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História de Vida Antônio

História de: Antônio Vargas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/07/2005

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História completa



P - Muito bom dia.

R - Bom dia.

P - É... primeiramente gostaria de saber o nome do senhor, o local de nascimento e a data do seu nascimento.

R - Meu nome é Antonio Vargas, nasci em São Paulo Capital, no bairro do Belém, no dia 13 de junho de 1931. Sou filho de Domingos Vargas e Remédio Rosal.

P - E como era o nome dos seus avós? O senhor se lembra?

R - Os avós maternos eram Antonio Rosal e Dolores Madrigal. Agora, da parte paterna, eu não tenho lembrança da idade dos dois.

P - O senhor sabe a origem da sua família, de onde vieram seus pais?

R - A família tanto do meu pai como da minha mãe vieram da Espanha, de Almeria.

P - E o senhor sabe porque é que eles vieram pra cá, pro Brasil?

R - Eles, segundo meus avós, eles vieram a respeito da... inquisição espanhola. Chegaram no Brasil em 1901, no porto de Santos.

P - E vieram diretamente pra São Paulo?

R - Vieram diretamente pra São Paulo, morando no Brás.

P - No Brás.

R - No Brás, na rua Caetano Pinto. Era uma vila de casas, não me recordo o nome, mas era uma vila de casas, que era um reduto exclusivamente de espanhóis.

P - E o senhor cresceu então no Brás.

R - Eu nasci no Belém e fui criado no Brás.

P - Mas a sua infância o senhor passou então aonde? No Brás ou no Belém?

R - A minha infância foi no Brás.

P - No Brás.

R - No Brás.

P - E como é que era assim a sua infância, que lembranças o senhor tem da infância?

R - A infância de todo filho de imigrante era dura, né, ajudar no sustento da família, e pra ir a um cinema, a um teatro, né, eu fazia distribuição de propaganda, cartazes. Antigamente existia, era um panfleto que a gente recebia de um gerente dos... dos cinemas, né, que no Brás, em 1938, 37, era Cinelândia, todos núcleo de cinema, estava tudo no Brás. Eu fazia 3, 4 cinemas, distribuindo a programação dos lançamento e ganhava o ingresso, que era... custava na época 400 reais, pros meus pais poderem assistir tanto teatro, né, como os filmes que passava na época.

P - E... nessa época é... existiam já os bondinhos, né, na região do Brás.

R - Ah sim, tinha os bondes, tinha os bondes. Tinha os bondes, por exemplo, do Brás, tinha o Penha, o Parque São Jorge, Rubino de Oliveira, passava o Moóca 8, Moóca 9, no Brás. Iam todos à Praça da Sé. Pra Vila Mariana tinha o Vila Mariana, tinha o Praça da Árvore, e tinha o Santo Amaro, Brooklin, Bela Vista, que era o... famoso Camarão, o bonde fechado. Pra Lapa tinha o Anastácio e o bonde Lapa. Tinha o Alameda Glete, que fazia a avenida São João, e os outros que me fogem à memória, Casa Verde, Casa Verde Baixa, Casa Verde Alta, né. Tinha o Vila Maria que atravessava o famoso rio Tiête. Tinha um sinaleiro que acusava quando um bonde passava, o outro esperava. Uma época remota. Hoje existe a ponte da Vila Maria que era uma ponte de madeira, feita pela Light.

P - Ah, a ponte foi feita pela Light para passar o bondinho.

R - Essa ponte de madeira era feita pela Light e a manutenção era da Light na época.

P - O senhor então andou muito de bondinho na sua infância.

R - Andava porque eu, quando entrei na empresa, era boy, e eu tinha um uniforme amarelo, que chamava-se a "vaca amarela" e o meu número era número 32. Então eu tinha acesso em qualquer transporte da empresa, sem pagar nada.

P - Mas a respeito da sua infância assim o senhor nadava no Tiête, no Tamanduateí...

R - Ah sim,eu aprendi nadar no rio Tamanduateí, por incrível que pareça, né, hoje é uma rede de esgoto. Nadava no Tamanduateí e pegava lambari no Tamanduateí. Naquele época tinha o Tranway da Cantareira, era um trenzinho que levava pra Vila Galvão e um bairro de Opolva, lá em Guarulhos. Ele passava pelos trilho, em cima do rio Tiête. E moleque, a gente ficava em cima da ponte esperando o trem que se aproximasse pra gente poder mergulhar dentro do rio. Essa era... o divertimento. E outra parte que eu passei era no parque Dom Pedro. Tinha um... hoje não existe mais, era um reduto que... a gente ficava confinado no parque. A gente andava com um shortinho, camisa branca, era da prefeitura, e um shortinho vermelho, de alpargata, pra ir no parque. Então a gente ficava lá durante o dia e à tarde ia pra escola. E à noite ia jogar bola no próprio parque Dom Pedro.

P - Ah, então o senhor jogava bola nessa época?

R - Jogava bola no Parque Dom Pedro.



P - E da sua infância assim, da sua casa, o senhor se lembra, dos vizinhos?

R - Eu tenho pouca memória dos meus vizinhos, né, tenho mais depois da... da minha juventude, né, da infância a gente ficava confinado, não tinha... meus pais eram muito rígidos, não deixava a gente sair, né. A gente ficava com os irmão brincando em casa, a casa era muito grande, né, então o divertimento era dentro de casa. E quando saía, saía toda a ninhada junto, né, porque os pais não soltava as crianças.

P - E o senhor tinha... quatro irmãos.

R - Quatro irmãos. Um é falecido que eu não cheguei a conhecer, e tenho o meu... duas irmãs e um irmão caçula. Eu sou o terceiro da família.

P - E todos trabalhavam desde criança...

