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História de vida de Roza Friedman

História de: Roza Friedman
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/03/2021

História completa

PA - Paula

EV - Evelyn

RF - Roza Friedman

 

PA - Senhora Roza, gostaria de começar a entrevista pedindo que a senhora me diga o seu nome completo, a data de nascimento, local, a cidade, país, nome dos pais, dos irmãos. Por favor.

 

RF - Meu nome é Roza Friedman, nascida na Romênia, numa cidade de Tecuci, Moldávia. E o nome dos meus pais são Ester e Henrique Gropper.

 

PA - Gropper. A senhora tinha irmãos? A senhora…

 

RF - Sim. Tinha três irmãos. Agora ficou sóum. Dois, infelizmente, faleceram.

 

PA - Como é que era o nome deles?

 

RF - Primeiro o mais velho, era Issac Gropper, que faleceu há 7 anos. O segundo, Samy Gropper e o terceiro, Marius Gropper.

 

PA - E seus avós? A senhora conheceu seus avós? Eles eram da mesma cidade natal da senhora?

 

RF - Sim. Não. Da outra cidade. Conheci só os maternos; e só o meu avô materno, porque minha avó já era falecida.

 

PA - E qual era o nome dele?

 

RF - Wolf Leib Schwacz. Ele morava numa outra cidade, em Roman.

 

PA - Bom. Agora, gostaria que a senhora nos falasse um pouquinho como é que era a sua casa, nessa cidade, como é que era esta cidade, como é que se organizava assim, comercialmente, economicamente, se havia sinagogas, bibliotecas. Gostaria que a senhora falasse um pouco da cidade e do bairro que a senhora morava.

 

RF - Era uma cidade pequena. Tinha sinagoga, tinha escola só primária. Tinha organização sionista. Os judeus se reuniam para palestras, concerto, e às vezes teatro ídiche.

 

PA - A senhora lembra mais ou menos quantos habitantes havia na cidade? Só uma idéia... Não.

 

RF - Era uma cidade pequena. Mas não lembro.

 

PA - Pequena. Em grande parte eram judeus que moravam nessa cidade ou não?

 

RF - Não era a maioria, mas era uma parte de judeus.

 

PA - E a casa da senhora? Como é que era a casa da senhora? ·Qual era a profissão do seu pai?

 

RF - Meu pai era comerciante, trabalhava junto com a minha mãe. E tínhamos uma casa bastante boa. Tinha 3 quartos, sala, tínhamos um quintal grande, uma casa confortável. Tínhamos uma vida confortável.

 

PA - Tinham empregados na casa? Alguma coisa assim? Não, né?

 

RF - Tinha uma empregada. E empregados na loja.

 

RF - E essa loja era de propriedade de seu pai? Era de que? Tecidos?

 

RF - Sim. Era geral. Tecidos, alimentícios, ferragem.

 

PA - E ele adquiria estes tecidos, essas coisas na própria Romênia ou na...

 

RF - Sim. Na própria Romênia. Tinha representantes de uma fábrica de têxteis de outra cidade.

 

PA - E sua mãe ajudava…

 

RF - Sim. Ficava sempre... ajudava na loja. Ficava na caixa o dia inteiro.

 

PA - Ah, e? E a escola da senhora? A senhora fez até o curso primário? A senhora foi estudar em outra cidade?

 

RF - Eu fiz... Sim. Fiz curso primário. Só dois anos fiz na escola judia. Depois passei pra escola pública. Eu fiz dois anos do ginasial, depois passei pra outra cidade, interna. Todos nós fomos internos, porque minha mãe e meu pai não puderam cuidar da nossa educação.

 

PA - E os seus pais? Seu pai era uma pessoa religiosa?

 

RF - Era. Meu pai era religioso.

 

PA - Vocês faziam comemorações de Iom Kippur, de Pessach em casa?

 

RF'. Sempre. Sim.

 

PA - A senhora, por acaso, tem alguma lembrança de alguma festa, alguma... de alguma coisa que a sua mãe cozinhava, que ela usava? A senhora tem alguma lembrança?

 

RF - O que me lembro de Iom Kippur, quando chegava um "Shoichet" là em casa. Que eram muitas pessoas, eram também muitos empregados. Então, chegava para matar as galinhas. E fazia reza conosco.

 

PA - E a senhora... Bom, nessa época, a senhora estudava, mas voltava sempre pra casa nessas épocas, essa coisa toda ou não?

 

RF - Ah, sim... Não, voltava só nas férias. Que em geral, coincidiam com nossas festas religiosas.

 

EV. Por que?

 

RF - Dos judeus. É. Até lá não senti nem um pouco de antissemitismo.

 

PA - A senhora não sentia nessa época.

 

RF - Não. Fiquei lã o científico todo, até o Baccalauréat, que é igual aqui ao vestibular. E elas muito... freiras, muito atenciosas. Não senti nada. Fora da época de antissemitismo. As vezes eu ouvia lá fora dos muros, que eram muros muito altos, não dava para ver nada, se ouvia gritos de morte aos judeus, morte aos judeus. Mas lá dentro não tinha.

 

PA - Isso foi mais ou menos em que época, D. Roza? Só pra gente se situar. Em que ano?

 

RF - Era ano 1931. Quando um professor da faculdade formou o grupo estudante antissemita.

 

- A data de nascimento.

 

RF - 4 de março, 1914.

 

EV - A senhora começou a estudar numa escola judaica.

 

RF - Dois anos só.

 

EV - Depois é que entrou na escola…

 

RF - Pública.

