dizer, praticamente todos os finos que eram jogados fora, hoje ela utiliza diretamente na produção, economizando carvão granulado. Um projeto muito bom esse.

 

P2- É que são várias questões...

 

P2 - Eu ia passar para as forjas.

 

P1 - Pode passar. 

 

R - Você falou da fábrica, pra que serve o oxigênio. Ficou então já esclarecido.

 

P2 - Ficou. Vai para o LD, em forma de lança...

 

R - É aí você usa para reduzir o teor de carbono no aço.

 

P1 - Porque a outra coisa que utilizava eu acho que era o minério puro, o minério bruto.

 

R - Não, mas isso no alto-forno.

 

P1 - No alto-forno, né?

 

R - O alto-forno produz o gusa a partir de minério, ou de carga de pelotas ou de sinter. Então o minério vem, o minério geralmente está em torno de 63, 65 por cento de ferro. O resto são impurezas, etc. E ele vem na forma de óxido de ferro. Você põe no alto-forno, põe o carvão. O carvão tem duas funções. O primeiro é de aquecer a carga. Ele aquece o minério até ele fundir. Depois que ele funde, o oxigênio do ar combina com ferro e você então, aliás, o carbono do carvão, combina com o oxigênio do minério e forma o gás carbônico e libera o ferro então que vai formar o gusa. O minério então carrega no alto-forno. Não tem na aciaria, você não usa o minério. Muito raramente você usa o minério. Você pode usar um pouco ali durante o processo no LD, mas é inexpressível. 

 

P1 - Bom, aí em 1983 o senhor vai pra Forjas.

 

R - Não. Na realidade eu não fui pra Forjas. Eu acumulei a função de presidente de Forjas. Eu não abandonei a função de diretor. Forjas Acesita, foi um projeto que foi desenvolvido, na época ainda do doutor Amaro, etc. Porque seria uma complementação da parte de laminação de barras. Barras forneceria matéria-prima para Forjas fabricar peças para a indústria automobilística. Mas o projeto enfrentou, primeiro que a concorrência no mercado era muito grande e segundo que ele foi concebido para um segmento de mercado que não se desenvolveu dentro da expectativa que a Acesita imaginava. Tinha um prensa muito pesada para poder fazer virabrequim e o mercado disso aí é um mercado relativamente restrito e muito concorrido. 

 

P2 - O que é isso que o senhor falou?

 

R - Virabrequim. É para motor de carro.

 

P2 - Ah, tá.

 

R - Até a Forjas, a prensa maior que tinha em Forjas, com praticamente 50 por cento da capacidade dela, era para produção de peças pesadas e não tinha mercado. Então Forjas ficou um projeto um pouco sacrificado. Provavelmente ela deveria ter outros investimentos pra ir pra segmentos de peças de menor porte, etc. Que requereria mais investimentos. Mas a Acesita não tinha recursos. A Acesita estava com dificuldades até de completar o projeto original dela na usina e depois devia demais e não tinha onde buscar recursos para poder investir em Forjas, que era uma subsidiária dela. Então a solução encontrada foi que deveria vender Forjas. A Forjas seria uma empresa para ser vendida. Então a Acesita iniciou o processo de venda de Forjas e durante esse período eu fui levado para ser presidente de Forjas, mas acumulando o cargo de diretor, até que o processo de venda de Forjas fosse consolidado. Mas era uma empresa deficitária, ela precisava de investimento então tinha onde tirar investimento. E ela dava prejuízo no nível de produção que ela estava. Então não tinha solução. Não tinha dinheiro para poder investir para poder torná-la rentável. E o mercado que ela almejava foi um mercado que não se desenvolveu. Então eu fiquei lá um período relativamente curto até que se tomasse a decisão sobre as vendas. Então, não foi conseguida uma proposta razoável e então e acabei saindo de Forjas sem conseguir o objetivo de vendê-la. Mas foi apenas uma passagem assim, um período curto, de acúmulo como cargo que eu exerci na Acesita.

 

P1 - Deixa eu perguntar uma coisa. Quando passa a fabricação de chapas, que mercado a Acesita conquista?