R - Não, só a minha irmã, a Leonor, que trabalhava, né. A Esmeralda não trabalhava. Na infância... o único que fazia estripolia pra... era eu com uma equipe de moleque, que fazia a distribuição de cartaz, entregava leite também, né, pra ganhar uns trocadinhos. .

P - E aí esse dinheiro o senhor ajudava em casa?

R - Esse dinheiro ajudava em casa.

P - E o senhor freqüentava assim, na sua adolescência, o senhor frequenta algum bailinho, no Brás, alguma coisa assim, alguma festa?

R - Eu freqüentei muito baile. Eu dançava no Minas Gerais, que era um salão, no Esso, São Caetano, Marconi, no Professorado, no General Motors em Santo André. Gostei muito de baile, e até hoje gosto de baile, e danço, modéstia à parte, danço um pouquinho. Na Federação Espanhola havia concurso de dança, naquela época, né, e eu fui premiado em terceiro colocado em valsas, né.

P - Então o senhor é o maior pé de valsa.

R - Não, que tinha gente muito boa naquela época, era um...dançarino era uma profissão na época.

P - E escola assim, o senhor freqüentava alguma escola no Brás...

R - Eu freqüentei o grupo escolar Roman Kuraiê, no Brás, onde eu fiz meu curso primário. O meu curso ginasial eu fiz na escola Al... Álvaro de Carvalho, não existe mais. E meus cursos pro... profissionalizante fiz no Instituto de Modelo, que era na rua Piratininga, depois passou a chamar-se Getúlio Vargas, depois passou a ser novamente Instituto de Modelo. E se não me falha a memória, fizeram um trecho da Escola São Paulo. Hoje é um abrigo do Bem Social do Menor. Fiz a es... a Escola de Tecnologia Labor, me formei em tecnólogo, na... era no centro da cidade, se não me falhe a memória, na rua Florêncio de Abreu, na época, perto de um salão de baile, onde pegou incêndio, famoso 28.

P - E assim a respeito mais desse período que o senhor freqüentou a escola, o senhor era bom aluno, era assim um cara que acabava matando a aula por causa do serviço? Como é que era?

R - Não, eu fui um bom aluno, eu sou... me considero um bom aluno, né, porque tudo que eu... desde de pequeno, tudo que eu comecei a fazer ia até o fim, certo ou errado, ia até sempre ao fim. Nunca fui reprovado. E fui grevista. Em 1945, fui preso como grevista, né, negócio de mensalidade, e o diretor não queria liberar a classe, eu fui lá, metido a valente, fui lá e desliguei a... a chave geral do colégio, né, aí fui preso como agitador. Isso nos tempo da ditadura, ditadura do... dos meus parentes, Vargas.

P - E como é que o senhor conciliava a questão do seu trabalho com a escola? Como é que o senhor trabalhava isso assim?

R - Bom, a empresa no meu tempo, era uma empresa muito rigorosa. Os ingleses diziam que o "time is money", então a gente tinha de correr contra o tempo. Saía correndo da... do serviço pra ir pra escola. Não tem hoje aquele tempo de sair meia hora antes, aquele tempo... e se no dia seguinte não tivesse no horário, era descontado.

P - A respeito da sua infância, qual mais lembrança assim boa que o senhor tem da época da sua infância, de brincadeiras...

R - A brincadeira que eu mais gostava era de nadar no Corinthians, eu sou corinthiano. Em 1938, eu... no Tiête tinha uns cochos do Corinthians, como todos os clubes que beiravam o Tiête era cocho, não eram piscina. E um dia eu saí de barco, fui até o Penhense, remando. E na metade do caminho, começou chover lá na bacia de Guarulhos e o rio começou ficar lamacento, e já não agüentava mais remar contra a correnteza. Daí a correnteza me trouxe, né. Eu parei no Corinthians, cheio de lama, cheio de lama, que era... e chovendo a cântaros. O que que é que eu fiz ? Atraquei a catraia no... poitão que havia e entreguei a camisa, que era obrigado a usar a camisa com o distintivo do Corinthians. Entreguei prum colega meu e fui cair na água, fui nadar. Ele... o que que é que ele fez? Ele pegou aquela camisa e levou pra minha mãe, levou-a... veio pra casa, trouxe a camisa cheia de lama, e chegou... Minha mãe perguntou onde é que eu estava. Ele falou: "Não, ele estava dentro do rio." Quando eu cheguei, com o temporal que tinha, era bonde, o bonde São Jorge, levei aquela surra, e nunca mais me deixaram freqüentar o Corinthians, no saudoso Corinthians, dá saudades.

P - Tem mais alguma lembrança assim... o senhor brincava de outra coisa além de futebol, além desses par... desses passeios no Parque da Luz? Tinha algum programa de domingo que o senhor fazia com sua família...

R - Quando eu era pequeno meus pais me levavam ao Parque da Luz, né, assistir a banda, me levavam... Havia uns... tipo de charretinha com os carneiros, puxada por carneiro, né, então eles me levavam lá passear, tanto no Parque da luz como no Parque Dom Pedro, que havia aqueles torneios de bandas, que vinha banda do interior e tinha dois, três coretos... Era uma festa, se reunia toda a população praticamente do Brás estava todo... era um... hoje, vamos dizer, um Trianon que foi há muito tempo atrás também, né. Então os passeios eram os parques: Museu do Ipiranga, Parque Dom Pedro, Parque da Luz, Trianon. Esses eram os passeios de domingo, né.

P - Agora assim a sua entrada na empresa se deu quando?

R - Foi no dia... 14 de julho de 1945. Eu fui... entrei no... como mensageiro no Cambuci, nos almoxarifado do Cambuci, no tempo dos ingleses.

P - Quer dizer, a Light foi sua primeira empresa então, primeiro emprego que o senhor teve?

R - Ah, empresa foi... primeiro emprego foi... a Light.

P - E o senhor basicamente fazia o quê como mensageiro?