 

EV - Primária, pública. E aí, a escola por 5 ou 6 anos, o primário? 4 anos.

 

RF - Não, lá era só 4 anos primário. Eu fiz só dois anos na escola judaica. Depois outros dois anos na escola pública, que lá o ensino [era] melhor.

 

EV - Ah, quer dizer que mais ou menos em 1922, por aí, é que a senhora mudou de cidade pra estudar, foi interna. É isso?

 

RF - Ah, sim. Foi…

 

EV - Com oito anos? 10 anos.

 

RF - Não. Fiz... 10 anos foi o primária. Fiz 2 anos de ginasial numa escola pública.

 

PA - E a senhora, em casa, com seus pais, falava que língua?

 

RF - Falava romeno. Meus pais falavam entre si idiche. Às vezes idiche.

 

PA - E os seus irmãos? E os seus pais também, eles também enviaram os filhos para essa escola?

 

RF - Cada um outra cidade, noutra escola. E nos encontramos só nas férias.

 

EV - Nem nas festas?

 

RF - A maioria das festas coincidiam com as férias.

 

PA - Seu pai, então, tinha uma preocupação muito grande com a educação de vocês, né, provavelmente, né?

 

RF - A maior preocupação de meu pai era com a nossa educação.

 

EV - É.. Porque não era tão comum uma preocupação assim com escola, né. De chegar assim a se sePA -.. Assim, mandar para outro lugar para estudar?

 

RF - Era uma preocupação. Justamente, meu pai, ele tinha uma frustração que ele não pôde estudar. O ideal dele era os filhos estudar quanto mais.

 

Pa .. A sua mãe estudou? A sua mãe fez até a escola primária?

 

RF - Ela fez ginásio.

 

PA - Só fez ginásio. Então, a senhora conta um pouquinho mais, por favor, D. Rosa, um pouco mais da cidade em que a senhora morava. Como é que era? Quais eram as atividades? Se a senhora tem alguma lembrança, quando era mais jovem assim, como é que era a cidade? Tinha uma sinagoga? Como é que era assim?

 

RF - Tinha sinagoga. Sempre, nas festas, meus pais iam nas festas na sinagoga. Um grupo de Senhoras Sionistas, organizavam chás dançantes, bailes e angariam dinheiro para Israel.

 

PA - Havia muitas lojas do ramo do seu pai? Também muitas lojinhas de tecidos?

 

RF - Sim. Tinha na rua principal. E maioria dos judeus. Proprietários judeus.

 

EV - Então, nessa época, que a senhora disse que escutava... Que estava no colégio Sion, isso tem que ser, máximo, 1930. Deve ser 1930. Porque aí a senhora tinha 16 anos.

 

RF - É. Eu acabei com 17 anos.

 

EV - Eu entendi. Então, a senhora me desculpe. Eu anotei errado. É 29, 30…

 

EV - Mas mais ou menos. Enquanto a senhora estava na Escola Sion é que a senhora escutava esses gritos.

 

RF - Ah, sim. Ano 1930.

 

EV - Quando que a senhora começou a sentir antissemitismo na Romênia? De pequenininha a senhora sentia, na sua cidade?

 

RF - Não. Na nossa cidade não. Não, justamente tínhamos boas relações com…

 

EV - Foi dentro da escola Sion, não na escola, mas na outra cidade que a senhora começou a escutar?

 

RF - Ah, sim. No último ano, já comecei a sentir.

 

PA - Porque na cidade que a senhora nasceu, a senhora falou que tinha um grande número de judeus, mas tinha os não judeus também, né? Mas se vivia assim harmonicamente?

 

RF - Naturalmente. Na década de 30 começou um início de antissemitismo.

 

PA - Esses não judeus, eles também... Qual era a economia assim da cidade? Eram animais, era madeira, era... Qual era?

 

RF - A base era de comercio varejista. Oficinas diversos, moinho, etc.

 

Pi::1. Agricultura e comércio... Ah, tá. Bom. Então, a senhora foi estudar. E depois, o que que a senhora fez? A senhora acabou esse curso no colégio Sion e a senhora voltou pra sua cidade?

 

RF - Sim. Voltei pra minha cidade…

 

PA - A senhora já tinha planos? Os seus pais tinham planos para senhora, alguma coisa?

 

RF - Eu queria estudar na faculdade, mas eles não queriam me deixar sozinha. Porque lá na nossa cidade não tinha faculdade. E eu gostava... Eu queria seguir lá, mesmo em Iasi, ficando na mesma escola. Mas meu pai não quis.

 

PA - A senhora gostaria de estudar o quê? Que que a senhora se interessava? Qual era a matéria que a senhora mais gostava?

 

RF - Química. E agora estou me realizando. A minha filha, ela se formou em química.

 

PA - É? Mas por que que seu pai não quis?

 

RF - Porque ele tinha medo, justamente, de ficar muito com os católicos. E também deixar uma meia sozinha noutra cidade.

 

PA - Deixar muito com os católicos como? Eu não entendi. Ah, sim. (ri) E o que que ele então pediu pra senhora? Pediu pra senhora voltar pra cidadezinha e…

 

RF - Naturalmente, depois que acabei, voltei pra cidade e não me deixou mais sair.

 

PA - Sair. E então, o que que a senhora fez? Como é que foi a sua adolescência, como é que foi?

 

RF - Então, fiquei 4 anos. Nenhuma cidade, Tecuci. Tinha um professor de hebraico, tinha mais duas colegas que vinham na minha casa, estudava hebraico. Depois, fiz um curso de costura para crianças, pela “Ort". Lia bastante. E depois, depois de 4 anos, casei, passei pra capital, pra Bucareste.