 

R - Bom, na realidade o mercado já estava ali. Digamos, ela procurou e hoje conseguiu desenvolver esse mercado muito. Porque toda a parte de cutelaria já existia no Brasil. Fabricação de talheres, de baixelas, de vasos, de inoxidáveis, de jarras, isso já existia no Brasil. Só que esse produto era importado. Quer dizer, a partir do momento que a Acesita inicia a produção, ela abraça todo esse mercado com uma vantagem que é uma vantagem particular nesse caso e desvantagem em outros casos que a Acesita teve. Porque durante muito tempo, o governo exerceu um controle rígido sobre importação só se importava as coisas que o governo autorizava. Então se você queria importar alguma coisa você tinha que passar pela Casex, se a Casex autorizava ou não autorizava. Então se aparecesse um brasileiro aí qualquer que fabricasse aquilo que você estava querendo importar, eles diziam: "tem um fabricante nacional aí, você não pode importar". Com isso, o mercado de chapas de inoxidável, passou a ser totalmente da Acesita, ninguém podia importar. Ela tinha a obrigação de vender para esses distribuidores. E os outros eram obrigados a comprar da Acesita.

 

P2 - Ah, mas o é que era o cliente de ficha vermelha então? 

 

R - De ficha vermelha eram os de barras que eu queria conquistar...

 

P2 - Não teve então cliente de ficha vermelha para o inoxidável?

 

R - Não, para o inoxidável não teve ficha vermelha porque... Teve ficha vermelha no barras porque eu estava concorrendo com o Mannesmann, estava concorrendo com a Villares, estava concorrendo com a Anhanguera então eram concorrentes que queriam esse mercado tanto quanto nós. E o Dr. Amaro falou assim ó: "nós seremos respeitados no mercado quando nós tivermos os principais clientes dessa linha." Então ficha vermelha foi...

 

P2- Mas de inox você já surgiram líderes do mercado.

 

R - Líderes, porque aí a importação não existia. E o mercado já estava aí. Porque já existiam todos esse fabricantes de talheres, de cutelarias de maneira geral.

 

P1 - Tramontina, Hércules.

 

R - Tramontina, Hércules, já existia. Passaram a ser clientes da Acesita. Não que a Acesita. Esse aí era uma particularidade que o Dr. Amaro sempre impôs para nós. Mesmo o caso de sermos monopolista, porque nós éramos monopolista, não tinha outro fabricante, jamais a Acesita não procurou dar um trato de primeiro grau aos seus clientes. Os clientes eram tratados com o máximo de respeito com o máximo que a gente pudesse dar em termos de pontualidade, de qualidade, de atendimento isso a Acesita. A gente fazia questão de jamais utilizar o fato de ser monopolista.

 

P2 - Concorrer com vocês mesmos.

 

R - Concorrer com nós mesmos, mas no fato assim e aprimorar permanentemente a qualidade, prazo para o tratamento com o cliente. Sempre fazíamos questão de que eticamente funcionasse assim. E no de barras que nós tínhamos concorrente, esse aí era o mercado que havia briga mesmo por ele. E que nós realmente ganhamos através da qualidade do produto que a gente oferecia.

 

P2 - O silício de grau orientado também tinha concorrência?...

 

R - O silício não existia no Brasil. Planos inoxidáveis e planos de silício não existiam no Brasil. Como ainda não existe. É bem verdade que hoje, motores de menor exigência, o quê que a gente faz com motores de menor exigência? Liquidificadores, esse motores pequenos, etc. As pessoas normalmente eles não compram chapas siliciosas pra isso. Eles compram chapas de aço carbono da Usiminas e etc. E fabrica porque é um aço mais barato e é um motor sem muita exigência sob o ponto de vista técnico. Então, uma performance assim relativamente modesta. Mas motores industriais que exigem uma performance muito grande, trabalham 24 horas, eles não só exigem aços siliciosos como também um aço de boa qualidade que é o caso da Acesita. O de grão orientado é pra transformador. Esses transformadores nas ruas, esses transformadores de corrente. 

 

P2 - Da usina também?

 

R - Na usina também existe. Mas esse de grande porte, ele tem um grão orientado que estava na época, não sei hoje se a Acesita chegou a atingir a qualidade exigida. Esses grandes transformadores que tem nas usinas hidrelétricas. Esses são um orientado, mas um orientado especial. Acesita não atingiu. Nós atingimos o mercado de transformadores de menor porte. Esses de transformadores que ficam expostos na rua, etc. Esse também é um mercado cativo. 