R - Mensageiro é a... no almoxarifado não é... era descentralizado... Tinha um almoxarifado na Penha, tinha na Vila Mariana, tinha na Lapa, tinha em Santana e... tinha no... na rua do Glicério, onde era a fábrica de poste. Então o mensageiro pegava toda a correspondência dos almoxarifado, recebia e levava. Então era um tal de correr os prédio, né. A gente fazia aquilo, vamos dizer, uma semana fazia-se um itinerário, outro iti... outra semana você fazia um itinerário diferente, ou seja, Brás, Penha, Belém; outra semana se fazia Lapa, Vila Mariana, Alameda Glete, depois ia pro Ipiranga, e a fábrica de postes que era no Cambuci. Era um rodízio, né. E de vez em quando você ia só na Xavier de Toledo, onde era o escritório central.

P - Então senhor conhecia muito bem todas essas regiões de São Paulo, todos esses bairros?

R - Conhecia porque a condução era livre, né, então a gente era que nem macaco, vai pulando de um bonde aonde, né, pega um bonde aqui pára, pega o outro...

P - E o senhor nunca se acidentou nalgum bonde e tal?

R - Não. Graças a Deus eu... sempre saí ileso, né. E tinha a linha Santo Amaro, que era uma linha especial, que mesmo com uniforme, a gente era obrigado a levar um passe com uma data. A gente como tinha muito contato, que conhecia praticamente tudo quanto era cobrador e motorneiro, durante a semana, um sábado, domingo, queria vir pra Interlagos passear, vinha de bonde sem pagar nada, né. As amizades valiam desde aquela época.

P - E na empresa, depois que veio na Light, o senhor começou como mensageiro, e depois o senhor foi subindo, mudou de cargos...

R - É... eu, como mensageiro, sempre tive aquele espírito meio revoltado, né, de... de ver coisas que não podia acontecer. Eu... havia uma associação que estava se organizando, que é hoje o nosso sindicato, e havia um companheiro, por sinal tive uma grande surpresa, cruzei com ele há questão de dez dias atrás, senhor Wilson Abílio, que foi um dos fundadores do sindicato, ele me dava o... um tíquete, que era uma prestação, pagamento ou recebimento; e eu corria nas oficina com aquele uniforme, era quem tinha acesso, e aquele acesso então... eu corria dentro da carpintaria, mecânica, selaria, né, mecânica, quer dizer, eu tinha o livre acesso, então eu fazia cobrança. Um fato pitoresco, quem vai vir hoje a tarde aqui, é o companheiro Magri, que eu fiz parte da diretoria do sindicato com ele. O pai dele era o seu Antonio. Ele era chefe da marcenaria no setor. E o pai dele era o que cuidava das construções de barco da empresa, que a empresa fazia barcos. E o seu Antonio quando me via, via o demônio, ele fugia, porque era duzentos réis a mensalidade e duzentos réis era muito dinheiro na época, essa é... um fato muito interessante. Antes de ele falecer, ainda trocamos idéia, né, ele estava na colônia, trocamos idéia, e começamos lembrar, né.

P - E como foi, por exemplo, a passagem, adiantando um pouco a passagem da assim da Light pra Eletropaulo, estatização da Light. Como é que foi assim pro.. pro senhor enquanto profissional.

R - Foi péssimo, como profissional foi muito péssimo, porque a pessoa que tinha um pouco de leitura e gosta de... de fuçar as coisas, eu estava sentindo que a Light ia ser o que é hoje: um cabide de emprego, e na mão de políticos dirigindo uma empresa que eles não tem o mínimo conhecimento do que vem a ser uma estatal de energia elétrica, que é uma coisa muito delicada e precisa estar nas mãos de bons profissionais, senão nós vamos ter de... pra ver se a luz está acesa, acender vela, e é o que vai acontecer em São Paulo.

P - Qual foi a sua trajetória dentro da Light, assim? Quais car... por quais cargos o senhor passou depois de ser mensageiro?

R - Eu de... de mensageiro passei a ser prati... era auxiliar de escritório, na época, e depois passei a ser escriturário, depois eu fui... eu estava terminando o curso profissionalizante, eu fui trabalhar como desenhista na Xavier de Toledo, como eu tinha feito um curso de hidráulica, pelo sin... que era promovido pelo sindicato dos hidráulicos. Em 1948,49 mais ou menos, eu fui trabalhar na usina Piratininga, na construção da usina Piratininga, com a... uma empreiteira inglesa Stone Webester. Então eu fui trabalhar lá pra fazer o... colaborar na parte de... das instalações elétrica e na seleção dos funcionário, porque era uma usina termoelétrica e e nos tínhamos uma usina a vapor, que era na Paula Souza. Então aqueles profissionais que trabalhavam na Usina a vapor foi aproveitado, mas como eram, só ingleses, a gente... na época, eu conhecia alguma coisa do inglês técnico e transmitia aos operadores o que é que vinha a ser a tradução ao pé da letra, os manômetros, né, os barômetros da área de pressão, traduzindo aí como é que é a funcionabilidade.

P - Quer dizer então que o senhor acabou mexendo um pouco com essa parte também de construção dentro da própria empresa?

R - Ah sim, na parte de engenharia eu... era um... chamava-se Departamento Elétrico. Era departamento que ele abrangia tudo dentro da empresa, tudo que se falasse em... em obras, tanto elétricas como civil, era tudo feito pelo nosso departamento, né. Havia diversos setores e nós tínhamos um quadro aproximadamente de 68 desenhistas. Era comunicação, era cartografia, subterrâneo, aéreo, primário, secundário, transmissão, estrutura, construção civil. Tudo isso era um grupo só de funcionários que faziam essa parte aí. Cada um tinha uma especialidade. Fui cartógrafo da empresa também, trabalhei com mapas, né? E o primeiro mapa do estado de São Paulo, da cidade de São Paulo, foi feito pela Light. Muita gente pouca sabe, mas é... a Light que começou a fazer. Que hoje o pessoal pensa que a Light emite conta pelo nome da rua, não, é pelo código de poste. Até hoje prevalece isso.