 

PA - A senhora chegou a ajudar na loja dos seus pais?

 

RF - Sempre trabalhava. Nas férias, sempre ficava na loja. Que meu pai dizia que tem que ter uma profissão. Então, para ficar no escritório, olhar como se fazia fatura, como escrever à máquina. Até que uma vez todos nós, nas férias, os quatro filhos tinha que acordar cedo e ficar na loja.

 

PA - E qual foi assim o destino dos seus irmãos? Eles também voltaram, trabalharam na loja. Mas algum deles quis estudar e foi estudar, o seu pai permitiu?

 

RF - Ah, sim. No faculdade... Todos fizeram só o científico. Agora, um só, que era mais estudioso, ele foi se formar na Itália. Justamente começou a onda de antissemitismo e ele foi estudar na Itália, em Torino, engenharia.

 

PA - Qual dos irmãos?

 

RF - Do meio.

 

PA - Qual é o nome?

 

RF - Samy.

 

PA - Quer dizer então, seu pai teve condições de mandar, então, o filho pra estudar.

 

RF - Ah, sim. Ele tinha uma loja grande, ele trabalhava muito, era muito inteligente, muito capaz.

 

PA - E nessa época, então, a senhora disse que já ouvia uma onda assim de anti-semitismo maior.

 

RF - Ah, sim.

 

PA - A senhora chegou a presenciar, nessa época, alguma coisa assim, alguma agressão física ou moral?

 

RF - Agressores propriamente não, mas se sentia um antissemitismo latente. 39, 40, 41, quando começou Guarda de Ferro, o Partido Legionário, de direita, que se formou. Quando Hitler subiu lá na Alemanha, aqui se formou logo esse partido Guarda de Ferro. Os estudantes judeus eram agredidos nas faculdades. Judeus começaram a emigrar para Israel.

 

PA - E havia um grupo deles na sua cidade?

 

RF - Não. Eu falo isso já quando estava casada, na capital. Ah, quer a ordem cronológica. (risos) Não. Na cidade não. Só quando me casei só, na capital. Quando Hitler começou na Alemanha.

 

PA - E o casamento da senhora? A senhora se casou com... Como é que foi o casamento da senhora? Quando é que a senhora se casou?

 

RF - Me casei em 36, na nossa cidade, na sinagoga, naturalmente.

 

PA - Como é que foi a festa?

 

RF - Foi bonita. Chegaram parentes de meu marido, que ele morava em Bucareste…

 

PA - Ah, ele era de Bucareste.

 

RF - Era de Bucareste. Foi uma festa bonita.

 

PA - Como é que a senhora conheceu o seu marido? Como é que foi o casamento assim?

 

RF - Meu pai ficou doente de diabete. Então, ele se internou em Bucareste, num sanatório. E lá tive a oportunidade de conhecer meu marido.

 

PA - Depois, né. Anotou quando é que foi o casamento?

 

RF - 36. 1936.

 

PA - E aí, a senhora casou e foi pra Bucareste imediatamente?

 

RF - Sim. Imediatamente para Bucareste.

 

PA - E qual é a profissão do seu marido? Qual foi a profissão?

 

RF - Ele era também comerciante.

 

PA - Era de uma família também de judeus religiosos?

 

RF - De judeus religiosos. É.

 

RF - E qual era... A senhora lembra qual era a profissão do pai do seu marido? Qual era a profissão do seu sogro?

 

RF - Ah, sim. Ele era bancário.

 

PA - Como é o nome do seu marido?

 

RF - Friedman.

 

EV - Primeiro nome?

 

RF - Do meu marido? Josef.

 

PA - Josef Friedman.

 

RF - Sim. E o pai dele era de Chernoviz.

 

PA - Então, conta pra gente, por favor, D. Rosa, um pouquinho da vida em Bucareste. Como é que foi sair de uma cidade menor? Como é que foram os primeiros anos? Como é que…

 

RF - Lá também tínhamos uma loja, também comecei a trabalhar na loja, dia todo.

 

PA - Como é que era? Mais um pouco, assim. (RF - ri)

 

EV - A senhora manteve um lar "kosher"? A senhora tinha uma casa "kasher"?

 

RF - não. "kosher" não.

 

EQ. Mas vocês frequentavam a comunidade? Sinagoga?

 

RF - Assim, só nas festas. Só homens. Só nas festas muito grandes é que iam. Me lembro lá de "Simchat Torá” quando era criança lá na minha cidade. Era bonito o “Simchat Torá". Mas, em geral, mulheres e crianças não iam na sinagoga. Sô homens.

EV - Vocês já casados, assim, amigos, eram só judeus? Aí já eram sô judeus ou se davam com todo mundo?

 

RF - Judeus. Ambiente muito amigo só judeus.

 

EV .. E vocês passeavam? O que que vocês faziam assim? Sei là. Aqui a gente vai na praia. O que que vocês faziam?

 

PA - Como é que era a vida social de um casal jovem? Como é que era a vida social? Eram festas? Em família?...

 

RF - Só reuniões em família. Ia no cinema, no teatro. Que nós éramos muitos ocupados durante a semana.

 

PA - E moravam também numa casa grande? Tinham empregados ou não?

 

RF - Tinha na loja empregados e em casa tinha empregada. Até que quando o partido, esse Guarda de Ferro, nos chamou lá na prefeitura, falando que os judeus, de agora em diante, não podem mais ter empregada cristã. E nós tínhamos loja, então, chegou... romanizarem. Se chamava "romanizar".