 

P1 - Vamos falar um pouco mais do cotidiano. Quando o senhor pensava em entrar na Acesita o senhor estava querendo já casar, o senhor já tinha conhecido a dona Lílian. Como é que foi?

 

R - Nós já éramos namorados desde a época de estudante de engenharia. No primeiro ano já comecei a namorar.

 

P1 - Ela era vinda de Juiz de Fora?

 

R - Ela nasceu em Petrópolis. Morou alguns anos em Petrópolis, depois em Barbacena, morou muito anos em Barbacena, já foi para Juiz de Fora, com uns 16, 17 anos, talvez. E lá nos conhecemos e começamos a namorar. E quando eu me formei. Formei em dezembro e casei em maio. Estava ávido para casar, né? Então casei. A Acesita na época não tinha muita facilidade de moradia, mas nós conseguimos até uma casa rapidamente. Quando nós casamos eu já tinha ganhado uma casa, já tinha mandado arrumar, etc. já tínhamos comprado a mobília, já tínhamos levado pra lá. Então quando nós voltamos da lua-de-mel e já tinha a casa montada. Uma casa pequena, modesta, mas nos satisfez plenamente.

 

P1 - Em que bairro que ficava? 

 

R - Na Vila dos Técnicos. Até existe a casa hoje, mas ela foi completamente modificada. Morei em duas casas na Vila dos Técnicos, uma das quais bem próxima da usina, tinha muito ruído da expansão. Depois no final, mudei para o Bairro dos funcionários. Essa casa nós temos até hoje. Morou lá minhas filhas. Eu tenho três filhas, todas três moram lá. 

 

P1 - Ah, elas moram lá? Trabalham lá? Na Acesita?

 

R - Uma delas foi dentista da Acesita. Mas a Acesita acabou com esse serviço, terceirizou e ela atende hoje empregados da Acesita através de convênio. Uma é dentista, a mais velha, a Débora, a outra é fisioterapeuta, a Denise, casada com dentista. E a terceira é psicóloga. Trabalha lá também. Trabalha na FAST (Fundação de Assistência da Prefeitura de Timóteo). Então eu tenho lá seis netos vou lá de vez em quando. Está a minha casa que eu morei fica lá e nós usamos quando nós vamos lá. 

 

P1 - E qual que é a periodicidade que você costumam ir?

 

R - Essa casa, a minha filha morou lá até o ano retrasado. No ano passado nós reformamos. E a gente vai agora… O mês passado nós passamos o mês lá. Então gente vai lá umas duas, três vezes por ano, passa o mês lá. Na época de aniversário de neto, da filha, a gente emenda lá uns dias.

 

P1 - Tem histórias além dessa que o sr. contou dos telefonemas de madrugada? Por causa do barulho? Tem algumas outras histórias assim pitorescas, causos pitorescos, tragicômicos?

 

R - Gerente da usina, eles normalmente escondem os casos, né? Eles devem gozar muito do gerente mas... Eles contam um caso que dizem que eu um dia telefonei lá para o almoxarifado.

 

P1 - Sobre o senhor?

 

R - Sobre mim. Eu teria telefonado para o almoxarifado e eu não fui bem atendido e eu repreendi a pessoa por telefone. "Olha, eu estou muito surpreso, se o senhor, atende as pessoas assim mal, o tratamento você deveria modificar e tal. Você sabe quem é que está falando aqui no telefone?" “Não sei não" "Aqui é Frederico o gerente da usina" "E o senhor sabe com quem é que o sr. está falando?" Eu disse: "Graças a Deus". Desligou o telefone. (Risos) Isso é uma história que eles me contaram. Eu não lembro disso não. Mas já houve uns casos. Tem um japonês, eu fui para o Japão e fui lá com o chefe da missão. Os japoneses gostam muito de recepcionar as pessoas, são profissionais assim espetaculares, são pessoas muito competentes, então foi um aprendizado muito bom que eu tive lá. Tive outras oportunidades, eu viajei para a Europa, conheci várias usinas, etc. Mas particularmente de contato intenso, foi com os japoneses. E um dos responsáveis para receber a missão lá nos ofereceu um coquetel um dia e nós fomos. Ele era faixa preta de judô. Faixa preta. E ele bebeu muito saquê. Ficou num porre que ele não estava aguentando ficar em pé e acho que deve ser mais ou menos da prática deles lá. Porque tinha um assistente dele que não bebia só para tomar conta dele. Então ficava ao lado dele tomando conta. Tinha vários japoneses, e todo mundo bebeu, e tal. E esses três não bebiam não. E quando o homem saiu e tava que não tava se aguentando em pé. E ele meu deu o braço como se fosse namorado. Cruzou os dedos dele na minha mão como se fosse namorado assim. E ele saiu de mão dada comigo. Me deu uma torção no braço que ele acabou foi me arrastando pela rua. (Risos) E o japonês chamava a atenção dele, falava alguma coisa com ele em japonês que eu não entendia, etc. E ele "...ia ia ia..." e aí é que ele me puxava mais ainda. Quase me quebrou o braço. Mas tem poucos casos assim.