P - E assim, como é que era o relacionamento do senhor com seus colegas de trabalho lá na Light?

R - Bom, eu como sempre fui um sujeito que... tinha festa, tinha farra, eu estava no meio, tinha briga, eu estava no meio, então era muito bem relacionado, né. Fui uns dos organizadores de diversos clubes dentro da empresa, né. Inclusive na parte da engenharia, quando houve um desmembramento, né, nós montamos lá o Projecons, que eram o Projeto e Construções. Esse projeto de construções é que deu sucesso na fusão da ACEL, hoje ADC-Eletropaulo.

P - Anterior ao Projecons, o senhor, por exemplo, participou de algum outro... a SECEL ou alguma outra atividade de lazer da empresa?

R - Ah tinha, tinha. A SECEL era uma associação que ela coordenava... cada departamento tinha um clube de futebol, então cada departamento... ela era uma... uma federação, ela coordenava todos os clubes, então era um campeonato, patrocinado pela SECEL.

P - E o senhor jogava futebol nesses campeonatos?

R - Jogava, disputava pelos almoxarifados geral que Glória Futebol Clube.

P - E no Projecons o senhor também jogava em algum time?

R - No Projecons eu mais brincava com o pessoal, né, já estava mais maduro, tinha gente mais jovem, né, mais eu era uma dos dirigentes do Projecons.

P - O senhor passou por que cargos assim no Projecons?

R - No Projecons eu fui diretor social, fui diretor de esporte, fui presidente, tive diversas funções, era polivalente.

P - E eles fazia muitas festas, churrascos, atividade...

R - Ah, sim. O Projecons ele tinha uma... uma história que nós pagávamos uma mensalidade, se não me falha a memória, era 40 centavos na época, e aquele dinheiro arrecadado, de três em três meses nós fazíamos uma churrascada com uma festa pra todos os familiares. E sempre sobrava dinheiro porque, como nós mexíamos com as empreiteiras, sempre vinha um presentinho de um, de outro; e nós fazíamos um bingo, fazíamos um sorteio, e a sobra da verba já ficava pro outro evento. E aí, como era um clube praticamente mais festeiro do que esportivo, a gente sempre tinha dinheiro e cresceu muito. Foi aí que... nós estávamos aproximadamente com quase dois mil associados, né, e já não era mais do Projeto e da Construção, começou gente de fora, de outros setores, aí nós pedimos à empresa o desconto em folha de pagamento; e a empresa na época disse que era impossível de fazer porque havia muitas associações que também queriam requisitar esse privilégio de ter descontado em folha. Foi aí que surgiu a idéia de fazer a unificação, da qual eu fui um dos cabeças da unificação.

P - O senhor fez parte da comissão então que fundou a ACEL?

R - Da comissão, eu fiz parte da comissão. E nós recebemos na época uma assistência técnica do... da Associação Atlética Light do Rio de Janeiro. Porque a Associação Atlética Light tinha passado pelo mesmo problema nosso. Eles... pra desconto... havia essa problemática também de muitos clubes dentro do Rio pra fa... e fizeram a fusão. E eles nos veio dar assessoria. Eu montei um dos... o primeiro estatuto da ACEL que foi... fui eu que fiz parte da comissão. Mas o nosso estatuto, primeiro estatuto, veio do Rio, do Bangu, que o Bangu também era... era uma firma, uma tecelagem, no Rio de Janeiro. E nós nos baseamos no estatuto empresarial, porque não podia ter outro senão empresarial. Foi o primeiro estatuto nosso.

P - Assim, tanto o Projecons, ele... ou os outros clubes da... dos grêmios, da Light, eles recebiam subvenção da Light, alguma verba ?

R - Ah, sim. Havia um Departamento de Recreação dentro da empresa, mesmo no tempo do seu Severino e do seu Sebastião Romero, todos os eventos de fim e ano, o cidadão requisitava por carta um documento, pedindo verba pra tal evento; e a empresa fornecia uma certa quantia pra que as pessoas fizessem as festas, as suas associações, né.

P - E a sede dos Projecons... ele tinha uma sede própria? E onde era essa sede?

R - Nós tínhamos uma sede alugada na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, se não me falhe a memória, 2050, foi o... a sede nossa administrativa.

P - E você tinham bilhar, sinuca...

R - Nós tínhamos ping-pong, xadrez e dama, que o ambien... o espaço era pequeno.

P - Agora, a respeito dessa fusão dos grêmios que deu origem a ACEL, então o senhor participou dessa comissão e tal...

R - Participei da comissão.

P - E foi.. fez parte na... nessa comissão dos estatutos...

R - Fiz parte da comissão dos estatutos.

P - Agora, assim o senhor também fez parte da primeira diretoria da... da ACEL?

R - Fiz, fiz parte da primeira diretoria. A primeira diretoria, eu fui diretor social; o presidente era o senhor Edmundo Benedetti, que hoje é o presidente da Federaluz. O Celso Soncini, o engenheiro Celso Soncini, ele é o... foi o diretor nosso de obras. O seu Borghi, que era do SERPEL. É que em resumo, havia dentro da empresa 21 clubes cadastrados, e desses 21 quando surgiu a idéia da unificação, nós criamos uma comissão e chamamos pro intermédio do Departamento de Recursos Humanos, que não era recursos humanos na época, era Departamento de... de Pessoal, foram chamados todos os presidentes do... das agremiações pra que fizessem... pra gente poder bolar alguma coisa de unificar as associações. E nós éramos em 21 na época, acabamos ficando em 7, sendo que desses 7, 2 praticamente estavam parados, que era o Clube de Pesca e o Xadrez. Daí surgiu ADC.