 

PA - O que que quer dizer isso?

 

RF'. Que tudo tem que passar só entre cristãos. Não podia judeu mais ser proprietário de lojas. Só de oficinhas ou de oficinas.

 

PA - Isso foi em que época, mais ou menos, D. Rosa?

 

RF - Isso foi em 40. Quando começou a guerra.

 

EV - Os alemães entraram na Romênia quando?

 

RF - Alemães, acho que não entraram na Romênia. não. não entraram.

 

EV - Mas eram aliados?

 

RF - Eram aliados. E começou, então Guarda de Ferro. Então, foi que foi coisa terrível. Foi que eles... A sede do Guarda de Ferro era no mesmo bairro onde nós morávamos. Então, chegou um detetive que era irmão de uma vizinha e nos advertiu para três dias não sair de casa. Então, fora, eles começaram, na rua, a Guarda de Ferro... Pediam documentos, e quem era judeu, pegava, botava nos caminhões. E até levaram alguns mais conhecidos, até o filho do rabino, levaram e botaram nos ganchos do matadouro. Mataram ele. Foi uma cena terrível.

 

PA - Nos ganchos de que?

 

EV - Do matadouro.

 

RF - Do matadouro. É. E mataram bastante judeus.

 

EV - Os próprios romenos?

 

RF - Os próprios romenos. Guarda de Ferro.

 

PA - Ah, era monarquia, naquela época?

 

EV - Os judeus já estavam emigrando, nessa época, quando começou a guerra?

 

RF - Quando começaram aí.

 

PA - Essa história... Mas eu queria, antes de chegar um pouco mais aí, D. Rosa, eu queria que a senhora contasse um pouco mais. Como é que era a vida, como é que eram esses momentos, por exemplo, então, de ver judeus sendo abordados na rua, pessoas sendo mortas, pessoas sendo postas em caminhões. Vocês sabiam, vocês tinham a dimensão do que que iria acontecer, do que que estava acontecendo realmente?

 

RF - Ah, sim. Por isso muitos começaram a imigrar para Israel.

 

PA - A família da senhora, a senhora e seu marido não pensaram nisso?

 

RF - Nós pensamos. Sim. Mas conseguimos sair só em 60.

 

EV - Pois é. Mas nessa época da guerra, a senhora não tinha vontade de emigrar, de fugir?

 

RF - Tinha vontade, muitos de nossa família emigraram mas aconteceu com dois navios que foram afundados.

 

EV - Afundados? Aí a senhora ficou com medo.

 

RF - Todo mundo ficou com medo.

 

EV - A senhora já tinha filhos quando estourou a guerra?

 

RF - Sim. Tinha primeiro meu filho. Estava com meses. E a noite, quando chegavam os aviões que passavam, os aviões alemães para a Rússia, começou entre eles, então, bombardearam Bucareste. Então, soava a sirene, nós íamos lá em baixo…

 

PA - Na própria casa da senhora tinha um…

 

RF - Sim. Lá no subsolo.

 

PA - Qual a data de nascimento do seu filho e qual é o nome dele, por favor?

 

RF - Silvio Friedman. Ele nasceu em 22 de maio, 1944.

 

PA - A senhora tem outros filhos?

 

RF - Tenho uma filha nascida em 6 de outubro de 1945.

 

EV - A senhora esperou muito para ter filho, né.

 

RF - Ah, é. Oito anos.

 

EV - Como chamava a filha? Como chama?

 

RF - Filha... Matilda.

 

EV - A senhora espercru muito tempo mesmo. (ri)

 

RF - Ah, sim.

 

PA - Como é que politicamente, como é que estava o país da senhora? Politicamente. Como é que, por exemplo, os próprios vizinhos, porque a senhora tinha vizinhos ortodoxos, era uma... Como é que…

 

RF - Sim. Eram ortodoxos.

 

PA - Ortodoxos, não é. Então, como é que era a reação dele? A senhora sentia alguma agressão à senhora? Particularmente, a senhora sentiu?

 

RF - não. Justamente que foi esse detetive, que era cristão, que nos avisou…

 

PA - Ele mesmo que avisou. Eram amigos.

 

RF - Não eram vizinhos.

 

EV - Mas eu não estou entendendo. Quando fecharam a sua loja? A senhora disse que os judeus não podiam mais ter loja. De que que vocês viviam?

 

RF - Ah, sim. Nós, primeiro, nós tínhamos um general que aparecia como... Um tempo que se podia, como acionista principal.

 

EV - Ah... E vocês como empregados dele, mais ou menos.

 

RF - Não... Sim. É. Depois vendemos a loja. Depois passamos para uma loja de têxteis que tivera também em nome de um cristão.

 

EV - Vocês, como na Alemanha, tinham que usar alguma distintivo?

 

RF - Não, nada. Não é (....... ) Só excepcionalmente esse Guarda de Ferro. Depois que passaram, não tinha mais. Na cidade era mais protegida. Acho que por causa dos embaixadores estrangeiros…

 

EV - E nos documentos dizia qualquer coisa que a senhora era judia?

 

RF - Nada. Absolutamente não.

 

EV - E a senhora podia comprar ou não comprar como qualquer outro?

 

RF - Qualquer outro.

 

EV - Passava fome com todo mundo.

 

RF - Não chegou até aí.

 

PA - E,por acaso, o marido da senhora tinha alguma atividade política? Ele era membro de alguma partido?

 

RF - Não. De nenhum partido.