 

P2 - E esse aqui como era o contato com eles aqui?

 

P1 - Culturação diferente.

 

R - Muito bem. Para nos adaptarmos lá era muito mais difícil do que eles adaptarem aqui. Pior que lá, por exemplo, carne é um artigo de luxo. Você no açougue, eles não põe “um quilo custa tanto”, é 100 gramas. De tão caro que é. Para não espantar o freguês é 100 gramas. A comida lá a primeira vez, a usina era distante, tive que viajar de metrô uma meia hora mais ou menos e só voltava depois do expediente. No primeiro dia eu entrei no refeitório junto com o pessoal lá. Ah, eu não consegui comer. Porque hoje você aqui restaurante de comida típica japonesa, mas não é o que tem lá. Uma sopa que parecia lá um abacate batido com umas coisas estranhas lá dentro. E no dia seguinte eu comecei a levar sanduíche, então eu comprava nas confeitarias lá, comprava pão comprei presunto, etc e tal. Depois acabei descobrindo a cantina lá. Então eu fazia a refeição e era assim, era leite com sanduíche e coisa assim na hora do almoço. E à noite, lá tem pizzaria na rua então a comida típica deles, japonesa, eu realmente não gosto. Eu não conseguia comer. Agora eles aqui eles se davam bem. Porque eles vinham sempre em cinco japoneses e vinha um para cada área, um para laminação de barras grossas, outro pra laminação não sei o quê, outro na manutenção, e a gente colocava sempre um intérprete. Cada um deles tinha um intérprete o tempo todo. Porque não falava. Quando algum deles falava inglês, às vezes o nosso pessoal não falava. Então tinha um intérprete para poder ajudar e eles trabalhavam em nível operacional. Com o pessoal, com engenheiros, supervisores, operários, etc. Então toda, tarde eles saíam, iam para o bar, faziam churrasco, convidavam. Os japoneses se entrosavam, o que era ótimo porque quando nossas missões iam para o Japão, em contrapartida eles também se desdobravam mais em atenções etc. Então foi realmente um aprendizado muito interessante. Mas para gente comer lá, nem pensar.

 

P2 - Eles passavam bem aqui.

 

R - A minha esposa foi comigo, passou lá dois meses. A partir de um determinado dia lá, nós conversamos com o gerente do hotel. E cada andar do hotel tinha uma cantinazinha, lá, um fogareiro, nós pedimos autorização e ele deixou que ela fizesse alguma coisa pra gente. Então à noite ela fazia para gente comer lá, um arroz, fazia um ensopado, pra gente poder de vez em quando lembra da comida brasileira. Mas valeu a pena.

 

P1 - Bom, como se deu a aposentadoria do senhor? Quando o senhor encerra?

 

R - Eu gosto muito de pescar, né? Então eu tenho um apartamento em Cabo Frio, etc. E eu consegui. Eu trabalhei durante 20 anos na usina, e eu consegui fazer um patrimônio razoável e o Dr. Amaro cobrava muito, mas ele pagava bem também. Então eu ganhava um bom salário como gerente, mesmo como chefe de produção a partir de chefe de produção eu passei a ganhar um salário bastante razoável como gerente também. Acredito que a Acesita deve manter o padrão hoje. E eu ganhava tão bem como gerente, que quando fui a diretor eu optei pelo salário de gerente. Eu tinha direito de optar. Aí eu optei pelo salário de gerente que era maior que o de diretor.

 

P1 - Tinha periculosidade, adicional...