P - O senhor participava só do Projecons ou, por exemplo, participava também do Pesca, como eu sei que o senhor gosta de pescar e...

R - Não, eu participo... não.

P - Participava...

R - Participava do.. do Pesca, participava do Xadrez, né.

P - Não era assim, teoricamente não existia uma imposição de só participar de um só clube.

R - Não, não, não. O cidadão ele podia ser sócio de diversas agremiações desde que pagasse. Não havia imposição.

P - Agora, depois dentro da ADC, que motivos o senhor... primeiro os motivos da questão de unificação do grêmio, dos grêmios e tal, né, do clube. Mas depois posteriormente essa continuação do senhor na administração do ADC na diretoria, o senhor tinha algum projeto em relação ao lazer para os funcionários? R - Sim, nós tivemos diversos projetos, né. A... a minha parte dentro do... da... da ACEL, como diretor social, nós fizemos o que o pessoal mais gostava: eram promoções, né, excursões, torneios de pipa, campeonato de pesca. É o... é o recurso que nós tínhamos, porque no início nós tínhamos uma... como dizer, uma censura, que todo folheto, toda qualquer propaganda a ser circulado pros funcionários precisa ter o aval, assinatura do superintendente do... do Departamento Pessoal. Então as nossas condições era restrita, o nosso relatório era uma coisa sucinta porque a gente não podia apresentar muita coisa pra empresa. Fizemos muitos bailes também. Coisa da época, né.

P - Os bailes, o senhor fazia aonde esses bailes?

R - Nós alugávamos... fizemos no... lá em Santana, não lembro o nome da associação agora. Mas fizemos no Professorado, na Casa de Portugal, no Círculo Militar, hoje Clube Sírio, no Clube Homs, fizemos no Hispano-Americano, quer dizer, de acordo com os salões e a verba disponível, a gente procurava um espaço pra poder usufruir.

P - E a ACEL ela começou a crescer ou ela ficou restrita àqueles associados dos grêmios?

R - Não, ela começou... não, os associados do grêmio. Ela começou crescer, ela cresceu muito, cresceu muito, porque nós estávamos oferecendo muita coisa, por exemplo, os clubes não-participantes da fundação, da unificação, era o Santos. Santos não participou porque tinha patrimônio e não queria participar, disse que ia perder com a fusão. O Clube de Pesca estava parado porque as sede de pesca em Pirapora, Tamanduateí... o Tiête estava poluído e não tinha mais condição de lazer de pesca. O SERPEL por sua vez é o dono, o proprietário do... era do Patrimônio, era chamado o dono da área do Socorro, aonde temos... O primeiro ginásio de esportes que construímos foi em cima da... da sede do... do SERPEL, que pertencia ao Patrimônio. Cubatão, tamos construindo o ginásio hoje, Cubatão é um dos clubes mais antigos da empresa, tem mais de 50 anos, tem uma infraestrutura muito boa: campo de futebol, quadra de society, né, esse participou, hoje ele está tendo um ginásio que está em fase de conclusão, Sorocaba foi feito outro ginásio também que foi meio duro pra enfiar na cabeça do pessoal da região o que era a associação, Jundiaí, Vinhedo, Vargem Paulista, todo esse interior, onde nós temos subsedes tão, modéstia parte, tão caminhando com as próprias pernas hoje. P - E dentro da diretoria do ADC por que cargos o senhor passou?

R - Eu fui presidente da ADC, fui diretor social, fui secretário da ADC, e hoje sou Vice-presidente do Projeto e Obras atualmente. Fui assessor da... da presidência também...

P - Desde a fundação até hoje o senhor está sempre permanecendo nas diretorias.

R - Sempre na diretoria.

P - E lá o senhor fica... quer dizer, o diretores eles são...

R - São liberados pela...

P - São liberados...

R - São liberados pela empresa mas na época que eu era presidente não tinha liberação de nenhum funcionário. Nós tínhamos de conciliar o tempo de serviço com a associação. E era... complicado.

P - E o senhor vai se aposentar ou não pretende no momento.

R - Tenho de parar um dia, tenho de parar. Quero ver se, dependendo de como for, eu vou embora no começo do ano. Pretendo sair no começo do ano.

P - E se o senhor aposentar o senhor não pode continuar na ADC?

R - Posso continuar.

P - Mas aí como sócio especial.

R - E como diretor também.

P - Ah, pode continuar como diretor.

R - Posso continuar como diretor.

P - E questão assim quando foi criada, fundida esse clubes e criada a ACEL, vocês tinham muito apoio da Light? Como é que era esse apoio da Light?

R - Na época, o apoio era muito restrito, porque tudo que você fosse fazer, a empresa estava em cima, queria relatório... E a empresa acompanhava o nosso trabalho. Foi por isso que eu... nós nos tornamos independentes, pelo trabalho que foi executado pelas antigas diretorias. Era uma diretoria dedicada exclusivamente ao lazer do funcionário. Nós não entravámos em questões de mérito político e sindicalista. Num... nós num... não havia mistura.

P - Bom, Sr. Vargas, eu gostaria de perguntar pro senhor questão assim: a sua família ela freqüenta ADC, quer dizer, as atividades, os bailes, a festas, os...

R - Ah freqüenta. A minha esposa é... é minha parceira há mais de trinta anos, e todos os bailes da ADC com.... O único baile que ela perdeu quando ela fez uma operação na... no pé. Foi o único baile que... Ela xinga até hoje, né, mas... Meus filhos freqüentam. Usamos a sede de Socorro, usamos a sede do... interior. Temos uma participação.