 

EV - A senhora... Nem sionista? Porque vocês... A senhora disse que tinha vontade sempre de ir pra Israel…

 

RF - Ah, sim. Mas atividade sionista não.

 

EV - Os alemães nunca deportaram os judeus da Romênia? No final da guerra, não?

 

RF - Deportaram sim, depois que os alemães entraram na Rússia, na cidade de Iasi (Moldásia) os judeus foram convocados para se apresentarem na Prefeitura local. Em seguida foram colocados em trens de carga sem alimentos e sem água, para serem levados no campo de concentração de MogilEV - Muitos morreram dentro dos vagões e foram largados na cidade de Roman. A comunidade judaica local, as enterraram num túmulo comum, chamaram os jovens judeus para assistirem o enterro. Explicaram para esses judeus, que eles deveriam assistir, para passar adiante o que testemunharam.

 

PA - Perguntando um pouco sobre os seus filhos, eles fizeram Bar Mitsvá?

 

RF - Ah, sim. E só... Lá não existia Bat Mitzvah. Só Bar Mitsvá, só para homens.. Ele fez numa pequena sinagoga. Coisa simples…

 

PA - E eles estudaram, naquela época, em que escola também? Era uma escola pública, era escola particular? Como é que?

 

RF - Só escola pública.

 

PA - E sobre os irmãos da senhora, D. Rosa? Na época da guerra, onde é que eles estavam? Eles continuavam na cidade, eles se mudaram também pra capital?

 

RF - Todo mundo se mudou pra capital. Meus pais e meus irmãos.

 

PA - Mas por que que eles se mudaram?

 

RF - Se mudaram por causa que eu me casei, então, eles queriam ficar comigo. E também a situação lá na cidade, pequena, acho que andava de mau a pior…

 

FIM DO LADO 1

 

LADO 2

 

RF - ...as coisas. Então, ele queria…

 

EV - Os judeus também não podia ter loja em Tecuci?

 

RF - Lá... É. Nessa época podia sim.

 

EV - Durante a guerra podiam?

 

RF - Acho que... Pra dizer a verdade, eu sei só da capital. Mas lá…

 

EV - Mas eles se mudaram para a capital, quando, mais ou menos? Durante a guerra ainda?

 

(interrupção - fim do lado 1 da fita original)

 

PA - Voltando ao assunto da deportação. A senhora ouvia falar de judeus deportados? A senhora conheceu alguma pessoa que tinha sido deportada, alguma pessoa da família?

 

RF - Ah, foi. Até meu sogro e o pai dele que foram deportados.

 

PA - E a senhora se lembra como é que aconteceu? Quer dizer…

 

RF - Ah, uma noite chegaram lá e pegaram tudo que era judeu.

 

(interrupção)

 

PA - Então…

 

RF - Da capital não houve deportação. Não teve. São de outras regiões.

 

EV - Mas a senhora escutava sobre isso? Sabia que isso estava acontecendo?

 

RF - Ah, sim. Sabia. Meu sogro que foi deportado.

 

PA - Mandaram pra onde?

 

RF - Pra Trans-Nitria. MogilEV -

 

EV - Era um campo?

 

RF - Um campo, é.

 

EV - E podia mandar coisas?

 

RF - Uma pessoa que falava... Eu acho que ele…

 

PA - Esse campo era perto da cidade? Se localizava onde esse campo?

 

RF - Na Rússia. MogilEV -

 

PA - Vocês já sabiam que as pessoas estavam sendo deportadas para campo de concentração.

 

RF - Sim. Sabíamos.

 

PA - Sabiam o que que era campo de concentração? Nessa época, já se sabia das crueldades, das…

 

RF - Esse não. Mais ou menos. Só que eram deportados.

 

EV - Na sua família, todo mundo sobreviveu à guerra?

 

RF - Sim. Todo mundo sobreviveu à guerra.

 

- E feliz. Felicidade é assim.

 

PA - E a senhora acredita que sobreviveram porque estavam na capital?

 

RF - Na capital, sim.

 

PA - Porque provavelmente, se estivessem na cidade menor, onde a senhora nasceu... Houve deportação naquela ci…

 

RF - Daquela região não. Só região mais perto do norte. Transilvânia. Mais perto da Rússia.

 

EV - Era fácil dos alemães…

 

RF -É. Pra ir pra Rússia também.

 

EV - Era caminho. Como era a vida, a vida depois da guerra? Para um judeu e um não judeu. Era igual pra todo mundo? Ou tinha diferenças?

 

RF - Depois da guerra... não, não tinha diferença. Quando chegou a influência russa.

 

EV - Era igual pra todo mundo?

 

RF - Era igual pra todo mundo.

 

EV - não fecharam sinagogas, nada?

 

RF - não. Nada disso. não…

 

EV - A vida era difícil pra todo mundo.

 

RF - Pra todo mundo. É verdade. A influência russa, o socialismo.

 

EV - Em que que mudou a vida? Como que a vida depois da guerra era diferente de antes da guerra? Como era?

 

RF - Mudaram porque... não do ponto de vista do judaísmo. Mudaram porque era influência comunista, então, piorou. Botaram na casa das pessoas... Chegaram - agora o regime de socialismo. não podia ter... Só um quarto…

 

EV - Por família?

 

RF - Por casal, por família. Se tinha... Então nós tínhamos que ficar dois quartos. Um para nosso filho e um para filhos e outro dois botaram outras pessoas.

 

- Dá licença. Mas podia viajar fácil?

 

RF - Você não pode dizer nada.

 

- Podiam viajar fácil?