 

R - Não, não tinha não. Eu tinha o anuênio, quinquênio, tal e então eu como já tinha muitos anos de casa, soma tudo e eu ganhava mais que o diretor. Então eu consegui fazer um patrimônio e consegui viver uma vida modesta. Não piorei meu padrão de vida depois de aposentado. Apesar da minha aposentadoria no INSS não ser lá essas coisas. A Acesita não tinha ainda um plano de complementação de aposentadoria. Nos últimos anos, antes de eu me aposentar, a Acesita criou o que foi chamado de uma caixinha. Era uma contribuição do empregado, uma contribuição da empresa, a empresa contribuía com algumas vezes, duas ou três vezes o que o empregado pagava e se formava o que dava pra ser um pecúlio. E se eu optasse eu recebia pela totalidade dos depósitos que havia lá no meu nome. E Recebi Fundo de Garantia, para poder sustentar a complementação da aposentadoria.

 

P 1 -Mas em que época que o senhor aposenta?

 

R - Em 1993. 

 

P1 - Na época da, depois da privatização?

 

R - Quando houve a privatização, eu acho que é inerente ao novo dirigente, ele não se cerca das pessoas e da antiga administração, acho que isso faz parte da cultura do empresariado. Faz parte, ele quer implementar novas idéias, essas coisas e tal. Então eu saberia que eu seria um estranho no ninho. Com 32 anos de casa, etc. E até causaria um constrangimento eles terem que me chamar para despedir ou me dar um cargo que fosse assim não condizente com a experiência  que a gente já tivesse na empresa e tal. Então eu preferi, antes que eles tivessem que tomar a iniciativa eu tomei a iniciativa, houve um plano de incentivo à aposentadoria e eu me aposentei. E somando o período que eu possuía antes. Eu comecei a trabalhar lá com 14 anos. Aliás eu não tinha 14 anos, eu comecei a trabalhar em novembro de 1948, em março de 1949 eu fiz 14 anos. Então com 13 anos em comecei a trabalhar. Com 14 anos eu já contribuía na época era o IPASI, de aposentadoria dos funcionários públicos. Depois quando eu aposentei, eu tinha praticamente 44 anos de contribuição. Então, na Acesita, eu fiz 32 anos e tanto, e 12 anos que eu tinha dos anteriores. Com 44 anos. Acho um bom período. É que eu trabalhei um período com o professor Muchon, na Fundação Dom Cabral eu desenvolvi um projeto lá, e eu trabalhei lá uns três anos. E ele faleceu então eu saí de lá.

 

P1 - Era um projeto em que área Dr. Frederico?

 

R - Ele fazia o desenvolvimento de controle de qualidade nas empresas. A fundação dava assessoria para o desenvolvimento de controle de qualidade. Então eu me dediquei a estudar com eles. Mas quando ele faleceu, eu me desliguei de lá. Faço alguns trabalhos na Acesita onde ele fazia umas perícias técnicas, que o juiz mandou etc. No mês de maio eu fui lá fiz uma perícia lá, mas não tem vínculo empregatício com mais ninguém não.

 

P1 - Só família e pescaria.

 

R - Já estou combinando de ir em setembro no Pantanal. 

 

P1 - Ah, é?

 

R - Já fui quatro vezes ao Pantanal, no Xingu. Eu não tinha tempo quando trabalhava, e não podia me dedicar a isso não.  Eu quando trabalhava, era trabalho.

 

P1 - Quando é que o senhor veio morar em Belo Horizonte?

 

R - Em 1981. Quando fui fazer a diretoria da empresa era em Belo Horizonte. Então em 1981, eu fui pra Acesita em 1961 e em 1981 vim pra cá. Fiquei praticamente 21 anos. 

 

P1 - Já era na João Pinheiro a sede?

 

R - Não. Na rua Tupis, esquina com a Afonso Pena. Tupis, 38.

 

P2 - E as filhas ficaram e o senhor veio pra cá, como é que foi?