R - A minha esposa... chama-se Dina Lamana Vargas, né. Eu a conheci num casamento, isso há mais de trinta anos atrás, numa festa de família; e ela estava com o irmão, e meu cunhado é o tipo do... do barês de pavio curto. Eu como dançava e meu cunhado também dançava, ele me segurou, um dia num salão de barbeiro, ele me pegou lá na cadeira e disse: "Vem cá, você sabe que a moça que você está namorando é minha... minha irmã?" Eu falei: "Num estou sabendo." Ele falou: "Você toma jeito que eu estou na tua mira." E meu cunhado tinha fama de briguento. Era um... Tinha fama não, era briguento mesmo. Um sujeito muito violento, violento na época dele, né, hoje está com setenta e poucos anos, mas era o famoso Piola do Brás, da turma dos carroceiros, né, mas um... um grande cunhado, um grande amigo que eu tenho hoje. Eu... minha esposa tinha dez irmão, ela era a décima primeira. Eu não tive cunhados. Eu tive uma família. Família... Uma sogra que não era uma sogra, era uma mãe. Ela cuidava dos seus onze filhos e trinta e dois netos que ela tinha. Essa... deixou saudades, deixou saudades...

P - E eles são de origem espanhola também?

R - São italianos, são bareses. E meu sogro, segundo dizem, meu sogro não podia ver espanhóis e nem descendente de espanhóis. O único espanhol da família sou eu, descendente de espanhol aliás.

P - Mas o seu sogro era vivo na ocasião?

R - Não, meu sogro tinha falecido recentemente.

P - E aí o senhor começou a namorar com ela e como é que foi assim o passo para o casamento, como é que foi isso?

R - É... houve um namoro, né, um namoro que na rua era um passeiozinho porque a italianada sempre estava no pé, né, estava no pé. Comecei na... naquele tempo namorava na porta, depois namorava dentro de casa, né, fiquei noivo, depois surgiu a casa onde eu tenho, que era... foi feita pelo Instituto de Aposentadoria, né. Eu tive de ajudar pra terminar a casa, aí meus cunhado se reuniram e falaram: "Você vai casar agora, né?" Falei: "Não, deixar juntar o dinheiro pra mobiliar." Falou: "Não, você não vai juntar dinheiro, nós vamos mobiliar a sua casa". E meus cunhados me mobiliaram minha casa. Eu tinha três dormi... tenho até hoje, né, três dormitórios. Então eles me fizeram um dormitório. Minha esposa foi que escolheu os móveis. Naquele tempo fizeram um quarto de vestir pra ela, né. Uma sala... que a minha sala tem 6 por 7,80, sala de visitas e sala de janta. Me mobiliaram todo, a cozinha na época copa americana, me deram copa americana, fogão, quer dizer, até a filha me deram, né, a irmã, aliás, aí eu casei.

P - O senhor casou aonde?

R - Eu casei aqui no... na Igreja Co... Sagrado Coração de Jesus, aqui no Bom Retiro.

P - E teve festa assim no dia do casamento...

R - Teve, teve uma festa muito bonita na época, né. Foi... num salão do bairro, dum clube que eu participava também, que era o Fontoura, hoje Fontoura White, teve uma festa muito bonita, e naquela época um grande passeio, fui pra Cam... Poços de Caldas.

P - Ah, a lua-de-mel foi em Poços de Caldas?

R - A lua-de-mel foi Poços de Caldas. De terra... estrada de terra, o ônibus quebrado, foi uma aventura, mas não me arrependo. Tenho uma grande mulher em casa.

P - E o senhor tem dois filhos.

R - Tenho dois filhos. Dois filhos eletricitários também.

P - Ah, ele também trabalham na Eletropaulo?

R - Trabalham na Eletropaulo.

P - E são homens ou...

R - É um moço, né, fez aniversário ontem, e tem uma moça.

P - E qual a profissão deles?

R - A minha filha é economista, mas ela está como escriturária; e meu filho é economista também.

P - Eles trabalham na Eletropaulo desde quando?

R - A minha filha deve estar há uns oito anos na Eletropaulo; e meu filho está há quatro.

P - Eles quiseram então seguir carreira assim na empresa do pai ou...

R - Num foi bem querer, era mais garantia de emprego, né. A situação estava mal, viu, garantia de emprego.

P - E o senhor tem netos? R - Não, não tenho.

P - Mas são casados eles?

R - Os dois são casados. Um tem... minha filha tem dois anos... dois anos e meio mais ou menos de casado e meu filho não tem um ano de casado.

P - E eles participam das atividades na ADC, de lazer e tal?

R - Participam.

P - Jogam... jogam futebol?

R - Jogam, meu filho joga futebol.

P - Então ele participa de algum time na Eletropaulo.

R - Participa, da área dele participa, e minha filha também. Meu genro também e minha nora. Porque é extensível à família, né. Então minha filha sendo sócia da ADC, o marido tem direito como sócio; e meu filho, como sócio, a esposa tem direito como sócia, né. É um clube familiar.

P - E a questão assim... a aquisição da... vamos voltar um pouquinho à ADC. Essa questão assim do... das propriedades que a ADC adquiriu ao longo do tempo, como é que foi a participação do senhor assim nessa aquisição dos terrenos?

R - A empresa ela tem um departamento que chama-se Patrimônio Imobiliário. É o... a coisa mais rica da empresa é o patrimônio dela. Eu como trabalhei muito tempo em contato com o Patrimônio, eu tenho a facilidade, por intermédio da Fiscalização e da Inspetoria, saber aonde é que a empresa tem terreno ou não, e qual é os terrenos que serviam na região pros associados. Então já acertava com a fiscalização, com o chefe da fiscalização, em São Paulo, e o chefe da fiscalização do interior, eu já acertava todo o processo. Eles me dando sinal verde, eu fazia a documentação e entrava na Superintendência do Patrimônio. Automaticamente um superintendente não pode correr atrás de nada, ele despachava pra área competente, e aí vinha o retorno aprovando. Quer dizer, o retorno era certo. E quando não houvesse retorno já avisava: não ti... não vai tentar porque num... num vai sair. Todas as áreas, sem exceção, todas as áreas, inclusive a Praia do Sol, está meu nome no meio.