 

(interrupção)

 

EV - E quem botou essas pessoas na sua casa? Era o comitê do Partido que…

 

RF - Comitê do Partido Comunista. Se instalou como comunistas.

 

EV - Vocês tinham que dividir cozinha? A sala?

 

RF - Ah, sim. Cozinha e banheiro. Tudo.

 

EV - Era chato, né.

 

RF - É. Mas em todos os apartamentos.

 

EV - E eram romenos mesmo?

 

RF - Romenos mesmo. Eles, com isso, resolveram caso de moradias. Que faltavam moradias. Tinha um centro lá, um escritório, e tinha uma ficha de todos os apartamentos, quantas pessoas tem, quantos quartos... Em todas as casas botaram. Todas. Judeus e não judeus.

 

EV - Devia ser difícil mesmo, né.

 

PA - Não. Se a senhora não se importar…

 

RF - Não. Não.

 

(interrupção)

 

EV - Como era assim o trabalho?

 

PA - Como é que era para aquela sociedade o trabalho? As pessoas, depois da guerra, tinham um emprego?

 

RF - Ah, sim. Todo mundo tinha que... Meu marido se empregou numa fábrica. Era contador-chefe.

 

EV - Acabou a loja?

 

RF - Acabou a loja. Não tinha propriedade de loja mais. São pequenas lojinhas. Não. Até farmácias não podia ter mais. Tudo do governo.

 

EV - E tinha bastante alimentos, roupas?

 

RF - Ah, não. Começou a faltar. Se vendia tudo com carteira, com ticket.

 

PA - Como assim?

 

RF - Cada pessoa…

 

EV - Tinha direito a um casaco por mês ou não sei quantos…

 

PA - Não, mas ela falou em vender.

 

EV - Sim. Para comprar do governo. Você só podia entrar nas lojas do governo.

 

PA - Ah, sim. Pensei que a senhora que começou a vender coisas da senhora.

 

RF - Não. não. Ia comprar nas lojas do governo.

 

EV - E comida, tudo era?

 

RF - Comida ainda se podia comprar... Verduras ainda se podia comprar nas feiras, mas o resto tudo era vendido através do governo.

 

EV - Quando que surgiu na senhora a vontade de emigrar, de ir embora da Romênia?

 

RF - Foi quando começaram com... que na faculdade e nas escolas públicas tinha prioridade só filho de trabalhadores.

 

EV - Mas todo mundo era trabalhador O que que a senhora chama de trabalhador?

 

RF - Não. Trabalhador braçal. Agora, os outros, são pessoas excepcionais que podiam entrar. Especialmente nas faculdades.

 

EV - E a senhora começou a ficar preocupada com seus filhos.

 

RF - Preocupada com os filhos também. E a situação era dura, materialmente. Se vivia mal. não dava mais dinheiro, o salário não dava mais para cobrir despesas.

 

EV - A senhora trabalhava também?

 

RF - Não. Não podia porque tinha as crianças pequenas. Fazia assim, prepara botões em carteiras assim e entregava para essa cooperativa.

 

EV - E eles pagavam à senhora?

 

RF - Sim. Mas muito pouco.

 

PA - E a essa altura a senhora tinha outro contato com alguma organização judaica, alguma comunidade na cidade que a senhora morava? A senhora tinha amigos judeus? Se encontravam e…

 

RF - Não. Vida judaica não. Nenhuma.

 

EV - Só iam na sinagoga de vez em quando?

 

RF - De vez em quando. Só nas festas. Vida judaica só chegando no Brasil.

 

EV - Mas a senhora não tinha porque vocês não se interessavam ou ainda tinha, sei lá, B'nai B'nizm essas coisas? Tinha ainda?

 

EV - Nunca teve?

 

EV - A única coisa que não... Mas ela foi cancelado porque eram reunibes públicas. Reuniões públicas não eram permitidas.

 

RF - Ah, sim. Assim, em casa, ninguém podia ter, chamar mais de dez pessoas.

 

EV - Ah, é? Fazia um aniversário, só podia chamar dez pessoas?

 

RF - Ah, sim. Só que podia ser. É isso. Até que quando meu filho antes de fazer Bar Mitzvah, tinha um professor que também juntava umas crianças na nossa casa pra ensinar hebraico. Foi impedido. Não era permitido isso.

 

EV - Podia dar aula pra um. Mas não pra 10.

 

RF - É. Para um, é. Reunião não. Não podia. Nem pra 3, 4. Se reuniam crianças juntos, não era permitido.

 

EV - Nem criança podia brincar junto?

 

RF - Podia sim.

 

EV - Podia dar aula pra um só.

 

RF - Ah, sim. Para um só. É.

 

EV - Como foi pra senhora sair da Romênia? Como é que vocês saíram?

 

RF - Nós botamos lá pedidos... fizemos um pedido que durou... Para nós foi fácil porque eles tinham interesse de apartamentos para colocar pessoas em moradias. Então, pra quem tinha apartamento…

 

EV - Ah, vocês eram donos ainda do apartamento?

 

RF - Ah, sim.

 

EV - Não tiraram a propriedade de vocês.

 

RF - Não tirava, mas não se podia vender. Então, eles facilitavam para essas pessoas que podiam oferecer pra deixar vazio quanto mais quartos.

 

EV - Quando a senhora pediu pra... Entre que a senhora pediu para emigrar e até que a senhora emigrou, quando tempo passou?

 

RF - Passou uns 8 meses.

 

EV - Bastante rápido, né.

 

PA - E por que da ideia de vir para o Brasil? Já havia alguém no Brasil conhecido?