 

R - Não. Quando eu estava lá, as meninas atingiram idade escolar para fazer o curso superior. Então eu comprei um apartamento aqui em Belo Horizonte e montei um apartamento. Débora, a mais velha, veio pra cá com 16 anos e a Denise veio com 15 anos pra cá. Então as duas vieram pra estudar. A Débora veio pra fazer o vestibular, e a Denise veio pra completar e que na época era equivalente ao segundo grau. E as duas ficaram morando neste apartamento. Então fim de semana a gente vinha, fazia as compras, etc, dava um apoio logístico e durante a semana elas ficavam com empregada. Quando eu vim, em 1981, a mais nova veio conosco, e aí elas terminaram o curso e tal. Mas duas delas já tinham namorado lá em Acesita, e vieram a se casar com eles. A terceira, psicóloga casou-se com um engenheiro aqui que trabalha na Copasa e ela foi pra trabalhar lá e ele se transferiu pra lá e trabalha na Copasa Ipatinga. E elas se casaram com pessoas que estavam vinculadas à empresa, então estão lá. A Débora tem um consultório de odontologia, tem uma radiologia também, sócia do meu genro, que é dentista casado com a Denise. E a Mônica trabalha na prefeitura. E a Denise tem uma clínica de Fisioterapia.

 

P1 - E netos?

 

R - Seis. Tenho dois casais de cada filha. Um casal de cada filha. Frederico é o mais velho, é o xará, a Ivana que é da filha mais velha, depois o Gabriel e Letícia, Henrique e Elisa.

 

P1 - Bom, a última pergunta Dr. Frederico, o é que o senhor achou de a gente ter ficado aqui a tarde e o senhor ter revisto a carreira do senhor assim?

 

R - Olha, na realidade eu não sei, porque pelo que vocês falaram dos 60 anos da Acesita, quando a Acesita fez 40 anos, em frente ao escritório da Acesita foi feita uma homenagem aos fundadores. Naquela época estava vivo ainda o Amynthas Jacques de Morais. Não minto. Qual que era...

 

P1 - Percival...

 

P2 - Percival já era bem idoso...

 

R - Amynthas, Percival e o outro...

 

P1 - O Lemos.

 

R - É. Athos Lemos Rache. Esse Athos estava vivo e foi lá em Acesita em comemoração aos 40 anos. Tem um monumento lá em frente. Eu acho que a Acesita nos 60, deveria revitalizar, porque não mas nenhuma homenagem aos fundadores da Acesita. Então ali, onde fez 40 anos, eu falei ali em nome da empresa durante a inauguração daquele. Acho que é uma coisa muito interessante. Não acho que vocês deveriam ter o prazer de ouvir o depoimento do Dr. Amaro, Dr. Albuquerque, Dr. Frederico Albuquerque, que é meu vizinho aqui. Uma pessoa que realmente conduziu todo o processo. Eu dei pra você uma visão de um gerente que estava enxergando como que a empresa foi administrada durante o período, e do que me coube como gerente participar. E eles provavelmente vão dar outras visões de como é que eles enxergaram o processo. Estou falando das dificuldades do Dr. Amaro na gestão financeira, de como fazer uma estratégia para implantar um projeto dessa envergadura. Com as dificuldades que ele teve. E conduzir também os gerentes, os diretores nesse processo. O Dr. Albuquerque foi o digamos assim, o, porque a Armco nos assistiu durante o processo. Mas escolher os equipamentos, quem iria fabricar, fazer o julgamento desses equipamentos, medirem a competência das empresas, isso o Dr. Albuquerque é que fez. Eu acompanhei algumas vezes a triagem da seleção de empresas que iriam fazer, nos fornecer equipamentos, etc. Mas ele é assim, uma pessoa de uma competência ímpar. Acho que o empreendimento, aí a idéia é maravilhosa. Pela experiência que vocês têm você acho que vocês vão ter assim um mundo de informações pra vocês conseguirem colocar isso na ordem.

 

P1 - Não, foi ótimo! Foi ótimo.

 

R - Não sei se eu cheguei a tumultuar demais durante as informações.

 

P1 Não! Imagina. Eu queria agradecer a Acesita, em nome do Museu da Pessoa.

 

R - Eu é que agradeço a oportunidade de dar contribuição para isso aí. Vai ser um fato marcante esse livro aí de 60 anos da Acesita. A Acesita na mão de um grupo de estrangeiros, ela optou por centralizar praticamente a produção só em aço inoxidável, desativou toda a parte de barras, e naquela época justificou porque todo o equilíbrio da usina precisava de barras. E hoje expandiu a parte de planos e vocês falaram aí…

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