P - Então, quer dizer, o senhor que batalhou por esse processo dentro da empresa.

R - Esse processo dentro da empresa foi eu que batalhei, e inclusive na aquisição de diversas áreas também eu participei.

P - Porque a... a ADC ela tem muito mais é comodato, né, os terrenos são mais é comodato?

R - É, comodato, comodato.

P - Agora, como é que foi a passagem da Light pra Eletropaulo, essa estatização a nível da ADC? Como é que foi essa relação?

R - Bom, nós não percebemos muito, nós não percebemos muito, porque a rotina foi uma coisa automática. Mudou a cúpula somente. Hoje é diferente, hoje é diferente. Hoje você está num departamento, amanhã vem um gaiato aí, aparece, toma conta do pedaço, porque foi indicado por algum político, e você fica engulindo sapo, sem saber quem é.

P - Agora, então essa questão do... a nível de política de lazer, não houve muita mudança de Light pra Eletropaulo?

R - Não, não houve. A única coisa que melhorou um pouquinho foi no tempo do governo Montoro. Montoro deu um apoio muito grande, que o Montoro vestiu a camisa da ADC, dentro da própria ADC e colocaram dois políticos de visão que gostam de esporte. Um é o doutor Sérgio Motta, que é o tesoureiro da campanha do Fernando Henrique, que deu um grande apoio, e do Ippólito, que é do Ministério de Minas e Energia. Dois homens que gostam do... do esporte. Hoje você faz um convite a um presidente da associação, ele nem sabe quantos gomos tem uma bola, manda um representante, um outro político pra vir prometer asneira e a gente ficar quieto, né.

P - E a sua participação assim na questão do sindicato, Associação dos Profissionais da Eletropaulo, como é que se deu?

R - A associação dos profissionais eu não participei porque eu estava com o sindicato. Fui... fiz parte da diretoria do sindicato, no tempo do Magri, né, era o começo da carreira do Magri, mas eu trabalhei desde o tempo da... da associação com falecido Cabral, José Cabral, que foi o presidente fundador do sindicato. Trabalhei com o seu... o seu Alonso Garcia, que foi o presidente do sindicato, Benedito Guimarães, Sylvio Guimarães, todas essas diretoria eu estava lá junto com eles, como suplente, mas sempre estava lá .

P - E o senhor participava assim de greves, de alguma coisa?

R - Ah, sim, isso é uma coisa do espanhol, estava no sangue, né. Era em 1947 a primeira greve da empresa, que era dos bondes, né, que foi o maior engodo da paróquia, tirar os bondes da Light, que a Light ganhava muito dinheiro com os bonde na cabeça deles. E taí o nosso transporte coletivo hoje, tão tentando trazer os bondes de volta. Felizmente, só no interior mesmo, aqui na capital não dá mais (risos).

P - E vamos aproveitar e pegar esse gancho, essa questão dos bondes ter passado da Light pra... pra prefeitura, como é que foi isso a nível profissional, quer dizer, eu sei que muitas pessoas, motorneiros, condutores passaram pra ser... ser funcionários da CMTC...

R - Na CMTC.

P - E como é que foi isso a nível do sindicato? E como é que ele trabalhou isso a nível...

R - O sindicato, na época, ele fez aquela pressão costumeira, né, mas era um fato político, né, fato consumado, por muito que a gente berrasse, a gente ia ficar sufocado. Mas o sindicato trabalhou também no sentido que não fosse feita a venda, porque nós estávamos ciente de que haveria um desemprego como houve. E houve agora recentemente na CMTC, com essa passagem para as empresas particulares. O desemprego que a imprensa não publica, mas a gente está sabendo dentro do sindicato que a situação está... está péssimo aí fora, principalmente no setor elétrico, se houver agora na privatização. Isso nós tivemos uma amostra dum... numas palestras que foram realizadas no sindicato, do qual participaram três oradores, sendo um da Inglaterra, da Nova Escócia, um da Espanha e um catedrático do Rio de Janeiro, cada um expondo o que houve com a privatização das estatais, tanto na Inglaterra como na Espanha, e o que vai acontecer no Brasil. Então isso aí a gente está ciente de que o negócio vai ser... não é.... qualquer capitalista que vai investir em energia elétrica. No gás, na Inglaterra, segundo o orador, Mister MacGregor, foi uma calamidade. A Inglaterra pagou pra que fosse privatizada e hoje não tem dinheiro pra nada, graças a... ao trabalho da Margareth Tatcher.

P - Agora, a respeito do sindicato, o senhor ainda participa do sindicato?

R - Ah, participo, eu... todas as reuniões do sindicato, eu estou presente, né, inclusive foi uma coisa muito salutar pra mim que eu não esperava agora dia dois, eu fui homenageado pelo sindicato como um dos eletricitários mais antigos da categoria, um dos grandes colaboradores. Fui agraciado com um relógio no pedestal muito bonito e fiquei muito emocionado, né, saber que depois de tantos anos teve alguém que lembrou dos velhos que estão passando.

P - E atualmente na ADC, o senhor é vice-presidente de projetos e obras.

R - Projetos e obras.

P - Quais os projetos que o senhor está levando agora no momento? Qual é a sua função na verdade?

R - Agora é mais uma questão de política, questão de política, eu... nós estamos fazendo a reforma da.... adaptando a bocha e malha para o escritório da administração. Houve problemas com o meio ambiente, então o presidente achou por bem fazer uma reforma nas quadra pra adaptar um escritório. Eu estou somente com essa... com essa parte aí.