 

RF - Ah, sim. Tinha dois irmãos que nos chamaram.

 

PA - Dois irmãos da senhora ou do seu marido?

 

RF - Meu marido era filho único.

 

PA - Isso a senhora não contou pra gente. Qual foi o período que os seus irmãos vieram pro Brasil? Quando é que eles vieram pro Brasil? Foi durante a guerra ainda, não?

 

RF - não. Depois da guerra.

 

EV - Quem é que veio pro Brasil? Que irmãos vieram?

 

RF - Dois pra Brasil e um pra França.

 

PA - Qual era o nome dos irmãos que vieram pro Brasil?

RF - Pro Brasil foi Isaac Gropper e Marius Gropper.

 

EV - E o Samy estava na França.

 

RF - Samy em Paris.

 

EV - Ele passou a guerra onde? Porque ele estava na Itália estudando, que a senhora falou.

 

RF - Ah, sim. Voltou para Bucareste.

 

EV - Quando eles vieram pro Brasil?

 

RF - Acho que vieram em 50. Depois da guerra.

 

EV - Ah, também depois da guerra.

 

RF - Depois da guerra.

 

EV - E por que que eles escolheram o Brasil?

 

RF - não sei. Oportunidade. Meu irmão passou em Paris, sei lá, com conhecidos que foram, foi junto com eles.

 

EV - E seu irmão Samy, então, foi para Paris.

 

RF - Sim. Foi para Paris, porque tinha conhecidos lá.

 

EV - E vocês só podiam sair da Romênia se alguém mandava um pedido pra vocês?

 

RF - Ah, sim. Integração da família.

 

PA - Ah, era assim que se chamava. Integração da família. Então, os seus irmãos, a senhora escreveu pra eles pra pedir que eles mandassem chamar a senhora.

 

RF - Eles mesmos, sem pedir, eles, por própria iniciativa, eles... Sabiam da situação…

 

PA - O que que eles contavam um pouco do Brasil? Quando a senhora estava na Romênia, A senhora recebia cartas deles?

 

RF - Poucas. Pouca carta. Porque desconfiavam de pessoas que recebiam cartas do estrangeiro.

 

PA - A senhora tem ideia, tem alguma lembrança do que que eles falavam do Brasil?

 

RF - Não falavam nada do Brasil. não. Porque as cartas eram censuradas.

 

PA - Não falavam nada assim mais... Da vida deles aqui nem nada?

 

RF - não. não. Também que era medo. Lá não era bom receber cartas.

 

EV - Eram censuradas as cartas?

 

RF - Tudo era censurado, naturalmente.

 

EV - E só a senhora com a sua família que saiu? Sua mãe não veio junto?

 

RF - Não. Minha mãe foi pra Israel, antes de nós depois veio também pra cà.

 

EV - A sua mãe saiu da Romênia para Israel?

 

RF - Para Israel.

 

EV - E como é que ela foi pra Israel? Como é que ela saiu?

 

RF - Para ela foi fácil porque ela não tinha emprego, nê, lá.

 

EV - Ah, era uma carga pro Estado. O Estado... Era melhor se fosse embora mesmo.

 

RF - Ah , é. (ri)

 

EV - Isso a gente viu muito na Alemanha... É verdade. Na Alemanha oriental. Exatamente isso.

 

RF - Difícil era para quem tinha emprego.

 

EV - Hoje em dia, na Alemanha oriental é assim. Se você é aposentado, e. quer sair, eles abrem as portas. Vai. Exatamente isso.

 

RF - Porque é economia para eles.

 

EV - Exatamente. Economia para eles. É a mesma coisa.

 

PA - E a sua mãe? Vocês tinham família já em Israel? Ela foi sozinha para Israel?

 

RF - Ela foi com conhecidas em Israel. Ah! Tinha sim. Primos e uma tia.

 

PA - E a senhora, nessa época, não cogitou de ir junto, no caso?

 

RF - não. Ela saiu antes.

 

EV - Ela não podia. A senhora, se quisesse ir pra Israel, não podia. Podia? Da Romênia para Israel?

 

RF - Se podia pedir, como pediram. só se era integração da família. Sim.

 

PA - Mas a senhora e seu marido não pensaram em Israel como opção, por exemplo, para educação dos filhos, nada disso?

 

RF - Nós queríamos primeiro para Israel. Depois, recebemos essa carta dos meus irmãos, então, viemos para cá.

 

PA - Quando é que a senhora chegou no Brasil?

 

RF - Em 60. 1960. Outubro de 1960.

 

PA - E viajaram... Como é que foi a viagem pra cá? Foi direto da Romênia pro Brasil?

 

RF - Não. Foi para Viena. Fomos ajudados pela Hias para Viena, ficamos três semanas em Viena até que chegaram as visas do Brasil. Depois fomos para Itália. Chegamos de navio aqui.

 

EV - Ah, vieram de barco?

 

PA - Vieram de barco. A senhora lembra o nome do barco que a senhora veio?

 

RF - Acho que foi... Esqueci o nome. Esqueci o nome. -Lembrei! Cabo de São Roque.

 

PA - Foi de que cidade da Itália'? Gênova? Por ali?

 

RF - De Gênova.

 

PA - Foi de Gênova mesmo. E quanto tempo que durou essa viagem?

 

RF - Também não lembro não. Ficamos duas semanas lá em Gênova, depois viemos.

 

EV - E seus irmãos estavam no Rio?

 

RF - Estavam no Rio.

 

EV - Já estavam estabelecidos e ajudaram a vocês.