P - Agora, fazendo uma avaliação do seu... do seu trabalho na ADC, seu trabalho na Eletropaulo, como o senhor veria assim hoje em dia a... a experiência... em cima da experiência que o senhor tem, a forma como a ADC está bem definida entre os funcionários, está bem quista, e o começo, dos primeiros momentos, aquela primeira dificuldade toda, gostaria que o senhor fizesse uma avaliação a esse respeito?

R - Antigamente, como eu disse a você a gente tinha uma auto censura. Numa propaganda de uma excursão nós precisamos levar a documentação pra empresa, mostrar o que nós íamos fazer, o cartaz que nós íamos publicar pra receber a assinatura do superintendente pra poder fazer a divulgação do evento. E se ele tivesse de férias, e nós já tínhamos programado, e nós rodávamos, porque ou saía em cima da hora ou não saía. Era só prejuízo. Era auto censura, né. Era no começo, e nós não éramos liberados. Hoje não, hoje nós somos um grupo liberado e nós podemos correr diversos setores da empresa pra mostrar o nosso trabalho, que é meio difícil mas dá pra conciliar.

P - Então o senhor acha que houve um crescimento então nesse sentido?

R - Houve, houve um crescimento, um crescimento vegetativo muito bom, né, e patrimonial também.

P - Agora, a respeito da Eletropaulo, desde quando o senhor está afastado assim das funções mesmo do senhor lá na Eletropaulo, desde quando o senhor está liberado pra ADC?

R - Vão fazer uns dez anos mais ou menos, dez ou doze anos.

P - Então o senhor já está afastado um pouco da rotina?

R - Eu estou mais afastado, mas estou sempre em contato com o pessoal da empresa, ou é via sindicato ou o próprio departamento, porque eu estou sempre lá revendo os amigos. Fui eu que trabalhei na unificação dos clubes, do interior e trabalhava em transmissão, projetos de retransmissão, corria todo o interior. Eu... conheço... hoje são setenta e oito, mas eu conheci setenta e quatro municípios da empresa.

P - E a ADC ela é descentralizada, né?

R - Descentralizada, descentralizada.

P - Mas vocês dão assessoria pras outras subsedes?

R - Damos, damos, cada regional tem sua diretoria, né, diretoria regional do qual a arrecadação, como é feita em folha de pagamento, há uma única associação, que seria a nossa e nós recebemos dos computadores, né, as listagens e de acordo com a listagem do número do associado, nós fazemos uma reversão de 80% da arrecadação.

P - Quer dizer, 20% fica...

R - Fica na parte administrativa.

P - Agora, eu queria que o senhor fizesse uma avaliação a respeito da sua vida mesmo, quer dizer, de toda... todo o processo que.. desde a sua infância até hoje... fazer uma avaliação geral.

R - Bom, eu acredito que dentro da empresa, que foi meu único emprego eu evoluí, eu não parei no tempo, que eu tive tempo de estudar, de formar meus filhos, ter minha casa graças ao INPS, que era uma propriedade da empresa, da Light. A Light vendeu pra aposentadoria, que era a Nossa Caixa, pra que construísse casa pra aquele núcleo de funcionários, éramos 135 funcionários. E foi criado dentro do... do bairro da Moóca duas ruas, uma onde eu moro pra que fosse construído 135 sobrados, com a fiscalização da própria empresa e descontando em folha de pagamento, era um... os milagres da época, hoje num existe mais isso. Então você vê que houve um progresso. Me formei, estudei meus filhos, casei, tenho uma propriedade. Tudo em cima de um salário. A turma lá dizia: uns, o polvo canadense, e outros, eu era um que chamava a minha viúva, minha viúva rica e é o que deu, não só pra mim, pra milhares de funcionários. Era o nosso ganha pão.

P - E dentro da ADC uma avaliação geral de como desses... desde 78 até hoje, como é que é essa...

R - A ADC ela foi muito boa no princípio, no princípio. Hoje está havendo muito cacique. Todo mundo quer ser... o mais eu, esquecendo do passado, e está sendo perigoso pra gente, está sendo muito perigoso. A administração nossa ela está pecando, está falhando, porque hoje não existe uma disciplina administrativa dentro da associação, em todos os setores, todos setores.

P - Agora eu gostaria de que o senhor fizesse uma avaliação, que que o senhor achou desse depoimento, o senhor gostou de ter dado esse depoimento aqui pra nossa memória.

R - É eu... eu, como eu disse pra você, depois de 49 anos de trabalho, reconheceram que eu sou um eletricitário, fui agraciado pelo sindicato. Então foi uma coisa que me comoveu, mexeu muito com meu brio. E outro esse ato de estar com vocês aqui, né, uma coisa... uma equipe muito simpática, me ter acolhido pra poder falar alguma coisa, e lembrar da... alguma coisa da minha vida, tem coisas que... o nome dos meus avós não sei, datas também. Não é amnésia, não é amnésia, eu estou são, né, mas... são coisas que se passa e a gente não, não percebe. É com... colega agora aí, colega vosso, nosso também, são quase 50 anos, 50 anos. É uma vida. Quem vai lembrar o que eu comi ontem, eu nem sei, faça uma idéia há 50 anos atrás. Agora que eu sair daqui, eu acredito que a gente vai começar lembrar alguma coisa que não disse, né. É como diz nos tribunais: "Você teve tempo de falar, não falou porque você não quis."

P - O senhor gostaria de falar mais alguma coisa pra concluir?

R - Não, o que eu gostaria de deixar meus agradecimentos a... equipe vossa aqui, da... história da multimídia, né, Museu... da Pessoa, a todos vocês aqui que me acolheram com muita gentileza, com muito carinho, e meus sinceros agradecimentos, espero um sucesso pra todos nós, e meu muito obrigado.

P - Muito obrigada ao senhor, senhor Vargas.

R - Obrigada.

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