 

RF - Sim. Até ficamos na casa do meu irmão. Sete meses. Com comida, com tudo isso.

 

PA - E o que que seu irmão fazia?

 

RF - Tinha uma farmácia. Eu também trabalhei, meu marido também, na farmácia.

 

PA - Qual era a farmàcia?

 

RF - Era farmácia... Franco-Brasileira.

 

PA - Onde é que era? Em que bairro?

 

RF - Agora não tem mais.

 

EV - Onde era?

 

RF - Em Copacabana. Rua Duvivier. Agora é uma loja de confecções.

 

PA - E vocês moravam em Copacabana mesmo? - Aonde?

 

RF - Sim. - Nós morávamos na casa deles, em Barata Ribeiro, praça... praça Ribeiro. Uma pracinha aqui no princípio do Barata Ribeiro. Demétrio Ribeiro. Demétrio Ribeiro.

 

PA - A senhora, quando veio da viagem, a senhora trouxe alguma coisa? Trouxe alguma economia? Como é que.... materialmente, como é que vocês vieram?

 

RF - Absolutamente nada. não se podia trazer nada.

 

EV - Mas eles fiscalizavam?

 

RF - Fiscalizavam e muito, e faziam ameaças.

 

EV - Mas como é que podia…

 

PA - Como é que podia adivinhar, né.

 

EV - E como foi a adaptação da sua família no Brasil? Assim, dos seus filhos…

 

RF - Ah, sim. Foi boa. Foi muito fácil, porque tínhamos boas condições. Ficamos na casa do meu irmão. Lá tinha também duas meninas mais ou menos da mesma idade deles dois. Então, eles frequentavam lá na rua Carlota, a ARI…

 

EV - Travessa Carlota.

 

RF - Travessa Carlota. Os 4 iam sempre lá.

 

EV - E pegaram o português rápido?

 

RF - Ah, sim. Tinha professor de português e aprenderam e se adaptaram muito bem. E gostam até hoje muito do Brasil.

 

PA - E a senhora e seu marido, como é que foi a adaptação?

 

RF - Também foi muito fácil. Porque fomos juntos com meus irmãos. E tinha mais família aqui, mais um primo. Muitos romenos. Muito fácil.

 

EV - Podia respirar, né.

 

RF - Ah, essa liberdade. Exatamente.

 

PA - Tem um número muito grande de romenos vivendo no Rio de Janeiro?

 

RF - Tem bastante romenos.

 

PA - E a senhora, imediatamente, se integrou na comunidade desses imigrantes ou…

 

RF - Primeiro foi mais em família. Depois, pouco a pouco, começou com os romenos. Porque também uma situação que trabalhando durante a semana... Trabalhamos os dois na farmácia. Meu marido e eu.

 

PA - E depois desse trabalho, seu marido fez o que? Vocês trabalharam sete meses na farmácia e depois? A senhora saiu da casa do seu irmão, alugaram um apartamento?

 

RF - Alugamos um apartamento. E continuamos a trabalhar lá na mesma coisa.

 

Pé,. E moraram... Onde que a senhora alugou?

 

RF - Depois mudamos para av. Copacabana, depois para Sá Ferreira, depois compramos esse apartamento aqui.

 

PA - E sempre trabalhando na farmácia do seu irmão?

 

RF - não. Depois saímos e tínhamos uma loja de perfumaria em Visconde de Pirajá. Depois uma loja de representações... Av. Copacabana. Os dois sempre trabalhando.

 

PA - A loja de perfumaria se chamava como?

 

RF - Única. Perfumaria Única.

 

PA - E quantos anos? Quanto tempo a senhora teve a perfumaria?

 

RF - Ficou acho que uns 5, 6 anos.

 

EV - A senhora visitou a Romênia de volta?

 

RF - não. não tenho vontade de ir.

 

EV - não? Quer dizer que da família mais próxima não ficou ninguém lá, saiu todo mundo?

 

RF - Ninguém. Nem amigos nem da família.

 

PA - A mãe do seu marido, no caso. A senhora falou que o pai…

 

RF - não. Ela faleceu cedo. Com 46 anos. Não cheguei a conhecer.

 

EV - Ela sobreviveu à guerra, ao campo?

 

PA - Não souberam mais dele. E a sua mãe, ela foi pra Israel e depois veio pra cá, não?

 

RF - Veio pra cá.

 

EV - Viveu com a senhora aqui?

 

RF - Não. Eu, quando cheguei, não encontrei mais ela.

 

PA - Ah, já tinha falecido.

 

RF - Já faleceu. Ela ficou também na casa do meu irmão.

 

PA - O marido da senhora é vivo? Não. Faleceu já.

 

RF - Há oito anos.

 

PA - 8 anos. E ele se adaptou bem ao Brasil, seu marido?

 

RF - Muito bem. Gostou demais.

 

PA - A senhora tem assim alguma lembrança... Como é que foi a chegada ao Rio de Janeiro? A senhora tem alguma... alguma coisa que tenha lhe atraído mais de imediato, que tenha... ou lhe chocado mais de imediato quando chegou ao Brasil?

 

RF - Eu fiquei maravilhada com a cidade.

 

PA - Com a natureza.

 

RF - É. Meu irmão me esperou lá no…

 

PA - No porto, né.

 

RF - No porto. Gostei demais. Muito bonito.

 

EV - Que bom. Bom. A gente lhe agradece a sua entrevista.

 

RF - Eu que agradeço a sua paciência. (ri)

 

PA - Nada. Que é isso…

 

EV - Nós vamos tirar o retrato da se…

 

[Fim da entrevista]

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